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12/09/12

Palavras, pensamento e perceção, mais uma vez (1)


A  adoção de uma atitude racionalista implica predispor-se a mudar de crenças a qualquer momento e passar às vezes a defender o que antes se atacou, em função, claro está, da força dos argumentos e provas que vão sendo apresentados numa discussão. Se há pessoas a quem causa grande desconforto aceitar a volubilidade das suas convicções e que preferem, para o evitar, perfilhar certezas perenes, para outras ‒ para mim ‒, essa instabilidade é a vantagem não só epistémica como moral do racionalismo.
Para banalidade, não está mal. Mas é uma introdução apenas, espero que o que se segue seja menos corriqueiro. Já mudei de campo duas vezes na discussão da influência da língua sobre o pensamento. Quando comecei a interessar-me pela questão e a refletir sobre ela, tomei, de uma maneira algo ingénua, o partido dos chamados whorfianos, o relativismo linguístico: as categorias linguísticas, pensava eu, como muitos pensam, introduzem cortes no continuum da realidade e a maneira como percebemos e concebemos o mundo é, por isso, determinada pela língua que falamos. O bilinguismo, dizia eu ‒ e sentia-o ‒, resulta numa cisão da personalidade: é-se de uma maneira numa língua e de outra maneira noutra.   
Quando comecei a estudar linguística, comecei a compreender melhor o que, sob a superfície da diferença, há de invariável nas línguas todas. Comecei também a compreender a ingenuidade da abordagem de Whorf e a dar-me conta da enorme falta de observáveis que a sustentassem. A pouco e pouco, de whorfiano ingénuo, fui-me tornando um antiwhorfiano com cada vez mais (boas) razões para o ser. Isto resultou em centenas de discussões acaloradas, em conversas de café, jantares de amigos e situações afins: o discurso whorfiano é extremamente sedutor e, o whorfianismo, embora tivesse praticamente desaparecido das teorias e dos trabalhos de linguística, tinha-se, pelos vistos, tornando senso comum entre um vasto grupo de gente educada.
Surgiu depois, porém, uma vaga de neowhorfianos, que, ao contrário de Whorf e de muitos whorfianistas clássicos, começou a fazer trabalho experimental sério e a defender uma versão fraca da teoria, muito mais razoável que as suas primeiras formulações. Estes neowhorfianos têm vindo a trazer à discussão argumentos mais sólidos que os que até aí tinham sido apresentados  a favor da hipótese de influência da língua na cognição e eu predispus-me a aceitar que o léxico possa, de facto, determinar certas capacidades ou hábitos cognitivos. Mas claro, não o aceito sem certas reservas: creio, por um lado, que, em muitos casos, está ainda por demonstrar essa influência; e não sei até que ponto é que é a influência do léxico se pode sempre considerar uma influência propriamente linguística.
Já o disse aqui uma vez, a propósito da constatação de uma relação entre língua materna e discriminação de cores ao nível percetivo[1]:
[O léxico] é a parte menos linguística da língua. O léxico, comparado com as estruturas sintático-semânticas e sobretudo as estruturas fonéticas, é facilmente alterável, e em qualquer língua se podem introduzir, com grande rapidez e sempre que seja necessário, novas palavras para dizer novas coisas (também cores…). Além disso, o rigor na classificação das cores (...) pode variar muito de indivíduo para indivíduo entre os falantes de uma mesma língua – pode haver quem saiba o que é azul ultramarino e quem não o saiba e seria interessante comparar como afeta a cognição das cores a maior ou menor educação cromática, digamos assim…
Ao contrário das estruturas morfossintática e fonético-fonológica, o léxico muda com facilidade, tanto na sua disponibilidade na língua como na utilização que cada um dele faz, e é ao nível do léxico que as línguas mais interagem umas com as outras, e com mais facilidade, importando e exportando palavras. Por ser a menos linguística parte da língua, ou a mais superficial, se preferirem, o léxico é o que de menos próprio tem cada língua. Não considero, por exemplo, que seja fator definidor do português ter as palavras unto ou malandrice, mas é com certeza definidor do português ter a possibilidade de flexionar em pessoa o infinitivo, ter uma estrutura silábica independente da estrutura morfológica, ter redução de determinadas vogais átonas, etc[2]. Bem vistas as coisas, a tese neowhorfiana não parece ser que a língua influencia a conceptualização e a perceção, mas antes que o hábito de usar determinadas palavras o faz. Ora isto é, com rigor, independente da língua em sentido estrito. 
Pode haver argumentos fortes a favor da hipótese de que a interiorização de um conceito lexicalizado pode influenciar determinadas capacidades ou perceções. Por exemplo, que existe uma ligação direta entre as categorias cognitivas de cor e as palavras usadas para as descrever e que, por isso, as pessoas que falam línguas em que se distingue azul e verde conseguem mais rapidamente perceber mais nuances nessa zona do espetro das cores. Mas a variação do léxico não se faz só de língua para língua. Ela faz-se também no interior de uma língua, como a imagem abaixo mostra de forma claríssima; donde que, quando se estuda a influência da “língua” na perceção das cores, um dos primeiros testes de controlo a fazer para saber até ponto essa influência é efetivamente da “língua”, em sentido estrito, devia ser estudar a influência nessa perceção de léxicos diferentes interiorizados por falantes de uma mesma língua. Parecerá evidente, mas nunca tal vi. Se se faz, faz-se muito pouco. Obviamente, a temática das cores é um só exemplo, talvez o mais imediato, e o mesmo se aplica a outros campos lexicais.


Sobre a figura: Não consigo saber qual é a origem desta imagem que circula pela Internet. As versões com melhor definição estão escritas em russo, pelo que talvez seja uma adaptação de uma imagem russa, não sei. A imagem pretende dar conta das diferenças de género da perceção das cores (também não descobri ainda em que estudo ou estudos se baseia), mas não é para esse fim que a uso, mas para demonstrar o facto simples de que duas pessoas que falem a mesma língua podem ter léxicos diferentes, e com diferentes graus de sofisticação, para descrever as cores – e outras categorias cognitivas. Os nomes de cores que aparecem à esquerda não são, muitas vezes, as suas designações mais comuns (parecem ser antes uma designação intuitiva baseada sobretudo em frutos e plantas), mas todas estas cores têm nomes que, apesar de relativamente correntes, estão longe de ser conhecidos por toda a gente. Agora, para verem que sou, como afirmava no início, um racionalista efetivamente aberto a ser convencido do contrário do que penso, vou dar aos neowhorfianos argumentos (que, curiosamente, nunca vi por eles referidos – o que não quer dizer que o não tenham feito, claro está) para defender impactos prováveis na perceção de fatores profundamente linguísticos e que apenas se podem adquirir relativamente cedo, como sejam a estrutura fonológica da(s) língua(s):
No seu livro Musicophilia (London: Picador, 2008) Oliver Sacks refere (p. 136) um estudo de Diana Deutsch et al.[3], sobre a incidência de ouvido absoluto[4] em duas populações de estudantes de música:
“Entre estudantes que tinham começado a receber educação musical entre os 4 e os 5 anos, (…) cerca de 60% dos estudantes chineses [do Conservatório Central de Música de Beijing] obedeciam ao critério de ouvido absoluto, ao passo que só 14% dos estudantes dos Estados Unidos, falantes de línguas não tonais, obedeciam aos critérios.” Entre os que tinham começado a receber educação musical entre os 6 e os 7 anos, os números dos dois grupos eram proporcionalmente mais baixos, cerca de 55% e 6%. E entre estudantes que tinham começado a receber educação musical ainda mais tarde, com 8 ou 9 anos, “cerca de 42% dos chineses obedecia aos critérios, ao passo que nenhum dos estudantes falantes de línguas não tonais dos Estados Unidos o fazia”. Não havia diferenças de género em nenhum dos grupos. Esta patente discrepância levou Deutsch et al. a conjeturar que, “se lhes for dada essa oportunidade, as crianças jovens podem adquirir ouvido absoluto como característica do discurso, transportando-o depois para a música.”
O fator que aqui está em causa é a tonalidade do chinês, isto é, o facto de uma mesma sílaba dita com diferentes “melodias” (ascendentes, descendentes…) ter diferentes significados. Se se puder confirmar que a competência tonal na língua pode influenciar a capacidade de reconhecer altura absoluta de um som musical, aí sim, temos verdadeira influência da língua nas capacidades cognitivas de uma pessoa. Now, you’re talking, como diz o outro.
_______________
[1] Ver, por exemplo, o estudo de Jonathan Winawer et al. cujo resumo está disponível aqui; e também os outros estudos que o referem e para os quais há links disponíveis ao fim da mesma página.
[2] Embora nenhuma destas caraterísticas seja exclusiva do português, note-se. Não considero aqui definidores os traços exclusivos, até porque não sei se tal coisa existirá, mas sim a maneira única como se agrupam traços que existem também noutras línguas.
[3] “Absolute pitch among American and Chinese conservatory students: prevalence differences, and evidence for a speech-related critical period” in Journal of the acoustical society of America 119(2) (2006), pp. 719-722
[4] Ouvido absoluto é a capacidade de reconhecer a altura absoluta de um som e, por conseguinte, de o situar imediatamente na escala standard: “o meu pai assoa-se em lá”.

[O texto foi revisto e aumentado a 12 de julho de 2023]

03/10/09

O sexo das pontes e outras questões linguísticas

A ideia de que o pensamento é modelado pela língua costuma ser associada sobretudo aos escritos de Benjamin Lee Whorf. Whorf, impressionado pela diversidade linguística, postulou que as categorias e distinções de cada língua consagram uma maneira de perceber o mundo, de o analisar e de nele agir. Se as línguas diferem, os seus falantes devem também diferir na forma como percepcionam e agem em situações objectivamente semelhantes (Whorf 1956). Esta perspectiva whorfiana forte – de que o pensamento e acção são inteiramente determinados pela língua – há muito que foi abandonada em ciência cognitiva. Contudo, uma resposta definitiva a versões menos deterministas da pergunta “A língua modela o pensamento?” tem-se revelado muito difícil. Alguns estudos têm defendido provas da resposta afirmativa (…), outros, provas do contrário (…)*.
Lera Boroditsky, a autora desta apresentação sucinta do debate whorfiano, faz parte do primeiro grupo: é um dos neo-whorfianos que, com base em trabalho experimental (de que Whorf, no seu tempo, nunca lançou mão), defendem agora a versão fraca da hipótese whorfiana (que, de forma simples, se pode resumir assim: se bem que não determine completamente o pensamento e a acção, a língua pode, em certos casos, ter influência sobre eles). Boroditsky é professora de Psicologia na Universidade de Stanford e é, segundo alguns, uma investigadora de que ainda se há-de ouvir falar muito. A verdade é que já se ouve falar muito dela. A hipótese de influência da língua na nossa maneira de pensar o mundo sempre foi bastante sedutora fora do debate especializado e, por consequência, muito mediática, e os neo-whorfianos, e Boroditsky em particular, têm chegado às páginas de divulgação científica de vários jornais, têm aparecido na rádio e na televisão e têm também visto os seus trabalhos publicados em revistas mais especializadas. Podem, por exemplo, ler o artigo “Why Language May Shape Our Thoughts” de Sharon Befley no Newsweek de 8 de Julho de 2009, ou, se estiverem mais virados para textos um bocadinho mais densos e escritos pela própria Lera Boroditsky, vejam, por exemplo, um resumo da sua pesquisa e convicções no site edge.org ou leiam trabalhos e artigos da investigadora disponíveis online.

Eu, é claro, apaixonado que sou pela discussão, tive de ler com atenção os trabalhos todos de Boroditsky a que tive acesso. Devo dizer que, no geral, fiquei impressionado. O trabalho de Lera Boroditsky é de um grande rigor e as experiências que monta são cuidadosas na verificação de todas as hipóteses que encontra de explicação para os fenómenos que testa. E parece-me que se pode considerar que demonstra bem o que demonstra. Apresento a seguir, traduzidos por mim, alguns excertos de resumos de trabalhos de Boroditsky, para que quem os não conhece possa ficar com uma ideia de que tratam. Concretamente, os exemplos que escolhi dizem respeito a três das áreas principais dos estudos de Boroditsky e dos seus colegas: a influência das classificações que a língua estabelece através das palavras que disponibiliza na percepção de cores, a influência do género gramatical na classificação e memorização, e a influência das metáforas espaciais predominantes na língua na maneira de pensar o tempo. A palavra a Lera Boroditsky:

«Um conjunto de provas sugere que o pensamento das pessoas sobre objectos pode ser influenciado por aspectos de gramática que diferem de língua para língua», pode ler-se na secção de conclusões do artigo “Sex, Syntax, and Semantics*”. «Uma série de estudos constatou efeitos do género gramatical na maneira como as pessoas descrevem objectos, como avaliam a semelhança entre imagens de objectos, e na sua capacidade de recordar nomes próprios de objectos. Outra série de estudos mostrou que podem ser produzidas diferenças no pensamento apenas por diferenças gramaticais, sem presença de outros factores culturais. Chama-nos a atenção o facto de que mesmo um acaso gramatical (a designação arbitrária de um nome como masculino ou feminino) possa ter um efeito na maneira como as pessoas pensam sobre o mundo». Para dar exemplos concretos, as experiências demonstram, por exemplo, que, dando um nome próprio a uma maçã, um falante do alemão recorda melhor o nome se ele for masculino (Patrick) do que feminino (Patricia), mas passa-se precisamente o contrário com um falante do castelhano, porque Apfel, “maçã”, é masculino em alemão mas manzana é feminino é castelhano; ou que, pedindo-se-lhes para adjectivar objectos inanimados, os germanófonos adjectivam Brücke, “ponte”, com adjectivos “descrevendo propriedades femininas” e Schlüssel, “chave”, com adjectivos “descrevendo propriedades masculinas”, ao passo que os hispanófonos associam a puente, que é masculino em castelhano, adjectivação “masculina” e descrevem llave com adjectivos “femininos”.

«O inglês e o mandarim falam sobre tempo de maneiras diferentes», conclui-se num outro artigo**, «o inglês fala predominantemente do tempo como se fosse horizontal, ao passo que o mandarim descreve normalmente o tempo como sendo vertical. Esta diferença entre as duas línguas reflecte-se na maneira como os seus falantes falam sobre tempo. Num estudo, falantes do mandarim mostraram a tendência de pensar verticalmente sobre o tempo, mesmo quando estavam a pensar para o inglês (os falantes do mandarim eram mais rápidos a confirmar que Março vem antes de Abril, se tivessem acabado de uma série de objectos dispostos verticalmente do que se tivessem visto um objectos dispostos horizontalmente, e passou-se o contrário com falantes do inglês).»

«Os termos que designam cores em inglês e russo dividem o espectro das cores de forma diferente», explica o resumo de um artigo de 2007***. «Ao contrário do inglês, o russo faz uma distinção obrigatória entre azuis mais claros (goluboy) e azuis mais escuros (siniy). Investigámos se esta diferença linguística leva a diferenças na discriminação das cores. Testámos falantes de inglês e de russo numa tarefa acelerada de descriminação de cores usando estímulos azuis dos dois lados da fronteira entre siniy e goluboy. Concluímos que os falantes do russo eram mais rápidos a discriminar duas cores quando estas pertenciam a duas categorias linguísticas diferentes em russo (uma siniy e a outra goluboy) do que quando pertenciam à mesma categoria linguística (ambas siniy ou ambas goluboy).»

A verdade é esta: mesmo os mais cépticos relativamente à hipótese whorfiana, como eu, têm argumentação sólida pela frente, se bem que, como a própria Boroditsky afirma, há ainda muito que tem de ser feito para se poder começar a ter ideias mais definitivas sobre a questão. Relativamente à questão da relação entre género gramatical e sexo, lembro-me imediatamente não tanto de objecções mas de problemas que merecem investigação :

Depois de testar como o género gramatical nos faz atribuir sexo ao assexuado, porque não testar a influência do género gramatical na concepção de seres sexuados: por exemplo, alguém designado como uma pessoa é vista como mais feminino do que alguém designado como um indivíduo, ou só as chaves e as pontes é que recebem sexo das línguas? Outra área interessante de investigação é a das palavras que podem ter ambos os géneros, como a palavra componente...; mas como componente é uma palavra que é difícil utilizar-se em testes, podia trabalhar-se, em português, com auto-estrada, por exemplo, uma palavra que, por muito que a norma a queira feminina, é masculina (por que será?) para muitos falantes nativos da língua. Seria interessante investigar se quem diz auto-estrada no masculino lhe atribui propriedades diferentes de quem dá género feminino a essa palavra… E como se passam as coisas nas línguas em que, como nas escandinavas, o sexuado, resultante da aglomeração do masculino e feminino, se opõe ao neutro não-sexuado? Bom, não me surpreende que uma criança seja percebida como menos sexuada do que um adulto por um dinamarquês (a propósito, a palavra criança é sempre feminina em português, mesmo quando refere um rapaz, que implicações terá isso na maneira como os portugueses vêem os humanos jovens?…), mas será que, para representação figurativa, por exemplo, esse dinamarquês tem tendência a considerar um poltergeist mais sexuado do que um fantasma vulgar[1]?

Quanto à relação entre metáforas espaciais de tempo e a maneira de pensar nele, e à influência do léxico na percepção, o que se me oferece dizer é que não me custa aceitar que certos hábitos de representação mental em que uma determinada construção linguística nos induz ou que o maior ou menor rigor classificativo possibilitado por maior ou menor riqueza lexical numa área semântica determinada nos dêem vantagem ou desvantagens em determinadas tarefas cognitivas. Mas as situações estudadas até agora são tão marginais no nossa quotidiana tarefa de conhecer e pensar o mundo que a versão fraca da teoria whorfiana é mesmo muito fraca. No estado em que a investigação está, talvez seja mais correcto não falar ainda de estudo da relação entre língua e cognição, mas apenas de relação entre uma ínfima parte de aspectos linguísticos e uma ínfima parte do trabalho cognitivo…

Além disso, o léxico (eu diria, incluindo preposições e advérbios usados na expressão do tempo, mas isto é, claro está, muito discutível) é a parte menos linguística da língua. O léxico, comparado com as estruturas sintáctico-semânticas e sobretudo as estruturas fonéticas, é facilmente alterável, e em qualquer língua se podem introduzir, com grande rapidez e sempre que seja necessário, novas palavras para dizer novas coisas (também cores…). Além disso, o rigor na classificação das cores (só para ficar na área da investigação aqui referida, mas podia arranjar muitos outros exemplos) pode variar muito de indivíduo para indivíduo entre os falantes de uma mesma língua – pode haver quem saiba o que é azul ultramarino e quem não o saiba e seria interessante comparar como afecta a cognição das cores a maior ou menor educação cromática, digamos assim…

Mas, e outros aspectos linguísticos menos volúveis: A estrutura fonológica? A ordem dos advérbios ou dos diversos sintagmas na frase? A determinação nominal, os diversos usos dos artigos, a sua existência ou ausência? A existência de preposições versus outras formas de marcação de caso? Ficamos todos ansiosos, não é?, a ver como evolui a investigação e que implicações podem ter – ou não – todas estas componentes das línguas na nossa maneira de perceber o mundo e de agir sobre ele…

***
O trabalho de Boroditsky é, repito, um trabalho científico cuidado, e isso só faz que me surpreenda mais a ligeireza de algumas afirmações que faz. Um exemplo:

«Os falantes de línguas diferentes devem ter em conta e codificar aspectos surpreendentemente diferentes do mundo para usarem devidamente a sua língua (…). Por exemplo, para dizer que “o elefante comeu os amendoins” em inglês (“the elephant ate the peanuts”) temos de incluir tempo verbal – o facto de que o evento se deu no passado. Em mandarim, indicar quando o evento ocorreu seria opcional e não poderia ser incluído no verbo. Em russo, o verbo teria de incluir tempo, se o comedor de amendoins era macho ou fêmea (embora só no passado) e se o dito comedor de amendoins os comeu todos ou só uma porção deles. Em turco, especificar-se-ia se o evento foi presenciado ou relatado.*» [Traduzo eu. Borodistky utiliza variações deste exemplo noutros lugares.]

Uma reflexão mais aprofundada sobre a questão que aqui se coloca, que é sobretudo de tempo, aspecto e modo, talvez fizesse com que Boroditsky não concluísse que “Os falantes de línguas diferentes devem ter em conta e codificar aspectos surpreendentemente diferentes do mundo para usar devidamente a sua língua”, mas antes, como concluem muitos estudiosos da questão, que as diversas línguas têm maneiras mais ou menos conspícuas de marcar categorias que estão presentes em todas as frases de todas as línguas. Senão vejamos:

• Por muito que uma pessoa fale uma língua com marcação obrigatória do género nominal, não precisa de saber o sexo de um animal para poder referir esse animal. Mal feito fora… Umas das formas disponíveis é neutra, ou não marcada, e é utilizada quando não sabemos ou não queremos dizer o sexo. Não falo russo, mas não consigo conceber que isto seja diferente em russo e que eu tenha de ir inspeccionar um animal para lhe identificar o sexo antes de o poder referir. Em português, a palavra neutra é geralmente do género dito masculino, mas há casos em que é feminina, pelo que não é só um borrego que às vezes é uma borrega, como também uma ovelha que às vezes é um carneiro.

• Sem mais contexto, qualquer falante do inglês compreende, ao ouvir “the elephant ate the peanuts”, que o elefante os comeu todos. Exactamente como em português: sem informação prévia, quando ouço a frase “o elefante comeu os amendoins”, compreendo que os comeu todos. É verdade que nem o português nem o inglês têm, como o russo, uma forma específica (no caso do russo, um prefixo verbal) que marque a “perfectividade”, ou seja, o completamento da acção. Mas há muitas outras marcas possíveis de completamento fora da forma verbal. Neste caso, é a determinação nominal (o artigo definido) que marca esse completamento.

• O que digo do aspecto, posso também dizer do tempo: mesmo que em mandarim ele não seja obrigatoriamente marcado na forma verbal, a marca tem de existir, porque a pessoa que ouve a frase tem de saber se o evento é anterior ou não ao momento em que a ouve. Mais uma vez, há argumentos (e sólidos!) sobre a presença de marcas de tempo em todos os enunciados humanos, se bem que a forma como o tempo é marcado possa diferir muito de língua para língua e aquela a que nós estamos habituados (a flexão verbal) seja apenas uma delas. Em mandarim, pelo que me lembro, as marcas de tempo (e aspecto e modo) são partículas silábicas soltas ou adverbiais “normais”, mas isso não significa que um falante do mandarim não tem de dizer o tempo.

• O que se passa em relação a tempo e aspecto passa-se em relação a modalidade: há várias línguas que, como o turco, têm marcas morfológicas da assunção pela pessoa que fala daquilo que diz. A questão é muito complexa, mas o facto de esse tipo de marcas modais existir de forma mais ou menos explícita em certas línguas não significa que nas outras línguas essa modalização não esteja presente. Em português formal, por exemplo, é o condicional que marca, muitas vezes, a não assunção pelo falante da informação enunciada (“O roubo teria sido cometido…”), mas na linguagem informal usam-se outros tipos de modalizadores, dos quais os mais óbvios são coisas como “diz que…”, “parece que…”, etc.

***
A ideia da neo-whorfiana Lera Boroditsky é que não faz sentido discutir se a língua modela o pensamento e se a cultura modela o pensamento, porque a língua faz parte do pensamento e da cultura e vice-versa****. A posição não é em nada diferente de muita gente que não assume a hipótese de Sapir-Whorf, mesmo na sua versão fraca (estou a pensar na posição “prudente” de um linguista como Claude Hagège, por exemplo).

Lamento desiludir alguns relativistas culturais mais dados à conversa de café do que ao trabalho de rigor, mas um trabalho sério como o de Boroditsky e dos outros neo-whorfianos põe também em causa, como não podia deixar de ser, conclusões apressadas sobre a maneira como a língua modela o pensamento (ou as “concepções” disto ou daquilo e, por isso, a cultura). Por exemplo:

Uma vez insurgi-me aqui, na última secção de um texto chamado “Penas de anjo”, contra a falta de rigor da afirmação de uma pretensa diferença da concepção do tempo entre os aimaras (e quem?, as outras pessoas todas do mundo?) baseada apenas na constatação de que a palavra para dizer “futuro” é a mesma palavra que para dizer “atrás”. Aquilo para que Gentner, Imai e Boroditsky chamam a atenção é que (traduzo eu) «muitas línguas têm um sistema em que “frente” é usada para futuro e outro sistema em que “frente” é usada para o passado. Quando se usa “frente” para o futuro, o tempo é representado como um observador deslocando-se ao longo de uma linha temporal, ou através de uma paisagem [é a chamada “metáfora do ego em movimento”, que se observa em frases como “Ela ainda tem a vida toda à sua frente…”, explicação minha]. Quando se usa “frente” para o passado, o observador está parado e o tempo passa por ele [trata-se, nesse caso, da chamada “metáfora do tempo em movimento”: “Quando vier o tempo das cerejas…”, explicação minha]. Poder-se-ia racionalizar que o passado está em frente porque o observador já sabe o que está no passado. O futuro está atrás porque não se pode ver o futuro, da mesma forma que não se pode vir o que está atrás de nós*****».

Outra coisa interessante no trabalho de Lera Boroditsky é que, na defesa da versão fraca do whorfianismo, ela acaba por demonstrar exactamente o contrário do que pretende uma ideia de determinismo cultural que costuma andar de mãos dadas com a tese whorfiana no seu sentido forte: a capacidade de condicionamento do pensamento que a língua possa ter não é, afinal, nada de muito fundo em nós. A categorização do mundo recebida sob a forma de léxico e formas gramaticais não impede que qualquer pessoa facilmente aprenda a categorizar o mundo de uma maneira nova, a de outra língua.

«[Um] estudo mostrou a medida em que falantes bilingues de mandarim e inglês pensam verticalmente sobre o tempo está relacionada com a idade que tinham quando começaram a aprender inglês”, mas “noutra experiência, falantes nativos do inglês foram ensinados a falar sobre o tempo usando termos espaciais verticais de uma forma semelhante à do mandarim [e,] num teste posterior, este grupo de falantes do inglês mostrou a mesma tendência para pensar verticalmente sobre o tempo que a observada em falantes do mandarim. Conclui-se que (1) a língua é um instrumento poderoso para modelar o pensamento sobre domínios abstractos e que (2) a língua nativa de uma pessoa desempenha um papel na modelação do pensamento habitual (por exemplo, na maneira como uma pessoa tende a pensar sobre o tempo), mas não determina inteiramente o pensamento dessas pessoas no sentido whorfiano forte.**»

Ou seja, em vez de contribuir para a ideia de língua como modelo mental pesado e definitivo, o trabalho destes neo-whorfianos aponta antes para a ideia de língua como modelo mental aberto a constante adaptação – adaptação essa, que pode ser muito rápida, a julgar pelo tempo que, na experiência descrita, os falantes de inglês demoram a aprender a utilizar com sucesso a orientação temporal vertical que não existe na sua língua [2] (“foram muito brevemente treinados”)!

Não quero ir longe demais nas minhas extrapolações, mas não se passará precisamente o mesmo com tudo o que se costuma designar como “cultura”?
___________

* Boroditsky, L., Schmidt, L.A., & Phillips, W. (2003). “Sex, Syntax, and Semantics”. in Gentner & Goldin-Meadow (Eds.,) Language in Mind: Advances in the study of Language and Thought. Cambridge, MA: MIT Press.
** Boroditsky, Lera (2001),“Does language shape thought? Mandarin and English speakers' conception of time”, Cognitive Psychology 43.
*** Winawer, Jonathan, Witthoft, Nathan, Frank, Michael C., Wu, Lisa, Wade, Alex R., Boroditsky, Lera (2007), “Russian blues reveal effects of language on color discrimination”. in PNAS, Vol. 104, No. 19. (8 May 2007), pp. 7780­-7785.
**** Numa entrevista em Philosophy Talk: “To me, it doesn’t make sense to say: “is is language that shapes thought?” or “is it culture that shapes thought?”, one is a part of the other.”
***** Gentner, D., Imai, M., & Boroditsky, L. (2002). “As time goes by: Evidence for two systems in processing space > time metaphors”. Language and Cognitive Processes, 17, 537-565, a que se pode aceder aqui.

[1] Há muito outros fenómenos, provavelmente muito menos relevantes para a verificação da hipótese whorfiana do que os que acabo de referir, que também são interessantes. Um exemplo: Boroditsky refere um facto conhecido de quem fala línguas com géneros diferentes dos da sua língua materna, mesmo que as fale bem: a tendência a referir objectos ou seres que são de um género diferente ou sem género na língua estrangeira com o pronome do género que eles têm na língua materna. Por exemplo, se eu estiver à procura da carteira e estiver, por isso, a pensar nela (em português), posso facilmente dizer a um interlocutor com quem fale francês que “je (ne) la trouve nulle part”, por muito que, posso garantir-vos, nunca me aconteça dizer *une porte-feuille (credo!...), quando falo francês. Ora o que é interessante é que o pensar em dinamarquês me predispõe (“primes me”, como se diz na literatura técnica em inglês) de uma maneira estranha para trocar os pronomes em português. Já o notei várias vezes: se estou, por exemplo a ouvir falar e a pensar em en cykel (“uma bicicleta”) em dinamarquês, vou dizer “Mas o sr. João já o arranjou?”. Quer dizer, “traduzo” por masculino o género que é “masculino+feminino” em dinamarquês? A única hipótese que encontro de explicação do fenómeno é que a palavra dinamarquesa cykel “vá buscar”, na minha mente, a palavra foneticamente mais próxima em português, ciclo, que é masculina. Mas seria preciso estudar a questão…

[2] De facto, a orientação num eixo vertical da metáfora temporal não está ausente de línguas como o inglês ou o português, apenas não se usa para localizar eventos no tempo. Mas é possível dizer em português, por exemplo, “as pessoas acima dos 60 anos” e a mesma construção existe em inglês.

11/03/08

A língua: elemento de identidade, mas nem escantilhão nem espelho da cultura

Contou-me uma amiga guatemalteca que uma vez, na Bolívia, uma senhora da elite criolla lhe começou a falar mal dos indígenas bolivianos, assim como se esperasse dela alguma cumplicidade:
“Sabe lá”, dizia a mulher, “o que são estes índios – são estúpidos, mentirosos, traiçoeiros, o pior que se possa imaginar…”
A minha amiga respondeu‑lhe, entre surpreendida e indignada:
“Pois olhe, eu sou indígena e prezo a minha língua, a minha cultura e a minha gente!”
“Ah, mas você não é como estes daqui”, disse-lhe a mulher, obviamente sem compreender o efeito das suas afirmações na minha amiga, “você não fala como eles.”

Para um criollo do planalto boliviano, a maneira de falar da minha amiga guatemalteca é reconhecida como sendo “fina”, mais “fina” inclusive que a maneira de falar dos próprios criollos locais. E, como acontece muitas vezes, isso pode ser levado mais em conta que o próprio tipo físico – a amiga de quem vos falo tem um tipo marcadamente indígena, por exemplo.

Tudo isto para dizer que a língua é um elemento essencial da identidade. É verdade que temos sempre tendência a reconhecer como fazendo parte do mesmo grupo que nós uma pessoa que fale como nós. Mas também se tem exagerado muito quando se fala da relação entre língua e cultura…

Uma ideia que, nascida da linguística e da antropologia, extravasou para o chamado “senso comum” é a de que a língua modela a nossa maneira de ver o mundo. A ideia vem sobretudo de um senhor chamado Benjamin Lee Whorf, que, quando estudava uma tribo norte‑americana, os Hopi, ficou muito surpreendido com o facto de o sistema verbal deles não ser organizado à volta de conceitos como passado, presente e futuro, mas de algo que ele definiu como “o manifestado” e o “não manifestado” e concluiu daí que os Hopi, como tinham “outros conceitos” na sua língua, não podiam percepcionar o mundo como, por exemplo, quem falasse inglês. A língua, dizia ele, cria hábitos a nível do pensamento que agem sobre a cognição.

Qual o problema de tão elegante e sedutora proposta? Quando se fala de categorias linguísticas, o problema está na confusão entre forma e conteúdo e no desconhecimento da realidade linguística do mundo. Há muitas maneiras de distinguir entre o que Whorf chamava o “manifestado” e o “não manifestado” sem ser através das formas verbais, e há, além disso, outras línguas em que as formas verbais também marcam distinções do mesmo tipo da que surpreendeu Whorf. Tudo leva a crer que a maior parte dos conceitos operativos em todas as línguas, como os que se relacionam com tempo, espaço, modo, quantificação, qualificação, etc., etc., não estão de modo nenhum relacionados com formas específicas. Não me interessa entrar aqui em pormenores, mas o facto é que, quanto mais sabemos de todas as línguas do mundo, mais sabemos que são constituídas pelas mesmas categorias e pelas mesmas possibilidades... que se manifestam de formas diferentes e através de formas diferentes.

Mas há também uma vertente lexical da questão: a de saber se há conceitos ou tipos de conceitos que, não havendo palavra para os definir especificamente, simplesmente não existem? Ou todos os conceitos existem fora das palavras? Alguns dos conceitos de objectos, processos, ideias, etc., parecem ter uma relação mais directa com as palavras que os referem do que os conceitos mais abstractos que referi acima, mas o facto de não haver palavra para dizer uma coisa não me impede de pensar nela – é por isso que se pensa em coisas em que ninguém pensou antes e só depois é que se lhes dá um nome... Além disso, mesmo que admitamos que a língua pode, de alguma forma, influenciar a maneira como introduzimos cortes no continuum que a realidade é (por exemplo no caso das cores ou na classificação em grupos de plantas ou animais), a percepção de todos os humanos é igual (excepto no caso de anomalias, claro está), de maneira que uma pessoa que fale uma língua em que não haja, por exemplo, a distinção básica entre azul e verde continua a ver as mesmas cores que eu e pode, se precisar de o fazer, ultrapassar a lacuna existente na sua língua, criando uma maneira de referir a diferença.

Por tudo isto, há que ter muito cuidado com as generalizações fáceis sobre a maneira como a mundovisão é influenciada pela língua. A mesma língua, com pequeníssimas diferenças, pode ser falada em culturas completamente diferentes e culturas muito parecidas podem usar línguas completamente diferentes. Veja-se o caso dos zimbabueanos ou sul‑africanos de língua materna inglesa, que têm, muitos deles, um inglês muito próximo do inglês de Inglaterra e que, no entanto, têm uma cultura que é, em muitos aspectos, muito, muito pouco inglesa; ou, para continuar aqui na região, o de alguns moçambicanos que falam um português quase igual ao meu sem que isso os faça de modo algum ter uma cultura portuguesa; ou no caso dos bascos de língua materna basca (euskera), que têm uma cultura muito semelhante à dos outros espanhóis, mas que têm uma língua que nem indo‑europeia é. Se a língua moldasse a maneira de ver o mundo, um finlandês de língua materna finlandesa teria de ver o mundo de uma maneira completamente diferente de um finlandês de língua materna sueca, porque a diferença entre as duas línguas é enorme (muitíssimo maior do que entre o sueco e o português, por exemplo), mas não é com certeza esse o caso. E podia dar dezenas de outros exemplos, mas passo antes ao ponto seguinte da conversa, que diz respeito a outra ideia bastante divulgada em que eu também não acredito: a ideia de que a língua reflecte a sociedade.

Muitas pessoas acreditam que um estado determinado da evolução da língua num determinado espaço geográfico reflecte o estado dessa sociedade. Isto não só não pode ser provado, como, em muitos casos, pode ser demonstrado o contrário. É claro que não se pode negar completamente a influência das evoluções dos fenómenos sociais sobre a evolução da língua. Mas essa influência, nos casos em que existe, está longe de ser imediatamente perceptível. Uma das dificuldades é estabelecer com rigor quando é que são as condicionantes que vêm do interior do sistema linguístico – que goza sempre de uma relativa autonomia em relação aos outros sistemas (económico, cultural, político, etc.) – que vingam sobre os outros tipos de constrangimentos. É bem provável que o quase desaparecimento, nas línguas escandinavas, da forma “de respeito” da 2ª pessoa do singular seja o resultado de uma desierarquização dessas sociedades, mas não é por haver uma oposição entre du e Sie em alemão que a sociedade alemã é mais hierarquizada que a sociedade inglesa (longe disso!...), em cuja língua essa oposição desapareceu, excepto em raras variantes regionais, há já muito tempo… [Bom, no caso do inglês foi, de facto, como no espanhol da Argentina ou no português do Brasil, a forma de tratamento informal (thou) que desapareceu. O que também não significa que tenha havido uma hierarquização das sociedades onde o fenómeno se deu…]

Entretanto, a discussão continua entre os que querem mudar o mundo: Para acabar com as discriminações várias que há, insiste-se em lutar contra as palavras e as expressões que se crê que modelam ou que espelham essa discriminação? Ou deixa-se a língua de lado e tenta mudar-se apenas a sociedade, acreditando que a maneira discriminatória de referir grupos de pessoas desaparecerá naturalmente com a mudança social?

[Atualizado a 16 de maio de 2023, sem atualização da grafia]