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12/08/26

Fazer bem sem ver a quem


Apareceram-me no outro dia estes dois vídeos de uma fundação ligada a uma companhia de seguros, a «Fundação do Coração», HjerteFonden, que recruta «corredores do coração», pessoas que ajudam vítimas de paragem cardíaca. O primeiro vídeo mostra como funciona o sistema: quando a central recebe uma chamada de emergência, os «corredores do coração» que se encontram mais perto dessa pessoa correm para a ajudar, indo buscar, de passagem, um desfibrilador, se houver algum nas proximidades. Hoje em dia, há quase sempre. Ao mesmo tempo, é enviada uma ambulância. Segundo um comentário ao vídeo de uma pessoa que diz ser «corredora do coração», há uma pequena incorreção no vídeo: a enfermeira responde que a ambulância está no local passados cinco minutos, e, se a ambulância estiver tão perto da pessoa, não é enviado um «corredor do coração», porque não vale a pena. Parece-me interessante no vídeo a mensagem que, quando há paragem cardíaca, não há ajudas incorretas — dirigido a pessoas como eu, que, por muito que tenha feito vários cursos sobre ajuda nesta situação e tenha sido, até há pouco tempo, profissional de saúde, tenho sempre medo de fazer algum disparate numa situação destas. 

A mensagem do segundo vídeo que aqui ponho é diferente. 

«Sou corredor do coração e agora não me interessa nada… em quem é que votaste… o que escreveste nas redes sociais… Não me interessa se podíamos ou não tornar-nos amigos…  quem amas… ou em que acreditas… Porque, se te parou o coração, há uma ligação entre nós.»

É sabido que os profissionais de saúde, desde pessoal de cuidados a pessoal médico, assumem como obrigação cuidar de qualquer pessoa e tratá-la independentemente da etnia, crenças, sexualidade, estatuto social, etc., e independentemente do que ela faça ou tenha feito. Os médicos tradicionalmente proferem o juramento de Hipócrates. Há várias versões deste juramento. Na versão de 2017, que é atualmente usada em Portugal, um dos pontos é, precisamente, 

Não permitirei que considerações sobre idade, doença ou deficiência, crença religiosa, origem étnica, sexo, nacionalidade, filiação política, raça, orientação sexual, estatuto social ou qualquer outro fator se interponham entre o meu dever e o meu doente.

Os outros profissionais de saúde não fazem um juramento formal, ao que sei, mas o mesmo princípio é implícito na aceitação da sua profissão e explícito na legislação que a rege, além de que é constantemente sublinhado ao longo da sua formação. Agora, se «qualquer outro fator» é uma formulação algo vaga no juramento de Hipócrates, os profissionais de saúde aprendem que devem tratar e cuidar o melhor que souberem e puderem todos os seus doentes, independentemente também do que possam saber da sua vida presente ou passada, de todo o mal ou bem que estes possam ter feito, independentemente de serem criminosos ou heróis, e independentemente de quaisquer traços de personalidade.

Há evidentemente, ressalvas óbvias e explícitas à universalidade do dever de médicos, enfermeiros e outros profissionais do setor. Uma é que a saúde e o bem-estar do doente não podem ultrapassar a própria segurança do profissional de saúde ou a vida de outras pessoas. Para ajudar alguém, tenho de me certificar primeiro de que o posso fazer sem correr graves riscos eu próprio ou pôr em risco outras pessoas. Mas esta ressalva é sem grande importância no dia-a-dia do trabalho de cuidados de saúde, a não ser talvez em situações extremas de guerras, catástrofes naturais ou epidemias altamente contagiosas — e, em situações dessas, é muitas vezes ignorada, como se sabe. Outra ressalva é que o profissional de saúde pode negar-se a uma tarefa que não considera ser capaz de desempenhar, porque nunca lhe foi ensinado, ou porque há muito tempo que não o faz, ou seja por que outra razão for. Mas também esta ressalva, em situações de emergência, acaba por ser ignorada.

Na prática, há também outros limites para o que os profissionais de saúde toleram (ou devem tolerar) dos doentes, das condições de trabalho, etc. Vi casos de doentes que obrigam a reuniões, às vezes reuniões regulares, do pessoal e chefia das unidades, para encontrar alguma estratégia que permita lidar com eles. São pessoas cujo contacto cria problemas sérios ao pessoal de saúde: doentes que insultam e ofendem constantemente, que rebaixam e provocam o pessoal, que insistem, de forma obsessiva, desesperante, que tudo tem de ser feito exatamente como eles querem, ao arrepio de preceitos técnicos ou de higiene, que quase chegam à agressão física. Não porque tenham alguma doença psíquica (a situação das pessoas com doenças psíquicas é completamente diferente e deixo de lado essa questão neste texto), mas simplesmente por serem pessoas agressivas, talvez tornadas ainda mais agressivas pela doença, e, muitas vezes, por terem nessas atitudes a única oportunidade, a última e desesperada possibilidade, de exercer poder sobre outros e, de alguma forma, tentar assim exercer controlo também sobre a sua vida. E há de facto profissionais de saúde que se negam a atender doentes deste tipo. Não conseguem aguentar, simplesmente. É claro, em todos os casos a que assisti, há sempre outros que não se negam. Não sei o que aconteceria, se todos se negassem, mas criar-se-ia uma situação incompatível com os princípio dos serviços de saúde. Não há propriamente, nesta situação, grave risco para a integridade física de quem se recusa a tratar o doente, mas será que a angústia ou o stress, às vezes muito grandes, que resultam do contacto com um doente muito agressivo e que recusa colaborar com o cuidador ou enfermeiro são motivos que justifiquem recusar o cumprimento do seu dever? Creio que sim. Não é só a salvaguarda da integridade física que se deve ter conta quando se fala do dever do profissional de saúde: uma pessoa numa situação de profundo stress não consegue fazer adequadamente o seu trabalho. E é por isso que, sempre que possível, se atendem os pedidos de quem se nega a atender um doente por estas razões. Mas é uma situação com potencial para desencadear outro tipo de conflitos: haverá, provavelmente, colegas que pensarão: «Se ela não aguenta, porque terei eu de aguentar?» É sempre difícil mostrar objetivamente que os níveis de stress perante a mesma situação variam de pessoa para pessoa… Mas variam.

Agora, outra questão relacionada com o dever de não-discriminação: será que mesmo a/o mais empenhada/o profissional de saúde, por mais que sinceramente o queira fazer, não presta cuidados diferentes a doentes diferentes? Não haverá sempre vieses inconscientes? 

A psicologia ensina-nos que há características pessoais, algumas inatas e independentes de qualquer controlo, que, em geral, suscitam respostas mais positiva ou mais negativas de desconhecidos. E há estudos que mostram, por exemplo, o efeito positivo da beleza física em situações de cuidados médicos, ou o efeito negativo da obesidade (que é tanto maior quanto mais a obesidade for descrita como produto do estilo de vida, isto é, da responsabilidade do doente). Outros estudos demonstram a influência do género do paciente. Um estudo feito com 500 enfermeiras/os, por exemplo, mostra, quando estas/es enfermeiras/os são postos perante um mesmo quadro clínico de enfarte do miocárdio, variando a idade e o género dos doentes, os homens de meia idade são considerados casos mais urgentes, são mais frequentemente enviados aos cuidados intensivos e são mais frequentemente diagnosticados positivamente que mulheres de meia idade com exatamente os mesmos sintomas. Estes estudos nem sempre são, porém, coincidentes: um estudo mostra que, no mesmo quadro clínico, as mulheres recebem menos analgésicos que os homens; mas outro mostra precisamente o contrário, que as/os enfermeiras/os tendem a administrar menos analgésicos aos homens.   

É difícil aferir o valor geral de estudos isolados. Parece-me mais interessante ver os resultados de meta-análises. Só encontrei uma, de 2021, de 215 estudos publicados ao longo de 38 anos. Traduzo o resumo, sublinhando que, como os estudos atrás referidos, aliás, diz respeito a um meio cultural diferente da Dinamarca, que é o que conheço melhor, ou de Portugal: 

Os estudos sobre preconceito de enfermeiras/os e/ou disparidades nos cuidados têm vindo a tornar-se cada vez mais frequentes ao longo do período de 38 anos em que foram produzidos os relatórios incluídos neste estudo. Foram analisadas várias características dos doentes, sendo as mais comuns a raça e/ou etnia, o género e a idade. Vinte e nove dos 215 estudos identificam uma potencial relação entre preconceito das/os enfermeiras/os relativamente a uma determinada característica e os cuidados pessoais e de saúde prestados a indivíduos com essa característica. Destes estudos, 27 sugerem que o preconceito tem um impacto negativo e resulta em desigualdade nos cuidados de enfermagem. Groves, Bunch & Sabin (2021), «Nurse bias and nursing care disparities related to patient characteristics»)

É interessante constatar que, de 215 estudos, só numa relativamente pequena percentagem se observa um efeito negativo do preconceito em tratamentos e cuidados. Esta conclusão confirma o que fui vendo enquanto pesquisava: os vieses existem, mas é mais fácil constatar uma diferenciação de tratamento em função de características do paciente que constatar um efeito negativo dessa diferenciação — que também existe, sem dúvida, e que poderá seguramente, em casos isolados, ser até muito grande. É também provável que a parcialidade contatada nos professionais de saúde não signifique, na grande maioria dos casos, que não haja vontade sincera de honrar a universalidade do dever de cuidados — mas antes que eles obedecem, como todas as pessoas, a preconceitos não conscientes. 

Agora, os preconceitos, conscientes ou inconscientes, de que pode ser vítima um doente existem também na perspetiva inversa: um doente não trata de igual maneira todos os profissionais de saúde. Assisti a casos de clara discriminação de colegas meus por parte de doentes, com base apenas na origem étnica. A lei dinamarquesa, como a lei portuguesa e a lei de muitos outros países, não permite que a/o doente escolha por quem quer ser tratado, mas já vi doentes que, às vezes de forma indireta, utilizando desculpas, recusam ser tratados por pessoas de certos grupos étnicos. A lei também não dá o direito a escolher o género do enfermeiro ou cuidador, mas acontece às vezes que doentes do sexo feminino peçam explicitamente uma enfermeira ou cuidadora — e especialmente quando se trata de cuidados íntimos, o que, dentro da medida do possível e embora a lei não o sancione, se tenta normalmente satisfazer. 

Não são apenas, porém, a origem étnica e o género que estão na origem de recusas de doentes de ser tratados por um determinado profissional. Às vezes, estas recusas resultam de conflitos surgidos durante tratamentos ou cuidados. E, por muito que a lei não consagre este direito do doente, também esta recusa é às vezes satisfeita, se possível, apenas para evitar uma situação de stress para ambas as partes.

A conclusão é trivial: embora haja assimetria na relação de poder entre um profissional de saúde/cuidador e um doente/cuidado, qualquer relação humana é forçosamente biunívoca. As características que o doente encontra no cuidador também têm seguramente uma influência, consciente ou não, na maneira como interage com ele; e a relação entre os dois é o produto de várias circunstâncias, das quais as imagens um do outro, incluindo preconceitos positivos e negativos, conscientes ou não, são partes fundamentais. 

Volto ao ao segundo vídeo deste texto. Uma paragem cardíaca é talvez a situação mais simples deste ponto de vista: aquela em que só uma das partes está envolvida na relação. Só uma pessoa, com os seus sentimentos e as suas ideias preconcebidas — que pode efetivamente deixar de lado, e deixa mesmo, no momento em que decide ajudar quem desesperadamente dela nessa altura precisa.

***
Perdoar-me-ão a desorganização do texto, própria de quem escreve sobre um tema que considera importante, mas de que não é, de modo nenhum, grande conhecedor. Sabia que queria escrever sobre este assunto, mas não tinha, à partida, definido claramente o que queria dizer sobre ele. Fui-o descobrindo à medida que escrevia e pesquisava. Não tenho acesso às versões integrais dos estudos que refiro e que me foram sugeridos pelo ChatGPT. Assim, só refiro o que está nos resumos e, por isso, me parece seguro referir. E quero agora acrescentar três breves notas avulsas que complementam um pouco o texto acima:

1: O dever de ajudar uma pessoa em perigo de vida não é, note-se, exclusivo de profissionais de saúde. O Artigo 200.º do Código Penal português não define positivamente o dever, mas criminaliza a omissão de auxílio:

«Quem, em caso de grave necessidade, nomeadamente provocada por desastre, acidente, calamidade pública ou situação de perigo comum, que ponha em perigo a vida, a integridade física ou a liberdade de outra pessoa, deixar de lhe prestar o auxílio necessário ao afastamento do perigo, seja por ação pessoal, seja promovendo o socorro, é punido com pena de prisão até 1 ano ou com pena de multa até 120 dias.»

A pena é a dobrar se a pessoa que não ajuda tiver criado ela própria a situação de perigo (ponto 2), mas ressalvam-se as situações em que haja perigo de vida do omitente ou «quando, por outro motivo relevante, o auxílio lhe não for exigível». Não sei o que a jurisprudência ou a opinião dos peritos considera, nesta caso, «motivo relevante».

2: Propõem-se muitas vezes experiências mentais sobre o dever de prestar ajuda a uma pessoa que é consensualmente considerada um grande criminoso. Hitler é uma figura frequentemente usada nestas experiências e já aqui falei uma vez de uma experiência mental deste tipo, mas referindo-a como «dilema». É, na minha opinião, um tema fascinante, nos seus múltiplos matizes, que tem, aliás, sido tema central do debate moral: como se equilibram os direitos individuais e o bem-estar das comunidades? Quem se pode — ou deve, até — sacrificar em nome da satisfação da maioria ou de valores considerados universais e inalienáveis? 

3: Na minha breve vida profissional no setor da saúde, toda ela na Dinamarca e sobretudo na área da ajuda domiciliária, encontrei outro motivo para os profissionais de saúde pedirem dispensa de cuidar determinados pacientes: o facto de os conhecerem na sua vida privada, com diversos graus de intimidade na relação com esses pacientes. Essa dispensa é quase sempre dada, se bem que informalmente, a não ser em casos extremos de falta de pessoal. A ideia que subjaz a esta exceção ao dever do profissional de cuidar toda a gente é que as relações com os doentes se devem manter sempre ao nível profissional, o que está excluído à partida nesta situação.

18/04/26

As meias da Tove [Crónicas de Svendborg #55]

Tenho um amigo que usa sempre meias de lã, mesmo no verão, e até com sandálias. Hei de perguntar-lhe de onde lhe vem esse hábito. É capaz de o ter adquirido na África Austral, porque ele viveu no Zimbábuè, onde se vê às vezes gente de calções e botas — e meias grossas até ao joelho. Mas também é capaz de ser uma coisa dos dinamarqueses mais velhos: conheço um senhor que tem agora 100 anos e que me explicou que também usa sempre meias de lã todo o ano, todas feitas pela mulher dele. Eu também tenho vários pares de meias de lã feitas à mão e, embora só as costume usar quando está frio, sei que, de facto, não são mais quentes no verão que outras meias quaisquer. 

Há umas semanas, numa longa viagem de autocarro-cama, olhei para as meias de lã cinzentas que trazia calçadas e lembrei-me da Tove, que mas tinha oferecido. E escrevi uma nota no meu telefone, para escrever um texto — este — quando voltasse a casa e ao computador: «As meias da Tove». O que queria dizer «As meias que a Tove me deu.» Mas eu entendo-me.  

Agora, à laia de introdução, deixem-me contar-vos uma história de há uns anos, que não tem nada a ver com a Tove nem com meias de lã. Ao fim do meu primeiro estágio em apoio domiciliário, aprendi que nem tudo o que vem nos livros se deve sempre seguir muito à letra. Na escola, tinha aprendido que é expressamente proibido aos profissionais de saúde aceitarem individualmente presentes dos doentes. Podem fazer-se doações em dinheiro ou oferecer presentes em géneros a instituições (hospitais, secções de apoio domiciliário, lares, etc.), mas não a pessoas individuais. E quando uma doente minha quis oferecer-me uma garrafa de vinho pelo Natal, eu, inexperiente e fiel ao que me ensinavam na escola, recusei: que agradecia imenso, exatamente como se tivesse aceitado, que era de uma grande gentileza da parte dela e ficava muito sensibilizado, mas que, infelizmente, as regras eram regras e não podia aceitar. No dia seguinte, a minha supervisora de estágio chamou-me: 

− A Irene está inconsolável, pediu para falar comigo e tinha as lágrimas nos olhos: disse-me que tinha pedido à filha para lhe trazer de Copenhaga uma garrafa de vinho para ti e que tu não aceitaste o presente, porque era contra as normas. Enfim, é o teu primeiro estágio e eu percebo, mas agora vais aprender uma coisa que não vem nos teus manuais: o que é mesmo contra todas as normas da nossa profissão é deixar uma pessoa desolada recusando-lhe um presente que, para ela, é importante dar. De maneira que vais já a casa da I., aceitas a garrafa de vinho e pronto!

A partir daí, tive uma atitude menos rígida em relação aos presentes dos meus doentes. À Tove, não me passou sequer pela cabeça tentar recusar as meias, quando ela mas ofereceu. Fiquei muito contente e ela também e é assim que devem ser as ofertas.

A Tove tinha mais de noventa anos e vivia sozinha. Íamos lá a casa duas vezes por semana, para lhe esfregar as pernas com um creme, muito devagarinho, muito delicadamente, que as pernas, magríssimas e escamadas, doíam-lhe muito, muito!, e de quinze em quinze dias para lhe organizar os medicamentos em caixas diárias, manhã, almoço, jantar e noite. Estava sempre de boné de pala dentro de casa a fazer paciências de cartas na mesa da cozinha e tinha sempre as cortinas corridas. Contou-me que tinha nascido na Jutlândia e vindo aqui para a aldeia ainda rapariga, para trabalhar como criada de servir. E depois tinha conhecido um homem daqui e tinha-se casado e tinha passado a ser dona de casa — o que, se não lhe tinha alterado muito a vida diária, tinha aumentado muito o seu estatuto social. Quando o marido morreu, já há muitos anos, já os filhos eram adultos e se tinham mudado para Copenhaga, de maneira que ficou ali sozinha, naquela casa antiga de divisões pequenas, tetos baixos e telhado de colmo, e a vida dela era fazer paciências de cartas, comer alguma coisita de vez em quando e tricotar meias de lã, que vendia — e às vezes oferecia.

Vi-a pela última vez numa terça-feira de pesadelo. Tinha comigo uma colega nova, a quem estava a fazer uma introdução ao trabalho. Tinha, nessa manhã, uma visita extra à Tove. Uma colega minha tinha escrito, no dia anterior, que a Tove se tinha queixado de uma indisposição indefinida que depois lhe tinha passado e eu tinha de ir ver como ela estava. Num cruzamento perto da casa da Tove, vimos fumo a sair de uma casa. Era uma casa de um doente nosso e eu sabia que ele, paralisado, estava dentro de casa. Enquanto a minha colega ligava para os bombeiros, eu e mais uns vizinhos que tinham aparecido nessa altura corremos para socorrer o homem, mas era tarde demais: o interior da casa estava todo em chamas. Era impossível entrar e ele estava com toda a certeza já morto há algum tempo. Depois de um quarto de hora de horror, quando chegaram os bombeiros, seguimos então para casa da Tove. Podem imaginar o nosso estado de espírito.

Vamos encontrar a Tove no quarto, caída no chão, com um braço bastante esfacelado pela queda. Não responde quando a chamamos, mas reage ao contacto físico:

− Estou morta, não estou? Digam lá: morri, não morri?

Faço-lhe as perguntas habituais para avaliar a consciência. Sabe quem é, onde está, que dia é e sabe que que caiu. Também sabe quem eu sou. Só não sabe há quanto ali está caída no chão. Tentamos de várias maneiras levantá-la para a sentar, mas, de cada vez, começa a gritar muito. Queixa-se da coxa. Quando a apalpo, começa a gritar de novo. O que se faz numa situação destas é chamar o 112 e foi isso que eu fiz.

Soube depois que, afinal, não tinha nada partido. Nunca cheguei a saber o que é ela tinha, mas soube que nunca voltou a casa: morreu no hospital. 

Sou um bocadinho animista, acho eu: no meio dos milhares de objetos desalmados que se acumulam — que vamos acumulando — à nossa volta, há uns quantos que têm alma. São aqueles de que podemos contar histórias. Como as meias da Tove. As meias que ela me ofereceu, quero eu dizer — mas vocês tinham entendido… 


[Os nomes são fictícios, claro, mas a história é verdadeira, como indica, aliás, uma das etiquetas abaixo. Ilustração: Knud Holger Olsen: Quintal em Troense, óleo sobre tela, 1922, Wikimedia Commons, daqui.]


29/03/25

Da memória: o almoço de G. e outras histórias [Crónicas de Svendborg #50]

 

Visita da manhã a G. G. sofre de demência, mas ainda tem consciência da sua doença. Já está vestida e arranjada quando chego. Dou-lhe os medicamentos da manhã, sirvo-lhe o pequeno-almoço e digo-lhe que vou fazer também uma sandes para o almoço*. Ela diz que não vale a pena, que faz ela o almoço quando for hora de almoçar.
− Mas sabe que se esquece das coisas – digo eu. − E depois esquece-se de fazer almoço.
− Eu sei, eu sei... – responde G. – Mas também o almoço estar já feito não faz diferença nenhuma: mesmo que fique aqui à minha frente, eu depois esqueço-me de o comer… 

★ ★ ★

Ruínas de adobe, Camargo, Bolívia.
Agora, mesmo não sofrendo de nenhuma doença que afete as capacidades cognitivas, porém – e num grau completamente diferente! –, é certo e sabido que basta avançar na idade para que a memória deixe de funcionar como estávamos habituados a que funcionasse… Onde pus as chaves?, o que é que queria fazer?, como se chama o vocalista dos Calexico? E então a gente começa a lidar com a nova condição de uma forma racional: tomar nota das coisas. Para depois, repetidas vezes, se esquecer em casa da lista de compras, por exemplo… 

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* A história passa-se na Dinamarca e fazer uma sandes é a tradução possível de smørre en mad, literalmente «barrar uma comida», que significa pôr alguma coisa em cima de uma fatia de pão de centeio. Sandes abertas de pão de centeio continuam a ser o almoço dinamarquês mais comum , embora as novas gerações muitas vezes já prefiram saladas ou um prato quente.

13/06/24

Formar a juventude: Montaigne, os enciclopedistas e a Karen

 

Um jovem marinheiro volta a casa da família, de onde fugira. Gravura de Lumb Stocks,
 baseada numa obra de Joseph Clark. Séc. XIX, data desconhecida. Wikimedia Commons, daqui.
Os franceses dizem que «as viagens formam a juventude». É um provérbio, que é como se chama a um aforismo de autor desconhecido. Bom, neste caso, muitas vezes atribui-se a frase a Montaigne, mas parece que é uma atribuição exagerada — Montaigne nunca escreveu essa frase, embora tenha de facto enaltecido o valor da «visita a países estrangeiros» desde a primeira infância, começando pelos países onde as línguas são mais distantes, e que, se não forem aprendidas cedo, não se conseguem aprender. E isto para «de lá trazer sobretudo os humores dessas nações e os seus costumes, e para confrontar e polir o nosso cérebro com o cérebro dos outros».*

Uma formulação mais próxima da do provérbio atual é a do Dicionário Universal de Furetière em 1690: «As viagens são necessárias à juventude para aprender a viver no mundo».

Em 1751, lê-se na Enciclopédia de D’Alembert e Diderot:

«Hoje em dia, as viagens nos estados civilizados da Europa (pois que não se trata aqui das viagens de longo curso) constituem, no entender das pessoas esclarecidas, uma das partes mais importantes da educação da juventude e uma parte da experiência dos idosos.

Não havendo outras diferenças, toda a nação que desfrute de um bom governo e em que a nobreza e as pessoas com mais posses viajem tem grandes vantagens sobre outra em que não exista este ramo da educação.

As viagens desenvolvem o espírito, elevam-no, enriquecem-no com conhecimentos e curam-nos dos preconceitos nacionais. É um tipo de estudo para o qual não contribuem os livros nem os relatos alheios: é preciso uma pessoa avaliar por si própria os homens, os lugares e os objetos.»

Em 1835, o provérbio aparece já registado, na forma atual, no Dicionário da Academia.

Parece-me certo que as viagens na juventude são bons instrumentos de formação de uma pessoa. É bom aprender o mais cedo possível que há outros hábitos, outras comidas, outras línguas, outras organizações sociais, outras maneiras de viver, enfim; por tudo o que atrás foi apontado por Montaigne ou pelos enciclopedistas, mas também, acrescentaria eu, porque esse conhecimento nos ajuda a determinar a especificidade do nosso lugar e das suas maneiras de ser. Como se pode definir a identidade senão por contraste com a alteridade? Um exemplo culinário, que funciona bem como metáfora: como se pode saber se o pimentão é ou não um tempero muito específico da cozinha portuguesa, sem se conhecer a cozinha espanhola, húngara, croata, sérvia e por aí fora?
***

Outras atividades para formar a juventude? A Karen, a minha mulher, costuma propor antes, como elemento fundamental de uma boa formação dos jovens, — vejam lá! — o apoio domiciliário. Ainda ontem o repetiu: toda a gente deveria, em jovem, trabalhar em apoio domiciliário a idosos. Ela fê-lo quando tinha os seus 20 anos, e diz que foi uma das mais enriquecedoras experiências da sua juventude: falar com pessoas que tinham já vivido uma vida quase toda, ouvir pela boca delas as suas histórias e histórias de outros tempos, e descobrir como viviam pessoas muito diferentes daquelas com quem normalmente se relacionava. Também me parece certo. Também é um bom instrumento de formação de uma pessoa — e o trabalho no apoio domiciliário mais que num lar, porque (pelo menos aqui, não conheço a situação noutros países) vamos encontrar no seu próprio meio pessoas com as quais é mais fácil estabelecer relações que as pessoas que vivem em lares, normalmente em piores condições físicas e mentais. Acho também que, além das razões que a minha mulher aponta, há outras que me parecem muito importantes. Trata-se também de contactar diretamente o mais cedo possível com coisas que estão cada vez mais escondidas do quotidiano dos mais jovens: velhice e doença, sofrimento, a morte ou a sua iminência. Para se perceber o mais cedo possível de que é (também) feita a vida.


[Um breve aparte | É curioso, somos agora três na família, a trabalhar em apoio domiciliário: eu, que, há pouco mais de dois anos e já com 63 anos feitos, conclui um curso de 38 meses e me tornei profissional de saúde (quem imaginaria uma coisa assim?); e o meu filho e uma das minha filhas, que não têm formação na área, mas a quem o trabalho não deixará de formar, se me permitem o trocadilho — ele vai assim ganhando a vida enquanto espera pelos 25 anos para começar um curso profissionalizante noutra área com salário de adulto; e ela está a juntar dinheiro para viajar, nos dois anos sabáticos que decidiu tirar antes de começar a universidade.]

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* As traduções das citações são minhas. Todas as informações sobre a história da frase vêm deste dicionário de provérbios.



21/03/24

Preparos e funerais

 

«Na nossa profissão», disse-me uma vez uma enfermeira, quando comecei a trabalhar no setor da saúde, «aprende-se a encarar a morte como uma coisa natural, que é uma coisa que a maior parte das pessoas não faz, não consegue fazer. Mas corremos também o risco de nos tornar cínicos, de deixar de dar à morte a importância que tem, de chegar a galhofar com ela; e não se deve… Não se deve.»

Tentemos ter sempre presente: a morte é o acontecimento mais importante da vida de uma pessoa. 

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Tanatopraxia é uma palavra demasiado pomposa, que tenho dificuldade em relacionar com o trabalho simples que eu conheço: talvez pôr uma fralda, talvez retirar uma algália, lavar o corpo, talvez barbear, pentear, vestir o corpo, talvez calçá-lo. Em dinamarquês, diz-se «gøre i stand» e nunca aprendi como se diz em português normal — ou em português de enfermagem — porque esse trabalho nunca fez parte da minha vida em Portugal. «Gøre i stand» traduz-se, em quase todos os contextos, por «arranjar» ou «preparar». É só isso. 

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Tem-se pena das pessoas que padecem e mais ainda se se lhes acompanha de perto o sofrimento; e deixa-se de ter pena delas quando o termina o penar. Ouvi uma colega dizer de uma recém-falecida: «Estava mais bonita. Nunca lhe tido conhecido aquela expressão de sossego.» 

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Mikhail Aleksandrovich Vrubel: Tamara no caixão, 1891 (excerto)
Já quis, mas já não quero, decidir o que quero que façam de mim quando eu morrer. Nunca pensei em escolher a roupa com que quero vestido o meu corpo, como há quem faça («calça, culote, paletó e almofadinha», pede a famosa canção de João de Aquino e Paulo César Pinheiro, e vesti uma vez um defunto de traje de gala, com casaca de abas de grilo…); mas pensei às vezes em escolher algum texto ou uma canção para o meu funeral; ou deixar insólitas indicações para a ocorrência, como Mário de Sá-Carneiro, que queria que lhe pusessem o caixão sobre um burro ajaezado à andaluza... 

Ora!... O funeral é uma das cerimónias importantes da nossa vida, é certo, mas é uma cerimónia em que, infelizmente?, já não vamos a tempo de participar. Que escolha quem fica como o quer.


14/11/23

M. e Deus [Crónicas de Svenddborg #47]


M. tem agora 99 anos. Há já muito tempo que anda zangada: com a família, com o pessoal do apoio domiciliário, com o centro de dia… E com Deus:

«Quando era jovem, gritei para quem me queria ouvir que Deus era uma porcaria. Bom, na altura não acreditava nele, por isso achava que podia dizer o que quisesse sobre ele, sem que isso tivesse consequência nenhuma. Na realidade, não pensava muito nisso. Mas agora é diferente, agora estou sempre a pensar nisso. Agora acredito que Deus existe e que há um Céu e um Inverno para onde nós vamos quando morrermos. E por isso sei que que vou para o Inferno. Agora, não pense que a minha opinião sobre Deus mudou desde que acredito que ele existe. Sou contra Deus e as suas leis e os seus crimes. Não acredito que os deuses tenham direito a mandar na gente. Era o que faltava! E o mal todo que ele faz? Devia haver um tribunal para julgar Deus!»

Ficamos alguns segundos em silêncio (não sei o que hei de dizer…) e M. continua:

«E agora, diga lá, o que acha que devo fazer: continuo a pensar na morte ou vou até à taberna?» 


26/10/23

Alguém a quem falar [Crónicas de Svenddborg #46]

 

B. partiu a tíbia e foi operada. Voltou a casa logo após a operação e tem de começar de imediato a mexer-se, se quer que a perna alguma vez volte a funcionar mais ou menos. O pessoal do apoio domiciliário sabe muito bem o que deve fazer para a mobilizar o mais possível. E é isso que faz. 

B. protesta às vezes, se tem dores. O pessoal do apoio domiciliário é paciente e cuidadoso, e vai fazendo com que ela se mexa o mais que pode. Enquanto duram as visitas, B. não para de falar. Fala de tudo e mais alguma coisa, fala, fala, fala. As pessoas do apoio domiciliário mantêm-se o mais das vezes caladas, tirando explicar a B. o que vão fazer a seguir e porquê, e insistir na necessidade de ela se mexer o mais possível, porque senão, com aquela, idade, já não volta a andar sozinha.  

B. não para de falar e é difícil para o pessoal do apoio domiciliário terminar a visita de uma forma que não seja muito abrupta, que ela talvez sinta como um pouco rude, até, ou como abandono, desinteresse. É claro que há ali um desentendimento: eles vão lá a casa para a ajudarem a fazer o exercício necessário para poder voltar a andar; mas voltar a andar não é o maior desejo dela — ela quer é alguém que a ouça, alguém a quem falar.