19 de dezembro de 2008

Do you speak English? Atão amanda a corda!

Um dos muitos bons argumentos que há contra a monarquia é o argumento humanitário: coitados dos reis e das rainhas e dos príncipes e das princesas!, que vêem a sua privacidade constantemente devassada e que só muito relativamente têm direito a escolher que vida querem ter…

Oiço e vejo muitos argumentos contra o imperialismo da língua inglesa (que, na maior parte dos casos, são mais expressão pura de paixões vagas que verdadeiros argumentos), mas nunca vi ninguém defender, contra a expansão do inglês, um argumento do mesmo tipo do argumento humanitário contra a monarquia. A verdade, no entanto, é que um purista do inglês pode perfeitamente argumentar que quem sofre com essa expansão – e muito mais do que as línguas que ela pretensamente afecta – é o próprio inglês… Nunca tinham pensado nisso? Eu, que passo a vida a traduzir textos em inglês escritos por pessoas das mais variadas nacionalidades, é o que penso muitas vezes…

Diz-se muitas vezes que as pessoas de língua inglesa nunca aprendem a falar outras línguas e é bem capaz de não ser apenas preconceito, mas não o sei confirmar. Diz-se também que, em parte, isso se deve a que, podendo comunicar com tanta gente na sua própria língua, lhes falta a motivação para aprender a língua dos outros – e é, acho eu, afirmação com visos de verdade. Ainda há pouco tempo, aliás, um amigo britânico que me veio visitar deu precisamente essa explicação para o facto de, como muitos compatriotas seus, não saber falar outras línguas. Mas quando se formula de outro modo a incapacidade dos anglófonos, acusando-os de “não terem jeito nenhum para línguas”, aí já não posso concordar. Quanto mais não seja, porque as pessoas de língua inglesa são as melhores que eu conheço a compreender a sua língua falada seja lá como for – uma competência linguística que falta a muita gente de outros idiomas… É o reverso da medalha, claro está, e resulta de uma vida inteira de prática de ouvir a sua língua falada com toda a classe de sotaques estrangeiros, cada qual mais arrevesado que o que o outro… Os falantes do inglês são bons nisso e são bons a aceitar que o inglês pode ser falado e escrito assim, daquela maneira esquisita como nós o falamos e escrevemos; a aceitar, até, que sejam pessoas de outras línguas a inventarem na língua deles palavras e expressões novas, algumas provavelmente tão estrangeiras que os arrepiam… Não imagino um português ou um francês a aceitar sem protestar, na sua língua, os erros bárbaros (aqui no sentido primeiro de típico de estrangeiros) que infestam constantemente todo o tipo de documentos e discursos em inglês.

Nunca os seres humanos tiveram as possibilidades que têm hoje de comunicarem uns com os outros. Se isto se deve, obviamente, sobretudo ao progresso tecnológico, ajuda também muito a este avanço o facto de haver finalmente uma língua (e uma língua viva, ademais) que um quarto da população do globo consegue, melhor ou pior, usar como língua franca. Evidentemente, que o inglês se tenha tornado língua de comunicação não resulta de nenhum plano altruísta. Mas não vale a pena pensar nisso, até porque provavelmente não há boas razões para uma língua se expandir. Mas as línguas de comunicação artificiais sempre funcionaram mal, e ninguém quer viver na situação dos americanos antes de chegarem os europeus às terras deles, com 900 línguas para uns 50 milhões de pessoas*. Quero eu dizer que, independentemente das razões pelas quais há finalmente uma língua de comunicação de grande sucesso à escala mundial, é uma sorte que a haja – e uma oportunidade que não deve ser desperdiçada.

Um bocadinho de respeito, então, por essa língua franca, em vez de nos acomodarmos apenas, como tanta gente tem tendência a fazer, em soluções mais ou menos crioulizadas de comunicação. Sigamos o exemplo de Joseph Conrad, para quem o inglês era a quarta língua, e uma língua que só começou a aprender já homem feito, e que conseguiu, ainda assim, tornar-se um dos mestres da língua inglesa (sem nunca perder, porém, o forte sotaque polaco…). Um bocadinho de respeito pelo inglês, dizia eu, e tenhamos sempre presente, não custa nada, que este inglês que falamos e escrevemos não é uma língua nossa – e também não é bem a língua dos seus falantes nativos…

[À laia de apêndice: É interessante notar que os portugueses acreditam sinceramente que têm uma pronúncia menos marcada em inglês do que os falantes de outras línguas. É natural que existam vantagens naturais dos falantes nativos de uma língua na pronúncia de uma determinada língua estrangeira. A crença na “boa pronúncia” do inglês pelos portugueses, no entanto, não tem grande fundamento: tem apenas a ver com a inconsciência dos nossos próprios erros, porque somos surdos a distinções que não existem na nossa língua.]

_______________

* 900 línguas é um cálculo modesto, há quem fale de milhares... Tudo depende do que se considere uma língua, claro, de maneira que não existe nada como “o verdadeiro número”. Quanto ao número de habitantes da América quando lá chegaram os europeus, 50 milhões é um número prudente, porque é médio: há quem diga muito menos, há quem diga muito mais. O que é sempre verdade, usem-se que cálculos de número de línguas e de número de habitantes se usarem, é que havia uma enorme diversidade linguística na América pré-colombiana. E ainda hoje há casos estranhos de incomunicação linguística nas Américas. Estou a lembrar-me, por exemplo, de um artigo que li há uns anos [“O Português de Contato no Parque Indígena do Xingu”, de Charlotte Emmerich, in Revista Internacional da Língua Portuguesa, nº 5/6, Dezembro de 1991] sobre dois grupos étnicos do Alto Xingu, que partilham o mesmo espaço geográfico, têm economias, tradições e crenças – numa palavra, vidas – iguais... e têm línguas tão diferentes que recorrem ao português para comunicarem um com o outro.

Sem comentários: