«O filme Depois da morte (Dopo la morte/Nach dem Tod/Après la mort), da realizadora suíça Lara Tàcita, é descrito pela autora como um ensaio:
Não é tanto um ensaio filmado, que seria outra coisa, mas é um ensaio mais que uma obra de ficção. Cheguei a pensar em categorizá-lo simplesmente como documentário, mas achei que seria uma classificação algo arrogante. Acho que muita gente vê o filme como um poema visual, não no sentido mais tradicional da expressão, mas como o equivalente cinematográfico da música programática, em que se pede ao ouvinte que aceite que a obra descreve ou de alguma forma sugere, de facto, o programa, a história, a ideia, enfim, que o autor com ele se propõe tratar. Para mim, também não é isso. Mas compreendo que o vejam assim. Também já vi o filme descrito como filme de tese, mas não me parece bem. Não só me parece uma designação demasiado pomposa, como se lhe aplica mal, se compararmos Depois da morte com outros filmes que costumam ser assim designados.
Embora muitos vejam nele uma rutura com todas as formas anteriores de cinema, julgo que o filme de Lara Tàcita segue apenas as convenções narrativas habituais. Todos os romances, todas as novelas, todos os filmes são feitos de uma escolha das imagens, situações ou palavras que o autor considera relevantes para a história a ser contada, para o ambiente a ser sugerido ou para a ideia a ser veiculada. O tempo total em que «se passa» a narrativa, que pode ser de horas a séculos, mas que é, mais comummente, de meses a anos, é reduzido ao tempo em que ela é apresentada ao público — que, no cinema, normalmente é entre uma e duas horas, às vezes um pouco mais. Mesmo quando, em propostas ditas hiper-realistas, se insiste em mostrar as banalidades que são por tradição omitidas noutras histórias (fazer comida, passar a ferro, lavar os pés…), essa redução narrativa não deixa nunca de existir. E é isso que Lara Tàcita faz também aqui neste filme: durante três horas e 16 minutos apresenta-nos uma seleção dos acontecimentos por que passa o protagonista (que nunca é nomeado, nem nunca se vê no filme) depois da sua morte.»
Leo Fredholm, Gazeta d’Aosta, 18.12.22
O trailer de Depois da morte dá-nos uma ideia muito clara do que podemos esperar do filme: depois dos segundos iniciais (em que, pelos olhos do moribundo protagonista, vemos a única personagem do filme além dele) desfilam em rápida sequência, durante um pouco mais de dois minutos, alguns breves excertos das principais cenas do filme — alguma das principais experiências do protagonista depois da sua morte.
Quando Matteo Bandello, lá por meados do séc. XVI, contou pela primeira vez a história de Romeu e Julieta, não podia imaginar a fortuna que a história viria a ter, sobretudo depois de ter passado pela pena mágica de William Shakespeare, meio século depois; não podia saber que, pelo menos no chamado mundo ocidental, a história dos seus jovens amantes se tornaria o maior mito do amor – o que, se calhar, quer dizer (é o que defendem alguns) que o amor é tendencialmente assim, trágico, suicida, impossível…
Seja como for, o próprio dos mitos é serem exagerados para serem exemplares, de maneira que, na vida real, é raríssimo as coisas tomarem as proporções extremas que nos mitos têm. No entanto, por muito que raro, pode acontecer. Conheço um caso verdadeiro que é uma versão vivida da história de Romeu e Julieta. Ou quase. Eu conto-vos como as coisas se passaram, para julgarem vocês mesmos de semelhanças e diferenças:
Quando se conheceram, algures entre Alcântara, de onde ela era, e a Tapada da Ajuda, de onde era ele, a Verónica tinha de 16 para 17 anos e o Rodrigo 18 acabados de fazer. A Verónica tinha uma família normal, com pai, mãe e uma irmã dois anos mais nova que ela. O Rodrigo era órfão de pais e vivia, desde os 8 anos, com um avô viúvo. A Verónica e o Rodrigo eram adolescentes vulgares da classe média e tinham os dois, até se conhecerem, uma existência relativamente despreocupada. Agora, de repente, deram por si mais apaixonados do que aconselharia o bom senso, a vida prática. Para saberem o que eles sentiam, lembrem se do que sentiram nas alturas da vossa vida em que a paixão vos fez sentir que corriam perigo, pensem nas alturas em que a paixão vos inspirou o mesmo respeito que uma trovoada grande mesmo por cima de vocês, relâmpago e trovão coincidentes. Se nunca tiverem tido essa experiência, então paciência, não podem saber o que sentiam a Verónica e o Rodrigo.
Deixaram o mais possível de fazer fosse lá o que fosse que os impedisse de estar juntos: deixaram de ir à escola, de estudar, de chegar a horas a casa. No caso da Verónica, porque era menina e tinha a tal família normal, o amor deu bronca. Uma bronca que se tornou insustentável, com as negativas e as faltas do primeiro período: o pai normal que ela tinha proibiu-a, como era normal num pai assim, de ver o Rodrigo. A Verónica, muito normalmente também, não cumpriu:
“Temos de conversar muito bem os dois. As coisas não podem continuar assim. Temos de tomar grandes decisões, temos de deixar claro o que queremos um do outro e da nossa vida.”
As conclusões da longa conversa que tiveram uma tarde no quarto do Rodrigo, depois de fazerem amor, foram as que, cada um por seu lado, comunicaram com firmeza, ela à sua família normal, ele ao avô:
“Tomámos uma decisão e não há nada que nos possa fazer voltar atrás: vamos casar-nos e vamos viver juntos.”
O pai e a mãe da Verónica não deram consentimento para a filha menor se casar. As cenas sucederam-se entre o pai da Verónica e a filha, e também entre o pai da Verónica e o Rodrigo, mas eram cenas que impressionavam pouco aquela Alcântara tão habituada a cenas. E, por mais que a vigilância da família da Verónica aumentasse, continuavam a arranjar maneira de passar um no outro, se se pode dizer assim, longas tardes de amor.
O quarto do Rodrigo era num primeiro andar de uma casa de dois pisos que o avô tinha herdado do bisavô e que este tinha já herdado do tetravô. A mobília e a pintura do quarto eram antigas, já escamadas, e davam ao quarto um ar triste, pesado, tal e qual como se ia tornando, cada vez mais, o amor que lá viviam. Sentiam-se velhos com aquela idade. O quarto tinha uma porta para uma varanda pequena, que dava para um jardim muito bonito, com tamareiras e vários tipos de flores, mas nunca iam à varanda para não serem vistos e para não arranjarem, dessa maneira, mais problemas que os que já tinham, e então sentiam que a vida deles era assim, precisamente, com uma porta que dava para um jardim, mas que não se podia abrir. E um dia decidiram que era melhor matarem-se que continuar a viver assim.
Há muito tempo, antes de a Igreja ter imposto a sua condenação oficial do suicídio, que acabou por ter letra de lei em vários países, não era preciso ir ao longínquo Japão para ver o gesto da autoaniquilação encarado como sendo de honra e de coragem. Quando Zénon Ligre, personagem de um famoso romance de Margarida Yourcenar, chegou à conclusão, ao cabo da sua mística busca, que a única maneira de partilhar de alguma forma o poder divino era decidir, pelo menos, o fim da vida, já que no resto não tinha podido mandar, estava apenas a chegar uma conclusão a que Séneca tinha já chegado antes dele: o suicídio pode ser o último ato de liberdade do ser humano.
Imaginem como se deve ter sentido o avô do Rodrigo quando entrou no quarto dele e deu com o neto e a Verónica nus na cama, um ao lado do outro, de barriga para o ar, pernas e braços ligeiramente abertos e o rosto virado para cima, olhos fechados, ambos com o peito coberto de sangue, que lhes vinha de dois buracos grandes, abertos a facalhão de cozinha, à altura do coração. O Rodrigo tinha a faca espetada no peito, mas ainda estava vivo. A Verónica estava já fria.
O Rodrigo sobreviveu – a faca não lhe tinha atingido o coração. Mal lhe foi dada alta, foi julgado pelo assassinato da Verónica.
“Assassinato! Eles são doidos! Porque é que falam de assassinato?”
Foi, evidentemente, considerado culpado e passou cinco anos na prisão. Só o conheci depois disso. Era um rapaz afável e não se lhe notavam, no trato quotidiano, marcas nenhumas do drama por que tinha passado. Mas devia tê-las, porque não vejo que se possa passar por uma coisa assim sem ficar marcado na alma por cicatrizes gémeas das que a faca lhe deixou no peito.
***
Uma das atrações da ilha de Tåsinge, onde vivemos, é ter sido o cenário de uma famosa história de amor fatal. Esta não a conto eu, faço apenas uma adaptação resumida, da entrada Elvira Madigan da Wikipédia em dinamarquês:
Elvira Madigan era o nome artístico de Hedvig Antoinette Isabella Eleonore Jensen, nascida em 1867 em Flensburg, na Alemanha. A mãe de Elvira, Eleanora, era finlandesa e o pai, Frederik, dinamarquês. Conheceram-se no Cirque du Nord, onde ambos trabalhavam, ela como funâmbula e ele como acrobata. Frederik morreu quando Elvira tinha dois anos. Eleanor trabalhava nessa altura no circo François Loissset onde conheceu o americano John Madigan, com quem começou a viver. John era domador de cavalos e ensinou Elvira a montar. Elvira fez a sua estreia no circo aos cinco anos de idade.
Em 1879, John e Eleanora fundaram o seu próprio circo, o pequeno Circo Madigan, onde Elvira e uma meia irmã atuavam como "irmãs Elvira e Gisella Madigan", ambas dançando na corda bamba. O circo fez uma turnê na Escandinávia e, em 1886, deu um espetáculo no Tivoli, em Copenhaga, para o rei Christian IX, que premiou com uma cruz de ouro cada artista. O circo teve um grande sucesso com as suas duas bailarinas funâmbulas e deu espetáculos em várias cidades europeias: Paris, Londres, Berlim, Bruxelas, Amesterdão e até Odessa.
Em 1888, o circo chegou a Kristianstad, na Escânia, Sul da Suécia, onde Sixten Sparre, nobre sueco e tenente do Regimento de Dragões da Escânia, assistiu ao espetáculo. Ficou imediatamente tão fascinado com a jovem Elvira que voltou quase todas as noites, e outra vez no verão seguinte, quando o circo estava em Ljungbyhed. Elvira e Sixten começaram uma relação, que tiveram de manter secreta: Sixten era casado e tinha dois filhos.
Continuaram em contacto por carta até 22 de junho de 1889, quando o circo chegou a Sundsvall, no Norte da Suécia. Elvira tinha à sua espera uma carta de Sixten em que ele lhe dizia que se tinha divorciado e que esperava por ela na estação de Bollnäs. Elvira empenhou as joias e fugiu. Sixten também tinha desertado do regimento. Foram para Estocolmo, donde seguiram, de comboio, para Copenhaga e depois para Svendborg. Alojaram-se aí num hotel, apresentando-se como um casal em lua de mel.
A 15 de julho de 1889, chegou a Svendborg o Circo Bergman. Com medo que os reconhecessem, Elvira e Sixten foram para Troense, um aldeia na ilha de Tåsinge, onde ficaram numa pensão. Entretanto, acabou-se-lhes o dinheiro. Sixten enviou um telegrama à família a pedir mais dinheiro, mas a família não acedeu ao pedido. A 20 de julho, Elvira e Sixten disseram que iam dar uma volta pelo bosque e levaram consigo uma cesta de piquenique. Em Nørreskoven, no meio da floresta, Sixten matou Elvira a tiro, matando-se a si próprio a seguir.
O jornal Øresundsposten de 25 de julho de 1889 descreveu desta forma os últimos momentos do casal:
Depois d[e saírem da pensão], só foram vistos em vida num casa de Nørreskov, onde pediram um copo de água. Daí, continuaram por um terreno pantanoso, até chegarem a uma clareira onde merendaram sob as faias. O cesto da comida estava vazio. Estavam deitados numa manta e tinham com eles um guarda-chuva e um guarda-sol. Sixten estava à esquerda de Elvira e o tiro tinha-lhe atingido a têmpora direita. Elvira tinha sido atingida por um tiro do mesmo revólver na têmpora esquerda. Era óbvio que Sixten tinha disparado sobre ela e depois sobre si mesmo, porque ela tinha os braços cruzados sobre o peito e ele estava deitado de braços estendidos ao lado dela, com a arma. Tinham ambos uma expressão bastante calma no rosto.
O casal está sepultado no cemitério de Landet.
Uma maneira de descrever com bastante rigor os sentimentos de Verónica e Rodrigo, e Elvira e Sixten é esta que usa o grupo de teatro Baggårdteatret, de Svenbdborg, na apresentação em video da sua peça Elvira Madigan.
A história de Elvira Madigan e Sixten Sparre não é, pelos vistos, conhecida apenas na Escandinávia: descobri na Wikipedia que o grupo britânico Mr. Fox a pôs em rima e lhe deu uma melodia.
Mr. Fox, “Elvira Madigan”, 1971
Elvira was a circus girl who walked the tightrope bravely.
She travelled through Europe, and she knew what men were for.
He was in the cavalry, wore braid upon his tunic;
A handsome bearded horseman, who had never been to war.
CHORUS
You would say, if you met them, they were golden eyed children,
For the one thing they wanted they gave up health and fame.
God help Elvira, and God help her lover,
And God help anyone who tries to do the same.
He left his wife and children in the regiment behind him,
Stripped the braid from his tunic, tossed his buttons on the ground.
She left the roaring crowds and the lights of the circus
To go with a deserter and run from town to town.
And many's the time they thought they'd found their safety,
A room to love and shelter from the wind and the rain.
But a knock on the door, a face at the window,
And many's the time they were on the move again.
CHORUS
She sold her last possessions and bought a loaf and butter.
He robbed a henhouse, and they left once more to roam.
In the middle of a meadow they both sat down to picnic,
When he touched Elvira she was cold as a stone.
Elvira knew that the pistol was hidden in the basket.
She whispered to her lover, “Make it soon, make it soon,”
Elvira chased the butterfly and caught it in her fingers,
She fell from the tightrope and the audience went home.
[Texto originalmente publicado, numa versão ligeiramente diferente, no Livro Pirata dos Rádio Macau]
Houve aí um fogo enorme, que apagaram com sangue. Foi mesmo na minha rua, mesmo dentro do meu quarto. Eu vi-os todos chegarem e olharem para mim, como se eu fosse a culpada de alguma coisa terrível. As pessoas, cá em baixo, olhavam com indiferença, como quem ouve na rádio as notícias do meio-dia. Desci as escadas a arder, peguei fogo à cidade. Houve anjos que ainda tentaram levantar voo, em vão.
Acordei eram umas 6 e meia da manhã. Liguei o computador e li num jornal online que metade de Portugal estava a arder. Dei uma espreitadela no quarto dos miúdos: dormiam como anjos. O que é que eu ia fazer a uma hora daquelas? Decidi que era demasiado cedo para me levantar e fui meter-me outra vez na cama.
Hora e meia mais tarde, veio a Clara acordar-me. Estava toda nua e a chorar. “O que é que foi, Clarinha, o que é que foi?” Demorei alguns segundos a tentar identificar os ruídos estranhos que enchiam a casa. Ouviam-se coisas a cair e o que parecia o crepitar de uma fogueira muito grande. Saltei da cama, peguei na menina ao colo e corri para a casa de jantar. O quarto dos miúdos já não era senão uma labareda única, enorme e medonha, e começava um fumo negro a encher a casa toda. Senti o calor queimar-me cabelo e pestanas, recuei alguns passos e pus a Clara no chão. Veio-me então a certeza de que o Daniel tinha morrido da mais terrível das mortes, queimado vivo ali dentro daquele inferno, e comecei, tresloucado, a gritar por ele. Não que me restasse alguma esperança de ele estar vivo, mas porque a dor toma muitas vezes a forma primitiva do nome gritado de quem perdemos. E ainda bem que gritei: o Daniel, que estava escondido atrás da escrivaninha da sala de estar, veio ter connosco a correr. Com a aflição, nem o cheguei a abraçar. Gritei‑lhe só que corresse lá para fora, vá, rápido!, peguei na Clara e corri atrás dele.
Moramos no rés-do-chão direito. Quando nos vi fora do apartamento, a minha preocupação foi avisar os vizinhos, mas não consegui, naquela altura, ter o discernimento suficiente para ir pôr os miúdos à rua antes de o fazer. Bati à porta do lado, nada, ninguém respondeu. Estavam, com certeza, ainda a dormir. Havia já muito fumo nas escadas. Corri para o primeiro andar, em pânico, a Clara ao colo, o Daniel a reboque. Os vizinhos de cima, do lado direito, também não responderam. Quando o Ole, o vizinho do 1º esquerdo, me abriu a porta, não consegui dizer-lhe nada. Não me saía da boca som nenhum. E não era por não saber dizer “há fogo” em dinamarquês...
Foi o Ole que telefonou aos bombeiros. Enquanto ele telefonava, a mulher dele agarrou no Daniel pela mão e foi ver se se podia descer pelas escadas traseiras para o pátio interior do bloco de edifícios. “À vontade”, gritou-me ela da porta da cozinha, “o fumo ainda aqui não chegou.” Galgou as escadas com o miúdo e eu desci com a Clara logo atrás dela. E o Ole veio também logo a seguir. Ficámos ali, no meio do pátio, arrelampados, mais nus do que vestidos, a fixar em silêncio, como hipnotizados, aquela chama descomunal que saía pela janela do quarto dos miúdos, um maçarico gigantesco, que ia rapidamente enegrecendo a faixa de parede que lhe ficava por cima e em frente, do lado de lá do ângulo interior do pátio, e rebentando, sem se lhes pegar, caixilhos e vidraças das janelas mais próximas.
Não se pode dizer que tenha havido vizinhos a olharem com indiferença, como na canção que aqui me traz. Como acontece bastante nesta parte da cidade, o pátio é de um quarteirão inteiro, que é um único edifício, e onde moram, no total, cerca de 450 pessoas. Mas havia muito poucas, umas 50, se tanto, a assistir ao incêndio – as outras, domingo de manhã que era, continuavam a dormir. Os vizinhos que foram aparecendo no pátio pareciam mais perturbados do que nós e ofereciam-se para nos ajudar no que pudessem. Eu pedi-lhes só alguma roupa emprestada e fraldas para a Clara. Passadas umas semanas, quando quis devolver a roupa que me emprestaram, tive de afixar um papel em cada uma das 15 entradas do edifício a perguntar a quem é que ela pertencia, porque não conseguia lembrar-me de quem ma tinha emprestado.
De facto, não me lembro muito bem desse dez minutos intermináveis que se passaram entre saírmos de casa e chegarem os bombeiros. Em poucos minutos, extinguiram o fogo. Apagaram-no com espuma, para tentar minorar os estragos no apartamento. Os polícias chegaram mais ou menos ao mesmo tempo que os bombeiros. Tive de lhes explicar tudo o que sabia do que tinha acontecido, do que estava a acontecer, e fiquei impressionado com a qualidade do meu dinamarquês (se bem que duvide que os tenha conseguido impressionar a eles...). Quando acabei os meus atabalhoados depoimentos, meteram-nos, a mim, à Clara e ao Daniel, numa ambulância e levaram‑nos para o hospital.
No hospital, estavam as vizinhas do quarto andar: a Kirsten e a filha dela, a Julie, do 4º direito; e a Henriette, uma senhora já octogenária que mora sozinha no 4º esquerdo. Foram elas que mais sofreram com o fumo. Quando acordou, com o alarme de incêndio, e se deu conta do que se estava a passar, a Kirsten agarrou na filha e foi buscar a vizinha Henriette, pobre senhora. Tentaram descer pela escada de trás, mas já havia tanto fumo que era demasiado arriscado aventurar-se por ali. “Liguei aos bombeiros, a explicar-lhes a nossa situação. Eles disseram-me para não me preocupar, que já iam dois carros a caminho. Fixe, era reconfortante, mas o pior é que a casa, a pouco e pouco, ia-se enchendo de fumo. Devia ser fumo que entrava pelas frestas das portas e das janelas, eu sei lá... ou pela chaminé, se calhar... Bem, o certo é que, a certa altura, já não se aguentava. Tivemos de ir todas para a varanda e ficar ali quietinhas, cheiínhas de medo, sem ousar sequer olhar cá para baixo, até que finalmente os bombeiros lá nos vieram buscar de escada Magirus, tal e qual como nos filmes... Como as coisas são: mesmo a Julie, só com três anos, já sabe qual é a ordem normal do mundo, já sabe que os bombeiros salvam quem fica preso no quarto andar de um edifício a arder: mal o carro dos bombeiros parou lá em baixo na rua, houve logo uma mudança na expressão de todas nós, aliviou-se-nos coração e alma – estávamos salvas!”
Feitas as análises que se deviam, verificou-se que, felizmente, não tínhamos monóxido de carbono nenhum no sangue. E deram-nos alta a todos. Saímos do hospital aí por essas onze horas. Telefonei primeiro à Rikke, a minha mulher, a contar-lhe tudo, e depois à minha chefe, a pedir, pelo menos, três dias de dispensa do serviço; e fomos até à maternidade onde a Rikke estava internada, por causa de umas complicações surgidas na sequência do parto da nossa terceira filha, a Felicia, nascida oito dias antes.
Estava lá o Aage, um amigo nosso, e estava visivelmente transtornado. Repetiu-me a história que já tinha contado à Rikke.
“Sonhei com vocês e não sei ao certo o que se passava no sonho, mas era uma coisa qualquer má... Lembro-me que havia um matador de porcos, pois, vê lá tu, um matador de porcos, e depois havia uma explosão, uma explosão grande, não sei se era um atentado à bomba, se o que era, e vocês estavam lá, tu e a Rikke, só os dois, sem os miúdos, e depois eu, naquela confusão, procurava-vos por toda a parte, mas em vão, vocês tinham desaparecido...”
Eis o que fazem as televisões e os jornais com o terrorismo deles, pensei eu, e perturbou-me sinceramente ver o Aage assim tão sinceramente perturbado.
“Ouve, eu não ligo a sonhos, quer dizer, um bocadinho, às vezes”, continuou ele, “mas desta vez, não sei por quê, quando acordei fui logo telefonar-vos, mas ninguém atendeu e eu, então, agarrei na bicicleta e fui a vossa casa. E agora imaginem quando chego lá e vejo a porta de casa aberta e sinto aquele cheiro, e depois entro por ali dentro e vejo aquilo tudo preto, tudo queimado, o que é que eu havia de pensar?”
“Mãe, mãe, olha” interrompeu-o o Daniel, “é a nossa casa!”.
A televisão estava ligada e estava a dar as notícias do meio-dia.
“Olha, e aquele sou eu”, disse o Aage.
“Quer dizer que, quando tu chegaste, já lá estavam os gajos da televisão?”
“Pois estavam, já lá estavam... Aliás, só lá estavam eles, mais ninguém. E eu, completamente em pânico, só lhes perguntava o que é que tinha acontecido, o que é que tinha causado aquilo, e eles olhavam para mim como se eu estivesse maluquinho, como se fosse alguma pergunta descabida, e a única coisa que um deles se dignou responder-me foi: 'Ainda não sabemos, o nosso colega já há-de vir aí com mais informação'. Mas eu é que não estive para esperar pelo colega deles, vim logo para aqui a correr...”
“Eh, pá, porra”, enraiveci-me-me eu, “os gajos não têm o direito de entrar assim dentro de nossa casa e começar a filmar sem nossa autorização!” A minha vontade, nesse momento, era não deixar ficar assim as coisas e queixar-me do abuso a quem de direito. Mas decidi depressa que não era a altura mais apropriada da minha vida para meter em tribunal um canal de televisão. O Aage saíu logo a seguir, tão perturbado como tinha chegado, e ficámos ali os cinco, de novo em família. Acho que (tirando a Felicia, é claro, que dormia o sonho distante dos recém‑nascidos) estávamos todos um pouco tristes por nos ter ardido a casa, mas, por outro lado, muito, muito contentes de ainda nos termos todos uns aos outros.
Quando as pessoas, mais tarde nos diziam que devíamos, com certeza, ter sofrido um grande choque, nós explicávamos que qual o quê, tínhamos lá tido tempo para isso... Nem para isso nem para devaneios filosóficos sobre a instabilidade da nossa condição de viventes, por mais que eles se justificassem... Tratava-se antes de fazer um voo bem mais raso de reconhecimento sobre a zona acidentada de nós, para poder passar de imediato à acção. Foi preciso arranjar casa, comprar roupa e todos os artigos de mais imediata necessidade, e isto numa altura em que, ainda por cima, a Rikke, depois de voltar a casa com a Felicia, continuava medicada e proibida de fazer quaisquer esforços e em que eu não podia, de forma alguma, meter uns dias no trabalho... Ora, com a vossa licença, salto uns meses de confusão, que não deixam nada a esta história, e continuo na altura de passarmos em revista, eu e a Rikke, os bens declarados irrecuperáveis e negociar com o homem da companhia de seguros a quantia que nos caberia receber por cada um.
Isto foi nos armazéns de uma companhia especializada neste tipo de acidentes, que tinha esvaziado a casa logo a seguir ao incêndio e recuperado depois o que podia ser recuperado. Além de dezenas de restos encardidos pelo fumo de móveis e electrodomésticos, havia oitenta caixas de cartão de um quarto de metro cúbico cada uma, com roupa, livros e objectos de toda a espécie, também eles enegrecidos e impregnados do cheiro indelével do incêndio.
“Se houver coisas em que tenham muita estimação, podem levá-las”, disse-nos o homem dos seguros. “Eu pago-vo-las na mesma, não se preocupem. Mas aconselho-vos a levarem o menos possível . Quer dizer, pode haver uma ou outra coisa que seja recuperável, mas estes tipos aqui têm muita experiência disto e o que eles consideram irrecuperável, em princípio, é mesmo irrecuperável. Mesmo que não cheire muito mal agora, aqui no armazém, volta a ganhar o mesmo cheiro horrível depois de algum tempo no calor da casa.”
Eu, na minha cabeça, já tinha dito adeus àquilo tudo. Muito budistamente, tinha-me repetido a mim próprio centenas de vezes que o desprendimento é um dos passos indispensáveis para se minorar o sofrimento que a vida é, e que, de qualquer maneira, devia encarar esta perda como uma lição apenas. Talvez não uma lição de vida, mas antes uma lição de morte: conservar os restos materiais da vida passada é só adiar desesperadamente a perda derradeira perante a qual deixa de fazer sentido ter-se guardado seja lá o que for; vale mais, então, aprender em plena vida a lidar com essa definitiva separação. Está bem, mas é que custa a uma criatura vulgar como eu, estupidamente presa à roda das coisas, burguês dos quatro costados e que apregoa, ademais, o valor de o ser, dizer adeus a tudo o que foi coleccionando pela vida fora! “Que livros levaria para uma ilha deserta? E que discos? E que outros objectos de estimação?” Não sei... Mas sei quais foram os que, seguindo a disposição daquele momento e avaliando, além do valor que tinham para mim, a dificuldade de os reaver e a possibilidade de os recuperar, trouxe do depósito da SGG: Lua d’Alén-Mar, o livro de poemas que Ernesto Guerra da Cal viu, aos 47 anos, finalmente publicado; a banda sonora do filme Lucky Man, de Alan Price, em vinil, que não sabia se estava em condições de tocar ou não, mas que, a estar utilizável, havia de pedir a um amigo para me digitalizar, porque não tinha sido reeditado em CD; e uma faca da Lapónia, com baínha de couro e cabo trabalhado de osso de rena, que recebi uma vez de prenda de Natal, no Norte muito norte da Suécia.
“Um dia, quando o incêndio deixar de ser uma má recordação e for já só um episódio curioso de um passado demasiado distante para te pesar, ainda hás-de pensar assim: Que sorte tivemos em o miúdo ter pegado fogo à casa!” Ao fim de cinco meses, o apartamento estava completamente renovado e todo pintadinho de novo, e com instalação eléctrica nova, chão novo, cozinha nova, janelas novas! Convidámos os vizinhos todos do prédio para uma festa de “re-aquecimento” que tinha ficado prometida logo desde o dia do incêndio.
Como os meus CDs foram das poucas coisas que se salvaram do incêndio, e eu gosto muito de fazer compilações, fiz, com temas da minha discoteca, um CD temático para oferecer aos convidados. O CD incluía coisas como o “Fire” do Arthur Brown, o “Love goes to a building on fire” e “Burning down the house” dos Talking Heads, o “Baby’s on fire”, do Brian Eno, e muitas outras canções sobre fogo e fogos.
Foi quando fiz esse CD que me dei conta de um misteriosíssimo desaparecimento. Queria incluir na compilação a canção dos Rádio Macau que dá o título a este texto, mas ela tinha-se evaporado. Não me percebam mal: não é que tivesse desaparecido o disco com a canção, mas tinha sido antes a própria canção a desaparecer. Se estão lembrados, “Mais uma canção sobre edifícios a arder” era a sétima de nove canções do primeiro disco dos Rádio Macau. Só que o meu disco tinha agora apenas os outros oito títulos. Se fosse uma cópia, podia pensar que me tinha esquecido de copiar essa faixa. Mas não, era um CD original. Defeito de fabrico? Talvez... Mas eu tinha a certeza de ter ouvido já várias vezes a canção... “Não pode ser”, pensei eu, “as nossas certezas não são de fiar e a canção nunca pode ter lá estado no CD...”. Que se lixasse! Tinha outra versão da cantiga, a nova versão do disco bónus do best ofA vida num só dia, punha antes essa na compilação... Mas não, também essa tinha desaparecido: a “Entre a espada e a parede” seguia-se o remix de “O anzol”.
Estranho, não vos parece? Bom, é claro que há muitas cantigas que desaparecem, e algumas também assim de repente, mas é porque se esgotam, sei lá, ou porque deixam de caber no gosto das novas épocas... É outro tipo de desaparecimento, e é um desaparecimento que, aliás, em muitos casos, nem o chega a ser: normalmente, essas cantigas desaparecidas ficam só esquecidas num limbo qualquer, espectrais, expectantes, se calhar (quem sabe o que vai na alma de uma cantiga?), até que um dia outra época as ressuscite, como obras-primas do passado, como exemplo risível do mau gosto que um dia houve, ou como documento apenas, ou curiosidade, de um estádio da história da canção. Passar-se-ia agora o mesmo? Retomaria algum dia a canção desaparecida o seu lugar no alinhamento original do disco? Custava-me a acreditar.
O que é que se teria realmente passado? A única explicação que na altura consegui encontrar – e que mais tarde decidi abandonar, por pouco racional – é que haja cantigas que resistam pior que outras a temperaturas elevadas.
Agora:
1. Dizem-me fontes parece que bem informadas que se podia ler, no original dactilografado da letra de “Mais uma canção sobre edifícios a arder”, uma referência a Brian Eno e aos Talking Heads. Posso, só meio a propósito, acrescentar que li algures uma entrevista com o David Byrne, em que ele explica que “Burning down the house” era o grito de guerra do público dos concertos dos Parliament/Funkadelic, de que Byrne e Cia. eram assíduos frequentadores.
2. Fogo posto involuntariamente por uma criança é a segunda causa de incêndio em Copenhaga. Acontece muitas vezes que a criança que ateia o fogo, sentindo‑se culpada e com medo de vir a ser punida, se vai esconder e não sai do seu esconderijo, nem quando os pais ou os bombeiros a chamam, acabando por morrer queimada.
3. Não sei se estarão recordados de que no segundo disco dos Rádio Macau há uma citação de um poema do tal livro de Ernesto Guerra da Cal que, mesmo todo chamuscado, eu não quis abandonar. Em epígrafe à letra de uma canção que não me lembro já qual é, pode ler-se: “Isto foi pola outa noite./ A lua xá se metera./ O xornal da manhán dixo/ que o meu coraçón morrera.
4. Caso não tenham reparado, este texto é um exercício de re-escrita da canção com o mesmo título, a cujas 72 palavras acrescentei mais 2975. É isso que explica, pelo menos em parte, o carácter forçado de algumas passagens.
5. Quem quiser e souber, pode substituir os nomes das personagens desta narrativa pelos nomes da minha mulher e dos meus filhos, para ter uma história mais verídica – e aproveite para mandar fora, se for mesmo a verdade dos factos que lhe interesse, a componente fantástica que eu não consigo deixar de incluir nos meus contos…
RÁDIO MACAU, "MAIS UMA CANÇÃO SOBRE EDIFÍCIOS A ARDER", 1984
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Conheço aqui pouca gente e há conversas que não tenho com quem ter. Aqui fica metade dessas conversas. Não querem contribuir com a metade que falta? [Foto da Travessa do Fala-Só de Rodrigo Cortez]
Quem se interessar pelo português falado em Moçambique pode visitar um faz-de-conta-que-blogue que eu fiz, que é, de facto, um glossário de moçambicanismos.
Aqui fica um endereço de e-mail, para o caso de alguém querer comentar ou discutir alguma coisa do que eu para aqui vou escrevendo:
A disposição das imagens está calculada para um ecrã de computador. A maior parte das páginas do blogue vêem-se e lêem-se mal nos formato de tablet ou telemóvel. Aconselho, por isso, que, para ler as páginas do blogue em tablets ou telefones, escolha a opção «Ver a versão da Web».
Gralhas, há muitas. Está visto que não sirvo para revisor, e muito menos dos meus próprios textos... Um pedido, então, à malta amiga que por aqui passar: deixem-me correcções nos comentários, sim?
Já agora, peço também que me digam, se encontrarem links que tenham deixado de funcionar. Antigamente, fazia uma revisão regular dos links, mas agora a Travessa tem muitos textos e muito texto, e uma revisão dessas demora mais tempo do que aquele que normalmente tenho para dedicar ao blogue.
Ah, a propósito de links: Como todos os textos têm uma data de publicação, acho desnecessário estar a escrever em cada link a data de acesso – assumo que a data de todos eles é a data de publicação do post onde eles vêm.
E muito obrigado!
A partir de agosto de 2011, passo a escrever com a nova ortografia.
Papa-unescos (XXIX)
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Vilnius (Lituânia), Março de 2026
(57) Centro Histórico de Vilnius (Lituânia)
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qu...
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