27 de setembro de 2008

Penas de anjo: o meu tempo e o tempo dos meus vizinhos

O texto “Plume d’Ange”, de Claude Nougaro (com música de fundo de Jean Claude Vannier), conta a história de um homem a quem aparece um anjo, que lhe dá uma pena de uma das suas asas e a instrução de mostrar essa pena às pessoas, explicando-lhes que é de uma pena de anjo que se trata. Se houver um único ser humano que acredite nele, a humanidade estará para sempre salva de todo o sofrimento. “A fé é mais bela do que Deus”, diz o anjo antes de se ir embora. A determinado momento da história, por razões que não interessa explicar aqui, o protagonista vê-se na contingência de ter de explicar a história da pena ao comissário da esquadra onde se encontra detido. Quando acaba a explicação, responde-lhe o comissário: “Mas tem de admitir, ainda assim, que uma afirmação desse teor precisa de ser apoiada por um mínimo de investigação, na falta de provas...”.

De formas mais ou menos bombásticas, afirma-se muita vezes que a concepção (ou consciência, ou percepção, até) “ocidental” do tempo é diferente da concepção “não-ocidental” do mesmo. Às vezes, em vez de se opor a cultura ocidental à cultura não-ocidental, opõe-se antes a cultura moderna à cultura pré-moderna ou rural; a terminologia varia. Mas a ideia de base é sempre a mesma: que a maneira como eu encaro e vivo o tempo ou lido com ele é diferente da maneira como encaram e vivem o tempo e lidam com ele os meus vizinhos do lado[1].

Quanto às diferenças concretas entre esses pares de conceitos em oposição, também se apresentam de várias maneiras. Uma das oposições frequentemente apontadas é a pretensa distinção entre tempo “histórico” ou “linear” e tempo “circular” ou “cíclico”. Segundo Serge Latouche, por exemplo, uma das características do Ocidente enquanto entidade cultural é “a crença, inaudita à escala do cosmos e das culturas, num tempo cumulativo e linear[2]”. Uma outra formulação altamente sedutora da mesma ideia é, também por exemplo, a de Daryush Shayegan, que também define em termos da concepção do tempo o terceiro dos seus “quatro movimentos descendentes do espírito” que criam a modernidade: “O terceiro movimento, operando a passagem das substâncias espirituais às pulsões primitivas, coloca o homem não na dimensão polar de um retorno à Origem mas na perspectiva linear da evolução[3]”.

Mas esta oposição do “tempo cumulativo” ao “eterno retorno” não é a única. Já vi e ouvi muitas outras, como “tempo homogéneo” versus “tempo heterogéneo”, “tempo contínuo” versus “tempo descontínuo”, “tempo desligado do vivido” versus “tempo como sequências de experiências”; “tempo cronológico” versus “tempo imanente da acção”, “tempo como recurso” versus “tempo sem valor económico”, coisas assim…

Esta “ideia forte” aparece não só sob variadas formas, mas também nos mais variados contextos: em trabalhos académicos com “grandes teorias” sobre rupturas entre tipos de civilização, em teses de mestrado de antropologia, em artigos de revista de divulgação de simpáticas ideias antietnocêntricas, em conversas de café entre turistas, cooperantes ou investidores estrangeiros em qualquer país em vias de desenvolvimento:
“As pessoas aqui não sabem que idade têm… O tempo para elas não é como para nós…”
“O ritmo de vida aqui é outro, é tudo mais lento, outra maneira de encarar o tempo…”
“O encontro é às 16? Tempo europeu ou tempo africano?”

A simples constatação de que as pessoas se atrasam constantemente ou de que os eventos não começam à hora prevista pode levar certas pessoas a inferir que se está perante uma “outra concepção do tempo”. Os antropólogos, pelos vistos, sofrem muito com os atrasos dos seus informantes. E há-os que deduzem daí uma estarem perante outra maneira de conceber o tempo. O antropólogo Nigel Barley, por exemplo, conta que desesperava com os atrasos dos dowayos dos Camarões.
Os encontros a uma hora determinada nunca funcionavam. As pessoas achavam estranho que eu ficasse perplexo quando apareciam ou dia ou uma semana depois do que tinha sido combinado, ou quando, depois de andar mais de uma milha a pé, não estavam em casa.
Não li o livro de Nigel Barley e não sei, por isso, o que ele conclui desses atrasos, mas o antropólogo Anders Joahnssen, que leu o livro, conclui que tudo isto é porque os dowayos, como outros povos de sociedades pré-modernas, têm uma concepção do tempo diferente da nossa, heterogénea e descontínua, segundo a qual as coisas se fazem “quando tudo está pronto[4]”.

Como se provam afirmações deste tipo? Não se provam. Se eu fosse de brincar com as palavras, diria que estas afirmações são literalmente improváveis. Impressões e impressões apenas. Que se podem contrariar com outras impressões, que é outra forma de dizer que, no fundo, não se podem contrariar. A fé é mais bela que Deus, admitamos, e é algo que, como o Deus que fundamenta, não se pode discutir. Ou antes, sim. Pode discutir-se:

Antes de mais, parece-me que uma determinada concepção do tempo, por muito que admitamos que possa variar de cultura para cultura, não pode deixar de estar informada (eu diria até, não pode deixar de ser determinada) pela maneira como o tempo é, em geral, percebido pelos seres humanos. Esta observação é desinteressante, de tão óbvia, mas tem a vantagem de chamar a atenção para um algo fundamental: a concepção do tempo não pode ser radicalmente diferente de cultura para cultura. O tempo é uma dimensão real, exactamente como as dimensões do espaço, uma dimensão que existe fora dos seres humanos, e que é percebida por eles através dos mecanismos físicos de que dispõem, e que são comuns a todos eles. Não faz muito sentido postular que o tempo é apenas uma categoria mental. De facto, não há nenhum boa razão para considerarmos que o tempo é fundamentalmente diferente dos outros fenómenos perceptíveis, como as outras três dimensões, a textura, a cor, a aceleração, o sabor, etc. Se uma determinada cultura impusesse aos seus membros uma concepção do tempo que se afastasse radicalmente da realidade do tempo, isso constituiria um handicap comparável a uma percepção do espaço que não tivesse directamente a ver com o próprio espaço – algo como viver permanentemente sob o efeito de um alucinógeno…

É bom deixar isto claro, mas é verdade que não nos adianta muito: toda a gente tem os mesmos mecanismos gustativos, mas há sítios onde a maior parte das pessoas gosta de bacalhau e outros onde a maior partes das pessoas não gosta de bacalhau… Além de que também é verdade que não há nenhum consenso sobre as características do tempo em si e que há amplo consenso quanto à ocorrência de distorções na percepção do tempo em função das condições psíquicas e físicas da própria percepção – donde que seja natural que algum tipo de desvio culturalmente determinado seja possível. Não digo que não. O que eu digo é que gostava que me mostrassem a amplitude e as características dessa variação com outros argumentos, baseados em observáveis, se possível. Ou, pelo menos, mais lógicos, porque os que usam não me convencem.

A História e o eterno retorno
Comecemos pela questão da pretensa “linearidade” característica da “concepção ocidental” do tempo por oposição à ciclicidade de outros concepções. Discordo. Estou convencido de que o tempo é sempre concebido como um vector orientado do passado para o futuro em que há um retorno cíclico de certos eventos.

Penso que há abundante evidência da óbvia linearidade de todas as concepções do tempo. Um exemplo simples: A estrutura das narrativas (ficcionais ou não, isso é irrelevante) é, em qualquer cultura e em qualquer período da história humana, sempre a mesma: linear. E isto porque é essa a estrutura temporal natural nos seres humanos! Sabemos que nascemos, crescemos, envelhecemos e morremos. O que acontece, seja a um chileno, seja a um japonês, seja lá a quem for, a quem seja apresentada uma narrativa não-linear é que tem de a linearizar na sua mente para a poder compreender – é o que fazemos todos perante narrativas contadas com a sucessão dos acontecimentos que a constituem organizada numa ordem não linear. É de notar até que, quando a não-linearidade da narrativa é muito violenta, a maior parte das pessoas pura e simplesmente não a compreende, porque não é capaz de reconstituir a sua temporalidade natural. E há casos em que uma apresentação não linear da narrativa pode esconder, pela dificuldade de lhe reconstruir a sequência temporal, incoerências da própria narrativa. (Experimentem, por exemplo, comparar a versão original do filme Memento, em que a história é contada do fim para o princípio, com a versão “cronológica” que aparece numa edição em DVD.) Evidentemente, são as pessoas com maiores hábitos de lidar com estruturas narrativas não convencionais que têm mais possibilidades de reorganizar, para a compreender, uma história contada às avessas, por exemplo – não a maior parte dos dowayos e dos aimaras, que, como a maior parte dos portugueses, provavelmente, só estão habituados a conceber o tempo como perfeitamente linear…

Além de universalmente linear, o tempo é universalmente “cíclico”. Temos de voltar aqui aos nossos mecanismos perceptivos. Se os nossos relógios internos são essencialmente cíclicos e são parcialmente regulados por fenómenos cíclicos de sucessão, por exemplo, de dia e de noite, e se os nosso pontos de referência temporal interiores e exteriores se organizam em ciclos (já nem quero dizer fases da lua e marés, que são irrelevantes para muitos de nós, mas, pelo menos, estações do ano, menstruação, fome e saciedade, actividade e repouso), como é que podíamos ter uma percepção – ou uma concepção, ou uma vivência – não cíclica do tempo? É-me incompreensível a ideia de que há culturas com uma concepção predominantemente cíclica do tempo por oposição a outras que têm do tempo uma concepção essencialmente “rectilínea” ou “evolutiva”. Sejamos claros: o “tempo ocidental moderno”, com calendários e relógios e festas de anos e feriados nacionais e Natal e salários ao fim do mês é tão cíclico como outro tempo qualquer. A ideia de História? Mas a História é vivida como desligada do presente de cada um, como não tendo nele implicações – exactamente como os mitos...

Datas, relógios, abstracção e atrasos
Um dos problemas que se coloca quando tentamos aferir a validade das oposições propostas como base de concepções antagónicas do tempo, como homogeneidade versus heterogeneidade, continuidade versus descontinuidade e abstracção versus experiencialidade, é que tudo o que alegadamente caracteriza tanto a concepção moderna como a concepção pré-moderna do tempo é sempre proposto, por algum filósofo ocidental, como característica universal da percepção, concepção, consciência ou vivência do tempo. De facto, não há nenhum consenso relativamente a qual é a concepção ocidental ou moderna do tempo. Existem antes várias concepções antagónicas do tempo…

Mas isso não importa, argumentarão alguns, estamos a falar da maneira como o tempo é efectivamente encarado e vivido pela maior parte das pessoas do mundo ocidental moderno… Muito bem. Deixemos então de lado a discussão filosófica sobre o tempo. Deixemos a análise pormenorizada dos conceitos em oposição e analisemos antes simplesmente os pretensos indícios de uma diferença de percepção temporal entre os ocidentais modernos e os outros.

Um desses indícios é, segundo alguns, o facto de estes últimos serem incapazes de assinalar momentos especiais. Bom, a ser verdade, isso seria, afinal, indício não de uma concepção descontínua do tempo, mas antes, precisamente, de uma concepção contínua do tempo, isto é não marcada por uma percepção de rupturas temporais... Mas eu não acredito, sequer, que isso se possa afirmar. Creio que o que falta a certas pessoas são pontos fixos objectivos a que possam referir esses momentos. Mas isso é outra história. Para qualquer ocidental moderno, a ausência de referências objectivas resulta também numa impossibilidade de perspectivar cronologicamente os acontecimentos da sua vida. Eu sei que o plural de caso isolado não é dados, e muito menos dados fiáveis, mas não posso deixar de entrar aqui com uma parte da minha experiência (além disso, a ausência de dados fiáveis a favor dos postulados que discuto dá-me esse direito… infelizmente):

Uma vez, decidi fazer uma cronologia da minha vida. Tentei organizá-la primeiro só a partir da memória e depois comparei esse esboço de cronologia com o que me diziam os documentos de que dispunha. Fiquei surpreendido ao descobrir que a sequência de eventos que tentei reconstruir só na minha cabeça tinha, ao ser comparada com a evidência exterior, uma quantidade enorme de erros notáveis. Outras pessoas que passaram por experiências semelhantes confirmaram-me que lhes aconteceu exactamente o mesmo. Agora, sem esses documentos concretos com datas (que vão de cartas a bilhetes de comboio ou de concertos, cartões de identificação vários, registos escolares e folhas de salário, etc.), nunca teria sido capaz de organizar a minha história de vida, por muito que seja um “ocidental moderno”.

Evidentemente, muitas pessoas em tempos e espaços menos modernos que o meu, sejam eles ou não da “cultura ocidental”, não têm acesso a essa calendarização dos acontecimentos da sua vida. Mas o que é que isso tem a ver com uma “concepção do tempo”? Ser ou não capaz de dar datas para acontecimentos com rigor – e de medir idades e durações de eventos – é uma competência aprendida que não está forçosamente relacionada com uma concepção do tempo. Duas pessoas com a mesma cultura (o que deveria implicar a mesma concepção do tempo...) podem ter capacidades completamente distintas de situar temporalmente eventos precisos. Quantas vezes ouvi dizer dos camponeses portugueses as mesmas coisas que se dizem dos camponeses moçambicanos… Será porque são de uma cultura não-ocidental ou porque vivem numa mesma pré-modernidade? Chamem-lhe o que quiserem, mas o que eles têm em comum com os camponeses moçambicanos é terem um baixo nível de educação formal e uma vida em que a datação precisa não é uma competência importante. Que isso tenha implicações na precisão com que se memorizam e descrevem acontecimentos, aceito. Que essa imprecisão na referência a determinados momentos seja reflexo de uma outra concepção do tempo, há que o demonstrar um bocadinho melhor…

Que o tempo não seja abstracto para a maioria das pessoas das zonas rurais do terceiro mundo não me surpreende por aí além. Nem o tempo, nem o resto. O espaço, por exemplo, também não o é, o que se pode facilmente verificar pela incapacidade de desenhar ou ler mapas. Mas o facto de o tempo não ser abstracto tem apenas a ver, mais uma vez, com a inexistência ou o baixo nível de educação formal. Se é a isto que se chama cultura (pode ser, não tenho nada contra), então muito bem, estamos de acordo. Mas, então, a principal linha divisória entre culturas é, basicamente, ter-se ou não ido à escola o suficiente para aprender a lidar com graus maiores de abstracção.

Outra questão que não está de modo algum relacionada com a “concepção do tempo” é a questão dos atrasos. Antes de mais, quero deixar claro que, como português, tenho, naturalmente, uma ideia muito diferente da de muitos outros “ocidentais modernos”. Vivi dois anos no Alto Molócuè, uma capital de distrito de um Moçambique bastante “profundo”, como se diz, e os moçambicanos, mesmo “rurais” e muito “pré-modernos” (de facto, muita gente no distrito, após a guerra, vivia, infelizmente, numa espécie de neolítico), sempre me pareceram muito cumpridores relativamente aos portugueses modernos com quem eu me dava em Lisboa... Provavelmente, em vez de falar de concepções de tempo para explicar as diferentes atitudes relativamente à pontualidade, é melhor explicá-las a partir de modelos morais, ou seja de padrões de acção aceitável, independentemente da concepção de tempo que se tem. É difícil compreender como é que a pontualidade ou a sua ausência podem depender de uma concepção do tempo. Parece evidente que elas dependem antes de uma concepção da pontualidade, que é, em última análise, moral, porque radica na definição do que é admissível ou desejável nas relações entre as pessoas. (Além de que influi muito provavelmente na pontualidade das pessoas o terem maior ou menor acesso a relógios, mas eu já nem quero ir por aí…)

Não conheço os dowayos e não me posso pronunciar sobre a maneira como é encarada a pontualidade por esse povo. Mas… Os dowayos chegam atrasadas a todos os encontros? Se não (como tenho praticamente a certeza de que é o caso), a que encontros chegam atrasados? Aos encontros com as autoridades, estatais ou tradicionais, chegam atrasados? A cerimónias e festas, religiosas ou civis, chegam atrasados? À escola e aos trabalhos, chegam atrasados? A encontros com os seus amigos, chegam atrasados? Se a situação não for radicalmente diferente entre os dowayos dos Camarões e os lómuès do Alto Molócuè (e os portugueses de Lisboa e os neerlandeses de Roterdão…), a resposta a muitas destas perguntas é claramente negativa. Para compreender os padrões da pontualidade dos dowayos não basta, seguramente, postular uma pretensa “concepção outra” do tempo. À partida, o que parece óbvio é o seguinte: se uma pessoa não chega atrasado a um encontro com o régulo ou o chefe de posto e chega atrasado ao encontro com um antropólogo ou um amigo, isto apenas implica ou que ele dá menos importância à pontualidade no encontro com o antropólogo ou o amigo do que à pontualidade no encontro com o régulo ou o chefe de posto. Como normalmente se trata, neste caso, de obediência a um código moral colectivo, isto quer dizer que é socialmente aceite chegar atrasado a determinados encontros e não a outros.

Não deixa de ser curioso, aliás, que às vezes se afirme que as camadas urbanas ou educadas (as “elites ocidentalizadas”) dos países africanos têm uma concepção ocidental e moderna do tempo, ao passo que a população rural tem do tempo a outra concepção não-ocidental e pré-moderna. Pode ser, claro está, que o resto de África seja muito diferente de Moçambique neste aspecto, mas acho pouco provável. Aqui, é bem sabido que as “elites ocidentalizadas” (de facto, toda a gente com poder) fazem constantemente esperar, às vezes horas, os desgraçados dos camponeses, quanto têm encontros com eles: os camponeses, com a sua “concepção pré-moderna” do tempo, chegam a horas; os mais poderosos, com a sua “concepção moderna” do tempo, chegam sistematicamente atrasados…

As palavras do tempo

Falta ainda abordar a questão de muitos outros pontos de vista, mas eu não vou muito mais longe: só mais uns comentariozinhos breves sobre a parte linguística da questão.

Há quem encontre “provas” linguísticas de outras maneiras de conceber o tempo: por exemplo, que faltam a esta ou àquela língua maneiras precisas de referir localizações temporais; ou que, em certas línguas, se descreve a sucessão dos dias ou das estações não como sequências de dias e estações diversas, mas como o retorno do mesmo dia e da mesma estação… Ou então, mais “profundo” ainda (um exemplo de que eu gosto especialmente, dos vários que podia dar) porque a relação entre expressões de tempo e de espaço é diferentes da que existe nas “nossas” línguas:
[Em aimara,] nayar significa ao mesmo tempo “a palavra que está diante de nós” e “a palavra antanho”; a oposta, cchina, que significa “futuro”, aplica-se ao que está situado atrás. Deste modo, a ideia de representação do tempo para o aimara, ao contrário da concepção ocidental, consiste em olhar para o passado diante de si e considerar que o futuro se encontra atrás. Por conseguinte, o vector temporal está invertido em relação ao pensamento ocidental; o passado precede, está em frente. Devemos associar, sem dúvida, a esta particular concepção do tempo e do espaço subjectivo o tempo vivido, e ter em conta que a sucessão das idades míticas obedece também a uma classificação muito diferente[5]”.
Quero só dizer que a ausência ou presença de expressões para assinalar de uma forma “precisa” um determinado momento temporal não tem nada a ver com língua nem com a concepção do tempo. A mim, ocidental que sou, não soa nada estranho “quando o sol se levanta” em vez de “às 5 e 45 da manhã”; linguisticamente, também não vejo nenhuma diferença na marcação temporal. A diferença entre o uso de uma e outra expressão, temos de a procurar apenas no facto de estar mais ou menos habituado a referir o tempo ao nascer do sol ou ao relógio… É como medir em centímetros ou em palmos uma distância: a diferença está só na medida usada. Ou como referir uma distância como “a quinze minutos a pé” ou “a cerca de um quilómetro” ou “a 864 m”.

Também parto do princípio que é sempre a mesma noção de “dia” ou de “estação” que ocorre em todas as línguas (em português, também não digo “o dia de hoje nasceu” ou “este dia nasceu”, digo simplesmente “o dia nasceu”), sem que isso implique que se considere que é o mesmo dia que se repete. Concepções diferentes do tempo?

E não se postula assim, com aquela confiança toda, a correspondência biunívoca entre categorias conceptuais e formas da língua. Não há provas de uma relação directa entre a temporalidade humana e a sua expressão linguística. Quer dizer: a maneira como construímos o tempo na linguagem pode não ser um reflexo directo da maneira como o percebemos e concebemos, seja lá o que for que isso queira dizer. Além disso, as formas da língua têm uma história e características semânticas complexas que é preciso analisar cuidadosamente; e é isso que falta na descrição das palavras aimaras referidas. Na realidade, não há nada de especial no facto de a mesma forma servir para “futuro” e para “atrás” – uma forma como “for”, em inglês, serve para tudo – para a frente, para trás, para o passado, para o futuro… Além disso, se há europeus que entendem coisas opostas, quando se lhes diz (pouco importa em que língua) que uma palavra, num texto escrito, está “atrás” da outra (e garanto-vos que há muita variação de pessoa para pessoa, e talvez de país para país, mas não tenho a certeza), isso não significa que tenham uma concepção diferente da orientação da escrita: para todos se escreve da esquerda para a direita…

Penas de anjo, digo eu: a fé é mais bela do que Deus…

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[1] Isto é para se entender literalmente. Lembrem-se de que eu, apesar de viver numa mansão “estilo amaricano [sic]”, vivo em pleno bairro 25 de Junho, um dos bairros pobres de Chimoio, e os meus vizinhos mais próximos vivem em casas de barro, cozinham a lenha e são, em suma, “pré-modernos”.
[2] Faut il refuser le développement?. P. U. F., 1986; formulação retomada em L’occidentalisation du monde à l’heure de la «Globalisation». Ed. La découverte Poche, 2005
[3] Sciences et symboles, Les voies de la connaissance, Albin Michel/France Culture, 1986.
[4] Por descargo de consciência, aqui fica a referência do artigo: Johansen, Andres, “Handlingens tid” in Hvor mange hvite elefanter? Kulturdimensjonen i bistandsarbeid, Thomas Hylland Eriksen (ed.), Ad notam forlag As. Oslo: 1989. Agora não sei o que é preferível, se ser acusado de ser desleixado, por não indicar onde fui buscar a citação, se ser acusado de ser petulante, por referir artigos em norueguês…
[5] Llanos, Ruth, “El desarrollo aún no tiene rostro de mujer”, in unitas nº 4, La Paz, Bolívia: 1991.

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