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02/02/24

Falsas etimologias, tascas e pancadarias


A expressão etimologia popular cobre dois fenómenos diferentes: um é uma reinterpretação de uma palavra, com base no que se intui ser a sua origem, devido à semelhança sonora com outras palavras; outro é a proposta de uma etimologia com base apenas na semelhança da forma atual de duas palavras. Um exemplo do primeiro fenómeno é praiamar: pre(i)a, que significava «cheia»*, caiu em desuso e essa parte da palavra foi reinterpretada como praia, que, ainda por cima tem uma relação semântica com mar. Um exemplo do segundo é propor que alçapão vem de alçar o pão (explicando, por exemplo, que o pão se guardava nas caves ou algo do estilo…), quando de facto vem de alça-põe, «sobe-desce», com o verbo pôr no sentido de «descer», como em «O sol põe-se hoje às 16:53». 

Há gente que, sem conhecimentos nenhuns de língua nem da sua história, se entretém a atribuir origens comuns a palavras sem nenhuma relação etimológica entre elas e dar grandes significados a essas relações. Há quem diga, por exemplo, que, com rigor, só se pode falar de indígenas quando se fala das pessoas ou coisas originárias da Índia, quando a origem de indígena não tem nada a ver com Índia. OU que diz que lei marcial vem do nome de um general, Marshall, que foi quem primeiro a instituiu. E eu pergunto sempre a esses pessoas porque é que, em vez de se porem a inventar, não vão antes ver o que dizem as pessoas que, ao contrário delas, passaram a vida a estudar estas coisas. 

Até porque, mesmo não tendo tendência para o delírio e sabendo alguma coisa de língua, é preciso ter sempre muito cuidado com as intuições sobre etimologia. Qualquer pessoa de bom senso pode supor, por exemplo, que os verbos derivados do verbo latino habere, como o haver português, o haber espanhol, o avoir francês e o avere italiano, entre muitos outros, teriam o mesmo étimo indo-europeu que os verbos germânicos como have em inglês e dinamarquês, hebben em neerlandês e haben em alemão, que significam basicamente o mesmo. Mas não: o verbo latino com a mesma origem destes verbos germânicos é capere, que deu o nosso caber; o habere latino tem outra origem.

Tudo isto para introduzir mais um caso curioso de etimologia, que acabo de descobrir, e, a reboque desse caso, a origem da palavra tasca.

Foto: Neil Palmer, Debulha, perto de Sangrur, no Punjab, Índia. Novembro de 2011
Wikimedia Commons, daqui.
Em dinamarquês, «tareia» diz-se tæsk ou tærsk e «dar uma tareia» é tæske ou tærske — com R ou sem R, mas a forma mais antiga parece ser a forma com R. A palavra também quer dizer «malhar, debulhar (os cereais)» e é obviamente esse o significado primeiro do qual decorre o de «dar uma tareia», porque os cereais debulham-se à pancada. No fundo, tærske é como malhar em português, que também tem os dois significados. O termo é cognato das palavras inglesas thresh e thrash. Em inglês moderno, thresh significa «debulhar» e thrash, embora também possa significar o mesmo, usa-se mais para «dar uma tareia». Houve ali uma vogal que se dividiu em duas para distinguir dois significados.  

Ora em português e castelhano existem também tascar para bater o linho ou o cânhamo e tasca/tasco, para referir a espadela que se usa para esse fim. Convenhamos que tanto as formas das palavras como o significado são muito próximos dos termos germânicos referidos no parágrafo anterior. Mas não será só uma coincidência? É bem capaz. A etimologia é discutida: Coromines propõe uma origem celta, taskós, «estaca, pau»**; a Real Academia propõe uma possível origem gótica, um hipotético taskōn. Evidentemente, uma eventual origem gótica poderia levar-nos a supor uma origem comum com os verbos germânicos para «malhar, debulhar». Mas, nunca destes, e por muitos que gastássemos que fosse verdadeira esta relação, o mais prudente é dar a origem por incerta  — ou obscura, como o fazem o Porto Editora e o ACL.

Não surpreende que o significado das palavras da família do tascar ibérico também tenha evoluído para «pancadaria»: Corominas refere tasquera, atestado em 1626,«alteração, disputa, rixa» e tasca, atestado ainda antes, em 1609, também com esse significado e que evoluiu para «taberna» de uma forma perfeitamente compreensível: primeiro significava o banzé, depois passou a significar o sítio onde se armava o banzé**



__________________`

* Prea/preia vem de plena-, tal como cheia. O antigo género feminino de mar pode surpreender, mas ainda assim pode ser em castelhano e é assim em francês. Esta divergência de uma palavra com pl- inicial é a mesma que encontramos em prato e chato, ambos de plattu-. 

**Para as referências a Coromines, ver a entrada tascar no Breve Diccionário Etimológico de la Lingua Castelhana, que se pode encontra aqui. (De nada!)


13/09/21

Chalado

E a palavra chalado, que origem tem? 

Conheço desde miúdo o termo de calão chalar-se, com o sentido de «ir-se embora» e tinha há já muitos anos a hipótese de que chalado viesse dessa palavra: chalado seria originalmente «ido» – uma pessoa que perdeu o tino «foi-se». E tinha também outra hipótese: a de que chalar fosse um cognato do castelhano jalar, «puxar», porque entre «puxar» e «ir» a distância semântica não é longa, sobretudo se pensarmos nas ideias intermédias de «tirar» e «sair» – puxar(-se) => tirar(-se)=> sair=> ir(-se), movimentos espaciais básicos. Veja-se, por exemplo que o francês tirer, «puxar», se usa reflexivamente como forma popular para «ir-se embora». Enfim, tinha estas hipóteses todas, mas nunca tinha investigado a sua plausibilidade.

Um dia destes, porém, fui ao parar à entrada chalado do Dicionário da Porto Editora em linha, que define o termo como «1. coloquial amalucado, adoidado; 2. coloquial sem graça; pouco interessante; 3. (água) misturado com infusão de chá» e que propõe para o termo uma etimologia bastante estranha: «Do alemão schal, “insípido” +-ado».

Uma etimologia assim precisa de uma explicação muito detalhada: se o significado 2. de «sem graça; pouco interessante» decorre bem da ideia de insipidez, já o significado 1. de «amalucado, adoidado» não decorre diretamente da mesma noção. Com alguma boa vontade, porém, consegue encontrar-se alguma relação – sobretudo se se tiver em conta (se não é ir longe demais…) o significado de «secar» do étimo proto-indo-europeu (s)kelh₁, que dá, por exemplo em sueco, o adjetivo skäll, «delgado, débil». O que é mais difícil é explicar como é que uma palavra alemã entra assim no português. Por um termo intermédio numa língua intermédia? Mas qual?

Quanto ao significado 3 (que bem pode derivar apenas de chá, com influência de chalado 1.), se temos água chalada com o significado de «chá muito diluído com água» talvez seja melhor procurar aí a origem do significado 2. de «sem graça; pouco interessante» que num termo alemão.

Achei também estranho que o mesmo dicionário, embora registe chalar com o significado de «fugir», dê o termo como «intransitivo» e «popular», quando eu sempre o ouvi reflexivo («chala-te, pá!» e não «chala, pá!») e apenas como termo do calão restrito da malandragem.
Enfim, tudo isto me incitou a aprofundar a questão. E eis os resultados da minha pesquisa:
Segundo o DRAE (Dicionário da Real Academia Espanhola), jalar vem de halar, que vem, por sua vez, do francês haler – a minha hipótese de relação entre o português chalar e o castelhano jalar não presta.
Chalar também existe em castelhano, mas com o sentido de «adoidar, enlouquecer». Está assim explicada a origem natural de chalado como «amalucado», tanto em castelhano como em português. A minha primeira conclusão foi que ou o termo português foi importado do castelhano ou o verbo chalar existiu também em português com o mesmo significado do chalar espanhol. E encontrei, nessa mesma entrada do DRAE, uma etimologia para o termo de calão português chalar: o dicionário dá o caló chalar («ir; andar») como origem do chalar castelhano. Que um termo de calão português tenha origem num termo caló é perfeitamente normal, há várias nessas condições[1]. Não é por acaso, aliás, que a palavrão calão vem da palavra caló (sorriso). E a minha hipótese de que chalado como «amalucado» decorre de chalar no sentido de «ir» parecia boa.
Diz o mesmo Valentín Anders no seu site, que, pelo menos no que toca a etimologias (nunca explorei o resto), é sempre sensato (escuso-me a traduzir o castelhano, que creio que os meus leitores compreendem sem problemas):
La palabra chalado es término caló, la lengua patrimonial de los gitanos españoles. Viene del verbo chalar, que en caló significa “ir”, como ilustra esta copla flamenca en este peculiar idioma, que tiene la estructura gramatical morfológica y sintáctica del español pero está enjoyado de léxico de procedencia romaní:
Chalo para mi quer,
[Yendo para mi casa,]
me topé con el meripé;
[me topé con la muerte;]
me penó, “¿a dónde chalas?”,
[me dijo: “¿a dónde vas?”,]
le pené “para mi quer”.
[le dije: “para mi casa'] 
Del significado de “ir” viene el sentido de “loco”, pues al loco se le llama “ido”, como si dijéramos que se le ha ido la cabeza y no está en sus cabales. Así es como se han aceptado en español los tres gitanismos chalado, sinónimo de “ido” y participio del verbo chalar, y el nombre de la acción chaladura. Luego en español las tres palabras han derivado hasta significar “enamorado”, “enamorar” y “enamoramiento”, pues ya se sabe que el amor y la locura no andan lejos.
E dizem o mesmo vários outros estudiosos (as citações que faço a seguir vêm de uma longa e interessante discussão no fórum do Word Reference sobre o uso e a etimologia de chalado em castelhano):
María Inés Chamorro  defende que chalar, proveniente «[d]e la germanía chalán, que viene del fr[ancés] chaland “que trata en compra y venta”, ha pasado a la jerga actual. En gitano chalar “ir, andar, caminar” > cat[alán] atxalar “ir”, xalar “huir, ir deprisa”; en Andalucía “hacer huir a otro” y chalárselas “huir, desaparecer de un sitio”. Hubo un cambio semántico y pasó de “ido” a “enajenado, loco”.[2]»
O mesmo diz Joan Coromines, apoiando-se em Carlos Clavería[3] e Max Leopold Wagner[4], que «[recuerda] que guillarse y pirar (propiamente “marcharse”) también tomaron el sentido de “volverse loco” (…) . El transitivo chalar “enloquecer” [...] debe de ser una creación secundaria; también lo es el paso de “enloquecer” a “enamorar”. No es cierto que tengan igual origen jalar y chalar “enamorar”, como sugiere G[arcía] de Diego.[5]»
O que não é certo, e me parece até improvável, é a complicada origem franco-germânica do termo caló chalar, de que derivam as formas de calão nas línguas peninsulares. É que Géraldine Moureau indica antes a forma do sânscrito džala como origem do chalado caló, o que faz mais sentido, já que o romani, fonte do léxico caló, é uma língua de origem indiana. Javier Fuentes Cañizares refere, aliás, o termo romaní džal, «ir» como origem imediata do caló chalar[6]. A origem indiana é também defendida por Francisco Coelho[7], citando Franz von Miklosich[8].
Quando aqui chegamos, parece-me que reunimos boas e suficientes explicações para a etimologia de chalar e chalado e termos relacionados, nas várias aceções que têm nos falares ibéricos. Quero só fazer três comentários finais.
Achei curiosa a referência de Coromines ao pirar castelhano, que também tem os mesmos significados em português: «ir-se embora» e «enlouquecer». É certo que com o significado de «ir-se embora», o pirar português é sempre reflexivo, mas isso explica-se pela analogia com «ir-se embora», precisamente. É provavelmente a mesma analogia, aliás, que está na origem da reflexivização de chalar com esse mesmo significado em português.
Achei também curioso que Vicente García de Diego tenha tido a mesma intuição que eu, a da origem comum de jalar e chalar – que, como já referido acima, a Academia Espanhola desqualifica – e de que Coromines duvida[9].
Finalmente, há que dar conta dos desacordos. Como sempre nestas coisas, não há consenso entre filólogos. Eis duas propostas etimológicas alternativas, ambas com mais de um século: Adolfo de Castro[10] e Luis Montotoy Rautenstrauch[11]  propõem uma origem hebraica, respetivamente chisla e chirla, variações apenas de um mesmo termo com o significado de «estultícia ou insensatez»; e, para Matías Calandrelli[12], chalado é uma corruptela de chiflado. Cabe a cada um analisar os argumentos apresentados e decidir depois, destas propostas, quais as plausíveis e quais as… chaladas.

Notas:
[1] Ver, por exemplo, a dissertação de Mestrado em Estudos Ibéricos de Géraldine Chantal Moureau, Influência do calão cigano nas línguas portuguesa e castelhana em contextos de comunicação de massa, Universidade da Beira Interior, 2010, disponível em linha aqui 
[2] Chamorro Fernández, María Inés. Tesoro de villanos. Lengua de jacarandina: rufos, mandiles, galloferos, viltrotonas, zurrapas, carcaveras, murcios, floraineros y otras gentes de la carda. Barcelona: Herder, 2002
[3] Clavería, Carlos. “Estudios sobre los gitanismos del español” in Revista de Filología Española, anejo LIII. Madrid, 1951
[4] Wagner, Max Leopold. Notes linguistiques sur l’argot barcelonais. Barcelona: Institut d’estudis catalans, 1924 
[5] Coromines, Joan. Diccionario crítico etimológico de la lengua castellana. Berna: Editorial Francke, 1954
[6] Fuentes Cañizares, Javier. “Fuentes literarias para el estudio del caló en el siglo XVIII” (in Ivo Buzek (coord.).Interacciones entre el caló y el español : historia, relaciones y fuentes. Brno : Filozofická fakulta, Masarykova univerzita, 2016, disponível em linha aqui 
[7] Coelho, Francisco Adolfo. Os ciganos de Portugal. Lisboa: Imprensa Nacional, 1892, disponível em linha aqui 
[8] Miklosich, Franz von. Über die Mundarten und die Wanderungen der Zigeuner Europa’s. Viena, 1872, disponível em linha aqui 
[9] García de Diego, Vicente. “Dialectalismos” in Revista de Filología Española, tomo III, 1916, disponível em linha aqui
[10] Castro, Adolfo de. Estudios prácticos de buen decir y de arcanidades del habla española. Cádiz: Imp. de la Revista Médica, de D. Federico Joly, 1880, disponível em linha aqui
[11] Montoto y Rautenstrauch, Luis. Un paquete de cartas: de modismos, locuciones, frases hechas, frases proverbiales y frases familiares. Sevilha: [Oficina Tipográfica,] 1888, disponível em linha aqui
[12] Calandrelli, Matías. Diccionario filológico-comparado de la lengua castellana. Buenos Aires: Impr. de M. Biedma é hijo, 1907, disponível em linha aqui

15/01/18

Dançar, bolçar, axandrar


[Este texto é mesmo só para quem gosta de coisas de língua. Para a maior parte das pessoas, é provavelmente uma grande seca. Quem vos avisa, vosso amigo é.]

Diz Ana Luísa Alves no ESCS Magazine  que «[u]ma das particularidades da poesia de Sophia [de Mello Breyner Andresen] é a maneira simples como esta escreve a palavra dança: dansa . Com “s” porque, nas suas palavras, “tem muito mais movimento que um ‘ç’”. (…)
Tudo me é uma dansa em que procuro
A posição ideal,
Seguindo o fio dum sonhar obscuro
Onde invento o real. (…)»
Consultando-se apenas um dicionário de português (o Porto Editora , por exemplo, aqui e aqui ) pode pensar-se que Sophia de Mello Breyner Andresen tem razão em escrever assim. Desde que, em quase todas as variantes do português, deixámos de fazer a diferença entre os sons que correspondiam antigamente a s e a ç ou a x e a ch[1] , o que justifica uma ou outra grafia é apenas a etimologia. Então, se dança e dançar vêm do francês danse e danser, porque não escrever-se dansa e dansar? A questão é complicada. Não sei a data de importação da palavra e se foi importada diretamente ou por intermédio de outra língua; mas, antes de serem danse e danser , as palavras francesas foram dance e dancier (e também dancer e dauncer ) e encontra-se o equivalente ao ç em muitas línguas, do inglês dance ao alemão tanzen e ao italiano danzare . Nas línguas ibéricas, que conservaram, algumas delas a distinção de pronúncia entre s e c/z, também não é s que se usa: é danciar em asturiano, danzar em galego e castelhano.  A grafia dançar em português é antiga e parece justificada, mesmo que o ç não lhe dê o movimento ondulatório que o s lhe dá…

Há casos em que isto não é tão claro. Quando se dicionariza uma palavra, nem sempre se tem uma hipótese sobre a sua origem, e a escolha de s ou ç , x ou ch pode ser perfeitamente fortuita. Eis dois casos que investiguei recentemente, a pedido de amigos.

Bolçar

Muita gente se surpreende com a grafia de bolçar[2]. Os dicionários seguem o mais famoso etimologista português, José Pedro Machado, justificando o ç com um étimo latino *vomitiare (este asterisco significa que a palavra se supõe ter existido, mas que nunca foi atestada). Mas as formas antigas registadas pelos filólogos têm todas s (bomssar, bonssar, boomsar, bõssar), numa altura em que precisamente s e ç correspondiam a dois sons distintos. E é de notar também que não tem sempre havido completo acordo dos dicionaristas relativamente à grafia e etimologia –  o dicionário Lello de 1931, por exemplo, regista bolsar e a etimologia proposta é o latim versare. Ora regista-se em castelhano uma forma antiga bosar, não *bozar (o z castelhano é o que corresponde ao ç português), que também pode querer dizer «vomitar» e para a qual o Dicionário da Real Academia propõe como étimo o latim vorsāre ou versāre , «mexer, revolver, dar volta, …»  A mais antiga atestação que encontrei da forma bolçar é de 1836 (data referida no Houaiss ) e creio, pois, que há boas razões para considerar bolçar uma inovação ortográfica oitocentista, que nem sequer decorre, provavelmente, de nenhuma proposta etimológica, já que a proposta da etimologia *vomitiare é posterior e parece ser antes uma maneira de justificar essa grafia.

Joan Coromines é da mesma opinião que eu relativamente ao ç. No seu Diccionario crítico etimológico castellano e hispánico, na discussão de rebosar, diz Coromines sobre outra pretensa origem de bolçar, *voltiare (que me parece, apesar de tudo, proposta mais lógica que *vomitiare ):
«La grafía bolçar (…) carece totalmente de valor, por ser reciente y sólo portuguesa. La generalidad de la ss en cast. y port. antiguos obliga a desechar esta etimología sin vacilaciones.»
Esta e *vomitiare, pelas mesmíssimas razões[3].

Axandrar

O Porto Editora regista a grafia axandrar para o verbo que classifica como transitivo e popular, e que define como «acalmar forçadamente». Muito provavelmente, quem dicionarizou o termo com aquela grafia não tem nenhuma proposta sobre a sua história que justifique o x; é, quase de certeza, uma grafia fortuita.  Mas haverá alguma boa razão para optar por x ou por ch? Talvez… Pelas razões que passo a explicar, penso que é achantrar que se devia escrever (e, por isso, escrevo com ch neste texto). Antes de explicar porquê, porém, quero referir de passagem duas questões que não se relacionam diretamente com a grafia do som [ʃ],

A primeira diz respeito à forma da palavra. A minha impressão é que achandrar-se é uma forma recente. A expressão que sempre ouvi desde miúdo foi achantrar-se , não achandrar-se. Uma discussão alargada no Facebook[4] confirma esta impressão: as pessoas da minha geração ou mais velhas usam a forma com /t/[5]. Tratando-se de um termo de calão pouco dicionarizado (não o encontrei noutros dicionários), uma busca na Internet mostra que, como seria de esperar, que tanto a grafia como a forma da palavra são instáveis: alternam as formas com t (achantrar, axantrar) e com d (achandrar, axandrar). Em princípio, a postura conservadora que, na dicionarização,  preside normalmente à escolha de uma das formas em uso (neste caso, não se pode falar propriamente de norma culta) deveria levar, em princípio, a preferir-se a forma com /t/.

Em segundo lugar, há a questão da classificação do verbo como intransitivo e o seu significado. Nunca na minha vida ouvi o verbo usado nem transitiva nem intransitivamente. Para mim, achantrar-se é um verbo exclusivamente reflexivo. Além disso, parece-me que o significado registado no Porto Editora é distorcido (porquê «forçadamente»?) e bastante incompleto. O achantrar-se que eu conheço tem dois significados básicos distintos: 1) acalmar-se, baixar a bola; e 2) orientar-se, fazer pela vida, decorrendo também deste último achantrar-se a qualquer coisa = fazer-se a qualquer coisa ou apoderar-se de qualquer coisa. Constatei que outras pessoas têm exatamente o mesmo entendimento da palavra.

Mas passemos à questão da etimologia e grafia. A minha primeira reação, quando me consultaram sobre o tema, foi fazer uma pesquisa em castelhano[6]. Não encontrei a palavra, mas encontrei uma palavra muito semelhante, achantar , que significa o mesmo. Não pode ser coincidência. Ainda por cima, vi na citada discussão do Facebook, que uma pessoa «comentou a conversa q provocou este post com uma colega que tem 61 anos e ela disse-lhe que (…) “antigamente” se dizia achantar». A etimologia de achantar é clara [7]: do latim plantare , com uma evolução standard em galego e português .  Mas como se chega de achantar a achantrar ? Pois, não tenho uma resposta clara... A aceção 2 de achantrar relaciona-se facilmente com chantra, um termo depreciativo exclusivamente para as mulheres, que, se não quer dizer mesmo prostituta, quer dizer uma mulher que seduz para obter proveitos materiais. É possível que este seja o achantrar original e achantar tenha sido contaminado por ele[8]. Numa situação como «pronto, o gajo já se achantrou», podem confundir-se o ter-se orientado com o ter-se acalmado… Mas isto é tudo pura especulação.

[Muito ligeiramente alterado a 13 de agosto de 2023]

__________________
[1] Explico estas diferenças n outro texto deste blogue.
[2] Uma discussão completa da questão seria demasiado maçuda para a quase totalidade dos leitores do blogue, pelo que resolvi não a incluir aqui. Não que esta versão reduzida não seja também chata para muita gente, mas enfim…. Agora, o que falta fazer é ver como pronunciam a palavra as pessoas que ainda distinguem ç de s . Estou um bocadinho longe de Trás-os-Montes e Beira Alta, mas talvez algum dos meus leitores se queira dar a esse trabalho….
[3] Agradeço a Luís Pinto a informação sobre o dicionário Lello e o artigo de Coromines e a Helena Bastos a informação sobre a entrada do Hoauiss. Corominas não tem certezas definitivas quanto à origem de rebosar , mas parece-lhe que o mais lógico é que de versare se tenha feito reversare , que deu rebo(r)sar , donde se formou depois bo(l)sar. Parece-me uma proposta mais sensata que a de José Pedro Machado, mas não explica nem a nasalação do o (bomssar, bonssar, bõssar) nem o hiato dos oo (boomsar), nas formas medievais atestadas.
[4] A discussão, que prolongava uma conversa noutro lugar, foi lançada por Shyznogoud no Facebook. Evidentemente, uma conversa destas, por muito participada que seja, tem o valor que tem… Mas serve para dar alguns indícios sobre (a variação n)o uso da palavra.
[5] Pode haver, é claro, variação dialetal e socioletal. No entanto, constatei que uma pessoa da zona do Porto e sensivelmente da minha idade diz como eu e reconhece à palavra exatamente os mesmos significados que eu, criado no calão lisboeta. O calão é menos regional do que muitas vezes se pensa e este termo parece ser usado em todo o país. Aliás, o facto de muitas palavras de calão português existirem também em castelhano, ou em variantes do castelhano, indica precisamente esse caráter não dialetal do calão.
[6] O calão português partilha com o calão espanhol vários termos, nomeadamente os oriundos do caló   (que dá a palavra calão , aliás) e tem também vários termos em comum com o lunfardo rioplatense. Procurei, no dicionário da Real Academia e em vários dicionários de lunfardo em linha, todas as variantes plausíveis em castelhano,com ch (*achantrar, *achentrar, *achandrar, ªachandrar) e com j (*ajandrar, *ajendrar, *ajantrar, *ajentrar), que corresponderiam ao x, se este se justificasse etimologicamente. (Quero acrescentar, a propósito da forma com -en-, que se regista também achentrar-se em Portugal, embora provavelmente seja uma forma bastante marginal.) Finalmente, por descargo de consciência, procurei também em dicionários de calão francês, mas em vão.
[7]  Agradeço a Rui Tavares este link. Rui Tavares notou também que a palavra tem, pois, a mesma origem que o termo meridional português prantar , com o qual se pode ver também uma relação semântica.
[8]   A questão é, agora, a origem de chantra. Também é possível que se o possa relacionar com o calão castelhano. Um termo da gíria do Cone Sul é chanta, comum de dois, que significa «intruja; vigarista; alguém que vende gato por lebre» e que, portanto, se relaciona facilmente com chantra em português. Uma etimologia proposta é o italiano ciancia, «burla; mentira», mas também é possível relacionar a palavra com chantagem e chantagear, do francês chantage , de faire chanter, «chantagear» (literalmente «fazer cantar»). Não deixa de ser curioso que haja quem veja na origem do termo chanta o já referido (a)chantar : «La palabra chantar se utilizaba en sus inicios para reemplazar la frase "dejar plantado a alguien"» . Ou seja, é possível que os dois significados do nosso achantrar atual estejam ligados entre si e a este chanta, o que nos deixa com uma questão de ovo e galinha. Quero notar que, a haver relação com as formas castelhanas, não faço ideia de como se pode explicar a epêntese do r das formas portuguesas…