18 de outubro de 2020

Chaves de parafusos magnéticas

Ontem surgiu-me a questão: quem terá inventado as chaves de parafusos de ponta magnética? É uma grande invenção, que nos veio facilitar a vida em inúmeras situações, mas, como sempre nestas coisas, ninguém faz ideia de quem tenha sido o seu inventor. E depois, pensei logo que, neste caso, é extremamente provável que tenha havido muitas pessoas a ter tido a ideia independentemente umas das outras (já aqui escrevi sobre invenções paralelas), até porque a magnetização de uma chave de parafusos, de tão simples que é, deve ter acontecido milhares de vezes por acaso antes de se venderem chaves magnetizadas.
Da mesma forma, também já muita gente já se interrogou sobre a questão da invenção da chave magnetizada, como eu me interroguei ontem, e a pergunta surge em vários fóruns na internet. Li até num deles que a magnetização involuntária de ferramentas podia ser considerada incómoda e que, antes de aparecerem os desenhos de ponta em cruz (Phillips e outros), a magnetização não era útil por aí além, porque uma chave de fenda simples magnetizada não segura bem os parafusos.
Agora, se não há, neste caso, um único inventor, há, pelo menos, quem primeiro tenha registado a patente, para fins comerciais. Uma pesquisa em Google dá-me um registo de patente de William J. Hood e Eugene J. Hood em 1921, que, a julgar pela descrição, bem pode ser a primeira patente de chave de parafusos magnética (traduzo eu).
Fazemos saber que nós, William J. Hood e Eugene. J. Hood, cidadãos dos Estados Unidos e residentes em Toledo, condado de Lucas, Ohio, somos autores de uma invenção que diz respeito a Chaves de Fendas Magnéticas (…) A nossa invenção tem por finalidade fornecer um meio simples para segurar um parafuso na extremidade de uma chave de fendas, imediatamente antes e no decorrer da operação de aparafusar o parafuso num objeto. O propósito da invenção é, especificamente, fornecer um meio para manusear comodamente um parafuso. Através da nossa invenção, fornece-se um meio de manusear os parafusos a aparafusar com a mão que segura a chave de fendas e sem o uso da outra mão de quem com ele trabalha, ficando essa outra mão livre para segurar, se assim se o desejar, qualquer objeto a ser fixado pelo parafuso.
Se não é a patente original das chaves de parafusos magnéticas, é, pelo menos, uma patente original: destina-se a parafusos de fendas simples e propõe uma solução para o problema referido no segundo parágrafo deste texto — com uma cabeça de chave que, além da parte que se insere na fenda, tem uma ponta chata, que assenta na superfície da cabeça do parafuso.


14 de outubro de 2020

Adelheid & Johannes

Quero contar-vos uma história verdadeira e recente, mas, como não tenho autorização dos protagonistas para tornar pública a sua vida, vou omitir todos os pormenores que permitam identificá-los. É uma história de amor. 
Vai agora fazer 31 anos que caiu o muro de Berlim e, com ele, o resto da Cortina de Ferro. Eva, uma amiga minha escandinava, na altura estudante universitária, resolveu nas férias grandes de 1990 dar uma voltinha por alguns países de Leste, para observar de perto como as coisas se estavam a passar.
Na capital de um desses países, conheceu Adelheid, também estudante universitária, de quem se tornou amiga. Voltou a visitá-la no ano seguinte e Adelheid retribuiu-lhe a visita. Eva arranjou-lhe um trabalho sazonal a apanhar fruta na quinta de uns amigos seus, para Adelheid poder pagar a sua viagem. 
Nessa quinta, Adelheid conheceu Johannes, que era amigo de Eva, e apaixonaram-se um pelo outro. Mas foi uma história sem grande continuação. Johannes ainda foi visitar Adelheid à sua terra uma vez, no ano seguinte, mas depois deixaram de se ver e, com o tempo, acabaram também por deixar de se escrever. Cada qual continuou a sua vida no seu país. Casaram-se ambos. Joahnnes teve dois filhos. Adelheid não teve filhos, mas o seu marido tinha dois filhos de um casamento anterior.
Com o tempo, Eva também foi perdendo o contacto com Adelheid. Depois veio o Facebook. Um dia, Eva decidiu procurar Adelheid e encontrou-a. Escreveram umas quantas mensagens entusiasmadas uma à outra, como acontece sempre quando se encontra no Facebook alguém que não se vê há muito tempo, mas depois o contacto foi esmorecendo. No início do presente ano, porém, Eva escreveu a Adelheid dizendo que estava a pensar visitá-la no verão. Claro!, que boa ideia!, tinha uma casa à sua disposição, seria maravilhoso encontrarem-se outra vez — ao fim de quase 30 anos... Mas depois veio a pandemia e Eva cancelou a viagem planeada. 
Quando as fronteiras europeias voltaram a abrir, porém, foi Adelheid que se deslocou à Escandinávia. Uma visita curta, só cinco dias, mas era o que se podia arranjar. Para matar saudades. Adelheid ficou dois dias em casa de Eva. Foram dois dias maravilhosos, em que beberam vinho e recordaram os tempos que tinham passado juntas e contaram uma à outra em pormenor o que tinha acontecido nas suas vidas desde que tinham deixado de se ver. No dia seguinte, Adelheid foi visitar Johannes. Tinha-o contactado e ele tinha-lhe contado que se tinha separado. Também ia gostar muito de o rever! Depois, o plano era que Adelheid voltasse a casa de Eva e aí passasse mais dois dias, antes de voltar a casa. 
Só passou mais um dia. Ao segundo dia de manhã, disse a Eva que Johannes lhe tinha mandado uma mensagem, dizendo que ela se tinha esquecido do passaporte em casa dele. Tinha de o ir buscar. E depois, como a casa de Johannes ainda ficava longe da casa de Eva, já não voltava nessa noite. Ficava lá a dormir e partia no dia seguinte, de volta a casa. Enfim, tinha de ser... Que pena não poderem passar mais um dia juntas. Mas tinha sido tão bom voltarem a encontrar-se!
Passadas duas semanas, Eva recebeu uma mensagem de Adelheid. Pedia muita desculpa de lhe ter mentido: não tinha sido o passaporte que tinha deixado em casa de Johannes, mas sim o coração. Tinha agora voltado à Escandinávia e estava outra vez em casa de Johannes, mas agora não apenas de visita. Tinham decidido viver juntos. Quando se tinham encontrado duas semanas antes, a paixão de juventude tinha renascido com a mesma intensidade e Adelheid não hesitou em pôr fim a 29 anos de casamento e começar uma vida nova noutro país. 
Foi exatamente assim que as coisas se passaram. Para que vejam como é a erupção de um amor latente...
 

Foto: Reencontro de Marina Abramović com Ulay (Frank Uwe Laysiepen), que não se viam há 20 anos. Fotograma deste famoso vídeo, filmado no MoMANa retrospectiva que o MoMA lhe dedicou em 2010, Marina Abramović ficava sentada o dia todo, imóvel e silenciosa, enquanto os visitantes se iam sentando à sua frente. A certa altura, veio Ulay sentar-se em frente a ela e Marina reagiu de forma muito emotiva.  Seis anos depois deste reencontro, Ulay levou-a a tribunal por ela lhe estar a dever royalties das obras criadas em conjunto entre 1976 e 1989. 


12 de outubro de 2020

Henry J. Garret vs Ursula K. Le Guin (VLindegaard mashup)

– Mãe, como é que sabemos quando passamos de um oceano para outro? 
– Não sabemos. As fronteiras são construções sociais e há que ter cuidado com quem as leva muito a sério. 
Como se odeia um país? Ou como se ama um país? … Conheço pessoas, conheço cidades, quintas, outeiros e rios e rochas, sei como o sol se põe ao lado de um certo terreno arado nas colinas; mas que sentido faz pôr a tudo isso um limite, dar-lhe um nome e deixar de amar um lugar onde o nome deixa de se aplicar? 
Henry J. Garrett, Whales without borders, s. d
Ursula K. Le Guinn, A Mão Esquerda da Escuridão (The Left Hand of Darkness), 1969

Rio Acre, que em partes do seu percurso serve de fronteira entre a Bolívia e o Brasil. Foto: Arison Jardim/Secom, Agência de Notícias do Acre (Wikimedia Commons, daqui)

11 de outubro de 2020

Uma stout em Brixton

Foto: Ewan Munro (Wikimedia Commons, daqui, modificada por mim)
No início dos anos 90, já não sei bem em que ano, estou eu sentado ao balcão numa discoteca jamaicana em Brixton, já às tantas da manhã, muito sossegadinho a beber um quartilho de stout, quando chega ao pé de mim um rudeboy que me dá uma palmada nas costas e me diz assim, com um ar que eu não sabia se devia entender como ameaçador ou não: 
 – Eh pá, tu és português, de certeza! 
– Pois sou – respondi eu – como é que sabes? 
– Paga lá uma cerveja, vá! 
Nunca antes, no estrangeiro, me tinham adivinhado a nacionalidade. Muita gente tentou, mas nunca ninguém acertou. «Esta malta da Jamaica tem truques, pá...», pensei eu, e paguei-lhe mesmo a cerveja.
Soube no dia seguinte que era uma zona de emigrantes portugueses. À zona de South Lambeth, no sul de Londres (ou seja, a zona entre Brixton, Vauxhall e Stockwell) costuma até chamar-se Little Portugal. Havia cafés portugueses e restaurantes portugueses e, enfim, era provável que, naquela zona da cidade, um gajo com a minha pinta fosse português. De maneira que isso de bruxedos, enfim…






10 de outubro de 2020

Muleta

Os dicionários a que tenho acesso (que não são muitos, nem os melhores, mas, mesmo assim…) dão muitas definições de muleta, mas esquecem todos eles uma muito importante:
objeto que o carteirista usa para encobrir o exercício das suas habilidades, normalmente um casaco dobrado, mas também um jornal, uma toalha de praia, etc.
Esta aceção de muleta é muito conhecida e aparece em muitos textos, não sei porque não chega aos dicionários…

Curiosamente (ou nem tanto, porque já se sabe que o calão português e o calão espanhol partilham muitas palavras), usa-se a mesma palavra em castelhano, como se pode verificar no relatório donde vem este desenho (autor desconhecido). De notar que, segundo esse relatório, o desenho não ilustra um carteirista típico, mas faz antes de uma síntese de todos os tipos de carteiristas.