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18/12/25

O que rima é o que não está lá…

[Este texto é uma versão revista e corrigida de um texto que aqui publiquei a 25.11.2013]   

Um dos recursos utilizados por filólogos e linguistas para reconstruir pronúncias antigas é a análise de rimas estranhas, que não funcionam na pronúncia atual, mas que provavelmente já funcionaram. Se, por exemplo, na carta em verso de John Donne a Lady Carew, escrita por volta de 1612, are rima com singular e war; e fear com forbear e there; grown com complexion e none; e several com circumstantial e all, um historiador da língua tem nessas rimas material muito interessante para cruzar com outra informação que possua sobre a pronúncia da época de John Donne no lugar de onde ele é originário. É claro, é preciso saber se o poema se insere numa poética de rimas rigorosas ou se aceita rimas aproximadas ou até «rimas para o olho», em que «rimam» as letras e não os sons. Mas, quem estuda essas coisas tem naturalmente, todos esses cuidados.

É um tipo de trabalho de investigação que já não se fará em relação ao estado atual das línguas. A maior parte dos dialetos de quase todas as línguas faladas no século XX está tão pormenorizadamente descrita e documentada com gravações que os linguistas do futuro não precisarão de se dedicar a esse tipo de exercícios. 

E isto tudo como introdução a uma bagatela, uma pequena curiosidade. Não deixa de ser interessante verificar que a imposição da pronúncia padrão pode esconder, às vezes, rimas que se adivinham – mas não estão lá… Em “Petisca daqui petisca”, do Conjunto António Mafra, o cantor não ousa (ou alguém não achou conveniente…) cantar com a pronúncia regional a palavra comilão, desfazendo assim uma rima que se adivinha com facilidade:

Petisca daqui, petisca, / petisca daqui, que é bom
Quem oferece o que petisca / mostra não ser comilão

_______________

* É claro, há atualmente muito trabalho sobre a pronúncia do inglês desta época, a chamada Primeira Fase do Inglês Moderno, pelo que quem, queira saber sobre o assunto não tem de partir da análise de rimas. Eis aqui o texto de Donne acima referido lido com a pronúncia da época. Não há consenso absoluto sobre todos os pormenores do inglês da época, mas há, ainda assim, um amplo acordo entre especialistas e a pronúncia que se ouve no vídeo é muito fiável. 


31/07/25

Foisted fast food: uma coincidência


Da primeira vez que fui à Geórgia, tentei aprender o alfabeto georgiano (já aqui falei uma vez disso) e consegui mais ou menos. Pelo menos, foi o que eu pensei. Quando lá voltei cerca de ano e meio mais tarde, já tinha esquecido uma grande parte do que tinha aprendido da primeira vez... Aprender um alfabeto novo é difícil. 

Os georgianos têm, em geral, mais contacto com o nosso alfabeto que nós temos com o deles (por exemplo, as matrículas dos carros deles são com o nosso alfabeto). Além disso, muitos deles aprenderam o alfabeto cirílico russo, que é, apesar de tudo, relativamente parecido com o nosso. Mas isso não quer dizer que todos os georgianos conheçam bem o alfabeto latino. O que se vê escrito em inglês nesta montra em Kutaisi resulta provavelmente de uma interpretação errada de uma letra do nosso alfabeto: alguém pensou que a perna do a fosse um i. Isto seria já curioso se foist não quisesse dizer nada. Mas quis o acaso que, do engano, surgisse uma palavra inglesa: to foist something on someone significa «impingir/impôr alguma coisa a alguém, obrigar/convencer/aliciar alguém a/para consumir ou aceitar alguma coisa». A ideia de fast food não anda muito longe, pois não? Curiosamente, aliás, a frase que o dicionário Cambridge dá como exemplo de utilização do termo foist é She charged that junk food is being foisted on children by TV commercials, «Ela denunciou que as crianças estão a ser aliciadas ao consumo da chamada comida de plástico, através de anúncios na televisão.»




26/07/25

O que hoje mal dito está, amanhã regra será

Hoje de manhã, topei por acaso com um provérbio que não conhecia,

Aurora ruiva, ou vento ou chuva, também com a variante Manhã ruiva ou vento ou chuva.

E pensei assim: é claro que há provérbios com rima toante, como, por exemplo, outro provérbio que eu conheço, que diz o mesmo que este:

Céu vermelho de madrugada, marinheiro põe-te em guarda. 

Mas também pode ser que o provérbio seja uma tradução do castelhano, em que teria rima perfeita (B e V pronunciam-se da mesma forma em castelhano): 

Manãna rubia, viento o lluvia.

Ou então, hipótese mais improvável, o provérbio é tão antigo que, quando ele surgiu, ruiva e chuva ainda tinham a mesma forma no romance do que é hoje Portugal — porque muito provavelmente a tiveram…

E uma busca na internet revelou que existe de facto um provérbio espanhol que coincide com a minha hipótese, apenas com uma palavra diferente da minha tradução: 

Alba rubia, viento o lluvia. 

Fiquei muito satisfeito com a minha perspicácia, é claro, mas continuei sem resposta: o provérbio português tanto pode ser uma importação do castelhano como podem ter ambos uma origem romance comum…

Metáteses em português e castelhano

Os pensamentos são como as cerejas e isto levou-me à questão das metáteses em português e castelhano. Fiz há coisa de 25 anos uma lista bastante longa e, creio eu, bastante completa também, de diferenças sistemáticas entre o castelhano e o português[1]. Um dos tópicos dessas diferenças são as palavras que sofreram metáteses numa das línguas, mas não na outra.

Metátese, então. Peço desculpa pelo palavrão e eis a sua definição: chama-se assim à permuta de dois sons de uma palavra, como quando se diz *dentrífico em vez dentífrico[2]. Se a metátese for entre dois sons consecutivos, como em *dromir por dormir, chama-se uma interversão.

Este processo é tão frequente que existe em todas as línguas que conheço — e, ao que tenho visto, também nas línguas que não conheço. Agora, é interessante constatar que uma metátese que em determinada altura é considerada erro, como o são agora *dromir ou *dentrífico, pode mais tarde passar a ser a forma correta, como veremos adiante; e que, em duas línguas tão próximas como o português e o castelhano, não coincidem as metáteses tornadas norma, o que, nalguns (raros) casos, faz com que os falantes de uma das línguas achem divertida a palavra na outra língua. Por exemplo:

*Preguntar, em vez de perguntar, é erro em português[3]; mas em castelhano é ao contrário, preguntar é a forma considerada correta — e nem sei se alguém diz *perguntar em castelhano, nunca tal ouvi. Como a forma etimológica é percontāri,  foi em castelhano que vingou a troca de sons, o português segue o étimo sem permutações.


O mesmo em cocodrilo, que vem do grego krokodilos pelo latim crocodilu-: em português, não houve metátese, em espanhol, sim. E cocodrilo faz-nos sorrir.

Morcego é uma terceira palavra que em português evoluiu direitinha, se se pode dizer assim, ao passo que em castelhano sofreu trocas de sons internas. O desgraçado do morcego não tem nome próprio em várias línguas, é só um rato careca em francês (chauve-souris), um rato esvoaçante em dinamarquês (flagermus), um rato cego em português e galego (mur(is) caecu(s) deu morcego), e um rato ceguinho em castelhano: mur(is) caecŭlu(s) deu murciégalo, que já foi a palavra normal e está hoje caída em desuso, tendo sido substituída pela forma com metátese, murciélago. Ganhou o erro de antigamente, que por isso deixou de ser erro…

Quem achar estranho que uma pronúncia errada se tenha tornando forma correta, não deve ficar a rir-se do castelhano, já que o português tem muito mais formas destas que aquela língua. Eis, por ordem alfabética, uma lista que não se pretende de forma alguma exaustiva, de palavras portuguesas que incluem metátese na sua evolução, comparando com o castelhano quando possível:

Aipo, do latim apiu-, «devia» ser *ápio, como é em castelhano (apio);

A palavra caranguejo vem do castelhano cangrejo, que por sua vez vem do latim cancricŭlu-[4], e, ao entrar no português, sofreu uma metátese (dizem alguns que por influência de carango, mas não sei…) que a deixou como a conhecemos...

Disfarçar, que vem do castelhano antigo desfrazar, seria, sem a interversão, *disfraçar, igual ao castelhano atual disfrazar, mas nós trocámos os sons à palavra.

Freguês vem de filĭus eclesiae, «filho da igreja» e, se não tivesse vingado a forma «mal pronunciada, seria *fegrês (ainda se vê feegrês em galego-português), depois de uma longa evolução que, em castelhano, não sofreu metátese: diz-se feligrés.

Gaiv%C3%A3o
Gaivão, esq. e gavião, dir. Wikimedia Commons, daqui e daqui.
Caso curioso é o de gaivota, que devia ser *gaviota, como é em castelhano, porque vem do latim gavia-, mas nós trocamos-lhe os sons, como trocámos também ao gaivão, aliás, mas não ao gavião. Evidentemente, a metátese permitiu-nos, neste caso, distinguir dois animais muitos diferentes a partir de um mesmo termo romance... 

O geolho antigo, derivado diretamente do latim genuculu-, transformou-se, por metátese, em joelho e a forma deformada[5] pegou. O castelhano hinojo, que corresponde diretamente a geolho (por estranho que isso possa parecer a quem não conheça a história do castelhano), evoluiu sem trocas do lugar dos sons dentro da palavra.

Também jogral devia, pela lógica etimológica, ser *joglar como em castelhano, já que vem do francês antigo jouglere, mas em português veio a metátese trocar-lhe os sons.

Por fim, não fossem as interversões, raiva e ruivo também seriam *rávia e *rúvio, como são em castelhano, porque é isso que decorre naturalmente dos étimos latinos rabia- e rubeu-. Mas não, trocámos-lhe a ordem dos sons.

E depois, há casos de metáteses comuns aos dois idiomas, como a palavra palavra[5] (palabra em castelhano), que vem de parabola- e seria pois, sem a troca de sons, *parabla ou *paraula ou algo assim, com um /r/ na sílaba central e um /l/ na última sílaba. O português (não o castelhano) tem outra palavra da mesma família, palrar (do latim parolare) também com /r/ e /l/ trocados relativamente ao étimo.

Quanto a formas de origem discutida, temos noiva, que é novia em castelhano, e carapaça, que é caparazón em castelhano — mas não me atrevo nestes casos a dizer onde houve metátese…

Conclusão: não acredito muito que *auga*metereologia*protanto tenham grandes possibilidades de algum dia vir a ser as formais normais em português, mas é bom lembrar-se que não são solecismos maiores do que já o foram disfarce ou joelho.

O meu pecado pessoal é o metoprolol. É um termo que uso na minha vida profissional e engano-me sempre a pronunciá-lo: a reboque de metrópole, acho eu, digo *metropolol. Os sons /l/ e /r/ parecem ser muitos suscetíveis de troca, e mais ainda se alguma parte da palavra nos remete para outra palavra com a sequência de sons trocada. Às vezes, é curioso é a abundância de uma determinada sequência de sons que provoca a metátese: acho que ninguém diz trigue por tigre a não ser na proximidade de outros tri-: três tristes trigues, não é verdade?

Reptile003dCrocodilo tornou-se cocodrilo em castelhano, mas não *corcodilo nem *cocordilo. Porquê? Deve haver algo nesta sequência concreta de sons, neste contexto fonético específico e/ou na estrutura fonética do castelhano em geral, que a torne de alguma forma preferível, ou «mais natural», ao ouvido dos falantes. Mas o quê?

Não tenho a certeza de ter ouvido alguma metátese de crocodilo em português. Talvez *corcodilo, que me parece a mais «natural» na nossa língua...



P. S.: Já agora, de bónus: metáteses em francês e inglês

O francês também tem algumas palavras cuja forma atual resulta de metáteses. Eis algumas delas:

Brebis, «ovelha», já foi berbis, o que é natural, dado que vem do latim berbex; mas depois o /r/ e o /e/ trocaram de lugar.

A forma atual espadrille, «alpercata de sola de corda», é uma metátese de espardille, que vem do occitano espardilhos, de espart, «esparto», porque se trata, precisamente, de sapatos com sola de esparto.

Farouche, «bravo, arisco», vem do latim forasticus, que deu primeiro fourache. Este termo sofreu depois uma surpreendente metátese: o /a/ e /u/, em sílabas diferentes, trocaram de lugar.

Fromage, «queijo», devia ser – e já foi – formage, porque vem de formaticu- (o queijo é feito em formas).

Gourmet, «gastrónomo, apreciador de boa comida», vem de gromet, termo antigo para designar o criado responsável pelo vinho, e a interversão de /r/ e da vogal contígua deve ter sido influenciada pela palavra gourmand, guloso, que também tem a ver com comes e bebes, mas não tem relação etimológica nenhuma com gromet.

Moelle, «tutano», vem duma metátese de meolle, que vem, por sua vez, do latim medulla- (parente muito chegada, portanto, do português miolo, que tem a mesma origem).

Moustique, «mosquito», vem do espanhol mosquito, mas com troca de lugar dos sons /k/ e /t/.

Tirando isso, são apontadas como metáteses correntes *aréoport por aéroport*astériks por astérisque (e que seria da escola franco-belga de banda desenhada sem esta interversão?); *génicologue por gynécologue, talvez com influência de génital e afins; *infractus por infarctus, talvez por influência de fracture; e *rénumeré por rémunéré, provavelmente por influência de numéro — entre muitas outras…


Em inglês, há também umas quantas palavras atuais que resultam de trocas de sons passados, que, de erro, passaram a norma. Por exemplo:

Bird vem do antigo bridd, de origem desconhecida, que significava um passarinho jovem.

Nostril, «narina, vem do inglês antigo nosþyrl ou nosðirl, composto de nos(u), «nariz», e þyrel «buraco», mas o /r/ e o /i/ trocaram depois de lugar.

Third, «terceiro», também tinha o /r/ e o /i/ em posições invertidas, que são as etimológicas e correspondem às das outras línguas próximas: dizia-se thrid e a transformação em third atesta-se desde o fim do séc. X. As duas formas coexistem até ao séc. XVI, mas a forma trocada acaba por vencer. Verifica-se o mesmo fenómeno em thirty, «trinta»: atesta-se, desde o fim do séc XIV, a transformação do thriti original em thirti.

Wasp, «vespa», era wæps em inglês antigo, mas depois os sons /p/ e /s/ trocaram de lugar, talvez por influência do latim vespa.

E fico por aqui, que já vai longo o post scriptum...

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[1] É um trabalho útil para quem aprenda uma das línguas, mas o formato de blogue presta-se mal à sua publicação, de maneira que nunca aqui o pus. Se alguém quiser esta lista, pode contactar-me e enviar-lha-ei por e-mail.   

[2] Assinalo com um asterisco grande e vermelho as formas produzidas por falantes nativos, mas consideradas incorretas pela norma culta. Os asteriscos negros e pequenos indicam formas que nunca vi nem ouvi.

[3] *Preguntar é considerado erro na escrita e no português falado no Brasil. Em Portugal, a diferença entre perguntar e *preguntar não se ouve em português moderno falado a velocidade normal, porque o /e/ desparece, venha antes ou depois do /r/.

[4] Se viesse diretamente do latim, a forma portuguesa seria em princípio *cancrelho ou *cangrelho.

[5] É mesmo para ser assim: «forma deformada», «palavra palavra», não é deslize, é estilo brincalhão, se bem que, como vocês com toda a razão pensam, de gosto bastante duvidoso...

09/02/24

Phrasal verbs, uma coisa inglesa (?)

 

[Este texto não faz sentido para quem não tenha conhecimentos mínimos de inglês, posto que é, precisamente, sobre algum vocabulário dessa língua. Ponho, no entanto, os significados em português das várias expressões e frases, para o caso de o leitor não as conhecer todas.]

Dizia-me há pouco tempo um amigo que uma das coisas que achava mais difíceis em inglês — e que acreditava ser uma das riquezas da língua — eram os chamados phrasal verbs, as combinações de verbos com preposições ou advérbios cujo significado não se pode deduzir do significado dos elementos que as compõem, como put out («apagar», «incomodar», «disponibilizar», «editar», «emitir», «produzir» e mais), put up with («suportar», «aguentar», «aturar») ou put off («adiar», «desencorajar», «desagradar» e mais) — que não se podem deduzir do significado de put, que basicamente significa «pôr». Mas serão os phrasal verbs algo assim tão especial e algo tão idiossincraticamente inglês?  

Quero notar, antes de mais, que phrasal verbs é uma designação muito típica da tradição de ensino de inglês como língua segunda e não tanto da literatura científica, embora haja trabalhos de linguística que abordem o conceito. O dicionário Cambridge define phrasal verb como «um sintagma composto por um verbo com uma preposição ou advérbio ou ambos, cujo significado é diferente do significado das partes separadamente» e dá como exemplos pay for[1] («pagar (por)»), work out («calcular», «resolver», «elaborar», «esgotar», «fazer exercício» e mais) e make up («inventar», «formar», «constituir», «maquilhar», «recuperar», «fazer as pazes» e mais). 

Na secção de gramática que se segue à definição, no entanto, o Cambridge desdiz-se e explica mais em pormenor que (como na sua própria definição acima) a designação se usa muitas vezes para três tipos diferentes de «verbos polilexicais», mas que, com rigor, apenas devia referir um desses tipos, os verbos polilexicais compostos de um verbo principal e uma partícula adverbial, as mais comuns das quais são around, away, down, in, off, on, out, over, round e up[2]. Os verbos preposicionais que selecionam obrigatoriamente uma preposição que os ligue a um objeto não seriam, pois, phrasal verbs em sentido estrito[3]. Exemplos destes «falsos» phrasal verbs são (verbos a itálico e negrito; preposições a itálico e negrito e sublinhadas; e objetos só em itálico) break into (a house), «assaltar (uma casa)»; cope with (a difficult situation), «enfrentar/lidar com (uma situação difícil)»; deal with (a problem), «lidar com (um problema)»; depend on, «depender de», do without, «passar sem», look after (a child), «tomar conta de (uma criança»); look at, «olhar para», look for, «procurar»; look forward to, «ansiar por, aguardar com expetativa», etc. Nestes casos, a preposição vem forçosamente antes do objeto e nunca depois. Tem de se dizer 

Could you look after my bag while I go and buy the tickets? («Pode tomar-me conta da mala enquanto eu vou ali comprar os bilhetes?»)

e nunca

*Could you look my bag after …,

ao passo que os «verdadeiros» phrasal verbs podem ter ou não um objeto e a partícula não verbal do verbo polilexical pode vir antes ou depois do objeto[3]. Eis alguns exemplos, também do Dicionário Cambridge:

She brought up three kids all alone («Criou três filhos sozinha») 

ou 

I brought my children up to be polite («Ensinei os meus filhos a serem bem-educados»).

Normalmente, quando o objeto é longo, vem depois da partícula não verbal:

Many couples do not want to take on the responsibility of bringing up a large family of three or four children. («Muitos casais não querem assumir a responsabilidade de criar uma grande família de três ou quatro filhos»)

Há outras propostas que, seguindo esta ideia, dão definições mais completas e mais restritas de phrasal verb, algumas delas tão completas e tão restritas que excluem da definição uma grande parte das expressões verbais que costumam figurar nas listas comuns destas expressões[4]. A questão não é, pois, nada simples e não tenho vontade nem competência para a desenvolver aqui. Muitas listas de phrasal verbs que por aí circulam, porém, misturam os legítimos e os bastardos sem grande problema — e aceitemos que está muito bem assim…

Agora, o que me parece interessante nas definições mais rigorosas aqui referidas é que são essencialmente morfossintáticas e não semânticas — exceto a definição inicial de que o significado de um phrasal verb «é diferente do significado das partes separadamente». Esta questão interessa-me e quero analisá-la aqui um pouco mais em pormenor, até porque muitos dos exemplos que o Cambridge dá de phrasal verbs não encaixam bem nesta definição. 

Antes de mais quero constatar que o significado de muitos phrasal verbs em sentido estrito decorre muito diretamente do significado do verbo ou do verbo e da preposição ou advérbio que o constitui — mesmo quando isso não possibilita que se os compreenda sem os ter aprendido antes. Mas mesmo esta compreensão é muitas vezes possível. É certo que give up não decorre do sentido de give nem de up, que make out não decorre de make nem de out, mas come out, em qualquer um dos seus sentidos, decorre dos significados de come e de out. O mesmo em relação a go ahead, go after (something), go against (somebody), por exemplo. Take off, no sentido de «despir» decorre também muito naturalmente dos significados dos dois constituintes da expressão – e até no sentido de «descolar» se pode ver uma relação clara do significado da expressão com o significado dos seus elementos constitutivos. Também é duvidoso que o significado de break down, tanto na aceção de «avariar-se» como na aceção de «decompor(-se)», não se possa deduzir do significado dos seus elementos. Na expressão look forward to, embora não se possa deduzir o seu significado dos constituintes, como a definição acima apresentada prescreve, pode claramente ver-se como o seu significado se forma a partir dos seus constituintes. E há muitos mais exemplos. 

A questão é também, obviamente, definir o significado de maneira suficientemente abstrata. Os phrasal verbs nasceram muito provavelmente de um significado inicial abstrato dos elementos que os compõem. Isto, aplica-se, aliás, a todos os sentidos «desviantes» de qualquer verbo: uma definição de comer como «ingerir alimentos sólidos» não explica os muitos usos da palavra, mas uma definição mais abstrata como «ser recipiente de» já pode explicar alguns deles. Se se usar antes uma ideia ainda mais abstrata de incorporação, que implique a posse daquilo de que se é recipiente, mais significados podem ainda ser explicados. Mas isto também não é questão que queira tratar de passagem aqui no meio de um texto sobre phrasal verbs… Voltemos a estes.

Muitas vezes, as partículas não verbais dos phrasal verbs parecem funcionar como marcadores de aspeto e modo de processo: não é o significado que muda, é a «temporalidade» (em sentido lato) que se altera[5]. Alguns deles, sobretudo muitos com up, marcam uma conclusão da ação (perfetividade) e outros, com on, marcam a sua continuação (imperfetividade). Poder-se-ia até argumentar que, em certas situações, certas posposições/advérbios parecem funcionar antes como partícula aspetuais/temporais independentes, livres de se aplicar a certos verbos: como se diz go on ou move on, «continuar, prosseguir»,  também se pode construir livremente jam on, «continuar a improvisar [música]» ou dream on, «continuar a sonhar» e muito mais seguindo este modelo.  Também a partícula around pode ser uma marca iterativa que parece ser independente, usando-se para significar que a ação se repete muitas vezes, normalmente com muitas pessoas, como em call around, «telefonar a um grupo de amigos, clientes, etc., (conforme a situação)», ou sleep around, «ir para a cama com muita gente». É certo que estas palavras não se podem usar livremente com todos os verbos e haveria que definir com rigor quando podem ser usadas desta forma, mas isso é trabalho para especialistas da língua inglesa — uma coisa que eu não sou. 

Até agora, falei só do inglês. Mas é importante notar que, com algumas diferenças estruturais e sem um nome específico, existem também phrasal verbs nas outras línguas germânicas. O dinamarquês, que é a única destas línguas que conheço bem, tem muitos, provavelmente mais que o inglês. Não me vou aqui, porém, adiantar na comparação dos phrasal verbs do inglês com os do dinamarquês ou de outras línguas germânicas que a grande maioria dos leitores do blogue não conhece, por interessante que essa comparação possa ser. Mas podemos assentar nisto: por muito que normalmente só se fale de phrasal verbs quando se fala do inglês, eles estão longe de existir só nesta língua.

Nas línguas latinas, tudo é um bocado diferente. As preposições colaram-se aos verbos ainda em latim e nem nos damos conta de que apreender (e aprender), compreender, depreender e empreender[6] são, originalmente, um mesmo verbo com várias preposições, como admitir, cometer, demitirpermitir, ou consistir, desistir, existir, insistir ou persistir — e dezenas de outros casos. Note-se que o mesmo processo de formação existe nas línguas germânicas, em que a preposição se colou ao verbo que a segue. Nalguns casos, como no inglês outbargain («ficar a ganhar numa negociação ou num contrato») parecerá óbvio aos falantes da língua que se trata de bargain («negociar») antecedido de out, mas ninguém pensa em understand («compreender») como o verbo stand (preposicionado — até porque stand under tem outro significado («erguer-se, estar situado debaixo de»)  — e, evidentemente, estes verbos não são considerados phrasal verbs[7]

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«Comer fora»
James Tissot: La multiplication des pains («A multiplicação dos pães»), 1886-1896. Brooklyn Museum, daqui.
Há, porém, casos de verbos nas línguas latinas que parecem ter as mesmas características que alguns dos ditos phrasal verbs ingleses, na sua definição mais alargada e essencialmente semântica: verbo + partícula => significado não inferível dos dois elementos. Alguns têm até uma construção exatamente igual. Eat out, «comer fora», por exemplo, é igual em inglês, português, castelhano e italiano[8] e count on (something or someone), «contar com (alguma coisa ou alguém)», tem exatamente a mesma forma em francês, compter sur (quelque chose ou quelqu'un), e italiano, contare su (qualcosa ou qualcuno), e formas muito semelhantes em português e castelhano. É claro, pode considerar-se exagerado incluir verbos como eat out nas listas dos phrasal verbs, por muito que ele lá se encontre. A definição de phrasal verb é, como se viu, algo vaga, mas trata-se aqui de mais um exemplo de um verbo com um advérbio cujo sentido decorre bastante diretamente do sentido individual dos elementos que o compõem. É certo que eat out não se refere normalmente a jantar no quintal ou na rua (embora em certas situações até possa referir isso, situações em que, presumo, os dois elementos não são já considerados um phrasal verb…), mas é de comer fora do espaço definido como seu ou como habitual. Se considerarmos eat out um phrasal verb, então comer fora também o é. 

Mas há outros casos mais curiosos, a que parece poder aplicar-se uma definição mais restrita de phrasal verb — desde que não se a limite à presença de um advérbio: correr com («expulsar»), estar para («ter vontade de»), levar com («ser atingido por; ser alvo/vítima de; ter de aturar, aguentar»), olhar por («vigiar, tomar conta de»), passar por («ser tomado por»), poder com («conseguir levantar ou transportar» ou, na negativa, «aguantar»), sair a («herdar características dos progenitores»), para dar alguns exemplos óbvios, mas há mais.   Vejamos o caso de dar, que é, creio, o mais prolífico em português. Assim, (ir/vir) dar a é «conduzir a», dar com é «encontrar, descobrir», dar em é «tornar-se» (restrito a predicações de caráter negativo), dar para pode significar «servir para», «ser suficiente para» ou «ser possível», dar + dativo + com pode significar muitas coisas desde «bater» (deu-lhe com um pau) a «ingerir» (dei-lhe com uma bela feijoada), dar + dativo + para indica o surgimento de uma vontade, estado de espírito ou hábito e dar por significa «notar, aperceber-se de» ou «considerar». 

Mas, mesmo que nos atenhamos à definição restrita de phrasal verb com uma partícula adverbial, ainda somos capazes de encontrar casos em português, além do já referido comer fora: por exemplo (mas há mais), deitar/mandar abaixo, «derrubar» ou «dizer mal de»; ir atrás de, «acreditar em alguém; obedecer a alguém», andar atrás de, «tentar seduzir»; ficar atrás de, «ser de qualidade inferior»; andar em cima de, «vigiar de perto» ou «perseguir, controlar insistente e abusivamente», estar/ficar por dentro, «ficar a saber/saber de algo»; ir dentro, «ser preso», botar/deitar/mandar fora, «desfazer-se de», ir/chegar longe, «ter sucesso»; e ir-se abaixo, «perder forças, físicas ou psíquicas», «deixar de trabalhar (um motor)».

Conclusões? Não há. Isto era mais a gente a conversar como quem conversa à mesa do café, sem preocupações de chegar a algo de muito definitivo… A não ser que os tais phrasal verbs ingleses não parecem ser, afinal, nada de tão idiossincrático como os querem, às vezes, fazer parecer…

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Eis um link para uma lista abrangente de phrasal verbs, uma das muitas que se encontram na Internet.: 

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[1] Se vos parece estranho que pay for seja exemplo de phrasal verb, agradar-vos-á saber que pay for não faz parte da lista de phrasal verbs da entrada pay do dicionário Cambridge. Note-se que a minha intenção não é de modo algum apontar as incoerências deste dicionário, que escolhi ao acaso, mas antes apontar as naturais incoerências de um conceito vago como phrasal verb

[2] A categoria advérbio é difícil de definir. De facto, não conheço nenhuma definição abrangente, a não ser talvez «palavra invariável que não introduza um sintagma» e, mesmo essa, é pouco clara. Alguns dos advérbios que formam phrasal verbs têm as mesma forma que preposições: around, away, down, in, off, on, out, over, round e up (embora a designação de down, off e up como preposições seja muito discutível). 

Outra questão é como definir verbos polilexicais. Se se considerar polilexical um verbo quando seleciona como complemento um sintagma preposicional, o mundo está cheio de verbos polilexicais… Por exemplo: olhar, ao contrário de ver, seleciona sempre um complemento introduzido por uma preposição — embora às vezes ele não seja expresso. Há alguma diferença fundamental das sequências look after a bag e look at a bag, por exemplo, relativamente às sequências correspondentes em português, olhar por uma mala e olhar para uma mala? Devem considerar-se look at/olhar para e look after/olhar por verbos polilexicais? 

[3] Quando o objeto é pronominalizado, porém, vem sempre depois do verbo e antes da preposição/advérbio.

I’ve made some copies. Would you like me to hand them out? («Tirei cópias. Quer que as distribua?»)

e não 

*Would you like me to hand out them?

[4] Numa tese de mestrado de 2004, em que analisa os phrasal verbs em inglês, dinamarquês e alemão, Elisabeth Ingeborg Kaalund lista «as características definidoras de um phrasal verb que se aplicam aos três idiomas», que incluem, entre outras, a possibilidade de nominalização, de passivização e de mobilidade da partícula adverbial, podendo esta ser colocada à direita do verbo (uma questão também referida, como indiquei, na definição mais estrita do dicionário Cambridge). É uma definição de muito maior rigor e que reduz muito o número de phrasal verbs. Redu-lo tanto que, segundo esta definição, algumas combinações normalmente consideradas phrasal verbs não o seriam de facto. 

Vejamos a questão da nominalização. Se analisarmos alguns exemplos de phrasal verbs referidos neste texto, é certo que de bring up se pode fazer upbringing e de put out se pode fazer output apenas num dos muitos sentidos da expressão, tal como make-up só se refere a maquilhagem e nunca a invenção. De make up não se faz *upmaking, nem de take on se faz *ontaking (embora existam intake e outtake). 

Além disso, a possibilidade de passivização não parece ser um bom teste do facto de o phrasal verb ter as mesmas propriedades que um verbo simples, pelo menos em inglês: há verbos, como look after, que embora não sendo, como vimos, «verdadeiros» phrasal verbs, admitem passivização (frase daqui): 

There are a number of reasons why a child may be looked after by the local authority. 

A tese de Kaalund pode ser consultada em linha: Kaalund, E. I. (2004). Phrasal Verbs in English: a comparison with German and Danish. [Candidatus, Copenhagen Business School].   

[5] Uma vez, li num fórum da internet um comentário de alguém que considerava que os chamados prefixos aspetuais das línguas eslavas eram como alguns phrasal verbs. Para explicar de uma forma muito simplificada o que são estes prefixos, dou-vos um exemplo do russo: há dois verbos  читать e прочитать, pronunciados [tchitat] e [pratchitat], para dizer «ler» (muitas vezes, trata-se da mesma forma sem prefixo e com prefixo, como neste exemplo, mas nem sempre), conforme se fale de ocorrência de leitura sem referir o seu completamento («ontem, li/estive a ler depois do jantar») ou completamente de leitura («ontem, li um texto sobre Amelia Earhart»). Ora, de facto, muitas vezes a partícula up do inglês funciona como uma marca de perfectividade, ou seja, completamento: he didn’t eat entende-se como «ele não comeu», ao passo que he didn’t eat up não significa que não tenha comido, mas que não acabou de comer.

[6] Em surpreender, o sur- é o sobre francês, língua de que nos vem a palavra. 

[7] Em dinamarquês, embora um verbo com uma preposição fixa muitas vezes signifique uma coisa completamente diferente do mesmo verbo com uma posposição solta (påtage, «assumir, comprometer-se» vs  tage på, «engordar», ou opstå, «surgir» vs stå op, «levantar-se»), há também muitos verbos que podem ter uma preposição anteposta ao verbo e colada a ele ou a mesma preposição solta depois do verbo sem mudar de significado: underskrive ou skrive under significam ambos «assinar», medtage ou tage med signficam ambos «levar», etc. — podia aqui dar muitos mais exemplos. O único caso de que agora me consigo lembrar nas línguas latinas é o de sobrevoar em português (ou de survoler em francês, igual), que também pode ocorrer como voar sobre

Estamos a sobrevoar Paris 

ou

Estamos a voar sobre Paris

significam a mesma coisa. 

[8] Já em francês não se pode dizer *manger dehors com o mesmo significado.


06/07/18

A influência das línguas que não falamos no pensamento – e no resto

Tenho dito aqui que, ao contrário do que agora parece estar na moda, não vejo boas razões para acreditar na influência da língua no pensamento; mas quero agora dar a mão à palmatória e reconhecer que, afinal, a língua pode mesmo ter influência no pensamento: ignora-se a informação existente em línguas que não se falam. Se vos parecer que estou a brincar, é verdade, estou, sim senhora, mas estou a brincar com uma coisa muito séria, que de facto não tem graça nenhuma.

Dou-vos exemplos da área da linguística, porque é a que conheço melhor, mas tenho a certeza de que é fácil encontrar exemplos em todas as áreas. Lembro-me de alguém me dizer uma vez que, se o linguista dinamarquês Louis Hjemslev era menos conhecido que outros pioneiros da línguística, era porque tinha escrito em dinamarquês. Não sei se será essa a razão mais importante para o desconhecimento de Hjemslev, até porque há muitas traduções de obras suas em francês e inglês, mas é capaz de não ser razão desprezável. No caso do trabalho do grande Antoine Culioli, que faleceu em fevereiro passado, não tenho dúvidas que é por ser feito em França e em francês que não tem a divulgação que merece, numa área em que o inglês é claramente a língua que domina. Há traduções de alguns trabalhos de Culioli e dos seus colaboradores e seguidores em inglês, claro, mas é insuficiente. O que não haverá por esse mundo fora de estudos, ensaios, conhecimento, enfim, escrito em línguas que a maioria dos académicos não lê?

Bem vistas as coisas, aliás, há vários problemas em vez de um só: um é a ignorância propriamente dita (não nos chega a informação do que existe noutras línguas), outro é mais incapacidade (sabemos que existe, mas não termos maneira nenhuma de o traduzir) e um terceiro é uma compreensível inércia, vá, para não lhe chamarmos preguiça (bom, com algum esforço, arranjava-se quem traduzisse, mas é tanto trabalho!…). Lembro-me de ter feito uma vez um trabalho sobre as Lettres d’une péruvienne, de Madame de Grafigny (que referi aqui de passagem). Era na altura uma obra pouco estudada e o único artigo que encontrei que me interessava para o tema do meu trabalho era em alemão. Ena, o trabalho que eu tive para arranjar uma cópia do artigo numa biblioteca estrangeira e depois andar a pedir ás pessoas que eu conhecia que falavam alemão para me irem traduzindo oralmente – um bocadinho uma, um bocadinho a outra, para não enjoar – o que dizia o artigo e depois arranjar quem me traduzisse mesmo como devia ser a passagenzinha que queria citar no meu trabalho…

Tenho uma história curiosa que se passou comigo há cerca de quatro anos que ilustra bem este problema:

Numa época em circulam na Internet tantos aforismos e excertos de prosa falsamente atribuídos a pessoas célebres, Garson O’Toolle faz um excelente trabalho, no seu Quote Investigator  procurando descobrir a verdadeira origem de frases famosas. A 7 de Setembro de 2014, o Quote Investigator publicou um artigo sobre o aforismo Education is what remains after you have forgotten everything you learned in school («A educação é o que fica depois de se esquecer tudo o que se aprendeu na escola»), que me lembro de ter conhecido ainda em em miúdo e que foi já atribuída a Albert Einstein, B. F. Skinner, Edouard Herriot, C. F. Thwing, Ralph Waldo Emerson, Agnes F. Perkins, James Bryant Conant, E. F. L. Wood, George Savile e Lord Halifax – e talvez a outros. A conclusão da investigação é que circulam há mais de um século frases com um conteúdo semelhante, umas referindo a educação, outras a cultura, mas que não há prova nenhuma de que alguma delas tenha sido criada por nenhum dos autores que lhes atribuem. A ocorrência mais antiga de uma variação da frase que o Quote Investigator encontrou era de dezembro de 1907.

Pouco dias depois, escrevi a Garson O’Toole um e-mail, em que lhe dava conta de uma ocorrência mais antiga e lhe propunha uma linha de investigação. Dizia-lhe eu que, num texto de 1900, que é de facto uma republicação de um artigo originalmente publicado em 1891, Ellen Key escreveu (traduzo eu) o seguinte:
Mas a educação é, felizmente, não só o conhecimento dos factos, mas, por grande paradoxo, «o que resta, quando esquecemos tudo o que aprendemos».
E acrescentava que, não sendo eu falante de sueco, devia confirmar a minha tradução e também que me parecia claro que, pelo uso de parênteses, Ellen Key não se assumia como autora da frase.

Garson O'Toole respondeu-me, agradecendo o meu trabalho e pedindo-me autorização para publicar o meu esclarecimento, que prontamente lhe dei. Mas a minha carta nunca foi publicada, nem foi nunca seguida a linha de investigação que eu propunha. A explicação mais plausível é que o Quote Investigator sofra da tal estranha influência da língua sobre o pensamento que faz com que, por inércia, se dê como inexistente o que exista só em línguas exóticas. É compreensível, insisto, é compreensível… Mas o conhecimento não ganha nada com isso. É certo que, no caso que acabo de referir como exemplo, é de conhecimento muito irrelevante que se trata – mas noutros não é.

O que se pode fazer contra isto, além de ter muito trabalho quando for necessário? Não se pode fazer muito, mas, já que as palavras são como as cerejas e estamos agora na época delas – das cerejas, quero eu dizer –, há uma questão que está intimamente ligada a esta: a do conhecimento de línguas estrangeiras que é preciso haver em todas as sociedades. E sobre isso pode fazer-se alguma coisa.

Não me vou agora adiantar muito sobre a questão das políticas de ensino de línguas estrangeiras, que é tema demasiado vasto para esta pequena nota final. Quero só lembrar um paradoxo interessante, que se relaciona com o tema deste texto: é fundamental um muito bom domínio, por toda a população, da língua internacional mais importante, o inglês – sem o qual não há, hoje em dia, nem informação, nem educação, nem negócios (e Portugal está longe de ter alcançado um nível satisfatório); mas o investimento no inglês não deve fazer esquecer que é também necessário aumentar o número de pessoas com bons conhecimentos noutras línguas internacionais importantes, como o mandarim, o castelhano, o árabe e o alemão, entre outras. A lição dinamarquesa serve para muitos países: na perspectiva de se abrir ao mundo, os dinamarqueses decidiram fazer da Dinamarca um país funcionalmente bilingue dinamarquês-inglês e conseguiram-no. O nível de inglês é até superior, na Dinamarca, ao de alguns países de língua oficial inglesa. Hoje, porém, empresas e instituições de ensino queixam-se de o forte investimento no inglês ter tido como efeito lateral o desinvestimento noutras línguas, algumas das quais, como o alemão e o francês, faziam até parte da tradição educativa e cultural dinamarquesa. E hoje há falta de pessoas que falem outras línguas – espanhol, por exemplo, mas não só –, até porque, noutros países, o conhecimento do inglês não se desenvolveu tanto como na Dinamarca e nem sempre o inglês funciona como devia como língua de comunicação…

17/01/17

A grafia como memória etimológica: duas curiosidades sobre ss e acentos circunflexos

A regra é esta: qualquer alteração na grafia, em qualquer língua, em qualquer altura, será sempre contestada.

Já desde 1990 que, em francês, se deve suprimir a maioria dos acentos circunflexos no i e no u, mas a maior parte das pessoas continua a escrever como aprendeu («está bem, mas eu foi assim que aprendi, é assim que escrevo» é uma justificação frequente da não adesão a reformas ortográficas) e, de vez em quando, reaviva-se a contestação ao desaparecimento dos circunflexos. O argumento é às vezes a perda da memória etimológica: esses circunflexos assinalam o desaparecimento de um s latino.

Há quem argumente — com toda a pertinência, na minha opinião — que à maior parte das pessoas não interessa para nada a etimologia e que os que por ela se interessam não é com ortografias «etimologizantes» que a aprendem. Também se pode argumentar, porém, que essas grafias são um auxiliar do conhecimento etimológico que se adquire sem grande custo ao aprender a escrever, de maneira que é mais ganho que perda.

Não vou discutir aqui qual a melhor grafia para se aprender a escrever, até porque não domino bem o assunto. Vejo que os dinamarqueses, que têm uma grafia nem sempre muito fonética, aprendem a escrever com uma grafia artificial mais fonética («escrita de crianças») que é mais tarde corrigida — e parecem ter com isso bons resultados, ao que observo à minha volta. Mas não sei. O que sei, e é disso que quero falar agora, é que as grafias etimológicas, além de terem sido elas próprias muitas vezes introduzidas rompendo com a evolução natural da escrita, nem sempre são realmente etimológicas. Dou-vos dois exemplos, dos muitos que podia dar, dessas grafias etimoilógicas, como eu lhes chamo, porque de lógicas não têm muito.

Boite vem do latim buxida, que deu buxita, que deu bustia, bostia, boiste e boîte. Então, ao contrário do que muitas vezes se diz, o acento circunflexo de boîte não assinala(va) o desaparecimento de um s etimológico, mas apenas o desaparecimento de um s que houve numa determinada fase da evolução da palavra. De facto, ortografias conservadoras como a do francês não são etimológicas em sentido estrito (e existirá tal coisa?), mas muitas vezes refletem antes maneiras antigas de pronunciar as palavras — de várias épocas misturadas… E convém esclarecer, já agora, que a escrita parou numa época, há muitos séculos, em que se dizia /boite/como se escreve, mas, como sabem, a palavra continuou a evoluir: passou a /boete/, depois a /buete/ e depois a /buate/, como se pronuncia agora.

Já em île, o acento circunflexo marca(va) mesmo o desaparecimento do s que tinha havido no latim i(n)sula. Agora, porque acharão os defensores das marcas etimológicas que se deve assinalar o desaparecimento do s latino e não o desaparecimento do u latino, por exemplo? É estranho. Aliás, não é só impossível definir o que se há de conservar do étimo, como é impossível definir o próprio étimo: as palavras latinas também têm uma história, não foram criadas do nada. Mesmo que, para simplificar, tomemos como étimo as primeiras formas escritas, a coisa é complicada: o étimo de boite passa a ser grego (πυξίς) e põe-se mais uma questão às preferências etimológicas: que escrita etimológica se deve ou pode usar para o que vem de outros alfabetos ou de outros sistemas de escrita?

Mas enfim, deixemos isso, tenho a certeza de que, chegados aqui, os meus leitores estão já mais que convencidos de que isso da grafia etimológica é uma grande confusão… Em île, dizia eu, o acento circunflexo assinala que houve ali um s que desapareceu da escrita e da pronúncia. Já no inglês isle, que vem do francês, o s nunca desapareceu… da escrita. Agora, o mais curioso é que island, que se pode relacionar semanticamente com isle, tem um s etimologicamente injustificado. A forma que deu island, igland, não tem s nenhum, mas alguém achou por bem ir buscá-lo a isle e acrescentá-lo à palavra, só para enfeitar... É de notar, já agora, que o isle inglês foi ile antes de ser isle, porque foi assim que foi importado do francês, numa altura em que as grafias il(l)e e isle coexistiam. Quando os franceses resolveram fixar, no séc XVI, a grafia com aquele bonito s, os ingleses acharam por bem imitá-los. Depois, os franceses substituíram o s por um acento circunflexo no i, mas os ingleses preferiram manter o s. Uma bonita história, não é?

26/04/11

Coitadinho do inglês, mais uma vez ou De como se enriquece uma língua depenicando aqui e ali

Todas as línguas importam constantemente palavras, e algumas mais do que outras, conforme o contexto em que se encontram e as necessidades dos seus utentes. Uma língua falada por um povo que não use computadores, por exemplo, não necessita de importar palavras que actualizem constantemente a possibilidade de se referir às inovações tecnológicas que aparecem diariamente neste domínio. Da mesma forma, uma língua falada por um povo que produza mais tecnologia neste domínio também tem menos necessidade de importar palavras de informática, porque muitas delas terão já sido cunhadas na própria língua, segundo a sua lógica própria. Mas é sempre assim – importa-se o que nos faz falta para designar o novo: se em tagalo, um dos idiomas oficiais das Filipinas, garfo se diz tenedor e colher se diz cuchara, ou se em suaíli mesa se diz mesa, é pela mesma razão que em português se usa uma palavra nauatle para designar o tomate, nem mais nem menos.
Por isso mesmo, e por ter sido a língua oficial de um império maior, o inglês é, das línguas próximas da nossa, a que mais palavras importou nos últimos tempos (já não vale a pena falar de importações mais antigas, senão metade do inglês é importado do francês...). E é esta uma das maneiras de criar uma língua rica em vocabulário: é quase impossível encontrar uma página de um dicionário de inglês sem encontrar uma destas palavras recentemente importadas, às vezes de línguas muito distantes.
Façam a experiência, como eu fiz. Abro uma página ao acaso. Aparece-me bardy, uma palavra aborígene australiana para designar um tipo de larva comestível. Como se diz isto em português? Não se diz: não temos cá, não importámos de fora, não temos... E nem nos faz falta. A seguir, na mesma página, aparece-me a palavra barilla, para designar uma planta de Espanha e da Sicília. Abro outra página. Aparece-me knesset, uma palavra hebraica que significa “reunião” e que designa o parlamento israelita. Admitimo-la em português? Depois aparece-me knopkierie, uma palavra africâner para designar um tipo de arma de algumas tribos da África Austral. Isto também pode ser que interesse, pelo menos ao português de Moçambique... Mas é melhor importar essa designação de uma língua moçambicana, não acham? Só mais uma página: agora, aparecem dois nomes, peau-de-soie, francês, e peccary, caribe (esta, também tivemos de a importar)*.
Não deixa de ser curioso: por ser uma língua imperial, o inglês foi imposto a milhões de pessoas em todo o mundo. Um dos resultados dessa expansão foi a assimilação (a necessidade de assimilação, por um lado, e a predisposição a aceitá-la como natural, por outro) de um número muito grande de palavras das línguas com que estava em contacto em lugares muito diferentes do seu espaço natal. Já aqui disse uma vez que, pela sua internacionalização, o inglês é, naturalmente, a língua mais maltratada no mundo inteiro. Também os puristas do inglês, que os deve haver, seguramente prefeririam que, em vez de se ter tornado uma língua com um vocabulário tão vasto, o inglês se tivesse mantido uma língua que eles pudessem considerar menos espúria. Não que eu tenha pena de puristas…





*  E peccavi, latim, mas essa não deve ter sido importada recentemente.

[Ligeiramente atualizado a 2 de julho de 2023, sem atualização da grafia.]

10/05/10

Desnecessário será dizer que…

Não sei se as pessoas de língua inglesa têm, no geral, uma mentalidade mais prática, uma abordagem mais incisiva da vida, se são menos dadas ao devaneio e ao ornamento palavroso do que as pessoas de língua portuguesa; mas que o corrector gramatical de inglês das Proofing Tools da Microsoft aceita menos o supérfluo do que o corrector de português desse mesmo pacote, disso tenho uma prova irrefutável. Se eu escrever, por exemplo, “Desnecessário será dizer que podem contar comigo”, o corrector gramatical português não me diz nada; mas se eu escrever, em inglês, “Needless to say, you can count on me”, o corrector inglês propõe-me logo que apague “needless to say”. E com toda a razão – se é desnecessário, para que o digo?

19/12/08

Do you speak English? Atão amanda a corda!

Um dos muitos bons argumentos que há contra a monarquia é o argumento humanitário: coitados dos reis e das rainhas e dos príncipes e das princesas!, que vêem a sua privacidade constantemente devassada e que só muito relativamente têm direito a escolher que vida querem ter… 

Oiço e vejo muitos argumentos contra o imperialismo da língua inglesa (que, na maior parte dos casos, são mais expressão pura de paixões vagas que verdadeiros argumentos), mas nunca vi ninguém defender, contra a expansão do inglês, um argumento do mesmo tipo do argumento humanitário contra a monarquia. A verdade, no entanto, é que um purista do inglês pode perfeitamente argumentar que quem sofre com essa expansão – e muito mais do que as línguas que ela pretensamente afecta – é o próprio inglês… Nunca tinham pensado nisso? Eu, que passo a vida a traduzir textos em inglês escritos por pessoas das mais variadas nacionalidades, é o que penso muitas vezes…

Diz-se muitas vezes que as pessoas de língua inglesa nunca aprendem a falar outras línguas e é bem capaz de não ser apenas preconceito, mas não o sei confirmar. Diz-se também que, em parte, isso se deve a que, podendo comunicar com tanta gente na sua própria língua, lhes falta a motivação para aprender a língua dos outros – o que me parece plausível. Ainda há pouco tempo, aliás, um amigo britânico que me veio visitar deu precisamente essa explicação para o facto de, como muitos compatriotas seus, não saber falar outras línguas. Mas quando se formula de outro modo a incapacidade dos anglófonos, acusando-os de “não terem jeito nenhum para línguas”, aí já não posso concordar.  Quanto mais não seja, porque as pessoas de língua inglesa são as melhores que eu conheço a compreender a sua língua falada seja lá como for – uma competência linguística que falta a muita gente de outros idiomas… É o reverso da medalha, claro está, e resulta de uma vida inteira de prática de ouvir a sua língua falada com toda a classe de sotaques estrangeiros, cada qual mais arrevesado que o outro… Os falantes do inglês são bons nisso e são bons a aceitar que o inglês pode ser falado e escrito assim, daquela maneira esquisita como nós o falamos e escrevemos; a aceitar, até, que sejam pessoas de outras línguas a inventarem na língua deles palavras e expressões novas, algumas provavelmente tão estrangeiras que os arrepiam… Não imagino um português ou um francês a aceitar sem protestar, na sua língua, os erros bárbaros (aqui no sentido primeiro de típico de estrangeiros) que infestam constantemente todo o tipo de documentos e discursos em inglês. 

Nunca os seres humanos tiveram as possibilidades que têm hoje de comunicarem uns com os outros. Se isto se deve, obviamente, sobretudo ao progresso tecnológico, ajuda também muito a este avanço o facto de haver finalmente uma língua (e uma língua viva, ademais) que um quarto da população do globo consegue, melhor ou pior, usar como língua franca. Evidentemente, que o inglês se tenha tornado língua de comunicação não resulta de nenhum plano altruísta. Mas não vale a pena pensar nisso, até porque provavelmente não há boas razões para uma língua se expandir. Agora, independentemente das razões pelas quais há finalmente uma língua de comunicação de grande sucesso à escala mundial, é uma sorte que a haja – e uma oportunidade que não deve ser desperdiçada. 

Um bocadinho de respeito, então, por essa língua franca, em vez de nos acomodarmos apenas, como tanta gente tem tendência a fazer, em soluções mais ou menos pidginizadas de comunicação. Sigamos o exemplo de Joseph Conrad, para quem o inglês era a quarta língua, e uma língua que só começou a aprender já homem feito, e que conseguiu, ainda assim, tornar-se um dos mestres da língua inglesa (sem nunca perder, porém, o forte sotaque polaco…). Um bocadinho de respeito pelo inglês, dizia eu, e tenhamos sempre presente, não custa nada, que este inglês que falamos e escrevemos não é uma língua nossa – e também não é bem a língua dos seus falantes nativos… 

[Atualizado a 28 de maio de 2023, sem atualização da grafia.]