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24 de setembro de 2013

Dança macabra

Zigue e zigue e zigue, mas que sarabanda! / São rodas de mortos que se dão a mão! / Zigue e zigue e zague, vejam: aqui anda / Aos pulos o rei, junto do vilão! // Mas ei-los que fogem, todos, de repente, / Que já canta o galo, surge a claridade / Que noite de festa foi p’ra toda a gente! / Viva a morte, pois, viva a igualdade!
É uma tradução muito livre, para conservar ritmo e rima, das duas quadras finais de um poema de Henri Cazalis chamado “Égalité-Fraternité”, incluído em L’Illusion, de 1875*. Foi este texto que inspirou o poema sinfónico Danse Macabre, de Camille Saint-Saëns.

Não nos surpreende o remate do texto, pois não? A impressão que tenho, sem ter investigado muito o assunto, é que a ideia da morte como instituidora de igualdade é bastante comum. É perante a morte, como perante a divindade, que somos todos iguais. Consolo pouco, dirão alguns, se alguma vez o chegou a ser... Mas ideia forte – e imagem forte, também.

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 Há uma frase de Søren Kierkegaard que, à primeira vista, parece desviar-se um pouco dessa ideia:
Mesmo em plena contemplação grave da morte, pode sorrir-se, não da igualdade de todos, mas de haver, apesar dela, diferença.
Lembro-me de que, quando conheci a frase, a interpretei como uma valorização radical da diferença: É assim a vida: às vezes nem a morte, senhor Cazalis, nos faz iguais… Costumava passear pelo Assistens Kirkegård, o mais bonito cemitério de Copenhaga, e às vezes ficava um bocado parado em frente ao jazigo da família Kierkegaard, onde o filósofo Søren se encontra sepultado. Quando escreveu isto, pensei eu, Kierkegaard não imaginava que, naquele mesmo cemitério, um dia o viriam ver turistas, estudantes e toda a classe de gente – a ele, um desconhecido famoso, de que as pessoas sabem sobretudo (é o meu caso…) que foi filósofo e que, olha, a campa dele é ali. E ele, contemplando agora a morte do lado de lá, era bem capaz de achar graça não a sermos todos iguais a ele, mas a considerarmo-lo diferente.

Mas foi porque conheci a frase descontextualizada. A verdade é que também Kierkegaard realça o papel igualizador da morte. A frase é de um texto, “No cemitério”, de 1845, em que Kierkegaard fala de passear de manhã pelo Assistens Kirkegård, precisamente, e da constatação trivial de que, nas campas, há ainda vestígios das diferenças que houve em vida entre quem as ocupa, mas diferenças que a morte reduziu a mesmo muito pouco – a meio metro, um metro que seja**...

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Não sei se sabem, mas Kierkegaard significa “cemitério” em dinamarquês. É uma grafia antiga da palavra, que se escreve atualmente kirkegård. E o significado do nome do escritor introduz muitas vezes jogos curiosos nos textos sobre ele, sobretudo se falarem de reflexões, diante da sua campa, sobre textos que ele escreveu sobre cemitérios…

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* Zig et zig et zag, la mort en cadence / Frappant une tombe avec son talon, / La mort à minuit joue un air de danse, / Zig et zig et zag, sur son violon. // Le vent d'hiver souffle, et la nuit est sombre, / Des gémissements sortent des tilleuls ; / Les squelettes blancs vont à travers l'ombre / Courant et sautant sous leurs grands linceuls, // Zig et zig et zag, chacun se trémousse, / On entend claquer les os des danseurs, / Un couple lascif s'assoit sur la mousse / Comme pour goûter d'anciennes douceurs. // Zig et zig et zag, la mort continue / De racler sans fin son aigre instrument. / Un voile est tombé ! La danseuse est nue ! / Son danseur la serre amoureusement. // La dame est, dit-on, marquise ou baronne. / Et le vert galant un pauvre charron – / Horreur ! Et voilà qu'elle s'abandonne / Comme si le rustre était un baron ! // Zig et zig et zig, quelle sarabande! / Quels cercles de morts se donnant la main ! / Zig et zig et zag, on voit dans la bande / Le roi gambader auprès du vilain! // Mais psit ! tout à coup on quitte la ronde, / On se pousse, on fuit, le coq a chanté / Oh ! La belle nuit pour le pauvre monde ! / Et vive la mort et l'égalité !

** Kierkegaard usa a medida escandinava alen, de cerca de 60 cm, que não sei como se traduz para outras línguas. Provavelmente, não se traduz: não há palavra, quando não há a coisa...

25 de novembro de 2011

2 histórias da 1ª guerra mundial

1. Soldados belgas e franceses no Cemitério Auxiliar de Copenhaga [Crónicas de Svendborg #7]
Todas as histórias de guerra são tristes e cruéis, porque a guerra é sempre triste e cruel. E nem sequer deixa de ser cruel quando não é ela a causadora direta da morte dos que, por ela, tiveram de deixar a sua terra.

Na parte católica do bucólico Assistens Kirkegård, o Cemitério Auxiliar de Copenhaga, reparei uma vez em túmulos de soldados belgas e franceses, e surpreendeu-me ver que tinham datas de 1919. Eram soldados, explicou-me alguém, que tinham sido prisioneiros algures na costa norte da Alemanha e que, quando a guerra acabou em novembro de 1918, vieram de barco para a Dinamarca, para daqui seguirem para casa. Isto foi no início de 1919. Havia nessa altura na Europa uma epidemia de uma gripe violenta conhecida como gripe espanhola. Foi a gripe que matou aqueles soldados. Depois dos horrores da guerra e do cativeiro no país inimigo, quando o cansaço se começava a diluir, seguramente, na euforia do retorno a casa, veio um vírus, que não uma bala alemã, cortar-lhes a vida aos vinte e poucos anos.

Em memória dos soldados franceses e belgas mortos de gripe em 1919. Wikimedia Commons. 
2. A guerra em Moçambique
Aproveito ser hoje aniversário da batalha de Ngomano para lembrar aqui que a Primeira Grande Guerra chegou à África Austral e houve combates entre tropas portuguesas e alemãs em Moçambique. Há algumas páginas online onde podem ler mais sobre o assunto (por exemplo, as que indicarei a seguir) e não é minha intenção desenvolvê-lo aqui, mas tão-só referir aqui um facto que seria apenas surrealista se não fosse trágico e revoltante.

Francisco Proença Garcia [Moçambique na 1ª Guerra Mundial - do Rovuma ao Nhamacurra (1)] cita Azambuja Martins, que escreve:
Portugal mobilizou para aquele território, ao longo dos vários anos, 19.438 militares da metrópole, 985 portugueses recrutados localmente e 10.278 africanos, e recrutou 90.000 carregadores, 60.000 fornecidos ao Exército português e 30.000 às forças britânicas ["A campanha de Moçambique", in Martins, Ferreira, Portugal na Grande Guerra, Vol. II, Lisboa, 1938, p. 186.]. 
Os números são confirmados por outras fontes em A guerra em Moçambique. 5. última fase da campanha, de Manuel Amaral (negrito meu):
As forças portuguesas vindas sucessivamente da Metrópole atingiram 18.613 praças, enquadradas por 825 oficiais.
As 30 companhias indígenas e as 6 baterias indígenas de metralhadoras mobilizaram 303 oficiais, 682 graduados europeus e 10.278 soldados indígenas, havendo mais a contar duas baterias de montanha e uma companhia montada da Guarda Republicana de Lourenço Marques. As forças de marinha mobilizaram um batalhão de duas companhias. Mobilizaram-se também 8.000 auxiliares indígenas das capitanias mores de Moçambique [Livro de Ouro da Infantaria, pág. 100. Artigo de Álvaro de Castro].
Assim as nossas forças mobilizadas atingiram nesta colónia um total de 39.201 homens.
Os carregadores portugueses fornecidos às tropas inglesas elevaram-se a 30.000 10 e os empregados pelas nossas tropas atingiram 60.000; as perdas totais na nossa população indígena de Moçambique deviam ter-se aproximado de 100.000 almas [Dr. Egas Moniz, Um ano de política, 1919. (Apontamentos da Delegação à conferência da paz)]. 
Se já não devia ser fácil, para alguns soldados portugueses, compreender que guerra era aquela e por que combatiam, imaginem o que significaria a guerra para todos aqueles moçambicanos, que pouco ou nenhum contacto tinham tido com europeus e que eram recrutados à força e obrigados a lutar e a morrer por nações que não tinham, para eles, o mínimo significado.

"General Smuts inspecionando uma unidade nativa sul-africana em França", provavelmente por John Warwick Brooke. http://digital.nls.uk/74548224.