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14/05/26

A língua dos outros

Ouvi no outro dia alguém dizer mais ou menos o seguinte: 

«Quando queremos comunicar com os animais, tentamos ensinar-lhes a nossa linguagem − sons ou gestos que eles têm de reconhecer. É estranho. Como somos mais inteligentes, seria mais lógico que fôssemos nós a aprender a linguagem deles…» 

Não sei se a nossa maior inteligência nos torna melhores em compreender linguagens de outras espécies do que elas a nossa. O que é certo é que temos poder sobre os animais a quem queremos ensinar a nossa linguagem, e é por isso que o fazemos, não por nenhuma consideração de ordem prática.

***

Uma situação muito diferente, mas em que também se põe a questão da assimetria de poder, é a da aprendizagem de línguas no contacto entre povos. Que tenha sido Sexta-Feira a aprender a língua de Robinson Crusoe, e não o contrário, é um a priori numa relação que, como tem muitas vezes sido referido, se inscreve no ideário e imaginário coloniais: não há, evidentemente, nenhuma reflexão sobre quem deveria aprender a língua do outro, nem considerações de ordem prática sobre se seria melhor Sexta-Feira aprender inglês ou Crusoe aprender a língua dele, que nem sequer é nomeada. (Nem sequer ficamos a saber qual era o verdadeiro nome de Sexta-Feira, antes de Crusoe o batizar com um dia da semana…) Cabia simplesmente a Sexta-Feira aprender a língua de Crusoe. Ah, e falá-la mal, pois claro — é também esse o fado de quem é obrigado a falar a língua que lhe é imposta. Como teria falado Crusoe a língua de Sexta-Feira?


(Imagem: Robinson Crusoe and his man Friday, litografia publicada por Currier & Ives, ca. 1874. 
Library of Congress Prints and Photographs Division Washington.)

31/05/25

Uma ave de truz

Começo como começava (como começavam...) as redações das escolas primárias de há muito tempo: a avestruz é um animal útil, porque nos dá as penas, a carne, os ovos e uma história que é mentira.

A gema de um ovo de avestruz é a maior célula animal que existe, porque as gemas dos ovos são as maiores células animais e os ovos de avestruz são os maiores de todos: li algures que, em média, equivalem a duas dúzias de ovos de galinha. Nunca comi ovo de avestruz (acho que, neste caso, ovo deve vir no singular e entender-se como partitivo: «nunca comi um bocado de ovo de  avestruz»...)

Os espanadores de plumas de avestruz são o melhores espanadores que há. Sem comparação. Agora, há de haver muito quem ache que não se deve andar a arrancar plumas às avestruzes e eu concordo. Mas também se pode argumentar que é melhor aproveitar as penas das avestruzes que são mortas para comer que mandá-las fora e é certo. E também se pode contra-argumentar que, comprando penas de avestruz, se está contribuir para um mercado que, se for suficientemente grande, pode levar a que se produzam avestruzes especificamente para lhes tirar as plumas, passando o resto a subproduto... Nunca comi carne de avestruz. 

A história que é mentira é que a avestruz mete a cabeça na areia quando se sente ameaçada, que deu origem à expressão enterrar a cabeça na areia como a avestruz e outras parecidas, para dizer «ignorar os seus problemas/a realidade». É estranho que se tenha acreditado numa história tão esquisita. Enterrar a cabeça na areia seria uma estratégia com grandes desvantagens adaptativas, não vos parece?

Chamam-se avestruz duas espécies do género StruthioStruthio camelus (a avestruz comum) e Struthio molybdophanes (a avestruz somali). E é precisamente da palavra que define o género, struthio-, que vem o nome de avestruz. Parece que a história do nome é a seguinte: em português arcaico existia o nome estruz, que vinha do latim strūthion, provavelmente através do provençal estrutz. O nome latino vinha do grego strouthíōn, um forma  abreviada de strouthokámēlos, um composto de strouthós, «pardal»,  e kámēlos, «camelo» que era – e ainda é – o nome da avestruz e que deu origem ao seu nome científico atual. O que é curioso, não só em português, como também noutras línguas, é que se tenha anteposto ave a estruz e que a palavra ave se tenha fundido com o nome do animal. É como se se chamasse reptilagarto a um lagarto, por exemplo... 

Os dicionários dizem que avestruz pode ter os dois géneros, mas creio que a diferença é dialetal: diz-se um avestruz no português do Brasil e uma avestruz no português de Portugal (e, creio, no português dos outros países de língua portuguesa, mas não tenho a certeza absoluta). Ave é uma palavra feminina, e já avis o era em latim, pelo que o uso do masculino significa que já ninguém associa a ave a primeira parte da palavra. Mas isso é verdade também quando se diz avestruz no feminino, não é? 

Já nem me lembro do que me levou a escrever este texto sobre a avestruz... Mas enfim, já que o escrevi, publico-o. 

10/11/23

Uma terra de animais felizes

Uma coisa que chama a atenção a todos os estrangeiros, quando entram na Geórgia (e sobretudo se não aterrarem em Tiblíssi), é a grande quantidade de animais à solta no espaço público, sem pastores nem ninguém que tome conta deles: vacas, porcos, cães e cavalos nas ruas, nas estradas, nas autoestradas, por todo o lado, enfim.

Conheci ainda em Portugal, os cães vadios nas cidades e, fora delas, outros animais domésticos a deambular sem grandes restrições, também à beira das estradas; e vivi, em África e na América, em lugares onde muitos animais domésticos e cães vadios gozavam também de grande liberdade. Também não é só na Geórgia que os cães vadios são controlados e vacinados pelas autoridades. Mas na Geórgia os cães vadios são mais simpáticos e estão mais bem tratados. Nunca vi cães vadios agressivos, nem se veem nas ruas cães magros ou doentes. Várias vezes, nas cidades ou fora delas, fomos acompanhados por cães vadios durante muito tempo. Pareciam escoltar-nos, metendo-se entre nós e as pessoas com que nos cruzávamos, como que a proteger-nos; mas isto pode, claro, ser imaginação nossa. Às vezes, em percursos mais longos, um cão deixava a certa altura de nos acompanhar — talvez por não querer sair de um determinado território, vá lá uma pessoa saber porquê… — e aparecia outro para o revezar. Nunca pedincham, nem nas esplanadas de cafés ou restaurantes.
Uma vez, num dos nossos passeios no Alto Svaneti, veio juntar-se a nós um grande cão branco, muito limpo e bem tratado, que nos acompanhou durante uns bons dez quilómetros. Quando parámos numa aldeola, para comer uma sopa e beber uma cerveja, ficou ali um bocado à nossa espera e depois acabou por se ir embora. «É daqui da aldeia?», perguntamos ao homem do estabelecimento. Nunca o tinha visto, dali não era de certeza. São assim: acompanham os caminhantes, mas depois separam-se deles e vão à sua vida. Como farão no inverno, quando gela o Cáucaso?
Sobretudo, nunca noutros países os cães vadios e outros animais todos — que, não sendo vadios, passam a vida a vadiar — me pareceram tão felizes. Evidentemente, ninguém sabe, olhando para um bicho, se ele é feliz ou não. Mas enfim, costumam agora considerar-se animais domésticos felizes os que têm liberdade de decisão e movimentos, e parece-me uma maneira sensata de definir a felicidade dos animais. Falei várias vezes disto com outros estrangeiros de visita à Geórgia ou lá residentes, e todos eles estavam também agradavelmente surpreendidos como a maneira como os animais são tratados no país. E pensei: não deve ser assim tão difícil passar a tratar os animais, nos outros países, como eles aqui são tratados. Que pode ser perigoso deixar andar os animais à solta, causar acidentes? Corremos uma boa parte da Geórgia, das duas vezes que lá estivemos (é um país pequeno, cerca de dois terços de Portugal). Não vimos um único mamífero morto na estrada (só duas ou três aves), nem nunca vimos um acidente com animais. Deve ser por as pessoas terem mais cuidado com os bichos, por estarem habituadas a que eles andem por todo o lado. 

O que eu vi, isso sim, foi porcos a fazerem muita porcaria no meio de uma vila. É a natureza deles, não é verdade?  

Também tanta liberdade pode parecer às vezes exagerada. Na segunda noite de uma caminhada de Mestia para Ushguli, paramos para dormir numa aldeia chamada Adishi. No dia seguinte, tínhamos de atravessar um rio, que estava demasiado cheio para se passar a vau, ao que nos disseram. Mas havia quem atravessasse os viajantes a cavalo. A dona da pensão disse-nos que a filha, uma rapariga de 14 anos, tinha um cavalo e podia passar-nos. Falámos com a rapariga e combinámos o preço. Fez-nos um bocadinho mais barato que o habitual. No dia seguinte, quando estávamos prontos para seguir viagem, veio a rapariga dizer-nos que, afinal, não nos podia levar. Tinha andado à procura do cavalo no dia anterior, mas não o tinha encontrado. «Fugiu?», perguntamos nós. Não, não, ele não fugia, mas, como andava sempre à solta pelos montes, ela nem sempre sabia onde ele estava e tinha de esperar até ele voltar para casa — quando lhe apetecia. 

11/08/20

A velhice, mais uma vez


Publiquei aqui na Travessa, há mais de dez anos, um poema meu em que ando às voltas de uma ideia que Jorge Luis Borges apresenta em forma lírica no início do seu maravilhoso “Elogio da la sombra” (traduzo eu):
A velhice (tal é o nome que os outros lhe dão)
pode ser o tempo da nossa ventura.
O animal morreu já ou morreu quase.
Restam o homem e a sua alma.
É capaz de ser sobretudo entusiasmo de literato essa ideia de que a velhice (seja qual for o nome que os outros lhe deem) é «o tempo da alma», PORQUE desapareceu já a parte mais animalesca, mais ssssibilante de nós — o anseio de sabores e sexos e toda a classe de satisfações... Não sei se tem muito a ver com a realidade de envelhecer para a maioria das pessoas. Há com certeza velhices assim, em sendo boa a saúde, e é possível que a de Borges tenha sido como a quis, homem e alma, esvaziada de animalidade.

A questão é também como se deve entender alma. Se se entender alma como espiritualidade, ou mesmo como mente, creio que a velhica é muitas vezes ao revés de como Borges a quer: vai-se esvaindo a espiritualidade, se alguma houve, como se esvai tudo o resto: as forças, enfim, a memória, a paciência, a concentração… 

É claro, velhices há muitas. Na velhice que tenho à minha volta, porém, vejo antes simplificarem-se a vida e os seus prazeres: comer, dormir, gozar a inatividade e o calor do sol, se dele se apanha um bocadinho  — o que, por muito que possa soar a demasiado animal, também está muito bem.

Esquerda: Autor desconhecido: Velha dormindo, sem data, gravura, cópia de Rembrandt. The Met, Nova Iorque, daqui
Direita: Rembrandt: Velho sentado numa poltrona, 1631, daqui.

11/07/17

Sobre a negativa da injunção em língua de cão, ão-ão

Lembro-me de ter aprendido há muito tempo que há línguas em que se podem usar formas diferentes do imperativo do mesmo verbo, conforme se queira, por exemplo, dizer a alguém que está a comer uma coisa para parar de a comer ou dizer a uma pessoa que não deve comer uma coisa que ainda não começou a comer.

Em português, se é certo que «não comas isso» pode cobrir ambos os casos, também há maneiras de distinguir entre a injunção para parar de comer e a injunção para não começar a comer. A entoação é uma delas: o «não comas isso» desgostado de quem diz a outra pessoa para parar de comer uma coisa que descobriu estar bem fora de prazo, por exemplo, é muito diferente do «não comas isso» de alarme de quem pensa que a outra pessoa vai provar um fruto venenoso. Além disso, o imperativo da perífrase estar a comer ou estar comendo só se pode usar para mandar parar de comer – não se pode dizer «não estejas a comer isso» a quem ainda não meteu nada à boca.

*** 
Mosaico romano, séc. II, Museu Arqueológico de Sousse, Túnisia. 
Wikimedia Commons, daqui.
Cada vez tenho mais a convicção de que a ideia da linguagem como capacidade exclusivamente humana não faz grande sentido. De que a linguagem humana é mais complexa que a linguagem de um cão, não tenho dúvidas, mas é apenas isso que ela é, mais complexa. Um cão, como muitos outros animais, tem também a capacidade de estabelecer relações de certos sinais com o mundo físico e os estados mentais dos seres vivos que o habitam – pelo menos...

Além disso, tenho também a certeza de que, ao contrário do que ouvi muitas vezes afirmar, os animais têm um sentido do porvir.
Uma amiga minha dizia-me há pouco tempo, depois de ter passado um bocado a fazer truques simples de prestidigitação à minha cadela, que era óbvio que os cães têm expetativas sobre o que se vai passar, donde decorre forçosamente um sentido de futuro, mesmo que, mais uma vez, provavelmente menos complexo que o nosso. É claro que tinha toda a razão.

*** 
Agora, voltando aos imperativos negativos, tenho a ideia de que a minha cadela percebe facilmente a ordem para deixar de fazer alguma coisa („Nej!”), mas que não percebe a ordem para não iniciar o que não quero que ela inicie… A não ser, talvez, naquele momento em que já decidiu o que vai fazer, mas não teve ainda tempo de iniciar a ação...