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06/01/24

Memes, escalas de temperatura e pormenores de tradução

 Circula agora na internet a seguinte piada — ou meme, como agora se diz (traduzo eu do inglês): 

O astrónomo sueco Anders Celsius morreu em 1744 aos 42, mas o seu rival Fahrenheit insistia que ele tinha 107.

Independentemente da graça que possa ou não ter, este meme desinforma um bocado, porque Daniel Gabriel Fahrenheit morreu a 16 de setembro de 1736, quando Anders Celsius tinha 34 anos, cerca de seis anos antes de inventar a escala centígrada de temperatura. 

Aqui fica então uma versão corrigida do meme:

Em 1742, quando soube que Fahrenheit falecera seis anos antes, aos 50, Celsius pensou que ele tinha morrido com apenas 10. «Pobre criança!»

O problema é que, se o meme original ainda tinha alguma possibilidade de fazer sorrir o leitor, a versão corrigida não tem mesmo graça nenhuma…

[Uma dúvida que tenho em relação à tradução é se soa natural, em português, dizer a idade sem usar a palavra «anos». Mas escrever «anos» desfaz um bocado a brincadeira, não faz?] 


31/01/23

«Ah, mas isso é um palavrão!...», um artigo quase brejeiro

 

Aí pelo ano 2000, tive a ideia de criar e comercializar uma aplicação (basicamente uma base de dados, que nessa altura, seria em CD-ROM, claro), que avisasse de palavras — ou sequências de palavras/sons — tabus em todas as línguas do mundo. Ok, nas mais importantes, vá... Assim, por exemplo, se uma pessoa quisesse comercializar um produto no mercado internacional, podia perguntar à aplicação se o nome do produto podia ser motivo de chacota ou de embaraço em alguma língua[1].

Mas nunca cheguei sequer a fazer um estudo de viabilidade da coisa. Fazer uma base de dados assim havia de dar muito trabalho e achei que ninguém ou quase ninguém a compraria — até porque a informação sobre a aceitabilidade do nome de um produto ou de uma instituição numa determinada região se pode, em princípio, obter dos representantes locais da firma ou da organização que os cria. A Hyundai sabia, antes de lançar o Kona em Portugal, que o carro não se podia chamar assim e foi só em Portugal que o modelo se chamou Kauai. O Opel Ascona foi comercializado em Portugal como Opel 1204, Opel 1604 e Opel 1904[2]. A Mitsubishi sabia que não devia usar nos países de língua castelhana o nome Pajero para o seu modelo Opel utilitário-desportivo lançado em 1981 (ver aceção 3 no DRAE) e chamou-lhe antes Montero nesses países. Quanto ao Toyota MR2, esse chama-se mesmo só MR, sem o 2, nos países de língua francesa, pela razão simples de que MR2 se pronuncia /ɛmɛʁdø/, exatamente como «est merdeux». No Québec, a Buick lançou o Lacrosse como Allure, porque já sabia que o nome original não ficava bem em francês canadiano[3]

Hoje em dia, até já há ferramentas gratuitas em linha que permitem verificar palavrões em diversas línguas. (Como esta, por exemplo, que trabalha com 19 línguas — e é, por isso mesmo e não só, muito, muito incompleta.) E, como também há casos em que um palavrão ou outra palavra indesejável se esconde dentro de outra palavra (como no caso do Opel Ascona atrás referido), existe até outra ferramenta, também grátis e também muito incompleta, que permite encontrar palavras dentro de palavras.

Estas pesquisas, porém, nem sempre se fazem e há produtos ou organizações com nomes pouco recomendáveis em países ou regiões onde são lançados. A Internet está cheia de histórias de produtos assim, umas mais verdadeiras que outras, provavelmente — e a maior parte delas muito difícil de verificar. Ao que vejo, às vezes exagera-se um bocado sobre a falta de aceitabilidade do nome e inventa-se um problema que não existiu. Eis alguns exemplos do que para aí se diz e a avaliação que faço deles:

Parece que há um chocolate com nozes chamado Fart na Polónia, para grande divertimento dos falantes do inglês, mas a verdade é que só encontro o produtos em páginas em inglês que tratam de «erros de marketing» — e não sei se alguma vez alguém pensou em vender o chocolate fora da Polónia… Enfim… Os falantes do inglês também acham muita graça quando, na Dinamarca, vêm um letreiro «I fart» («em movimento»), por exemplo num elevador, mas não devem estar à espera que os dinamarqueses mudem isso só por causa deles…

A revista sueca Auto Motor Sport de 3 de Abril de 2002 (numa página que já não está em linha), diz que, segundo um artigo publicado no jornal Dagens Nyheter, o Honda Fit estava para ser lançado como Honda Fitta e que uma mensagem do escritório sueco da firma fez a companhia mudar de nome, o que lhe custou caro, já que tinham brochuras e filmes publicitários com o nome que não ficava bem nem em sueco nem nas duas línguas norueguesas oficiais, danonorueguês e neonorueguês. Como o nome do carro em japonês se transcreve Fitto e não encontro nenhuma outra referência a este acontecimento, parece-me bem possível que o Dagens Nyheter a tenha publicado a 1 de abril…

Alguém assegura que a cadeia alemã de ferragens e material de construção Götzen Baumarkt devia mudado de nome quando começou a operar na Turquia, porque o nome alemão soa como a palavra turca göt (sim, o alemão e o turco, como aliás o sueco, o finlandês e provavelmente outras línguas, usam a mesma letra ö para as vogais anteriores arredondadas) a forma da segunda pessoa do verbo ser, algo como «és um cu». Mas se tivesse sido mesmo um problema para a firma, alguém teria feito alguma coisa para o resolver.

Leio também que, na Tailândia, a Ikea mudou mesmo o nome de dois produtos, a cama Redalen e o vaso Jättebra, porque ambos significam «sexo» em tailandês — sendo o primeiro um termo eufemístico e o segundo um termo de calão. O que eu gostava de perceber, sobretudo na palavra Jättebra, é como os tailandeses, que presumo que tenham contacto com o nosso alfabeto sobretudo através do inglês, conseguem ler o som do sueco. Jättebra lê-se algo como [iétebró]. Ou é o sueco lido à inglesa que soa como a palavra-tabu tailandesa? Enfim, até me explicarem melhor, também não acredito muito nesta história.

Já o que li sobre o queijo de barrar norueguês Kavli na Grécia tem mais possibilidades de ser verdade. Kavli vende-se em muitos países e é certo que se vende na Grécia. Se muito ou pouco, já não sei… E é certo que καυλί em grego não é bom nome para queijo.

Leio em vários sítios na net que o Mazda Laputa, uma versão do Suzuki Kei, nunca foi comercializado em países hispanófonos, por causa do nome — mas será mesmo verdade?

Lumia, um smartphone da Nokia, significa de facto «prostituta» em espanhol, mas é termo raro, não sei se muita gente o conhece. Pelos vistos, a Nokia não se preocupou muito, nem teve problemas com isso.

Também não há dúvida de que sega é mesmo um termo informal para masturbação em italiano, mas parece que a conhecida marca de jogos de vídeo resolveu o problema, se o havia, comercializando o seu produto em Itália com a pronúncia /siga/ em vez de /sega/ (e isto é mesmo assim).

Outra situação em que um possível problema se resolve foneticamente é a dos Audis e-tron em França: e-trone pronuncia-se /itrone/ e não étron.

Também parece certo que სირი, Siri em georgiano, é uma antiga palavra para «pássaro, pássaro jovem ou pintainho» que se usa atualmente como palavrão para designar o pénis. Mas, se significa também pássaro, pássaro jovem e pintainho, სირი é exatamente como pinto ou rola no Brasil e pode discutir-se até que ponto é um verdadeiro palavrão. A verdade é que os georgianos não sentiram necessidade de arranjar outro nome para a assistente virtual da Apple[4].


Enfim, não se pode sempre verificar os nomes de tudo em todas as línguas — quando muito, se houver tempo e paciência para isso, nas línguas em que há mais possibilidade de o produto vir a ser mencionado. Não faço ideia de como se pode calcular a probabilidade de uma qualquer palavra ser inconveniente em alguma das 6.000 línguas do mundo (ou mais, segundo alguns), nem sequer se há maneira de calcular essa probabilidade — mas ela está, pelos vistos, longe de ser nula…

_______________

[1] Quem diz nome de produto, diz nome de instituição ou organização, evento, etc. E, claro, há muitas outras razões para um nome ser embaraçoso além de ser uma palavra-tabu. Neste texto, porém, para não me alargar demasiado, limito-me a referir nomes de marcas que evocam os chamados palavrões.

[2] Ao que vejo, mais tarde foi também comercializado como Ascona. As ressonâncias do nome parecem ter deixado de preocupar a firma...

[3] Ver aqui um excelente artigo [em francês] sobre a palavra crosse e os seus derivados, que se podem, de facto, relacionar com masturbação. Ainda assim, surpreende-me que se tenha alterado o nome do modelo no Québec — o desporto com o mesmo nome é popular e não creio que alguém já tenha querido mudar-lhe o nome.

[4] A Siri da Apple também veio causar problemas doutro tipo às pessoas com esse nome, que passaram a ser vítimas constantes de graças sem graça nenhuma, mas isso é outra história. Tivéssemos nós adivinhado que em 2011 a Apple lançaria a Siri e nunca teríamos, sete anos antes, dado esse nome à nossa filha mais nova.

[Ligeiramente alterado a 4 de Outubro de 2023


17/01/18

Cor de burro quando foge, vinho a martelo e… o pau da gávea das caravelas

Uma coisa que parece agora estar na moda é arranjar novas explicações, tão complicadas como falsas, quando não completamente disparatadas, para expressões cuja origem não é óbvia para a maior parte das pessoas.

Há, por exemplo, quem afirme que a expressão cor de burro quando foge tem origem em corro de burro quando foge (ver aqui um exemplo de um desses artigos que não diz nada que se aproveite).
Burro muda de cor quando foge??? Qual cor ele fica??? Porque ele muda de cor??? Eu queria porque queria ver um burro fugindo para ver a cor dele! Sério! O correto é: ‘Corro de burro quando foge!
Não faz grande sentido e, de facto, confunde mais do que explica seja lá o que for. Em que contexto pode «corro de burro quando foge» – frase estranhíssima, aliás – evoluir para passar a designar uma cor indefinida? Ora, francamente…

Uma hipótese menos disparatada é que, como burro pode ter designado uma cor apenas, antes de ter começado a designar o animal, a expressão derive de uma cor de burro antiga, a que se tenha acrescentado quando foge com intenções humorística, quando burro já não era senão o nome do bicho (vejam aqui). Mas é uma discussão muito especulativa, e, sobretudo, passa ao lado de um facto simples que não se pode ignorar em nenhuma proposta de explicação da expressão: tanto em castelhano como em italiano existe a expressão «cor de cão que foge», com o mesmo significado –respetivamente color perro que huye e colore del cano che fugge. Ora não me parece que perro ou cane alguma vez tenha sido, nestas línguas, nome de cor. A partir de que língua se difunde a expressão ou se vão as três buscá-la a outra língua, eis o que haveria que descobrir...

Interlúdio musical:

Outra explicação delirante do mesmo tipo é uma que há da expressão vinho a martelo, por exemplo aqui:
A expressão remonta ao século XX quando o Engenheiro Simão de Martel descreveu os dados estatísticos oficiais da produção de vinho como muito enganadores. 
Eu sei bem que estas explicações «etimológicas» são sedutoras e, como até podem parecer lógicas à primeira vista, é fácil aceitá-las. Mas eu sou um chato. Para já, quando leio «A expressão remonta ao século XX» fico logo com uma ideia clara do rigor do que segue. Num texto escrito em 2014, dizer que a expressão «remonta ao século XX» é um bocado disparate, para não dizer mais. Mas adiante…
A questão que me surge de imediato é que o facto de Simão de Martel ter criticado as estatísticas da produção de vinho (penso que isto se refere a um estudo dele de 1911 que é muito citado, mas não tenho a certeza) não explica em nada a expressão.

Ora, na realidade a expressão é anterior a Simão de Martel. Para dar um exemplo apenas, vejam aqui que, em 1885, tinha Simão de Martel 6 anos de idade, já se falava de vinho a martelo, não só em Portugal, mas também no Brasil:
Os vinhos continuam a dar que fallar de si. Uns querem que elle só seja extrahido das uvas. Outros, porém, contentam-se de que elle seja feito—a martello.  
A verdade é que não é preciso ir buscar explicações esotéricas. Infelizmente, não tenho à mão dicionários com datações de primeiras ocorrências, mas a expressão a martelo deve ser bem mais antiga. Parece-me claro que significa inicialmente «à força; à bruta» e o significado alarga-se facilmente para «mal feito, feito de qualquer maneira» e daí para «contrafeito». Como o explica, aliás, Gonçálvez Viana nas suas Apostilas aos Dicionários Portugueses, de 1906:
martelo, marteleiro
— «O paiz está cheio de mixórdias, abarrotado de vinho a martello... Sabem os poderes publicos, porque conhecem e convivem com os marteleiros» — O sentido de vinho a martelo é evidente; quere dizer «vinho aldrabado», e a locução a martelo pertencia à língua comum, querendo dizer «à fôrça», «sem dever ser».
Muita fortuna tem também tido uma explicação completamente disparatada da expressão mandar/ir para o caralho. Sobre essa, não preciso de escrever nada eu, basta-me citar a Wikipédia, que, numa nota de rodapé à discussão etimológica da palavra, a desmonta bem:
Às [as várias etimologias propostas] (…) acrescentou[-se] muito recentemente uma lenda urbana em circulação na Internet que, tanto em português como em castelhano, alega que caralho ou carajo era o nome dado ao pau maior da cesta ou gávea das antigas caravelas, e que seria essa a origem desta designação de caralho para o membro viril masculino. Tudo parece indicar que a lenda nasceu de uma tentativa de explicação para as frases "¡Vete al carajo!" ou "Vai para o caralho!", que supostamente se refiririam [sic] ao castigo que recebiam alguns marinheiros a quem se obrigava a subir à gávea, onde estavam os vigias, e aí permanecer algum tempo. O uso do termo caralho está documentado, no entanto, em épocas muito anteriores à das caravelas portuguesas ou castelhanas, pelo que se a gávea alguma vez teve esse nome era, como no caso do carall bernat catalão, por metáfora ou exagero de semelhança entre o caralho e o pau maior onde encaixava essa cesta, que seria a ponta do caralho.
É caso de dizer que apetece pôr de castigo na gávea quem inventa e difunde estas – e muitas outras – patranhas…

28/03/16

O que significa o n de ncultura?

Há coisas difíceis de compreender. Foi Shyznogoud que me disse: uma grande parte do que vem no artigo «10 particularidades que provam que os lisboetas também têm sotaque» do ncultura é copiada, às vezes palavra por palavra, de um texto deste blogue, «Português de Lisboa: ao que isto chegou…».

Vê-se que quem me copiou o texto não sabia bem o que estava a fazer, porque faz uma grande salgalhada. Não sei donde vem a parte do texto que não é minha, mas não faz sentido nenhum. Dizem que os lisboetas pronunciam /u/ os oo átonos e que não dizem ee em fim de palavra. Mas isso é em todo o português europeu! Ou mais: se estivermos a falar do o pós-tónico, como no exemplo que dão de «pêssegu», já nem é só no português europeu que isso acontece, mas também no Brasil.  Dizem também que os lisboetas dizem vocês em vez de vós e que usam a gente em vez de nós. Mas isso também acontece em todo o português, não tem nada de lisboeta! Enfim...

Uma coisa triste, como veem. A quem tentou comentar no site ncultura, para explicar o que se passava, não publicaram os comentários; a quem o fez na página ncultura do Facebook,  apagaram-lhe os comentários e, se insistiu, acabam por o bloquear. Depois, ao fim de alguma insistência, puseram um link para o meu texto, indicando-o como «fonte parcial». Mas nada de alterar o texto, nada de fazer citações como devem ser feitas, com aspas e indicação do autor. Onde quererão chegar com isto?

Ainda não explorei devidamente o site ncultura, mas já percebi que copiar textos sem referir o autor é procedimento normal. Ou então, tive muito azar, porque o primeiro – e único – texto que verifiquei, «Como nasceu a língua portuguesa», é obviamente copiado também, como podem verificar.

Vão ver o texto que Jonasnuts escreveu sobre o assunto no seu blogue: conta a história, explica o que é esta ncultura e indica um ferramenta útil para descobrir plágio.

Uma pergunta; alguém sabe o que significa o n de ncultura? Não? Nada? Nenhuma?

07/08/14

De lugares demasiado comuns (relambório com interlúdio musical)

Ena, o que para aí anda de sabedoria em pacotes a circular na Internet e por correio eletrónico!

*
A exortação a sermos nós próprios, por exemplo, deve ser do que mais recorrente há dessa internética filosofia de algibeira. Já se sabe que a ideia de uma identidade essencialmente dualista é cara à maior parte das pessoas: parece que há o que nós somos de facto e o que nós somos sem ser de facto, mas não sei bem o que é uma coisa e a outra. Aliás, isso nunca é explicado, provavelmente porque não há nada a explicar. Pode alguém ser quem não é? Mesmo quando se finge ser outra pessoas, vá, caso extremo, somos nós a fingir, ou não? E se fingimos é porque somos, de facto, fingidores. Mas enfim...

É certo que uma frase muito divulgada sobre o tema é também “Sê tu próprio. Os outros já estão todos ocupados”, que resume, com saudável ironia, tudo o que há a dizer sobre o assunto, mas não chega para neutralizar os disparates[1].

**
Outra ideia estranha muito divulgada nas redes sociais é a da oposição entre ser e ter. Digo outra ideia, mas ela segue, em grande medida, a oposição que referi no parágrafo anterior entre algum eu essencial e outro eu acessório e falso: o ser é o essencial e o ter é o acessório, o descartável. Evidentemente, louva-se o ser e, conforme o grau de radicalismo do aforismo, exorta-se a desvalorizar ou a abandonar o ter.

A realidade é, infelizmente, um bocadinho mais complicada: ter e ser são muitas vezes usados como léxico alternativo a predicações iguais: ter uma grande inteligência ou ter uma grande capacidade é a mesma coisa que ser muito inteligente ou ser muito capaz. Mesmo que limitemos o ter ao seu sentido material de “possuir, ser dono de” e restrinjamos o seu “complemento direto”[2] a palavras que referem objetos materiais, nem tudo se torna tão claro como alguns pretendem que seja, porque ter muitas coisas é ser rico e ter poucas coisas é ser pobre e, segundo a lógica que se propõe, parece que é preferível ser rico ou ser pobre a ter respetivamente muitas coisas ou poucas. Pensar que o que se tem só acessoriamente nos define (no tal estranho sentido do não fazer verdadeiramente parte do nosso ser) é uma proposição indefensável, creio eu: a riqueza, a posição social, o poder, enfim, – ou a sua falta! – modelam obviamente o mais essencial no nosso ser, seja lá isso o que for.

***
Outra ideia com grande fortuna é o elogio da “loucura”, sobretudo através de uma citação de Jack Kerouac:
As únicas pessoas para mim são as loucas, as que estão loucas por viver, loucas por falar, loucas por ser salvas, desejosas de tudo ao mesmo tempo, as que nunca bocejam nem nunca dizem um lugar-comum, mas ardem, ardem, ardem, como fabulosos fogos de artifício explodindo com aranhas entre as estrelas e no meio vê-se irromper a luz central azul e toda a gente diz «Ena!»[3] 
Não deixa de ser curioso que a maior parte das pessoas que partilha esta frase siga muito pouco do que ela prega, quanto mais não seja porque partilhar a frase é, em si mesmo, uma negação do que ela defende, pelo menos desde que se tornou um lugar-comum, e porque partilhar citações na Internet tem pouco a ver com arder, arder, arder e suscita antes um grande bocejo...

A minha ideia (inverificada e generalizada – como não se deve, peço desculpa! – a partir dos exemplos das pessoas cujas vidas conheço e vejo partilharem a frase…) é que, quanto mais banal e mesurada for a vida de uma pessoa, mais probabilidade há de ela partilhar alguma forma de elogio da vida vivida na faixa de ultrapassagem. Hmmm...

Prefiro a esta outra frase que não me levarão a mal se a atribuir a Leo Mathisen, embora seja provavelmente (muito!) anterior: “Take it easy, boy, boy!”


Leo Mathiesen/Svend Hauberg, "Take it easy, boy, boy", 1940
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São milhares de chavões que por aí circulam à força de clique&partilhe, e não consigo dizer mal falar de todos neste texto, mas não quero deixar de referir o aforismo “Há gente tão pobre que só tem dinheiro”, que muda de autor de cada vez que é repetido (e é muito repetido…), quando não aparece, uff…, sem menção da autoria.

Bom, não quero deixar de o referir, mas não sei bem o que dele hei de dizer… Que se há de dizer de uma frase assim, digam-me lá? Não que não nos possamos ralar com a pobreza de espírito dos ricos, se tivermos muito espaço mental para toda a sorte de ralações, mas, pela alma de quem lá têm, então o que nos deve preocupar não é antes a situação dos muitos milhões de pessoas que são tão pobres que não têm mesmo dinheiro?
*
Para terminar, um pequeno comentário a uma frase diz-que-de-Einstein[4]:
Temo o dia em que a tecnologia ultrapasse a nossa interação humana. O mundo terá uma geração de idiotas. 
A conclusão costuma ser, claro está, que “esse dia já chegou”. Evidentemente, Einstein nunca disse tal coisa (obrigado, Quote Investigator), até porque não se vê nenhuma razão para que pensasse algo parecido com isso; mas é certo que a tecnologia é realmente temível! Se assim não fosse, aliás, nunca teria escrito este texto. Permitam-me, portanto, que afine a frase falsamente atribuída a Einstein. Devem, naturalmente, atribuir-me a mim a versão melhorada da sentença, mas, se quiserem atribuí-la a Rudyard Kipling ou a Luís XIV, também pode ser:
Temo o dia em que a tecnologia permita difundir informação fantasiosa cuja veracidade ninguém verificará e cuja plausibilidade ninguém questionará; e permita a toda a gente armar-se em esperta exibindo aforismos de grande efeito e informação pseudocientífica e toda a sorte de apatetadas teorias da conspiração...
Se pensarem que esse dia já chegou, pensem melhor: infelizmente, ele sempre existiu…

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[1] Como não podia deixar de ser, a razoável proposta “Be yourself. Everyone else is already taken.” é quase sempre erroneamente atribuída a Oscar Wilde, que nunca disse nem escreveu tal coisa

[2] Não se trata de um verdadeiro complemento direto, porque ter não se porta o mais das vezes como um verbo transitivo. Por exemplo, “muita fome era tida por ele” não se pode dizer, pois não?, por muitas voltas que se queira dar à língua…

[3] É claro, para não se fugir à regra em voga de nunca citar corretamente, mesmo esta citação de Kerouac é o mais das vezes substituída por outra que também lhe é atribuída, mas que não foi de facto escrita por ele, mas sim por Rob Siltanen e Lee Clow para uma campanha publicitária da Apple. A versão em português do Brasil, que é a mais divulgada, é assim (ligeiramente emendada):
Isto é para os loucos; os desajustados; para os rebeldes; os desordeiros; para aqueles que possuem 4 olhos, para aqueles que veem as coisas de maneira diferente, para aqueles que não seguem as regras, para aqueles que não respeitam o status quo. Você pode humilhá-los, discordar deles, ou tentar atingir seu fogo interior, mas o que você simplesmente não pode fazer é ignorá-los, porque eles mudam as coisas, empurram a raça humana para frente. Embora alguns possam parecer loucos, são os melhores. Porque as pessoas que são suficientemente loucas para pensar que podem mudar o mundo são o futuro. 
[4] Coitado de Albert Einstein, é a maior vítima das citações erradas, porque é o mais popular dos grandes cientistas – ou o único grande cientista realmente popular… Se alguém disser que uma frase é de Richard Feynman ou Rodolfo Llinás, por exemplo, não tem o mesmo impacto, pois não?

01/09/13

Autoestradas de informação?

Não é a estrada que modela o veículo que nela circula. Obviamente, as autoestradas de informação podem também ser as autoestradas de desinformação. Podem ser, não – são-no de facto, em muitos casos.

Há uns meses, vi de repente invadir o meu newsfeed do Facebook a notícia de que tinham sido proibidos e queimados, na Hungria, os cereais geneticamente modificados. Muita gente se deve ter interrogado e especulado sobre a questão: por que teria sido a Hungria – ou, mais concretamente, o seu atual governo de extrema-direita – a ter uma reação tão violenta contra os OGM? Curioso que sou, e espicaçado, ademais, pelo facto de os links que se iam espalhando pelo newsfeed levarem sempre a páginas de que nunca tinha ouvido falar, fiz o que faço sempre nestas situações: selecionei o título de uma dessas notícias, cliquei do lado direito do rato, escolhi Search Google for... e a pesquisa deu-me centenas de versões da notícia, que podia começar a analisar. Não demorei muito tempo a concluir duas coisas: que a notícia tinha pelo menos dois anos[1] e que não se encontrava em nenhum jornal de referência, ou, pelo menos, num jornal que eu pudesse classificar como “em princípio credível”.

Tenho a certeza de que nenhum dos meus amigos que partilharam a notícia teve o cuidado de fazer o que eu fiz. Porquê? Uns, porque confiaram nas pessoas de quem receberam a notícia; outros, porque se dispõem a aceitar acriticamente como, pelo menos, interessante e merecedor de divulgação todas as ações anti-OGM; e, a grande maioria, porque isso não faz parte das suas rotinas e dos seus hábitos – da sua cultura em sentido lato. Agora, pode considerar-se ligaçoes para este tipo de artigos de jornal – se é que de artigos e de jornal se pode falar – informação?

A histórias dos cereais húngaros é um exemplo apenas, de um sem-número que podia ter escolhido.  “Antigamente”, diz um desses irritantes aforismos apócrifos que correm o Facebook à força de cliques fáceis, “para um boato se espalhar, tínhamos de dar tempo aos barbeiros e aos motoristas de táxi de fazer o seu trabalho; hoje, é muito mais rápido – click & share, temos o Facebook.” Muito pós-modernos na (quase) autorreferência, este aforismo tem, ao contrário da maior parte dos que por aí circulam, realmente visos de verdade…

Agora, no meu newsfeed do Facebook não passa só este tipo de des-informação. Também tenho amigos com uma cultura de rigor informativo, que não publicam ligações para textos sem verificar a sua credibilidade, que não publicam textos apócrifos nem imagens sem referir a autoria, etc. Foi também no newsfeed do Facebook que me apareceu uma ligação para os comentários que Shi Zhou, investigador em Informática, faz a um estudo sobre a evolução do boato nas redes sociais de que é coautor[2].
Uma observação interessante desta pesquisa é que a desigualdade não é reduzida, mas sim intensificada, em redes sociais modernas. A nossa pesquisa sugere que as redes sociais modernas têm de facto aumentado a disparidade entre a qualidade da informação a que os diversos grupos sociais têm acesso. Sabe-se que as pessoas muitas vezes alteram uma mensagem, acidental ou deliberadamente, antes de a transmitir a outros. (…) Nós mostramos que, embora só uma pequena parte da população tenha o hábito de alterar a informação, a maioria da sociedade apenas recebe mensagens repetidamente modificadas. Nem toda a gente, porém, é afetada da mesma maneira. As pessoas com muitas ligações normalmente recebem mensagens mais autênticas que as pessoas com menos ligações. O que é surpreendente é que essa desigualdade não é mitigada, mas antes agravada, em redes sociais, onde as tecnologias modernas permitem a um pequeno número de pessoas adquirir um número de ligações desproporcionalmente grande. Neste caso, os super-relacionados são mais favorecidos, recebendo informação quase genuína muito próxima de sua forma original, ao passo que os solitários, que têm um pequeno grupo de relações nas margens da sociedade, estão irremediavelmente prejudicados por lhes serem sempre transmitidos boatos fortemente distorcidos.
É uma estudozinho e vale o que vale. Não quero, sobretudo que entendam esta citação de Shi Zhou como inserindo-se no espírito, que está longe de ser o meu, de criticar os efeitos do progresso e das tecnologias: “Estão a ver, afinal com a Internet e as redes sociais ainda estamos piores que antes!...” Não é nada disso, mas também é importante, para não cair numa idealização fácil das redes sociais, nunca perder de vista um facto simples para que nos chama a atenção o Daniel Innerarity:
Há muito quem creia que uma nova tecnologia surge no vazio, fora de um contexto social ou económico, mas não é assim. E é por isso que a mesma (nova) tecnologia tem efeitos diferentes em sítios diferentes, ou traz mudanças ”imprevistas” ou ”indesejadas”, em vez das mudanças com que sonháramos[3].
Podemos querer que a Internet e as redes sociais alterem as relações de poder, e podemos fazer algo por isso. Mas não esqueçamos que, à partida, as tecnologias reproduzem sempre as relações de poder existentes. Ou podem até, se a tese de Shi Zhou estiver certa, reforçá-las...
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[1] Não é invulgar começarem a ser difundidas no Facebook notícias antigas, sem que ninguém se dê conta da sua desatualização – e às vezes têm bem mais que dois anos…
[2] Yichao Zhang, Shi Zhou et al. Rumor evolution in social networks. 26 de Abril 2013 University College London (UCL). Podem ler o trabalho aqui, mas algumas partes são muito técnicas.
[3] Daniel Innerarity é professor de filosofia da Universidade de Saragoça e investigador, e as suas ideias são-nos apresentadas por Ismael Peña-López em http://ictlogy.net/20120125-daniel-innerarity-politics-in-the-era-of-networks/, a partir das notas que tirou na conferência Politics in the era of Networks, realizada em Barcelona em Janeiro de 2012.

09/11/11

Avós

Há pouco mais de uma semana, uma amiga minha publicou, no seu mural do Facebook, o seguinte texto:
Definição de avó – artigo redigido por uma menina de 8 anos no Jornal do Cartaxo, Portugal…
Uma avó é uma mulher que não tem filhos, por isso gosta dos filhos dos outros. As avós não têm nada para fazer, é só estarem ali. Quando nos levam a passear, andam devagar e não pisam as flores bonitas nem as lagartas. Nunca dizem «Despacha-te!». Normalmente são gordas, mas mesmo assim conseguem apertar-nos os sapatos. Sabem sempre que a gente quer mais uma fatia de bolo ou uma fatia maior. As avós usam óculos e às vezes até conseguem tirar os dentes. Quando nos contam histórias, nunca saltam bocados e nunca se importam de contar a mesma história várias vezes. As avós são as únicas pessoas grandes que têm sempre tempo. Não são tão fracas como dizem, apesar de morrerem mais vezes do que nós.
Toda a gente deve fazer o possível por ter uma avó, sobretudo se não tiver televisão.
Perante um texto assim, o mais natural é reagir, estou eu em crer, como reagiu João Soares Barros no seu blogue Perguntas sobre…
Este artigo circula na Internet como sendo redigido por uma menina de 8 anos e publicado no Jornal do Cartaxo. Provavelmente a história não será bem esta, até porque creio que nem existe um jornal exatamente com este nome, mas sim um Jornal O Povo do Cartaxo. Mas tudo isto são pormenores, perante a verdadeira delícia que é este texto.
Agora eu, embora concordando completamente que a origem do texto não afeta em nada o seu conteúdo e a sua graça, reagi de uma maneira um pouco diferente, porque aquele texto não era novo para mim. Foi-me oferecida em 1993 uma cassete do cantautor Paul Tracey. Chama-se Songs & Stories e inclui uma canção chamada “Grandmothers” [“Avós”], cuja letra não sabia toda de cor, mas de que me lembrava que começava com a grandmother is a woman with no children of her own… [“uma avó é uma mulher que não tem filhos seus…]” e terminava com …everybody should have one, especially if your living room has no television [“…toda a gente devia ter uma, sobretudo se a sala de jantar não tiver televisão]”. A minha reação foi, então: “Ah, mas que curioso – isto é uma tradução adaptada da canção de Paul Tracey!”

Por via das dúvidas, meti-me a pesquisar na Internet. Cheguei relativamente depressa à conclusão de que o texto é muito popular, circula em muitas línguas[1], e atribuem-se-lhe origens várias: nalguns casos, diz-se que foi escrito por uma menina, cuja idade varia entre os 4 e os 9 anos; noutros, que foi escrito por um rapaz de 8 anos e encontrado numa igreja galesa; noutros, que foi compilado de trabalhos de uma turma de crianças de 8 anos, etc. 
No blogue de Raquel Moura, de Mogi Mirim, São Paulo, encontrei uma primeira referência concreta à origem da frase[2]:
Li isto num livro chamado Lar Doce Lar de um dos meus autores prediletos, o Dr. James Dobson. Ele conta que "há muitos anos, uma menina de 4 anos, chamada Sandra Louise Doty, sentou-se numa banqueta numa floricultura, enquanto sua avó atendia os compradores. Quando a avó e a neta conversaram, a menina começou a descrever o que ela achava ser uma avó. A idosa senhora anotou as palavras de Sandra, que têm sido citadas em todos o mundo. Sandra é atualmente a Sra Andrew De Mattia, e deu-nos permissão para transmitir a você sua composição original, intitulada “O que é uma avó”.
O texto que se seguia tinha, em parte, o mesmo conteúdo que o texto publicado pela minha amiga no Facebook, mas acrescentava-lhe alguns pontos: acrescentava referência ao avô (“Um avô é um homem avó” [que] sai para passear com os meninos e eles falam sobre pescaria, tratores e outras coisas semelhantes”) e acrescentava à descrição das avôs que “são velhas, por isso não devem brincar muito nem correr”; que “já fazem muito quando nos levam de carro até as lojas, onde está o cavalo de mentira, e levam uma porção de moedinhas separadas”; que, além de óculos, usam também “roupas de baixo esquisitas”; que não sabem tirar só os dentes, mas também as gengivas”; que “não têm de ser muito inteligentes, somente responder a perguntas como «Por que os cachorros odeiam os gatos e Deus não é casado?»; e que “não falam como os bebés falam, como fazem os visitantes, porque é difícil de entender”.
Ao princípio, pensei que se tratasse de uma referência ficcional, sobretudo porque não encontrei nenhum livro de James Dobson chamado Home sweet home e porque, juntando numa única pesquisa “James Dobson” e “Sandra Louise Doty”, só me apareceram páginas em português e espanhol[3]. Mas descobri que a referida edição de James Donson em português existe mesmo: é de 2000 e é a tradução de um livro chamado Home with a Heart (Living Books, 1999). Mais recente, portanto, que a cassete de Paul Tracey, pensei eu.
No dia seguinte, depois da grande limpeza de sábado de manhã, fui buscar a cassete de Paul Tracey (uma das poucas cassetes que conservo), para tirar a letra. E dei-me conta de que acabávamos de deitar fora o único leitor de cassetes que havia cá em casa. Era uma aparelhagenzinha que estava na cozinha e que estava funcionar tão mal que decidíramos, nessa mesma manhã, deitá-la para o lixo. Mas fui buscar a aparelhagem ao lixo e tirei a letra da canção [traduzo eu]:
Uma avó é uma senhora que não tem filhos seus, / mantém-se sempre ocupada a coser coisas que precisam de ser cosidas. / Gostam das meninas dos outros e dos meninos também, / mas tens de ter cuidado, senão tropeça-te nos brinquedos. / Não tem de fazer muito, a não ser só estar ali, / nunca tem de dizer «Despacha-te lá» nem de olhar quando estás nu. / As avós usam todas óculos e roupa interior esquisita, / e conseguem tirar dentes e gengivas e depois levá-los a consertar. / Não têm de ser espertas, mas têm de saber, as avós, / por que Deus não é casado e que altura tem o céu. / Nunca falam à bebé, como as outras visitas, / e são incrivelmente justas a fazer coisas à vez – agora és tu, agora é ela. / Um avô é um homem-avó; traz o carvão para dentro, / vai pôr o lixo lá fora, depois acha que vai dar uma voltinha… / As avós leem-te histórias, todos deviam ter uma, / sobretudo se na sala de estar não houver televisão[4].
Agora, como podia ter a certeza de que era este texto que tinha dado origem a todos os outros? O melhor, pensei eu, era perguntar ao autor se eram dele estas ideias. E foi o que eu fiz: “O texto é inteiramente seu, como eu parto do princípio que é”, escrevi eu a Paul Tracey, “ou baseou a sua canção em textos, anedotas ou aforismos preexistentes sobre as avós?”
Continuei a pesquisar na Internet. E encontrei uma referência bibliográfica clara num texto de Steven J. Cole: Adoro esta perspicaz redação de uma menina da terceira classe, chamada “O que é uma avó?” (James Dobson, What Wives Wish Their Husbands Knew About Women [Tyndale], pp. 47-48).
A lista de livros de James Dobson da Wikipedia diz que o livro é de 1995, mas verifiquei que há pelo menos duas edições mais antigas deste livro, uma de 1981 (Living Books) e uma de 1982 (Tyndale House Publishers). A cassete de Paul Tracey, essa, não fazia ideia de quando seria, porque não tem qualquer data… Aliás, o próprio autor também não sabe quando gravou a música, como me explicou na resposta ao meu e-mail. Paul Tracey foi extremamente amável e respondeu-me imediatamente, contando-me a história da canção:
A minha mãe vivia em Inglaterra e há muito tempo – anos antes de haver Internet – encontrou as ideias de base para a canção sobre as avós, apresentadas como se tivessem sido criadas algures por uma criança. A minha mãe mandou-me o texto. Não faço ideia de quem o terá escrito de facto, mas fiquei desconfiado e duvidei de que tivesse realmente sido uma criança.
Transformei o texto na minha canção, tirando alguma coisas que não conseguia encaixar e fazer rimar, e acrescentado alguns bocados meus.
Tenho de admitir, porém, que é uma das minhas canções de que gosto menos! Talvez seja porque sou agora tão egocêntrico que só canto canções que tenha escrito eu próprio! Não é bem verdade, mas quase. Decididamente, roubei as ideias do original e não é nada o meu estilo!
E acrescentava que ele próprio tinha conhecimento de que o texto circula por aí:
Para o seu blogue, sugiro que esta obra em particular de facto não viajou nada depressa. Se, como me diz, anda agora a circular, isto demorou muito tempo a acontecer. Acho que, pessoalmente, já topei com ela 3 vezes desde que escrevi a canção há cerca de 40 anos
Fiquei assim a saber que, ao contrário do que eu pensara inicialmente, o conteúdo do texto não foi criado por Paul Tracey. Provavelmente, devia simplesmente partir do princípio que a autora era mesmo a tal Sandra que James Dobson referira. Mas, enquanto não me decidia a dar por terminada a pesquisa, ia displicentemente variando um pouco as pesquisas em Google. E tive de repente novos resultados: Há no site Jokes from the Web, de Richard Lowe, uma carta de uma senhora chamada Sandra L. DeMattia, que reclama a autoria do texto [traduzo eu]:
A obra que publicou chamada “O que é uma avó?” não foi escrita por uma turma de crianças de oitos anos nem por uma menina da terceira classe. Foi uma conversa que uma menina de 3 anos teve com a avó em 1952. Foi publicada pelo primeira vez em meados dos anos setenta pelo Dr. James Dobson e depois noutro livro seu de 1996 chamado Home with a Heart. Esta entrada aparece nas páginas 20 e 21. Se for possível, poderia corrigir a autoria? Como já disse a outros administradores de sites da Internet, sei que sou um bocadinho forte – como a minha avó – mas não tanto que se me possa considerar um grupo ou uma turma. Continue, por favor, a usar o texto, já que ele parece fazer sorrir avós em todo o mundo. Como já deve ter adivinhado, sou eu a menina de três anos – 53 anos mais tarde. Se quiser mais alguma informação sobre o assunto, sinta-se à vontade para me contactar[5].
É fácil verificar que James Dobson publicou de facto livros nos anos 70. O facto de a referência ser mais uma vez vaga (só a referência à edição de 1996 é que dá páginas) e de não haver uma identificação mais concreta desta Sra. DeMattia não ajuda muito a acreditar que estejamos finalmente perante a verdadeira autora do texto original[6]. Bom, podia ter escrito a Richard Lowe a perguntar, podia ter encomendado um ou mais livros de James Dobson, ou até ter-lhe escrito também, para tentar descobrir mais alguma coisa, mas não – prefiro desistir desta história e dedicar-me antes a outras… como direi?... atividade mais proveitosas.

Um texto – ou uma canção, ou qualquer outro objeto intelectual, artístico ou não tem sempre um autor concreto. Mesmo que seja uma variação sobre um objeto anterior, essa variação tem um autor, como o tem o objeto sobre o qual foi feita. Quando se fala de objetos artísticos “tradicionais”, por exemplo, aquilo de que se está a falar de facto é de objetos de autoria(s) desconhecida(s). A história do texto das avós ilustra bem, acho eu, o processo, ora voluntário ora involuntário, de apagamento ou ficcionalização da autoria de um objeto literário – e da sua transformação ao passar de mão em mão. Agora, se as coisas se passam assim no séc. XXI, imaginem como se passavam antes, quando a ideia de autor tinha muito menos importância do que agora e ninguém tinha aprendido a fazer referências bibliográfica – nem que se as deve fazer… Lembro-me de um documentário muito interessante de Adela Peeva chamado Whose song is this?, sobre uma canção que gregos, macedónios, turcos, sérvios e búlgaros acreditam todos ser uma canção tradicional da sua terra. Há centenas de casos assim. A “Raspa”, para dar o primeiro exemplo que me vem à cabeça, de que país acham que é?

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[1] Eis os resultados das minhas pesquisas em francês, português e inglês: uma pesquisa fechada com aspas de "une grand-mère est une femme qui n'a pas d'enfants" deu-me 17.200 ocorrências em Google; "une grand-mère est une femme qui n'a pas d'enfant" (é preciso contar com este pormenor, veem?, quando se faz pesquisas de frases específicas em francês…) tinha 18.600 ocorrências; “uma avó é uma mulher que não tem filhos” deu-me 10.400 ocorrências; e “grandmother is a lady who has no children” deu-me 12.800. Também se encontram versões com dame, senhora e lady em vez de femme, mulher e woman, respetivamente, mas têm muito poucas ocorrências. Evidentemente, nem todas as frases fazem parte de variações do texto em causa, mas a esmagadora maioria faz, como qualquer verificação aleatória rapidamente nos indica… O texto tem especial popularidade em setores religiosos do ciberspaço. 
[2] Publicado a 30 setembro 2007. Edite Esteves, de Lisboa, publicou no seu blogue, o mesmo texto, a 26 de julho de 2011, mas com uma referência bibliográfica (quase) completa: James Dobson, Lar, Doce Lar, Editora United Press Ltda, 2000
[3] A Sandra Louise Doty mais fácil de encontrar é uma esposa de um diplomata, que veio a tornar-se agente da CIA e que faleceu a 8 de abril 8 de 2010 com 69 anos. Não se pode tratar desta Sandra Louise Doty, porém, porque esta nunca se tornou DeMattia. Pelo contrário, ganhou pelo casamento o apelido Doty. O site Census Data Online diz que há 11 pessoas com o nome Sandra DeMattia nos EUA. E diz também que, para saber mais, há que pagar, imaginem vocês…
[4] A grandmother is a lady with no children of her own, / She’s always keeping busy sewing things that should be sewn. / She likes other people’s little girls and also little boys, / But you’ve got to be so careful or she’ll trip up on you toys, / She doesn’t have to do much except for just be there, / She should never say “Now, hurry up!” or look when you are bare. / Grandmothers all wear spectacles and funny underwear, / They can take their teeth and gums off and then take them for repair. / They don’t have to be clever, but grandmothers should know why / Why God isn’t married and how high up is the sky. / They never talk baby talk like others visitors, / They’re awfully fair at taking turns – it’s yours and then it’s hers. / A grandfather is a man grandmother; he brings in the coal, / He takes out the garbage, then he thinks he’ll take a stroll… / Grandmothers read you stories, everybody should have one,  / Especially if your living room has no television. Television é pronunciado de maneira a rimar com one, para obter efeito humorístico.
[5] A versão do texto apresentada neste blogue era ligeiramente diferente das que tinha visto até essa altura. Além de estar apresentada por pontos (15 pontos numerados), aparecem algumas ideia diferentes das que se encontram na maior parte das outras versões. Há sobretudo, mais perguntas a que as avós têm de responder: “As minhocas bocejam?”, “Porque é que os cães perseguem os gatos?", "A vaca saltou mesmo por cima da lua [referência a uma lengalenga infantil inglesa]?" e "Porque é que as pessoas se beijam debaixo do visgo [referência a uma velha tradição do Norte da Europa]”?"
[6] Além de que a riqueza retórica do texto é tal – e assente, ainda por cima, numa lista cuidadosamente elaborada dos clichés associados à imagem da avó na cultura ocidental – que só por ingenuidade, digo eu, se o atribui a uma menina de três anos. Mas isto é só uma impressão, não o posso provar.  

24/10/10

Recomendações

Em princípio, não tenho nada contra recomendações. Bom, sei que gosto que os amigos me recomendem coisas e também sei que às vezes fico um bocadinho irritado quando o Google Reader ou a Amazon me vêm lá com as recomendações deles, mas o facto é que às vezes utilizo essas recomendações. E acho que é uma pena que essas recomendações automáticas sejam feitas para corresponder ao que os programas que as fazem pressupõem ser o nosso gosto. Não tenho a certeza de que as pessoas reagiriam bem se lhe fosse recomendado o contrário daquilo de que gostam («estou a ver que vai a muitos sites religiosos, daqui para a frente só lhe recomendo sites ateístas», ou vice-versa), mas seria muito mais enriquecedor  que lhe fossem recomendadas coisas sem relação com as suas preferências: «Música, banda desenhada e ciência? Porque não experimenta alguns sites sobre xadrez, criação de avestruzes ou automóveis antigos?»

27/05/09

Reflexãozinha sobre o anonimato, tão sem graça como devidamente identificada

Uma característica interessante da cultura internética, se é que se pode falar de uma coisa assim, é o anonimato – uma coisa que me surpreende, por não lhe encontrar uma razão óbvia; que me irrita um bocadinho, às vezes; e que não sei bem até que ponto se deve ou não condenar...

Muita gente tem criticado o anonimato na compilação ou sistematização de informação. A Wikipedia é o maior alvo destas críticas, mas há muitos outros casos semelhantes*. Sinceramente, não vejo perigo nenhum em projectos deste tipo. Uso regularmente informação a que tenho acesso em enciclopédias e fóruns anónimos, e não vejo necessidade de ser mais cuidadoso na filtragem dessa informação que na filtragem da que vou buscar a obras assinadas. Em princípio, os motivos para desconfiar de um texto têm pouco a ver com o facto de ele ter ou não um autor identificado (a não ser, claro, que se aceite a identidade do autor como garantia suficiente da sua credibilidade…).

É também praticamente irrelevante a questão da produção anónima de objectos artísticos, porque ela é mínima e normalmente de obras sem grande interesse – os produtores de obras de qualidade são normalmente ciosos da sua assinatura, online ou não. Independentemente da sua frequência, porém, não há nesse anonimato nada que seja passível de crítica, porque no domínio da arte, ninguém é obrigado a nenhum tipo de relação com as obras que cria, e certamente que não tem nenhum dever de se dar a conhecer como seu autor.

Na minha opinião, o domínio em que é mais interessante a discussão do anonimato é o da produção de opinião. A todos os níveis: principalmente sobre questões políticas, ou morais em geral, mas também sobre questões estéticas. A internet está cheia de opiniões anónimas – e nem sempre anódinas. E eu não percebo bem por quê. Provavelmente, as pessoas sentem-se mais expostas e de alguma forma mais vulneráveis online do que em relações não virtuais, mas, mesmo assim… Já não falo de páginas com conteúdo sexual ou de blogs de super-heróis (que gracinha, Vitinha…), em que as razões do anonimato são imediatamente compreensíveis, mas, desde blogues de opinião a fóruns vários de discussão, passando por comentários externos a artigos de jornais e revistas online e a posts de blogues, as criaturas mais activas na Internet são a Sra. Anónima, o Sr. Anónimo, a Sra. Pseudónima e o Sr. Pseudónimo. Pode argumentar-se que o facto é irrelevante, porque uma opinião tem o mesmo valor sendo assinada com um nome verdadeiro ou não, e é difícil rebater tal argumento. Como já disse, irrita-me às vezes um bocado o anonimato, mas é uma irritação sem grande motivo, reconheço… É uma coisa instintiva, visceral: quando vejo um comentário anónimo, seja neste meu blogue ou noutro sítio qualquer, pergunto-me a mim mesmo: “Será que, fora da Internet estas pessoas também reservam a sua identidade? Ou reservam antes, perante pessoas que sabem quem elas são, a sua opinião?” É estranho, tudo isto, mas enfim, apenas estranho. É-me difícil apontar aqui alguma imoralidade.

“E o que é que se passaria se não houvesse a possibilidade de anonimato”, interrogo-me eu, para ver se descubro algum perigo real no não dar a cara. Bom, é possível que alguns comentários apatetados desaparecessem, que desaparecesse alguma virulência (sei que há estudos que defendem que o anonimato online está na origem de tipos vários de comportamento anti-social); e talvez aumentasse a necessidade de justificar argumentos… Talvez tudo isto – ou talvez não…

Mas enfim, assumamos que agressividade, leviandade, e desrespeito de normas e de pessoas são alguns possíveis efeitos negativos do anonimato. E que efeitos positivos tem? Também não sei bem. Em princípio, o de dar, a quem não a tem, a coragem de se exprimir sobre determinados assuntos**, ou a coragem de se exprimir, tout court; e, claro, o mais óbvio de todos, maior facilidade na possibilidade de resistência activa a vários tipos de repressão***

Agora, já repararam que, no meio de tantas opiniões anónimas, a esmagadora maioria das pessoas convictas do que escrevem se identifica devidamente? Da parte do autor dos textos, há alguma relação, estou em crer, entre assinar e levar “a sério” o que escreve. E a mesma relação entre identificação e “seriedade” é também estabelecida, penso eu, por muitos leitores: um texto devidamente assinado é considerado mais “sério” e merece, portanto, mais credibilidade. Não vos parece?

... O que não significa, claro está, que todos os que se identificam devidamente têm um alto grau de convicção e que ganham, por se identificarem, alguma credibilidade. Eu, por exemplo, apesar de devidamente identificado...

[Agora, entre parênteses, vou fazer uma pequena experiência: vou escrever aqui que prevejo comentários anónimos a este post, a ver quantos aparecem…]
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* As críticas não são só ao facto de os artigos terem autores anónimos, mas também ao facto de serem produzidos colectivamente. Não sei até que ponto se pode dizer que o anonimato é, nestes casos, uma componente do colectivismo...

** Também sei que há estudos que consideram o anonimato uma causa de hiperpersonalismo, o que faz todo o sentido, mas não sei se pode colocar esta abertura de si entre as consequências positivas do anonimato… Duvido, pelo menos, que seja um consequência abertamente negativa, ao nível das que referi atrás…

*** Que eu, confesso, não faço ideia de que importância tenha. A verdade é esta: nas minhas deambulações pela net, nunca fui parar, como vou parar a tantos outros tipos de páginas, a sites de resistência clandestina a regimes repressivos e nem sequer a páginas de resistência a algum chefe ou professor despótico. O que não quer dizer que os não haja, claro está. O facto de isso nunca me ter acontecido tem provavelmente tem mais a ver com o próprio carácter das minhas ciberdeambulações, não sei…

09/09/08

Como é que se diz polibã em francês? [Atualizado]

Um senhor chamado Terrence Sejnowski escreveu uma vez: “Nunca pensei que me tornaria omnisciente na vida, mas, com Google a melhorar continuamente e a informação online a aumentar, alcancei a omnisciência para todos os efeitos práticos”. A afirmação parece, à primeira vista, um bocado exagerada, mas a verdade é que é exactamente o que eu sinto. Tenho cada vez mais a sensação de que as barreiras ao meu saber se encontram em mim, na capacidade que tenho de colocar questões, de pensar em investigações possíveis. A informação, essa, está cada vez mais disponível. Compare-se a informação que está hoje online com a que informação online de há, digamos, três anos, e a diferença é abismal. Tão abismal que uma pessoa não pode deixar de se maravilhar – dentro de meia dúzia de anos, todo o saber humano há-de estar na Internet. Omnisciência, portanto, pelo menos para quem, como eu, não acredite que a palavra possa significar mais do que, precisamente, a soma de todos os saberes humanos. E isto é uma introdução despropositadamente pomposa para um texto sobre a palavra polibã. “A palavra polibã?” Isso mesmo: a palavra polibã.

Tive de traduzir um texto onde aparecia a palavra polibã e comecei a interrogar-me sobre a origem de tão estranha palavra. Antes de mais, convém esclarecer que polibã é a grafia proposta pelo meu dicionário Porto Editora, que aceito de bom grado, e que coexiste, no dito dicionário, com a grafia poliban, que deve ser a mais comum em Portugal. Mas donde virá uma palavra assim? O dicionário Porto Editora não propõe etimologia nenhuma, o que é estranho, porque costuma propor sempre etimologias, algumas até bastante fantasiosas, mesmo para muitas palavras de origem obscura…

A primeira intuição de qualquer pessoa é que se trata de uma palavra francesa, porque banho é bain em francês e um polibã está obviamente relacionado com banho. Mas não é uma palavra francesa. Qualquer busca rápida em Google vos diz aquilo que eu já suspeitava mesmo antes de iniciar a pesquisa, pela simples razão de que nunca ouvi a palavra em francês. É conhecida a incapacidade portuguesa de distinguir o som final de bain do som final de ban, que são sons bem diferentes em francês, e o normal seria que a palavra, a existir em francês, fosse *polybain – provavelmente um nome de uma marca construído com um primeiro elemento designando uma qualquer substância plástica começada por poly- e um segundo elemento bain, “banho”. Mas não há *polybain em página nenhuma em francês. Ou antes sim, numa única página quebequense. Uma ocorrência em Google significa “isto não existe” e inaugura apenas o mistério (que não me apetece investigar, sinceramente) de saber quem teria escrito polybain no Canadá e por quê (algum português que lá vive?).

Posta de lado a hipótese da origem francesa da palavra, restava-me continuar a tentar a hipótese de se tratar de uma marca, talvez até portuguesa. Experimentem o que quiserem: polyban, polybam, polibam, dêem a volta que quiserem à coisa: as variações ortográficas dão-vos sempre e apenas páginas portuguesas com uma ortografia mais ou menos criativa, ou alguns nomes de famílias, empresas ou produtos que não têm nada a ver com chuveiros. Podem também experimentar com ll dobrados (e até bb dobrados, se quiserem), o resultado não é melhor...

A hipótese seguinte, motivada aliás, por uma alternativa que se ouve em Portugal à forma [polibã], que é [polivã], era que o b fosse uma deturpação de outro som. A ser isso verdade, devia ser uma deturpação de um v ou de um p. Mas a hipótese não se confirmou: mais umas quantas pesquisas com várias variações com v e p em vez de b também não dão nada que tenha a ver com polibãs.

Comecei a pensar que, ná, dali não levava nada. Não que isso me importasse muito, porque o conhecimento da origem da palavra polibã não é nada que contribua muito para a felicidade de ninguém, como se costuma dizer. Além disso, o tempo investido na pesquisa também não tinha sido muito, uns dez minutitos, se tanto, de maneira que não havia muito a lamentar. Nesta altura, a minha melhor hipótese era que polibã fosse uma abreviatura de uma palavra mais comprida designando uma substância plástica. Se assim fosse, Google não me podia ajudar, porque Google não procura palavras a partir de uma parte dessas palavras… A não ser que a palavra aparecesse cortada nalguma página, mas isso era passar a pente fino todas as páginas com todas as variantes que eu tinha tentado e já requeria uma disponibilidade que eu não tinha.

De repente, decidi dar ao motor de busca uma última chance. Há muito tempo que Google me estava a propor a alternativa polybeam, mas polybeam parecia-me tão sem relação com polibã que tinha, até aí, ignorado a proposta; mas agora, por descargo de consciência, dei-lhe uma clicadela. E estava o mistério resolvido. Ou seja, não posso ter a certeza absoluta de que o mistério estava de facto resolvido, mas tinha finalmente chegado a uma excelente hipótese. Polybeam era, de facto, o nome de uma marca britânica de produtos de casa de banho (entre várias outras coisas). Não percebo bem se a marca refere apenas o material ou não, mas é certo que uma das coisas em que a Polybeam se especializou foi a cabina de chuveiro a que os portugueses chamam polibã, precisamente. Quando se sabe isto, o resto da história é fácil de reconstruir, sobretudo tendo em conta o (des)conhecimento do inglês de que quem trabalha quer com a venda quer com a montagem de artigos de casa de banho – que o [polibi:m] original, provavelmente já pronunciado de várias maneiras estranhas ([polibiã] é uma que me ocorre imediatamente) se tivesse transformado em [polibã], sobretudo quando designa um chuveiro de caixa, é a mais natural das coisas.

Para os dicionários, portanto: polibã n. m. espaço de um quarto de banho, etc, etc. (…) (de Polybeam ®).

Já agora: como desde 2005 que a marca já não existe, porque a firma foi comprada pela Off Site Solutions (RT) Limited, não digam que têm um polibã na casa de banho, mas antes um ofessaite, sim? Ah, e polibã em francês é cabine douche, acho eu...

Atualização e correção a 9 de setembro de 2025

Não quis modificar o que fica atrás, que foi publicado, curiosamente, faz hoje precisamente 17 anos, a 9 de setembro de 2008. Durante todo este tempo, continuei convencido que a minha hipótese etimológica era de facto a melhor explicação da origem da palavra e houve mais quem a aceitasse: a proposta foi adotada, nomeadamente, pelo dicionário Porto Editora (pelo menos, pela versão online) e pelo Wiktionary. Mas há um hipótese bastante melhor, na minha opinião, que adoto a partir de agora: a de a palavra ter antes origem noutra marca registada, a espanhola Polibán. 
A 8 de setembro de 2025, recebi um email do wikipedista Fábio Araújo, em que me dizia ter encontrado «uma etimologia que [lhe] parece mais indicada: a marca espanhola Polibán, mencionada na etimologia de "polibán" no Diccionario de la lengua española».
Fábio Araújo enviou-me também um link para um catálogo da referida marca, cuja capa aqui reproduzo. Pelo grafismo, deve ser dos anos cinquenta. Num blogue, encontro, aliás, um link para um anúncio da marca Polibán no jornal ABC de 27.4.1952). 
Creio que toda a gente concordará que esta proposta é muito melhor que a minha proposta anterior, por se tratar precisamente da mesma palavra, sem necessidade de adaptação fonética, e por vir de uma marca espanhola, que também se tornou, ademais, nome comum em Espanha. O Dicionário da Academia de Ciências de Lisboa propõe, aliás, como etimologia possível da palavra usada em Portugal, não o nome da marca espanhola, mas o nome comum castelhano dela derivado
Um pormenor interessante é que encontramos no catálogo da Polibán a explicação do próprio nome da marca: o poli- de Polibán refere uma função múltipla, já que pretende juntar «6 aparatos en uno solo» – embora eu não compreenda quais, certamente por ignorância da variedade de móveis e artigos de casa de banho então existentes além da banheira e do bidé... 
Para os dicionários, então, uma proposta corrigida: polibã n. m. espaço de um quarto de banho, etc, etc. (…) (de Polibán ®).





22/07/08

O único texto legível desta Travessa

Há muita gente preocupada com o que a Internet está a fazer à nossa maneira de pensar. Nicholas Carr diz, num artigo em The Atlantic, que um dos possíveis efeitos da Internet é desabituar-nos de ler textos longos. Com tanta informação disponível, já não estamos para leituras que ultrapassam a meia dúzia de linhas. Se isso for verdade, não há muitos textos legíveis neste blogue. Desculpem lá, sim?

15/10/07

Tlön, Uqbar, Orbis Tertius: ainda Borges e a Internet

Há gente, como Jaron Lanier, que considera a Wikipedia um perigo, mas eu sinceramente não vejo bem por quê (e não sou o único). Mas enfim, não cabe bem neste blogue a discussão do tema da ideologia e da estrutura de uma enciclopédia anónima e aberta à participação de todos (aqui fala-se só de música e escrita!) e nem sequer a discussão da qualidade da Wikipedia, sobre a qual também já muito foi escrito. Digo só, de passagem, que o que vejo na Wikipedia é muita tralha ao lado de muitos artigos bons; e também uma quantidade de temas tratados muito mais vasta do que em qualquer outra enciclopédia. E quero aqui fazer o louvor de um artigo que lá encontrei.

Não sei se conhecem o conto “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius”, de Jorge Luis Borges (Ficciones, Madrid: Alianza Editorial, 2005, entre muitas outras edições). Se não conhecem, aconselho-vos a que o leiam mal possam, porque é uma verdadeira obra-prima, na minha modesta opinião (para quem não tem problemas em ler castelhano, a versão original encontra-se online).

Ora, para mim, o artigo da Wikipedia em inglês sobre este conto é, precisamente, um exemplo de um bom artigo de enciclopédia sobre uma obra literária: um artigo completo sem ser demasiado especializado, um artigo que responde às questões que se colocam ao leitor comum após a leitura do conto, mas que constitui também um bom ponto de partida para estudos mais aprofundados da obra. Além disso, embora não me pareça que seja vocação específica de uma enciclopédia abrir o apetite para a leitura das obras que trata, também isso o artigo faz – porque isso acontece naturalmente num texto interessante sobre outro texto. Não fora o resumo da história (plot summary) – que é demasiado longo e detalhado, e que muitas vezes se afasta, ainda por cima, da simples descrição do enredo propriamente dito – e seria um artigo quase perfeito.

o artigo “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius” da Wikipedia em castelhano (apesar de ser, em grande parte, uma versão fiel, mas mais pobre, do artigo em inglês…) tem justamente a vantagem de ter um verdadeiro resumen de la historia em vez do misto de paráfrase e análise que é o plot summary da página inglesa. E tem ainda um link para um artigo de Álvaro Llosa Sanz sobre a relação entre a enciclopédia ficcional de Tlön e a Wikipedia, precisamente, em que se afirma (traduzo eu): “Sem dúvida que o relato de Borges dá vida a uma enciclopédia com um modo de funcionamento muito parecido com o da Wikipedia, que hoje contém um artigo hipertextual sobre esse mesmo relato.”

Fiquei também a saber, por esse artigo de Llosa Sanz, que há mais gente a pensar, como eu, que a Internet não difere em nada das intermináveis bibliotecas e dos livros sem fim que Borges inventou…