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12/08/26

Fazer bem sem ver a quem


Apareceram-me no outro dia estes dois vídeos de uma fundação ligada a uma companhia de seguros, a «Fundação do Coração», HjerteFonden, que recruta «corredores do coração», pessoas que ajudam vítimas de paragem cardíaca. O primeiro vídeo mostra como funciona o sistema: quando a central recebe uma chamada de emergência, os «corredores do coração» que se encontram mais perto dessa pessoa correm para a ajudar, indo buscar, de passagem, um desfibrilador, se houver algum nas proximidades. Hoje em dia, há quase sempre. Ao mesmo tempo, é enviada uma ambulância. Segundo um comentário ao vídeo de uma pessoa que diz ser «corredora do coração», há uma pequena incorreção no vídeo: a enfermeira responde que a ambulância está no local passados cinco minutos, e, se a ambulância estiver tão perto da pessoa, não é enviado um «corredor do coração», porque não vale a pena. Parece-me interessante no vídeo a mensagem que, quando há paragem cardíaca, não há ajudas incorretas — dirigido a pessoas como eu, que, por muito que tenha feito vários cursos sobre ajuda nesta situação e tenha sido, até há pouco tempo, profissional de saúde, tenho sempre medo de fazer algum disparate numa situação destas. 

A mensagem do segundo vídeo que aqui ponho é diferente. 

«Sou corredor do coração e agora não me interessa nada… em quem é que votaste… o que escreveste nas redes sociais… Não me interessa se podíamos ou não tornar-nos amigos…  quem amas… ou em que acreditas… Porque, se te parou o coração, há uma ligação entre nós.»

É sabido que os profissionais de saúde, desde pessoal de cuidados a pessoal médico, assumem como obrigação cuidar de qualquer pessoa e tratá-la independentemente da etnia, crenças, sexualidade, estatuto social, etc., e independentemente do que ela faça ou tenha feito. Os médicos tradicionalmente proferem o juramento de Hipócrates. Há várias versões deste juramento. Na versão de 2017, que é atualmente usada em Portugal, um dos pontos é, precisamente, 

Não permitirei que considerações sobre idade, doença ou deficiência, crença religiosa, origem étnica, sexo, nacionalidade, filiação política, raça, orientação sexual, estatuto social ou qualquer outro fator se interponham entre o meu dever e o meu doente.

Os outros profissionais de saúde não fazem um juramento formal, ao que sei, mas o mesmo princípio é implícito na aceitação da sua profissão e explícito na legislação que a rege, além de que é constantemente sublinhado ao longo da sua formação. Agora, se «qualquer outro fator» é uma formulação algo vaga no juramento de Hipócrates, os profissionais de saúde aprendem que devem tratar e cuidar o melhor que souberem e puderem todos os seus doentes, independentemente também do que possam saber da sua vida presente ou passada, de todo o mal ou bem que estes possam ter feito, independentemente de serem criminosos ou heróis, e independentemente de quaisquer traços de personalidade.

Há evidentemente, ressalvas óbvias e explícitas à universalidade do dever de médicos, enfermeiros e outros profissionais do setor. Uma é que a saúde e o bem-estar do doente não podem ultrapassar a própria segurança do profissional de saúde ou a vida de outras pessoas. Para ajudar alguém, tenho de me certificar primeiro de que o posso fazer sem correr graves riscos eu próprio ou pôr em risco outras pessoas. Mas esta ressalva é sem grande importância no dia-a-dia do trabalho de cuidados de saúde, a não ser talvez em situações extremas de guerras, catástrofes naturais ou epidemias altamente contagiosas — e, em situações dessas, é muitas vezes ignorada, como se sabe. Outra ressalva é que o profissional de saúde pode negar-se a uma tarefa que não considera ser capaz de desempenhar, porque nunca lhe foi ensinado, ou porque há muito tempo que não o faz, ou seja por que outra razão for. Mas também esta ressalva, em situações de emergência, acaba por ser ignorada.

Na prática, há também outros limites para o que os profissionais de saúde toleram (ou devem tolerar) dos doentes, das condições de trabalho, etc. Vi casos de doentes que obrigam a reuniões, às vezes reuniões regulares, do pessoal e chefia das unidades, para encontrar alguma estratégia que permita lidar com eles. São pessoas cujo contacto cria problemas sérios ao pessoal de saúde: doentes que insultam e ofendem constantemente, que rebaixam e provocam o pessoal, que insistem, de forma obsessiva, desesperante, que tudo tem de ser feito exatamente como eles querem, ao arrepio de preceitos técnicos ou de higiene, que quase chegam à agressão física. Não porque tenham alguma doença psíquica (a situação das pessoas com doenças psíquicas é completamente diferente e deixo de lado essa questão neste texto), mas simplesmente por serem pessoas agressivas, talvez tornadas ainda mais agressivas pela doença, e, muitas vezes, por terem nessas atitudes a única oportunidade, a última e desesperada possibilidade, de exercer poder sobre outros e, de alguma forma, tentar assim exercer controlo também sobre a sua vida. E há de facto profissionais de saúde que se negam a atender doentes deste tipo. Não conseguem aguentar, simplesmente. É claro, em todos os casos a que assisti, há sempre outros que não se negam. Não sei o que aconteceria, se todos se negassem, mas criar-se-ia uma situação incompatível com os princípio dos serviços de saúde. Não há propriamente, nesta situação, grave risco para a integridade física de quem se recusa a tratar o doente, mas será que a angústia ou o stress, às vezes muito grandes, que resultam do contacto com um doente muito agressivo e que recusa colaborar com o cuidador ou enfermeiro são motivos que justifiquem recusar o cumprimento do seu dever? Creio que sim. Não é só a salvaguarda da integridade física que se deve ter conta quando se fala do dever do profissional de saúde: uma pessoa numa situação de profundo stress não consegue fazer adequadamente o seu trabalho. E é por isso que, sempre que possível, se atendem os pedidos de quem se nega a atender um doente por estas razões. Mas é uma situação com potencial para desencadear outro tipo de conflitos: haverá, provavelmente, colegas que pensarão: «Se ela não aguenta, porque terei eu de aguentar?» É sempre difícil mostrar objetivamente que os níveis de stress perante a mesma situação variam de pessoa para pessoa… Mas variam.

Agora, outra questão relacionada com o dever de não-discriminação: será que mesmo a/o mais empenhada/o profissional de saúde, por mais que sinceramente o queira fazer, não presta cuidados diferentes a doentes diferentes? Não haverá sempre vieses inconscientes? 

A psicologia ensina-nos que há características pessoais, algumas inatas e independentes de qualquer controlo, que, em geral, suscitam respostas mais positiva ou mais negativas de desconhecidos. E há estudos que mostram, por exemplo, o efeito positivo da beleza física em situações de cuidados médicos, ou o efeito negativo da obesidade (que é tanto maior quanto mais a obesidade for descrita como produto do estilo de vida, isto é, da responsabilidade do doente). Outros estudos demonstram a influência do género do paciente. Um estudo feito com 500 enfermeiras/os, por exemplo, mostra, quando estas/es enfermeiras/os são postos perante um mesmo quadro clínico de enfarte do miocárdio, variando a idade e o género dos doentes, os homens de meia idade são considerados casos mais urgentes, são mais frequentemente enviados aos cuidados intensivos e são mais frequentemente diagnosticados positivamente que mulheres de meia idade com exatamente os mesmos sintomas. Estes estudos nem sempre são, porém, coincidentes: um estudo mostra que, no mesmo quadro clínico, as mulheres recebem menos analgésicos que os homens; mas outro mostra precisamente o contrário, que as/os enfermeiras/os tendem a administrar menos analgésicos aos homens.   

É difícil aferir o valor geral de estudos isolados. Parece-me mais interessante ver os resultados de meta-análises. Só encontrei uma, de 2021, de 215 estudos publicados ao longo de 38 anos. Traduzo o resumo, sublinhando que, como os estudos atrás referidos, aliás, diz respeito a um meio cultural diferente da Dinamarca, que é o que conheço melhor, ou de Portugal: 

Os estudos sobre preconceito de enfermeiras/os e/ou disparidades nos cuidados têm vindo a tornar-se cada vez mais frequentes ao longo do período de 38 anos em que foram produzidos os relatórios incluídos neste estudo. Foram analisadas várias características dos doentes, sendo as mais comuns a raça e/ou etnia, o género e a idade. Vinte e nove dos 215 estudos identificam uma potencial relação entre preconceito das/os enfermeiras/os relativamente a uma determinada característica e os cuidados pessoais e de saúde prestados a indivíduos com essa característica. Destes estudos, 27 sugerem que o preconceito tem um impacto negativo e resulta em desigualdade nos cuidados de enfermagem. Groves, Bunch & Sabin (2021), «Nurse bias and nursing care disparities related to patient characteristics»)

É interessante constatar que, de 215 estudos, só numa relativamente pequena percentagem se observa um efeito negativo do preconceito em tratamentos e cuidados. Esta conclusão confirma o que fui vendo enquanto pesquisava: os vieses existem, mas é mais fácil constatar uma diferenciação de tratamento em função de características do paciente que constatar um efeito negativo dessa diferenciação — que também existe, sem dúvida, e que poderá seguramente, em casos isolados, ser até muito grande. É também provável que a parcialidade contatada nos professionais de saúde não signifique, na grande maioria dos casos, que não haja vontade sincera de honrar a universalidade do dever de cuidados — mas antes que eles obedecem, como todas as pessoas, a preconceitos não conscientes. 

Agora, os preconceitos, conscientes ou inconscientes, de que pode ser vítima um doente existem também na perspetiva inversa: um doente não trata de igual maneira todos os profissionais de saúde. Assisti a casos de clara discriminação de colegas meus por parte de doentes, com base apenas na origem étnica. A lei dinamarquesa, como a lei portuguesa e a lei de muitos outros países, não permite que a/o doente escolha por quem quer ser tratado, mas já vi doentes que, às vezes de forma indireta, utilizando desculpas, recusam ser tratados por pessoas de certos grupos étnicos. A lei também não dá o direito a escolher o género do enfermeiro ou cuidador, mas acontece às vezes que doentes do sexo feminino peçam explicitamente uma enfermeira ou cuidadora — e especialmente quando se trata de cuidados íntimos, o que, dentro da medida do possível e embora a lei não o sancione, se tenta normalmente satisfazer. 

Não são apenas, porém, a origem étnica e o género que estão na origem de recusas de doentes de ser tratados por um determinado profissional. Às vezes, estas recusas resultam de conflitos surgidos durante tratamentos ou cuidados. E, por muito que a lei não consagre este direito do doente, também esta recusa é às vezes satisfeita, se possível, apenas para evitar uma situação de stress para ambas as partes.

A conclusão é trivial: embora haja assimetria na relação de poder entre um profissional de saúde/cuidador e um doente/cuidado, qualquer relação humana é forçosamente biunívoca. As características que o doente encontra no cuidador também têm seguramente uma influência, consciente ou não, na maneira como interage com ele; e a relação entre os dois é o produto de várias circunstâncias, das quais as imagens um do outro, incluindo preconceitos positivos e negativos, conscientes ou não, são partes fundamentais. 

Volto ao ao segundo vídeo deste texto. Uma paragem cardíaca é talvez a situação mais simples deste ponto de vista: aquela em que só uma das partes está envolvida na relação. Só uma pessoa, com os seus sentimentos e as suas ideias preconcebidas — que pode efetivamente deixar de lado, e deixa mesmo, no momento em que decide ajudar quem desesperadamente dela nessa altura precisa.

***
Perdoar-me-ão a desorganização do texto, própria de quem escreve sobre um tema que considera importante, mas de que não é, de modo nenhum, grande conhecedor. Sabia que queria escrever sobre este assunto, mas não tinha, à partida, definido claramente o que queria dizer sobre ele. Fui-o descobrindo à medida que escrevia e pesquisava. Não tenho acesso às versões integrais dos estudos que refiro e que me foram sugeridos pelo ChatGPT. Assim, só refiro o que está nos resumos e, por isso, me parece seguro referir. E quero agora acrescentar três breves notas avulsas que complementam um pouco o texto acima:

1: O dever de ajudar uma pessoa em perigo de vida não é, note-se, exclusivo de profissionais de saúde. O Artigo 200.º do Código Penal português não define positivamente o dever, mas criminaliza a omissão de auxílio:

«Quem, em caso de grave necessidade, nomeadamente provocada por desastre, acidente, calamidade pública ou situação de perigo comum, que ponha em perigo a vida, a integridade física ou a liberdade de outra pessoa, deixar de lhe prestar o auxílio necessário ao afastamento do perigo, seja por ação pessoal, seja promovendo o socorro, é punido com pena de prisão até 1 ano ou com pena de multa até 120 dias.»

A pena é a dobrar se a pessoa que não ajuda tiver criado ela própria a situação de perigo (ponto 2), mas ressalvam-se as situações em que haja perigo de vida do omitente ou «quando, por outro motivo relevante, o auxílio lhe não for exigível». Não sei o que a jurisprudência ou a opinião dos peritos considera, nesta caso, «motivo relevante».

2: Propõem-se muitas vezes experiências mentais sobre o dever de prestar ajuda a uma pessoa que é consensualmente considerada um grande criminoso. Hitler é uma figura frequentemente usada nestas experiências e já aqui falei uma vez de uma experiência mental deste tipo, mas referindo-a como «dilema». É, na minha opinião, um tema fascinante, nos seus múltiplos matizes, que tem, aliás, sido tema central do debate moral: como se equilibram os direitos individuais e o bem-estar das comunidades? Quem se pode — ou deve, até — sacrificar em nome da satisfação da maioria ou de valores considerados universais e inalienáveis? 

3: Na minha breve vida profissional no setor da saúde, toda ela na Dinamarca e sobretudo na área da ajuda domiciliária, encontrei outro motivo para os profissionais de saúde pedirem dispensa de cuidar determinados pacientes: o facto de os conhecerem na sua vida privada, com diversos graus de intimidade na relação com esses pacientes. Essa dispensa é quase sempre dada, se bem que informalmente, a não ser em casos extremos de falta de pessoal. A ideia que subjaz a esta exceção ao dever do profissional de cuidar toda a gente é que as relações com os doentes se devem manter sempre ao nível profissional, o que está excluído à partida nesta situação.

01/07/26

Dois apontamentos sobre comida tradicional – história, cultura e gastronomia


Como é que uma comida se torna tradicional? 

A ideia de que a cultura material de um povo é, se não completamente determinada, pelo menos grandemente influenciada pelas condições naturais dos lugares que esse povo habita é tão sensata que é difícil pô la em causa. É interessante constatar, porém, que às vezes se observam certos fenómenos culturais, certas tradições, que parecem tão a contrapelo dessa lógica que uma pessoa se sente baralhada com o seu aparente desarrazoado.   

Três exemplos que me vêm imediatamente à cabeça, da área da gastronomia: Se os pratos típicos de uma região se vão desenvolvendo a partir dos ingredientes disponíveis nessa região (nativos ou importados, não importa, contanto que lá existam), porque é que as passas de uva são um produto indispensável nos lares dinamarqueses e de outros países do norte da Europa, e já de muito antes da moderna globalização culinária? E porque é que o maçapão de Lübeck é uma Indicação Geográfica Protegida, quando não há amendoeiras no norte da Alemanha? E porque é os portugueses consomem há tanto tempo tanto bacalhau, quando o importaram sempre quase todo? 

Parece-me muito provável que, algumas vezes, seja precisamente a raridade de um produto — importado, por ser inacessível localmente, e por isso consumido apenas pelas classes mais ricas — que o torna desejado e, por razões nem sempre fáceis de explicar em pormenor, que faz dele um produto necessário à «boa mesa», sobretudo quando passa a ser mais abordável para um maior grupo de pessoas. Creio que é isto que se passa com as passas e o massapão no norte da Europa.  

As passas de uva são consumidas há muito tempo no norte da Europa, principalmente em bolos e inicialmente como especiaria. Foram, durante muito tempo, uma das poucas fontes de açúcar que havia — um produto de luxo reservado à nobreza e algum clero. Depois, como marca de estatuto social, foram também adotadas pela burguesia e depois por toda a gente, à medida que se iam tornando mais acessíveis a todas as bolsas. [1]  

O maçapão de Lübeck tem uma história semelhante. Referido pela primeira vez nos registos da Guilda de Lübeck em 1530, o maçapão era um produto de luxo, com pretensas propriedades medicinais, que só podia ser fabricado e vendido pelos boticários. E, como produto de luxo que era, comia-se sobretudo nas festas dos ricos. Se o de Lübeck se tornou famoso, foi pela sua qualidade: a cidade era um grande centro comercial e era, por isso, possível assegurar aí o fornecimento de pasta de amêndoa, um produto importado do sul e cuja escassez fazia que, em muito outros sítios, o maçapão fosse quase só açúcar sem amêndoa. A partir do início do séc. XIX, com a abolição das corporações, o maçapão passou a ser produzido por pasteleiros e, poucas décadas depois, havia já várias fábricas de maçapão na cidade. O maçapão era agora mais barato, ao mesmo tempo que aumentava o poder de compra dos consumidores; e espalhou-se pelo norte da Europa. [2]    


Já a história do consumo de bacalhau em Portugal não é em nada semelhante. Não se trata, neste caso, de um produto de luxo que se tornou depois mais acessível a todos.  

Muito consumido em Portugal desde o séc. XVI, o bacalhau sempre foi comida do povo, uma situação que não era, aliás, exclusiva de Portugal: o bacalhau foi, durante séculos, um produto de consumo comum em toda a Europa, sobretudo entre as classes mais pobres. Dizem José Manuel Sobral e Patrícia Rodrigues no seu estudo O fiel amigo: o bacalhau e a identidade portuguesa :  

Cremos que a razão da [exaltação do bacalhau] em Portugal radica, em última instância, na celebração pelas classes populares rurais e urbanas de um alimento que enriqueceu uma dieta secular pobríssima feita de pão e de alguns vegetais ou toucinho. 

Agora, se nos séculos XV e XVI os portugueses iam pescar bacalhau no Atlântico Norte, entre o século XVI e fins dos séc. XIX o bacalhau era todo importado; e, mesmo quando a pesca nacional de bacalhau foi aumentando ao longo do século XX e Portugal chegou brevemente a ser, na década de 1950, o maior pescador mundial de bacalhau, continuou a importar-se cerca de um quarto do bacalhau consumido.  

Passados 70 anos, o bacalhau é de novo todo importado, como o foi durante séculos, e continuamos a ser de longe os maiores consumidores de bacalhau do mundo, como já somos pelo menos desde os anos 30 do século XX. Mas não só de bacalhau — de peixe em geral. Todos os dados que encontro sobre o consumo de peixe indicam que, se excetuarmos pequenos territórios insulares, Portugal é atualmente o maior consumidor de peixe per capita. E 80% do peixe que se come em Portugal é, como o bacalhau, importado. [3]  

Não vou desenvolver esta questão, por muito que ela seja interessante. O que me interessa aqui salientar é que não é preciso um produto existir num determinado sítio para fazer parte da gastronomia desse sítio. O preço é com certeza uma condicionante, mas mesmo um preço elevado não parece fazer excluir totalmente um produto que tenha passado a fazer parte de uma tradição — do que se considera normal. E, para isso, pode haver várias razões: por exemplo, pode ter-se tornado um produto alimentar de base por ter sido já considerado de elite ou, no extremo oposto, por ter sido a mais barata fonte de proteína para as classes populares — e talvez por muitas outras possíveis razões entre estes dois extremos… 

E o que é que se pode considerar tradicional?  

Conheci também há pouco tempo um brevíssimo ciclo de quatro canções de Leonard Bernstein , cujos textos são excertos de receitas de La Bonne Cuisine Française , um clássico de Emile Dumont, de 1889 . A receita de plum pudding de Dumont pede, como única gordura, sebo de rim de vaca, de que se devem retirar todas as peles e veios, e picar até ficar reduzido a pó fino. Acho que quem se proponha hoje seguir estas receitas substitui a gordura de rim de vaca por manteiga, não vos parece? Ou banha, vá que seja — ainda há bolos feitos com banha, mesmo industriais. Mas gordura de rim de vaca?

Se uma receita de fins do século XIX nos pode parecer exótica, mais exóticas nos podem parecer receitas mais antigas. Tive um livro chamado Notas de Cozinha , de Leonardo da Vinci, que me serviu de introdução à estranheza da gastronomia do passado. Como já não tenho o livro de notas de Leonardo da Vinci em português, traduzo uma receita d a versão em espanhol a que tenho acesso: 

Sopa de amêndoa 

Fervem-se alguns nabos tenros numa panela onde se pôs uma cabeça de ovelha cozida; depois, desfaz-se tudo com sal, pimenta e sementes de cominho, junta-se-lhes um ovo para ligar esta mistura e com ela fazem-se bolas e outras formas que se cobrem com migas de pão. No centro de cada uma destas bolas e formas coloca-se um testículo de borrego cozido. Põe-se tudo [a fritar] numa frigideira com óleo até ficar duro e castanho e serve-se.   

Leonardo da Vinci acrescenta que desconhece por que razão este «famoso prato milanês» é conhecido como sopa de amêndoas e eu também não faço ideia. Talvez amêndoas fosse um termo eufemístico para testículos. Mas o que me interessa aqui é o facto de ser um prato conhecido. Não se fica a saber quem o comia, é certo, e um problema destes livros de receitas antigos é darem conta apenas do que se comia nas casas dos ricos. Parece-me provável, até pelos ingredientes, que este prato não fosse comido apenas em banquetes de nobres, mas não sei… 

José Manuel Sobral e Patrícia Rodrigues notam, no texto atrás referido, que não há receitas de bacalhau no mais antigo livro de cozinha português, A Arte de Cozinha , de Domingos Rodriguez, de 1680, e esse reparo fez-me revisitar o livro, que eu já conhecia. Domingos Rodriguez foi cozinheiro do Conde de Vimioso e do rei Pedro II, de maneira que aqui não temos dúvidas de que é da cozinha dos ricos que se trata. Há, neste livro, muitas receitas que nos parecem hoje estranhíssimas, algumas com quantidades enormes de ovos, com muito açúcar e fruta em pratos de carne, etc. Deixo aqui uma, que escolhi porque Domingos Rodriguez a descreve como «um prato ordinário» (no sentido de «comum», nota-se, não no sentido pejorativo que muitas vezes tem hoje) e deixo aqui a grafia original, que lhe dá outro… sabor.  [4]   

Sopa de qualquer genero de aßado.  

Feito hum vintem de paõ em fatias, ponhaſe hũa cama dellas em hũa frigideira grande untada de manteiga, cubraõ-ſe de açucar, & de canella, & ſobre eſta cama ponhaſe outra da meſma ſorte, & por cima della hũa pequena de manteiga de vaca lavada, & açafraõ, deitem-lhe hum pouco de caldo de galinha, ou de carneiro, & deixe-ſe eſtofar de vagar em pouco lume; & logo tirandoſe fóra do lume, deitem-lhe huma duſia de ovos por cima (ou menos, conforme for a frigideira) com açucar, & canella : feito iſlo, tomeſe hũa tampa com lume, & ponha-ſe hũ pouco levantada ſobre a ſopa até que tome boa cor ; tirada da frigideira, & poſta no prato, ſe trinchará o aſſado, que podem fer galinhas, ou frangãos, ou põbos, ou perùs. Este he hum prato ordinario.

Chamou-me a atenção o surpreendente requinte técnico do «gratinado» com a tampa a arder colocada por sobre a frigideira. 

Mas não há dúvida de que o passado é um país distante. E as tradições, essas, não são na maioria muito antigas. Também na gastronomia. Quantos anos têm as receitas tradicionais portuguesas, francesas ou italianas que todos conhecemos hoje? De cada vez que me ponho a explorar a história de uma delas, descubro sempre que não são tão antigas como isso. [5]  

De maneira que insisto, espraiando a partir da gastronomia: não tentemos dar aos elementos que se dizem constituir uma identidade nacional um caráter trans-histórico que eles, de cada vez que se investiga, se verifica não terem. O que se come hoje em Portugal é muito mais parecido com o que come hoje na Dinamarca do que com o que se comia em Portugal há 500 anos. E o que se veste. E o que se pensa. Etc.  


Imagens:
[Muitos quilos de passas] Membros da União dos Cozinheiros preparando um plum-pudding gigante, xilogravura para o jornal The Illustrated London News de 3.1.1863, daqui
[Outros maçapães nórdicos] A fábrica de maçapão M. Zappa na Schloßplatz de Königsberg, atual Calininegrado. Carta postal, autor desconhecido, s.d. anterior a 1914. Bildarchiv Ostpreußen, daqui. 
[Terra nova e Labrador] Barco de pesca com bacalhau (e halibute pendurado), foto de N.B (?) Miller, s.d. (anterior a 1927), Biblioteca do Congresso dos EUA, daqui. 

____________________

Notas:

[1] Não encontrei nada específico sobre a história das passas de uva no norte da Europa, mas vários sites dizem o mesmo que esta página  ou esta página , por exemplo. Para uma cronologia da história das passas de uva, ver aqui .  

[2] Esta informação é tirada das páginas da Wikipédia sobre o massapão de Lübeck em três línguas diferentes, que se completam: as páginas   em francês, em alemão e em inglês . 

[3] Toda a informação sobre o bacalhau é tirada de duas fontes, que aconselho: o estudo de José Manuel Sobral e Patrícia Rodrigues O fiel amigo: o bacalhau e a identidade portuguesa (2013) e o episódio «Faina maior, a pesca do bacalhau»  (2015) da série televisiva História a História,  de Fernando Rosas, que inclui uma entrevista a um especialista da história do bacalhau, Álvaro Garrido. Para Informação sobre a importação de peixe, ver aqui ou aqui .

[4] A página em inglês do artigo da Wikipédia sobre Alfred Korzybski inclui um curioso episódio referido num jornal neerlandês, que eu traduzo: 

Um dia, Korzybski estava a dar uma aula e, de repente, interrompeu-a a aula para tirar da pasta um pacote de bolachas, embrulhado em papel branco. Disse que precisava mesmo de comer alguma coisa e perguntou aos alunos da primeira fila se também queriam uma bolachinha. Alguns estudantes aceitaram uma bolacha. «Boas bolachas, não acham?», perguntou Korzybski, e comeu mais uma. [..] Depois, rasgou o papel branco onde as bolachas estavam embrulhadas, mostrando a embalagem original. Via-se uma imagem de um focinho de cão e as palavras «bolachas para cães». Quando os alunos viram a embalagem, ficaram chocados. Dois deles sentiram vómitos, taparam a boca com as mãos e saíram da sala a correr. «Vejam», comentou Korzybski, «acabo de demonstrar que as pessoas não comem só comida, mas também palavras, e que às vezes conta mais o sabor das palavras que o sabor da comida.

Peço desculpa pela excursão, mas gosto muito desta história. 

[5] Como diz Luís Pontes no seu blogue, 

[a] ideia generalizada de que aquilo que comemos e a que se convencionou chamar «cozinha tradicional portuguesa» é um património que nos acompanha enquanto povo desde tempos imemoriais é um dos mais lamentáveis logros, que nos é vendido por uma certa «gastronomia» que, à falta da criatividade e reinvenção de que a Gastronomia é feita, nos impinge uma cozinha geralmente com meia dúzia de dezenas de anos (a cozinha de infância destes gastrónomos), que tem sido perpetuada numa visão museográfica da cozinha [...] .



28/05/26

Recordações de infância: o amolador


A nostalgia coletiva é um fator de identidade. Um dos nossos vários círculos identitários é constituído pelas pessoas com recordações de juventude semelhantes às nossas: «E lembras-te de quando apareceram os iogurtes, naqueles boiões de vidro?»

Bem vistas as coisas, talvez não seja exatamente um círculo, mas sim vários, porque algumas destas recordações são muito locais («Lembras-te daquelas grandes tardes de futebol ali na praceta»?), outras são um bocadinho menos locais («E os homens que vendiam bolacha americana, lembras-te?»), e, no mundo moderno, outras são até bastante mais globais: «E do Bonanza, lembras-te? E do Santo?» «Perfeitamente. E do Ironside? A minha avó chamava-lhe «homem das rodas», não conseguia dizer Ironside.» 

E depois, há recordações que tendemos a considerar locais, quando na realidade podem ser partilhadas com gente de muito longe do território da nossa infância. A última vez que vi um limpa-chaminés, que, para mim já só existia nas minhas nebulosas recordações de infância, foi em Copenhaga há cerca de 25 anos. Já são raríssimos em todo o lado e podem recordar-se com a mesma nostalgia com que se recordam as primeiras calças à boca de sino.

Outro exemplo de algo que se pode recordar em conversas nostálgicas com alemães, italianos ou argentinos da nossa idade («Lembras-te?...») é a figura do amolador, uma figura que foi já comum em todo o mundo e que em todo o mundo está em vias de extinção, quando não está mesmo extinta... E que é o tema deste muito breve artigo, em que pouco mais faço que juntar aqui algumas fotografias e alguns vídeos. Não há nada mais irritante que lâminas que não cortem, não é verdade?

Evidentemente, os amoladores não foram sempre iguais em todos os tempos e lugares — e não se anunciaram, nem anunciam, todos com o mesmo som. O som é, curiosamente, o que primeiro me vem à cabeça quando penso num amolador. E o som que eu associo ao amolador da minha infância, a escala ascendente e depois descendente numa flauta de Pã de plástico, parece ser comum, com muito pequenas variações, aos amoladores de línguas ibéricas, dos Pirenéus à América Latina. 

Em França, ao que consegui descobrir, os amoladores de antanho anunciavam a sua passagem não com uma flauta de Pã, mas sim com um sino. E andavam, como em muitos outros países, com carrinhos de mão. Quase de certeza também em Portugal, antes do meu tempo, mas não sei..

Também nunca tinha ouvido falar, antes da pesquisa que fiz para este texto, de carrinhos de amolador puxados por cães, que parece que eram comuns nalguns países.

As pessoas da minha geração de vários países, porém, provavelmente já só se lembram de amoladores de bicicleta, motorizada ou furgoneta. A minha mulher, dinamarquesa, diz que os da juventude dela andavam de ciclomotor.  Uma enciclopédia sueca em linha, por exemplo, diz que, antigamente, os amoladores «tinham geralmente equipamento móvel, frequentemente sob a forma de uma bicicleta adaptada em se que acionava a pedra de amolar com os pedais» — exatamente com os que eu conheci em Portugal. 

O verbo português amolar não perdeu o l intervocálico latino, como perderam mó, moer ou moinho, que são parentes próximos. As palavras para designar o amolador são semelhantes à portuguesa em várias línguas romances e têm todas relação com mó (mola- , em latim), como em português: amolador ou amolanchín existem em espanhol, a par do mais comum afilador; em catalão diz-se esmolet, esmolaire ou esmolador; em occitano  amolaire ou amoulaire; mołeta em véneto; ammulatóre em tarentino; ammuola forbece («amola-tesouras») em napolitano; e ammola/ammula cuteddi («amola-facas») em siciliano. Em galego, porém, que é a língua mais próxima do português, amolador diz-se afiador . 

É interessante notar, a propósito, que encontrei em vários sítios a informação de que, em Espanha, os amoladores vinham quase sempre da província galega de Ourense.  A Wikipédia em galego também dá conta deste fenómeno (traduzo eu): «O ofício consolidou-se com especial intensidade na Galiza interior, documentando-se a presença de amoladores ambulantes pelo menos desde finais do século XVII. A maioria procedia de zonas rurais da província de Ourense, onde o trabalho de amolador funcionava como estratégia económica complementar à agricultura.»

Os amoladores galegos chegaram até a criar um calão profissional, o barallete, para não serem compreendidos pelas outras pessoas. 



P. S. 1: É interessante constatar que ainda há quem decida lançar-se com entusiasmo numa profissão que geralmente se considera condenada a desaparecer. É o caso de Gaël Charlot, na província francesa dos Altos Alpes. Não posso inserir aqui o documentário sobre este jovem amolador, mas podem vê-lo no YouTube  (só em francês, sem legendas disponíveis).

P.S. 2: Também há canções sobre amoladores. Deixo aqui três, uma argentina, uma italiana e uma francesa. A primeira é uma valsa ranchera de 1932, pela «voz romântica do tango», Agustín Magaldi; a segunda é de Luciano Tajoli e foi editada em 1951; e a terceira é de 1952 e é cantada por André Claveau.

P.S. 3: O mais completo repositório de imagens sobre o ofício de amolador que encontrei é 12 Eeuwen Scharensliep («12 séculos de amoladores»), um vídeo de quase uma hora. Infelizmente, as legendas explicativas são só em neerlandês. O vídeo é feito com uma sequência de fotografias, pinturas e desenhos de várias épocas e vários sítios, e mostra todo o tipo de amoladores, fixos ou ambulantes, incluindo carrinhos de vários tipos. A partir de 30:00 e até 43:40, é intercalado um filme alemão (também só com legendas em neerlandês) que mostra o processo tradicional de fazer uma pedra de amolar. 

P.S. 4:  A página da Wikipédia sobre o ofício existe em 23 línguas, com quantidades de informação variáveis. A página em inglês é a mais completa.

_____________________

As fotografias são Wikimedia Commons. 1. Amolador em Amersfoort, Países Baixos, 1909: 2. Amolador em Marselha, s.d., início do séc. XX; 3. Amolador e cliente, Alemanha, 1939, foto de Richard Peter; 4. Amolador com carrinho puxado por um cão, França, postal de 1908; 5. Bicicleta de amolador e menina turista, Caorle, Itália, 1958, foto de Karl Oppolzer.









07/12/22

Conforto térmico [Crónicas de Svenddborg #45]

 

Juha Uitto: Snow heels, 13.2.14 Creative Commons, daqui

Verão é uma palavra quente e inverno uma palavra fria. Pode parecer uma efusão lírica moderna, daquelas em que se dá uma materialidade inflada à palavra «palavra»; mas não é, é apenas uma constatação simples: se, na frase anterior, entendermos palavra como embrulho de um conceito, parece que basta saber-se que é verão para se ter calor e saber-se que é inverno para se ter frio.

Diz-se que mau tempo não existe, só há roupa inapropriada. É certo, mas isso não significa que é só para o mau tempo que se deve ter roupa apropriada. E há muito quem se vista conforme a data e não conforme o tempo; quem, independentemente da temperatura que faça, ande de manga curta e calções no verão e durma de meias e roupão por cima do pijama no inverno.

Ora o verão é, aqui na Dinamarca, a estação em que há mais possibilidade de passar frio, porque as noites podem ser fresquinhas e estão amiúde desligados os aquecimentos; já que, no inverno, as casas têm sempre uma temperatura entre os 20 ºC e os 25 ºC. Por isso é que eu digo que o ideal para mim era poder passar o verão em Portugal e o inverno da Dinamarca. Mas acho que, aqui, são só as pessoas mais idosas que, por estes tempos, se agasalham dentro de casa. Deve ser algo atávico, digamos assim, que ficou do tempo em que o conforto térmico na Dinamarca era muito menor do que é agora e no inverno se passava tanto frio como em Portugal — ou mais…

Este ano, cheio de boas intenções (ok, e um bocadinho impressionados com os novos preços da energia…) decidimos que podíamos ter a casa só a 19 ºC. Mas era uma promessa de bêbedo, como se costuma dizer — ninguém quer passar um inverno assim.

Tomer Hanuka, capa de The New Yorker, 10.2.2014, pormenor



 




30/09/22

A bicicleta como meio de transporte


Segundo um estudo do Eurobarometer de 2014 baseado nas declarações de 27.000 pessoas*, a percentagem média de pessoas que usam a bicicleta como principal meio de transporte na Europa, num dia normal, é de 8%. Os países que mais se afastam da média da UE** são, no topo da tabela de utilizadores da bicicleta, os Países Baixos (36%), a Dinamarca (23%), a Hungria (22%), a Suécia (17%) e a Finlândia (14%) e, nos últimos lugares, Malta (0%), Chipre e Portugal (1%), a Irlanda, a Grécia e o Luxemburgo (2%).

É interessante notar que, se, no total europeu***, a taxa de utilização diária da bicicleta é a mesma para homens e mulheres, já se notam diferenças quando temos em conta a idade: os jovens entre os 15 e os 24 são os maiores utilizadores (11%) e, curiosamente, as pessoas com 55 anos ou mais usam um pouco mais a bicicleta que os outros (8% contra 7% entre os 25 e aos 54). Se considerarmos antes o nível de educação, é quem ainda está a estudar que mais utiliza a bicicleta (13%) e quem tem uma educação mais longa usa-a um pouco mais que quem tem menos anos de educação (8% de pessoas que acabaram de estudar depois dos 20, contra 7% de pessoas que acabaram a escola mais cedo). Depois dos estudantes, as categorias socioprofissionais que mais usam a bicicleta são desempregados (9%) e reformados (8%).

Tendo em conta estes últimos dados, poderá parecer óbvio que há razões económicas para a escolha da bicicleta como meio de transporte e, de facto, há 24% de ciclistas que dizem que a sua escolha é determinada pelo preço. Mas há outras razões que contam mais: como os utilizadores de outros meios de transporte, os ciclistas dizem usar a bicicleta por uma questão de conveniência/facilidade e de velocidade (o que significa, com certeza, que a bicicleta não é usada para longas deslocações). 22% dos ciclistas invocam também considerações de ordem ambiental para a sua escolha, uma percentagem muito maior que a dos utilizadores de outros meios de transporte com a mesma preocupação (4%).

Evidentemente, um estudo destes, baseado em entrevistas, não esboça sequer uma tentativa de explicação das grandes diferenças das taxas de utilização das bicicletas nos vários países da EU. A que se deverão?


Das quatro bicicletas cá de casa, só duas são usadas quotidianamente como meio de transporte

Invoca-se muitas vezes as condições do terreno para explicar o maior ou o menor uso da bicicleta. É indubitável que a poupança de esforço é um fator importante na escolha de opções de transporte (entra obviamente no conceito de «conveniência» do relatório da EU) e terrenos muito acidentados levam muito provavelmente a outras opções menos exigentes do ponto de vista físico. A dificuldade está, pelo menos para mim, em comparar as elevações a que estão sujeitos os ciclistas dos diferentes países. Se compararmos elevação média dos países da EU com o número de ciclistas quotidianos, não há dúvida de que os dois países onde mais se usa a bicicleta são os países com menor elevação média (os Países Baixos e a Dinamarca, com 30 m e 36 metros, respetivamente), mas acaba-se aí a correlação entre os dois valores. Também é, obviamente, uma correspondência demasiado simplista. Para se avaliar devidamente a influência do terreno na escolha da opção de transporte, teria de se ver a distribuição das pessoas no país e ter em conta não a elevação média, mas ver se são acidentadas as zonas onde as pessoas vivem e trabalham. Isto é um trabalho demasiado difícil para mim – por falta de tempo e de informação.

Também é fácil infirmar a correlação entre PNB per capita e percentagem de ciclistas, mas, mais uma vez, é capaz de ser relação que nem sequer se deva tentar estabelecer, porque, por si só, não nos dá uma ideia da percentagem de pessoas que, num país, optam pela bicicleta como meio de transporte por razões essencialmente económicas.

É bem capaz de haver uma forte componente cultural na utilização da bicicleta como meio de transporte. Usar mais ou menos a bicicleta não terá também a ver com a normalidade com que todos encaram a utilização do velocípede — ou até com o maior ou menor prestígio e associações de estatuto ligados ao seu uso? Talvez não, talvez seja eu a delirar. Ou talvez sim. Passo a descrever alguns aspectos da minha experiência pessoal na Dinamarca, que não é evidência de coisa nenhuma, claro, mas que talvez sejam interessantes para muitos dos meus leitores que não conhecem o país e que podem também servir de exemplo, precisamente, das tais diferenças culturais que talvez possam estar na base da maior utilização da bicicleta aqui.

Da segunda vez que vim à Dinamarca, no outono de 94, lembro-me de que, ao atravessar uma rua no centro da cidade, a amiga com quem eu ia apontou para um senhor que ia a passar de bicicleta e me disse que era um ministro. Não me lembro que ministro era, mas é provável que fosse o ministro das finanças ou o ministro da investigação, que são dois dos políticos conhecidos que, nos vários cargos oficiais que tiveram, costum(av)am ir para o trabalho de bicicleta. 

Quando comecei a trabalhar no centro de línguas do Ministério dos Negócios Estrangeiros em Copenhaga, em princípios de 2002, dei-me conta de que os funcionários do ministério, das mais baixas às mais altas funções, iam para o trabalho de bicicleta e, quando por ali se via um carro, tinha muitas vezes matrícula CD − um diplomata de outro país que lá tinha ido a alguma reunião. E o Google maps (foto de julho deste ano) sugere-me que as coisas não devem ter mudado muito.

Não me parece que em Portugal – e em vários outros países – isto seja possível. É claro que não quero com isto defender que é o uso da bicicleta pelas elites que explica a grande diferença na quantidade de utilizadores diários entre, por exemplo, a Dinamarca e Portugal (se bem que as elites possam sempre ser importantes como modelos de conduta…). Como disse atrás, trata-se aqui de um exemplo da (culturalmente determinada) diferença de atitude relativamente ao uso da bicicleta. Ciclistas de fato e gravata ou de fato de saia e casaco são uma coisa normal na Dinamarca, como o são ciclistas com todas as outras indumentárias possíveis.

E de todas as idades. Todos os dias de manhã, quando vou para o trabalho (de bicicleta), vejo vários pais e as mães que pedalam ao lado dos seus filhos pequenos até ao infantário ou à escola primária, onde os deixam para depois seguirem – de bicicleta, mas a maior velocidade – para o seu trabalho na vila. Também isto não creio que seja comum em Portugal e em vários outros países europeus. Mas é de pequenino que se torce o pepino, não é verdade?, como diz o conhecido refrão. Quer dizer, é assim que se interioriza que a bicicleta é um meio de transporte natural e valorizado, e se aprende a utilizá-la.

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* Não consegui encontrar estudos abrangentes mais recentes, mas a situação não se deve ter alterado muito

** Nesta altura, ainda com o Reino Unido, claro.

***O documento não apresenta todos os dados discriminados por país, infelizmente.

06/07/22

Matrículas de carros

 

Falei aqui há pouco tempo de o alfabeto latino ser o mais usado no mundo e porquê — e de como, por causa disso, muitas vezes parece que se considera o alfabeto latino mais «normal». A questão das matrículas dos carros, que referi de passagem, é, este respeito, bastante curiosa. 

A Convenção sobre Trânsito Rodoviário está em vigor desde Março de 1952. Esta convenção foi inicialmente assinada em Genebra por 20 países, em 1949, e foi posteriormente revista em Viena de Áustria em 1968 e, desde a sua primeira versão, ratificada por mais 83 países. É uma convenção claramente «latinista», se se pode dizer assim. O Anexo n.º 2, sobre «Número de matrícula dos automóveis e seus reboques em circulação internacional», diz no seu ponto 1: 
«O número de matrícula […] deve ser composto quer por numerais, quer por numerais e letras. Os numerais devem ser algarismos e as letras em caracteres latinos maiúsculos. Podem, no entanto, ser utilizados outros numerais ou caracteres, caso em que o número de matrícula deve ser repetido em algarismos e caracteres latinos maiúsculos.» 
Compreende-se que haja necessidade de standardização e compreende-se a escolha do alfabeto mais usado. Mas deve ser estranho, no mínimo, ter de usar um alfabeto outro que não o seu — ou, em última análise, um alfabeto que não se conhece. Bom, russos e búlgaros resolvem o problema de forma airosa: usam nas matrículas apenas as 12 letras do alfabeto cirílico que têm a mesma forma que letras do alfabeto latino, embora não representem forçosamente sons semelhantes: А, В, Е, К, М, Н, О, Р, С, Т, У e Х*.
Uma matrícula da Arábia Saudita, com caracteres árabes e latinos.
Como os caracteres correspondentes se sucedem na mesma ordem,
mas a escrita árabe se lê da direita para a esquerda, presumo que,
quando se diz a matrícula em árabe, se diga JNT em vez de TNJ…
(Imagem: Wikimedia Commons, 
daqui)
Agora, em muitos países em que não se usa o alfabeto latino, as matrículas têm apenas caracteres latinos e não os caracteres locais mais a sua transcrição em caracteres latinos, como a convenção permite. Na Geórgia, por exemplo, nunca há caracteres georgianos. Agora, o que é que isto implica para um georgiano que não tenha aprendidos línguas estrangeiras — ou que, quando muito, só tenha aprendido russo, como é o caso de muitos deles? A questão não é só ser obrigado a usar caracteres estrangeiros**, é também ter de usar caracteres desconhecidos. Não sei como resolvem este problema. Se calhar, quando compram um carro, decoram as letras da matrícula e a que sons elas correspondem. Mas imaginem uma conversa***: 
− რა არის თქვენი მანქანის სარეგისტრაციო ნომერი? (Qual é a matrícula do seu carro?) 
− ეე ოთხას სამოცდასამი ვვ (É, é, quatrocentos e setenta e três, vê, vê.) 
− და ამას როგორ წერ (E como é que isso se escreve?) 
E como farão para escrever no computador as matrículas, se não usam o nosso teclado? Têm de mudar de teclado (não o físico, entenda-se) e decorar no seu teclado que letras correspondem às do alfabeto latino que entram na matrícula do carro? Por exemplo, que EE-473-VV corresponde a ეე-473- ვვ… Deve ser assim. Ou haverá tendência para se usar cada vez mais teclados «internacionais» georgianos e latinos? Devia ter perguntado isto quando lá estive e não perguntei. Fica para a próxima vez. Ou talvez algum dos meus leitores me saiba responder. 

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* Muitas destas letras representam sons diferentes nas várias línguas escritas com alfabeto latino, mas H nunca representa [n], nem P representa [r], nem Y representa [u], como acontece quando usadas num alfabeto cirílico.
** O que também é uma questão interessante, em termos identitários: como reagiríamos nós se tivéssemos de usar matrículas com caracteres não latinos?
*** A tradução para georgiano foi feita com Google translator e pode estar incorreta, mas isso é irrelevante para o que aqui está em discussão.

22/10/21

Televisão: programação de 3 a 9 de outubro de 1965 [Crónicas de Svendborg #41]

Eis a programação da televisão dinamarquesa para a semana de domingo 3 de outubro até sábado 9 de outubro de 1965, tal como aparece na revista Billedbladet de 1 de outubro desse ano.

Eu tinha nessa altura seis anos. Tínhamos televisão lá em casa e tenho a impressão que a programação da televisão portuguesa era muito diferente da dinamarquesa, mas, é claro, não passa disso mesmo – uma impressão. Seria curioso encontrar uma revista com a programação da televisão portuguesa dessa altura (ou de outro país, porque não?), para verificar se era de facto assim tão diferente. 

Seja como for, surpreende-me a quantidade de programas informativos e educativos, a qualidade dos programas culturais, e o facto de, numa semana, haver apenas duas séries americanas, os Flintstones e The Defenders, uma série sobre advogados e tribunais que eu creio que nunca passou em Portugal.

DOMINGO
9:55 Missa de outono transmitida da igreja dinamarquesa de Glücksburg, na Alemanha. [Glücksburg fez já parte da Dinamarca e continua a haver na região muitos falantes do dinamarquês. Indica-se no programa o nome do pastor e os salmos que vão ser cantados.]
20:00 «Bactérias ao microscópio»: Ingvald Lieberkind fala de um filme científico russo sobre bactérias.
20:25 Ópera «O Barbeiro de Sevilha». Transmissão do Kornmarktteatret, em Bregenz, Áustria.
No intervalo:
22:05 Notícias, incluindo as notícias desportivas de domingo
23:05 Telejornal.

SEGUNDA FEIRA
9:15–9:40 «Os elementos mais pequenos da matéria»: primeiro filme da série «As moléculas na Física».
17:15–18:00 Programa «A casinha das bonecas»: 1. «Bichana de olhos azuis», primeira parte de um romance para os mais pequenos; 2. «Caça ao tesouro na biblioteca», uma visita à biblioteca familiar de Vejlby-Risskov.
20:00 Notícias.
20:20 «A criança deficiente que vive com os pais»: o apoio social oferece muito pouco aos pais que não têm seus filhos numa instituição?
21:20 Teleteatro: «A Aula», peça de Engene Ionesco.
22:15 Visita do Papa às Nações Unidas. Transmissão da mensagem do Papa Paulo IV à Assembleia Geral da ONU.
22:45 Telejornal.

TERÇA-FEIRA
9:15–9:35 «A caminho da escola»: primeiro episódio do programas sobre segurança rodoviária para os mais jovens.
11:55 Abertura do Parlamento. Transmissão do discurso de abertura do Primeiro-Ministro Jens Otto Krag no início do novo ano parlamentar.
17:30–18:00 «O que fazer?», programa sobre livros
19:30 «Walter e Connie»: 1ª e 2ª aula de «Inglês na TV»
20:00 Notícias.
20:20 O novo ano parlamentar: entrevista com o primeiro-ministro Jens Otto Krag sobre os principais pontos do discurso de abertura do ano parlamentar.
20:45 «Do desporto à arte»: a dança dos séculos XVI e XVII. 1. episódio da série «História e estética do ballet».
21.15–22.00 Programa «Horizonte»: comentários sobre a actualidade política estrangeira.

QUARTA-FEIRA
13:15–13:40 «Os elementos mais pequenos da matéria»: primeiro filme da série «As moléculas na Física». (Retransmissão).
19:30 «O corpo humano»: primeiro filme da série sobre o corpo humano.
20:00 Notícias.
20:20 «A natureza vista ao microscópio»: vamos de novo apanhar cogumelos com o Professor Morten Lange nas florestas de Sorø.
20:35 Teleteatro. «Ateljé Mia», uma peça de Lars Helgesson (Emissão da televisão sueca).
21:20 Jazz.
21:50 Programa escolar. Informação sobre uma série experimental sobre matemática.
22.30 Telejornal.

QUINTA-FEIRA
13:15–13:35 «A caminho da escola»: primeiro episódio do programas sobre segurança rodoviária para os mais jovens. (Retransmissão de 5/10 9.15).
15:15–16:00 Programa «A casinha das bonecas»: 1. «Bichana de olhos azuis», primeira parte de um romance para os mais pequenos; 2. «Caça ao tesouro na biblioteca», uma visita à biblioteca familiar de Vejlby-Risskov. (Retransmissão)
19:30 Notícias desportivas.
20:00 Notícias.
20:20 «O lago»: documentários sobre uma reserva indígena na floresta virgem do Brasil (BBC).
20:50 Com 10 centavos no bolso. Estreia dinamarquesa. Fime americano de 1941 ("Sullivan's Travels").
22:20 Telejornal.

SEXTA-FEIRA
15:30–16:00 «O que fazer?», programa sobre livros (Retransmissão).
19:30 «Os elementos mais pequenos da matéria»: primeiro filme da série «As moléculas na Física». (Retransmissão).
20:00 Notícias.
20:20 «Tons negros»: documentário sobre a vida numa fazenda branca sul–africana (BBC).
21:00 Actualidade cinematográfica («Note que esta emissão pode incluir excertos de filmes proibidos para crianças»).
21:20 Promenade Concert de Londres. Orquestra Sinfónica da BBC dirigida por Sir MaIcolm Sargent.
22:35 Telejornal.

SÁBADO
16:00 «Os Flinstones», desenhos animados
16:25 «Uma deficiência – e então?»: visitamos jovens desportistas com deficiências.
17:10–17:55 Jornal de sábado
19:30 «Walter e Connie». 1ª e 2ª aula de «Inglês na TV»
20:00 Notícias.
20:20 «As famílias do concurso “Tétrade”»: apresentação dos participantes do concurso televisivo desta noite.
20:30 «Tétrade»: Concurso musical entre famílias nórdicas, esta noite de Oslo (Nordvision da Noruega).
21:30 Programa «Duelo»: Poul Trier Pedersen entrevista dois convidados.

21/10/21

Da boa educação


Há agora no Facebook uma moda de páginas que fazem perguntas às pessoas: «Destas capitais, quais é que já visitou?», «Qual foi a sua primeira viagem de avião?», etc. Quando uma pessoa nossa amiga responde a uma destas perguntas, vemos a resposta dessa pessoa e sentimo-nos tentados a responder também, muitas vezes até mais para dialogar com a amiga ou o amigo que respondeu, creio eu.

Enfim, não costumo responder a coisas dessas e às vezes até escolho a opção de nunca mais voltar a ver a página, mas já me aconteceu cair em tentação. Aqui há umas semanas, vi uma «pergunta» que era qualquer coisa como «Se me convidarem para jantar, o meu maior medo é que seja…» E, em vez de escrever um prato qualquer que me desagrade, como escrevia toda a gente, escrevi apenas «…pouco»: «Se me convidarem para jantar, o meu maior medo é que seja pouco.»
 
Por um lado, gosto de tudo (a sério!); por outro lado, aprendi com a minha avó, uma mulher muito sábia, que, quando nos convidam para comer, a gente deve mesmo encher a barriga! Mais concretamente, a expressão dela era esta:

«Ó filho, também a gente ficar em favores e ainda por cima passar fome…»

[Pelo traço, a ilustração é quase de certeza de Charles Dana Gibson (1867– 1944), mas não tenho a certeza absoluta. Não consigo encontrar nem título nem data da obra. Uso aqui uma parte apenas da imagem original e ligeiramente modificada por mim.] 

30/12/20

Pastis, Portugal e o Mediterrâneo


Muitas pessoas consideram Portugal um país mediterrânico, embora Portugal, do ponto de vista geográfico, não seja propriamente um país mediterrânico. Mas, culturalmente, pode Portugal considerar-se mediterrânico? Bom, uma questão destas é muito difícil — se não impossível — de responder, antes de mais porque é muito difícil — se não impossível — definir «cultura mediterrânica». É bem provável que Portugal tenha traços culturais semelhantes aos dos outros países mediterrânicos, até porque partilha, em certa medida, o mesmo espaço climático, com óbvias consequências na flora e na fauna disponíveis — quer naturais, quer domesticadas. Para dar um exemplo óbvio no que respeita à gastronomia, que foi o que me motivou a escrever este texto, Portugal faz parte da zona gastronómica do azeite, um traço importante da cultura material mediterrânica. Mas não faz parte das zonas bebidas das bebidas anisadas mediterrânicas.

Pastis (Foto de Heike Schauz em Pixabay)
Disse que queria falar de gastronomia, mas, como o título do texto indica, era a este ponto específico da gastronomia que eu queria chegar: as bebidas anisadas mediterrânicas. É certo que há em Portugal anis escarchado, mas é preciso muito boa vontade para classificar o anis escarchado na mesma categoria que o arak do Médio Oriente, Norte de África e Turquia, o raki turco, o ouzo grego, a Sambuca italiana ou o pastis francês. E não só por não se observar no anis escarchado o chamado efeito ouzo, que se observa nestas bebidas (ficar leitoso quando se junta água) — mas também porque é uma bebida com outro tipo de sabor.

Creio lembrar-me — mas a memória é sempre muito falível, ainda mais quando uma pessoa já vai nos 60, como eu — que tentaram a certa altura introduzir Ricard em Portugal, sem êxito nenhum. E lembro-me de que, em Lisboa, pelo menos, ninguém sabia quanto devia levar pelo Ricard esquecido nas prateleiras de bares e cafés, e nem como o devia servir, e várias vezes me aproveitei disso, pagando muito pouco por doses muito grandes.

Mas a que propósito vem tudo isto? É que recebi de prenda de Natal um kit de produção de pastis: aguardente a 40% (de batata ou de trigo, não sei) dessa «sem sabor», que se usa para, juntando-se-lhe especiarias várias, fazer akvavit condimentada; álcool etílico a 96%; e pacotes de anis de estrela, sementes de anis, sementes de funcho, sementes de coentros e raiz de alcaçuz. O resultado há de ser um pastis de estalo — eu nunca o fiz, mas já o bebi feito com a receita que vou utilizar e, creiam-me, é melhor que Ricard ou 51… Agora, talvez vos surpreenda, como me surpreendeu a mim, usarem-se dois tipos de álcool de base: porque não um apenas, mais ou menos diluído? Garante-me o amigo que me deu a receita que, se não se usar uma parte de álcool puro, não se obtém o tal efeito ouzo. Não tenho, infelizmente, conhecimentos de química que me permitam avaliar, já nem digo a veracidade mas, pelo menos, a plausibilidade da asserção do meu amigo. Podia investigar, mas não me apetece. E menos me apetece correr riscos: pastis que não fica branco quando se lhe mistura água, não, obrigado. De maneira que sigo a receita e não penso mais no assunto.

Para terminar, uma pequena nota algo lateral, a propósito de dois ingredientes do meu pastis: estou em crer que o alcaçuz e os coentros afastam Portugal não só do Mediterrâneo, mas de toda a Europa. Em toda a Europa que eu conheço se consomem doces de alcaçuz ou pastilhas de alcaçuz forte, mas a minha experiência é que os portugueses torcem sempre o nariz (literalmente) quando alguém lhos dá a provar. Quanto aos coentros, se as sementes não parecem ter muito uso na cozinha portuguesa (pelo menos, na que eu conheço…), já a utilização das folhas frescas da planta dá à cozinha portuguesa uma grande originalidade no contexto Europeu — acho que, saindo de Portugal e correndo toda a Europa, só se voltam a encontrar coentros frescos na Turquia. Ou estou a exagerar?


03/07/20

Do pão estaladiço da infância [Crónicas de Svendborg #37]


Os escandinavos têm umas bolachas finas e crocantes, com mais centeio que trigo, a que chamam pão estaladiço.

Este knäckebröd (deixem-me usar o nome sueco, já que parece que foi na Suécia que ele surgiu) tem uma característica curiosa: é mais ondulado de um lado que do outro, para assim satisfazer tanto quem gosta de o barrar com muita manteiga ou muito doce como quem gosta de menos manteiga ou menos doce no pão.

Alguns de vocês lembrar-se-ão, como eu me lembro, de um adulto alguma vez vos repreender que «oh filho, isso é não é pão com manteiga (ou queijo, ou o que fosse), isso é mais manteiga com pão»; mas, como não comiam knäckebröd, nunca ninguém vos disse, como a mãe de uma amiga minha lhe dizia, «olha que te enganaste no lado, é do outro lado é que se põe manteiga».


27/10/19

Roupa, estratégia e moral

No disco Burnt Weeny Sandwich, de Frank Zappa, ouve-se, a certa altura, uma pessoa protestar aos gritos contra um homem de uniforme que tenta acalmar os espetadores e lhes pede que voltem aos seus lugares (traduzo eu)*:
– Levem daqui esse homem!– diz o irado espetador. – Vai-te embora! Despe essa farda, pá! Despe essa porcaria desse uniforme, pá, antes que seja tarde demais! 
A resposta de Frank Zappa é célebre, pelo menos entre os seus cultores:
– Toda a gente nesta sala está de uniforme. Não te iludas. 
*** 
Estátua de homem romano com toga, séc. II d. C.
De Tindari, província de Messina, Sicília.
Museu Arqueológico Antonio Salinas, Palermo.
(Wikimedia Commons, daqui) 
O que se critica muitas vezes nos uniformes, ou, de forma mais geral, nos códigos estritos de vestuário, é fazerem parte de um imaginário e serem expressão de uma ideologia — de uniformização, precisamente, de anulação do individual. De facto (e perdoem-me a banalidade), todas as convenções de vestuário—e, em última análise, também muitos padrões de «quebra» dessas convenções—servem, obviamente, para marcar funções, papéis, lugares nas estruturas sociais. Há roupa de homem e de mulher, de criança e de adulto, roupa formal e informal, enfim, roupa para cada qual no seu lugar. E é algo que interiorizamos e fica fundo em nós: aos homens, custa-lhes vestir uma camisa que abotoe à mulher; uns acham bimbo (seja lá o que for que isso quer dizer…) usar sandálias com meias; outros acham que não se deve usar mocassins com fato completo, etc., etc.

Percebe-se bem, creio eu, onde Zappa quer chegar: mesmo os jovens contestatários da altura, que chocavam pelo seu vestuário extravagante, estavam a seguir um código de vestuário relativamente estrito. Já me aconteceu não poder entrar num bar por ir de jeans e blusão de cabedal, e também já me aconteceu não poder entrar por ir de fato completo… O padrão varia de lugar para lugar, de grupo social para grupo social, mas há sempre um padrão – ou não? E tem mesmo de ser assim? E deve ser assim?

Agora, um uniforme, bem vistas as coisas, também pode ter as suas vantagens. Quando vivíamos em Moçambique, os nossos filhos usavam uniforme na escola—como todas as crianças das zonas urbanas daquela parte de África, aliás, e de outras partes do mundo—e isso facilitava a vida de pais e filhos, porque não era preciso escolher diariamente a roupa e porque se estragava só o uniforme (que se destinava, em parte, a isso mesmo...). Havia também quem argumentasse, não sei se com muita razão, que era uma forma de diminuir as marcas de classe social, porque assim não se podia exibir roupa de marcas caras e outros sinais exteriores de abastança.

E depois, há uniformes de vários tipos, como dizia o Zappa. Trabalhei alguns anos no Centro de Línguas do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Dinamarca, em Copenhaga, e tornou-se claro para mim que havia aí também, mais que um código de vestuário, um verdadeiro uniforme: fatos cinzentos, camisas brancas ou azuis e sapatos pretos de atacador. Ok, podiam variar um pouco mais gravatas e meias, mas pouco. Por comodidade, adotei também esse uniforme não-oficial—também me dava jeito não ter de escolher roupa todos os dias e anonimizar-me mais naquele ambiente.

A minha mulher gosta de contar a seguinte história: um dia, era ela jovem e contestatária, criticou a sensaboria e a falta de personalidade do fato e gravata que o seu pai usava todos os dias.

– Sabes que eu quero que as pessoas oiçam com atenção o que tenho para lhes dizer. Então uso uma roupa em que elas não reparem, que seja o mais possível o que elas esperam que eu use—para não pensarem na roupa que eu visto em vez de pensarem no que eu lhes digo.

É uma escolha estratégica compreensível e estou convencido de que, de forma mais ou menos consciente, é essa a escolha de muita gente. Mas na estratégia não há moral. Se passarmos do ponto de vista tático ao ponto de vista ético, é exigível, parece-me, o contrário do que essa estratégia pressupõe: tenho direito a que ouçam o que tenho para dizer, independentemente da maneira como vá vestido; e tenho, claro está, direito a que não me julguem pela roupa que visto.





_______________
* Entre as faixas “Little house I used to live in” e “Valarie”. Excerto gravado ao vivo Royal Albert Hall, Londres, a 6 de junho de 1969 

15/01/19

Da trivialidade

Num romance ou num filme não se referem normalmente idas à casa de banho, as horas diárias de sono, compras e preparação de refeição, tudo aquilo que faz a maior parte da vida de toda a gente. Ou, se se referem, referem-se de passagem, talvez para ajudar a caracterizar uma personagem ou no meio de uma sequência de acontecimentos, mas nunca – nem de muito longe – se gasta com essas chatas banalidades espaço narrativo proporcional ao que ocupam na vida real. Isto é só uma introdução a outra coisa, que não é de narrativas que vos quero falar.


É comum afirmar-se que, ao aprender uma língua estrangeira, se ganha acesso à cultura das pessoas que a falam. Uma língua é, diz-se, uma porta aberta para as especificidades da cada cultura, para o que é único de um determinado grupo humano. E há muito de verdade nesta afirmação. A língua é, de facto, condição necessária para aceder à cultura – se bem que insuficiente. Para se conhecer a cultura do Idaho, do Yorkshire ou da Irlanda no Norte, por exemplo, não basta saber inglês, mas é de facto impossível conhecer devidamente (uma grande parte d)a cultura destes lugares sem falar inglês.

O que eu queria aqui sublinhar é, digamos assim, o outro lado da questão. Saber a língua de um grupo de pessoas serve também para perceber que elas são iguais a nós. E isto é tão importante como compreender as suas especificidades. Costumo dizer a brincar – mas ao mesmo tempo muito a sério – que os dinamarqueses eram mais interessantes antes de eu falar dinamarquês, porque, observando-os apenas sem compreender o que diziam, os imaginava a falarem entre eles das coisas de que falavam comigo em inglês. Nas conversas com estrangeiros, evita-se o trivial, como na literatura e no cinema. Quando alguém de fora me visita, falo-lhe, sei lá…, da história e da arquitetura da zona, de política, do que de mais interessante me ocupa o espírito. Não lhe falo das conversas da última reunião de pais, nem dos vulgares desentendimentos com colegas ou familiares, nem da diferença de produtos e preços das lojas locais, da vizinha que, coitada, tem andado adoentada, de utensílios de cozinha a precisar de substituição, ou os estofos de cadeira, nem da limpeza dos algerozes ou da revisão do carro… E, claro está, os dinamarqueses, os portugueses, os franceses, os moçambicanos, os bolivianos e os outros humanos todos passam uma grande parte da sua vida a falar de coisas corriqueiras. A sua quotidiana trivialidade é também uma parte essencial da sua cultura – que partilham com todas as outras pessoas.

12/12/17

Obrigado pela dança [Crónicas de Svendborg #27]


Imagem: Pixabay. CC0 Creative Commons
Na Dinamarca, é costume agradecer certas coisas que em Portugal não temos por hábito agradecer. Por exemplo, quando se acaba de comer, diz-se sempre «obrigado pela comida» a quem fez a comida; quando se acaba um jogo – de bilhar, ténis, seja do que for –, diz-se «obrigado pelo jogo»; quando uma pessoa se vai embora, diz «obrigado por agora»; e, quando encontra de novo uma pessoa com quem se esteve em qualquer situação de convívio, diz «obrigado pela última vez». Etc., etc., etc. Aqui na zona, que é zona rural, muita gente até agradece ao motorista, quando sai do autocarro: «Obrigado pela viagem!» Sei que tudo isto é muito semelhante nos outros países escandinavos, pelo menos, mas não sei se é exatamente igual.

Agora, todos conhecem aquela situação em que duas pessoas se cruzam num espaço estreito e uma desvia-se para a direita e a que vem no sentido contrário para a esquerda e quase chocam e desviam-se as duas para o lado contrário e esbarram de novo uma na outra e repetem a mesma coisa mais uma ou duas vezes, com uns desculpas e uns sorrisos pelo meio, até que, finalmente, lá conseguem passar…. Nessa situação, já ouvi mais que uma vez uma pessoa dizer à outra, no fim, com ar galhofeiro:

«Obrigado pela dança!» 
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Nota talvez desnecessária, para o caso de alguém ler aqui o que não era minha intenção escrever:

Este texto não é sobre cortesia. É sobre uma piada que eu vi alguém fazer na rua. E achei curioso ter já visto a mesma piada antes. Das duas, uma: ou foi por coincidência que pessoas diferentes fizeram a mesma piada, ou a piada está espalhar-se. É bem possível que eu, da próxima vez também diga «obrigado pela dança» à pessoa com que que esbarro e que hesita, como eu, no lado para que deve desviar-se. Mas não é uma expressão, nada disso. Contei o acontecido à minha mulher e ela, que nunca tinha ouvido essa piada, riu-se, naturalmente. Agora, para contar a piada, tinha de fazer uma pequena introdução ao «obrigado por» escandinavo, que é o que motiva a piada. É só isso.

Quando à cortesia propriamente dita, a minha experiência é que a cortesia é sensivelmente igual em todo o lado. Vivi em sítios muito diferentes uns dos outros, mas, se em todo o lado vi pessoas mais corteses que outras, não vi diferenças no grau geral de cortesia de uns sítios para os outros. E, no fundo, as pessoas agradecem, pedem desculpa, condoem-se e aplaudem de formas semelhantes em situações semelhantes. As variações são de superfície, de pequenas fórmulas ou rituaizinhos que fazem parte dos hábitos em certos lugares.

Os portugueses não podem agradecer e alguns agradecem de facto as mesmas coisas que os escandinavos e longe de mim ver maior cortesia nos hábitos dinamarqueses que portugueses. É certo que, em Portugal e em muitos outros países, quando se dá por terminada a refeição, não diz toda a gente, quase em coro «obrigado pela comida», como acontece aqui em todas as refeições. Se, ponhamos, dois casais passam uma tarde juntos, a fazer seja lá o que for, não é normal em Portugal dizerem, quando se separam para irem cada um para sua casa, «obrigado por hoje» ou «obrigado por esta vez», como aqui é. E, no outro dia, quando se encontram, não se cumprimentam com «obrigado por ontem», como se faz aqui. Mas não vejo que haja por essas diferençazinhas nem maior nem menor educação num ou noutro lugar.