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30/07/26

Panca: uma nota etimológica muito rápida


Os dicionários que consultei registam o termo panca, com várias aceções e como derivado de palanca ou talvez derivado de palanca

Uma das aceções que registam é a de «maluqueira, doidice; falta de juízo; mania pouco lógica ou irracional».

Parece-me que esta aceção devia ser registada separadamente, porque é uma forma convergente daquela: tendo assistido à divulgação do termo, tenho a certeza de que é uma abreviatura de pancada, que pode ter exatamente o mesmo significado, coexistindo ambas as formas para esse significado no português europeu atual. 

Pancada é formada de panca na aceção de «pau», e a aceção de «maluqueira, etc.» está, portanto, relacionada com aquela; mas não deriva diretamente de palanca, e sim de pancada.


13/05/26

Notas ilustradas sobre algumas palavras do castelhano da América do Sul

 

Abarrotes

Uma mercearia é, nalgumas zonas da América Latina, uma tienda de abarrotes. Abarrotes são os produtos que a mercearia vende, comestíveis e não só. Se estabelecem intuitivamente uma relação entre abarrotes e o verbo português abarrotar, está a vossa intuição a funcionar bem. Mas a relação não é uma pessoa ficar a abarrotar por comer muitos abarrotes — não é bem essa a história das expressões… 

Joan Coromines   explica : barrote vem de barra; e de barrote vem abarrotar, que significava originalmente fixar a estiva (a primeira carga a entrar no porão) «enchendo os espaços vazios, primeiro com barrotes e depois com qualquer objeto, em especial artigos alimentícios, que ocupavam pouco espaço, donde abarrotes como nome destes fardos e, na América, dos artigos que eles continham, importados de Espanha na época colonial». O verbo abarrotar alarga depois o seu significado de «encher os espaços do porão, fixando a carga» para «encher completamente». 

Em português, é tudo muito semelhante. Alguns dicionários de português dão para abarrotar o significado «colocar barrotes; cobrir ou segurar com barrotes» e o de «encher completamente, atafulhar», que é o mais comum. Outros, porém, referem também o significado mais antigo da linguagem náutica: «atulhar os vãos da estiva com carga miúda», «encher os porões até às escotilhas». 

Ou fomos buscar o termo abarrotar ao castelhano (que é o que me parece mais provável e o que propõe Antenor Nascente no seu dicionário etimológico) ou eles a nós, ou evoluiu da mesma maneira nas duas línguas, que é o mais improvável. O que é certo é que, se de facto importámos abarrotar, não importámos o nome abarrotes — não se encontra em português. 

Empastado e empanadas

Em castelhano, pasta podia designar um tipo de encadernação (ver aqui, aceção nº 7), e empastar significava encadernar desta maneira; mas o significado do verbo alargou-se e acabou por se tornar sinónimo de encadernar em geral. Empastados são, pois, encadernações  — no caso da fotografia à direita de fotocópias de livros de estudo.

Empanada (cartaz do rés-do-chão) significa «empada» e até aí não há nada a dizer. É uma das diferenças gerais entre português e espanhol, a falta de uma sílaba na nossa língua, resultante da queda de uma consoante entre vogais e posterior fusão das duas vogais em hiato, como em, por exemplo, panadaria > paadaria > padaria com o primeiro a aberto. Mas o que se perde, creio eu, com esta evolução portuguesa, é a imediata ligação de empada a pão. Num caso como padaria, isso importa pouco, porque uma padaria é o sítio onde se vende pão, de maneira que a ligação está presente na cabeça dos falantes. Mas, em empada , não se ouve imediatamente que é algo que é metido dentro de pão. É claro, existe panar com uma relação óbvia [?] com pão, mas é uma coisa diferente. Curiosamente, no Brasil, ao que sei, empanar designa o que nós chamamos panar, envolver em pão ralado, e não fazer empanadas … Agora, haveria que perguntar aos falantes do castelhano se «ouvem» em empanada o pão que lá está dentro. «Ouvimos» nós o pão em panar ? Não sei…

Llanta 

A história da palavra llanta é curiosa: a palavra veio do francês jante, tal e qual como a palavra portuguesa jante 😊 E, como vem de jante, podemos ser levados a pensar que deveria ser antes yanta e que llanta seria o resultado de um erro natural e muito comum, a confusão das grafias de y e ll — já que, na grande maioria das variantes do coastelhano, se pronunciam da mesma maneira. Mas não. A ter sido erro, foi há tanto tempo que já ninguém se lembra dele e llanta é mesmo a forma considerada correta. Agora, houve sítios em que llanta, de designar a jante, passou a designar o que lhe está por fora, o pneu [!] — como talvez já tivessem percebido pela fotografia, porque furar jantes seria uma ameaça muito estranha… 

Já agora, jante, em francês, vem do latim tardio *gambita. Poder-se-ia supor que fosse alguma forma diminutiva de gamba, «jarrete do cavalo», que foi a palavra que deu  jambe, «perna» (e gâmbia, em português...) e que se tivesse feito alguma analogia entre as rodas dos carros e as pernas dos animais. É com estas suposições que nascem muitas falsas etimologias e, por isso, é sempre necessário ir ver o que escreveu quem estudou mesmo o assunto. De facto, a palavra gambita parece vir antes do gaulês cambita, que significava, precisamente… «círculo de madeira formando a periferia da roda»! 

Mistela

Mistela é uma daquelas palavras que, com variações mínimas, se encontra em todas as línguas mais próximas da nossa, incluindo o inglês, mas com um significado que não parece ter em português: o de «mosto de uva a que se adiciona aguardente». Aparentemente, a diferença entre uma mistelle como o Pineau francês e vinhos fortificados como o Porto, o Xerês, o Marsala ou o Madeira, entre outros, é que, na mistela, o sumo de uva não chega a começar a fermentar. Em francês, mistelle parece ser sinónimo da designação mais oficial vin de liqueur. Parece que a origem do termo é o italiano mistella, de origem óbvia (de misto) e que é através do castelhano que se espalha para as outras línguas. (É estranho: o CNRTL diz que a primeira atestação em castelhano é de 1914 , mas Coromines diz que é de 1822 ...)

Além deste primeiro significado, os derivados de mistella parecem ter, em castelhano, catalão e português, pelo menos, o significado de «bebida resultante da mistura de água, açúcar e temperos a uma base de vinho ou aguardente».

Não é difícil entender como, dos significados anteriores, deriva o significado mais comum em português atual, de «bebida de mau sabor e/ou de má qualidade, zurrapa» e desse o significado mais geral de «mistura desagradável, mixórdia». Muitos portugueses (como eu até muito pouco tempo) só conhecem estas duas últimas aceções do termo, pelo que não deixariam provavelmente de sorrir, se vissem uma mistela comercializada com esse nome.



23/04/26

De bainhas e vagens


Gosto às vezes de fazer textos assim: pegar numa palavra ou num molho delas e, já que as palavras são como as cerejas, ir dizendo o que me venha agarrado a essa ou essas palavras. Desta vez, o molho de palavras é o das derivadas do latim vagina, porque acho curiosa uma derivação tão produtiva, com tantos descendentes tão diferentes (?) uns dos outros.

***

A palavra latina vagina significava originalmente «bainha, estojo de faca ou espada», significado que se alargou para «estojo, capa, proteção» de qualquer coisa (casca de grão, vagem, vagina, etc.). A palavra tem muitos descendentes, sobretudo nas línguas românicas, mas também em línguas célticas. Em português deu bainha, vagem e a forma não standard vage/bage, e a forma culta vagina

E também deu baunilha, que não deriva diretamente do latim, mas sim do castelhano vainilla, diminutivo de vaina, «vagem», palavra essa que deriva, essa sim, diretamente de vagina. Será que se pode considerar «uma vagem de baunilha» um pleonasmo? 😊

Os axónios dos neurónios são revestidos por uma  bainha de mielina,
que os protege e acelera a propagação dos impulsos nervosos. 
Imagem: Creative Commons, daqui

Bainhas

Não deixa de ser curioso assinalar, que, nas línguas latinas mais próximas, há vários cognatos de bainha com o significado original de «estojo de arma branca [1] », mas o significado de «dobra cosida para rematar uma peça de vestuário» só se desenvolveu em português [2]

Note-se, já agora, que não são só as armas brancas que têm bainhas: as unhas retráteis dos felinos também. 

Além dos usos mais comuns, bainha tem ainda usos técnicos e científicos muito específicos que não vou listar aqui, mas que têm sempre a ideia de capa, invólucro, proteção.


Vagens

A evolução de vagem é curiosa: paralelamente a vainha/bainha, vagina evoluiu também, no romance do noroeste ibérico, para vaginha/baginha, que foi depois interpretado como diminutivo de vage/bage, tendo-se então «reconstruído» uma forma que nunca existira[3]. Quando digo «interpretado» não falo de uma interpretação consciente, mas de uma interpretação inconsciente pelo programa mental, digamos assim, dos falantes da língua. Isto acontece muitas vezes e é o que se chama reanálise.

Além do seu significado geral mais comum de «fruto em forma de cápsula, com muitas sementes lá dentro», a palavra vagem designa também, nalgumas regiões de Portugal, uma vagem específica, a do feijão, quando se come inteira antes de os feijões se desenvolverem — o que, nas outras regiões se chama feijão verde[4]

Agora, não é só a vagem do feijão que se pode comer inteira: as vagens de ervilhas e favas também são comestíveis. Ver, por exemplo, aqui, aqui, aqui e aqui.


Vagens de baunilha, ilha da Reunião
A baunilha é a mais cara de todas as vagens. O preço varia muito conforme a sua qualidade, mas vi agora online que as vagens de baunilha de qualidade superior podem custar algo como 2€/grama, para quantidades pequenas. A baunilha é uma orquídea domesticada na zona que é hoje o México e o seu cultivo é bastante trabalhoso, implicando nomeadamente polinização feita à mão, com uma técnica descoberta por Edmond Albius, um rapaz escravizado da ilha da Reunião. Edmond Albius tinha só 12 anos quando descobriu o método que veio revolucionar a produção de baunilha.


Uma vagem muito saborosa (ou melhor, a polpa branca que a reveste interiormente) é o pacai (Inga feuilleei). Em inglês, o pacai chama-se ice cream bean, o que dá uma ideia da textura e sabor da polpa. 

________________

[1] Entre outros, vaina em castelhano, gaine em francês, guaina em italiano, beina em catalão e vaíña em galego.

[2] Por exemplo, ourlet em francês e orlo em italiano, cognatos do português orla; dobladillo em castelhano e doblec em catalão, ambos de origem óbvia; e basta em galego (que também existe em castelhano com o significado de «alinhavo», que confusão!), de origem germânica. 

[3] A nasalização no fim da palavra surge depois por analogia com palavras que a tinham naturalmente por derivarem de termos latinos terminados em -ine, como margem ou origem .

[4] Em vários falares hispano-americanos, usa-se também vaina, «vagem», para designar o feijão verde.  



22/04/26

Três breves notas sobre etimologias não muito claras

Caiar

[* significa forma hipotética, não atestada]

O Dicionário Etimológico de José Pedro Machado, diz que caiar vem do latim canāre , «tornar branco», passando pelas formas * cãar e * cãiar [1] . A etimologia proposta por José Pedro Machado parece-me estranha, porque não faz derivar de cal o verbo caiar — e caiar é cobrir de cal , pelo que seria muita coincidência vir de uma palavra não relacionada com cal com os mesmos sons iniciais. Além disso, não encontro outras palavras com uma evolução semelhante à que José Pedro Machado propõe...

O Aulete faz a mesma proposta, mas com menos convicção: propõe que talvez venha de canāre . O Priberam prefere considerar que o termo é de «etimologia duvidosa». O Porto Editora propõe em alternativa canāre ou caleāre , «estar quente», mas com interrogação. O Dicionário da Academia das Ciência de Lisboa propõe apenas o latim * caleāre , por calēre , «estar quente». Antenor Nascentes no seu Dicionário Etimológico Resumido concorda que «a base deve ser cal», mas acha que «a parte fonética está difícil de estabelecer», porque «* caleare daria * calhar e não caiar » [2] . O Aurélio também propõe em alternativa duas hipóteses, canāre ou a forma portuguesa [e galega, acrescento eu] calear , que vem obviamente de cal . Esta última hipótese de vir de outro verbo, deverbal de cal , parece-me bem mais convincente do que a de vir do clássico caleāre , «estar quente». 

Agora, não sei se a evolução de calear (e) levaria forçosamente a * calhar e não a caiar . Vejamos o que aconteceu com bailar . É normalmente aceite que bailar vem do latim tardio ballare , nalgumas propostas através do provençal balar , mas Antenor Nascente diz que «o i é inexplicado». Nunca vi nenhuma explicação sobre o i no bailar português, mas há uma boa hipótese sobre a evolução em espanhol que explica esse mesmo i : ocorre primeiro uma passagem do ll latino a li e depois uma metátese de * baliar a bailar . Em português, está atestada a forma balhar , que parece confirmar uma forma * baliar anterior, e bailar bem pode provir também da metátese de * baliar a bailar postulada para o castelhano. A ser isso certo, balhar foi uma das evoluções de * baliar , a outra foi bailar . Podemos ainda ir mais longe e constatar que, pelo menos no Brasil, se regista a forma baiar , que não sei onde nem quando se formou. 

Por fim, das palavras diretamente relacionadas com cal , não é só na palavra caiar que surge o i  . Há também caieira , que coexiste com caleira para significar «forno de cal»; e caieiro que, como caleiro , refere o homem que fabrica e/ou vende cal [3] . Estas formas são fáceis de explicar (cal+eiro=caleiro>caeiro>caieiro) e devem ser considerada na discussão de caiar . O que eu não sei é se tiveram uma difusão tal que se possa considerar que caiar se possa ter formado por influência delas...

Serralheiro e cerrajero  

Serralheiro, séc. XV (Wikimedia Commons, 
ver mais informação aqui .)
Pode surpreender que a palavra espanhola para serralheiro seja cerrajero , porque é fácil associar serralheiro a serra e cerrajero a cerrar , «fechar». Mas como é que duas palavras tão semelhantes não são cognatas? 

Quando se pesquisa, porém, chega-se à conclusão que as duas palavras são de facto cognatas, porque vêm ambas, em última instância, do verbo latino serāre , «fechare». O Dicionário da Real Academia Espanhola dá como étimo imediato de cerrajero o termo cerraja , «fechadura», derivado de seracŭlum , do latim tardio serāre , «fechar» [de sĕra , «tranca de porta»]. Os dicionários portugueses dão antes como étimo o latim serracŭlum , «leme». Já agora — e isto é também interessante — todos os dicionários que vi concordam que é o latim tardio serāre que está na origem de cerrar e encerrar.

Há aqui vários mistérios: 

Na proposta espanhola dos étimos seracŭlum para cerraja e na proposta de todos os dicionários de serāre para cerrar , como é que o r intervocálico latino se transforma em rr ? De facto, a oposição entre r e rr entre vogais é clara em todos os falares ibéricos e parece manter-se inalterada desde o latim aos falares modernos. 

Quanto à distinção entre c e s , se é verdade que ela hoje está anulada em muitos falares ibéricos, ela manteve-se até hoje na maior parte do castelhano de Espanha, uma parte do galego, e persiste ainda, embora moribunda, em falares do norte de Portugal. É certo que se anulou na maioria das zonas de falas ibéricas (castelhano andaluz, canário e americano, português moderno excetuando os dialetos já referidos), mas foi clara até relativamente tarde. Será que cerrar já foi serrar ? É claro, na proposta dos dicionários portugueses de serracŭlum para base de serralheiro , a questão do rr não se põe, mas... como se chega de leme a serralharia?

Há algo nestas questões que merece maior esclarecimento…

Sobre a questão do rr , diz Antenor Nascentes que cerrar vem do latim serare , «fechar com fechadura», «influenciado por serra , serrare , como atestam muitas glosas». O latim serrāre tinha já o mesmo significado que serrar , «cortar com serra».

Antenor Nascentes assinala, para a etimologia de serralharia e serralheiro , que vêm de «um primitivo perdido, derivado do lat. vulg. serraculu , «fechadura», tirado de serrare (pelo clássico serare , e conservado em espanhol, italiano, provençal e francês)»

Se a proposta de interferência de serrar na história de cerrar me parece perfeitamente plausível, é ainda mais plausível, pela proximidade semântica, uma influência de serrar na história de serralheiro . E é certo que esta interferência pode, nos dois casos, ter levado à adoção de um rr onde a etimologia não o justifica. Assim, o mais lógico é que o étimo seja  seracŭlum , «fechadura», como propõe a Real Academia Espanhola, mais tarde transformado pela influência de serra , e não o leme serracŭlum . E o lógico é que o primitivo perdido, que se encontra noutras línguas, seja, em português, * serralho ou * serralha , com o sentido de «fechadura».

Vaipe

Descobri agora que alguns dicionários já registam a palavra vaipe (Porto Editora: «mudança súbita de comportamento; reação inesperada; impulso»), mas não propõem nenhuma etimologia. A mim, a origem sempre me pareceu óbvia, mas uma pessoa nunca se deve fiar muito nas suas intuições, de maneira que despromovo a minha certeza a tímida proposta: creio que vaipe é uma deturpação, feita na gíria jovem angolana dos anos 60/70, do inglês vibe , abreviatura, na gíria juvenil da década de sessenta, de vibration . A confusão entre [b] e [p] não surpreende, pelo que a única coisa que falta explicar é o género masculino, já que, sendo vibration um cognato facilmente identificável de vibração , a sua abreviação seria naturalmente feminina em português. A atribuição do género feminino acontece de facto, quando se usa o empréstimo vibe(s) no discurso em português, que eu creio que é algo posterior e que mantém o significado da expressão inglesa. Se pensarmos, porém, que a importação anterior, que deu vaipe , foi feita por pessoas com poucos conhecimentos de inglês, é provável que não houvesse consciência da relação entre vibe e vibration . Essa falta de domínio da língua de origem da palavra pode também explicar o desvio semântico: em vez de descrever « o ambiente de um lugar, de uma situação ou estado de espírito, disposição de uma pessoa, etc., e a maneira como nos fazem sentir », vaipe passa a descrever o surgimento de uma disposição ou estado de espírito.



_______________

[1] A edição a que tenho acesso diz que  canāre  passou a «* cãar que se tornou * caiar e, depois, caiar ». Presumo que a repetição da forma seja gralha e que a segunda forma intermédia seja antes * cãiar .   

[2] Dependendo do período em que se proponha a evolução de caiar a partir de calear , pode dizer-se o mesmo desta proposta que da proposta de um caleare latino: também devia dar * calhar

[3] A. M. Galopim Carvalho inclui na lista de derivados de cal os caios , «ilhas rasas, feitas de areia calcária, dos mares recifais das Caraíbas», mas é palavra que não encontro em dicionários.

31/05/25

Uma ave de truz

Começo como começava (como começavam...) as redações das escolas primárias de há muito tempo: a avestruz é um animal útil, porque nos dá as penas, a carne, os ovos e uma história que é mentira.

A gema de um ovo de avestruz é a maior célula animal que existe, porque as gemas dos ovos são as maiores células animais e os ovos de avestruz são os maiores de todos: li algures que, em média, equivalem a duas dúzias de ovos de galinha. Nunca comi ovo de avestruz (acho que, neste caso, ovo deve vir no singular e entender-se como partitivo: «nunca comi um bocado de ovo de  avestruz»...)

Os espanadores de plumas de avestruz são o melhores espanadores que há. Sem comparação. Agora, há de haver muito quem ache que não se deve andar a arrancar plumas às avestruzes e eu concordo. Mas também se pode argumentar que é melhor aproveitar as penas das avestruzes que são mortas para comer que mandá-las fora e é certo. E também se pode contra-argumentar que, comprando penas de avestruz, se está contribuir para um mercado que, se for suficientemente grande, pode levar a que se produzam avestruzes especificamente para lhes tirar as plumas, passando o resto a subproduto... Nunca comi carne de avestruz. 

A história que é mentira é que a avestruz mete a cabeça na areia quando se sente ameaçada, que deu origem à expressão enterrar a cabeça na areia como a avestruz e outras parecidas, para dizer «ignorar os seus problemas/a realidade». É estranho que se tenha acreditado numa história tão esquisita. Enterrar a cabeça na areia seria uma estratégia com grandes desvantagens adaptativas, não vos parece?

Chamam-se avestruz duas espécies do género StruthioStruthio camelus (a avestruz comum) e Struthio molybdophanes (a avestruz somali). E é precisamente da palavra que define o género, struthio-, que vem o nome de avestruz. Parece que a história do nome é a seguinte: em português arcaico existia o nome estruz, que vinha do latim strūthion, provavelmente através do provençal estrutz. O nome latino vinha do grego strouthíōn, um forma  abreviada de strouthokámēlos, um composto de strouthós, «pardal»,  e kámēlos, «camelo» que era – e ainda é – o nome da avestruz e que deu origem ao seu nome científico atual. O que é curioso, não só em português, como também noutras línguas, é que se tenha anteposto ave a estruz e que a palavra ave se tenha fundido com o nome do animal. É como se se chamasse reptilagarto a um lagarto, por exemplo... 

Os dicionários dizem que avestruz pode ter os dois géneros, mas creio que a diferença é dialetal: diz-se um avestruz no português do Brasil e uma avestruz no português de Portugal (e, creio, no português dos outros países de língua portuguesa, mas não tenho a certeza absoluta). Ave é uma palavra feminina, e já avis o era em latim, pelo que o uso do masculino significa que já ninguém associa a ave a primeira parte da palavra. Mas isso é verdade também quando se diz avestruz no feminino, não é? 

Já nem me lembro do que me levou a escrever este texto sobre a avestruz... Mas enfim, já que o escrevi, publico-o. 

15/11/24

A sedução da etimologia e alguns exageros etimológicos

 

A ideia de que o «verdadeiro» significado de uma palavra está diretamente relacionado com o seu significado «primeiro» e, por isso mesmo, «primordial» — ou, dito de outra maneira, que se pode usar o significado «etimológico» de uma palavra para escrutinar melhor a noção que ela exprime — é uma ideia com bastante fortuna, mas é uma ideia muito duvidosa... Dos vários significados por que passa a história de uma forma linguística, não há nenhum que seja mais essencial que outro. E depois, com rigor, o significado «etimológico» de uma palavra de uma língua atual não existe, só existe o significado que teve — noutra língua! — outra palavra que está na origem da palavra atual. Mas a conversa é capaz de estar vaga demais. Vejamos casos concretos.

Uma amiga insistia, há uns meses, na necessidade de referir a noção de ideologia ao significado etimológico de ideia, que ela ligava a Platão. Ora a palavra ideologia é uma palavra relativamente recente, que não foi formada a partir da ἰδέα (idea) grega, mas do significado que a descendente francesa dessa palavra, o termo idée, tinha no séc. XVIII, que era já muito semelhante, se não igual, o que tem hoje. Muito diferente desse significado atual de idée (ou de ideia, em português, que lhe corresponde diretamente) é, porém, o significado das formas anteriores da palavra em grego, em latim e em francês antigo (até ao séc. XVI): a ideia platónica de «arquétipo» decorre naturalmente do significado de «forma, padrão, aspeto exterior», que essas formas tinham — o que aliás não surpreende, se pensarmos que a palavra deriva de εἴδω (eídō, “vejo”), que, por sua vez, deriva do protoindo-europeu *weyd-, «ver ou saber» (pelo vistos a relação entre cognição e visão é antiga, estão a ver?). De facto, a palavra ideia está etimologicamente relacionada com o nosso verbo ver, com ídolo e com o raro termo viso, que mantém o significado do seu étimo latino visum: «o ato de olhar; visão; aparição; aspeto; prenúncio». Visum está também na origem do italiano viso e do francês visage, que significam «rosto» e do inglês wise, «sábio» e formas semelhantes em várias outras línguas germânicas, e também do inglês wizard «feiticeiro». Em querendo, há muita coisa que se pode relacionar etimologicamente, não é verdade? Agora, se o significado de idée no francês do séc. XVIII não era diferente do que tem em francês atual, já o mesmo não se pode dizer de idéologie, que foi uma palavra cunhada em 1796 por Destutt de Tracy para designar uma ciência que teria por objeto o estudo das ideias, «a análise do pensamento, simplesmente», e que ele propõe que venha substituir a metafísica. Não só a idea grega original não é tido em conta na cunhagem do termo idéologie, como este termo não tem, na origem, relação direta com o seu significado atual. A noção moderna de ideologia (ou as noções modernas de ideologia, porque há algumas nuances no uso do termo em diferentes contextos*) só aparece no século XIX e é só no séc. XX que ganha ampla difusão.

Dou-vos só mais uns exemplos, que encontrei por acaso nos últimos tempos, do que muitas vezes se faz. Neste vídeo, por exemplo, põe-se a etimologia a corroborar uma certa perspetiva da didática: Afirma-se que «a etimologia[…] sempre nos ajuda a descobrir nas palavras sentidos mais ou menos ocultos que nos possibilitam entender melhor a própria realidade», mas há algum viés na descrição etimológica. Dos cinco termos referidos no vídeo, comento três, para não tornar o texto demasiado longo.

Dizer que laboratório vem de labor, «que é trabalho, tarefa» e «mais especificamente um trabalho ligado à tarefas agrícolas» e que «o laboratório tem muito a ver (…) com o esforço dos alunos em fazerem descobertas como se estivessem cultivando a terra do conhecimento» é uma forma mais poética que rigorosa de dizer as coisas. É certo que a palavra laboratório está relacionada com labor, já que foi criada a partir de uma forma do verbo laborare. Mas laborare é bem mais em latim, que trabalhar a terra: é trabalhar, esforçar-se, labutar; sofrer, ser oprimido, ser afligido por, estar perturbado com; elaborar, desenvolver, formar, fazer, preparar. A palavra francesa laboratoire, porém, de que deriva a nossa, surge no séc. XVII e alguns dos seus significados registados nesse século e no século seguinte são o de «parte da farmácia onde se preparam os remédios», «oficina de trabalhos manuais (de um pintor de esmalte)», « parte de um forno de revérbero onde se põe a matéria sobre a qual age o combustível» e «gabinete de um homem de letras».

Dizer que estagiário vem de stagium, que «significa o lugar onde a pessoa está, mas é um lugar de passagem» e que, portanto, «o estagiário (…) está num lugar que é apenas (…) provisório para algo», que ele «está ali aprendendo, vendo, observando, mas em vista de um progresso», além de não acrescentar muito à ideia que todos têm do termo estágio, também foge um pouco ao rigor etimológico. De facto, a palavra latina stagium, que significava «moradia» (normalmente, uma moradia associada a uma função laboral/social) vem do francês, ao contrário do que costume: é uma latinização medieval (!) do francês antigo estage (deverbal do francês antigo ester, «estar de pé, encontrar-se», que mais tarde também veio a significar «estado, posição, situação» e deu o atual étage). Os primeiros significados de stage em francês são já muito próximos do seu significado atual em português.

E dizer que «a palavra professor, professora vem de profiter, que tem a ver com a apresentação de uma pessoa estar diante de alguém», já que «pro- é estar à frente de alguém» e que, -fiter, por seu turno «vem de fateri, um outro verbo latino que significa "apresentar, falar, expor"», pelo que «o professor então é aquele que se expõe diante dos alunos», é também torcer a etimologia para a obrigar a dizer algo. Na realidade, professor/a vem do latim professōr, que é «aquele/a que se declara perito numa arte ou ciência». O nome deriva do verbo profiteri, que significa «defender, declarar publicamente, reconhcer(-se); professar; declarar-se, confessar». É certo que a origem última é per- «para a frente», e fateri, «reconhecer, confessar» (da família de fari, «falar», da raiz preindo-europeia*bha- «falar, dizer»); mas isto mostra que, conforme dá jeito a quem usa desta forma a etimologia, se pode ir mais ou menos longe na história das formas — com diferenças de muitos milhares de anos — para as pôr a dizer o que se quer. De facto, quando se dá uma palavra grega ou latina como étimo da palavra atual, há também que pensar que estas palavras também tinham étimos em línguas anteriores e que, se «primeiro é mais verdadeiro», porque não se vai antes ao protoindo-europeu? 

Adam
Adão cavando a terra, vitral da Catedral de Cantuária.
(Da página oficial da Catedral no Facebook)
Também há casos em que a referência etimológica é quase correta e poderia de facto servir o propósito que com ela se visa, não fora faltar o tal quase. A questão da diferença entre faute («culpa; erro») e erreur («erro») em francês é tratada em dezenas de vídeos na Internet e a proposta de distinção varia, como se pode esperar, consoante se esteja a falar de, por exemplo, didática das línguas ou gestão de empresas, ou simplesmente a dar conselhos sobre como gerir melhor a sua vida. Normalmente, a etimologia dos termos é deixada de lado, mas surgiu-me noutro dia um vídeo em que se afirma que a distinção proposta entre faute como intencional e erreur como não intencional se pode ver na etimologia, já que faute vem, em última análise de fallere, que é «enganar [trapacear, ludibriar; esconder, sonegar; aligeirar, aliviar]» ao passo que erreur vem de errare, que tem inicialmente o sentido de «deambular» e que ganha depois, ainda em latim, o comum significado de «afastar-se do caminho certo, perder-se», donde o sentido de errare como fazer algo mal feito, que se conhece ainda em latim clássico: cuiusvis hominis est errare, nullius nisi insipientis in errore perseverare («Errar é próprio do homem, mas só os tolos persistem no erro», diz Cicero, na 12ª Filípica). Agora, a história de fallita e faute é mais complicada que uma evolução direta e o uso consagra atualmente expressões como faute d’ortographe que os dicionários acolhem e que designam ações involuntárias; e fallere não tem sempre um uso transitivo e agentivo em latim: também significa «decepcionar; frustar» e «não ser visto, estar por descobrir, ser ainda ignorado». Mais uma vez, escolhe-se o significado etimológico que serve o que se quer defender. 

É certo que às vezes o desenrolar das relações etimológicas resulta num discurso engraçado e sedutor, como neste caso, em que se relaciona corretamente humano, humanidade e homem — e Adão — com húmus, humildade e humilhar — mas as conclusões morais retiradas dessas relações (que a etimologia convida o humano à humildade, a encontrar o seu lugar na terra sem a humilhar, com respeito e humildade) não derivam, obviamente, da etimologia em sentido estrito. 

A conclusão de tudo isto são que, quando se insiste na maior pureza de um determinado significado etimológico de uma palavra ou na descoberta de sentidos escondidos na etimologia que definem melhor o que uma palavra quer dizer, o que se faz de facto é puxar a brasa à sua sardinha, quer dizer, pôr a etimologia a corroborar uma aceção de uma palavra para dar força a um argumento  — para se chegar, enfim, onde se quer chegar. É possível, sem grande esforço, aliás, estabelecer relações entre palavras que, atualmente, não têm relação semântica entre si a partir uma manipuladora referência à sua etimologia. Para voltar a um exemplo dado atrás, se alguém quiser que há atualmente uma idolatria do vídeo, acho que deve apresente argumentos mais sólidos do que referir a sua relação etimológica… Aqui estou a brincar, é óbvio, mas há quem se entretenha a fazer relações deste tipo...

Quando se quer discutir um conceito, é melhor ver o que significa de facto a palavra que o exprime na língua atual — isto é, na cabeça de quem fala essa língua — do que remeter para o que significava um antepassado dessa palavra. E o significado real de uma palavra é o significado dessa palavra em todas as situações em que ele é de facto usada pelos falantes da língua. 

 _______________________________________________ 

* Ver esta página do dicionário do CNRTL para uma descrição abrangente do termo idéologie, com exemplos, e esta página para a história da palavra. O dicionário do CNRTL é uma excelente ferramenta gratuita online para a língua francesa — e não só, se se souber utilizar. Infelizmente, tem estado inacessível muitas vezes. Está, aliás, inacessível na altura em que estou a postar este texto. Talvez para trabalho de manutenção ou atualização, não sei. Para um artigo mais detalhado sobre a cunhagem do termo, incluindo passagens da obra de Destutt de Tracy, e a sua evolução, ver "Le non-dit de l'idéologie : l'invention de la chose et du mot", por Jacques Guilhaumou em Actuel Marx, nº 1/2008.

03/09/24

De frutos e parasitas

 

Dizia aqui no outro dia que «muitos conceitos abstratos são referidos com metáforas de coisas materiais». De facto, quando uma palavra é usada em várias aceções, umas mais abstratas que outras, a aceção mais concreta costuma ser a primeira: estrela usava-se para referir um corpo celeste antes de se usar para referir uma celebridade e a palavra foco usava-se para designar um ponto de luz (é uma forma divergente de fogo) antes de referir, entre outras coisas, «questão, assunto ou ponto para onde converge a atenção de alguém». 

Parece fazer todo o sentido, não é verdade?, esta deslocação metafórica das coisas mais concretas para as menos concretas e é de facto assim que o significado evolui muitas vezes. Mas nem sempre. O contrário pode também acontecer e às vezes surpreende-nos. 

Por exemplo, quando se diz «o fruto do meu trabalho», podemos pensar que é mais um caso do tipo de evolução semântica do concreto para o abstrato. Na realidade, porém, não se trata de uma metáfora do fruto da planta, mas antes ao contrário: o sentido mais antigo de fructus em latim é o de «utilização, disfrute» — «fruição», enfim, ou «usufruto»! A palavra é de facto um particípio do verbo que deu o nosso fruir e que tinha o mesmo significado. E é deste sentido mais abstrato de «fruição» que deriva a aceção mais concreta de «produto» (não forçosamente agrícola, mas também agrícola, e não limitado a fruta) ou de «rendimento proveniente do que se produz» e, enfim, o da componente ou órgão de uma planta. 

Parasita é outra palavra em que a evolução do significado se faz ao contrário do que muitos esperariam: poderia pensar-se que o significado primeiro é o de «animal ou planta que se alimenta de um hóspede», mas este significado surgiu há pouco tempo e deriva diretamente do significado original: a palavra grega parasitos significava «alguém que come em casa de outrem», sobretudo «quem frequenta as casas dos ricos e obtém as suas graças através de bajulação». 

Já agora, uma curiosidade que não tem nada a ver com o tema aqui tratado: o latim fructus teve uma fortuna tal que se usam os seus descendentes em praticamente todas as línguas europeias, sejam elas românicas, germânicas, célticas ou eslavas (podem ver aqui exemplos em mais de 50 línguas.] 

Outra curiosidade é a distinção que se faz em português e noutras línguas ibéricas entre o masculino fruto e o feminino fruta. Fruta é um nome não contável*, ao contrário de fruto, e, embora os dicionários de português e castelhano digam que designa «os frutos comestíveis», a verdade é designa apenas frutos comestíveis sem casca rija e de sabor tendencialmente doce — nunca se chama fruta a nozes e avelãs, nem a tomates, pepinos, pimentos, azeitonas e muitos outros frutos não doces. 

* Ao que vi, fructa, plural neutro de fructus, já existia em latim com esta aceção dita «coletiva».


22/02/24

Mangas e tangas: mais uma conversa sobre a origem de termos de calão

 

Mangas…

No português que eu falo (no meu dialeto e no meu socioleto, se assim o preferirem), mangas, nome masculino de dois números, significa «malandro», «atrevido», «pinta(s)», «moinante». É natural que, a partir deste significado inicial, tenha evoluído para significar apenas «indivíduo, fulano, sujeito», sem mais, como o propõe o dicionário Porto Editora em linha. É pena que falte à entrada o outro significado que eu referi; e surpreende-me que se considere a palavra de dois géneros, a não ser que seja coisa recente: nunca na minha vida ouvi nada como «A Fernanda é uma ganda mangas!» ou «A Paula? Ui, essa mangas…». Mas é louvável que a entrada mangas exista, já que os outros dicionários a que tenho acesso simplesmente não registam o termo. 

O Porto Editora propõe como etimologia a palavra portuguesa manga, simplesmente, acrescentada de um S. Não é que seja etimologia mal pensada, já que o aparente plural de nomes é construção prolífica, no registo a que mangas pertence, para designar pessoas específicas ou tipos de pessoas. E as partes do vestuário ou do corpo são, precisamente. material comum para essas construções. Além do sinistro ditador que todos conhecem como «o Botas», muitos de vocês deverão ter topado, ao longo da vida, com alcunhas como «o Pantufas» ou «o Calcinhas», ou «o Vidrinhos», (para alguém que usasse óculos), «o Mãozinhas», «o Pezinhos», «o Orelhas» ou «o Monas» (se se achasse que sobressaíam na pessoa algumas partes do corpo) ou «o Barbas», «o Bigodes» ou «o Patilhas» (para referir quem não rapasse o pelo em toda a face ou parte dela). Quanto a nomes genéricos, diz-se, por exemplo, «um conas» ou «um coninhas» de alguém com pouco expediente — atado, como também se diz —, que facilmente se deixe embaraçar, enganar ou amedrontar, ou «um tretas» de alguém que cultive a mentira ou o exagero. Talvez uma alcunha «o Mangas», devida a qualquer particularidade do vestuário de um determinado moinante, tenha tido tanta fortuna que, de designar um indivíduo, tenha passado a designar o seu tipo. 

Mas há outra hipótese etimológica que me parece possível, e talvez até mais lógica, embora não me atreva a dá-la como quase certa — que é o mais que se pode fazer quando se fala destas coisas —, por falta de informação sobre as datas de primeiras atestações de mangas com este significado em português e por desconhecer por que vias possa ter chegado a Portugal o termo que proponho: o grego μάγκας, pronunciado [máŋgas].

A definição de um dicionário grego coincide em grande parte com a definição que eu gostaria de ver nos dicionário portugueses. (Notem que a palavra mangas, na definição que se segue, é a palavra mangas em grego, não em português. A tradução é do senhor Google, eu apenas a tentei tornar mais elegante.) 

Mangas: pessoa do povo caracterizada por excesso de autoconfiança ou arrogância, e com uma aparência ou um comportamento (vestuário, movimentos, vocabulário, tom de voz, etc.) diferente do habitual: Stavrakas, o tipo que representa o malandro nas histórias de Karagiozis [teatro de sombras], é um mangas e um vadio. || (por extensão) tipo de homem comum que se porta como um rapazola e se arma em forte: Aqueles estão armados em mangas e viajam sem cinto de segurança.[1] 

Mas o mais interessante é que, na origem, mangas é um tipo histórico específico, o tal que Stavrakas representa no teatro de sombras. E é essa designação dos membros de um grupo social de finais do séc. XIX e inícios do séc. XX que está na origem das aceções posteriores; e é essa aceção primeira que eu penso que pode ter chegado a Portugal no princípio do século XX, como chegou a outros países. Os mangas estão intimamente ligados à cultura do rebético, a canção urbana grega surgida na segunda metade do século XIX e eram facilmente reconhecíveis pela sua indumentária: chapéu de feltro, casaco vestido só numa manga, longa faixa à cintura, calça riscada e sapato de bico[2]. Se aceitarmos que o rebético está para Atenas ou Salónica como o fado para Lisboa, o tango para Buenos Aires, ou a valse musette para Paris, então o mangas é o faia, o tanguero e o marlou.

No fundo, o que eu proponho é que se tenha passado com o grego mangas o mesmo que, por exemplo, se passou na mesma altura com o francês apache, que, começando por designar um grupo social específico da ralé parisiense, ganhou depois um sentido genérico e extravasou do francês para outras línguas, entre as quais o português (conheci o termo pela minha avó, nascida em 1919, e há até uma valsa portuguesa de 1915 com esse nome [3]). Como já disse, não sei como é que a designação pode ter chegado a Portugal (através de marinheiros?), mas parece-me certo que a fama dos mangas não se ficou pela Grécia.

Deixo-vos, para terminar as páginas sobre mangas na Wikipédia em inglês e em espanhol e um bonito rebético sobre os mangas de Votanikós, um bairro de Atenas.

Ζαχαριασ Κασιματησ: Ο Μαγκασ του Βοτανικου, 1934, (Zaharias Kasimatis, “Mangas de Votanikós”)


… e tangas

O dicionário Porto Editora em linha regista a expressão «coloquial» dar tanga a (alguém) com o significado de «divertir-se à custa de (alguém)» e o verbo «popular» tanguear com o significado de «troçar de (alguém) com aparente seriedade; dar tanga a». É uma definição que não me satisfaz, porque a tanga (de conversa) não existe só na expressão dar tanga, mas é antes um nome relativamente livre que se pode usar em frases como «Ele está na tanga, não vás nisso.», «Ena, aquele gajo é só tangas», «Grande tanga que ela te pregou!», etc. E, em vez de «troça», significa também (ou sobretudo) «patranha, ardil, intrujice» ou «conversa de chacha». Tanguear é «enganar, aldrabar, baratinar» — dar tanga, sim, senhor, mas com este significado. Já o dicionário da Academia de Ciência de Lisboa acrescenta este significado de «mentira» na expressão dar uma tanga, mas, como o Porto Editora, não tem para esta tanga uma entrada separada, nem lhe encontra uma etimologia diferente da palavra que eu creio apenas convergente e que refere uma diminuta peça de roupa[4].

Melhor está o Priberam, que separa a tanga-mentira da tanga-calção e a define como termo «informal» que significa «história fictícia e enganosa (ex.: isso é tudo uma grande tanga). = aldrabice, mentira, peta, treta.» Tenho muitas dúvidas, porém, que se deva juntar, como o Priberam o faz, esta tanga com a tanga que refere uma «moeda asiática de pequeno valor, usada na antiga Índia Portuguesa» e que vem de uma língua indiana (o sânscrito tangka, segundo o Priberam e o Porto Editora, ou o concani tang, segundo o dicionário da Academia de Ciências de Lisboa). 

Parece-me muito difícil explicar como se passa da peça de vestuário a mentira (mas percebe-se bem estar/ficar/deixar alguém de tanga no sentido de «miserável, sem vintém»). Já a deriva semântica da moeda para a converseta parece fazer mais sentido (dar tanga como «dar algo [conversa, neste caso] sem valor»), mas há pelo menos uma coisa fundamental que fica por explicar com esta etimologia: a coincidência com o calão de Buenos Aires, o lunfardo. Acho provável (mais uma vez, sem ter certeza nenhuma) que esta tanga tenha uma origem diferente da tanga-peça de vestuário e da tanga-moeda indiana. Como já aqui referi uma vez, «o calão português partilha com o calão espanhol vários termos, nomeadamente os oriundos do caló (que dá a palavra calão, aliás) e tem também vários termos em comum com o lunfardo rioplatense». Não encontro referência a tanga no sentido de «mentira» nem de «troça» no dicionário da Real Academia Espanhola, mas encontro-a em dicionários online de lunfardo, entre os quais o do site Todo Tango. Eis as várias aceções de tanga em lunfardo (escuso-me aqui de traduzir):

Tanga (lunf.) Arreglo de un asunto; artilugio para obtener ventajas; componenda; negociado; estratagema // empleado de parque de diversiones que simula ser público y participa de los juegos acertando, para animar a otros a también hacerlo// (pop.) bíkini muy reducida en la pieza inferior// (delinc.) ayudante de un estafador o de un ladrón carterista// estafa, fraude; ventaja que se obtiene mediante ardid o engaño. ir de tanga (delinc.) Acompañar a un punguista en el momento que comete sustraccíones.  

Como se vê, a definição de tanga coincide com a que proponho em português e acrescenta-lhe ainda outros significados que tanto podem derivar da aceção de «engano, ardil» como, pelo contrário, estar na sua origem: os de «falso membro do público dos parques de diversões» e de «ajudante de vigarista ou carteirista». 

Agora, tendo em conta a maior riqueza semântica de tanga no calão de Buenos Aires que no calão português[5], não será de supor que o termo é originário do lunfardo e que está antes diretamente relacionado com tango, que é, na origem, música dos bairros populares, e com os tangueros, que são — ou foram — a malevaje (malandragem) de Buenos Aires? Não é por acaso que lunfardo, o nome do calão local, significa «ladrão». Note-se que, em português, tanguista tanto significa «mentiroso» como «bailarino de tango» e tanguear tanto quer dizer «dançar o tango» como «endrominar».

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Notas

[1] O dicionário grego acrescenta uma segunda aceção, que corresponde ao português barra, e que mangas não tem em português: «uma pessoa experiente com competências reconhecidas e aplaudidas»: Ele é mangas no seu trabalho.

[2] É importante referir aqui um outro grupo de rufias gregos, os koutsavakia (singular koutsavaki). Embora muitas vezes se apresente mangas como sinónimo de koutsavaki, há quem distinga os dois grupos e afirme que, com rigor, a descrição da estranha indumentária da malandragem urbana acima descrita é dos koutsavakia, que são imediatamente anteriores aos mangas e estão na sua origem. Ver por exemplo este artigo, ilustrado com «talvez a única foto de um autêntico koutsavaki [em 1880]» (em grego, terão de usar um tradutor automático)  ou este (em inglês). A verdade é que, nas fotos de ambientes de rebético dos anos 1930, os mangas parecem antes… faias!

[3] Esta valsa foi suficientemente conhecida para ter sido regravada e reeditada nos anos 70 ou 80, num disco da série Melodias de Sempre, pelo qual a conheci. Não deixa de ser curioso que a pessoa que carregou a música para o YouTube confunda os apaches, rufiões da época, com os índios apaches (embora o nome da tribo esteja, ao que parece, na origem do nome do gangue). Obviamente, o termo depressa foi esquecido em português.

[4] Curiosamente, os dicionários não se entendem sobre a origem da tanga-vestuário: o Porto Editora, o dicionário da Academia de Ciências de Lisboa, o Priberam, o Michaelis e o Aulete (ou seja, os dicionários portugueses) dão como étimo o quimbundo (n)ganga, «pano», mas outros dicionários propõem antes o tupi tanga, «tanga» — é o caso do Dicionário da Real Academia Espanhola e do alemão Duden.

[5] Alguns acusar-me-ão de estar a aplicar às línguas um princípio da genética evolutiva, segundo o qual a diversidade genética é maior na zona de origem de uma espécie, mas juro que não era essa a minha ideia. Se bem que, agora que falam nisso, não deixa de ser uma ideia a explorar… (Mais uma tanga, dizem vocês e provavelmente com toda a razão…)

[Ambas as imagens da Wikipedia, autores desconhecidos e domínio público.]






02/02/24

Falsas etimologias, tascas e pancadarias


A expressão etimologia popular cobre dois fenómenos diferentes: um é uma reinterpretação de uma palavra, com base no que se intui ser a sua origem, devido à semelhança sonora com outras palavras; outro é a proposta de uma etimologia com base apenas na semelhança da forma atual de duas palavras. Um exemplo do primeiro fenómeno é praiamar: pre(i)a, que significava «cheia»*, caiu em desuso e essa parte da palavra foi reinterpretada como praia, que, ainda por cima tem uma relação semântica com mar. Um exemplo do segundo é propor que alçapão vem de alçar o pão (explicando, por exemplo, que o pão se guardava nas caves ou algo do estilo…), quando de facto vem de alça-põe, «sobe-desce», com o verbo pôr no sentido de «descer», como em «O sol põe-se hoje às 16:53». 

Há gente que, sem conhecimentos nenhuns de língua nem da sua história, se entretém a atribuir origens comuns a palavras sem nenhuma relação etimológica entre elas e dar grandes significados a essas relações. Há quem diga, por exemplo, que, com rigor, só se pode falar de indígenas quando se fala das pessoas ou coisas originárias da Índia, quando a origem de indígena não tem nada a ver com Índia. OU que diz que lei marcial vem do nome de um general, Marshall, que foi quem primeiro a instituiu. E eu pergunto sempre a esses pessoas porque é que, em vez de se porem a inventar, não vão antes ver o que dizem as pessoas que, ao contrário delas, passaram a vida a estudar estas coisas. 

Até porque, mesmo não tendo tendência para o delírio e sabendo alguma coisa de língua, é preciso ter sempre muito cuidado com as intuições sobre etimologia. Qualquer pessoa de bom senso pode supor, por exemplo, que os verbos derivados do verbo latino habere, como o haver português, o haber espanhol, o avoir francês e o avere italiano, entre muitos outros, teriam o mesmo étimo indo-europeu que os verbos germânicos como have em inglês e dinamarquês, hebben em neerlandês e haben em alemão, que significam basicamente o mesmo. Mas não: o verbo latino com a mesma origem destes verbos germânicos é capere, que deu o nosso caber; o habere latino tem outra origem.

Tudo isto para introduzir mais um caso curioso de etimologia, que acabo de descobrir, e, a reboque desse caso, a origem da palavra tasca.

Foto: Neil Palmer, Debulha, perto de Sangrur, no Punjab, Índia. Novembro de 2011
Wikimedia Commons, daqui.
Em dinamarquês, «tareia» diz-se tæsk ou tærsk e «dar uma tareia» é tæske ou tærske — com R ou sem R, mas a forma mais antiga parece ser a forma com R. A palavra também quer dizer «malhar, debulhar (os cereais)» e é obviamente esse o significado primeiro do qual decorre o de «dar uma tareia», porque os cereais debulham-se à pancada. No fundo, tærske é como malhar em português, que também tem os dois significados. O termo é cognato das palavras inglesas thresh e thrash. Em inglês moderno, thresh significa «debulhar» e thrash, embora também possa significar o mesmo, usa-se mais para «dar uma tareia». Houve ali uma vogal que se dividiu em duas para distinguir dois significados.  

Ora em português e castelhano existem também tascar para bater o linho ou o cânhamo e tasca/tasco, para referir a espadela que se usa para esse fim. Convenhamos que tanto as formas das palavras como o significado são muito próximos dos termos germânicos referidos no parágrafo anterior. Mas não será só uma coincidência? É bem capaz. A etimologia é discutida: Coromines propõe uma origem celta, taskós, «estaca, pau»**; a Real Academia propõe uma possível origem gótica, um hipotético taskōn. Evidentemente, uma eventual origem gótica poderia levar-nos a supor uma origem comum com os verbos germânicos para «malhar, debulhar». Mas, nunca destes, e por muitos que gastássemos que fosse verdadeira esta relação, o mais prudente é dar a origem por incerta  — ou obscura, como o fazem o Porto Editora e o ACL.

Não surpreende que o significado das palavras da família do tascar ibérico também tenha evoluído para «pancadaria»: Corominas refere tasquera, atestado em 1626,«alteração, disputa, rixa» e tasca, atestado ainda antes, em 1609, também com esse significado e que evoluiu para «taberna» de uma forma perfeitamente compreensível: primeiro significava o banzé, depois passou a significar o sítio onde se armava o banzé**



__________________`

* Prea/preia vem de plena-, tal como cheia. O antigo género feminino de mar pode surpreender, mas ainda assim pode ser em castelhano e é assim em francês. Esta divergência de uma palavra com pl- inicial é a mesma que encontramos em prato e chato, ambos de plattu-. 

**Para as referências a Coromines, ver a entrada tascar no Breve Diccionário Etimológico de la Lingua Castelhana, que se pode encontra aqui. (De nada!)


05/12/23

Um prédio etimológico


A fotografia não é grande coisa, mas, do chão, com o telefone e com gente sempre a passar, não consegui fazer melhor.

Neste prédio em Faaborg vê-se, lá em cima, a palavra apotek, «farmácia», grafada à moda antiga, ainda com th, e, em baixo, onde deve ter já havido uma farmácia, uma boutique, ou seja, uma loja de modas — às vezes designada, na Dinamarca com em Portugal, com a palavra francesa, para ser mais fina… Em dinamarquês, loja — quando não é modas — diz-se butik, que é a mesma palavra, mas sem francesices. 

Ora apotek é uma forma muito próxima do étimo grego de onde deriva, ᾰ̓ποθήκη, «arrecadação, armazém» (geralmente transliterado apotheke) e de onde derivam também as palavras butik e boutique. Usa-se ainda em dinamarquês outra palavra derivada do mesmo étimo e importada do castelhano, bodega, para designar uma taberna, um bar popular. 

Parece que bodega tem também este sentido em português, mas eu conheço-a antes com outro sentido, que vocês também conhecem. Em português, além de bodega e do francesismo boutique, o grego apotheke deu ainda botica e adega. Adega é uma forma já atestada em galego-português, ao passo que botica é um aportuguesamento mais tardio do francês boutique, que é, por sua vez, um afrancesamento, se se pode dizer assim, do provençal botiga/botica, que vem da latinização do termo grego em apotheca

Muitas voltas dão estas palavras. 


01/12/23

Espelho

Depende de quanto se quer recuar no tempo, claro está, mas, se aceitarmos ir longe, espelho é da família de escopo, de especular (a relação com o adjetivo é direta, mas também é da família do verbo), de espetáculo, de espião, de expetativa e das outras palavras diretamente relacionadas com estas cinco; e também daqueles elementos -scópio e -scopia, que há nos microscópios e em muitos outros aparelhos e nas radioscopias e outras observações…

Vem tudo de um *spek- que quase de certeza existiu há muito tempo para dizer «ver, observar» e que dá espelho em várias línguas latinas (espello, espeyu, espejo, specchio...) e em várias línguas germânicas (Spiegel, spiegel, spejl, speil, spegel...)

Noutras línguas próximas da nossa, vem o espelho de outra palavra latina que inicialmente queria dizer «admirar» e que deu em português, além do admirar propriamente dito, mirar e milagre, pelo menos.

E é assim: miramo-nos ao espelho e em vez de termos *espelhismos, como os espanhóis (espejismos), temos miragens.









Parmigianino (Girolamo Mazzola): Autorretrato num espelho convexo (1523 ou 1524). Óleo sobre uma círculo de madeira convexo com 24.4 cm de diâmetro. Kunsthistorisches Museum, Viena   


18/11/23

Culher


Mas dizei-me: não seria muito melhor escrever culher que colher? É que culher matava dois coelhos de uma só cajadada: ficava mais próximo do étimo imediato, o francês cuillère, e inscrevia-se naturalmente num miniparadigma de palavras terminadas em /ér/ com U na sílaba anterior: mulher, puser e puder – que se opõe a outro de palavras terminadas em /êr/ com O na sílaba anterior (são muitas…). Como puder se opõe a poder, culher opor-se-ia a colher («apanhar). 

A palavra francesa que importámos escreve-se já com U – que refletia e reflete a pronúncia – pelo menos desde a segunda metade do século XI (culier), embora se documentem no séc. XII as grafias coller e cuillier (ver aqui). A partir daí, sempre com U. A grafia com O portuguesa é, muito provavelmente, um latinismo, para dar conta da etimologia última da palavra francesa importada, o latim cochlear(e)-, mas, na breve pesquisa que fiz para este texto, não consegui descobrir se a palavra portuguesa alguma vez se escreveu com U ou se alguma vez o O se pronunciou de outra forma que não /u/. É também muito provavelmente a importação da palavra francesa que justifica as formas culler em galego e cullera em catalão, entre outras.  

E, agora que falo disso, penso, de repente, que a grafia com U nos «integraria» nas outras colheres latinas: as palavras correspondentes (e de etimologia aparentada) em muitas línguas românicas são com U: cuciaro em véneto, cucchiaio em italiano, cucchiara em siciliano, cuchara em castelhano, cuillère em francês, culhièr em occitano, cullara em aragonês, cullera em catalão e cuyar em asturiano (etc.?). É claro, pode argumentar-se que ser igual aos outros não é propriamente uma vantagem…  


17/11/23

Baril

Baril é termo que cresceu em popularidade desde que o ouvi pela primeira vez em rapaz até sair de Portugal em 1997. Enfim, como só vou a Portugal uma vez por ano (às vezes nem isso) e por pouco tempo, sei que ainda se diz, mas não sei se se diz tanto como se dizia nos anos 80 e 90, pelo menos nos meios que eu frequentava. É um termo curioso. Donde poderá vir tal palavra?

Encontro duas propostas etimológicas para o termo. Uma diz que a palavra vem do romani, a língua cigana: baro significa «grande» e tem o feminino bare e o plural bari. Outra propõe antes uma origem galega: nesta língua, baril significa precisamente «bom, oportuno, excelente» e não é termo de gíria ou de um registo familiar. Eis, por exemplo, um excerto de um poema de Pilar Pallarés (sem título, 1979): 

(…) Perante mín, o mundo, a terra das Mariñas, 

Val de Veiga e de Bárcia, a Ermida enguruñada 

baixo da túa planta, baril monte de soños, 

berro do chan que sube cara ao sol máis enteiro, 

acendido planeta de rios subterráneos

 e aldeas dormecidas na señardá e o feitizo! 

No teu seo canta o vento a canción do silencio 

e inventa eternidades.

Sobre a hipótese da origem romani, parece-me fácil explicar a evolução semântica de «grande» para «bom», até porque «grande» se pode usar também como termo de valorização positiva, mas é mais difícil de explicar foneticamente, embora não completamente impossível: pode, por exemplo, ter-se acrescentado um S à forma plural para a regularizar: «tipos bari» passa a «tipos baris»; e depois reconstrói-se um singular a partir dessa forma: «tipos baris», logo «tipo baril». E sabemos que há muitos (!) termos de calão português e castelhano que vêm do romani, certamente muitos mais que do galego. Mas enfim, não sei…

A hipótese da origem galega é boa. Baril parece ser uma forma divergente de varonil, tendo existido uma uma forma intermédia barõil. O termo está atestado nos dicionários da língua galega, pelo menos desde meados do século XIX. O registo mais antigo que vi tem a forma «varil», que seria de esperar da etimologia referida, mas não há oposição /b/-/v/ em galego, pelo que a passagem a baril não surpreende. Além disso, mesmo em falares em que existem os sons /b/ e /v/, observa-se a muito antiga oscilação entre barão e varão, e formas derivadas.

Estou em crer que o uso da expressão em português é mais recente. A atestação mais antiga que conheço é de 1959, mas provavelmente a palavra usava-se já em Portugal há algum tempo. É certo que não me lembro de ter ouvido baril às pessoas da geração do meu pai, mas devia dizer-se com certeza, porque o meu pai usava berilaço (com É aberto!), que não pode senão ser uma corruptela de barilaço. Uma questão que se pode pôr relativamente à origem galega é a da mudança de registo: porque é que, vindo de um registo não marcado, baril se tornou termo de calão em português? Ora, se baril veio com os imigrantes galegos e se difundiu nos meios sociais com quem eles tinham contacto, parece-me fácil explicar essa especialização da palavra.  

Agora, a propósito: Se aceitarmos a origem galega, baril é um desses patriarcalíssimos adjetivos que transformam a ideia de «viril» em termo genérico de aprovação, como porreiro em português, cojonudo em castelhano ou vargeux em francês canadiano, por exemplo.


14/08/22

De escatologia e outras convergências

[Orientação para leitura do texto: i) quando não é referida uma língua específica, o étimo é latino; ii) os mm finais do acusativo latino já não se pronunciavam em latim tardio e a sua ausência é assinalada com um -; iii) as formas assinaladas com *são formas reconstruídas pelos etimologistas não atestadas em textos escritos.] 

Chamam-se palavras convergentes as palavras que, numa determinada fase de uma língua, têm a mesma forma, embora tenham origens diferentes. Em princípio, quando digo «têm a mesma forma», quero dizer «têm a mesma forma linguística», isto é, são constituídas pelos mesmos sons; mas haverá decerto quem conte como convergentes apenas palavras homónimas, ou seja que se dizem e se escrevem da mesma maneira, embora provindo de étimos diferentes[1]. Em português, os exemplos mais comuns são vão do verbo ir, vão adjetivo e vão nome, são do verbo ser, são no sentido de santo e são adjetivo, como advérbio e como do verbo comer, o nome mente e a forma verbal mente, o pronome, advérbio ou nome nada e a forma nada do verbo nadar, entre vários outros. 

«Está a ver ali? O meu filho, a minha nora e os meus netos.»

[Ilustração de Gustave Doré em L'Espagne, de CH. Davillier, 1874.
Wikimedia Commons, daqui.]
Evidentemente, como se trata, em todos os casos acima referidos, de convergência entre formas de categorias diferentes, a convergência nunca causa nenhum mal-entendido. Quando muito, serve para alguma brincadeira pateta («Não disseste nada? Olha, quem nada não se afoga.»). Mais interessante, porém, é o escrutínio de formas convergentes da mesma classe gramatical, que também as há. Podem causar ambiguidades? 

Temos, por exemplo: fiar, «tecer», de filare, e fiar, «ter confiança», de *fidare por fidere; junco, a planta, de juncu-  e junco, a embarcação, do malaio-javanês jung; manga, a parte da roupa, de manica e manga, a fruta, empréstimo ao malaio; nora, «esposa do filho», da forma vulgar *nora, do clássico nurus, e nora, engenho de puxar água, do árabe نَاعُورَة‎, nāʿūra; renda, 'rendimento; quantia recebida», deverbal de render e renda, «malha de fios ornamental», cujo étimo é obscuro; velar, «passar a noite, ou boa parte dela, acordado; estar alerta, vigiar», de vigilare e velar, «cobrir com véu», de velare;

Um caso curioso é cabo. Quando designa o posto militar ou significa «término, fim, limite», vem de caput, «cabeça, topo», e quando significa «extremidade pela qual se segura um objeto ou instrumento, corda grossa, feixe de fios», vem de capulu-. Ao contrário do que se poderia talvez supor, capulu-  não é imediatamente um diminutivo de caput, mas provém antes de capere, «segurar» – embora, em última instância, caput também provenha, provavelmente, da mesma raiz proto-indo-europeia... 

«Aquela senhora vive de rendas.»

Caspar Netscher: A rendeira, 1662. Wallace Collection, Londres.
Wikimedia Commons, daqui.]
Também nestes casos as ambiguidades parecem raras. Evidentemente, pode dizer-se «Ali está o meu filho e a minha nora» referindo com esta última palavra não a mulher ao lado do rapaz, que não é sua mulher, mas antes a roda com alcatruzes que se encontra atrás dele. E pode cobrir-se uma morta ou um morto com um véu e dizer-se então que se está a velá-la/o, como se a/o vela numa vigília — seja ela ou não à luz de velas[2]. E também se pode dizer que uma pessoa vive de rendas, querendo com renda significar a malha decorativa e não os rendimentos não provenientes de trabalho – se se estiver a falar de uma rendeira!... Mas quando é que essas coisas se dizem? Nunca. E é precisamente por isso que estes termos convergentes podem existir, já que a língua tende a desfazer convergências que causem ambiguidades. 

A mim, o que me faz mais confusão é a convergência de duas palavras muito diferentes em escatologia – e, por consequência, também de dois adjetivos diferentes no adjetivo escatológico. É que a escatologia tanto pode ser a «parte da teologia que trata dos fins últimos do homem e do que há de acontecer no fim do mundo» e, por extensão, «qualquer área do pensamento que trate do fim último da humanidade, do mundo ou da história» (do grego ἔσχατος, éskhatos, com o kh pronunciado como um jota espanhol), «último, mais distante» ou «estudo ou tratado acerca de excrementos; coprologia» e, por isso, também «alusão aos temas das fezes, da imundície, da obscenidade» (do grego σκατός, skatós, genitivo de σκῶρ, skór, «excremento»). Evidentemente, o contexto acaba por esclarecer de que escatologia se está a falar. Mas, numa referência breve a uma obra ou a um(a) autor/a que não se conhece, pode às vezes ficar-se na dúvida... Bom, também não é palavra que toda a gente use todos os dias... 




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[1] Veja-se o caso de ótico, que tanto pode querer dizer «relativo à visão» (de ὀπτῐκός, optikós) como «relativo aos ouvido» (de ὠτῐκός, ōtikós). Os termos convergiram há muito tempo, mas alguns acharão que só agora há verdadeira convergência, depois de o antigo óptico ter perdido na grafia o p que não se pronunciava...
[2] Já agora, é a palavra vela, objeto alumiador, que vem do verbo velar, no sentido de ficar em vigília, e não ao contrário, como talvez se pudesse supor.