. Os dicionários seguem o mais famoso etimologista português, José Pedro Machado, justificando o
(este asterisco significa que a palavra se supõe ter existido, mas que nunca foi atestada). Mas as formas antigas
registadas pelos filólogos têm todas
correspondiam a dois sons distintos. E é de notar também que não tem sempre havido completo acordo dos dicionaristas
relativamente à grafia e etimologia – o dicionário Lello de 1931, por exemplo, regista
. Ora regista-se em castelhano uma forma antiga
português), que também pode querer dizer «vomitar» e para a qual o Dicionário da Real Academia
, «mexer, revolver, dar volta, …» A mais antiga atestação que encontrei da forma
uma in(o)vação ortográfica oitocentista, que nem sequer decorre, provavelmente, de nenhuma proposta etimológica, já
que a proposta da etimologia *
é posterior e parece ser antes uma maneira de justificar essa grafia.
. No seu
.
O Porto Editora regista a grafia
axandrar
para o verbo que classifica como transitivo e popular, e que define como «acalmar forçadamente». Muito
provavelmente, quem dicionarizou o termo com aquela grafia não tem nenhuma proposta sobre a sua história que
justifique o
x; é, quase de certeza, uma grafia fortuita. Mas haverá alguma boa razão para optar por
x
ou por
ch? Talvez… Pelas razões que passo a explicar, penso que é
achantrar
que se devia escrever (e, por isso, escrevo com
ch
neste texto). Antes de explicar porquê, porém, quero referir de passagem duas questões que não se relacionam
diretamente com a grafia do som [ʃ],
A primeira diz respeito à forma da palavra. A minha impressão é que
achandrar-se
é uma forma recente. A expressão que sempre ouvi desde miúdo foi
achantrar-se
, não
achandrar-se.
Uma discussão alargada no Facebook
[4]
confirma esta impressão: as pessoas da minha geração ou mais velhas usam a forma com /t/
[5]. Tratando-se de um termo de calão pouco dicionarizado (não o encontrei noutros dicionários), uma busca na Internet
mostra que, como seria de esperar, que tanto a grafia como a forma da palavra são instáveis: alternam as formas com
t (
achantrar,
axantrar) e com
d (
achandrar,
axandrar). Em princípio, a postura conservadora que, na dicionarização, preside normalmente à escolha de uma das
formas em uso (neste caso, não se pode falar propriamente de norma culta) deveria levar, em princípio, a preferir-se
a forma com /t/.
Em segundo lugar, há a questão da classificação do verbo como intransitivo e o seu significado. Nunca na minha vida
ouvi o verbo usado nem transitiva nem intransitivamente. Para mim,
achantrar-se
é um verbo exclusivamente reflexivo. Além disso, parece-me que o significado registado no Porto Editora é distorcido
(porquê «forçadamente»?) e bastante incompleto. O
achantrar-se
que eu conheço tem dois significados básicos distintos: 1) acalmar-se, baixar a bola; e 2) orientar-se, fazer pela
vida, decorrendo também deste último achantrar-se a qualquer coisa = fazer-se a qualquer coisa ou apoderar-se de
qualquer coisa. Constatei que outras pessoas têm exatamente o mesmo entendimento da palavra.
Mas passemos à questão da etimologia e grafia. A minha primeira reação, quando me consultaram sobre o tema, foi
fazer uma pesquisa em castelhano
[6]. Não encontrei a palavra, mas encontrei uma palavra muito semelhante,
achantar
,
que significa o mesmo. Não pode ser coincidência. Ainda por cima, vi na citada discussão do Facebook, que uma pessoa
«comentou a conversa q provocou este post com uma colega que tem 61 anos e ela disse-lhe que (…) “antigamente” se
dizia achantar».
A etimologia de
achantar
é clara
[7]: do latim
plantare
, com uma evolução standard em galego e português
.
Mas como se chega de
achantar
a
achantrar
? Pois, não tenho uma resposta clara... A aceção 2 de
achantrar
relaciona-se facilmente com
chantra, um termo depreciativo exclusivamente para as mulheres, que, se não quer dizer mesmo prostituta, quer dizer uma
mulher que seduz para obter proveitos materiais. É possível que este seja o
achantrar
original e
achantar
tenha sido contaminado por ele
[8]. Numa situação como «pronto, o gajo já se achantrou», podem confundir-se o ter-se orientado com o ter-se acalmado…
Mas isto é tudo pura especulação.
[Muito ligeiramente alterado a 13 de agosto de 2023]
__________________
[1]
Explico estas diferenças n
outro texto deste
blogue.
[2]
Uma discussão completa da questão seria demasiado maçuda para a quase totalidade dos leitores do blogue, pelo que
resolvi não a incluir aqui. Não que esta versão reduzida não seja também chata para muita gente, mas enfim…. Agora,
o que falta fazer é ver como pronunciam a palavra as pessoas que ainda distinguem
ç
de
s
. Estou um bocadinho longe de Trás-os-Montes e Beira Alta, mas talvez algum dos meus leitores se queira dar a esse
trabalho….
[3]
Agradeço a
Luís Pinto
a informação sobre o dicionário Lello e o artigo de Coromines e a Helena Bastos a informação sobre a entrada do
Hoauiss. Corominas não tem certezas definitivas quanto à origem de
rebosar
, mas parece-lhe que o mais lógico é que de
versare
se tenha feito
reversare
, que deu
rebo(r)sar
, donde se formou depois bo(l)sar. Parece-me uma proposta mais sensata que a de José Pedro Machado, mas não explica
nem a nasalação do
o
(bomssar, bonssar, bõssar) nem o hiato dos
oo
(boomsar), nas formas medievais atestadas.
[4]
A discussão, que prolongava uma conversa noutro lugar, foi lançada por
Shyznogoud
no Facebook. Evidentemente, uma conversa destas, por muito participada que seja, tem o valor que tem… Mas serve para
dar alguns indícios sobre (a variação n)o uso da palavra.
[5]
Pode haver, é claro, variação dialetal e socioletal. No entanto, constatei que uma pessoa da zona do Porto e
sensivelmente da minha idade diz como eu e reconhece à palavra exatamente os mesmos significados que eu, criado no
calão lisboeta. O calão é menos regional do que muitas vezes se pensa e este termo parece ser usado em todo o país.
Aliás, o facto de muitas palavras de calão português existirem também em castelhano, ou em variantes do castelhano,
indica precisamente esse caráter não dialetal do calão.
[6]
O calão português partilha com o calão espanhol vários termos, nomeadamente os oriundos do
caló
(que dá a palavra
calão
, aliás) e tem também vários termos em comum com o
lunfardo
rioplatense. Procurei, no dicionário da Real Academia e em vários dicionários de lunfardo em linha, todas as
variantes plausíveis em castelhano,com
ch
(*achantrar, *achentrar, *achandrar, ªachandrar) e com
j
(*ajandrar, *ajendrar, *ajantrar, *ajentrar), que corresponderiam ao x, se este se justificasse etimologicamente.
(Quero acrescentar, a propósito da forma com -en-, que se regista também achentrar-se em Portugal, embora
provavelmente seja uma forma bastante marginal.) Finalmente, por descargo de consciência, procurei também em
dicionários de calão francês, mas em vão.
[7]
Agradeço a
Rui Tavares
este link. Rui Tavares notou também que a palavra tem, pois, a mesma origem que o termo meridional português
prantar
, com o qual se pode ver também uma relação semântica.
[8]
A questão é, agora, a origem de
chantra. Também é possível que se o possa relacionar com o calão castelhano. Um termo da gíria do Cone Sul é
chanta, comum de dois, que significa «intruja; vigarista; alguém que vende gato por lebre» e que, portanto, se relaciona
facilmente com
chantra
em português.
Uma etimologia proposta
é o italiano
ciancia, «burla; mentira», mas também é possível relacionar a palavra com chantagem e chantagear, do francês
chantage
,
de
faire chanter,
«chantagear» (literalmente «fazer cantar»). Não deixa de ser curioso que haja quem veja na origem do termo
chanta
o já referido
(a)chantar
:
«La palabra chantar se utilizaba en sus inicios para reemplazar la frase "dejar plantado a alguien"»
. Ou seja, é possível que os dois significados do nosso
achantrar
atual estejam ligados entre si e a este
chanta, o que nos deixa com uma questão de ovo e galinha. Quero notar que, a haver relação com as formas castelhanas, não
faço ideia de como se pode explicar a epêntese do
r
das formas portuguesas…