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01/07/26

Dois apontamentos sobre comida tradicional – história, cultura e gastronomia


Como é que uma comida se torna tradicional? 

A ideia de que a cultura material de um povo é, se não completamente determinada, pelo menos grandemente influenciada pelas condições naturais dos lugares que esse povo habita é tão sensata que é difícil pô la em causa. É interessante constatar, porém, que às vezes se observam certos fenómenos culturais, certas tradições, que parecem tão a contrapelo dessa lógica que uma pessoa se sente baralhada com o seu aparente desarrazoado.   

Três exemplos que me vêm imediatamente à cabeça, da área da gastronomia: Se os pratos típicos de uma região se vão desenvolvendo a partir dos ingredientes disponíveis nessa região (nativos ou importados, não importa, contanto que lá existam), porque é que as passas de uva são um produto indispensável nos lares dinamarqueses e de outros países do norte da Europa, e já de muito antes da moderna globalização culinária? E porque é que o maçapão de Lübeck é uma Indicação Geográfica Protegida, quando não há amendoeiras no norte da Alemanha? E porque é os portugueses consomem há tanto tempo tanto bacalhau, quando o importaram sempre quase todo? 

Parece-me muito provável que, algumas vezes, seja precisamente a raridade de um produto — importado, por ser inacessível localmente, e por isso consumido apenas pelas classes mais ricas — que o torna desejado e, por razões nem sempre fáceis de explicar em pormenor, que faz dele um produto necessário à «boa mesa», sobretudo quando passa a ser mais abordável para um maior grupo de pessoas. Creio que é isto que se passa com as passas e o massapão no norte da Europa.  

As passas de uva são consumidas há muito tempo no norte da Europa, principalmente em bolos e inicialmente como especiaria. Foram, durante muito tempo, uma das poucas fontes de açúcar que havia — um produto de luxo reservado à nobreza e algum clero. Depois, como marca de estatuto social, foram também adotadas pela burguesia e depois por toda a gente, à medida que se iam tornando mais acessíveis a todas as bolsas. [1]  

O maçapão de Lübeck tem uma história semelhante. Referido pela primeira vez nos registos da Guilda de Lübeck em 1530, o maçapão era um produto de luxo, com pretensas propriedades medicinais, que só podia ser fabricado e vendido pelos boticários. E, como produto de luxo que era, comia-se sobretudo nas festas dos ricos. Se o de Lübeck se tornou famoso, foi pela sua qualidade: a cidade era um grande centro comercial e era, por isso, possível assegurar aí o fornecimento de pasta de amêndoa, um produto importado do sul e cuja escassez fazia que, em muito outros sítios, o maçapão fosse quase só açúcar sem amêndoa. A partir do início do séc. XIX, com a abolição das corporações, o maçapão passou a ser produzido por pasteleiros e, poucas décadas depois, havia já várias fábricas de maçapão na cidade. O maçapão era agora mais barato, ao mesmo tempo que aumentava o poder de compra dos consumidores; e espalhou-se pelo norte da Europa. [2]    


Já a história do consumo de bacalhau em Portugal não é em nada semelhante. Não se trata, neste caso, de um produto de luxo que se tornou depois mais acessível a todos.  

Muito consumido em Portugal desde o séc. XVI, o bacalhau sempre foi comida do povo, uma situação que não era, aliás, exclusiva de Portugal: o bacalhau foi, durante séculos, um produto de consumo comum em toda a Europa, sobretudo entre as classes mais pobres. Dizem José Manuel Sobral e Patrícia Rodrigues no seu estudo O fiel amigo: o bacalhau e a identidade portuguesa :  

Cremos que a razão da [exaltação do bacalhau] em Portugal radica, em última instância, na celebração pelas classes populares rurais e urbanas de um alimento que enriqueceu uma dieta secular pobríssima feita de pão e de alguns vegetais ou toucinho. 

Agora, se nos séculos XV e XVI os portugueses iam pescar bacalhau no Atlântico Norte, entre o século XVI e fins dos séc. XIX o bacalhau era todo importado; e, mesmo quando a pesca nacional de bacalhau foi aumentando ao longo do século XX e Portugal chegou brevemente a ser, na década de 1950, o maior pescador mundial de bacalhau, continuou a importar-se cerca de um quarto do bacalhau consumido.  

Passados 70 anos, o bacalhau é de novo todo importado, como o foi durante séculos, e continuamos a ser de longe os maiores consumidores de bacalhau do mundo, como já somos pelo menos desde os anos 30 do século XX. Mas não só de bacalhau — de peixe em geral. Todos os dados que encontro sobre o consumo de peixe indicam que, se excetuarmos pequenos territórios insulares, Portugal é atualmente o maior consumidor de peixe per capita. E 80% do peixe que se come em Portugal é, como o bacalhau, importado. [3]  

Não vou desenvolver esta questão, por muito que ela seja interessante. O que me interessa aqui salientar é que não é preciso um produto existir num determinado sítio para fazer parte da gastronomia desse sítio. O preço é com certeza uma condicionante, mas mesmo um preço elevado não parece fazer excluir totalmente um produto que tenha passado a fazer parte de uma tradição — do que se considera normal. E, para isso, pode haver várias razões: por exemplo, pode ter-se tornado um produto alimentar de base por ter sido já considerado de elite ou, no extremo oposto, por ter sido a mais barata fonte de proteína para as classes populares — e talvez por muitas outras possíveis razões entre estes dois extremos… 

E o que é que se pode considerar tradicional?  

Conheci também há pouco tempo um brevíssimo ciclo de quatro canções de Leonard Bernstein , cujos textos são excertos de receitas de La Bonne Cuisine Française , um clássico de Emile Dumont, de 1889 . A receita de plum pudding de Dumont pede, como única gordura, sebo de rim de vaca, de que se devem retirar todas as peles e veios, e picar até ficar reduzido a pó fino. Acho que quem se proponha hoje seguir estas receitas substitui a gordura de rim de vaca por manteiga, não vos parece? Ou banha, vá que seja — ainda há bolos feitos com banha, mesmo industriais. Mas gordura de rim de vaca?

Se uma receita de fins do século XIX nos pode parecer exótica, mais exóticas nos podem parecer receitas mais antigas. Tive um livro chamado Notas de Cozinha , de Leonardo da Vinci, que me serviu de introdução à estranheza da gastronomia do passado. Como já não tenho o livro de notas de Leonardo da Vinci em português, traduzo uma receita d a versão em espanhol a que tenho acesso: 

Sopa de amêndoa 

Fervem-se alguns nabos tenros numa panela onde se pôs uma cabeça de ovelha cozida; depois, desfaz-se tudo com sal, pimenta e sementes de cominho, junta-se-lhes um ovo para ligar esta mistura e com ela fazem-se bolas e outras formas que se cobrem com migas de pão. No centro de cada uma destas bolas e formas coloca-se um testículo de borrego cozido. Põe-se tudo [a fritar] numa frigideira com óleo até ficar duro e castanho e serve-se.   

Leonardo da Vinci acrescenta que desconhece por que razão este «famoso prato milanês» é conhecido como sopa de amêndoas e eu também não faço ideia. Talvez amêndoas fosse um termo eufemístico para testículos. Mas o que me interessa aqui é o facto de ser um prato conhecido. Não se fica a saber quem o comia, é certo, e um problema destes livros de receitas antigos é darem conta apenas do que se comia nas casas dos ricos. Parece-me provável, até pelos ingredientes, que este prato não fosse comido apenas em banquetes de nobres, mas não sei… 

José Manuel Sobral e Patrícia Rodrigues notam, no texto atrás referido, que não há receitas de bacalhau no mais antigo livro de cozinha português, A Arte de Cozinha , de Domingos Rodriguez, de 1680, e esse reparo fez-me revisitar o livro, que eu já conhecia. Domingos Rodriguez foi cozinheiro do Conde de Vimioso e do rei Pedro II, de maneira que aqui não temos dúvidas de que é da cozinha dos ricos que se trata. Há, neste livro, muitas receitas que nos parecem hoje estranhíssimas, algumas com quantidades enormes de ovos, com muito açúcar e fruta em pratos de carne, etc. Deixo aqui uma, que escolhi porque Domingos Rodriguez a descreve como «um prato ordinário» (no sentido de «comum», nota-se, não no sentido pejorativo que muitas vezes tem hoje) e deixo aqui a grafia original, que lhe dá outro… sabor.  [4]   

Sopa de qualquer genero de aßado.  

Feito hum vintem de paõ em fatias, ponhaſe hũa cama dellas em hũa frigideira grande untada de manteiga, cubraõ-ſe de açucar, & de canella, & ſobre eſta cama ponhaſe outra da meſma ſorte, & por cima della hũa pequena de manteiga de vaca lavada, & açafraõ, deitem-lhe hum pouco de caldo de galinha, ou de carneiro, & deixe-ſe eſtofar de vagar em pouco lume; & logo tirandoſe fóra do lume, deitem-lhe huma duſia de ovos por cima (ou menos, conforme for a frigideira) com açucar, & canella : feito iſlo, tomeſe hũa tampa com lume, & ponha-ſe hũ pouco levantada ſobre a ſopa até que tome boa cor ; tirada da frigideira, & poſta no prato, ſe trinchará o aſſado, que podem fer galinhas, ou frangãos, ou põbos, ou perùs. Este he hum prato ordinario.

Chamou-me a atenção o surpreendente requinte técnico do «gratinado» com a tampa a arder colocada por sobre a frigideira. 

Mas não há dúvida de que o passado é um país distante. E as tradições, essas, não são na maioria muito antigas. Também na gastronomia. Quantos anos têm as receitas tradicionais portuguesas, francesas ou italianas que todos conhecemos hoje? De cada vez que me ponho a explorar a história de uma delas, descubro sempre que não são tão antigas como isso. [5]  

De maneira que insisto, espraiando a partir da gastronomia: não tentemos dar aos elementos que se dizem constituir uma identidade nacional um caráter trans-histórico que eles, de cada vez que se investiga, se verifica não terem. O que se come hoje em Portugal é muito mais parecido com o que come hoje na Dinamarca do que com o que se comia em Portugal há 500 anos. E o que se veste. E o que se pensa. Etc.  


Imagens:
[Muitos quilos de passas] Membros da União dos Cozinheiros preparando um plum-pudding gigante, xilogravura para o jornal The Illustrated London News de 3.1.1863, daqui
[Outros maçapães nórdicos] A fábrica de maçapão M. Zappa na Schloßplatz de Königsberg, atual Calininegrado. Carta postal, autor desconhecido, s.d. anterior a 1914. Bildarchiv Ostpreußen, daqui. 
[Terra nova e Labrador] Barco de pesca com bacalhau (e halibute pendurado), foto de N.B (?) Miller, s.d. (anterior a 1927), Biblioteca do Congresso dos EUA, daqui. 

____________________

Notas:

[1] Não encontrei nada específico sobre a história das passas de uva no norte da Europa, mas vários sites dizem o mesmo que esta página  ou esta página , por exemplo. Para uma cronologia da história das passas de uva, ver aqui .  

[2] Esta informação é tirada das páginas da Wikipédia sobre o massapão de Lübeck em três línguas diferentes, que se completam: as páginas   em francês, em alemão e em inglês . 

[3] Toda a informação sobre o bacalhau é tirada de duas fontes, que aconselho: o estudo de José Manuel Sobral e Patrícia Rodrigues O fiel amigo: o bacalhau e a identidade portuguesa (2013) e o episódio «Faina maior, a pesca do bacalhau»  (2015) da série televisiva História a História,  de Fernando Rosas, que inclui uma entrevista a um especialista da história do bacalhau, Álvaro Garrido. Para Informação sobre a importação de peixe, ver aqui ou aqui .

[4] A página em inglês do artigo da Wikipédia sobre Alfred Korzybski inclui um curioso episódio referido num jornal neerlandês, que eu traduzo: 

Um dia, Korzybski estava a dar uma aula e, de repente, interrompeu-a a aula para tirar da pasta um pacote de bolachas, embrulhado em papel branco. Disse que precisava mesmo de comer alguma coisa e perguntou aos alunos da primeira fila se também queriam uma bolachinha. Alguns estudantes aceitaram uma bolacha. «Boas bolachas, não acham?», perguntou Korzybski, e comeu mais uma. [..] Depois, rasgou o papel branco onde as bolachas estavam embrulhadas, mostrando a embalagem original. Via-se uma imagem de um focinho de cão e as palavras «bolachas para cães». Quando os alunos viram a embalagem, ficaram chocados. Dois deles sentiram vómitos, taparam a boca com as mãos e saíram da sala a correr. «Vejam», comentou Korzybski, «acabo de demonstrar que as pessoas não comem só comida, mas também palavras, e que às vezes conta mais o sabor das palavras que o sabor da comida.

Peço desculpa pela excursão, mas gosto muito desta história. 

[5] Como diz Luís Pontes no seu blogue, 

[a] ideia generalizada de que aquilo que comemos e a que se convencionou chamar «cozinha tradicional portuguesa» é um património que nos acompanha enquanto povo desde tempos imemoriais é um dos mais lamentáveis logros, que nos é vendido por uma certa «gastronomia» que, à falta da criatividade e reinvenção de que a Gastronomia é feita, nos impinge uma cozinha geralmente com meia dúzia de dezenas de anos (a cozinha de infância destes gastrónomos), que tem sido perpetuada numa visão museográfica da cozinha [...] .



12/02/21

As músicas e as nações

Com o aumento das quotas obrigatórias de música portuguesa na rádio, ressurgiu há pouco tempo a discussão dessas quotas. Não é isto, porém, que motiva este meu texto, cujo esboço foi iniciado, aliás, há quase cinco anos (!). Quero deixar claro que não tenho nada contra medidas de apoio aos músicos portugueses, e muito menos no atual contexto de pandemia. O que discuto neste texto, porém, tem um âmbito bem mais vasto que a questão das quotas de rádio. 

Tive várias vezes longas discussões com amigos meus que me diziam que era preciso «defender a música portuguesa». Esta ideia da «defesa da música portuguesa» – às vezes também chamada «a nossa música» – é suficientemente antiga para eu sempre a ter conhecido e é uma ideia que tem a força de ser comum a vários setores ideológicos e musicais. Mas é uma ideia que sempre me pareceu pouco clara ou, por vezes, bastante ilógica, assumindo pressupostos que, para mim, não são de modo algum evidentes. 

Uma interrogação que nos surge imediatamente quando começamos a refletir sobre este tema é porquê defender uma música e que música se deve defender? Satisfaz-me a resposta que cabe ao Estado defender os interesses dos seus cidadãos e que, por isso, o Estado deve defender a música feita por esses cidadãos — embora, como argumentarei mais à frente, nem sempre disso resulte a defesa de uma música que todos considerem portuguesa. Mas, aceitando essa primeira premissa, deve então defender-se toda a música de cidadãos portugueses da mesma maneira? A resposta depende, em grande medida, da ideia política de cada um, do papel que cada um atribui ao Estado na nivelação das assimetrias existentes. A resposta que me surge imediatamente é que se deve defender mais a música que mais precisa de ser defendida: a música de qualidade que não pode defender-se a si própria, porque, pelas suas características, não pode ser nunca suficientemente vendável para que dela alguém possa viver. É esse o critério que, nalguns países, leva à atribuição de subsídios a artistas — músicos, poetas ou outros — que trabalham em géneros artísticos não comerciais que se pretende preservar, porque se considera que, embora marginais, são uma parte importante da produção artística de um país. Evidentemente, estas decisões são também difíceis e às vezes polémicas — porque o grande público vê com maus olhos gastarem-se os dinheiros públicos em coisas de que o grande público não gosta nada; e porque é muito difícil arranjar critérios fiáveis e abrangentes para aferir a qualidade. Mas não é normalmente destas músicas que se fala quando se afirma que é preciso defender a música nacional… 

De que se fala então quando se fala de música portuguesa? Como dizia acima, a única definição que me parece aceitável é «música composta por indivíduos de nacionalidade portuguesa[1]». Há outras definições, assentes, por exemplo, não no autor mas sim na própria música, mas não vejo bem como se possa medir a portugalidade de uma música. 

Só não digo que os nomes maiores da música portuguesa promoveram música essencialmente estrangeira, porque não acredito que haja alguma música essencialmente nacional. Carlos Seixas é, dizem os entendidos, um compositor bastante à italiana; Bomtempo tinha em Haydn a sua principal influência e muitos críticos referem que Joly Braga Santos remete para Respighi e Vaughan Williams. Por exemplo… E podia, sem arriscar muito a que me acusassem de delírio, apontar o «estrangeirismo» de outros nomes maiores da música portuguesa. 

Se passarmos da música dita erudita à chamada música popular, a sua portugalidade não é mais fácil de definir. A canção dita ligeira têm óbvias influências estrangeiras. Que haverá de mais popular português que a música pimba que anima de norte a sul o povo português, em bailaricos de verão, patuscadas familiares e jornadas de trabalho? Ora, como outros estilos de canção ligeira anteriores a ele, o pimba e seus congéneres de grande público fizeram adaptações «portuguesas» de música estrangeira — a chamada música schlager internacional[2]. A canção dita «de texto» ou «de autor» tem também influências directas da canção de outros países, talvez sobretudo da canção francesa, como, aliás, os seus autores muitas vezes admitem. O pop-rock português, esse, é frequentemente criticado por ter como modelo a «música anglo-saxónica» (mais uma expressão muito difícil de definir com rigor). Há até dois esquemas clássicos de fado que se chamam o bolero do Machado e o bolero do Zé Inácio… Todos os géneros musicais têm, enfim, muitos modelos estrangeiros e isso é apenas natural: por que razão haveria um músico de recusar absorver o que é feito além-fronteiras? 

É claro que Luís de Freitas Branco tem as Suites Alentejanas Nº 1 e Nº 2, Braga Santos as Variações sobre um tema alentejano, que a música «tradicional rural» influencia também desde a canção ligeira até à canção de intervenção, que o fado de Coimbra é uma das principais influências dalguns dos primeiros e mais influentes cantautores, etc. Mas também a música «tradicional», rural ou urbana (um adjetivo como tradicional cobre coisas muitos diferentes, muitas delas bastante recentes, por tal sinal) é, como todas as outras músicas, o produto de músicas que vêm um pouco de toda a parte, desde a música de origem persa do Califado de Córdoba, provavelmente, até à música litúrgica ou às canções e músicas de dança que, mesmo antes de haver discos, circulavam já com relativa facilidade, por toda a Europa e não só. Toda a música dita tradicional é, pelo menos em parte, fusão de músicas diversas, das melodias às letras e às sonoridades, e vai-se sempre alterando num processo  dinâmico. 

E depois, músicas nacionais são também as músicas nacionalizadas, ou não? Para as pessoas da minha idade e da minha região, a música do canadiano Robert Farnon que abriu durante anos as emissões da RTP é uma música portuguesa, porque é a música da televisão portuguesa; e a música tradicional do Carnaval português... é o samba. 

Músicas puras, enfim, que reflitam de forma inequívoca e trans-histórica a «alma de um povo», desculpem, mas não sei quais sejam, porque essa ideia romântica não corresponde a nada de efetivamente observável. Mas, mesmo sem sabermos bem o que é música portuguesa, podemos voltar ao início da discussão para a concluir com uma constatação simples: se cabe ao Estado proteger os seus cidadãos e, por conseguinte, a música destes cidadãos, são todos os músicos portugueses vivos que o Estado deve proteger, antes de mais — componham ou não «música portuguesa» e em português, e — muito importante — toquem e cantem ou não música portuguesa e em português. Não se garantiria, ainda assim, a resolução do problema atrás referido (apoiar e proteger os que mais precisam de apoio e proteção, por serem menos comerciais), mas já se teria uma definição mais sensata de quem defender: não uma entidade bastante vaga chamada música portuguesa, mas os músicos de nacionalidade portuguesa, mesmo que componham música klezmer ou interpretem Motörhead ou Stravinski.

***

Das peças abaixo, quais refletem o património cultural português e as sonoridades e ambientes tradicionais portugueses? Quais se podem considerar música portuguesa? 

Simone de Oliveira, “Amor à portuguesa”, 1959  

Uma canção composta pelo espanhol Enrique Confiner em 1953. Além do original castelhano, tinham já sido gravadas versões em inglês, francês, alemão e italiano antes da versão portuguesa de Simone Oliveira. 

Iris Rautio:  “Benfica”, 1963  

Não sei nada desta canção finlandesa, mas não há dúvida de que fala de Portugal. Se fala de Benfica ou do Benfica, isso não sei, mas, como Iris Rautio era uma cantora pop conhecida, há de ter contribuído para divulgar Portugal na Finlândia, numa altura em que não havia provavelmente muitos finlandeses que viessem de férias a Portugal. 

Conjunto de João Paulo:  “Hully Gully do Montanhês”, 1965  

Não se trata de uma versão. É uma composição de Sérgio Borges e Carlos Alberto Gomes. Hully Gully não é uma expressão portuguesa, mas acho que se pode dizer que a letra é em português... 

Joly Braga Santos: Sinfonia Nº 6, 1972  

Não se trata de uma obra em português, embora tenha um texto de Camões — mas em castelhano… 

Constança Capdeville: Momento I, 1974  

Música bem portuguesa, esta, na autoria e na interpretação (do Grupo de Música Contemporânea de Lisboa, dirigido por Jorge Peixinho) 

Enza Pagliara:  “Pizzicarella”, 2002  

O folclore salentino tem, como outros tipos de folclore europeu, sonoridades semelhantes às de algum folclore português. Contribui para essa semelhança o uso do acordeão, um instrumento inventado na Alemanha há cerca de 200 anos, com base no sheng asiático, trazido para a Europa nos fins do séc. XVIII, que inspirou a criação de vários aerofones de palheta livre. 

César Viana: Land der Brüderlichkeit, 2020  

Land der Brüderlichkeit significa «terra da fraternidade». Trata-se de um «prelúdio coral», que, em vez de se basear num hino luterano, se baseia em “Grândola, vila morena” de José Afonso.



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[1] É claro, uma pessoa pode perguntar-se se a música de Thilo Krasmann era portuguesa antes de este músico ter obtido a cidadania portuguesa, mas deixemos agora essas picuinhices… 

[2] A música que em Portugal se chama pimba e os seus parentes próximos designam-se em várias línguas pela palavra alemã Schlager. Para dar apenas dois exemplos simples de schlager em português, o “Vinho verde” que é do meu Portugal e que faz seguramente parte da música portuguesa que alguns querem defender, é uma versão de uma canção alemã de Michael Kunze e Udo Jürgens, “Griechischer Wein”, de que há também versões pelo menos em croata, finlandês, neerlandês e polaco – e que alguns croatas, finlandeses, neerlandeses e polacos considerarão provavelmente, música sua; e os dois amores de Marco Paulo são uma versão de um tema do músico grego Giorgios Hatzinassisos... 


23/12/19

Feliz Natal

Como todos sabem, a tradição já não é o que era, sobretudo porque, de facto, já não era muito o que era quando ainda era aquilo que já não é... Além disso, o melhor ainda é cada qual arranjar a tradição que lhe convenha, se acaso lhe não convier a tradição que há. De maneira que, cá em casa, a tradição costuma ser peru no Natal, exceto nos Natais em que a tradição foi ganso e nos Natais em que a tradição foi pato, que também os houve. Nos anos em que a tradição foi peru, assou-se o peru no forno, coberto de bacon, a muito baixa temperatura (o dia todo), e aconteceu também acrescentarmos-lhe recheio de ameixas secas e maçãs, que fomos buscar ao primeiro ano em que a tradição foi ganso...

O nome inglês do peru diz que ele que vem da Turquia, mas, na realidade, é bicho originário da América do Norte, tendo sido domesticado mesmo no sul desta parte do mundo, na zona que é atualmente o México. Quanto ao nome português, há que compreender que Peru designava muitas vezes não o Peru atual, mas as colónias americanas de Espanha. Do nome francês, que o diz da Índia, também não se pode dizer que esteja incorreto, porque a América eram as Índias Ocidentais, não é verdade? Aliás, os canadianos francófonos também chamam ao milho trigo da Índia.

Foto: Paulo Guedes, sem data: Venda ambulante de perus na época do Natal, Largo de São Domingos, Lisboa (daqui)

Este ano, para variar, vamos introduzir uma tradição nova, um fiambre glaceado, ou seja, neste caso, barrado com uma mistura de mostarda de Dijon e mel e assado no forno a baixa temperatura, talvez com um bocadinho de calor forte no fim para caramelizar a superfície.

Tradição inalterável no Natal da nossa família, só o gelado caseiro à sobremesa – os sabores é que podem variar, entre chocolate, rum com passas ou caramelo com amêndoas. Bem veem, os nossos filhos tinham dois, quatro e seis anos quando fomos viver para Moçambique, de maneira que foram quentes os Natais mais importantes da vida deles. E nem o inverno dinamarquês lhes tira o gelado natalício.

A todos os leitores habituais do blogue, e também a quem venha por acaso aqui parar, desejo um Feliz Natal, com as iguarias que as tradições de cada um lhes ponham na mesa da consoada.

19/06/18

Um santo p'ra pular ou não e uma marcha de chacha... perdão, da chacha

Se há festa comum a toda a Europa (e a toda a América, mas disso não sei muito) é a festa do solstício de verão, conhecida em muitos países como festa de S. João. É sempre uma festa com fogueiras, mas os pormenores da festa, variam, é claro, de país para país. Por exemplo, na Estónia, Letónia, Hungria e Portugal, salta-se a fogueira, mas na Dinamarca, em França, em Itália e na Noruega não. Etc. (A página "Midsummer" da Wikipédia em inglês tem um resumo das diferentes tradições)

Em Portugal, não nos basta o equinócio e alargámos a festa para os lados – de 13 a 29, ele é fogueiras e folia por todo o lado... Como, felizmente, não posso estar presente, deixo aqui a minha modesta contribuição para os festejos dos Santos Populares: uma marcha que escrevi há uns 35 anos e que nunca chegou a ser musicada. Uma marcha com uma perspetiva mais abrangente que o habitual, já que, em vez de falar da especificidade de um bairro de Lisboa, fala de uma especificidade da malta de todos os bairros de todas as cidades, vilas e aldeias portuguesas (e não me levem nisto a sério, sim?).

Marcha da chacha

Passa meio mundo a vida
a dar a volta a outro meio,
qu’isto em questão de paleio
‘tá a gente bem servida;
Mas, com conversa fiada,
o problema é que, no fundo,
dá-se a volta a meio mundo
sem se dar a volta a nada.

‘Tá no espírito do povo
a converseta de chacha;
se aparece um grupo novo,
que graça que a gente lh’acha!
E se houvesse um mundial
do falar só por falar,
vinha o ouro e vinha a prata,
vinha o bronze e vinha a lata,
vinha tudo cá parar.

Quando se arma algum banzé,
quem tiver mais converseta
é que leva a bicicleta
– e o outro vai a pé.
Muito fala este povinho,
‘tá sempre, sempre na tanga;
depois vai queixar-se ao ganga
quando anda a falar sozinho.

E é assim esta gente:
a converseta é que é obra!
Só fica mesmo contente
a vender banha da cobra.
Pois então que viva a chacha,
mas òs’pois ninguém se queixe,
que s’o caso ‘stiver feio,
não se vai lá com paleio
– pela boca morre o peixe.

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Imagens:
Em cima: P. S. Krøyer: Fogueira de S. João na praia de Skagen (Sankt Hansblus på Skagen strand), 1906. Skagens Museum.
Em baixo: A. Roque Gameiro: A fogueira do santo (?), s. d., de uma coleção de fascículos, Portugal de algum dia, 1931 (?, ver aqui)
(A página "Marchas Populares de Lisboa", do blogue Histórias com História tem bonitas ilustrações de Stuart Carvalhais, Roque Gameiro e  Almada Negreiros, entre outros, relativas aos Santos Populares, )

13/04/14

Gækkebreve, as cartas da Páscoa [Crónicas de Svendborg #19]

Este texto é pouco mais que uma tradução (muito livre...) da entrada “Gækkebrev” da Wikipédia em dinamarquês. Como se pode chamar a uma tradução sobre uma tradição? Assim à primeira impressão, traduição não me soa lá muito bem…

As cartas da Páscoa são uma tradição dinamarquesa. Originalmente, as gækkebreve continham uma flor de Galanthus nivalis, vintergæk em dinamarquês, donde o seu nome (brev significa “carta”). São as crianças que fazem e mandam cartas da Páscoa. A carta é escrita em papel recortado com padrões simétricos e é enviada anonimamente, substituindo-se por um ponto cada letra do nome do remetente, que o destinatário deverá adivinhar. Se não adivinhar, tem de dar um ovo da Páscoa ao remetente, quando este se identificar. Na prática, porém, o destinatário da carta dá sempre um presente a quem lha enviou, adivinhe ou não. O texto da adivinha é em verso e pode ser apenas uma frase disparatada ou um pequeno poema.

Papel recortado para uma gækkebrev e o resultado final
As cartas da Páscoa têm origem numa tradição mais antiga, com origem no séc. XVII: as bindebrev eram uma forma de carta de amor, muito bem decorada, com recortes de papel e flores, em que o destinatário também tinha de adivinhar o nome do remetente. Às vezes, o número de letras do nome a adivinhar não era dado em pontos no texto, mas sim em nós num cordel, donde o nome (binde significa “atar”)

(As duas primeiras imagens são da Wikipédia e a terceira é de uma página do Museu de Odense em que se anuncia uma exposição de gækkebreve. Têm aqui uma amostra mais variada com uma busca de imagens em Google.)

14/09/13

A tradição nunca foi o que é

Já li várias entrevistas ao músico zimbabueano* Oliver Mtukudzi em que ele diz que, quando começou a usar instrumentos tradicionais nos seus álbuns, ao fim de uns 20 anos de carreira, o seu público reagiu mal. Mtukudzi é tão popular que se pode dizer que o seu público são todos os zimbabueanos. Provavelmente, os europeus imaginam os zimbabueanos a dançar e cantar com música de tambores e mbiras, mas o facto é, para eles, a música do seu ídolo Mtukudzi era e devia ser com guitarras elétricas, não com mbiras. Ao ir buscar instrumentos tradicionais, Mutukudzi estava, podemos dizer assim, a ir contra a tradição.

Lembro-me de discussões acesas: a música dos ranchos folclóricos portugueses, pelo menos na forma que lhes conhecemos hoje, pode considerar-se música tradicional? Então se os ranchos contribuíram, precisamente, para destruir a “verdadeira música tradicional”… Tradicional, tradicional… Tradicional de verdade e falso tradicional. O que é isso, tradicional? A verdade é que ninguém sabe bem o que é. Quantos anos é preciso uma coisa existir para se tornar tradicional? Ou há critérios mais importantes que o tempo para definir o que é – ou deve ser – tradição?

Isto de tradições tem, sem dúvida, muito que se lhe diga. Quando, em meados da década de 90, Duncan Brooker viajava pelos países da SADCC à procura de pérolas esquecidas do afro-funk africano dos anos 60 e 70 (algumas das quais havia de relançar mais tarde na Europa), as pessoas achavam estranho ele interessar-se por aquelas velharias: “isto é música velha, amigo. Porque é que você se interessa por isto? Isto não presta. Nós ouvimos Snoop Doggy Dogg.” Se o vendedor de discos recusava o velho afro-funk (que, já agora, não é nem mais nem menos tradicional que a pop africana, que nasceu nos anos 60 em Lagos ou Kinshasa inspirando-se de música latino-americana e que hoje se vende como sendo de inspiração… tradicional), não era por não ser “africano” ou “tradicional” ; era por não ser moderno! E como ele muitos africanos.

Tradição, tradição… Há que pensar na tradição de forma menos tradicional, se se pode dizer assim, como no-lo recorda Rita Dantas, num texto do seu muito aconselhável blogue Boas intenções (sublinho eu):
Há um texto muito interessante do Giddens que li há muitos anos onde ele desmontava uma grande parte das tradições ocidentais como invenções recentes (os kilts e os tartans escoceses por exemplo são filhos da revolução industrial) para dizer que isto não tem nada de extraordinário nem lhes retira legitimidade, apenas demonstra a forma como a maioria das tradições são criadas e como curiosamente são, tal como o próprio conceito de tradição, um produto da modernidade. Para lidar com o novo, inventamos o tradicional.
Procurei o texto de Giddens e encontrei este Runaway World, que reúne cinco palestras de Abril de 99 em diversos locais. Creio que é este o texto que Rita Dantas refere. Tem, pelo menos, o mesmíssimo teor. E quero acrescentar uma pequena passagem de Giddens que dá ênfase a esta ideia essencial de que a modernidade inventou a tradição para lidar com o novo (traduzo eu):
O termo «tradição», como é usado hoje, é na realidade um produto dos últimos 200 anos na Europa. (…) Na Idade Média, não havia uma noção genérica de tradição. Não era precisa tal palavra, precisamente porque a tradição e o costume estavam em todo o lado.
O Museu de Etnologia de Nampula tem coisas interessantes. Quero dizer, pelo menos tinha, já não vou lá há alguns anos. E uma das coisas interessantes que tinha era, precisamente, ter expostos muitos objetos – cestos, capulanas, pilões, colheres de pau, panelas de barro, etc., etc. – se encontram à venda em qualquer mercado da zona e existem em casa de toda a gente. Tradicionais é, pois, capaz de não ser a melhor palavra para os descrever…

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* Explico noutro texto da Travessa porque prefiro zimbabueano a zimbabuense. 

26/09/12

Filosofia de algibeira #3

Moral vem do latim moralis, relativo a mores; e alguns dicionários dizem que mores significa “costumes”, outros que significa “maneiras, comportamentos”. Seja lá como for, e por muito que influam sempre nos comportamentos, os costumes são maus argumentos morais, isto é, são maus argumentos quando se discute um código de comportamentos, o que é bem ou mal, o que se pode ou não fazer. Nem sequer é argumento, aliás, defender que algo se possa fazer ou se deva proibir porque é ou não é tradição fazê-lo – é antes uma falta de argumento, precisamente, uma injustificação.

Se estão certos os dicionários que dizem que a moral começou por ser relativa aos costumes, para ela deixar de ser algo indiscutível e podermos todos ter algo a dizer sobre as regras a que devemos obedecer (para que haja, em suma, uma moral democrática), podíamos então dizer que há que desetimologizar a moral: podemos achar que uma tradição é boa ou má, mas não a invoquemos como justificação do valor de uma proposta moral, sim?

20/04/12

Árvores de chuchas [Crónicas de Svendborg #11]

As árvores de chuchas são uma tradição dinamarquesa. Quer dizer, não sei (nem ninguém sabe, pois não?) que alcance e idade precisa um fenómeno de ter para se lhe poder chamar tradição, mas digamos assim, para simplificar.
Quando chega a altura de deixar de chuchar, faz-se uma pequena cerimónia e pendura-se a chucha numa árvore. Às vezes, juntam-se várias chuchas num saquinho, depende, e é comum escrever uma cartinha de despedida, que se pendura também na árvore: “Adeus, minha amiga, minha fiel companheira de tantos anos, chegou a altura de me separar de ti…”, qualquer coisa assim.
A Wikipedia em dinamarquês tem, claro está, uma entrada “Árvore de chuchas”, mas é a página alemã "Schnullerbaum" que tem mais informação sobre esta estranha fruteira. E diz, curiosamente, que a primeira árvore de chuchas conhecida surgiu nos anos 20 do século passado aqui mesmo ao lado, na ilha de Thurø. Olhem lá tantas árvores de chuchas!

Foto: Wikimedia Commons



15/10/09

Isso sim, maridinho!

Já terão visto, com certeza, que às vezes aparece “tradicional” no sítio onde devia estar o nome da autora ou do autor de uma composição. É esquisito, porque tradicional não é o nome de ninguém; e todas as composições têm uma autora ou um autor – forçosamente.

É verdade que agora já há muitas vezes mais rigor na referência da autoria e que se escreve às vezes “domínio público” ou “autor desconhecido”. Mas só a última possibilidade me satisfaz, porque do domínio público são todas as obras cujos direitos de autor tenham caducado, mesmo que se saiba quem as escreveu. Autor tradicional não há, portanto – há é autores desconhecidos.

A ideia de que uma obra de arte possa vir do povo como entidade abstracta é uma estapafúrdia ideia romântica que teve – e tem ainda – muita fortuna. Da mesma forma que os historiadores românticos explicavam a evolução histórica a partir de ideias metafísicas como a alma dos povos, também muitos intelectuais, e mesmo musicólogos, acreditaram na criação musical e lírica colectiva das obras tradicionais. “Grande poeta é o povo”, diz o provérbio, como poderia dizer “Grande compositor é o povo”. Mas é mentira*, além de ser uma falta de respeito por um certo tipo de autores: discute-se muitas vezes a autoria de muitas obras de “grande” música ou literatura, quando não se a pode dar por certa, porque uma obra assim tem de ter um autor; mas uma canção popular já não – pode ter sido construída por todos e por ninguém em particular… Não quero dizer com isto que a música dita “tradicional”, por não ser escrita, não esteja mais sujeita a contínuas alterações do que a música dita erudita. Mas alterações são sempre alterações a alguma coisa e por baixo das alterações há uma canção que uma pessoa concreta criou num determinado momento.

Agora, o que eu gostava de ter sido folclorista, na altura em que os havia a sério! E não só pelos queijos e pelos enchidos que vão sendo oferecidos aos misteriosos académicos de visita, que são com certeza uma das partes mais gratificantes da recolha folclórica, mas também pelo prazer do trabalho de detective que é. Surdo que sou para a música, teria é, claro, que me limitar ao trabalho com as letras, mas o fascínio da arqueologia lírica não é menor do que o da arqueologia musical. Ai, quem de dera, de gravador na mão, a acompanhar Ralph Vaughan Williams pelas charnecas da velha Albion à procura da versão original de “John Barleycorn”, provavelmente sob a forma de uma cerveja muito local…

Isto é tudo a propósito de ter encontrado algures na Internet** (ou seja, sem ter tido direito a queijo nem a enchidos…) duas versões alternativas da letra de uma canção “tradicional” que eu conheço e toda a gente conhece. Eis aqui as três versões da letra da canção. Começo pela que, com um ou outra variaçãozita no número de estrofes e sua na ordem, todos conhecemos e a que eu chamo aqui Versão A:

- Ó mulher, eu compro-te umas meias (bis).
- Isso, não, maridinho, isso não, isso não, / Que me faz as pernas feias. / Compra-me um litro de vinho, / Água fria faz-me mal, isso sim maridinho (bis).
- Ó mulher, eu compro-te umas chancas (bis).
- Isso, não, maridinho, isso não, isso não, / Que me faz as pernas mancas. / Compra-me um litro de vinho, etc.
- Ó mulher, eu compro-te umas botas (bis).
- Isso, não, maridinho, isso não, isso não, / Que me faz as pernas tortas. / Compra-me um litro de vinho, etc.
- Ó mulher, eu compro-te um burrinho (bis).
- Isso sim, maridinho, isso sim, isso sim, / Que dum lado vai o pão. / Doutro lado vai o vinho, / E eu também vou no burrinho. / Compra-me um litro, / Água fria faz-me mal, isso sim maridinho (bis).

E agora, as outras duas versões que eu encontrei, designadas aqui B e C:

Versão B:
- Oh mulher, eu comprava-te umas botas (bis)
- Isso não, maridinho não, / que me faz as pernas tortas; / bom frumento e bom vinho, / boa carne e melhor toucinho.
- Oh mulher, eu comprava-te uns sapatos (bis)
- Isso não, maridinho não, / que me faz andar aos saltos; / bom frumento e bom vinho, / boa carne e melhor toucinho.
- Oh mulher, eu comprava-te um burrinho (bis)
- Isso sim, maridinho sim, / que o burro leva o odre; / o odre leva o vinho, / boa carne e melhor toucinho.

Versão C:
- Oh mulher, oh mulher, / eu comprava-te umas botas.
- Isso não, marido não, / que me faz as pernas tortas. / Compra-me antes um vinhinho / p'ra regar o meu peitinho. / Tu sabes bem maridinho / que a água me faz bem mal.
- Oh mulher, oh mulher, / eu comprava-te uns sapatos.
- Isso não, marido não, / que me faz andar aos saltos. / Compra-me antes um vinhinho, etc.
- Oh mulher, oh mulher, / eu comprava-te um saiote.
- Isso não, marido não, / que fico como um pipote. / Compra-me antes um vinhinho, etc.
- Oh mulher, oh mulher, / eu comprava-te um gibão.
- Isso não, marido não, / que me oprime o coração./ Compra-me antes um vinhinho, etc.
- Oh mulher, oh mulher, / eu comprava-te um pente.
- Isso não, marido não, / que arranha a cabeça à gente./ Compra-me antes um vinhinho, etc..

Qual é a original, ou a mais antiga, e quais são as alterações posteriores? E qual é a liricamente mais rica ou mais original? É impossível dizer. Podemos constatar objectivamente que as várias versões têm de se cantar com melodias diferentes, mas o resto é muito uma questão de gosto. A versão mais conhecida tem uma coisa de que eu gosto, que é ter a estrofe-conclusão mais comprida do que as outras, o que obriga a melodia a marcar passo, mas que, por outro lado, a frase “bom frumento e bom vinho, boa carne e melhor toucinho” da versão B, é muito boa, como é boa também a frase “Tu sabes bem maridinho / que a água me faz bem mal”, da versão C, com o sofisticado jogo de bem e mal.

O que me parece (e foi por isso que aqui a trouxe) é que é uma canção surpreendente:

Há uma maneira, e uma maneira única, penso eu, de a fazer encaixar na mentalidade falocrata dominante (mais ainda na altura em que a canção foi escrita…): é considerar que a mulher bêbeda é um elemento humorístico da cultura machista, ao mesmo nível que o homossexual ou o marido atraiçoado – e que essas personagens são caricatas, aos olhos do homem tradicional, por serem contra o que ele considera natural, por virem baralhar o que é, para ele, “a ordem normal das coisas”, por serem o que uma mulher ou um homem “não deveriam nunca ser”. (Há quem afirme que é muitas vezes a alteração da ordem que é entendida como natural que faz rir uma pessoa, desde que essa pessoa não perceba nessa alteração gravidade ou ameaça.)

É uma perspectiva possível, e não me custa mesmo nada aceitá-la. Se olharmos para a canção de outro ângulo, porém, pode antes parecer-nos que ela faz a apologia de algo tão fora dos valores dominantes que chega a ser uma canção subversiva: O homem oferece à mulher (como, segundo os valores tradicionais, lhe compete) vestuário, calçado e objectos de toilette, para ela ficar mais bonita e lhe agradar mais. A mulher, porém, recusa ver-se reduzida a objecto estético, manda às urtigas roupas e sapatos, e reivindica antes para si os prazeres em princípio reservados aos homens, sobretudo o direito a estados alterados de consciência. Que tal?
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* E um exercício de des-localizada presunção: “Se eu disser de mim que sou / um poeta fabuloso, / não faltará quem me acuse / – com razão! – de presunçoso! // Mas se o povo diz que grande / poeta é o povo, então, / não há ninguém que lhe aponte / essa grande presunção...”

** Não vos dou o link, só para não serem tentados a lá ir, porque, ao que diz um Malware Warning de Google, o site que é está agora cheio de bichezas esquisitas que se metem pelos computadores adentro…