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15/11/23

A história de Charles e de outros poliglotas

Conheço um senhor chamado Charles que nasceu na Occitânia, já não me lembro onde, por alturas do início da Segunda Guerra Mundial. Os pais dele eram judeus polacos da Galícia (que faz hoje parte da Ucrânia) e tinham fugido para França das perseguições aos judeus na sua terra. Não me lembro já porquê (talvez o pai e a mãe tivessem línguas maternas diferentes), Charles aprendeu em casa o iídiche e o polaco. Na rua, aprendeu occitano. E só quando entrou para a escola começou a aprender francês, que é hoje a língua que melhor domina. Mais tarde, porque o trabalho o levou para outros países, aprendeu também inglês e alemão (que foi fácil para ele, por já saber iídiche), mas isso é outra história. 

Esta história de plurilinguismo, que parecerá estranha a quem cresceu e viveu sempre numa língua só, como é o caso da grande maioria dos portugueses, não é tão extraordinária como isso. Um dos melhores amigos do meu filho na Escola Internacional de Chimoio, em Moçambique, o Wilhelm, era alemão e, quando viemos para a Dinamarca, a família do Wilhelm mudou-se também para a Alemanha. Quando o fomos um dia visitar perto de Niböl, não muito longe da fronteira dano-alemã, ficámos a saber que coexistiam ali pessoas de quatro línguas maternas.  O amigo do meu filho falava português, inglês e alemão (alemão standard, alto-alemão) e andava agora numa escola dinamarquesa, onde aprendia dinamarquês e alemão. Os pais tinham escolhido a escola dinamarquesa porque achavam que era a melhor da zona, e há ali uma escola dinamarquesa porque vivem ali muitas famílias (alemãs) de língua dinamarquesa, até porque a região fez, durante muito tempo, parte da Dinamarca. Mas também há, na zona, quem tenha o baixo-alemão como língua materna e o frísio. No sul da Dinamarca, também há ainda famílias que têm o alemão como língua materna. Não sei se alguma vez houve quem tivesse o baixo-alemão como língua materna na Dinamarca, nunca ouvi nem li nada sobre isso, mas sei que já houve falantes de frísio, que agora já não existem. O frísio é ainda uma das línguas oficiais dos Países Baixos, e, entre este país e a Alemanha, tem agora cerca de 480.000 falantes nativos. 

A escolarização é em parte responsável pelo desaparecimento de muitas línguas que os governos das várias nações não quiseram durante muito tempo considerar oficiais e que não foram, por isso, línguas de ensino e administração. Além disso, os estados-nação modernos tiveram, muitas vezes, políticas de repressão brutal das línguas que não eram consideradas oficiais. 

França é um bom exemplo dessa erradicação das línguas nacionais — violenta e bastante bem-sucedida —, mas não é o único. Fiz as minhas primeiras viagens em França em 1976 e ainda cheguei a encontrar franceses, falantes de catalão ou de poitevino-saintongês, que falavam pouco francês (e cheguei até a conhecer dois deles, um casal, quando vivi num lugarejo perto de Niort), mas os jovens franceses de hoje já não têm como língua materna o provençal, o occitano, o bretão, o catalão, o picardo, o normando e por aí fora. Com sorte, e sobretudo se não forem de uma cidade grande, ainda compreendem um bocadinho dessas línguas, porque as ouviram ou ouvem falar aos mais velhos. E o mesmo em Itália e em muito outros países. 

Conheci há pouco tempo o Luigi, um genovês de trinta e cinco anos, que dizia saber mesmo muito pouco genovês (ou lígure, se preferirem).  Dizia que, às pessoas citadinas da idade dele ou mais jovens, não lhes servia de nada o genovês. Se vivesse no campo, era capaz de ter aprendido. Mas chateava-o, na sua qualidade fã de Fabrizio de André, só compreender as letras em italiano oficial (toscano) e não perceber as outras que o grande cantautor fez na língua da sua cidade natal. Na Ligúria, menos de 10% das pessoas falam lígure. Nem sempre a situação das outras línguas italianas (veneto, friulano, piemontês, lombardo, siciliano, tantas que há…) é tão grave como a do genovês, mas estão todas ou definitivamente ameaçadas ou gravemente ameaçadas, para usar a terminologia do UNESCO. Curiosamente, as línguas que, nas regiões onde são faladas, têm maior percentagem de falantes nativos relativamente ao italiano não são línguas latinas, mas sim línguas germânicas — falares tiroleses e alemânicos.

Passando agora da Europa para África, também conheci em Moçambique muitos poliglotas. Moçambique tem muitas línguas (contam-se entre oito e 41, mas é sempre difícil contar línguas) e as pessoas com formação profissional começaram a ter muita mobilidade. Funcionários do Estado a maior parte deles, iam sendo colocados em vários lugares, onde ficavam quatro ou cinco anos. Dou-vos um exemplo de um senhor que conheci chamado Monteiro. O Monteiro era do Alto Molócuè e de língua materna lómuè, mas tinha estudado em Quelimane, onde tinha adquirido um nível razoável de chuabo e depois trabalhado muito tempo em Maputo, onde aprendeu bastante ronga e changana, e depois de uns anos na sua terra natal, mudou-se para Chimoio, onde aprendeu chona. Além disso, também falava muito bem português, como seria de esperar de uma pessoa com o seu nível de educação, toda ela em português. Em Moçambique, é o português que cresce a olhos vistos (língua materna de cerca de 5% da população em meados dos anos 90, é agora a língua materna de cerca de 17% dos moçambicanos), mas não há, por enquanto, perigo de abafar completamente as línguas com que convive. Por enquanto.     

E isto tudo a propósito de quê? De nada de especial, é mais um texto ao correr do teclado, a propósito de línguas e pessoas que conheço e recordações de viagens. Falo aqui de duas coisas diferentes: de sítios onde se falam várias línguas e de pessoas que falam várias línguas. São coisas diferentes. Há pessoas que falam só uma língua, embora sejam de sítios onde se falam várias; e há pessoas que falam várias línguas e são de sítios onde se fala só uma. Agora, feliz ou infelizmente — vocês julgarão, com a cabeça e com o coração — cada vez se fala mais a língua oficial de cada país e as outras vão desaparecendo…

Como se ilustra um texto assim? Que tal uma versão frísia de uma bonita canção originalmente escrita em sueco por um cantautor de língua materna neerlandesa?

01/03/20

Polenta


Falei-vos no outro dia da palavra milho, falo-vos hoje de polenta. Sempre alimenta mais que a palavra milho…

O milho é já há bastante tempo um dos mais importantes produtos alimentares da África subsaariana, se não o mais importante. Introduzido em África no séc. XVI, o cultivo do cereal americano foi-se espalhando até se tornar uma parte fundamental da identidade cultural de muitos povos africanos. A que se deve esse sucesso do milho? A ser fácil de cultivar, sem dúvida, e a não ter um sabor muito marcado, provavelmente. Em Moçambique chama-se sadza, úchua ou chima, entre outros nomes, à massa de milho (massa é a palavra «portuguesa» do português de Moçambique...) que praticamente toda a gente come praticamente todos os dias[1]. Há até quem considere que comer sem massa não é bem comer... A massa de milho é um acompanhamento tão neutro como o arroz ou as batatas, e é assim que têm de ser, ao que dizem, todos os alimentos de base. Já li algures que é precisamente essa a razão pela qual os africanos preferem o milho branco ao milho amarelo: tem menos sabor.

Pietro Longhi:   La polenta, 1740. Coleção Ca' Rezzonico (daqui)
Creio que na América Central e do Sul, de onde é originário, o milho não se come assim em papa salgada. Quer dizer, nunca vi nem ouvi falar[2]. Mas talvez… Ao que vejo na Internet, existem papas de milho praticamente iguais em toda a Europa de Leste[3] e nas Ilhas Canárias (gofio escaldado). Antes da pesquisa que fiz para este texto, porém, nunca tinha ouvido falar delas. Em Portugal, como no resto da Europa Ocidental, as papas de milho parecem ter tido mais fortuna como prato doce que como acompanhamento salgado. Mas não é que não existam. A minha avó fazia às vezes papa laberça, uma papa de milho com couve, e já vi uma ou outra referência a essas papas ou outras desse tipo, mas não é coisa que tenha encontrado muitas vezes na vida. O Algarve parece ser uma exceção, com as suas papas de milho ou xarém. Agora, as papas de milho na Europa são quase sempre, ao que vejo, feitas com milho amarelo — o milho branco não entrou muito nos hábitos europeus.

Mas enfim, vamos à parte mais substancial do texto. Creio que a sadza de milho europeia mais conhecida internacionalmente é a polenta italiana. É acompanhamento que se come muitas vezes cá em casa e passo a descrever a polenta à minha maneira. Talvez um italiano a achasse pouco ortodoxa, não sei – também há tantas maneiras de a preparar em Itália…–, mas havia de gostar, tenho a certeza:

Faço um refogado em azeite com vários legumes (cebola, curgete, cenoura e pimento, e mais, conforme o que tenha à mão e me apeteça), deixo apurar bem e junto líquido. O melhor é caldo de carne, acho eu, depois de retirada a gordura, mas um caldo de legumes ou mesmo leite também funcionam bem. Deixo ferver e deito a farinha de milho em chuva, mexendo sempre. Tem de ser farinha de milho moída grossa, senão não fica bem. Contam-se, em princípio, quatro medidas de líquido para uma de farinha, mas isto pode variar um pouco de farinha para farinha e também depende de se querer a polenta mais ou menos grossa. Agora, o importante é deixar cozer em lume brando durante pelo menos quarenta minutos, mexendo de vez em quando, para não se pegar. Isto pode parecer um exagero, mas é assim que os italianos fazem e quando se experimentou vários tempos de cozedura, torna-se óbvio que a polenta cozida muito tempo sabe mesmo melhor. Depois de pronta, pode deitar-se queijo ralado lá dentro ou até cobri-la de queijo ralado e levar ao forno a gratinar. Lembrem-se que os restos de polenta que ficarem se podem aproveitar mais tarde cortando-os aos palitos grandes e fritando-os. É bom.

A minha polenta
Quando vivia em Moçambique, dei algumas vezes dei a provar a moçambicanos a minha polenta. «Mas isto é melhor do que massa!», disse-me uma vez uma senhora, «É massa melhorada!» E o nome pegou, lá em casa: ficou a chamar-se massa melhorada. Mas lá está: se a comesse todos os dias, talvez se fartasse mais depressa de polenta que da sua massa…


____________________

[1] Em princípio, come-se massa com caril. Caril não significa, neste contexto, o que estamos habituados que signifique, uma mistura de especiarias indiana ou um prato com elas preparado. Caril é tudo o que acompanhe a massa para não a comer apenas seca, muitas vezes um estufado de legumes. Quer dizer, caril também pode, portanto, ser… caril; mas a maior parte das vezes não é.

[2] Sei que há várias mazamorras de milho na América Latina, mas ou são doces, ou são líquidas ou levam muitos outros ingredientes além do milho, não são propriamente como a massa de milho africana.

[3] Pelo menos na Albânia (harapash), na Bulgária (kachamak), na Croácia (palenta ou pura), na Hungria (puliszka), na Moldávia (mamaliga), na Polónia (mamałyga), na Roménia (mămăligă), na Sérvia (kachamak) e na Ucrânia (tokan). Mas há mais. E há papas, como o močnik e o žganci eslovenos, que não são forçosamente de milho, mas também podem ser feitos de milho. É fácil encontrar na Internet fotos e receitas de todas estas massas de milho.



25/08/18

Coco, matapa, mucapata e galinha à zambeziana

A verdade é esta: comer (morfar, dar ao serrote, mandar para a blusa ou como queiram dizer, enfim…) é a atividade mais importante da vida das pessoas, voilà! É certo que, a partir de uma certa idade, o sexo compete com a comezaina, mas nunca lhe tira o primeiro lugar…

Agora, se o comer em si não tem muito que se lhe diga (é só não se esquecer de fechar a boca quando se mastiga, que senão parece mal...), já o fazer a paparoca é assunto vasto e que interessa muita gente, não é verdade? E parece impossível que, sendo das coisas que faço todos os dias, e com gosto!, fale aqui tão pouco de culinária. Está mal. A ver se começo a dar mais receitas, dicas ou conselhos de cozinha, ou, pelo menos, a falar de come e bebes. Hoje, deixo-vos três receitas moçambicanas. Se não as conhecerem, experimentem, que são naices; se já conhecem, vejam lá se as minhas receitas coincidem com o que conhecem. Mas antes, como as três receitas que vos proponho levam todas coco, deixem-me falar um pouco do coco, que é uma fruta interessante.

Coco 
O coqueiro é uma palmeira, que é uma coisa que parece uma árvore, mas não é. Mas como é de comida e de não botânica que se trata, fica essa conversa para outra altura, sim? A fruta do coqueiro é o coco, que é o que aqui nos interessa.

Sobre o nome do fruto, uma curiosidade: Parece que o nome do fruto, semelhante em várias línguas, vem do nome de uma antiga entidade fantástica portuguesa, que era usada para assustar crianças – ou seja, o equivalente do moderno papão ou homem do saco. É esta a origem proposta, por exemplo, pela Real Academia Espanhola. Descobri na Wikipédia que João de Barros «conta» esta origem na terceira das suas Décadas da Ásia (1563):
Um fantasmagórico coco (Wikimedia Commons)
Tem mais este pomo tão proveitoso outra casca de mui duro páo , per cima da qual ficam os finaes daquelles nervos , e fios da outra , á maneira do entre-casco da sovereira ou (por melhor dizer ) á maneira de huma noz descuberta da casca verde. Esta casca per onde aquelle pomo recebe o nutrimento vegetavel , que he pelo pé , tem huma maneira aguda , que quer semelhar o nariz posto entre dous olhos redondos , per onde elle lança os grellos , quando quer nascer : por razão da qual figura , sem ser figura , os nossos lhe chamáram coco , nome imposto pelas mulheres a qualquer cousa , com que querem fazer medo ás crianças , o qual nome assi lhe ficou , que ninguem lhe sabe outro, fendo o seu proprio , como lhe os Malabares chamam, Tenga, e os Canarijs, Narle.
É claro, pode agora discutir-se de onde vem o nome da aventesma, como o faz Joan Coromines, por exemplo, mas, como é de comida e não de etimologia que se trata, fica também isso para outra vez. E sobre cocos e coqueiros acrescento que:
   • a parte dura (o caroço) do fruto está envolta numas fibras chamadas cairo, que têm várias utilidades;
   • em Moçambique chama-se cafurro à casca dura do coco, que é usada como lenha;
   • a polpa seca do coco chama-se copra e é dela que se faz o óleo de coco;
   • a folha do coqueiro e outras palmeiras, trançada ou não, usa-se como cobertura de casas – é conhecida em Moçambique com o nome de macute, macúti ou macubar; e
   • da seiva do coqueiro faz-se uma bebida (alcoólica) chamada sura em Moçambique, que, para o meu gosto, é fixe quando está pouco fermentada e menos fixe quando fermenta muito.
E por agora chega – mas quem queira saber mais pode ver aqui mais usos dos cocos e dos coqueiros.

Leite de coco 
Passamos agora à parte mais propriamente culinária. Quando o coco é jovem, chama-se lanho. Só mais tarde ganha o nome de coco mesmo coco. Para se saber se um coco ainda é lanho ou já é coco, abana-se. Se não chocalhar, é porque está completamente cheio de água – é lanho e a água é boa para beber, mas a polpa não presta para fazer leite de coco. Se a quantidade de água já tiver diminuído lá dentro e, por isso, chocalhar, já é coco – a água não é tão boa, mas a polpa pode usar-se para cozinhar. O leite de coco é simples de fazer, mas dá algum trabalho:
Em Moçambique, usa-se um ralo, que é mais prático que um ralador, mas, 
claro, poucos serão os leitores deste texto que tenham uma coisa dessas…
Abre-se um coco, tira-se a polpa branca e rala-se com um ralador. Põe-se a polpa ralada dentro de água acabada de ferver e coa-se com um passador. Pode repetir-se a operação e pode espremer-se bem a polpa do coco no passador com uma colher.

É só isto. Agora, não estejam à espera que o leite de coco cheire logo muito: ele só começa a cheirar mesmo depois de cozinhado. Não havendo cocos à mão, pode comprar-se leite de coco já feito, em lata – não é a mesma coisa, claro está, mas também fica bem.


Matapa
Bom, há matapa com vários ingredientes e várias grafias, mas não quero aqui discutir se a verdadeira matapa é a de folhas de mandioca e só é matapa se levar amendoim e camarão seco. Se não quiserem chamar matapa ao prato de que aqui dou a receita, pois muito bem (saberá bem com qualquer nome, como a rosa do outro…), mas é esse o nome que lhe dá a minha amiga moçambicana com que o aprendi a fazer. Leva cebola, alho, óleo ou azeite, tomate, folhas de abóbora (jovens, tenrinhas, que não sejam ainda muito fibrosas), coco e sal.

Primeiro, faz se um refogado normal, com cebola e alho. À parte entalam-se as folhas de abóbora. Depois, picam-se as folhas e juntam-se ao refogado. Junta-se em seguida o tomate, pelado e picado. Enquanto a hortaliça apura, prepara-se o leite de coco, que depois se junta ao resto. Deixa-se cozer tudo muito tempo e pronto, é grande petisco!

«E não se pode substituir as folhas de abóbora por outra coisa qualquer, porque folhas de abóbora tenrinhas não se arranjam em lado nenhum?» Podem usar espinafres ou acelgas. De preferência acelgas, porque o espinafre tem muito sabor… a espinafre. Também fica bom.

Mucapata
Feijão-soloco com casca (Wikimedia commons) e
um saco de feijão-soloco já descascado.
A designação Phaseolus aureus é incorreta.
Mucapata é um acompanhamento moçambicano muito fixe e muito fácil de fazer: é só cozer arroz com leite de coco e com uma leguminosa chamada em Moçambique feijão-soloco (ou soroco ou holoco, com agá pronunciado), cujo nome técnico é Vigna radiata. Há quem ponha duas porções de arroz para uma de feijão-soloco, há quem faça metade-metade; há quem coza o arroz e o feijão-soloco em água e ponha o leite de coco no fim, há quem coza já com o leite de coco. Eu ponho metade-metade (mais ou menos) e cozo um bocado só com água e depois é que junto o leite de coco e deixo cozer até ficar tudo muito bem cozido. Decidam vocês o que vos agrada mais, depois de experimentar as várias possibilidades. Agora, cuidado, que o arroz e o feijão-soloco cozidos juntos têm tendência a pegar – deixem lá o Facebook para depois do jantar.

«Mas», perguntam agora vocês, «onde se arranja esse tal feijão taralhouco ou lá o que é?» Pois, não sei, mas devem conseguir encontrar numa dessas delikatessen exóticas que há. Aqui em Svenborg, arranjo com facilidade e já descascado – e ainda bem, porque descascar feijão-soloco é uma seca, e mucapata com a casca do feijão, nein danke!

Galinha à zambeziana 
Finalmente, a galinha à zambeziana à minha moda:
Arranja-se, se possível, uma galinha rija, galinha mesmo galinha. Coze-se a galinha em pouca água com leite de coco e uns bocados de cebola e pimento, mas só até estar meio cozida. Depois, pincela-se a galinha com azeite e alho e põe-se a assar na grelha. Vai-se pincelando sempre com o leite de coco (eu agarro na varinha e passo a cebola e o pimento dentro do leite de coco que usei para entalar a galinha, de maneira a que fique uma mistura relativamente espessa) até estar a pele bem tostada. Também se põe piripiri, onde se quiser: no líquido de cozer e pincelar; no frango juntamente com o azeite e alho; ou no prato depois de cozinhado... Quando se usa frango de aviário, como é geralmente muito mole, o mais avisado é não se cozer primeiro, paciência, e pincelar-se só com os temperos e com o leite de coco enquanto se assa.

Bom proveito! E perdoem-me a falta de fotografias dos pratos, mas não quis esperar até à próxima vez que os fizesse para publicar este texto. Enfim, deixo-vos pelo menos um bocadinho de música de fundo para a patuscada.



30/05/15

"Espiritual negro"

Flak apresentou anteontem [28.05.2015] o seu segundo álbum a solo, Nada escrito, que aconselho. Não é bem para fazer publicidade ao disco, porém, que aqui o refiro[1], mas para, a propósito da letra de uma das canções, vos falar um pouco da minha experiência de um período muito difícil da vida do Zimbábuè[2].

O texto original do que veio a ser a letra de “Vi escrito a fogo”[3] é o seguinte:
Vi escrito a fogo na água: / Vê a mágoa à tua volta! / Que ela seja mais que mágoa,
Que seja fé e revolta. // Nunca a gente desespera, / Chora só, e ri e espera / Que nos pague quem nos deve / Que a vida seja mais leve / E que haja quem que nos leve / A uma terra prometida, / Babilónia, cativeiro, / Sempre assim foi toda a vida! // Vi escrito a fogo na terra: / Olha bem ao teu redor, / Faz por ti a tua guerra, / Nunca por nenhum Senhor // Nunca a gente desespera / Chora só, e ri e espera / Que a dor que sempre teve / Seja algum dia mais leve, / E que haja quem que nos leve / A uma terra prometida, / Babilónia, cativeiro, / Sempre assim foi toda a vida! // Vi escrito a fogo no ar: / Vem, irmão, vamos embora / Vamos abrir este mar, / P’ra passar, chegou a hora!
No documento original, o texto chama-se “Espiritual negro”, tem a data de 13 de novembro de 2008 e foi escrito em Chinhoyi, no Zimbábuè. Isto ajuda a compreender o texto. Ou a intenção com que o escrevi.

Lembro-me de que, da primeira vez que fui ao Zimbábuè, em 1997, vi um artigo num jornal cujo título era “Estradas apresentam sinais de deterioração”. «É ao contrário de Moçambique», comentei eu, «lá a deterioração apresenta sinais de estrada.» Cinco anos depois do acordo de paz, uma grande parte das infraestruturas continuava por reabilitar e faltavam, aqui e ali, pontes e troços de estrada. Lembro-me de demorar quatro horas para fazer 32 quilómetros de Nicoadala a Quelimane, num camião. A rede comercial também estava ainda por restabelecer, em parte devido ao mau estado das estradas. Fora das maiores cidades, continuava a haver escassez da maior parte dos produtos. As viagens eram difíceis. Era preciso ter algum espírito de aventura para ir a certos sítios, até porque às vezes não se sabia se se ia encontrar onde dormir ou comer.

Por isso, entrar no Zimbábuè, nessa altura, era como entrar noutro mundo. Tudo funcionava bem, havia de tudo – pelo menos para quem tivesse dinheiro. É claro, havia também coisas que nos impressionaram muito negativamente. Escrevi, numa carta de novembro desse ano, que, muitas vezes, o Zimbábuè se parecia estranhamente com a Rodésia[4]:
Nas livrarias de Harare, ao lado da biografia do Mandela, A road to freedom, via se um outro livro, cujo tema posso apenas adivinhar: Rhodesians never die. E deve ser verdade. O país ainda é dos brancos e ainda é um país de apartheid. Há restaurantes para brancos e turistas e restaurantes para “indígenas”. A expressão indigenous é comummente usada pelos zimbabueanos. Em Moçambique, se se pergunta por um restaurante, ou há ou não há. No Zimbábuè, às vezes há, mas não é para brancos, porque só tem comida “indígena”. (…)
Não há terra que chegue para as pessoas cultivarem, porque a terra é toda dos farmeiros brancos. Bem, quase toda. O governo começou agora um programa de redistribuição da terra, que tem dado broncas atrás de broncas: os brancos estão descontentes, obviamente, por estarem a ser expropriados, e a população e a comunidade internacional também, porque a terra expropriada está a ser entregue a ministros e generais do Sr. Mugabe...
E acrescentava mais algumas impressões de turista, num texto de outubro do ano seguinte, escrito numas férias em Bvumba:
A população negra trabalha aqui invariavelmente nas quintas dos brancos. O sistema é de tipo feudal: as aldeias dos trabalhadores são dentro da propriedade do senhor, bem como as suas machambas, normalmente terrenos pequenos, na periferia das plantações (...). Uma parte das infraestruturas para os trabalhadores, incluindo, sempre, as suas casas, poços e lavadouros, e, às vezes, escolas e postos de saúde, são fornecidos pelo “senhor”. Mas, como estas infraestruturas nem são piores que as infra-estruturas públicas das chamadas zonas comunais, não é amanhã a véspera do dia em que rebente aqui uma jacquerie ou outra revolução qualquer. E os zimbabueanos brancos lá vão jogando o seu ténis ou o seu senúcar ao fim da tarde, no clube local, que tem um empregado de libré vermelho e tudo, e uma vista maravilhosa sobre a montanha...
A desvalorização do dólar zimbabueno tinha já começado nessa altura, vejo agora ao reler estes textos. E a queda da qualidade de vida:
Além disso, a vida no Zimbábuè, sobretudo com esta desvalorização constante que o dólar zimbabueano tem sofrido ultimamente, é muito barata. Quer dizer, para nós... Os zimbabueanos, que até tinham, em geral, uma vida bastante razoável comparada com a dos outros povos da África Austral, estão cada vez pior...
É claro, era uma desvalorização que não se podia comparar com o que viria depois. Aliás, o que veio depois estava fora do alcance mesmo da mais delirante imaginação. Quando voltámos a Moçambique em 2006, para aí vivermos 5 anos em Chimoio, o Zimbábuè era um país irreconhecível. Escrevi eu nessa altura:
A situação de dois dos países vizinhos, o Zimbábuè e o Maláui, deteriorou-se tão drasticamente que Moçambique, que tinha um nível de vida muito inferior a ambos, lhes passou claramente à frente. Uma das implicações que isso tem é que as correntes de emigração se inverteram: em vez de serem os moçambicanos a emigrar para o Zimbábuè e para o Maláui, são os zimbabueanos e os malauianos a virem procurar a sua sorte em Moçambique. E não só gente pobre – também os farmeiros brancos do Zimbabue se vieram tentar estabelecer do outro lado da fronteira, quase todos nesta província de Manica, que é das que tem mais potencial agrícola. Entre 2001 e 2004, instalaram-se 42 zimbabueanos (entre particulares e firmas) aqui na província. Falou-se do “milagre de Manica”: de repente, havia aqui montes de gente a fazer agricultura industrial, o que produz forçosamente desenvolvimento: 5000 postos de trabalho assalariado, mesmo mal pago, são ouro numa terra onde o que mais falta é dinheiro. Além disso, abriram unidades de processamento para exportação de rosas e legumes, e para produção de óleo de girassol e produtos lácteos para o mercado local e regional, que criaram centenas mais de postos de trabalho. Mas, a partir do ano passado, os zimbabueanos começaram a abandonar Moçambique. Neste momento, restam aqui em Manica meia dúzia de famílias, as mais teimosas[5].
Mas não tinha ainda ido ao Zimbábuè, quando escrevi isto. Eis um excerto de um texto de março do ano seguinte, depois da nossa primeira viagem ao Zimbábuè:
No Zimbábuè, muito provavelmente, o pior ainda está para vir, por muito que seja difícil imaginar a situação pior do que está. Fomos lá uma vez e nem queríamos acreditar no que víamos. Se há alguém que, com toda a propriedade, pode afirmar que não é deste mundo o seu reino, não há dúvida que esse alguém é Robert Mugabe… 
À primeira vista, está tudo igual, ou quase: as estradas e as infraestruturas em geral continuam a parecer muito melhores do que em Moçambique, as enormes propriedades agrícolas à beira da estrada continuam a parecer – e são, com certeza – muito mais desenvolvidas do que as farmas moçambicanas. Bom, tinha-nos chocado um bocado termos de pagar, entre dois adultos, três crianças e um carro, 125 dólares só para entrar no país. Mas, por muito que tivéssemos ouvido dizer vezes sem conta que o país estava muito mal, só nos apercebemos de como o país estava quando chegámos ao fim da tarde ao nosso destino, a pequena cidade de Chinhoyi, uns duzentos quilómetros a oeste de Harare. 
A primeira e maior surpresa foi que, como estrangeiros não residentes, não podíamos pagar o hotel com dólares zimbabueanos – tinha de ser em divisas. Agora, ao câmbio oficial, que é, claro está, o único que se pode usar nesta situação, o preço de um quarto chungoso, bastante chungoso até, era de 385 dólares americanos, isto é, para quem não está habituado a dólares, cerca de 295 euros! De longe, o quarto de hotel mais caro que pagámos, tanto eu como a Karen, em toda a nossa vida. E ficámos praticamente sem um tostão. Era preciso trocar com urgência, no mercado negro, o pouco dinheiro que nos restava, para ver se conseguíamos comer qualquer coisa, mas à noite, numa cidade pequena, sem conhecer ninguém, não sabíamos o que fazer. Acabou por ser uma senhora qualquer que passou na rua que nos vendeu os dólares zimbabuenos a metade do preço oficial. E assim, os pratinhos de esparguete que comemos ao jantar, mais a garrafinha de litro e meio de água para os cinco, ficaram-nos em cerca de 17 euros em vez dos 34 que seriam ao câmbio oficial.
Descobrimos no dia seguinte que, ao câmbio real, o dólar zimbabueano é entre 10 e 15 vezes mais barato do que ao câmbio oficial. Quer dizer, se nós fôssemos residentes no Zimbábuè e pudéssemos pagar em zim dollars, o preço real da nossa dormida teria sido entre 20 e 30 euros, o que já era mais aceitável… Mesmo assim, ao preço real, a vida é impossível para os zimbabueanos. Segundo eles dizem, o salário mínimo dá para uma família comer um dia. Mas também, que interessa isso num país onde há mais de 80% de desempregados? A inflação, oficialmente, foi de 1600 por cento no ano passado (a mais alta do mundo, claro está), mas há produtos que duplicam de preço de semana em semana. Os restaurantes já não têm preços fixos, porque o preço dos pratos aumenta de refeição para refeição. Harare é, segundo o Economist, a cidade mais cara do mundo, embora seja a capital de um dos países mais pobres!
Evidentemente, o turismo desapareceu, como vão desaparecendo os zimbabueanos que têm alguma possibilidade de sair do reino de Mugabe para fora. E Mugabe e os seus generais mantêm-se firmes no poleiro – com boicote internacional ou sem ele, com um país a apodrecer-lhes nas mãos, com a indústria e a agricultura, que eram poderosas na região, a esboroarem-se completamente, o que é que isso lhes interessa? Eles estão bem, porque o reino deles é dum mundo diferente do dos desgraçados dos seus compatriotas que não sabem o que fazer à vida. É dum mundo só deles…
Meses depois, uma descrição atualizada da situação:
O país tornou-se surrealista: o valor do dólar zimbabueano no mercado negro era, até 6 de Setembro [de 2007], mil (mil!) vezes mais baixo do que no mercado oficial: no banco um dólar americano valia 250 dólares zimbabueanos; no mercado negro valia 250 000. Depois, o dólar zimbabueano foi repentinamente desvalorizado de tal forma que um dólar americano passou a valer 30.000, mas, como esse pseudoajuste fez disparar para mais do dobro o dólar americano no mercado negro, agora o valor oficial do dólar americano é só (!) 20 vezes menos do que o câmbio real. Conseguem imaginar uma coisa assim?
Desta última vez, vimos já as lojas e as bombas de gasolina todas vazias. Para quando a rutura? «Bom, isso em África, não existe, não é?», dizia-nos alguém. «A situação pode piorar sempre mais, que a malta vai-se sempre desenrascando – cada vez pior, é certo, mas sem chegar a nada que se possa chamar uma situação de rutura…» Pode ser que sim, pode ser que não. 
Nunca tive uma nota destas, mas tive algumas com muit000000000s zeros (Imagem: Wikimedia Commons)
Imaginem o que é fazer 800 quilómetros de estrada sem ver ninguém na rua, sem ver uma loja aberta. Meia dúzia de pessoas em Harare, uma outra loja, mas literalmente nada no resto do caminho. Um cenário mesmo daqueles filmes de ficção científica em cenários pós-apocalípticos. Ninguém. Faz medo. Faz mesmo medo.

Em finais de 2008, veio visitar-nos a Chimoio um amigo inglês, que aproveitou para dar um saltinho a Harare, para visitar uns amigos que não via há muito tempo, uma senhora inglesa casada com um senhor zimbabueano. A senhora era professora universitária e o senhor, ex-combatente do ZANU, ocupava-se da farma onde viviam. O meu amigo veio de lá descorçoado. O salário mensal de um professor universitário, disse-me ele, dava para comprar três quilos de arroz.
«E a cabeça daquele homem», indignava-se ele, «ele não compreende, não compreende.»
Nas discussões que tinha tido com o amigo, com muito cuidado para não ofender o hóspede, o ex-combatente insistia que era óbvio que Mugabe não podia entregar o poder à oposição:
«Eles não fizeram nada, como é vão agora mandar no país? Fomos nós que acabámos com a Rodésia, não eles. Fomos nós que fizemos o Zimbábuè, vamos agora entregar-lhes o país?»
Costumo usar ironicamente a expressão «A revolução a quem a trabalha!» para designar esta atitude, que não existe apenas no Zimbábuè, infelizmente.

Depois de um processo eleitoral longo e violento e de muitas pressões e negociações, acabou o ZANU por ter mesmo de partilhar o poder com a oposição, cujo dirigente foi nomeado primeiro-ministro em fevereiro de 2009; mas não parece ter havido mudanças políticas significativas. A vida começou a melhorar um bocadinho, quando, em janeiro de 2009, começaram as divisas a circular oficialmente e o dólar zimbabueano desapareceu. Pagava-se tudo em dólares americanos ou randes, às vezes pagava-se numa moeda e recebia-se o troco na outra. Como estará agora aquele país? Li no outro dia que Mugabe quer indemnizar os agricultores expropriados. O que há de uma pessoa pensar de uma coisa assim?

Quero notar que houve quem não visse apenas resultados negativos do processo de “redistribuição” de terra. Não sei o suficiente do assunto para tomar posição sobre esta análise, como também não tenho conhecimentos para tentar fazer aqui uma análise política rigorosa de causas e motivações desse processo e da crise. Se não sabem nada sobre o Zimbábuè, também não quero que fiquem com a ideia que a violência do regime de Mugabe se abateu apenas sobre os poderosos farmeiros brancos, ou, como muitas vezes se salienta, sobre o grupo étnico ndebele. Nada disso. Foram vítimas de repressão todos os que se lhe opunham.

Aquilo que testemunhei foi um país em ruínas e pessoas na miséria, sobretudo as mais pobres. A ideia das imagens bíblicas na letra da canção veio-me do muito contacto que tive com imigrantes zimbueanos em Chimoio – não farmeiros brancos, que, esses, não os conheci, mas gente de todas as classes que tinha fugido a uma vida que já não se aguentava. Fiquei com a ideia – que já tinha, aliás, das minhas viagens ao Zimbábuè – de que é um país muito cristão. De que é gente habituada a sofrer, também não tenho dúvida nenhuma: «Babilónia, cativeiro, sempre assim foi toda a vida.»
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[1] Mas, claro, um bocadinho de publicidade é um efeito secundário positivo...
[2] Enquanto não escrevo um texto que tenho pensado sobre algumas propostas ortográficas que acho mal o AO90 não ter integrado, reitero aqui este desvio: uso a norma consagrada por muitos topónimos moçambicanos, que é a que para mim faz mais sentido (ver aqui)
[3] A letra que Flak canta é a seguinte:
Nunca a gente desespera, / Chora só, e ri e espera / Que nos pague quem nos deve / Que a vida nos seja leve / E a morte suave e breve (os três versos itálico são substituídos na segunda parte da cantiga por apenas dois: Que a dor que a gente sente / Seja algum dia mais leve) / E que haja quem que nos leve/ A uma terra prometida, / Babilónia, cativeiro, / Sempre assim foi toda a vida! / Vi escrito a fogo na água: / Vê a mágoa à tua volta! / Que ela seja mais que mágoa, / Que seja fé e revolta. / Vi escrito a fogo na terra: / Olha bem a teu redor, / Faz por ti a tua guerra, / Nunca por nenhum Senhor.
Que se modifiquem versos, se altere a estrutura do texto e se omitam partes (uma quadra, neste caso) ou mesmo que se acrescentem versos ou estrofes não é anómalo quando se compõem canções a partir de letras já escritas. Reconhece-se obviamente o esquema – não será o mais comum, mas também não é tão raro como isso – em que uma estrofe quase-refrão se altera um pouco de cada vez que aparece. É também óbvio que, assentando o esquema destes “refrães” nos quatro elementos clássicos, escolhi repetir sempre o fogo, relacionando-o, de cada vez, com um dos outros elementos, a água, a terra e o ar. Porque decidi destacar o fogo, não sei, já não me lembro. Provavelmente, a ideia que me surgiu para o refrão (e para a letra no seu todo) foi «Vi escrito a fogo…», ainda antes de decidir usar os quatro elementos. 
[4] Todos os excertos de textos meus que aqui incluo são de cartas coletivas, um boletim informativo sobre a minha vida, se se pode dizer assim, que, em certos períodos da minha vida, enviava aos amigos com alguma regularidade, primeiro em papel e depois por correio eletrónico. Chamaram-se Crónicas do Alto Molócué, Crónicas de Camargo, Crónicas de Copenhaga e Crónicas de Chimoio. Cada carta incluía, além do texto igual para toda a gente, uma parte pessoal.
[5] Foram apontadas várias causas para o fracasso do “milagre de Manica”: a insuficiência do investimento inicial, porque muitos farmeiros zimbabueanos estavam completamente descapitalizados; o peso da legislação moçambicana; a falta de apoios e infraestruturas a que os zimbabueanos estavam habituados, desde combustível subsidiado (como em muitos países, aliás) a estradas e a controlo fitossanitário; a falta de pesquisa sobre espécies adaptadas ao clima e ao solo locais; e o facto de os zimbabueanos não terem contactos entre a elite moçambicana nem falarem português – nem terem aceitado que isso é mesmo necessário em Moçambique…

14/09/13

A tradição nunca foi o que é

Já li várias entrevistas ao músico zimbabueano* Oliver Mtukudzi em que ele diz que, quando começou a usar instrumentos tradicionais nos seus álbuns, ao fim de uns 20 anos de carreira, o seu público reagiu mal. Mtukudzi é tão popular que se pode dizer que o seu público são todos os zimbabueanos. Provavelmente, os europeus imaginam os zimbabueanos a dançar e cantar com música de tambores e mbiras, mas o facto é, para eles, a música do seu ídolo Mtukudzi era e devia ser com guitarras elétricas, não com mbiras. Ao ir buscar instrumentos tradicionais, Mutukudzi estava, podemos dizer assim, a ir contra a tradição.

Lembro-me de discussões acesas: a música dos ranchos folclóricos portugueses, pelo menos na forma que lhes conhecemos hoje, pode considerar-se música tradicional? Então se os ranchos contribuíram, precisamente, para destruir a “verdadeira música tradicional”… Tradicional, tradicional… Tradicional de verdade e falso tradicional. O que é isso, tradicional? A verdade é que ninguém sabe bem o que é. Quantos anos é preciso uma coisa existir para se tornar tradicional? Ou há critérios mais importantes que o tempo para definir o que é – ou deve ser – tradição?

Isto de tradições tem, sem dúvida, muito que se lhe diga. Quando, em meados da década de 90, Duncan Brooker viajava pelos países da SADCC à procura de pérolas esquecidas do afro-funk africano dos anos 60 e 70 (algumas das quais havia de relançar mais tarde na Europa), as pessoas achavam estranho ele interessar-se por aquelas velharias: “isto é música velha, amigo. Porque é que você se interessa por isto? Isto não presta. Nós ouvimos Snoop Doggy Dogg.” Se o vendedor de discos recusava o velho afro-funk (que, já agora, não é nem mais nem menos tradicional que a pop africana, que nasceu nos anos 60 em Lagos ou Kinshasa inspirando-se de música latino-americana e que hoje se vende como sendo de inspiração… tradicional), não era por não ser “africano” ou “tradicional” ; era por não ser moderno! E como ele muitos africanos.

Tradição, tradição… Há que pensar na tradição de forma menos tradicional, se se pode dizer assim, como no-lo recorda Rita Dantas, num texto do seu muito aconselhável blogue Boas intenções (sublinho eu):
Há um texto muito interessante do Giddens que li há muitos anos onde ele desmontava uma grande parte das tradições ocidentais como invenções recentes (os kilts e os tartans escoceses por exemplo são filhos da revolução industrial) para dizer que isto não tem nada de extraordinário nem lhes retira legitimidade, apenas demonstra a forma como a maioria das tradições são criadas e como curiosamente são, tal como o próprio conceito de tradição, um produto da modernidade. Para lidar com o novo, inventamos o tradicional.
Procurei o texto de Giddens e encontrei este Runaway World, que reúne cinco palestras de Abril de 99 em diversos locais. Creio que é este o texto que Rita Dantas refere. Tem, pelo menos, o mesmíssimo teor. E quero acrescentar uma pequena passagem de Giddens que dá ênfase a esta ideia essencial de que a modernidade inventou a tradição para lidar com o novo (traduzo eu):
O termo «tradição», como é usado hoje, é na realidade um produto dos últimos 200 anos na Europa. (…) Na Idade Média, não havia uma noção genérica de tradição. Não era precisa tal palavra, precisamente porque a tradição e o costume estavam em todo o lado.
O Museu de Etnologia de Nampula tem coisas interessantes. Quero dizer, pelo menos tinha, já não vou lá há alguns anos. E uma das coisas interessantes que tinha era, precisamente, ter expostos muitos objetos – cestos, capulanas, pilões, colheres de pau, panelas de barro, etc., etc. – se encontram à venda em qualquer mercado da zona e existem em casa de toda a gente. Tradicionais é, pois, capaz de não ser a melhor palavra para os descrever…

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* Explico noutro texto da Travessa porque prefiro zimbabueano a zimbabuense. 

17/12/11

Conto de Natal

[Este texto é uma versão revista de uma passagem das minhas Crónicas do Alto Molócuè, umas cartas coletivas que escrevia aos amigos, quando morava na Alta Zambézia.]

A história passa-se no Alto Molócuè, em Moçambique, no ano de 1997. Estava combinado um jantar com uma malta lá da terra e a Karen queria fazer uma coisa típica dinamarquesa, com almôndegas e velas e tudo. Então, lembrou‑se que tinha ali uma caixa com uns enfeites de Natal, que uma cooperante dinamarquesa lhe tinha dado um ano antes, quando ela tinha chegado a Moçambique. A caixa tinha estado uns dois meses na sala de estar da guest‑house da organização para a qual a Karen trabalhava, em Quelimane, e depois ela tinha-a levado lá para casa e tinha-a posto no quarto que me servia de escritório, a um canto.

Agora vejam lá: quando abrimos a caixa, vimos que, além de bolinhas e coraçõezinhos brilhantes, estava lá também um envelope com 1508 dólares americanos, qualquer coisa como 1150 euros ao câmbio atual! De quem seria o dinheiro?

A Karen pegou no telefone de satélite que tínhamos para emergências (ainda não havia telefone no Alto Molócuè nessa altura) e telefonou para a Dinamarca, à rapariga que lhe tinha dado as decorações de Natal, para saber se lhe tinha desaparecido muito dinheiro. Mas não. Quando a Karen lhe contou a história, a rapariga explicou‑lhe que a caixa nem era dela. Tinha estado dois anos em casa dela, mas ela nem sequer a tinha aberto. Tinha-a recebido de um casal de dinamarqueses que tinha morado naquela casa antes dela, que, por sua vez, a tinha recebido de outro casal de dinamarqueses que tinha lá morado antes... Era impossível saber de quem era o dinheiro. De maneira que…

…um Natal cheio de caixas destas, ora aí está o que eu vos desejo!
*

25/11/11

2 histórias da 1ª guerra mundial

1. Soldados belgas e franceses no Cemitério Auxiliar de Copenhaga [Crónicas de Svendborg #7]
Todas as histórias de guerra são tristes e cruéis, porque a guerra é sempre triste e cruel. E nem sequer deixa de ser cruel quando não é ela a causadora direta da morte dos que, por ela, tiveram de deixar a sua terra.

Na parte católica do bucólico Assistens Kirkegård, o Cemitério Auxiliar de Copenhaga, reparei uma vez em túmulos de soldados belgas e franceses, e surpreendeu-me ver que tinham datas de 1919. Eram soldados, explicou-me alguém, que tinham sido prisioneiros algures na costa norte da Alemanha e que, quando a guerra acabou em novembro de 1918, vieram de barco para a Dinamarca, para daqui seguirem para casa. Isto foi no início de 1919. Havia nessa altura na Europa uma epidemia de uma gripe violenta conhecida como gripe espanhola. Foi a gripe que matou aqueles soldados. Depois dos horrores da guerra e do cativeiro no país inimigo, quando o cansaço se começava a diluir, seguramente, na euforia do retorno a casa, veio um vírus, que não uma bala alemã, cortar-lhes a vida aos vinte e poucos anos.

Em memória dos soldados franceses e belgas mortos de gripe em 1919. Wikimedia Commons. 
2. A guerra em Moçambique
Aproveito ser hoje aniversário da batalha de Ngomano para lembrar aqui que a Primeira Grande Guerra chegou à África Austral e houve combates entre tropas portuguesas e alemãs em Moçambique. Há algumas páginas online onde podem ler mais sobre o assunto (por exemplo, as que indicarei a seguir) e não é minha intenção desenvolvê-lo aqui, mas tão-só referir aqui um facto que seria apenas surrealista se não fosse trágico e revoltante.

Francisco Proença Garcia [Moçambique na 1ª Guerra Mundial - do Rovuma ao Nhamacurra (1)] cita Azambuja Martins, que escreve:
Portugal mobilizou para aquele território, ao longo dos vários anos, 19.438 militares da metrópole, 985 portugueses recrutados localmente e 10.278 africanos, e recrutou 90.000 carregadores, 60.000 fornecidos ao Exército português e 30.000 às forças britânicas ["A campanha de Moçambique", in Martins, Ferreira, Portugal na Grande Guerra, Vol. II, Lisboa, 1938, p. 186.]. 
Os números são confirmados por outras fontes em A guerra em Moçambique. 5. última fase da campanha, de Manuel Amaral (negrito meu):
As forças portuguesas vindas sucessivamente da Metrópole atingiram 18.613 praças, enquadradas por 825 oficiais.
As 30 companhias indígenas e as 6 baterias indígenas de metralhadoras mobilizaram 303 oficiais, 682 graduados europeus e 10.278 soldados indígenas, havendo mais a contar duas baterias de montanha e uma companhia montada da Guarda Republicana de Lourenço Marques. As forças de marinha mobilizaram um batalhão de duas companhias. Mobilizaram-se também 8.000 auxiliares indígenas das capitanias mores de Moçambique [Livro de Ouro da Infantaria, pág. 100. Artigo de Álvaro de Castro].
Assim as nossas forças mobilizadas atingiram nesta colónia um total de 39.201 homens.
Os carregadores portugueses fornecidos às tropas inglesas elevaram-se a 30.000 10 e os empregados pelas nossas tropas atingiram 60.000; as perdas totais na nossa população indígena de Moçambique deviam ter-se aproximado de 100.000 almas [Dr. Egas Moniz, Um ano de política, 1919. (Apontamentos da Delegação à conferência da paz)]. 
Se já não devia ser fácil, para alguns soldados portugueses, compreender que guerra era aquela e por que combatiam, imaginem o que significaria a guerra para todos aqueles moçambicanos, que pouco ou nenhum contacto tinham tido com europeus e que eram recrutados à força e obrigados a lutar e a morrer por nações que não tinham, para eles, o mínimo significado.

"General Smuts inspecionando uma unidade nativa sul-africana em França", provavelmente por John Warwick Brooke. http://digital.nls.uk/74548224.

30/05/11

A paciência de um Santos, seguido de três pequenas notas sobre resignar-se, adaptar-se e envelhecer

Svendborg, Dinamarca, Agosto de 2009, férias de Verão, jantar no terraço de uma amiga. Conversa de ocasião de um amigo da amiga, enquanto aquece a grelha para as salsichas. Diz que nunca viveu em África, mas que já lá esteve, que tem amigos que lá viveram.
«Isso de viver em África, onde o ritmo de vida é tão mais lento, deve tornar as pessoas mais pacientes.»
E eu, com toda a sinceridade:
«Pode ser, não sei o que acontece às outras pessoas… Em mim, viver em Moçambique tem tido antes o efeito contrário – perdi a paciência toda…»
Não acredito, sinceramente, no que digo. É o passar dos anos que me faz perder a paciência, não viver em Moçambique. E ainda hei-de ser um velho mesmo rabugento, hão-de ver. Agora, se reajo assim à conversa do amigo da amiga, é porque me arrelia um bocadinho este preconceito primitivista. O ritmo de vida é mais lento? O que eu acho, sinceramente, é que quem assim pensa nunca viu as pessoas a trabalhar nas suas casas e machambas, nunca os viu a andar carregados, a pé ou de bicicleta, por estradas e caminhos… É verdade que se encontram pessoas a dormir a sesta às onze da manhã, mas essas pessoas levantaram-se às 4, para trabalharem o mais que podiam enquanto o calor não as impede de continuar. Conheço muitos moçambicanos que literalmente não param, entre o trabalho, que é muito, os estudos à noite e o mais que é necessário para arredondar o fim do mês, como dizem os franceses. Ritmo lento? Ora…
De que se fala então? Dos empregados de lojas, cafés e repartições públicas? Aí sim, é verdade, o ritmo aqui é muito lento. E em relação a essa lentidão – provavelmente por estar a tornar-me rabugento com a idade, pois… – não ganhei precisamente paciência nenhuma. Eu sei que há quem veja tudo isso como um traço cultural das sociedades menos desenvolvidas. E um traço cultural positivo: ausência de stress, uma bênção das culturas “pré-modernas”. É bem possível que seja um traço cultural, se aceitarmos uma definição de cultura que inclua não só a falta de tradição de trabalho assalariado como também a falta de formação técnico-profissional, os salários de miséria e o autoritarismo e incompetência das chefias, por exemplo. Talvez esta lentidão pareça hoje muito exótica a muitos europeus, que, com um olhar ingénuo, vêm nela a sobrevivência de uma paciência perdida no mundo desenvolvido. A mim, porém, é-me difícil ver o que tal lentidão tem de positivo, sobretudo para os desgraçados que esperam horas e horas nas repartições ou meses e meses por documentos oficiais que nunca mais vêem…
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Nota 1, sobre paciência e resignação: A paciência é uma grande virtude, recordava-me constantemente a minha avó. É verdade, pelo menos no sentido em que é a negação da impaciência – uma atitude de que (suponho que há nisto grande consenso) não resulta nada de muito bom. Muitas vezes, porém, aquilo a que se chama paciência é de facto resignação e a resignação já não é virtude. Talvez não se lhe possa tampouco chamar vício, mas é algo que tem de ser negativamente valorizado quando lhe avaliamos as consequências, porque, bem vistas as coisas, é contribuir para que se perpetue o que há de indesejável no mundo.
Há muitos moçambicanos que não se resignam perante o mau funcionamento dos serviços. Explicam a razão e a lógica dos mesmos, e exigem e barafustam. Agora, claro, há muitos mais que se resignam. Passando do nível das consequências para o das causas, acho que há mais uma coisa importante que é preciso dizer sobre resignação e que explica o facto de ela estar muito espalhada em certas sociedades e em certas camadas populacionais: resignação está directamente relacionada com ausência de poder. Não é determinada por ela e há às vezes pessoas com pouco poder que não se resignam. Mas é da ausência de poder que a resignação deriva mais normalmente e não surpreende que haja mais resignação entre aqueles que não têm, nunca tiveram, poder algum.

Nota 2, sobre adaptação: Está bastante espalhada a ideia de que, vivendo fora da nossa cultura, há que adaptar-se, aceitando que as coisas são como são na cultura em que vivemos. Trata-se, como a entendo, de uma perspectiva puramente estratégica, descartando a ponderação ética. Porque, se o que achamos que está bem ou que está mal muda conforme o lugar onde nos encontramos, é porque não assenta em nada de muito sólido; ou porque temos da moral uma perspectiva, digamos, etimológica (mores significa “costumes” em latim, não é verdade?) e aceitamos que são apenas os costumes que devem reger a nossa ideia de bem e de mal. Ora eu, que não sou maquiavélico, que sou um moralista racional, daqueles que acham que se deve repensar constantemente os princípios que devem reger as nossas acções, não posso aceitar tal posição: no geral, não aceito nem na Dinamarca nem em Moçambique o que não aceito em Portugal.
Se digo no geral, é porque há, ainda assim, diferenças que têm de ser tidas em conta e que podem justificar, nalguns casos, alguma flexibilidade tanto no que se aceita como no que se exige. No caso de Moçambique, por exemplo, há que ver que não se pode dar saltos no desenvolvimento, que o baixo nível de cultura profissional e de formação são obstáculos que levam algum tempo a vencer. Ainda assim, alguém tem de fazer aqui as mesmas exigências que outras pessoas fizeram já noutros lugares para que mudassem lá as coisas que aqui ainda não mudaram. É certo que, em absoluto, Moçambique não é apenas uma versão mais antiga nem da Europa nem de nenhuma outra parte do mundo e que, por isso, nunca as coisas foram noutro sítio exactamente como são aqui. Mas há coisas aqui que também já houve noutros lugares e de lá desapareceram porque as pessoas fizeram alguma coisa para elas desaparecerem. 
O que muitas vezes se considera aqui adaptação de um estrangeiro à vida local é uma evolução imoral e discriminatória: começar a aceitar que “estas pessoas” são essencialmente diferentes de “nós” e que, portanto, não se pode ou deve esperar ou exigir delas (diferentes nuances modais, conforme a nossa postura, mais ou menos activa, perante o mundo…) e para elas o mesmo que exigimos das “nossas” pessoas e para as “nossas” pessoas. Esta “adaptação” é também passar a aceitar assimetrias inaceitáveis: que o sistema feudal é uma realidade inelutável e que há que aceitar os privilégios dos privilegiados, sejam eles régulos, administradores ou ministros; que os pobres morrem “naturalmente” em África e que não há nada a fazer contra isso; que haver uns a meter ao bolso o dinheiro do Estado ou dos outros é a maneira normal de “estes países” funcionarem, e por aí adiante. Resignação…

Nota 3, sobre envelhecer: Não é só rabugenta que uma pessoa se torna, ao ir para a idade: é chata também, repetitiva. Já viram que, num texto tão pequeno, repito três vezes (esta é a terceira!) que me estou a tornar rabugento com a idade?

07/03/11

3 mininotas sobre o Estado Social de um imigrante num país de tradição social-democrata

1. “É muito caro este sistema de educação que vocês aqui têm na Dinamarca, sobretudo se o compararmos com outros normalmente considerados mais eficientes”, comento eu, em conversa com uma dinamarquesa minha amiga. “Principalmente, porque as pessoas mudam muitas vezes de curso a meio dos estudos, quando se apercebem de que não é aquilo que querem estudar, e andam muito tempo na escola, de maneira que só começam a trabalhar já muito tarde, com 30 anos ou mais…”
“Deixa estar,” responde-me ela com calma, sem se ofender com o que poderia ser percebido como uma crítica ao seu país vinda de um estrangeiro (uma coisa que, diz-me a experiência, é muito mal aceite, mesmo por quem passa a vida a criticar o seu próprio país…), “nós gostamos assim, estamos satisfeitos com o nosso sistema, com possibilidade de repensar as coisas e de andar muito tempo na escola. E estamos dispostos a pagar o preço que ele custa…”
É claro, não deve ser a opinião de toda a gente e não tenho maneira nenhum de saber qual a percentagem de dinamarqueses que assim pensa. Mas é significativo que tenha ouvido a mesma ideia a várias pessoas muito diferentes. E é uma boa lição de política: ao contrário do que se costuma afirmar, o Estado Social forte não é demasiado caro, quando custa o preço que os cidadãos querem pagar.

2. Desde os meus primeiros contactos com escandinavos que os oiço queixarem-se da desumanização causada pelo Estado Social forte, pelo desaparecimento da solidariedade directa, da entreajuda na família ou nos círculos de amigos. Lembro-me também de que muitos dos meus colegas no curso de dinamarquês que fiz em Copenhaga, imigrantes chegados há pouco tempo como eu, se queixavam da pretensa desumanização causada pelo Estado Social: “No outro dia, estava uma homem ali caído no chão, ao pé de Dronning Louises Bro e ninguém foi capaz de o ir socorrer. Tanta gente a passar e só eu é que fui lá”, diz-me um colega espanhol. “São assim os dinamarqueses e a eficácia do seu sistema: alguém telefonou logo para o serviço médico de urgência, mas ninguém foi lá para o pé do homem”.
Não quero recusar radicalmente a necessidade de repensar moral e estrategicamente (isto é, politicamente) os alicerces da ideia de Estado Social, mas estou convencido de que a crítica de rosto “humanista” que lhe é feita resulta em parte duma reacção romântica de tipo primitivista, digamos assim (primitivista no sentido que recusa a “robótica desumanidade” da utopia), do mesmo tipo do louvor da vida no campo ou da idealização das sociedades tribais, etc. O facto é que, para o homem caído ao pé de Dronning Louises Bro, o importante é que chegue depressa a ambulância, não que haja dezenas de pessoas solidárias ajoelhadas à sua volta. E a verdade é que, nas sociedades modernas, com grande espaço para a decisão individual em vez da clássica sujeição a tradições indiscutíveis, as antigas formas de solidariedade directa funcionam muito mal para gerar apoio a quem dele necessita; e a única maneira de se obter maior justiça social é, precisamente, tornar mais abstractos os mecanismos de apoio social. Tão abstractos quanto possível, proponho eu. Defendo até, aliás, como princípio ético geral, que a justiça é tanto maior quanto mais ela for o reflexo de princípios abstractos e menos da vontade de pessoas concretas – ou, antes, quanto menos ela depender de decisões de pessoas concretas sobre situações concretas de outras pessoas concretas. [Isto para não falar do lado prático da questão: por muito que tenham muitas vezes relutância em afirmá-lo publicamente, geralmente as pessoas preferem pagar para um sistema de apoio domiciliário e lares para idosos, por exemplo, do que tratar pessoalmente dos seus idosos...]

3. No artigo “Haverá futuro para a social-democracia?”, no Jornal de Negócios de 23 Fevereiro de 2011, João Pinto e Castro refere a ideia de Tony Judt (no seu livro Ill Fares the Land) de que, para que o Estado Social se não desmantele, é necessário que as pessoas saibam «como eram cruéis as nossas sociedades antes da emergência da social-democracia». Se, para mim, a ideia de Tony Judt faz sentido, também me parece razoável a objecção que João Pinto e Castro lhe faz: «é provável que uma atitude nostálgica, não enraizada no presente, faça [a social-democracia] parecer ainda mais obsoleta». 
A alternativa que eu proponho para a consciencialização para as óbvias vantagens do Estado Social é a informação sobre as sociedades contemporâneas sem Estado Social (há, infelizmente, muitas sobre as quais se pode dar informação) e, sempre que possível, o incentivar, sobretudo os jovens, à experiência directa dessas sociedades. Se uma jovem dinamarquesa passar uns meses num país como Moçambique (que é onde estou a escrever isto), é extremamente provável que, por mais liberal que seja à partida, fique bastante convencida da necessidade de preservar o Estado Social na Dinamarca… Aliás, nem tem de ser Moçambique: uns meses em Portugal (que é de onde sou cidadão) persuadirão, com certeza, a nossa virtual dinamarquesa do valor do Estado Social que ela, sinal dos tempos..., talvez questione…
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Foto: “Siddende unge mennesker” (“Jovens sentados”), de Johannes Hansen, 1942 (daqui)

09/02/11

Há bocadinho, no mercado central

O vendedor de cordas de plástico chama-me quando eu passo:
"Boss, pergunte-me o preço das cordas, para vir comprar amanhã..."
"Boa tarde, como está?", digo-lhe eu, sem parar.
"... para se enforcar", conclui ele.
E desatamos os dois a rir à gargalhada.

15/12/10

Crónicas de Chocas-Mar e Ilha de Moçambique, 97, 98 e 99

Vamos depois de amanhã de férias para o Norte. Primeiro vamos passar uns dez dias em Chocas-Mar e na Ilha de Moçambique e depois subimos até Pemba e às Quirimbas. Fui hoje reler extractos de cartas aos amigos de 97, 98 e 99, e resolvi que ficavam bem aqui na Travessa, como documento da minha descoberta de Moçambique. Deixei ficar os preços da altura para verem que, parecendo que não, já foi há muito tempo…
[Junho de 1997]
«Passámos uma semana de férias na praia, num sítio chamado Chocas‑Mar, entre Nacala e a Ilha de Moçambique. Chocas foi um lugar de veraneio – se é que faz sentido falar de veraneio num sítio em que há calor todo o ano – no tempo colonial e as vivendas ainda lá estão, umas nacionalizadas, outras reprivatizadas, umas vazias, outras ocupadas, umas a cair e outras em reabilitação. Há‑de ser, toda a gente assim o espera, um centro turístico importante. Praias de areia fina e corais, orladas de coqueiros como o paraíso dos cartazes turísticos que todos conhecemos, peixe e marisco fresco a preços de pechincha. Há‑de ser. Até lá, meia dúzia de pessoas que vêm passar o fim-de-semana, se têm a coragem de enfrentar 21 km de um caminho tipo percurso de trial: alguns cooperantes, às vezes com uma namorada moçambicana de ocasião, que ficam num parque de bungalows que há (350 contos por noite – ± 5800$00) e alguns outros estrangeiros ou moçambicanos com mais posses, que são os donos de umas quantas vivendas habitáveis. E uma calma benfazeja, um silêncio revigorante, cortado só ao princípio da madrugada pelo apelo muçulmano à oração. Vida de luxo.
Uma história gira: um dia, decidimos ir um bocadinho mais longe até às últimas praias do lado sul, quase em frente já da Ilha de Moçambique, por caminhos de areia entre salinas e coqueiros, e ficámos na praia o dia todo. À tarde, quando queríamos voltar, a terra tinha desaparecido, o mar tinha enchido o interior da terra. Estranha sensação – era um destes terrenos alagadiços de mangue e, na maré baixa, nós não tínhamos dado por nada. Mas lá nos safámos, por entre dunas e água – estes four-by-four são uma grande invenção...
No penúltimo dia antes do regresso a Nampula, decidimos passar pela Ilha de Moçambique, apesar da impressão negativa que a Karen tinha de umas horas que tinha lá passado e de toda a gente me ter dito que aquilo estava deprimente de degradação. Mais uma vez, fiquei agradavelmente surpreendido: é verdade que a Ilha está toda em ruínas ou quase, que é triste ver aquela vilazinha branca e brilhante que foi durante séculos e séculos, antes dos portugueses e depois deles, um ponto privilegiado de mistura de todo o tipo de pessoas, africanos, árabes, indianos, europeus, comerciantes, soldados, piratas, sei lá, ver aquela vila ir‑se degradando sem que ninguém queira fazer nada por ela, saber que o dinheiro que já houve para recuperar alguns edifícios históricos desapareceu misteriosamente no bolso de alguém, tudo isso. Mas a Ilha está cheia de vida e de uma vida que apetece descobrir. Um dia, com mais tempo...
Quando se entra, parece que se saiu de África. A parte física da Ilha é tão portuguesa que faz confusão – se não fosse o estado de conservação das casas, éramos capazes de julgar que estávamos numa qualquer pequena vila portuguesa: igrejas e edifícios administrativos, passagens com arcadas, pequenos cafés, praças com estátuas e fontes. O resto é mais asiático: um mar de gente muito pobre, os bandos de crianças que não nos largam, a pedir dinheiro, as dezenas de vendedores insistentes de artesanato “histórico”, como eles dizem. As pessoas têm feições de todo o tipo, desde macuas até árabes, algumas com traços orientais. Mesmo o macua que se fala é muito diferente do macua do continente, explica‑me alguém: tem mais palavras de origem portuguesa.
No museu local, de que um cooperante dinamarquês é agora responsável, a história da ocupação portuguesa da Ilha. No meio de mobília indiana e chinesa e de meia dúzia de quadros de amador, um retrato de D. Luís do Malhoa. Moçambique é cheio de surpresas.»

[Abril de 1998]
«Roubaram‑me a carteira. Grande chatice! Foi assim: Dia 7 de Abril foi feriado (Dia da Mulher Moçambicana) e calhou a uma terça‑feira. A Karen meteu a segunda-feira de férias e fomos para a praia. Chocas‑mar, a nossa praia favorita, de que aliás já vos falei na primeira carta. Desta vez não ficámos no complexo onde costumamos ficar, fomos acampar para a praia. Há um rapaz chamado M. que fez uma palhota e uma latrina na praia e muita gente costuma lá ficar, com ou sem tenda. O M. trabalha como guarda e como cozinheiro e depois as pessoas dão‑lhe qualquer coisa. É bom para todos: para os turistas, é muito mais agradável que a vida no “complexo” e, ao M., dá‑lhe um salário, digamos, de luxo. Compra‑se peixe ou marisco aos pescadores que passam por ali, é uma maravilha. E nunca há problemas, é uma zona muito sossegada, sem gatunos, sem confusões. E então tinha que ser eu, não é verdade?, o primeiro desgraçado a ser ali roubado. Tinha posto os calções com a carteira em cima duma árvore, junto com mais roupa, e alguém conseguiu esgueirar‑se até lá sem ser visto e surripiar‑me a carteira. Só a carteira, note‑se, o que significa que quem me roubou devia ter estado a observar‑nos há um bocado e devia, mais concretamente, ter‑me visto tirar a carteira do bolso e tirar dinheiro da carteira para pagar um peixe a um pescador e umas lulas a outro, porque, senão, como é que sabia que estava ali e carteira e que ela tinha dinheiro?
Seja como for, a pessoa foi vítima dos seus preconceitos: partiu do princípio que o homem é que tem o dinheiro e nem lhe passou pela cabeça deitar a mão à mala da Karen, que estava lá ao pé e que, como ela ia fazer compras para o projecto em Nampula, tinha lá dentro o correspondente a mais de duzentos contos portugueses...
Agora, arranjar segundas vias de documentos custa aqui um dinheirão, para além, é claro, da chatice que dá, que é o pior. O M., quando eu lhe contei a história ficou furioso, porque ficou com medo que, propagando‑se a notícia, nunca mais ninguém quisesse ficar lá no lugar dele. Disse que havia de falar com o curandeiro e que havia de apanhar o ladrão e castigá-lo. E repetiu várias vezes: “Ele está lixar mô vida...”. As pessoas falam muito pouco português naquela zona.»

[Janeiro de 1999]
«De volta ao sítio do M. Eu dizia‑vos, noutra carta, que o M. tinha feito uma palhota e uma latrina na praia e muita gente costumava lá ficar, mas esta informação precisa de algum desenvolvimento e de pequenas rectificações. De facto, foi assim: alguma malta que morava em Nampula e que trabalhava para uma organização irlandesa chamada Concern começou a ir passar regularmente uns fins-de-semana a esta praia da Carrusca. Conheceram então o M., um rapaz duma aldeia ali perto chamada Cabaceira Pequena, e começaram a financiar‑lhe um pequeno projecto, digamos assim, que, ao fim de alguns anos, ainda se mantém: o sítio do M. Além da latrina melhorada e da palhota para fazer sombra à tenda, há ainda um poço de água doce para uma pessoa tomar banho ao fim do dia.
O M. é da Cabaceira mas não é pescador, ao contrário dos outros homens da aldeia. Ele tem medo do mar, não quer ir à pesca. Foi pastor, mas o patrão uma vez esteve vários meses sem lhe pagar o salário e ele decidiu que aquele patrão não lhe interessava. Agora, vive do sítio.
A coisa que mais o fascina é nós conseguirmos beber dezenas de cervejas e continuar normais.
“As pessoas aqui, quando bebem uma ou duas, ou começam logo a lutar ou caem ali no chão, não aguentam…”.
Ele não bebe, porque é muçulmano. Mas é muçulmano por acaso.
“Eu sou muçulmano porque as pessoas aqui são muçulmanas. Se eu fosse para a Europa, lá são todos cristãos, então eu seria também cristão. Porque o que interessa é Deus e Deus é o mesmo em todo o lado.”
O que ele é  realmente é uma pessoa religiosa, um místico. Passa a vida a falar da alma das pessoas, das coisas e dos animais. E o que lhe importa é não fazer mal a ninguém, porque ele acredita que o mal que nos acontece é sempre um castigo pelo mal que fazemos.
“O que eu quero, diz o M., é aprender sempre coisas novas, como por exemplo aquela amêijoa [ele está a falar de umas amêijoas à Bulhão Pato que eu tinha feito], porque a gente não sabe quando é que podemos precisar dessas coisas que aprendemos. Pode vir uma pessoa que quer aquelas amêijoas assim, então eu já sei preparar…”
É uma pessoa muito agradável, como diz a Karen quando fala português. Parece que toda a gente que por ali passou gosta dele. Até chegam a telefonar para a central telefónica das Chocas, para deixar recado para ele estar lá às tantas horas para voltarem a telefonar, só para saberem dele. E ele também se lembra muito bem de todos eles: “A Dona S. da Concern tinha uma faca igualzinha a essa!”, disse‑me ele quando viu a minha Opinel. Igualzinha, não: é uma faca que eu troquei à S. por um blusão de ganga, em Lisboa…
Um dia, conhecemos o Sr. C., que bem podia ser uma personagem do Corto Maltese. Fomos à Cabaceira à noitinha à procura de peixe seco para a Zia, a nossa cadela. Por acaso, nesta zona eles têm um peixe seco muito bom, muito pequenininho, muito prateado, muito estaladiço, que até se come bem assim cru e tudo, a acompanhar uma cervejola, tipo tremoços. Parámos o carro onde o M. nos indicou, em frente a um muro alto de cimento caiado. Devia ser a melhor casa da aldeia, com cobertura de telha e portão de ferro. Não sabíamos que havia gente “rica” a morar na cabaceira. Está claro, tinha de ser um branco… Um velhote dos seus setenta anos, com uma t‑shirt toda rota e uma capulana enrolada à cintura, que é aqui a roupa de casa dos homens.
O homem ficou muito contente de nos ver e não nos deixou ir embora sem nos fazer um resumo da sua vida, num português impecável mas com um forte sotaque italiano. Muito resumidamente, é assim:
“Ainda jovem, quando acabei o seminário, fui para a Amazónia, viver entre os índios. Foi a experiência mais enriquecedora da minha vida. Que gente maravilhosa! Fiquei lá dez anos. Depois, a minha congregação chamou‑me de novo a Itália, onde fiquei mais uns anos. Mas eu já não queria viver na Itália. Lá consegui que me mandassem para África. Vim parar aqui a Moçambique, ainda durante o tempo colonial. Fiz muita coisa por esta gente, construí poços, escolas, postos de saúde. Isto aqui nada funciona, nada. Esta gente não sabe organizar‑se, não sabe tomar conta das coisas. A gente bem os pode ajudar, mas se não forem eles a continuar o nosso trabalho, não vale a pena. E eles não estão interessados em continuar o nosso trabalho…”
Mas então, porque é que fica num país onde nada funciona, onde ninguém sabe fazer nada?
“Bem, eles têm coisas boas. Outras coisas. São pessoas muito boas e, sobretudo, têm tempo uns para os outros, que é uma coisa que nós não temos na Europa.”
Ao lado do Sr. C., está uma mulher dos seus trinta e tal anos, com um bebé ao colo.
“Esta é a minha senhora e esta é a minha filha mais nova. Estes são os meus filhos mais velhos.”
Aponta para dois adolescentes, o mais velho dos quais não deve ser filho biológico dele, porque não parece ter nada de mestiço.
“Sabem, um dia, cheguei à conclusão que não tinha vocação para ser padre. Cheguei à conclusão que a minha forma de espalhar a fé cristã havia de ser outra, através de uma família, de uma descendência… Voltei a Itália e renunciei aos meus votos. Fiquei lá uns anos a arranjar uns dinheiritos, para fazer esta casinha que aqui vêem e para comprar uns terrenozitos que me permitissem subsistir. E depois voltei, para constituir família. Fazemos um bocadinho de milho, um bocadinho de feijão, uns legumes, cá vamos vivendo… Mas agora estou com medo, sabem? Veio aí no outro dia um homem, um português, que disse que era irmão do senhor a quem eu comprei estas terras e que o irmão dele tinha vendido tudo sem autorização da família e que agora a família quer outra vez as terras.”
Evidentemente, não se pode saber se a história do português é verdade ou não. Mas é uma história que, com nuances de pormenor, se ouve de vez em quando: que tenha sido o irmão que vendeu sem autorização da família ou que tenham acabado de herdar de um avô colonial, aparecem portugueses a querer recuperar terras abandonadas há muito tempo. Sosseguei o Sr. C., explicando‑lhe os direitos dele, de acordo com a Lei da Terra. Comprámos o peixe para a Zia e fomos embora.
(…)
Em frente à baía onde ficam a Carrusca e a Cabaceira, é a Ilha de Moçambique. Não se assustem, não me vou lançar em mais um elogio nem em mais uma descrição da Ilha, ela aparece agora aqui como pretexto e contexto de uma anedota do Samora Machel. Aqui também as há, pois é claro, só que, como o Samora é uma figura consensualmente querida e respeitada em Moçambique, são ao contrário das suas congéneres portuguesas. Esta, dizem que verdadeira, é sobre os riquexós. Pouco tempo depois da independência, o presidente Samora (é assim que ele é normalmente referido pelos seus admiradores) disse que não queria ver mais moçambicanos a puxar riquexós, que acho que só existiam na Ilha, e que eram aí uma verdadeira instituição. “Riquexó é trabalho de escravo!,” declarou o presidente.
Uma jornalista portuguesa perguntou‑lhe nessa altura se ele não estaria a exagerar um pouco, acabando assim com uma coisa que fazia parte da tradição da Ilha e que era, além disso, o ganha‑pão de umas quantas famílias.
“Minha senhora, eu não acabei com nada. Eu apenas disse que puxar riquexó é trabalho de escravo, e que não quero ver moçambicanos a fazer isso. Nunca disse que não queria ver mais riquexós. Os portugueses, por exemplo, podem puxar riquexó à vontade…”
(…)
Não íamos passar o fim do ano na praia, pois não? Fomos ao bailarico. Era um grupo de baile de Nampula com muitos músicos, que se iam revezando e que tocavam todos bastante mal. Mas foi muito engraçado! Há uma altura que a banda ataca o Chico Fininho. Só que o vocalista não tinha, obviamente, percebido nada da letra (que não deve ser nada fácil para um moçambicano, convenhamos) e então inventava umas palavras mais ou menos aproximadas, tipo João Mendes em vez de joanetes e coisas assim. E as surpresas não ficaram por aí. A meio da soirée, no meio dos habituais clássicos angolanos e cabo‑verdianos e de umas quantas marrabentas, a banda ataca de repente o “Ai, cachopa, se queres ser bonita, arrebita, arrebita, arrebita!” do Conjunto de António Mafra. Eu deliro! A Karen, evidentemente, não percebe porquê. Mas vocês percebem, ou não? Eh pá, estamos nas Chocas‑Mar, distrito de Mossuril, África Austral, Oceano Índico!»

16/04/10

O guardião do Monte Namúli

Por muito que seja escrito em Chimoio, a Travessa do Fala-Só não é, como já terão notado os meus poucos leitores habituais, um blogue sobre Moçambique. Às vezes lá fala um bocadinho de Moçambique, mas é raro. A verdade é que, vá lá uma pessoa saber porquê!, raramente me saem textos sobre Moçambique. Hoje, ao jantar, porém, lembrei-me de uma história moçambicana engraçada, que achei que cabia bem aqui na Travessa, para variar um bocadinho de tema:

Perto de Guruè, na Alta Zambézia, fica o Monte Namúli, que é a segunda montanha mais alta de Moçambique e é, para as pessoas da região, os lómuès, o berço da Humanidade. Dizem que lá se podem ver as pegadas do primeiro homem. Mas não se devia poder. Quer dizer, ningém devia poder vê-las. Parece que as coisas mudaram um bocado desde que eu vivi na Alta Zambézia, e vi guias de viagens recentes que aconselham caminhadas no Monte Namúli, mas antigamente só se podia escalar a montanha até um determinado sítio. Ou antes só se devia. A partir daí, era proibido, porque era terra sagrada. O castigo de quem se aventurasse até à parte de cima do monte era (como é muitas vezes, nesta parte do mundo, o castigo de quem viola alguma regra costumária) a pessoa perder-se e nunca mais encontrar o caminho para casa. O que é original – e delicioso, na minha opinião – na lenda lómuè é a maneira como a pessoa se perde: se o guardião eterno da montanha lá apanhar alguém, começa a falar com essa pessoa tanto e tão depressa que a confunde completamente; e ela, de tão baralhada que fica, nunca mais encontra o caminho de volta.

Foto de Dr. Oliveira, Wikipedia Commons

12/04/10

A cidade e o campo

Assino What’s new, de Robert Park, uma newsletter que, embora tenha o símbolo da Universidade de Maryland, apenas dá conta das opiniões do autor, que, segundo ele, “não são forçosmente partilhadas pela Universidade, mas deviam ser”. O segundo artigo da edição de 9 de Abril de What’s new chama-se “Beyond green: Borlaug’s two contending powers” e fala de um camponês zambiano, Elleman Mumbia, que a BBC tornou famoso (traduzo eu):
Segundo Kieron Humphrey, na BBC News, o camponês zambiano Elleman Mumbia rompeu com os costumes locais para praticar agricultura de conservação científica. A sua pequena machamba cresceu. Alguns vizinhos falaram à socapa de feitiçaria, mas Elleman Mumbia tornou-se um herói da imprensa zambiana. A reportagem da BBC acaba aqui, mas há um capítulo mais triste que está a ser escrito. No seu discurso da cerimónia de entrega do Prémio Nobel da Paz em 1970, Norman Borlaug disse: «Estamos a lidar com duas forças antagónicas, o poder científico de produção alimentar e o poder biológico da reprodução humana». K.H. von Hoffmann, que chamou a minha atenção para a reportagem da BBC, nota que Elleman Mumbia tem seis filhos (mais ou menos a média na Zâmbia). A machamba é demasiado pequena para ser subdividida. A maior parte dos seus filhos procurarão trabalho na cidade e acabará nos bairros periféricos, como está a acontecer aos jovens em toda a África.
É bem real o problema para que Robert Park chama a atenção. Um exemplo que eu conheço bem é o da Bolívia, onde foi feita uma reforma agrária nos anos 50 e onde todos os camponeses receberam uma porção de terra que, na altura, parecia suficiente, mas, passadas duas gerações, já a terra herdada por cada vez mais gente não chegava para ninguém.

Pode-se, claro está, tentar arranjar soluções para travar as migrações maciças para as cidades, mas também se pode pensar (é essa a minha tendência) que não há verdadeira solução, que o êxodo rural é provavelmente uma fase necessária de desenvolvimento – independentemente da taxa de natalidade, do sistema de heranças e inclusive da terra disponível…Será que num país como Moçambique, onde são raras as zonas onde há falta de terra para cultivar, o êxodo rural é menor por causa disso? Uma vez, publiquei aqui na Travessa do Fala-Só uma lista de dúvidas sobre as questões do desenvolvimento e uma dessas dúvidas dizia respeito, precisamente, à possibilidade de desenvolvimento assente na agricultura. Como não sei dizer melhor agora o que disse nessa altura, limito-me a repeti-lo: Não há prova nenhuma de que possa haver algum desenvolvimento alicerçado no sector primário, sobretudo não industrializado – nunca houve, em lado nenhum do mundo… Desenvolvimento significou sempre, onde ele se deu, uma redução enorme da percentagem de pessoas a trabalhar no sector primário, com movimentações enormes de populações do campo para a cidade e com enormes problemas imediatos que depois se foram resolvendo… Pessimismo, dizem vocês? Se calhar, é só realismo.