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08/06/26

Da arrenegação das duplas negativas, uma coisa que agora há


Já uma vez aqui o disse, mas quero agora insistir e desenvolver: essa moda que há agora de defender que as frases negativas só podem ter uma palavra negativa (não, nada, nenhum(ns)/a/as) é simplesmente  sem muitos pés nem muita cabeça. Ao contrário do que pretendem alguns (realço com negrito todas as palavras negativas),

− Não fiz nada

não quer dizer «fiz tudo» e a forma correta de negar toda a atividade não é nem

− *Não fiz alguma coisa, 

que soa a barbarismo, nem

− Não fiz tudo,

que obviamente significa outra coisa.

Ao contrário do que pretendem outros

− *Vi nada ou 

− *Conheço aqui ninguém

são simplesmente frases mal construídas. 

Falar e escrever assim é um erro. E não é erro no sentido em que muita gente usa a palavra de «não conforme com a norma culta», até porque eu não escrevo textos a criticar esse tipo de «erros». É erro no verdadeiro sentido da palavra: essa construção não existe em nenhuma variante, seja ela regional ou social, da língua portuguesa; a não ser, claro está, nos últimos tempos, depois de se ter começado a espalhar a ideia estapafúrdia de que a dupla negativa é erro. Começa-se, aliás, a ver essas construções em textos de pessoas que até escrevem bem — o que é bastante interessante, para refletir sobre como se espalham estes fenómenos de pretensa correção... 

O argumento usado para defender estas construções estranhas ao português é pretensamente lógico: duas negações cancelam-se mutuamente, portanto de duas negativas resulta uma positiva: 

− Não vi nada

significaria, assim, «vi alguma coisa» e

− Não conheço ninguém

significaria «conheço alguém». Este argumento «lógico» é falacioso, como explicarei mais à frente, e o que eu creio que está por trás dessa recente tomada de consciência de, ai!, uma tão grande falha de lógica! é antes do inglês, cuja norma culta não aceita duplas negativas. 

Em inglês padrão (e noutras línguas germânicas) não é obrigatório um termo negativo antes do verbo em frases negativas e usam-se determinantes, pronomes e advérbios específicos depois do verbo, consoante se tenha ou não usado a partícula de negação antes. Assim, segundo essa norma  

− I didn’t see nothing (palavra a palavra, um pouco simplificado: «Eu não vi nada»)

é errado, devendo antes dizer-se

− I didn’t see anything (palavra a palavra, um pouco simplificado: «Eu não vi qualquer coisa») ou 

− I saw nothing (palavra a palavra: «Eu vi nada»)[1]. 

Mas não é o inglês que aqui me interessa, é antes a maneira como se pretende aplicar esta norma ao português. Algumas pessoas, sem grande ideia de como diferentes línguas podem funcionar de diversas maneiras, consideram que a língua deve obedecer ao que eles consideram lógica — algo de que a norma culta do inglês seria bom exemplo — concluindo que as línguas latinas devem seguir o mesmo modelo. 

Vejamos então a questão da lógica. Não se pode dizer que as línguas naturais não sejam lógicas, mas a lógica das línguas é diferente da lógica matemática e de outros tipos de lógica. Essa diferença pode ilustrar-se com exemplos simples e, como não me quero alargar muito sobre o tema, deixo-vos um dos mais óbvios: existem na língua muitas aparentes tautologias, que têm, na realidade, um significado bem diferente de x=x — embora nem sempre seja fácil, mesmo para os especialistas, explicar esse significado. Todos os falantes do português intuem que uma frase como «essa é que é essa» quer dizer algo, mas como descrever o que significa? O mesmo se passa com «um homem é um homem» ou «Trabalho é trabalho, conhaque é conhaque» ou a famosa frase «um gato é um gato, um cão é um cão, xxxxx é aquilo que os outros não são» (perdoem os xx, mas não quero fazer aqui publicidade...). Uma transcrição desta última proposição que fosse feita hipoteticamente por quem diz que duas negativas dão forçosamente uma positiva poderia ser x=-(-x), o que evidentemente não é de modo nenhum o que a frase diz, até porque, se o dissesse, não seria usada em publicidade...[2] 

Enfim, haveria uma número muito grande de exemplos a dar e muito mais a dizer sobre estas coisas, que são muito interessantes, mas não é essa a intenção do texto. O que eu quero é deixar claro que a lógica da língua não é imediatamente acessível a quem atribua simplesmente um valor determinado a cada forma linguística, em vez de se dotar de instrumentos eficazes para descrever o que se passa de facto quando criamos significado.

Além disso, mesmo para quem insista na lógica matemática, poder-se-ia argumentar, como eu já ouvi a alguém, que as línguas de concordância negativa também têm uma lógica matemática, só que, em vez de ser a da multiplicação, como as línguas germânicas, é a da adição: em inglês é menos por menos dá mais, em português é menos mais menos dá menos. Está bem assim? 

Mas passemos à negativa e à negação. As diversas línguas têm várias maneiras de construir frases negativas. Há línguas em que é obrigatória uma negativa antes do verbo e outras em que não, línguas em que a negativa ocorre quase sempre depois do verbo, outras em que é expressa por uma forma flexional no verbo, etc. Não há nenhuma mais ou menos lógica que outras, todas servem para exprimir as mesmas proposições[3]. 

Há, pois, línguas em que, como já vimos, a dupla negativa cancela a negação, usando-se geralmente, neste caso, palavras não negativas como objetos do verbo ou com os objetos do verbo, quando este é negado. Estão neste caso, para referir apenas as línguas mais próximas da nossa, a variante padrão do inglês e a maioria das línguas do mesmo grupo, as chamadas línguas germânicas, como o alemão, o neerlandês, o dinamarquês, etc. 

Há outras línguas em que, nas negativas, uma palavra negativa pré-verbal convoca outras palavras negativas também após o verbo: o que se designa como concordância negativa ou negativa enfática. O português é uma das línguas em que se observa este fenómeno (e não há razão nenhuma para deixar de o ser, sim?).

Não quero dar-vos aqui uma lista extensiva das línguas com concordância negativa, até porque não quero dar exemplos em africâner ou farsi, mas podemos ficar-nos pelas línguas mais próximas e mais fáceis de compreender. As línguas latinas têm, em geral, esta característica[4], de maneira que, em castelhano, catalão e italiano tudo funciona como em português. O francês oral moderno é diferente, porque, como desapareceu a partícula ne, não tem obrigatoriedade de negativas antes do verbo, mas o francês padrão escrito (ou falado em situações formais) faz também parte deste grupo. 

Assim, as frases

– Não vi nada. Não conheço aqui ninguém 

dizem-se, nestas línguas,

− No he visto/ví nada. No conozco aquí a nadie,

− No vaig veure res. No conec ningú aquí e

− Non ho visto niente/nulla. Non conosco nessuno qui.

Em francês oral, é diferente (J’ai rien vu. Je connais personne ici), mas, em francês escrito, a estrutura é a mesma que nas outras línguas românicas:

− Je n’ai rien vu. Je ne connais personne ici.

E porque é assim nas línguas latinas? Era já assim em latim? Não. Em geral, em latim clássico, as duplas negações resultavam numa afirmação, embora haja alguns escritores clássicos que usassem duplas negativas (Plauto: Iura te non nociturum esse homini de hac re nemini, «Jura que não farás, por isto, mal a ninguém.»). 

É interessante constatar que muitas das palavras negativas usadas hoje nas línguas latinas não são as palavras negativas latinas (nemo, nullus, nihil...) e nem sequer são, na origem, palavras negativas. Em português e castelhano, por exemplo, nada vem de [re(s)] nata, «[coisa] nascida»; nadie, «ninguém», em castelhano, vem de nati, «nascidos»; rien, em francês, res, em catalão, e ren, em galego, «nada» vêm de diferentes declinações de rēs, «coisa»; personne, «ninguém», em francês, vem de persona, «pessoa», aucun vem de aliquī unus, «alguém, qualquer pessoa, algo, qualquer coisa», pas vem de pas, «passo», etc. Seria abuso, porém, considerar que a dupla negativa é apenas uma forma cristalizada de palavras originalmente não negativas («não vi nada = não vi coisa nascida [coisa existente]»), porque algumas das palavras negativas, como ninguém em português e nunca em português e castelhano, são negativas à partida. Além disso, uma palavra como nada já não tem hoje, nenhum significado não negativo.

O único caso em português que não é originalmente uma dupla negativa e que se pode considerar inalterado desde há muito tempo é o de nenhum/ns (a/as), que é de facto sempre substituível pela expressão que llhe dá origem, nem um/ns(a/as)e que há até quem (muito poucas pessoas, eu sei, mas conheci algumas) continue a pronunciar exatamente como nem um. 

Mas, enfim, a verdade é que não é necessário saber porque é que um fenómeno linguístico é como é para constatar que ele existe. E a dupla negativa é um facto inegável nas línguas latinas desde sempre.

Agora, a minha experiência é que, em geral, é difícil argumentar com pessoas que defendem a estranha ideia que aqui critico, porque não se interessam muito por questões de língua, apenas por impor uma regra que decidiram adotar, vá lá saber-se porquê – até porque ela não figura em nenhuma gramática normativa que eu conheça. Contra essa tão rígida convicção, mesmo a apresentação de abonações de escritores considerados modelares no uso do idioma pode ser infrutífera. Uma vez, quando, após uma busca de poucos minutos, apresentei abonações de duplas negativas por Camilo Castelo Branco, Ramalho Ortigão e Luís de Camões, o meu interlocutor rejeitou-as como erros dos escritores. 

Mas, como se trata aqui de insistir, agora, em dois ou três minutos, encontro, nas Viagens na minha terra, de Almeida Garrett,

«O meu novelo, filha: não posso estar sem fazer nada, faz-me mal.»

«Mas eu não tenho ódio nenhum a Vila Franca, nem a esse famoso círio que lá foi fazer a monarquia.»

« … porque Addison não põe nada acima da modéstia»

«… depois desta desgraça não me importa já nada»

« Mas não viu nada: o nobre Marquês sempre soube esconder o seu jogo.»

N’Os Maias, de Eça de Queirós, encontro imediatamente

«Nenhum desejo forte parecera jamais vibrar naquela alma meio adormecida e passiva»

«– Sem contar que o pequeno está muito atrasado. A não ser um bocado de inglês, não sabe nada... Não tem prenda nenhuma!»

«– O Sr. Baptista não tem gosto nenhum!»

«Não inspira nenhum respeito pela minha ciência.»

«Carlos não sabia, essa manhã não vira jornal nenhum.»

− Então não lhe digam nada – gritou o marquês.»

E podia continuar com muitos mais citações destas duas obras e de todas as obras de todos os grandes escritores da língua portuguesa, porque, neste tipo de frases, a dupla negativa é tudo o que há — fora talvez de certas liberdades poéticas que eu não me lembro de ter alguma vez encontrado... Continuo a pedir a quem critique a dupla negativa que me apresente abonações do uso que consideram correto por bons utentes da língua. Até hoje, nunca ninguém me mostrou nem uma frase que fosse (ena, tantas negativas!) de um grande escritor que tivesse escrito algo do estilo de 

– *Uma pessoa não aprende alguma coisa ou

– *Uma pessoa aprende nada,

em vez de 

– Uma pessoa não aprende nada…

Já agora — mas porque insistes tu, Vítor, porque insistes tu? — note-se que «uma pessoa não aprende alguma coisa» até é uma frase possível, num contexto como

– Se aprendi alguma coisa com a minha professora? Ora, com uma professora como ela, uma pessoa não aprende alguma coisa, uma pessoa aprende tudo o que há para aprender!.

Da mesma forma, «uma pessoa aprende nada» também é possível, num contexto bastante Zen como

– Com a paragem do diálogo interno, uma pessoa aprende nada, aprende vazio, aprende essência sem substância, a comunhão com o Todo pela anulação da Mente...

Não há nada impossível. Se for mesmo isto que se quer dizer...

E a propósito, nesta frase do parágrafo anterior,

– Não há nada impossível, 

pela tal lógica matemática, deve cortar-se não e im-, que se anulam, e escrever

– Há nada possível?

E já agora, mais algumas perguntas aos detratores da concordância negativa:

– Mais do que nunca, sinto-me incapaz de não dizer senão a verdade

é uma frase negativa ou positiva? Eliminando a concordância negativa, como ficaria? E

– Não haverá nunca ninguém que não deixe de se pronunciar sobre coisas de que, por não ter pensado nelas o suficiente, não sabe que chegue para não dizer disparates?

E 

– Não duvido que haja quem não tenha nunca pensado no que eu o escrevo, senão não o escrevia ?

Na frase

– Não creio que ela saiba nada de negativas,

aceita-se a concordância negativa porque o escopo das negativas é diferente nos dois casos (eu não creio e ela não sabe)? E, se não se aceitar, qual é a lógica disso, se só há uma negativa para cada verbo?

– Se escrevermos as palavras «absolutamente nada» de trás para a frente, obtemos «adan etnematulosba», o que não significa absolutamente nada.  

Como se escreve esta frase com a norma de eliminação da concordância negativa? 

Esta última era a brincar, embora fosse a brincar a sério. Deixei-me levar, não liguem. E notem, porém, que não sou radical ao ponto de recusar construções como (é o que faz o Dicionário Huaiss) 

– Embora ferida, não recebeu qualquer ajuda da polícia, 

considerando que, em bom português, tem de se escrever

– Embora ferida, não recebeu nenhuma ajuda da polícia; 

e nem sequer recuso frases como 

– Não estou de forma alguma disposto a pactuar nesta questão, 

que alguns puristas consideram galicismo, achando que, em português correto, se deve dizer e escrever

– Não estou de forma nenhuma (ou nenhuma forma) disposto a pactuar nesta questão. 

Acho que são construções perfeitamente consagradas pelo uso, ao contrário das que aqui recuso.


Por fim, mais como digressão que conclusão, uma perspetiva diacrónica: naturalmente, a maneira como as línguas exprimem a negativa vai também evoluindo ao longo do tempo. E fá-lo segundo determinados padrões que resultam da diminuição da intensidade articulatória das partículas de negação ao longo dos tempos ou da criação de formas enfáticas de negação que acabam por se tornar as formas standards. Esta proposta de evolução cíclica, mais conhecida na versão do linguista dinamarquês Otto Jespersen, assenta na constatação de uma sucessão de fases que se observa em muitas línguas: 

(I) partícula negativa seguida de verbo; 

(II) partícula negativa seguida de verbo e de segunda partícula negativa; e 

(III) verbo seguido de partícula negativa. 

Roy Bualuan faz aqui (infelizmente só em inglês) um excelente resumo deste «ciclo de Jespersen». 

Quase todas as variantes do português estão atualmente na fase (I), com eventuais construções do tipo (II) para ênfase, como

– Ele não come nada, é um pisco, 

que não significa que a pessoa em questão não ingere alimentos em absoluto, senão já estaria morto, mas entende-se antes como «ele come muito pouco».

A fase (II) observa-se em variantes brasileiras com o redobro do não após o verbo, como em

– Não sei não,

além de cadeias de concordância negativa, claro;

E, embora com menos frequência, observam-se também construções da fase (III), com um único não posposto ao verbo em variantes não-standard brasileiras:

– Dona Rute, aqui na rua? Conheço não, amigo. 

E, por agora, não tenho mais nada a dizer. 

_________________   

[1] Note-se que, embora não sejam termos negativos, any, anyone, anything, etc., não são termos positivos como o são some, someone, something, e não se usam apenas no escopo de um verbo negado, mas também no escopo de certos verbos não negados como em «he doubted he had seen anyone» — e não «he doubted he had seen someone»  *«I did’t see something» é tão agramatical como a frase que diretamente lhe corresponde em português, *«Eu não vi alguma coisa».

[2] Vejamos então, seguindo um raciocínio lógico, o que se passa quando digo, por exemplo, que

− A minha cadela está farta de saber que não pode trazer os ossos que lhe dou no quintal para dentro de casa, mas insiste, insiste, insiste sempre — não sei para quê, porque eu ponho sempre os ossos lá fora outra vez…

e a minha interlocutora comenta

− O que é que querias? Um cão é um cão, pá!

O que acontece é que uma mesma palavra pode significar várias coisas, por exemplo, referir um ser do mundo real ou a classe de todos os seres do mesmo tipo ou as características que o falante atribui a esse tipo de ser. O que a minha interlocutora diz, obviamente, é que «uma característica da espécie que não pode deixar de se aplicar ao teu cão é querer guardar os ossos no seu território e contra isso não há nada a fazer». As duas ocorrências da palavra cão têm, na sua resposta, significados diferentes.

[3] Há quem considere também que há dupla negativa nas frases em que um dos elementos da predicação nega a negação da predicação, como em «isto não está incompleto», em que «incompleto» significa «não completo». Creio que, neste aspeto, todas as línguas funcionam da mesma forma. Neste caso, há dupla negação, o que resulta numa afirmação, mas é duvidoso que haja dupla negativa em sentido estrito. Se admitirmos que «incompleto» é «não completo» e que, por isso, há duas negações na frase, como muitas palavras têm antónimos, mais ou menos perfeitos e mais ou menos graduáveis,  teremos de admitir que há dupla negativa em (i) frases como «esta folhagem não é caduca» ou «ele não está morto» (mas como se determina qual é o valor não negado em pares de adjetivos como «caduco» e «perene» ou «morto» e «vivo»?); (ii) em frases como «ele não é imberbe», por muito que «berbe» não exista; e (iii) em frases sinónimas da frase com a pretensa dupla negativa, por exemplo «isto não está por terminar» em vez de «isto não está incompleto» — e acho que ninguém o faz…

[4] Há até línguas em que tradicionalmente se usam,  sobretudo no discurso mais formal, duas negativas antes do verbo em contextos específicos:

– Nada é gratuito, tudo tem um preço e ninguém pode negar que me esforcei

diz-se, em catalão e francês, respetivamente,

– Res és gratuït, tot té un preu i ningú pot negar que m’hi he esforçat e

– Rien est gratuit, tout a un pri et personne peut nier que j’ai fait un effort,

mas também se pode dizer e escrever (alguns puristas dirão que se deve...) 

– Res no és gratuït, tot té un preu. Ningú no pot negar que m’hi he esforçat e

– Rien n’est gratuit, tout a un prix. Personne ne peut nier que j’ai fait un effort. 

O mesmo fenómeno existia em português medieval, em que se documentam frases como «nehūu nō scapou nen nehūa cousa que na vyla ouvesse» e também em inglês médio (Chaucer: «He nevere yet no vileynye ne sayde», palavra a palavra: «Ele nunca [ainda] nenhuma vilania não disse»).  

Observa-se, curiosamente, uma construção parecida no português de Moçambique, que, não sendo ainda considerada standard, talvez se venham a fixar: em frases iniciadas com nem, com o sentido de «nem sequer», coloca-se um segundo não antes do verbo: «nem dinheiro para o chapa não tenho». 



26/07/25

O que hoje mal dito está, amanhã regra será

Hoje de manhã, topei por acaso com um provérbio que não conhecia,

Aurora ruiva, ou vento ou chuva, também com a variante Manhã ruiva ou vento ou chuva.

E pensei assim: é claro que há provérbios com rima toante, como, por exemplo, outro provérbio que eu conheço, que diz o mesmo que este:

Céu vermelho de madrugada, marinheiro põe-te em guarda. 

Mas também pode ser que o provérbio seja uma tradução do castelhano, em que teria rima perfeita (B e V pronunciam-se da mesma forma em castelhano): 

Manãna rubia, viento o lluvia.

Ou então, hipótese mais improvável, o provérbio é tão antigo que, quando ele surgiu, ruiva e chuva ainda tinham a mesma forma no romance do que é hoje Portugal — porque muito provavelmente a tiveram…

E uma busca na internet revelou que existe de facto um provérbio espanhol que coincide com a minha hipótese, apenas com uma palavra diferente da minha tradução: 

Alba rubia, viento o lluvia. 

Fiquei muito satisfeito com a minha perspicácia, é claro, mas continuei sem resposta: o provérbio português tanto pode ser uma importação do castelhano como podem ter ambos uma origem romance comum…

Metáteses em português e castelhano

Os pensamentos são como as cerejas e isto levou-me à questão das metáteses em português e castelhano. Fiz há coisa de 25 anos uma lista bastante longa e, creio eu, bastante completa também, de diferenças sistemáticas entre o castelhano e o português[1]. Um dos tópicos dessas diferenças são as palavras que sofreram metáteses numa das línguas, mas não na outra.

Metátese, então. Peço desculpa pelo palavrão e eis a sua definição: chama-se assim à permuta de dois sons de uma palavra, como quando se diz *dentrífico em vez dentífrico[2]. Se a metátese for entre dois sons consecutivos, como em *dromir por dormir, chama-se uma interversão.

Este processo é tão frequente que existe em todas as línguas que conheço — e, ao que tenho visto, também nas línguas que não conheço. Agora, é interessante constatar que uma metátese que em determinada altura é considerada erro, como o são agora *dromir ou *dentrífico, pode mais tarde passar a ser a forma correta, como veremos adiante; e que, em duas línguas tão próximas como o português e o castelhano, não coincidem as metáteses tornadas norma, o que, nalguns (raros) casos, faz com que os falantes de uma das línguas achem divertida a palavra na outra língua. Por exemplo:

*Preguntar, em vez de perguntar, é erro em português[3]; mas em castelhano é ao contrário, preguntar é a forma considerada correta — e nem sei se alguém diz *perguntar em castelhano, nunca tal ouvi. Como a forma etimológica é percontāri,  foi em castelhano que vingou a troca de sons, o português segue o étimo sem permutações.


O mesmo em cocodrilo, que vem do grego krokodilos pelo latim crocodilu-: em português, não houve metátese, em espanhol, sim. E cocodrilo faz-nos sorrir.

Morcego é uma terceira palavra que em português evoluiu direitinha, se se pode dizer assim, ao passo que em castelhano sofreu trocas de sons internas. O desgraçado do morcego não tem nome próprio em várias línguas, é só um rato careca em francês (chauve-souris), um rato esvoaçante em dinamarquês (flagermus), um rato cego em português e galego (mur(is) caecu(s) deu morcego), e um rato ceguinho em castelhano: mur(is) caecŭlu(s) deu murciégalo, que já foi a palavra normal e está hoje caída em desuso, tendo sido substituída pela forma com metátese, murciélago. Ganhou o erro de antigamente, que por isso deixou de ser erro…

Quem achar estranho que uma pronúncia errada se tenha tornando forma correta, não deve ficar a rir-se do castelhano, já que o português tem muito mais formas destas que aquela língua. Eis, por ordem alfabética, uma lista que não se pretende de forma alguma exaustiva, de palavras portuguesas que incluem metátese na sua evolução, comparando com o castelhano quando possível:

Aipo, do latim apiu-, «devia» ser *ápio, como é em castelhano (apio);

A palavra caranguejo vem do castelhano cangrejo, que por sua vez vem do latim cancricŭlu-[4], e, ao entrar no português, sofreu uma metátese (dizem alguns que por influência de carango, mas não sei…) que a deixou como a conhecemos...

Disfarçar, que vem do castelhano antigo desfrazar, seria, sem a interversão, *disfraçar, igual ao castelhano atual disfrazar, mas nós trocámos os sons à palavra.

Freguês vem de filĭus eclesiae, «filho da igreja» e, se não tivesse vingado a forma «mal pronunciada, seria *fegrês (ainda se vê feegrês em galego-português), depois de uma longa evolução que, em castelhano, não sofreu metátese: diz-se feligrés.

Gaiv%C3%A3o
Gaivão, esq. e gavião, dir. Wikimedia Commons, daqui e daqui.
Caso curioso é o de gaivota, que devia ser *gaviota, como é em castelhano, porque vem do latim gavia-, mas nós trocamos-lhe os sons, como trocámos também ao gaivão, aliás, mas não ao gavião. Evidentemente, a metátese permitiu-nos, neste caso, distinguir dois animais muitos diferentes a partir de um mesmo termo romance... 

O geolho antigo, derivado diretamente do latim genuculu-, transformou-se, por metátese, em joelho e a forma deformada[5] pegou. O castelhano hinojo, que corresponde diretamente a geolho (por estranho que isso possa parecer a quem não conheça a história do castelhano), evoluiu sem trocas do lugar dos sons dentro da palavra.

Também jogral devia, pela lógica etimológica, ser *joglar como em castelhano, já que vem do francês antigo jouglere, mas em português veio a metátese trocar-lhe os sons.

Por fim, não fossem as interversões, raiva e ruivo também seriam *rávia e *rúvio, como são em castelhano, porque é isso que decorre naturalmente dos étimos latinos rabia- e rubeu-. Mas não, trocámos-lhe a ordem dos sons.

E depois, há casos de metáteses comuns aos dois idiomas, como a palavra palavra[5] (palabra em castelhano), que vem de parabola- e seria pois, sem a troca de sons, *parabla ou *paraula ou algo assim, com um /r/ na sílaba central e um /l/ na última sílaba. O português (não o castelhano) tem outra palavra da mesma família, palrar (do latim parolare) também com /r/ e /l/ trocados relativamente ao étimo.

Quanto a formas de origem discutida, temos noiva, que é novia em castelhano, e carapaça, que é caparazón em castelhano — mas não me atrevo nestes casos a dizer onde houve metátese…

Conclusão: não acredito muito que *auga, *metereologia e *protanto tenham grandes possibilidades de algum dia vir a ser as formais normais em português, mas é bom lembrar-se que não são solecismos maiores do que já o foram disfarce ou joelho.

O meu pecado pessoal é o metoprolol. É um termo que uso na minha vida profissional e engano-me sempre a pronunciá-lo: a reboque de metrópole, acho eu, digo *metropolol. Os sons /l/ e /r/ parecem ser muitos suscetíveis de troca, e mais ainda se alguma parte da palavra nos remete para outra palavra com a sequência de sons trocada. Às vezes, é curioso é a abundância de uma determinada sequência de sons que provoca a metátese: acho que ninguém diz trigue por tigre a não ser na proximidade de outros tri-: três tristes trigues, não é verdade?

Reptile003dCrocodilo tornou-se cocodrilo em castelhano, mas não *corcodilo nem *cocordilo. Porquê? Deve haver algo nesta sequência concreta de sons, neste contexto fonético específico e/ou na estrutura fonética do castelhano em geral, que a torne de alguma forma preferível, ou «mais natural», ao ouvido dos falantes. Mas o quê?

Não tenho a certeza de ter ouvido alguma metátese de crocodilo em português. Talvez *corcodilo, que me parece a mais «natural» na nossa língua...



P. S.: Já agora, de bónus: metáteses em francês e inglês

O francês também tem algumas palavras cuja forma atual resulta de metáteses. Eis algumas delas:

Brebis, «ovelha», já foi berbis, o que é natural, dado que vem do latim berbex; mas depois o /r/ e o /e/ trocaram de lugar.

A forma atual espadrille, «alpercata de sola de corda», é uma metátese de espardille, que vem do occitano espardilhos, de espart, «esparto», porque se trata, precisamente, de sapatos com sola de esparto.

Farouche, «bravo, arisco», vem do latim forasticus, que deu primeiro fourache. Este termo sofreu depois uma surpreendente metátese: o /a/ e /u/, em sílabas diferentes, trocaram de lugar.

Fromage, «queijo», devia ser – e já foi – formage, porque vem de formaticu- (o queijo é feito em formas).

Gourmet, «gastrónomo, apreciador de boa comida», vem de gromet, termo antigo para designar o criado responsável pelo vinho, e a interversão de /r/ e da vogal contígua deve ter sido influenciada pela palavra gourmand, guloso, que também tem a ver com comes e bebes, mas não tem relação etimológica nenhuma com gromet.

Moelle, «tutano», vem duma metátese de meolle, que vem, por sua vez, do latim medulla- (parente muito chegada, portanto, do português miolo, que tem a mesma origem).

Moustique, «mosquito», vem do espanhol mosquito, mas com troca de lugar dos sons /k/ e /t/.

Tirando isso, são apontadas como metáteses correntes *aréoport por aéroport; *astériks por astérisque (e que seria da escola franco-belga de banda desenhada sem esta interversão?); *génicologue por gynécologue, talvez com influência de génital e afins; *infractus por infarctus, talvez por influência de fracture; e *rénumeré por rémunéré, provavelmente por influência de numéro — entre muitas outras…


Em inglês, há também umas quantas palavras atuais que resultam de trocas de sons passados, que, de erro, passaram a norma. Por exemplo:

Bird vem do antigo bridd, de origem desconhecida, que significava um passarinho jovem.

Nostril, «narina, vem do inglês antigo nosþyrl ou nosðirl, composto de nos(u), «nariz», e þyrel «buraco», mas o /r/ e o /i/ trocaram depois de lugar.

Third, «terceiro», também tinha o /r/ e o /i/ em posições invertidas, que são as etimológicas e correspondem às das outras línguas próximas: dizia-se thrid e a transformação em third atesta-se desde o fim do séc. X. As duas formas coexistem até ao séc. XVI, mas a forma trocada acaba por vencer. Verifica-se o mesmo fenómeno em thirty, «trinta»: atesta-se, desde o fim do séc XIV, a transformação do thriti original em thirti.

Wasp, «vespa», era wæps em inglês antigo, mas depois os sons /p/ e /s/ trocaram de lugar, talvez por influência do latim vespa.

E fico por aqui, que já vai longo o post scriptum...

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[1] É um trabalho útil para quem aprenda uma das línguas, mas o formato de blogue presta-se mal à sua publicação, de maneira que nunca aqui o pus. Se alguém quiser esta lista, pode contactar-me e enviar-lha-ei por e-mail.   

[2] Assinalo com um asterisco grande e vermelho as formas produzidas por falantes nativos, mas consideradas incorretas pela norma culta. Os asteriscos negros e pequenos indicam formas que nunca vi nem ouvi.

[3] *Preguntar é considerado erro na escrita e no português falado no Brasil. Em Portugal, a diferença entre perguntar e *preguntar não se ouve em português moderno falado a velocidade normal, porque o /e/ desparece, venha antes ou depois do /r/.

[4] Se viesse diretamente do latim, a forma portuguesa seria em princípio *cancrelho ou *cangrelho.

[5] É mesmo para ser assim: «forma deformada», «palavra palavra», não é deslize, é estilo brincalhão, se bem que, como vocês com toda a razão pensam, de gosto bastante duvidoso...

15/11/23

A história de Charles e de outros poliglotas

Conheço um senhor chamado Charles que nasceu na Occitânia, já não me lembro onde, por alturas do início da Segunda Guerra Mundial. Os pais dele eram judeus polacos da Galícia (que faz hoje parte da Ucrânia) e tinham fugido para França das perseguições aos judeus na sua terra. Não me lembro já porquê (talvez o pai e a mãe tivessem línguas maternas diferentes), Charles aprendeu em casa o iídiche e o polaco. Na rua, aprendeu occitano. E só quando entrou para a escola começou a aprender francês, que é hoje a língua que melhor domina. Mais tarde, porque o trabalho o levou para outros países, aprendeu também inglês e alemão (que foi fácil para ele, por já saber iídiche), mas isso é outra história. 

Esta história de plurilinguismo, que parecerá estranha a quem cresceu e viveu sempre numa língua só, como é o caso da grande maioria dos portugueses, não é tão extraordinária como isso. Um dos melhores amigos do meu filho na Escola Internacional de Chimoio, em Moçambique, o Wilhelm, era alemão e, quando viemos para a Dinamarca, a família do Wilhelm mudou-se também para a Alemanha. Quando o fomos um dia visitar perto de Niböl, não muito longe da fronteira dano-alemã, ficámos a saber que coexistiam ali pessoas de quatro línguas maternas.  O amigo do meu filho falava português, inglês e alemão (alemão standard, alto-alemão) e andava agora numa escola dinamarquesa, onde aprendia dinamarquês e alemão. Os pais tinham escolhido a escola dinamarquesa porque achavam que era a melhor da zona, e há ali uma escola dinamarquesa porque vivem ali muitas famílias (alemãs) de língua dinamarquesa, até porque a região fez, durante muito tempo, parte da Dinamarca. Mas também há, na zona, quem tenha o baixo-alemão como língua materna e o frísio. No sul da Dinamarca, também há ainda famílias que têm o alemão como língua materna. Não sei se alguma vez houve quem tivesse o baixo-alemão como língua materna na Dinamarca, nunca ouvi nem li nada sobre isso, mas sei que já houve falantes de frísio, que agora já não existem. O frísio é ainda uma das línguas oficiais dos Países Baixos, e, entre este país e a Alemanha, tem agora cerca de 480.000 falantes nativos. 

A escolarização é em parte responsável pelo desaparecimento de muitas línguas que os governos das várias nações não quiseram durante muito tempo considerar oficiais e que não foram, por isso, línguas de ensino e administração. Além disso, os estados-nação modernos tiveram, muitas vezes, políticas de repressão brutal das línguas que não eram consideradas oficiais. 

França é um bom exemplo dessa erradicação das línguas nacionais — violenta e bastante bem-sucedida —, mas não é o único. Fiz as minhas primeiras viagens em França em 1976 e ainda cheguei a encontrar franceses, falantes de catalão ou de poitevino-saintongês, que falavam pouco francês (e cheguei até a conhecer dois deles, um casal, quando vivi num lugarejo perto de Niort), mas os jovens franceses de hoje já não têm como língua materna o provençal, o occitano, o bretão, o catalão, o picardo, o normando e por aí fora. Com sorte, e sobretudo se não forem de uma cidade grande, ainda compreendem um bocadinho dessas línguas, porque as ouviram ou ouvem falar aos mais velhos. E o mesmo em Itália e em muito outros países. 

Conheci há pouco tempo o Luigi, um genovês de trinta e cinco anos, que dizia saber mesmo muito pouco genovês (ou lígure, se preferirem).  Dizia que, às pessoas citadinas da idade dele ou mais jovens, não lhes servia de nada o genovês. Se vivesse no campo, era capaz de ter aprendido. Mas chateava-o, na sua qualidade fã de Fabrizio de André, só compreender as letras em italiano oficial (toscano) e não perceber as outras que o grande cantautor fez na língua da sua cidade natal. Na Ligúria, menos de 10% das pessoas falam lígure. Nem sempre a situação das outras línguas italianas (veneto, friulano, piemontês, lombardo, siciliano, tantas que há…) é tão grave como a do genovês, mas estão todas ou definitivamente ameaçadas ou gravemente ameaçadas, para usar a terminologia do UNESCO. Curiosamente, as línguas que, nas regiões onde são faladas, têm maior percentagem de falantes nativos relativamente ao italiano não são línguas latinas, mas sim línguas germânicas — falares tiroleses e alemânicos.

Passando agora da Europa para África, também conheci em Moçambique muitos poliglotas. Moçambique tem muitas línguas (contam-se entre oito e 41, mas é sempre difícil contar línguas) e as pessoas com formação profissional começaram a ter muita mobilidade. Funcionários do Estado a maior parte deles, iam sendo colocados em vários lugares, onde ficavam quatro ou cinco anos. Dou-vos um exemplo de um senhor que conheci chamado Monteiro. O Monteiro era do Alto Molócuè e de língua materna lómuè, mas tinha estudado em Quelimane, onde tinha adquirido um nível razoável de chuabo e depois trabalhado muito tempo em Maputo, onde aprendeu bastante ronga e changana, e depois de uns anos na sua terra natal, mudou-se para Chimoio, onde aprendeu chona. Além disso, também falava muito bem português, como seria de esperar de uma pessoa com o seu nível de educação, toda ela em português. Em Moçambique, é o português que cresce a olhos vistos (língua materna de cerca de 5% da população em meados dos anos 90, é agora a língua materna de cerca de 17% dos moçambicanos), mas não há, por enquanto, perigo de abafar completamente as línguas com que convive. Por enquanto.     

E isto tudo a propósito de quê? De nada de especial, é mais um texto ao correr do teclado, a propósito de línguas e pessoas que conheço e recordações de viagens. Falo aqui de duas coisas diferentes: de sítios onde se falam várias línguas e de pessoas que falam várias línguas. São coisas diferentes. Há pessoas que falam só uma língua, embora sejam de sítios onde se falam várias; e há pessoas que falam várias línguas e são de sítios onde se fala só uma. Agora, feliz ou infelizmente — vocês julgarão, com a cabeça e com o coração — cada vez se fala mais a língua oficial de cada país e as outras vão desaparecendo…

Como se ilustra um texto assim? Que tal uma versão frísia de uma bonita canção originalmente escrita em sueco por um cantautor de língua materna neerlandesa?

07/04/22

Dupla negativa

 

Pela alminha de quem vos seja mais querido, não escrevam frases negativas sem negação antes do verbo! 
Surgiu agora uma moda, talvez inspirada na estrutura das línguas germânicas (inglês?), de não pôr negativa antes do verbo quando há um elemento negativo depois, justificando-se essa prática com a pretensa regra «lógica» de que uma negativa de uma negativa é uma positiva. Assim, por exemplo, dever-se-ia escrever 
Eu vi nada 
porque, se se escrever 
Eu não vi nada 
está-se a dizer que se viu alguma coisa. Francamente... 
Em português — e nas outras línguas latinas que conheço, exceto em francês oral, por causa da supressão do advérbio ne na fala — a regra é que, numa frase negativa tem de haver sempre uma negativa antes do verbo. «Nada vi» ou «Não vi nada», está bem; *«Vi nada», não! E é igual em espanhol, «No he visto nada», em italiano, «Non ho visto niente», e em francês escrito, «Je n’ai rien vu». Nas línguas latinas, não há nenhuma distinção do tipo da que existe, por exemplo, entre nothing e anything em inglês: numa frase negativa, nada é ambas as coisas. 
Procurem lá onde quiserem, nos textos todos da língua desde sempre, em todos os escritores que considerem modelos de bem escrever, a ver se encontram abonações dessa estranha estrutura que agora se começa a ver por aí. 
«Vi nada» é uma frase poética que diz que se alcançou a mais alta e perfeita iluminação. Ou então é um erro de português.

30/08/19

Vírgulas, mais uma vez

Isto de vírgulas é complicado. Quero aqui falar de um erro comum e pouco notado, que, ao contrário de muitos erros frequentemente criticados, tem implicações importantes em termos de sentido: pôr entre vírgulas sintagmas ou orações restritivas. Está mal. Só os sintagmas apositivos é que se põem entre vírgulas. Ena, tantos palavrões técnicos. Importa-se de trocar isso por miúdos?*

Um modificador restritivo de um nome especifica a que(m) é que o nome se refere. Se eu tiver duas irmãs, a expressão nominal «a minha irmã» pode referir qualquer das duas. Mas se, das duas, há uma «que mora na Suíça» e outra «que mora em Portugal», estes sintagmas podem servir para especificar de qual das duas estou a falar: «A minha irmã que mora na Suíça faz anos amanhã.» São estes modificadores restritivos os que não se escrevem entre vírgulas.

Já um modificador apositivo diz alguma coisa extra daquilo que é referido pelo nome, sem por isso o definir por oposição a outras coisas ou seres designados pelo mesmo nome. Se eu só tenho uma irmã e ela faz anos amanhã, direi «A minha irmã faz anos amanhã». E posso, claro está, acrescentar a esta afirmação alguma informação adicional sobre a minha irmã, por exemplo, que ela mora na Suíça: «A minha irmã, que mora na Suíça, faz anos amanhã.» Este tipo de frases é muito raro na comunicação oral, pelo que não há normalmente confusão entre os dois tipos de frase na oralidade (seria mais natural qualquer coisa como «A minha irmã faz anos amanhã. Mora na Suíça, essa minha irmã.»), mas ocorre na escrita, porque na escrita há tendência a condensar e concentrar a informação. E os apostos vêm sempre entre vírgulas, porque são sintagmas que se podem escusar ou mover para outro lugar.

Agora, nem todos os modificadores restritivos são orações relativas, como nos exemplos acima. Mas as regras de uso das vírgulas são as mesmas. Escrever, por exemplo, falando de Herman Melville que «Alguns veem no seu livro, The confidence man, uma sátira de Henry Ward Beecher» só faz sentido se Herman Melville não tivesse escrito mais nenhum livro, o que não é certo; e escrever que “O considerado entomologista de Harvard, E.O. Wilson, fez notar que, sem insetos, a vida desapareceria da terra», só estaria correto se o E.O. Wilson fosse o único etimologista considerado de Harvard, o que também não acontece.

Notem que nem sempre o problema deste erro é dar como único o que o não é. Pode também criar outro tipo de alterações do significado da frase onde ocorre. A frase «Alice é uma peça de teatro musicado sobre os conflitos internos do autor, Charles Dodgson, mais conhecido pelo seu pseudónimo literário, Lewis Carroll» dá Charles Dodgson como autor de uma peça de teatro cujos autores são de facto Kathleen Brennan e Tom Waits. O que queriam escrever era «Alice é uma peça de teatro musicado sobre os conflitos internos do autor Charles Dodgson, mais conhecido pelo seu pseudónimo literário, Lewis Carroll».

Lembro-me de que uma vez tive de pedir esclarecimentos à autora de um relatório que estava a traduzir e em que se afirmava que «os camponeses de Ribauè, que foram apoiados pelo projeto, aumentaram de facto a produção de milho». O projeto destinava-se de facto a apoiar todos os camponeses de Ribauè? Não, não, o projeto tinha como grupo-alvo um número restrito de camponeses do distrito – o que ela queria dizer era «os camponeses de Ribauè que foram apoiados pelo projeto aumentaram de facto a produção de milho», ou seja, restringir o número de camponeses que tinham aumentado a sua produção de milho aos que tinham sido apoiados pelo projeto.

Isto de vírgulas é um bocado complicado....


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* Podem ver, por exemplo –  e contrastar com a minha – a explicação que dá o Ciberdúvidas da diferença entre os dois tipos de modificadores. Mas encontram muitas outras na Internet.

19/10/18

Alfinetes de ama

Vocês sabem que eu nem sou nada purista, mas... alfinete de dama? Alfinete de ama, isso sim, como, aliás, épingle à nourrice em francês ou spilla da balia em italiano.  E sim, eu sei que alguns dicionários já registam alfinete de dama e fazem muito bem, se há de facto muita gente a dizer assim. Mas não gosto, não há nada a fazer...

Duas marcas de automóveis tiveram a mesma ideia de usar o alfinete de ama na sua publicidade. Ora, não me parece que seja o objeto propriamente dito que suscita a ideia de segurança, mas sim o seu nome em várias línguas (safety pin, sikkerhedsnål, Sicherheitsnadeln, etc), de maneira que, em quem, como eu, pensa em fraldas e punks quando vê a imagem do alfinete, o anúncio não tem exatamente o efeito pretendido...

É certo que não tenho direitos sobre as imagens, mas achei que as podia aqui utilizar, por se tratar de um texto de caráter obviamente didático – sobre ícones que afinal o não são –  e, além do mais, de publicidade gratuita (pelo menos, para a marca da direita, a outra não é imediatamente reconhecível...).

19/04/16

Geração e mestrado


Nos comentários a um texto meu de há 8 anos, discute-se a pronúncia de geração e mestrado. Em vez de responder a esses comentários com mais um comentário, prefiro fazê-lo aqui num texto novo, porque trato, nesta resposta, questões que talvez interessem a mais pessoas.

O texto que suscitou os comentários de que aqui trato é sobre o sotaque de Lisboa e um comentador que assina Tuggaboy defende que «[e]m Lisboa […] se dizem mal palavras como mestrado (que dizem "mèstrado") [e] geração (que dizem "gèração"»[1]. Outro comentador, Marco Neves, reponde-lhe que «não se pode dizer que sejam formas erradas de falar», já que «[g]eração e mestrado podem ser ditos assim» e acrescenta que «[há] outras palavras com sílabas átonas de vogal aberta, como padeiro, actor, etc.» Tuggaboy, num comentário posterior, aceita o «a aberto» na pronúncia de padeiro, mas, segundo ele, «mais gente diz padaria com o a átono, se bem que o a aberto está a ganhar em número.» Quanto a actor, diz Tuggaboy, «tem o c que abre a vogal, regra básica do português.» E insiste que «mestrado e geração com o e aberto é sotaque de Lisboa, não é a forma correcta.» Diz que falou com professores, investigou e pode afirmá-lo com 100% de certezas. «Geração vem de gerar, não de gèrar», defende. E termina afirmando que «O sotaque padrão de Portugal é o de Coimbra», onde «quem ainda não foi apanhado no sotaque de Lisboa […] não põe acentos inexistentes».

Há muito que comentar e talvez o melhor seja começar pelo princípio, fazendo um pequeno resumo da história da pronúncia das vogais átonas e da história destas duas palavras. Parece-me prático, neste texto, recorrer aos símbolos fonéticos para o «e fechado» (de se) e o «é aberto» (de sé), para os quais usarei respetivamente /ə/ e /ɛ/, mas, para não complicar a vida de quem não está habituado a estes símbolos, escreverei o resto das palavras com grafia normal, não com símbolos fonéticos. O que se segue é, naturalmente, simplificado para dar uma ideia de fenómenos gerais, porque às vezes as coisas são um bocadinho mais complexas.

Ao contrário do que parece depreender-se do que Tuggaboy afirma, as pronúncias com «e aberto», /gɛração/ e /mɛstrado/ são pronúncias conservadoras e não uma inovação introduzida pelos lisboetas nem por ninguém. Inovação são, isso sim, as pronúncias /gəração/ e /məstrado/, mas uma inovação perfeitamente compreensível, porque motivada pela grande tendência para a regularização das regras, que age constantemente em todas as línguas.

Em português antigo, as vogais pronunciavam-se como se pronunciam hoje em espanhol: a, e e o eram /à/, /ê/ e /ô/ quando não estavam na sílaba tónica. Depois, foi-se relaxando a pronúncia destas vogais átonas. Para simplificar, podemos dizer, como muitas vezes se diz, que começaram a «fechar-se». Mas não todas ao mesmo tempo. Este «fechamento» deu-se em dois momentos distintos: num primeiro momento, fecharam-se as vogais átonas que estavam depois da sílaba tónica (postónicas): o /ô/ final passou a /u/, o /à/ final passou a /â/e o /ê/ final passou a /i/. As vogais átonas antes da sílaba tónica (pretónicas) continuaram a pronunciar-se /à/, /ê/ e /ô/[2]. Em seguida, começaram a fechar-se também as vogais átonas pretónicas e os ee átonos que se pronunciavam /i/ foram-se fechando mais até ficarem /ə/ — e chegámos à pronúncia atual.

Agora, há exceções a esta evolução. Marco Neves deu exemplos de duas delas, padaria e ator, mas há dezenas e dezenas, provavelmente centenas. Em princípio, geração e mestrado deviam, precisamente, fazer parte dessas exceções.

As palavras que mantiveram vogais átonas abertas fazem-no principalmente por duas razões: ou porque a vogal está numa sílaba que termina com determinada consoante[3] ou porque ela resulta de uma fusão de duas vogais ao lado uma da outra. Costuma dizer-se, neste último caso, que estavam «em hiato» e chama-se crase a esta fusão. É este caso que nos interessa analisar quando falamos de geração e mestrado.

Uma característica dos falares romances que vieram a dar o português foi deixar de pronunciar muitas consoantes entre vogais. Quando se compara o português com as outras línguas latinas, isto torna-se evidente, mesmo para quem não sabe qual a origem latina das palavras: compare-se, por exemplo, generación, génération e generazione com geração, por exemplo, e panadería com padaria. Ora acontece normalmente que uma vogal aberta que resulta dessa crase «resiste» à regra geral de «fechar» as vogais átonas. É por isso que se diz /esquɛcer/ e não /esquəcer/, /aquɛcer/ e não /aquəcer/, etc., etc., etc.  É muito improvável que geração venha de gerar, como Tuggaboy afirma. De facto, os dicionários dizem que, como parece mais plausível, a palavra deriva diretamente da palavra latina generatione(m). Quando caiu o n intervocálico, ficaram durante algum tempo dois ee ao lado um do outro, que acabaram por se fundir, como é normal nestes casos, num /ɛ/, um «e aberto». Quando os ee átonos do português, que eram /ê/, passaram a /i/ e depois a /ə/, este «e aberto»/ɛ/, que era um som diferente, manteve-se nas palavras onde tinha havido crase[4]. Compare-se, por exemplo, /prɛgar/ e /prəgar/, ambos escritos pregar, em que o primeiro vem de praedicāre e passou, portanto, por uma fase preegar e o segundo vem de plicāre e teve a evolução «normal» sem crase. Se tivermos em conta este fenómeno, não só está explicada a pronúncia /gɛração/, como ela até parece mais normal. O anormal é precisamente, que geração tenha começado a pronunciar-se /gəração/ e talvez mais ainda que gerar se tenha começado a pronunciar como atualmente se pronuncia. Quanto a mestrado, a questão é exatamente a mesma: as palavras da família de mestre, como mestria ou amestrar, têm /ɛ/ aberto por causa da crase[5].

Mas então, /gɛração/ e /mɛstrado/ são típicos de Lisboa? Pode ser. Parece-me estranho que só em Lisboa se tenha mantido essa pronúncia tradicionalista, mas é possível. Não tenho maneira nenhuma de o verificar, teria de ir ver como o dizem as pessoas em todo o país, uma coisa um bocado fora do meu alcance. Mas é bastante mais provável que haja oscilação entre as duas pronúncias em várias zonas, embora não negue à partida, que a pronúncia moderna se possa ter espalhado mais rapidamente em certas regiões. Não sei.

E qual é a pronúncia correta? Bom, em vez de correta, gosto mais de falar de padrão ou de norma, para não parecer que as outras maneiras de falar são incorretas, quando são apenas variantes regionais ou sociais[6]. Mas Tuggaboy parece ter razão: é a pronúncia «fechada» que é atualmente considerada a norma. O Dicionário da Porto Editora regista /gəração/ como pronúncia correta de geração. Quanto a mestrado, porém, aceita /məstrado/ e /mɛstrado/, tal como aceita /məstria/ e /mɛstria/ para mestria. O Dicionário da Academia de Ciências, esse, regista apenas /gəração/, /məstrado/ e /məstria/. Não há dúvida de que a pronúncia fechada está a ganhar terreno e que a pronúncia antiga, quer ela persista mais em certas regiões ou não, começa a ser considerada desviante.

Conheço muita gente que se queixa de estarem a fechar-se todas as vogais pretónicas que eram abertas, mas não há razão para se queixar — a língua muda, é tudo. E uma das forças da mudança é a tendência de regularização: a regra de que o fonema /E/, quando é átono, se pronuncia /ə/ vai tendo cada vez menos exceções. Agora, é mais fácil regularizar-se refrães em refrões que irmãos em *irmões, porque irmãos se diz muito, a forma irregular está muito disponível, sempre presente. Acho que há grande consenso sobre isto: quanto menos usada é uma forma, mais depressa se regulariza. Por isso, demorará mais tempo a que esquecer e aquecer passem a ser /əsquəcer/ e /aquəcer/. Pode até ser que certas formas nunca se regularizem, que corar nunca venha a pronunciar-se /curar/, para não se confundir com curar. Enfim, a língua resolverá os problemas que venha a haver… Mas, no geral, não se perde nada com o fechamento das vogais. Ou talvez só num ou noutro caso sem importância nenhuma: eu ainda distingo /fəstinha/, carícia, de /fɛstinha/, pequena festa, mas é natural que a distinção se venha a anular muito em breve, se é que não se anulou já no falar de muitas pessoas.

[Revisto e ligeiramente alterado e 31 de julho de 2023]

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[1] Tuggaboy diz também que «se assiste […] a uma substituição de "tês" (T) por "TSês"», mas não comento isso, porque não consigo perceber a que se refere.
[2] É esta a pronúncia das vogais que existe hoje numa grande parte do português do Brasil, que, neste aspeto, é como o português europeu de há três séculos. Como o francês, o inglês e o castelhano da América, também o português americano tem algumas características conservadoras.
[3] No primeiro caso, temos ainda hoje, por exemplo, as vogais de todas as sílabas terminadas no som /l/ (alcateia, balnear, golfinho ou Melgaço) e algumas terminada noutros sons consonânticos, como tectónico e magnífico, mas há já muita instabilidade neste último caso, observando-se às vezes a coexistência de pronúncias «abertas» e «fechadas» (ouve-se também /mâgnífico/, por exemplo, e /pâctuar/ é bem mais comum, creio eu, que /pàctuar/). É a ação da consoante que explica a «abertura» da vogal em a(c)tor e afins. Como esta vogal era diferente das outras vogais pretónicas, não se fechou como elas, mesmo quando a consoante que tinha causado a «abertura» deixou de se pronunciar. O desenvolvimento foi, portanto, o mesmo que para as mesmas vogais quando resultavam de crase — como se poderia esperar.
Seja como for, independentemente da explicação do fenómeno, não se deve dizer, como diz Tuggaboy, que «actor tem o c que abre a vogal» na pronúncia moderna, porque actor só tinha c na escrita, por convenção, como poderia ter outra marca diacrítica qualquer, por exemplo, um acento grave, ou não ter nenhuma, como acontece na nova ortografia. A palavra era e é uma sequência de quatro sons, /'ator/, independentemente da forma como se transcrevam graficamente. Em actuar e actualidade, havia um c na grafia que não marcava nenhuma abertura…
Há outros casos de vogais pretónicas abertas: o o pronuncia-se aberto quando é uma sílaba sozinho em início de palavra: diz-se /òriente/, /òbrigado/, /òcasião/, etc. E talvez haja outros casos sistematizáveis de que me esteja agora a esquecer.
[4] Ou nas palavras em que ele tinha surgido por causa da consoante final da sílaba, que entretanto deixara de se pronunciar.  Note-se que tudo o que digo aqui do «e aberto», /ɛ/, se aplica também ao «o aberto, /ò/. A questão do «à aberto», /à/, é semelhante, mas mais complicada.
[5] O étimo latino de mestre é magister e as formas anteriores à forma moderna das palavras da família tem ae em hiato.
[6] Que o português padrão seja o de Coimbra é afirmação que se ouve com frequência, mas é uma ideia algo estranha. A não ser que alguém o tenha decretado, é anómalo que o padrão seja o sotaque do que é, historicamente, a terceira cidade do país. Pela sua localização central no país? Por ter uma universidade antiga? O que me parece normal, como digo no texto “Português de Lisboa: ao que isto chegou…”, é que o sotaque padrão seja o da classe culta da capital. Mas é discussão lateral ao tema deste texto, que não quero agora desenvolver.

31/07/15

Reforma e acordo: a parte não ortográfica

Como já aqui disse algumas vezes, se não sou detrator do AO90, também não sou propriamente seu defensor – embora na prática o tenha sido muitas vezes, como outras pessoas, por reação a muitos ataques sem fundamento que são feitos à nova ortografia. Adotei-o há já algum tempo, por ser a grafia oficial. Já antes escrevia com a grafia oficial, de que também não era detrator nem defensor, pelo que, a esse respeito, não se alterou nada.

A minha experiência é que, ao contrário do que muitos afirmam (sobretudo quem não mudou), não é mesmo nada difícil mudar para as novas regras. Aliás, escrevo todos os dias com a nova grafia e com a grafia anterior ao acordo, porque escrevo muitos textos para Moçambique; e mesmo isso, saltar de uma grafia para a outra, não cria complicações nenhumas. Pode haver um engano de vez em quando, mas isso há sempre, use-se que grafia se usar.

Como também já aqui disse, não vejo que o AO90 tenha introduzido na escrita do português alguma incoerência que não existisse já[1] e acho que, nalguns aspetos, contribuiu para se avançar no espírito inicial – e fundamental! – da reforma ortográfica de 1911: abandonar a lógica essencialmente etimológica para passar a uma lógica essencialmente fonológica[2].

Uma parte das críticas ao AO90 diz respeito a aspetos não ortográficos. Já vi essas críticas isoladas[3] e são de facto questões completamente distintas das levantadas pela reforma ortográfica. É também útil, por uma questão de organização da discussão, distinguir reforma ortográfica de acordo de unificação da ortografia nos países de língua oficial portuguesa. Uma pessoa pode, em última análise, não ter nada contra as alterações introduzidas na ortografia, mas discordar da necessidade da reforma ou de acordo (ou, numa versão fraca deste desacordo, da sua oportunidade), achar que o processo foi pouco democrático, que a mudança é demasiado onerosa, a todos os níveis, que o acordo acaba por não alcançar os objetivos que se propunha alcançar, que um dos seus resultados é a proliferação de grafias oficiais (três em vez das duas que havia) e ter ainda outras objeções ao AO90 que eu não conheça ou de que me esteja agora a esquecer. Admito de bom grado a pertinência de algumas destas críticas e, embora nem sempre as possa avaliar devidamente, por falta de informação, passo em revista as objeções acima listadas.

Comecemos pela questão da necessidade e da oportunidade. Na realidade, uma reforma ortográfica nunca é necessária, se aceitarmos uma escrita tão opaca que se escreva Constantinopla e se pronuncie [ištãbul], como diz uma amiga minha. O inglês ou o francês, por exemplo, que têm uma grafia meio milénio atrasada em relação à língua, nunca tiveram problemas de maior por causa disso[4]. Por muito que isso não agrade a quem, como eu, prefira encontrar nas regras em geral, ortográficas ou não, um sistema o mais lógico possível, em vez da prevalência de uma tradição, a inércia ortográfica pode de facto defender-se[5]. Nem sequer é necessário, em última análise, definir normas ortográficas. Vivemos muito tempo sem isso, não foi[6]?

Que o acordo não é necessário, também o posso admitir: cada país podia continuar a ter a sua ortografia. Bom, é um pouco contra o espírito dos tempos, já que as outras línguas mais internacionais têm padrões comuns definidos (embora, no caso do inglês, com predominância regionalmente determinada das formas em que se admite variação) e é um pouco contra o meu espírito normalizador, mas é uma posição possível. Quando digo que tenho espírito normalizador, quero dizer que sempre me pareceu muito útil a padronização transnacional, quer se trate de passos de rosca, fichas e tomadas, sistemas de DVD ou medidas de comprimento e capacidade, e não vejo que mal possa advir da uniformização das regras ortográficas – mesmo que produzam algumas formas diferentes, como não pode deixar de ser, dada a grande variação dialetal do português. É de simplificação que se trata. Mas necessário, em sentido estrito, não é.

Juntando à constatação da falta de necessidade o postulado de que só se deve legislar quando necessário, tem-se um argumento sólido contra todas as reformas e toda a uniformização ortográfica – mas, insisto, terá de se aceitar que a grafia possa distanciar-se indefinidamente da língua. Senão, põe-se a questão da oportunidade. A questão complexa é definir qual o momento oportuno para um ajuste. Os defensores da grafia anterior ao AO aceitam que 1911 foi um momento oportuno. Porquê 1911 e não 1990? E quando será o próximo momento oportuno?

Se há argumento a que sou sempre sensível é o da (falta de) democracia. Mas não é, neste caso, um argumento muito óbvio.

Por um lado, é sempre complicado sobrepor o critério da democraticidade a outros critérios, em questões deste tipo. Já aqui discuti um pouco a questão há 4 anos, usando o exemplo da introdução da “vírgula lógica” no dinamarquês (semelhante à que se usa em português, inglês, francês, etc.), substituindo a tradicional “vírgula gramatical” (em que todas as orações são divididas por vírgula, como na ortografia alemã, por exemplo): é certo que o Sprognævn, a entidade que regula as coisas da língua na Dinamarca, deu um exemplo de democraticidade ao voltar atrás na sua proposta de novas regras de uso da vírgula, porque a maioria das pessoas preferia (claro) a pontuação que tinha aprendido e a que estava habituada; mas esse recuo faz com que a Dinamarca continue com um sistema de pontuação muito minoritário no contexto europeu e contribui para que os dinamarqueses, um dos povos mais competentes em inglês como segunda língua, continuem a dar erros na pontuação em inglês. É claro para mim que o Sprognævn tinha razão na sua proposta, como é claro que, em coisas de escrita, se a decisão for deixada aos utentes, estes preferirão sempre o que conhecem à introdução de sistema novos, por muito que obviamente melhores.

Por outro lado, quando a crítica à democraticidade do processo de imposição de uma escrita vem de defensores da ortografia anterior, é curioso que se recuse a atual grafia por imposta e se aceite a anterior, que não foi menos imposta. Aliás, ao que sei (mas é certo que não sou um especialista da matéria, pode haver casos que ignoro), tirando casos raros como o atrás referido da nova vírgula dinamarquesa, o estabelecimento de normas ortográficas não parece ser especialmente democrático em lado nenhum[7].

Mais uma vez, pode separar-se, se se quiser, a questão da democraticidade da reforma da questão da democraticidade do processo de acordo. Devo confessar que não acompanhei o processo de acordo e que não tenho, sequer, uma opinião clara sobre como deveria ser conduzido um processo deste tipo, mas, ao que sei, foi conduzido por (alguns dos) órgãos que se espera que conduzam um processo deste tipo: a Academia Brasileira de Letras, a Academia das Ciências de Lisboa[8], a CPLP, os Ministérios da Educação e os Governos dos países em questão. Podiam ter sido outros órgãos, podia seguramente ter-se alargado o processo de produção e debate do acordo, podiam ter-se feito – podem sempre fazer-se – as coisas de outra maneira, mas duvido que pudessem ter sido feitas de maneira a que toda a gente aceitasse a alteração da grafia sem uma contestação semelhante àquela a que se assiste agora...

Quanto ao argumento de que a reforma é cara, vi-o algumas vezes usado relativamente ao AO90 em geral e algumas vezes relativamente aos casos particulares de Angola e Moçambique. A questão do preço é outra sobre a qual não tenho grandes dados, devo dizer. Tenho a ideia de qualquer reforma tem um custo, mas não faço ideia, nem aproximada, do preço que esta possa ter[9]. Compreendo bem que se possa argumentar que é um desperdício inutilizar manuais escolares com ortografia antiga e produzir novos com grafia nova, mas sinto-me incapaz de me pronunciar informadamente sobre a questão, porque não sei qual é a realidade no terreno em Angola e Moçambique, que níveis de reutilização de manuais há, e nem sequer se foi acordada alguma coisa sobre isto [10]. Agora, se o argumento é possivelmente válido para esses países, onde a ortografia ainda não foi alterada, em Portugal é válido agora apenas no sentido contrário: como já não há manuais com a ortografia antiga, voltar a ela, como alguns pretendem, é que implicaria custos adicionais. É de notar também que a questão só se põe em relação a manuais usados em níveis em que alunos que não tenham solidificada a competência de leitura, porque pode de facto ser confuso nessa altura contactar simultaneamente com duas ortografias. Os outros podiam e podem ler na ortografia anterior sem problemas, sobretudo porque há muito poucas diferenças (muito mais difícil é ler na ortografia anterior a 1911, mas, mesmo isso, não é muito difícil para quem leia bem). Quanto aos restantes livros (dicionários incluídos!), a questão não se põe: nenhum livro perde atualidade, e muito menos utilidade, só porque muda a ortografia.

Sobre o problema do aumento do número de grafias oficiais, acho não se deve confundir com o acordo os problemas criados pelo seu incumprimento. Se coexistem, neste momento, várias normas ortográficas, não é por ter sido assinado um acordo, é por ele ainda não ter sido posto em prática, é outra coisa.

Agora, se não se pode culpar a AO90 da sua não-aplicação, pode-se acusá-lo de ser de difícil execução. Mas isso já se sabia à partida. Eu, pelo menos, nunca tive ilusões quanto a isso. Aliás, a impressão que tenho é que, ao introduzir uma reforma ortográfica, ter em conta a dificuldade de execução leva forçosamente à inércia, sobretudo porque dar erros não é crime – nem deve ser – e, portanto, a fixação de uma norma de escrita nem chega a ser legislação em sentido estrito... Acho que quem tivesse refletido um pouco sobre as questões da ortografia e tivesse informação sobre a aplicação de reformas ortográficas esperava, com toda a certeza, muita resistência, alguma confusão, e um longo período até a reforma e o acordo estarem estabilizados. É sempre assim.


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[1] Ao que vejo, o mais polémico do AO90 é terem deixado de se escrever letras etimológicas não pronunciadas. Muito do resto se ignora, em qualquer sentido da palavra ignorar, agora os cc e os pp que desaparecem é que nunca. Um argumento frequente – e compreensível – era que deixa de ser marcado na escrita o timbre “aberto” da vocal átona anterior, mas essa falta de marca de “abertura” acontecia já na grafia anterior. Basta pensar em vocábulos tão comuns como aquecer ou arrefecer, mas há dezenas e dezenas de outros exemplos. Por vezes, o desaparecimento da letra veio criar coerência, como no caso de óptimo, cujo p era anómalo no sistema.
[2] Não fonética, mas fonológica. Tenho-me dado conta de que isto é uma questão demasiado técnica para a maior parte das pessoas e também não é agora que vou insistir neste ponto. Duma maneira simples, o que quero dizer com isto é que se mantém o mesmo símbolo para unidades que mudam de pronúncia conforme sejam acentuadas ou não e consoante os sons que têm antes ou depois, e que podem ou não pronunciar-se. Exemplos disto são: os dois dd de dado, no português europeu; os dois ll de leal, em toda a lusofonia; os oo de comer e de come; os ss de mesmo e de mestre, e os ss finais de olhos nas sequências olhos azuis, olhos verdes e olhos pretos; o e de mexe, que, mesmo não se pronunciando, existe no sistema (como se constata por o x se pronunciar sempre /š/ independentemente do que venha a seguir, ao contrário do que acontece com o s final de mês em mês de janeiro) ou o e de vale, tanto verbo como nome, que também existe no sistema mesmo não se pronunciando (como o provam o plural vales ou a forma com pronome vale-o), etc., etc., etc.
[3] De facto, a ideia que tenho é que, como na grande maioria dos casos tem uma base essencialmente afetiva, a contestação ao acordo lança mão de todas as críticas, sem se dar conta, muitas vezes, de que umas são incompatíveis com as outras, quando não contraditórias. Um bom exemplo é acusar-se o acordo de ser “foneticista” e, ao mesmo tempo, de fazer desaparecer marcas do timbre das vogais…
[4] Há quem defenda que estas grafias causam de facto algumas dificuldades de aprendizagem e também há quem diga que o número de erros na escrita é muito maior numa língua de grafia muito opaca, como o francês, que numa língua de grafia muito transparente, como o finlandês. Também é verdade que já vi a tese contrária, de que a opacidade da escrita é benéfica para a aprendizagem, mas não conheço, infelizmente (não digo que não haja), trabalho experimental que o confirme.
[5] Uma das coisas que me desagrada no AO é precisamente continuar-se, nalguns pontos, a invocar a tradição, em vez de propor uma verdadeira regra – ou seja, uma regra computável. A meu ver, quer se trate de ortografia como de moral, a tradição é má justificação para uma regra. De facto, acho que é antes uma injustificação.
[6] Até 1911, nunca houve ortografia oficial.
[7] A minha amiga Edite Gonçalves tem um texto no seu blogue em que dá conta das preocupações de muita gente relativamente à ideia de sujeição a referendo de questões como esta, uma ideia defendida por certos opositores do AO90. É claro que a democraticidade de um processo deste tipo não passa forçosamente por um referendo, podendo antes pensar-se em constituição democrática dos órgão responsáveis. Bom, em órgãos responsáveis de política linguística, a tradição parece antes ser a nomeação, nos poucos casos que conheço, mas não digo que não pudesse haver formas mais democráticas de constituição desses órgãos, contanto que se assegurasse o nível científico indispensável – uma coisa que não acontece forçosamente com os sistemas de convite atuais, porque não é necessário ter conhecimentos técnicos sobre língua para se fazer parte destes órgãos, mas antes ser-se antes o que se poderia designar como «utilizador de alta qualidade».
[8] Ao contrário de muitos países, não temos um órgão exclusivo para coisas de língua, mas a as secções de Literatura e Estudos Literários e de Filologia e Linguística da Academia das Ciências de Lisboa são, creio eu, o que me mais se aproxima de uma «Academia Portuguesa». Notem que me escuso a discutir aqui a minha opinião sobre a competência e a utilidade desta (e doutras) instituições oficiais de língua, que é assunto à parte.
[9] Aliás, a própria ortografia tem um preço, como tudo na vida. Mas é um preço muito difícil, se não mesmo impossível, de contabilizar. Qual será a poupança de eliminar letras desnecessárias em inglês e francês? IE nas outras línguas todas?… De facto, não sei, nunca fiz a experiência, mas seria interessante comparar o volume de texto das diversas grafias ao volume de texto das mesmas línguas com uma escrita racionalizada, por exemplo com o Alfabeto Fonético Internacional. Agora, sabiam que o português escrito (experiência própria, dezenas de vezes repetida sempre com os mesmos resultados) gasta cerca de 10% mais papel e tinta que o inglês? Parece-me extremamente improvável que a produção de som seja de facto maior numa língua que noutra, mas nunca vi nada sobre o assunto. Esta informação agradará, sem dúvida, aos defensores de ortografias opacas.
[10] A questão ortográfica tem um peso diferente em países onde a língua oficial é uma língua segunda ou estrangeira para a maior parte da população. Se a ortografia não afeta a pronúncia é porque não é pela escrita que aprendemos palavras e, mesmo quando as aprendemos pela escrita, ouvimo-las também uma quantidade de vezes suficiente para interiorizarmos assim a forma fonética comum. Só quando isto não acontece é que há influência da grafia na pronúncia e é isso o que acontece, precisamente, na aprendizagem de línguas estrangeiras, por exemplo em situação escolar, em que apenas o input da pronúncia do professor não é suficiente para se sobrepor ao impacto da grafia. Há sempre dois condicionadores da pronúncia, o sistema fonético interiorizado da língua materna e a grafia das palavras escritas. A questão da influência da grafia na pronúncia faz-se ainda mais sentir quando não só os alunos mas também os professores têm outras línguas maternas – e pouca formação pedagógica. Há, por exemplo, fenómenos que se observam na pronúncia dos moçambicanos que não têm o português como língua materna que dificilmente se explicam a não ser pela insistência, no ensino da língua, numa correspondência biunívoca som-letra. (Não conheço Angola, mas não me surpreenderia que se verifique lá o mesmo fenómeno.) É claro que, em certas zonas, a pronúncia estrangeira acaba por influenciar a pronúncia dos falantes nativos, que crescem com essa pronúncia como input principal. Pode argumentar-se que, nesta situação, o que ajudaria não é tanto uma escrita fonológica, mas antes uma escrita mais fonética, que, de qualquer forma, a reforma ortográfica, no geral, não produz. É certo, e é um problema para que não vejo solução – a não ser o tempo, que dizem que tudo soluciona. Também haverá quem diga que mais importante que a fixação da grafia é a definição de uma norma morfossintática (a norma europeia, que continua, por inércia, a vigorar, já está um pouco desfasada da norma usada na comunicação social, por exemplo), mas também tenho muitas dúvidas sobre o interesse – e a possibilidade – de se definir, pelo menos agora, uma coisa dessas…

06/03/14

Mais um texto sobre a reforma ortográfica

Tenho dito que não sou especialmente a favor no Acordo Ortográfico de 1990 (AO90), nem especialmente contra, mas, na prática, tenho-me revelado a favor, sobretudo porque me tenho sentido na obrigação de criticar, por incoerentes ou infundados, alguns argumentos dos seus detratores[1]. Eis um resumo das críticas que tenho encontrado e do que penso delas.

A alteração mais criticada no AO90 é o desaparecimento das letras etimológicas não pronunciadas, a maior parte das vezes referidas como “consoantes mudas”. Costumam misturar-se, nesta crítica, que é na maior parte das vezes apenas afetiva, argumentos que se contradizem uns ao outros. Assim, invoca-se muitas vezes o argumento de que é precisa, na grafia, uma marca da “abertura” das vogais átonas. Diz-se, por exemplo, que sem o p de concepção, conceção se lê forçosamente como concessão, isto é, com o e “fechado” ou “mudo”. Nunca vi esta preocupação relativamente à norma anterior, em que havia já várias palavras, algumas do vocabulário fundamental, em que não se marcava graficamente a abertura da vogal átona. Custa-me a perceber por que é que, se isso nunca foi problema antes, passou agora a ser problema. Nunca ninguém achou que se devesse escrever de outra maneira esquecer nem aquecer, porque é que projetar ou afetar se tornaram de repente problemáticos? É estranho. Um dos cavalos de batalha dos antiacordistas é o exemplo de espetadores em vez de espectadores, que muitos acham ridículo, senão revoltante, mas nunca vi ninguém indignar-se, pelas mesmas razões, perante pregadores. É estranho.

Uma objeção válida a esta alteração é que aumenta o número de vogais átonas abertas não assinaladas na escrita: antes do AO90, algumas vogais átonas abertas tinham uma marca dessa abertura, agora nenhuma a tem. É certo. E pode ser uma solução manterem-se as “consoantes mudas” que “abrem” vogais, mas isso não resolve o caso das vogais átonas “abertas” que já não tinham consoante a marcar a abertura. Conservar as “consoantes mudas” preserva, assim, uma incoerência que a nova grafia elimina. Uma solução óbvia para eliminar esta incoerência é recuperar e alargar o uso do acento grave como marca de abertura das vogais átonas abertas, mas uma proposta deste tipo seria, seguramente, muito mal recebida por toda a gente[2]…

Há também quem vá ao ponto de defender que, mesmo nas sílabas tónicas, as “consoantes mudas” não devem desaparecer porque são uma marca tímbrica – por exemplo, que, sem c, projeto ou inseto se leem “naturalmente” projêto ou insêto, porque essa é a pronúncia “predominante” do -eto em final de palavra. Não só não é verdade (já falei disso aqui), como nunca vi preocupações, nem dessas pessoas nem de nenhumas outras, com as pronúncias “predominantes” de, sei lá, -edo ou -elo, por exemplo. É estranho. No caso de -edo final (que é diferente dos de -eto e de -elo finais), não há dúvida que, na grande maioria das palavras onde ocorre, esta sequência final se pronuncia -êdo. Dever-se-ia então marcar a abertura em credo, vedo, arredo, etc? Com quê? E por aí fora…

Evidentemente, prende-se com esta questão uma outra: a da influência da escrita sobre a pronúncia. Alguns detratores do AO90 defendem que, sem as marcas de abertura das vogais, as palavras passarão a ser mal pronunciadas, mas nunca explicam por que não aconteceu isso às palavras que sempre tiveram e continuam a ter átonas abertas sem essas marcas. Se alguém usasse o argumento sensato (nunca ninguém o fez em discussões comigo) de que, por muito que isso não se aplicasse a palavras que se ouvem frequentemente, podia aplicar-se a palavras que quase nunca se ouvem e que, por isso, se aprendem sobretudo através da escrita, eu poderia aceitar – mas isso reduz o problema a meia dúzia de palavras. Ainda assim, é muitíssimo duvidoso que essa influência se possa dar: por exemplo, nunca ouvi palavras menos comuns como colação ou ilação pronunciadas com aa fechados. A explicação é que as poucas pessoas que usam as palavras menos vulgares ouvem-nas pronunciadas por outras poucas pessoas que as usam; e só mesmo as palavras estrangeiras é que podem, às vezes, ser conhecidas por escrito sem nunca serem ouvidas. Quero, a propósito, acrescentar que não conheço trabalhos sobre este fenómeno e ficaria grato a quem me indicasse algum. O único exemplo que vi apresentarem sobre influência da escrita na pronúncia são os verbos em -scer, como nascer ou crescer, mas, sem mais provas ou bons argumentos, acho extremamente duvidosa essa tese. A sequência -sce- tem um história seguramente complicada, que pode bem ter levado a um apagamento do s em várias zonas do país (esse apagamento persiste nalgumas zonas, aliás), mas é duvidoso que a difusão de um eventual reavivar do s, se se pode dizer assim, se tenha feito por influência da escrita em sentido estrito.

A grafia tem efetivamente influência na pronúncia, mas não das línguas maternas: das línguas segundas e das línguas estrangeiras. Nesse sentido, é uma bênção desaparecerem consoantes não pronunciadas para quem tem de ensinar ou aprender o português como língua segunda ou estrangeira. Mas é esse o único problema que a nova escrita resolve. Para contribuir para resolver outros problemas de pronúncia, a escrita deveria ter um caráter eminentemente fonético e não tem (nem acho que deva ter), de maneira que, como não têm interiorizadas as regras fonético-fonológicas do português, os falantes do português como língua segunda ou estrangeira continuarão a pronunciar mal muitas outras coisas. Os oo que deviam ser /u/, por exemplo, etc., etc. ...

Também há quem critique o caráter demasiadamente “fonético” do AO90 (às vezes, as mesmas pessoas que defendem a necessidade de uma marca de abertura das vogais átonas, por contraditório que isso seja), dizendo que não se pode deitar fora a História da língua ou até que algumas palavras do português passam, assim, a ter uma escrita diferente das palavras com o mesmo étimo noutras línguas. Mas não explicam que critérios se devem seguir na decisão de que letras etimológicas manter. Curiosamente, nunca vi ninguém defender, nem antes do AO nem depois, producto, fructo, escripto ou dictado (já nem falo de th, ph e y, e duplos pp, mm, nn, tt, ff, etc.). Nem sequer do nome contracto… Enfim. Além disso, as seleções de palavras internacionais e das línguas em que elas são comparadas nunca é imparcial. E o italiano não entra nunca, porque estas consoantes não existem em italiano (e noutras línguas românicas menos conhecidas). E elas não existem em italiano pela mesma razão que o AO90 as elimina: deixaram de se pronunciar.

Às vezes, critica-se também o desaparecimento das marcas de timbre do antigo pára, terceira pessoa do singular do presente do indicativo de parar, que se tornou homógrafa da preposição para. É certo que o desaparecimento do acento faz confusão a quem a ele está habituado (para mim, foi muito difícil deixar de o usar), mas há que reconhecer que faz pouco sentido ter uma marca tímbrica deste tipo quando desapareceram todas as outras. O hábito, pois, o malvado hábito… Mas uma pessoa habituada a não usar o acento nunca sentirá falta dele. Parecem-nos estranhas sequências como “para para pensar”, mas, convenhamos, não é uma sequência comum por aí além, além de que, com alguma boa vontade, encontramos sequências do mesmo tipo com outras expressões que perderam as marcas tímbricas: eu, por exemplo, tenho um filho que se pela pela bola[3]…

E guardei para o fim o que mais estranho: a identificação de língua com ortografia. Dizem que não se pode decretar mudanças na língua ou que o acordo prejudica a língua, que defender a antiga ortografia é defender a língua, eu sei lá. Mas a língua e a ortografia não são a mesma coisa, longe disso. A língua é um sistema complexo de relações entre sinais e noções de vários tipos que temos na cabeça, que não interiorizamos pela escrita e que ninguém comanda. A escrita é uma convenção, que se pode alterar como e quando quisermos, sem que isso afete a língua. Durante muito tempo, houve muitas línguas que não se escreviam, para as quais não estava fixada uma transcrição, e não eram, por isso, menos línguas que as outras. Há línguas que se podem escrever com mais que um alfabeto e, às vezes, com alfabetos e sistemas de escritas não alfabéticos. Discutir ortografia deveria ser discutir a lógica de um sistema, reduzido e controlado, de transcrição de outro sistema muito mais complexo e muitíssimo mais vasto, a língua. É claro, pode chamar-se à discussão a tradição e o mais que se achar que se deve, mas propor uma reforma ortográfica não é, mas nem de longe nem de perto, propor seja lá que alteração for na língua. Nem que se passasse a escrever com alfabeto khmer a língua era afetada. Custa-me perceber por que custa perceber isto…

No resto, ninguém está mesmo interessado. Não que não haja mais coisas a discutir, mas ninguém está interessado em discutir hífenes e tremas, prefixação e sufixação, aglutinação e justaposição (se calhar, ainda faço eu um textozito sobre isso, um dia destes.), até porque muitas pessoas não conhecem nem as antigas nem as novas regras e escrevem como lhes apetece as palavras compostas…

A conclusão do que tenho visto é a seguinte: há poucas pessoas interessadas em discutir o AO90. Parece-me impossível, aliás, que alguém que queira mesmo refletir sobre a ortografia do português e discuti-la possa estar completamente de acordo com a norma anterior ou com a nova[4]. A maior parte dos críticos explica, de forma normalmente atabalhoada, quando não contraditória, porque não gosta (é o termo) do desaparecimento das “consoantes mudas” e pronto. Quando se argumenta a favor desse desaparecimento, os antiacordistas acabam por responder muitas vezes (muitas vezes…), que sim, pode ser incoerente, mas querem continuar a escrever como aprenderam, não estão para alterar um hábito velho. Convenhamos que, por compreensível que seja a atitude, é uma argumentação um pouco fraca, para não dizer que não chega a ser argumentação. Alguns vão ao ponto de chamar à conversa Camões ou Pessoa, por exemplo, para defender uma ortografia que o primeiro nunca conheceu, obviamente, e que o último recusava...

O processo foi pouco transparente e não incluiu um número suficiente de instituições? Não há necessidade da reforma? A maior unificação da ortografia não chega para unificar as diversas variantes do português? Tudo isto se pode e deve discutir, mas nada disto tem relação com as questões ortográficas concretas que se discutem. É claro, pode sempre recusar-se qualquer reforma e até pode optar-se por uma grafia ilógica e complicada, como a do francês ou do inglês, sem que daí venha mal maior ao mundo. Mas não foi isso que se fez em 1911 e a questão para mim é que quem aceita a grande reforma de 1911, que foi incompleta, deveria querer levar o seu espírito até ao fim – independentemente de como isso unifica ou não a escrita nos países de língua portuguesa. Alguns pontos do AO90 são um avanço nesse sentido.

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[1] E já não falo daqueles que se limitam a espalhar informação falsa, dizendo que o c de facto desapareceu ou que desapareceram os acentos nas palavras esdrúxulas. A esses, que não conhecem o AO90, só se pode dizer: leia o acordo antes de o criticar, sim? Não acredito que seja por má fé que espalham essa falsa informação, mas não é de modo algum aceitável que se critique o que não se conhece, muito menos o que não está no que se desconhece…
[2] A grafia portuguesa – e a grafia do português em geral – é uma grafia fonológica e não fonética, isto é, uma grafia que dá conta do sistema e não de como as palavras são realmente pronunciadas. Para dar um exemplo simples e de forma simplificada, comer escreve-se com o e não com u, porque é um o que existe no sistema, como se pode verificar em como ou comes. Em Portugal, existe uma regra fonética que funciona na cabeça de todos os falantes que diz que a língua se eleva e recua de cada vez que um /o/ não é acentuado, passando esse /o/ a pronunciar-se [u]. No Brasil, esta regra só se aplica ao /o/ que está depois da sílaba tónica, pelo que o o de comer tem uma pronúncia diferente: [o]. Mas, como o elemento do sistema é o mesmo, pode escrever-se igual no Brasil e em Portugal. O espírito da reforma ortográfica de 1911 foi passar de uma lógica essencialmente etimológica a uma lógica essencialmente fonológica, mas ninguém advoga uma ortografia fonética, que separaria completamente o português do Brasil do português europeu (a norma da pronúncia africana é instável, mas a norma usada na comunicação social é ainda semelhante à norma europeia). Agora, é discutível até que ponto a oposição entre as vogais átonas abertas e as suas correspondentes fechadas tem caráter fonológico, mas é uma discussão complicada, que deixo aqui de lado.
[3] Pois, eu sei: não quis exagerar, e pela é mesmo uma maneira rara de dizer bola, mas pensei o mesmo que vocês pensaram agora: «Mais giro ainda era “tenho um filho que se pela pela pela”!».
[4] Também não é, de modo algum, necessário estar completamente de acordo nem com a antiga grafia nem com a reforma para escrever português segundo a norma. Sempre houve e continua a haver coisas que não acho que se deviam escrever como as escrevo, mas escrevo-as assim porque é essa a norma. Evidentemente, depende do contexto. Há tipos de texto em que cada um é livre de escrever exatamente como lhe apetecer. Em última análise, cada um é sempre livre de escrever como lhe apetecer, mas tem de se sujeitar a que, em certos textos, lhe sejam corrigidas certas formas para as harmonizar com a norma vigente.