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13/07/17

A tentativa de convencer e a colonização do outro

Um dia destes, houve alguém que se retirou de uma discussão que estava a ter comigo (devo ter sido assertivo demais, se é que não fui mesmo bruto) com uma citação que dizia ser de Saramago:
«Aprendi a não tentar convencer ninguém. O trabalho de convencer é uma falta de respeito, é uma tentativa de colonização do outro.» 
Não consegui confirmar se a frase é mesmo de Saramago, mas pode bem ser. Pelo menos, é citada por muita gente como sendo dele. Mas também não importa: não são as ideias de Saramago que quero discutir, até porque as não conheço, mas a ideia expressa nesta frase, seja ela de quem for.

No geral, discordo completamente da ideia de que não se deve tentar convencer ninguém. Não querer convencer o outro implica sempre não dizer o que se pensa — ou dizer o que se pensa, mas recusar-se à sua discussão com os outros, que é apenas outra forma de não dizer o que se pensa.

[Note-se que escrevi «recusar-se à sua discussão com os outros». O discutir consigo próprio é um processo que não pode ser visado na crítica de «falta de respeito» ou «colonização do outro», pelo que o ignoro nesta discussão.]
É que não há, como é óbvio, maneira de discutir tentando não convencer a pessoa com quem se discute, porque o que se faz ao defender uma posição é sempre justificá-la, isto é, tentar convencer o outro da validade dos pressupostos ou observáveis em que essa posição se baseia. É o que estou a fazer agora aqui: tentar convencer quem me leia de que tenho razão. Ora, não fazer nenhum esforço para tentar convencer o outro da validade da nossa opinião acaba por ser sempre sinónimo de não dizer o que pensamos, porque o omitimos na justificação da nossa opinião. Não tentar convencer o outro é, assim, uma recusa de exprimir aquilo em que se acredita.

Não tentar convencer o outro é também uma atitude de egoísmo e/ou desprezo: é ignorar o outro, excluí-lo do que cremos ser a verdade — e, portanto, do que cremos ser o bem. Se se pensa estar na posse de uma verdade, seja ela qual for, que boa razão pode haver para a guardar para si e deixar os outros no que se acredita ser a mentira ou a ignorância?

*** 
É claro, toda a verdade é falível e é preciso ter consciência disso. Aliás, por mais profundamente convencidos que estejamos do valor de verdade das nossas opiniões, não podemos derivar desse valor de verdade em que cremos o direito de impor seja o que for a quem não queira partilhar a nossa convicção. Por outras palavras, o eventual valor de verdade de um postulado não lhe dá superioridade moral. A descrição de como é o universo, incluindo a psique humana e as relações sociais, não serve de justificação a uma proposta de como devem ser as relações entre pessoas. Uma crença não pode nunca justificar imposições de práticas ou ordens sociais.

Creio que é este o problema essencial do aforismo em discussão: uma lamentável confusão entre imposição e tentativa de convencimento. Da imposição pode dizer-se que é uma falta de respeito. A colonização, no sentido literal, é uma imposição, não uma tentativa de convencimento. Por isso mesmo, justifica-se o seu uso metafórico relativamente à imposição, mas não parece correto neste aforismo.

Em vez de falta de respeito, tentar convencer o outro é antes uma prova — a única possível? – de respeito. Sendo a única possibilidade em qualquer discussão racional, é o dever de quem considera que os outros estão ao mesmo nível na discussão. Implica, ou deveria implicar, que as opiniões se baseiam em algo suficientemente objetivo para ser exterior a cada um e estar ao alcance de todos.

[É de notar que as tentativas de convencimento não se fazem no vazio: têm agarradas a elas condições económicas, sociais, relações de poder várias, etc. Aceitamos com menos reservas as propostas de pessoas a quem atribuímos algum tipo de estatuto superior – ou a quem a sociedade atribua um estatuto superior. Se tivermos em conta também formas de imposição mais subtis que a imposição pela lei e pela força, podemos considerar que uma grande aprovação social, a sedução, ou a força da autoridade intelectual ou espiritual resultam em formas indiretas de imposição, mais que de verdadeiro convencimento. Isto é algo a ter em conta na análise da transmissão de convicções, mas, note-se, não afeta em nada o argumento de que se pode e deve tentar convencer.]
Além disso, não querer convencer implica – a não ser que se aceitem assimetrias nas relações – não querer ser convencido!... Ou seja, não querer convencer redunda, bem vistas as coisas, no louvor do dogma. O conhecimento não evolui, nunca evoluiu, sem que haja alguém a convencer e a alguém a ser convencido...

Por mim, gostava de convencer toda a gente da necessidade de discutirmos tudo, de não ignorarmos ninguém, de tentarmos sempre convencer os outros da nossa verdade até haver quem nos convença de que essa verdade afinal não o é. O que dirá Saramago sobre reconhecer que o outro tem razão?

19/06/15

Ao correr do teclado, sobre investigadores e investigações

Tenho andado a re/ver no YouTube algumas aulas e conversas de Richard Feynman, que é alguém que vale sempre a pena ouvir: grande capacidade de comunicação, grande poder de síntese, exemplos sempre à mão e muitos conhecimentos e ideias interessantes. Um dos vídeos que primeiro me chamou a atenção é de uma aula na Universidade de Cornell em 1964. Feynman fez aí uma descrição do trabalho de procura de uma lei científica que ficou famosa, ao que percebo, e que foi depois publicada em livro:
Em geral, procura-se uma nova lei pelo seguinte processo: começamos com uma conjetura; depois, calculamos as consequências dessa conjetura para vermos as implicações da lei, se estivesse correta; depois ainda, comparamos o resultado do cálculo com a Natureza por meio da experiência ou da experimentação. A comparação é efetuada diretamente com as observações para vermos se a lei funciona. Se não concordar com a experiência, está errada. Nesta simples afirmação reside a chave da ciência. Não importa a beleza da nossa suposição. Não importa a nossa inteligência ou a reputação de quem fez a conjetura − se a lei não concordar com a experiência está errada. E é tudo[1].
Tomando a expressão lei científica em sentido lato, referindo-se, sei lá...,  tanto às leis da termodinâmica como à aquisição da pronúncia da língua materna, poderia dizer-se que, neste resumo, Feynman descreve de facto todo o processo científico; mas seria uma grande injustiça para todos os que, pacientemente, vão apenas recolhendo informação, sem por isso proporem quaisquer leis. É essencial em ciência o papel das bases de dados (não forçosamente no sentido informático da expressão, claro), ou seja, do conjunto de descrições da realidade que nos permitem, precisamente, aferir a validade de qualquer lei ou teoria.

Como interagem a formulação de hipóteses e os dados recolhidos é uma questão interessante. No outro dia, comprei em segunda mão uma edição ilustrada das quatro novelas de Sherlock Holmes. Nunca tinha lido nenhuma história de Sherlock Holmes, vejam lá. Tinha lido coisas de Conan Doyle e até já falei aqui dele, mas não eram aventuras de Sherlock Holmes. Na primeira novela, o célebre investigador adverte para o perigo de formular hipóteses antes de ter recolhido os dados. Diz ele (e traduzo eu):
É um erro enorme teorizar antes de ter os indícios todos. Faz-nos ser tendenciosos.[2]
Descobri depois, na Wikipédia, que Holmes repete a mesma ideia em As aventuras de Sherlock Holmes:
É um erro enorme teorizar antes de ter dados. Sem o sentir, uma pessoa começa a distorcer os factos para os fazer corresponder às teorias, em vez de fazer teorias que correspondam aos factos.[3]
Exame do crânio de Piltdown. John Cooke, 1915 (de Wikimedia Commons)
Na história verídica do Homem de Piltdown juntam-se a aventura de detetives e a investigação científica
(e talvez também Conan Doyle, mas isso é só uma conjetura… 
O trabalho do detetive é basicamente o mesmo que o do cientista e de quem quer que procure a verdade com base em observações que podem ser feitas por toda a gente. Pode pensar-se, talvez, que as conclusões da investigação criminal costumam ser mais definitivas (descobre-se o culpado, pronto) que as da Química, da Linguística ou da História, por exemplo, que são mais passíveis de posterior revisão, para serem aperfeiçoadas ou substituídas por novas conclusões. Mas, mesmo na investigação criminal, também não há verdades definitivas, como no-lo mostram os muitos casos em que se revela, às vezes muitos anos depois, que o condenado não era afinal culpado. Em qualquer tipo de investigação, é fundamental a honestidade do investigador, antes de mais consigo mesmo – tentar sempre pôr em causa os seus sentidos e toda a classe de sentimentos. Deve observar-se, digamos assim, uma rigorosa ética de renúncia ao eu, um pouco como a propõem alguns místicos de várias religiões.

Dito isto, e por fundamentados que sejam os receios de Sherlock Holmes relativamente à tendência de confirmar na observação aquilo em que se acredita à partida, é importante realçar que o controlo da validade das conclusões de uma investigação não é apenas pessoal, interior: vai haver (devia sempre haver…) outras pessoas a julgar as provas e as deduções do detetive e do historiador, e a refazer os cálculos e as experiências do cientista, e é assim que se certifica que os dados não foram escolhidos a dedo ou torturados até dizerem o que o investigador queria que eles dissessem.

Se continuarmos a seguir a aula de Feynman atrás referida, vemos que não é qualquer palpite que serve de ponto de partida ao trabalho científico, mas que deverá ser, é claro, uma conjetura abalizada[4]. Não basta “montar um grande computador com uma roda que faz uma sucessão de conjeturas” ao acaso e testá-las todas, quanto mais melhor. Quer dizer, se não forem possibilidades realmente intestáveis e que, por isso, não podem aspirar ao estatuto de observáveis, sobre, por exemplo, o que sentiram os americanos originais quando viram chegar os primeiros europeus, a reprodução das sereias ou a alma das nações, podem de facto verificar-se até hipóteses mesmo muito disparatadas, mas não há razão nenhuma para se gastar tempo e dinheiro para o boneco (a não ser em casos em que se pretende justamente desmantelar uma hipótese disparatada que alguém insista em considerar “um facto”, como certos postulados das pseudociências...).

Fazer uma boa conjetura é, pois, uma parte importante do trabalho. Tão importante que, se a hipótese for boa, recorda-nos Priyamvada Natarajan numa conversa recente no site Edge, ninguém passa a considerar menos o seu autor quando ela se revela falsa. A beleza da ciência, diz ela, é poder provar-se que uma pessoa tem ou não razão. Uma das belezas, sem dúvida. Outra é essa de ninguém perder valor por não ter razão, se tiver feito devidamente o seu trabalho. Notem que não é de modo nenhum de astrofísica que aqui se trata, até porque não é assunto sobre o qual me sinta com capacidade de escrever seja lá o que for, pelo que salto a explicação das teorias que ela descreve e que poderão conhecer, se for do vosso interesse, seguindo a link atrás. Notem também como este processo segue rigorosamente a descrição de Feynman: há um fenómeno que não se sabe explicar, pelo que é necessário uma lei nova; aventa-se uma proposta de explicação; calculam-se as consequências que essa lei teria, a ser verdadeira; e verifica-se se essas consequências se observam ou não na realidade. Traduzo eu:
Propusemos [a] ideia dos Buracos Negros de Colapso Direto que são muito maciços e se formam muito cedo no universo […]. Claro, há consequências da formação de buracos negros, ou de uma população deles, desta maneira, em vez de ser por meio de estrelas. A principal previsão deste cenário é que se devem ver quasares muito brilhantes muito mais cedo no universo […] É uma previsão que será testada pelo Telescópio Espacial James Webb, que esperamos que seja inaugurado em 2018.

Vai ser muito emocionante provar-se se temos razão ou não. É essa a beleza da ciência. Uma pessoa poder sentar-se no seu escritoriozinho em New Haven e fazer um cálculo que uma comunidade leva suficientemente a sério para o testar, e é fantástico que o façam num prazo de dez, quinze anos […]. É claro, seria bom ter razão.

A questão de se provar várias vezes que uma pessoa está errada e essa pessoa ser, ainda assim, uma cientista respeitada é uma excelente questão. Tem havido muitos casos em que houve grandes espíritos que propuseram ideias fortes, muitas das quais se tem provado que estão erradas, e eles são considerados, ainda assim, os mais brilhantes astrofísicos.
Eu sei o que estão a pensar: que este tipo de reconhecimento não é de modo algum exclusivo da ciência, que há muito quem continue a ser admirado depois de se provar que não tinha razão – e não só por familiares e amigos. É certo. Quando, porém, se trata de formas de “conhecimento” não sujeitas à confrontação com a observação e ao escrutínio de outros especialistas, sejam elas religiosas, pseudofilosóficas ou pseudocientíficas, o mais normal é nunca se provar que alguém não tem razão, simplesmente porque não há nada a provar, é tudo só uma questão de crer[4]...
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[1] Richard Feynman, O que é uma Lei Física, Lisboa: Gradiva, 1989. Tradução de Carlos Fiolhais. No vídeo da aula de Feynman de que é tirado o texto,os alunos riem-se quando ele diz “First, you guess”, o que não aconteceria, penso eu, se alguém dissesse, em português, “começamos com uma conjetura”. Isto tem a ver com o leque mais amplo de significados da palavra guess, mas não me parece que a tradução seja incorreta, parece-me até muito acertada.
[2] “A Study in Scarlet” in Sherlock Holmes, The Complete Illustrated Novels, Londres: Bounty Books, 2005: “It is a capital mistake to theorize before you have all the evidence. It biases the judgment.”
[3] “A Scandal in Bohemia”, in The Adventures of Sherlock Holmes, Londres: George Newnes, 1892: “It is a capital mistake to theorize before one has data. Insensibly one begins to twist facts to suit theories, instead of theories to suit facts.” Uma coisa que me veio logo à cabeça, quando li estas sentenças de Sherlock Holmes (não me atrevo a sugerir que se deve ler nas afirmações do investigador a opinião do seu autor…), foi que, em abstrato, pode também pensar-se exatamente o contrário: que basear-se sempre em dados previamente recolhidos pode influenciar a formulação da hipótese, limitando-a. Por cercear a imaginação, digamos assim. É-me difícil, porém, pensar em exemplos concretos dessa possível limitação.
[4] E depois, mas isso é outra história, há os casos de vários guias espirituais de todo o tipo que, depois de serem desmascaradas as suas fraudes ou as enormes incoerências entre o que pregam e o que fazem, não perdem a legião de discípulos e admiradores – os discípulos não reconhecem que o seu mentor espiritual estava errado, nem sequer, muitas vezes, aceitam as críticas que lhe fazem, sobretudo porque, se o fizessem, teriam de aceitar o seu próprio equívoco… Como me sugeriu j.j.amarante, esta referência a guias espirituais deve também incluir políticos.

12/02/15

Não saber

Dizia alguém no outro dia (já não me lembro quem, peço desculpa) que é raro assumir-se a ignorância no espaço público, que ninguém quer dizer que não sabe, mesmo quando é óbvio que é esse o caso. Não sei se é bem assim. Também não faço ideia se a assunção da ignorância é mais rara no espaço público que em privado. É curioso: dou-me conta de que a frase “não sei se é bem assim” não é normalmente uma simples declaração de ignorância, que era o que eu aqui queria fazer, mas antes um desacordo cortês ou moderado, correspondendo a algo como “creio que não é bem assim”…

Sublinha-se muitas vezes, e com toda a justeza, que a assunção da ignorância, nem que só perante si próprio, é uma posição cognitivamente válida, e umas das mais válidas até, porque é o ponto de partida para o inquérito e, portanto, para a expansão do conhecimento: se não assumir que não sei, não vou estar disposto a aprender. Mas não só: a assunção da ignorância pode valorizar-se também como posição puramente negativa de racionalidade, arrumação da vida e modéstia, que não leva forçosamente à procura de conhecimento: “Isto não sei e não vou saber, porque não é o que mais me interessa e não tenho tempo para procurar saber tudo – deixo isto a quem saiba ou queira saber desta questão.”

Uma questão relacionada com esta é a dos resultados negativos, seja na investigação científica seja em qualquer outro tipo de pesquisa: “Pensei que podia ser isto, mas não é; depois, pensei que podia ser antes isto, mas também não é… Não sei o que poderá ser.” Muitas vezes, estes resultados não se aceitam, pura e simplesmente, e são outras vezes olhados de soslaio: “Então?” Mas eu acho que se devem aceitar os resultados nulos de qualquer investigação como tendo exatamente o mesmo valor de qualquer conclusão positiva, até porque os resultados nulos não são nulos em sentido estrito – saber que não é o que se pensou que pudesse ser já é saber muito. [Ah, apesar dos preconceitos contra os resultados negativos, existem algumas revistas especializadas na publicação de resultados negativos, como o Journal of Negative Results e outros.]