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28/05/26

Recordações de infância: o amolador


A nostalgia coletiva é um fator de identidade. Um dos nossos vários círculos identitários é constituído pelas pessoas com recordações de juventude semelhantes às nossas: «E lembras-te de quando apareceram os iogurtes, naqueles boiões de vidro?»

Bem vistas as coisas, talvez não seja exatamente um círculo, mas sim vários, porque algumas destas recordações são muito locais («Lembras-te daquelas grandes tardes de futebol ali na praceta»?), outras são um bocadinho menos locais («E os homens que vendiam bolacha americana, lembras-te?»), e, no mundo moderno, outras são até bastante mais globais: «E do Bonanza, lembras-te? E do Santo?» «Perfeitamente. E do Ironside? A minha avó chamava-lhe «homem das rodas», não conseguia dizer Ironside.» 

E depois, há recordações que tendemos a considerar locais, quando na realidade podem ser partilhadas com gente de muito longe do território da nossa infância. A última vez que vi um limpa-chaminés, que, para mim já só existia nas minhas nebulosas recordações de infância, foi em Copenhaga há cerca de 25 anos. Já são raríssimos em todo o lado e podem recordar-se com a mesma nostalgia com que se recordam as primeiras calças à boca de sino.

Outro exemplo de algo que se pode recordar em conversas nostálgicas com alemães, italianos ou argentinos da nossa idade («Lembras-te?...») é a figura do amolador, uma figura que foi já comum em todo o mundo e que em todo o mundo está em vias de extinção, quando não está mesmo extinta... E que é o tema deste muito breve artigo, em que pouco mais faço que juntar aqui algumas fotografias e alguns vídeos. Não há nada mais irritante que lâminas que não cortem, não é verdade?

Evidentemente, os amoladores não foram sempre iguais em todos os tempos e lugares — e não se anunciaram, nem anunciam, todos com o mesmo som. O som é, curiosamente, o que primeiro me vem à cabeça quando penso num amolador. E o som que eu associo ao amolador da minha infância, a escala ascendente e depois descendente numa flauta de Pã de plástico, parece ser comum, com muito pequenas variações, aos amoladores de línguas ibéricas, dos Pirenéus à América Latina. 

Em França, ao que consegui descobrir, os amoladores de antanho anunciavam a sua passagem não com uma flauta de Pã, mas sim com um sino. E andavam, como em muitos outros países, com carrinhos de mão. Quase de certeza também em Portugal, antes do meu tempo, mas não sei..

Também nunca tinha ouvido falar, antes da pesquisa que fiz para este texto, de carrinhos de amolador puxados por cães, que parece que eram comuns nalguns países.

As pessoas da minha geração de vários países, porém, provavelmente já só se lembram de amoladores de bicicleta, motorizada ou furgoneta. A minha mulher, dinamarquesa, diz que os da juventude dela andavam de ciclomotor.  Uma enciclopédia sueca em linha, por exemplo, diz que, antigamente, os amoladores «tinham geralmente equipamento móvel, frequentemente sob a forma de uma bicicleta adaptada em se que acionava a pedra de amolar com os pedais» — exatamente com os que eu conheci em Portugal. 

O verbo português amolar não perdeu o l intervocálico latino, como perderam , moer ou moinho, que são parentes próximos. As palavras para designar o amolador são semelhantes à portuguesa em várias línguas romances e têm todas relação com (mola- , em latim), como em português: amolador ou amolanchín existem em espanhol, a par do mais comum afilador; em catalão diz-se esmolet, esmolaire ou esmolador; em occitano  amolaire ou amoulaire; mołeta em véneto; ammulatóre em tarentino; ammuola forbece («amola-tesouras») em napolitano; e ammola/ammula cuteddi («amola-facas») em siciliano. Em galego, porém, que é a língua mais próxima do português, amolador diz-se afiador

É interessante notar, a propósito, que encontrei em vários sítios a informação de que, em Espanha, os amoladores vinham quase sempre da província galega de Ourense.  A Wikipédia em galego também dá conta deste fenómeno (traduzo eu): «O ofício consolidou-se com especial intensidade na Galiza interior, documentando-se a presença de amoladores ambulantes pelo menos desde finais do século XVII. A maioria procedia de zonas rurais da província de Ourense, onde o trabalho de amolador funcionava como estratégia económica complementar à agricultura.»

Os amoladores galegos chegaram até a criar um calão profissional, o barallete, para não serem compreendidos pelas outras pessoas. 



P. S. 1: É interessante constatar que ainda há quem decida lançar-se com entusiasmo numa profissão que geralmente se considera condenada a desaparecer. É o caso de Gaël Charlot, na província francesa dos Altos Alpes. Não posso inserir aqui o documentário sobre este jovem amolador, mas podem vê-lo no YouTube  (só em francês, sem legendas disponíveis).

P.S. 2: Também há canções sobre amoladores. Deixo aqui três, uma argentina, uma italiana e uma francesa. A primeira é uma valsa ranchera de 1932, pela «voz romântica do tango», Agustín Magaldi; a segunda é de Luciano Tajoli e foi editada em 1951; e a terceira é de 1952 e é cantada por André Claveau.

P.S. 3: O mais completo repositório de imagens sobre o ofício de amolador que encontrei é 12 Eeuwen Scharensliep («12 séculos de amoladores»), um vídeo de quase uma hora. Infelizmente, as legendas explicativas são só em neerlandês. O vídeo é feito com uma sequência de fotografias, pinturas e desenhos de várias épocas e vários sítios, e mostra todo o tipo de amoladores, fixos ou ambulantes, incluindo carrinhos de vários tipos. A partir de 30:00 e até 43:40, é intercalado um filme alemão (também só com legendas em neerlandês) que mostra o processo tradicional de fazer uma pedra de amolar. 

P.S. 4:  A página da Wikipédia sobre o ofício existe em 23 línguas, com quantidades de informação variáveis. A página em inglês é a mais completa.

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As fotografias são Wikimedia Commons. 1. Amolador em Amersfoort, Países Baixos, 1909: 2. Amolador em Marselha, s.d., início do séc. XX; 3. Amolador e cliente, Alemanha, 1939, foto de Richard Peter; 4. Amolador com carrinho puxado por um cão, França, postal de 1908; 5. Bicicleta de amolador e menina turista, Caorle, Itália, 1958, foto de Karl Oppolzer.









21/11/23

Um soneto, lúcia-lima, irreconhecimento e recordação

 

Não acham estranho pensar numa pessoa com uma (id)entidade que persiste ao longo do tempo? Não há nenhum eu que nos acompanhe ao longo na vida; nem como personalidade, sequer, quanto mais como mente — eis a conclusão a que chego depois de muito escrutinar a questão. Não só guardamos em nós muito pouco do corpo que vamos tendo, como a mente vai mudando tanto ao longo do tempo que, a dada altura, essa mente estranha o que já foi. A mim, pelo menos, acontece-me muito: quando observo agora coisas ditas, pensadas, feitas por outro momento de mim, não me reconheço nelas. Às vezes, nem as percebo. Penso: «o que quereria eu dizer com aquilo?» ou «que estranha forma de me comportar!». Outras vezes, o que me espanta é antes reencontrar nesse eu de outra época semelhanças com quem estou agora a ser.

Há uns dias, quando estava a limpar uma gaveta da cozinha, encontrei um saco de folhas de lúcia-lima do nosso quintal, que a minha mulher me propôs que deitasse fora, porque estavam ali há muito tempo e ninguém lhes tocava. A verdade é que nem sabia que tínhamos ali lúcia-lima. Fiz um chazinho e pus o saco no meu escritório, ao lado do computador, para não me esquecer de a ir bebendo. O odor e o sabor da lúcia-lima trouxeram-me à memória o quintal da casa na Rinchoa onde vivi consecutivamente dos seis aos dezassete e depois, a espaços, até aos vinte e quatro; e, reminiscência puxa reminiscência, lembraram-me um soneto que tinha escrito em que descrevia o quintal e falava das suas verbenas — as lúcia-limas*. Fui à procura dele. É de 15 de setembro de 1986 e está dedicado a Roberto de Mesquita. Lembro-me de que, nessa altura, tinha descoberto Roberto de Mesquita e tinha gostado muito da sua poesia. Mais de que um poema dedicado a Roberto de Mesquita, o soneto é, acho eu, um poema à maneira de Roberto de Mesquita. Resolvi corrigir-lhe a métrica, que estava torta e o resultado é este:

Pendem já maduros os cachos de uva 
Da latada, no carreiro do quintal 
Cujo saibro acarinha, suave, a chuva 
Temporã, morna morrinha estival. 

Lá do fundo do céu, ameaçadoras, 
Vêm nuvens negras de tempestade. 
Lentas como elas desfilam as horas. 
Esvai‑se do dia a turva claridade. 

O vento da tarde açoita as verbenas. 
É por certo dele esta voz sofrida 
Que vem não sei de onde e que me diz: 

«Para quê alegrias? P’ra quê penas? 
Vive‑se p’ra morrer no fim da vida 
E não p’ra ser feliz ou infeliz…»

Passados 37 anos, vivo uns 16° mais a norte e 20° mais a leste. Troense tem algumas coisas em comum com a Rinchoa da minha infância, porém, e tenho um quintal mais ou menos com o mesmo tamanho que o quintal da casa onde cresci. Não tenho oliveiras, nem limoeiros, nem laranjeiras, nem pereiras, nem ameixeiras, mas tenho maçãs, abrunhos e morangos, como tinha na Rinchoa — e uvas morangueiras, que, por causa da diferença de latitude, amadurecem umas duas ou três semanas mais tarde que as do soneto.

Voltemos à questão da impermanência do eu. O autor deste soneto é um momento tão distante de mim que, se não soubesse que tinha sido eu a escrevê-lo, nunca o reconheceria como sendo meu. «Eu não escrevo assim», pensaria. Mas não porque não reconheça a paisagem como minha, notem, ou porque não concorde, se se pode dizer assim, com o bombástico remate. (Dito assim, parece mais que estou a falar de um ensaio que de um soneto, mas acho que percebem o que quero dizer.) Podia, aliás, escrever hoje a mesma coisa, em verso ou não: não é para se ser feliz que se aqui se anda e é absurdo nortear-nos pela procura da felicidade.

Passemos agora daquilo em que não me reconheço àquilo que recordo de mim, que é uma coisa diferente. Tomemos o terceto final. Se escrevesse hoje alguma coisa com o mesmo significado, quereria dela outro sentido. Quando leio esses versos neste soneto, lembro-me do que pensei muito tempo e sei que é da apologia da abolição das emoções que se trata. Foi uma obsessão minha durante muitos anos. Mais budismo que estoicismo, mas um budismo sui generis e confuso. Achava que alegria e tristeza eram ambas produto de uma mesma coisa, do maior de todos os males, a mente — um emaranhado de juízos e sentimentos, uma projeção constante de mim em tudo o que conhecia, que me impedia de ver as coisas como elas de facto eram. Agora, há muito que deixei de querer livrar-me de emoções e julgamento. Constato simplesmente que toda a vida, seja ela qual for, seja consciente ou não, não existe para nada específico, não tem telos, finalidade, propósito nenhum: é um dado biológico apenas, uma sucessão simples de reações físico-químicas, sem mais. A vida tem obviamente um único sentido, na aceção de direção — vai do princípio para o fim. Tudo o mais é a gente a dizer coisas.





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* A lúcia-lima não é atualmente incluída no género Verbena (é do género Aloysia, espécie citriodora), mas é da família das Verbenaceae. Creio que, quando escrevi o soneto, estava mesmo convencido de que era uma Verbena, até porque era muitas vezes assim referida (como Verbena triphylla ou Verbena citriodora). É uma planta maravilhosa.

15/04/09

Brancos, patrões, identidades e uma velha canção anarquista

I
Em lómuè, que é a língua que se fala na Alta Zambézia, onde nós vivemos antes, chama-se aos brancos mucunhas. Mucunha, curiosamente, não tem nada a ver com a cor branca, que em lómuè se diz otchela, mas quer antes dizer “patrão” ‒ que é, como presumo que saibam, uma forma normal de tratar um branco em Moçambique*. Ora, porque não quer dizer “branco” mas sim “patrão”, a palavra mucunha não se aplica só a pessoas de pele clara, e eu sei de casos de moçambicanos negros que, pelo seu estilo de vida, eram tratados por mucunha ‒ e não gostavam. E eu compreendo, porque eu também não gostava nada, quando cheguei a Moçambique, que me tratassem por patrão e arriava sempre a giga quando alguém o fazia. Quer dizer, continuo a não gostar, mas há muito que desisti de barafustar por causa disso. Para quê?, se é uma guerra perdida à partida:
“Patrão, não! Eu não sou seu patrão, porque o senhor não trabalha para mim…”
“Patrão?...”
“Estou a dizer que não sou seu patrão. Pago-lhe algum salário? Patrão é quem lhe paga salário.”
“Está bem, patrão.”

Se eu desisti ao fim de pouco tempo, conheci quem, ao fim de cinco décadas e tal de vida em Moçambique (toda a vida, entenda-se), tivesse firmeza ideológica ‒ ou teimosia... ‒ suficiente para continuar a recusar ser tratado por patrão: houve a certa altura em Molócuè um senhor, branco de pele e frelimista dos antigos (“eu sou da Frelimo do Samora, não é desta que há agora”, dizia ele a rimar sem querer…), que, enquanto foi gerente de uma pensão que havia lá onde nós morávamos, proibiu expressamente os empregados de lhe chamarem patrão a ele, “porque [ele] era só o gerente da pensão, o patrão estava em Maputo e eles nem sequer o conheciam e, além disso, nem era patrão nenhum, era uma patroa”, e também de chamarem patrão fosse lá a quem fosse, pronto! Se essa proibição era, aos meus olhos, bastante louvável, havia quem pensasse de outra maneira e o administrador do distrito, quando lhe vieram queixar-se do excesso de ideologia do gerente da pensão, quis falar com ele, para lhe explicar que, bom, enfim, algumas pessoas não levavam a bem aquela proibição, e que era normal em todo o lado chamar patrão às pessoas, e que não valia a pena insistir numa coisa daquelas… Frelimista que era, à antiga, e por isso incapaz de desrespeitar uma autoridade estatal, o tal senhor gerente retirou, muito contrariado, muito zangado mesmo, a proibição e tudo voltou ao normal: “sim, patrão”, “não, patrão”, “diga, patrão”…

II
Tenho uma t-shirt preta com a palavra mzungu escrita a letras brancas. Foi uma prenda da minha mulher, que a comprou numa das suas últimas viagens de trabalho, penso que num qualquer aeroporto no Quénia ou na Tanzânia. Mzungu é a palavra suaíli que se usa para designar os brancos**, de maneira que quase nunca uso fora de casa essa t-shirt, porque não me sinto à vontade em ostentar assim a minha condição de branco, mas, no domingo passado, por descuido, levei-a vestida quando saí com a família e um amigo para almoçar fora. Fomos a um restaurante que há ali à saída da cidade, que é de um português e que, ao que me dizem, costuma ser frequentado por uma parte da comunidade portuguesa de Chimoio. É certo que a maioria dos portugueses são mzungus, mas a t-shirt não era, obviamente, a mais apropriada para a ocasião. Naquela situação, melhor do que uma camisola a dizer mzungu, pensei eu, era ter uma camisola do Leixões, como um tipo que eu conheci há muitos anos em Bordéus, que se surpreendeu muito quando, em plena rua de Ste. Catherine, me dirigi a ele em português: “Eh pá, mas como é que tu sabias que eu era português?” As palavras são como as cerejas, é bem verdade, e onde eu já vou!… Com camisola de mzungu ou sem ela, os meus pruridos identitários, chamemos-lhe assim, não me impediram, quando chegou a altura de escolher o almoço, de optar por um cozidinho à portuguesa, que é uma coisa que nem todos os dias se pode comer em Chimoio…

Quando se vive fora do seu país, a nacionalidade pode ser, às vezes, uma armadilha. Outras vezes é um peso. É uma armadilha quando uma pessoa começa a relacionar-se com outra porque tem em comum com ela a nacionalidade ‒ e só isso ‒ e se arrepende depois de o ter feito… E é um peso quando não queremos identificar-nos com o comportamento da maioria dos nossos compatriotas no lugar onde estamos… Mas enfim, não há nada fazer. Quando me perguntam qual é a minha nacionalidade, tenho de responder que sou português, porque é português que eu sou. Mas costumo acrescentar: “Ninguém é perfeito, sabe?…”

Já o meu amigo que estava a almoçar connosco tem mais dificuldade em atribuir-se a si próprio uma identidade nacional. “Os meus pais são belgas”, costuma ele dizer, “e eu também tenho um passaporte belga, mas não sei bem o que sou…”. Conheço muitas pessoas como ele. Eu próprio, que não tenho dúvidas de que sou português, não me sinto seguramente tão português como outros portugueses que há. Provavelmente, não sou mesmo tão português como outros portugueses que há. E se digo provavelmente é só porque não sei ao certo como se define a propriedade ser português. Há o passaporte, pois, e deve haver mais do que isso, mas o quê?

Numa coisa estamos de acordo, o meu amigo belga e eu, na conversa que surge durante o cozido (ele também escolheu cozido, se calhar por não haver carbonade…): fazem-nos falta a todos nós amigos e companhia, porque a solidão é a mais terrível doença de que pode padecer um ser humano, mas a necessidade de raízes e de identidade, nacional ou outra, é um mito. Há muito quem apregoe a importância da consciência das “raízes” e do fazer-se parte de uma comunidade, há muito quem queira convencer-nos de que o que é natural, e por isso, indispensável, é fazer parte de uma nação, um clã, uma tribo ou uma religião, há muito quem passe a vida a publicitar o sofrimento daqueles a quem a vida nega a possibilidade de viver entre “os seus”, mas, é curioso!, conheço gente “desenraizada” e “apátrida” em maior e menor grau e nos “desenraizados” e “apátridas” que conheço não noto nem nunca notei problema nenhum ‒ contanto que, claro está, assumam a sua condição de não serem portadores de uma identidade clássica. Evidentemente, se um português insistir em sentir-se exclusivamente português (entenda ele como entender a sua portugalidade) e em fazer do que é característico do seu Portugal condição indispensável de felicidade, há-de passar uma vida contrariada em qualquer sítio que não seja esse seu Portugal. Mas a quem se disponha apenas a viver a vida que tem ‒ como ela é ou mesmo contra o que ela é, não importa ‒ sem se deixar aprisionar em ilusões identitárias, o pretenso desenraizamento e a falta de um sentimento de identidade étnica ou nacional não causam sofrimento nenhum.

Até porque, é aqui que eu queria chegar, a condição mais ou menos desenraizada, mais ou menos apátrida, mais ou menos isso tudo que lhe queiram chamar, de quem não se deixa prender em identidades simples e tradicionais pode ser uma abertura a identidades novas, que, conforme o seu grau de abrangência, podem ir desde não serem nem melhores nem piores do que as restantes até fazerem mais sentido do que quaisquer outras: se a identidade a que se acede é a dos portugueses ou dos belgas emigrantes, a queixarem-se em conjunto tanto da vida no seu país de origem como dos defeitos do país onde vivem, pouco se saiu, ou nada, do estado mais primário e mais comum de identidade; se a identificação for sobretudo com os outros “desenraizados” ou “apátridas” (por exemplo, entretidos à volta de um cozido à portuguesa a discutir o mito da necessidade de identidade...), também não se avançou muito mais; mas se se conseguir deitar às urtigas essas e outras identidades de grupo restritas, passa-se a fazer parte, sem ter sequer de se pensar nisso, do único círculo de identidade que parecer fazer verdadeiro sentido ‒ o que inclui toda a gente sem excepção.

Ou, como diz a velha cantiga de Pietro Gori, “Nostra patria è il mondo intero / nostra legge è la libertà...

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* Se bem que agora a forma boss ou boiss (mais, como direi?, globalizada…) comece a competir muito com patrão
** A informação que me deram é que a palavra deriva de um verbo que significa “andar às voltas” e usava-se originalmente para descrever os comerciantes brancos… que andavam de um lado para o outro. A wikipédia em inglês concorda com esta proposta etimológica.

11/03/08

A língua: elemento de identidade, mas nem escantilhão nem espelho da cultura

Contou-me uma amiga guatemalteca que uma vez, na Bolívia, uma senhora da elite criolla lhe começou a falar mal dos indígenas bolivianos, assim como se esperasse dela alguma cumplicidade:
“Sabe lá”, dizia a mulher, “o que são estes índios – são estúpidos, mentirosos, traiçoeiros, o pior que se possa imaginar…”
A minha amiga respondeu‑lhe, entre surpreendida e indignada:
“Pois olhe, eu sou indígena e prezo a minha língua, a minha cultura e a minha gente!”
“Ah, mas você não é como estes daqui”, disse-lhe a mulher, obviamente sem compreender o efeito das suas afirmações na minha amiga, “você não fala como eles.”

Para um criollo do planalto boliviano, a maneira de falar da minha amiga guatemalteca é reconhecida como sendo “fina”, mais “fina” inclusive que a maneira de falar dos próprios criollos locais. E, como acontece muitas vezes, isso pode ser levado mais em conta que o próprio tipo físico – a amiga de quem vos falo tem um tipo marcadamente indígena, por exemplo.

Tudo isto para dizer que a língua é um elemento essencial da identidade. É verdade que temos sempre tendência a reconhecer como fazendo parte do mesmo grupo que nós uma pessoa que fale como nós. Mas também se tem exagerado muito quando se fala da relação entre língua e cultura…

Uma ideia que, nascida da linguística e da antropologia, extravasou para o chamado “senso comum” é a de que a língua modela a nossa maneira de ver o mundo. A ideia vem sobretudo de um senhor chamado Benjamin Lee Whorf, que, quando estudava uma tribo norte‑americana, os Hopi, ficou muito surpreendido com o facto de o sistema verbal deles não ser organizado à volta de conceitos como passado, presente e futuro, mas de algo que ele definiu como “o manifestado” e o “não manifestado” e concluiu daí que os Hopi, como tinham “outros conceitos” na sua língua, não podiam percepcionar o mundo como, por exemplo, quem falasse inglês. A língua, dizia ele, cria hábitos a nível do pensamento que agem sobre a cognição.

Qual o problema de tão elegante e sedutora proposta? Quando se fala de categorias linguísticas, o problema está na confusão entre forma e conteúdo e no desconhecimento da realidade linguística do mundo. Há muitas maneiras de distinguir entre o que Whorf chamava o “manifestado” e o “não manifestado” sem ser através das formas verbais, e há, além disso, outras línguas em que as formas verbais também marcam distinções do mesmo tipo da que surpreendeu Whorf. Tudo leva a crer que a maior parte dos conceitos operativos em todas as línguas, como os que se relacionam com tempo, espaço, modo, quantificação, qualificação, etc., etc., não estão de modo nenhum relacionados com formas específicas. Não me interessa entrar aqui em pormenores, mas o facto é que, quanto mais sabemos de todas as línguas do mundo, mais sabemos que são constituídas pelas mesmas categorias e pelas mesmas possibilidades... que se manifestam de formas diferentes e através de formas diferentes.

Mas há também uma vertente lexical da questão: a de saber se há conceitos ou tipos de conceitos que, não havendo palavra para os definir especificamente, simplesmente não existem? Ou todos os conceitos existem fora das palavras? Alguns dos conceitos de objectos, processos, ideias, etc., parecem ter uma relação mais directa com as palavras que os referem do que os conceitos mais abstractos que referi acima, mas o facto de não haver palavra para dizer uma coisa não me impede de pensar nela – é por isso que se pensa em coisas em que ninguém pensou antes e só depois é que se lhes dá um nome... Além disso, mesmo que admitamos que a língua pode, de alguma forma, influenciar a maneira como introduzimos cortes no continuum que a realidade é (por exemplo no caso das cores ou na classificação em grupos de plantas ou animais), a percepção de todos os humanos é igual (excepto no caso de anomalias, claro está), de maneira que uma pessoa que fale uma língua em que não haja, por exemplo, a distinção básica entre azul e verde continua a ver as mesmas cores que eu e pode, se precisar de o fazer, ultrapassar a lacuna existente na sua língua, criando uma maneira de referir a diferença.

Por tudo isto, há que ter muito cuidado com as generalizações fáceis sobre a maneira como a mundovisão é influenciada pela língua. A mesma língua, com pequeníssimas diferenças, pode ser falada em culturas completamente diferentes e culturas muito parecidas podem usar línguas completamente diferentes. Veja-se o caso dos zimbabueanos ou sul‑africanos de língua materna inglesa, que têm, muitos deles, um inglês muito próximo do inglês de Inglaterra e que, no entanto, têm uma cultura que é, em muitos aspectos, muito, muito pouco inglesa; ou, para continuar aqui na região, o de alguns moçambicanos que falam um português quase igual ao meu sem que isso os faça de modo algum ter uma cultura portuguesa; ou no caso dos bascos de língua materna basca (euskera), que têm uma cultura muito semelhante à dos outros espanhóis, mas que têm uma língua que nem indo‑europeia é. Se a língua moldasse a maneira de ver o mundo, um finlandês de língua materna finlandesa teria de ver o mundo de uma maneira completamente diferente de um finlandês de língua materna sueca, porque a diferença entre as duas línguas é enorme (muitíssimo maior do que entre o sueco e o português, por exemplo), mas não é com certeza esse o caso. E podia dar dezenas de outros exemplos, mas passo antes ao ponto seguinte da conversa, que diz respeito a outra ideia bastante divulgada em que eu também não acredito: a ideia de que a língua reflecte a sociedade.

Muitas pessoas acreditam que um estado determinado da evolução da língua num determinado espaço geográfico reflecte o estado dessa sociedade. Isto não só não pode ser provado, como, em muitos casos, pode ser demonstrado o contrário. É claro que não se pode negar completamente a influência das evoluções dos fenómenos sociais sobre a evolução da língua. Mas essa influência, nos casos em que existe, está longe de ser imediatamente perceptível. Uma das dificuldades é estabelecer com rigor quando é que são as condicionantes que vêm do interior do sistema linguístico – que goza sempre de uma relativa autonomia em relação aos outros sistemas (económico, cultural, político, etc.) – que vingam sobre os outros tipos de constrangimentos. É bem provável que o quase desaparecimento, nas línguas escandinavas, da forma “de respeito” da 2ª pessoa do singular seja o resultado de uma desierarquização dessas sociedades, mas não é por haver uma oposição entre du e Sie em alemão que a sociedade alemã é mais hierarquizada que a sociedade inglesa (longe disso!...), em cuja língua essa oposição desapareceu, excepto em raras variantes regionais, há já muito tempo… [Bom, no caso do inglês foi, de facto, como no espanhol da Argentina ou no português do Brasil, a forma de tratamento informal (thou) que desapareceu. O que também não significa que tenha havido uma hierarquização das sociedades onde o fenómeno se deu…]

Entretanto, a discussão continua entre os que querem mudar o mundo: Para acabar com as discriminações várias que há, insiste-se em lutar contra as palavras e as expressões que se crê que modelam ou que espelham essa discriminação? Ou deixa-se a língua de lado e tenta mudar-se apenas a sociedade, acreditando que a maneira discriminatória de referir grupos de pessoas desaparecerá naturalmente com a mudança social?

[Atualizado a 16 de maio de 2023, sem atualização da grafia]