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30/07/26

Palavras novas


O dicionário Porto Editora em linha define léxico como «conjunto ilimitado e aberto de todas as palavras e elementos morfológicos com significado possíveis numa língua».    

Atente-se em «conjunto ilimitado e aberto». Ao contrário do que se pensa muitas vezes, o conjunto de palavras disponíveis não só não é fixo como é, em parte, virtual. A palavra fionicamente, por exemplo, significando «de uma forma típica da ilha da Fiónia» era já uma palavra portuguesa antes de eu a ter inventado agora mesmo. E é uma palavra bem formada, isto é, segue as regras interiorizadas pelos falantes para a cunhagem de um termo novo: a um nome de lugar terminado terminado em -ónia posso acrescentar o sufixo -ico para formar um adjetivo significando «natural de» ou «relativo a» esse lugar* e a esse adjetivo posso acrescentar o elemento -mente (não interessa agora se é sufixo ou não...) para formar um advérbio de modo. Evidentemente, esta palavra tem um problema: poucos falantes da língua sabem que existe uma ilha na Dinamarca cujo nome português é Fiónia, pelo que não compreenderiam fiónico e, por isso, também não compreenderiam fionicamente**. Quando, no meu grupo de amigos de Rio de Mouro, se começou a usar o verbo algueiroar, ninguém teve dúvidas sobre o seu significado, que variava, segundo o contexto, entre «ir ao Algueirão» e «estar/parar no Algueirão». Mas quem não soubesse da existência de uma localidade chamada Algueirão não compreenderia o termo.   

Há muitas maneiras de ir atualizando o léxico de uma língua. E uso aqui atualizar em duas aceções ao mesmo tempo: «tornar atual, adaptar ou ajustar ao tempo presente» e «tornar real o que era virtual». Cunhar palavras novas a partir de elementos preexistentes, como exemplifiquei acima, é apenas uma de várias possibilidades. 

A forma mais comum de renovar o léxico é, estou eu em crer, é importar palavras que se usam já noutras línguas. A importação de palavras é muitas vezes criticada enquanto há dela consciência, por se considerar que palavras estrangeiras não devem fazer parte do léxico de uma língua. A distinção entre palavras «nativas» e «estrangeiras» é, porém, muito difícil e, sejam quais forem os critérios que se escolham para fazer essa distinção, há sempre muitas palavras do léxico efetivamente usado num determinado momento em qualquer língua do mundo que são «estrangeiras», no sentido em que houve uma altura em que foram trazidas de outra língua e começadas a usar, em vez de resultaram da evolução de formas anteriores usadas já na língua. 

Sentir-se ou não uma palavra como «estrangeirismo» tem muitas vezes a ver com o seu som, por muito que qualquer palavra passe por um certo grau de «nacionalização» ao ser usada no discurso noutra língua. A palavra feeling, por exemplo, usada em português, transforma-se em fílingue, com um /ĩ/ nasal seguido de um /g/ final, já que os sons originais /ɪŋ/ não existem na nossa língua, mas continua a soar «estrangeira», porque um -ingue atóno em palavras esdrúxulas é incomum em português. Uma palavra como lanche, porém, também importada do inglês e com uma sequência de sons não muito comum em português, já deixou de ser sentida como estrangeira***. O mesmo se passa com futebol ou túnel e muitíssimas outras palavras importadas do inglês. Também ninguém pensa já em constatar ou restaurante como palavras francesas, nem em cavalheiro ou camarada como palavras espanholas, nem em atacar e palhaço como palavras italianas. E o que é mais curioso é que às vezes nos chegam através de uma determinada língua palavras de uma terceira língua: televisão é meio grega meio latina, mas não foi em português que foi cunhada a palavra, foi importada do inglês ou do francês. Placebo é uma palavra latina, mas importámo-la muito provavelmente do inglês, onde é atestada a aceção médica que tem hoje já em 1900. 

Às vezes, em vez de se importarem palavras de outra língua, criam-se palavras novas com palavras ou elementos «nativos», mas segundo o modelo da palavra estrangeira. É o que se chama um decalque (que é um termo importado do francês...). Há dezenas e dezenas deles em todas as línguas. Por exemplo, arranha-céus e lua de mel são decalques dos termos ingleses skyscraper e honeymoon; jardim de infância ou jardim infantil e mundividência ou cosmovisão são decalques das palavras alemãs Kindergarten e Weltanschauung; e franco-atirador e pequeno-burguês são decalques do francês, de franc-tireur e petit-bourgeois. Em linha, na primeira linha deste texto, é um decalque do inglês online

Pode acontecer que um decalque distorça o significado de uma expressão na língua original. Um caso óbvio é o do francês Tiers Monde, que, decalcado para várias línguas, entre as quais o português como Terceiro Mundo, introduz uma ideia de hierarquia dos mundos que não está patente no original (não é Troisième Monde!): a expressão foi cunhada por Alfred Sauvy em 1952, com base nos três estados anteriores à revolução francesa, aristocracia, clero e povo/burguesia, le tiers état: o Terceiro Mundo era a parte do mundo subjugada que haveria de se emancipar, como o tiers état francês.

E alguns decalques podem ser mais sofisticados ou menos óbvios. Por exemplo, a palavra nostalgia, cunhada pelo suíço Johannes Hofer em 1688, juntando os elementos gregos nostos, «regresso a casa» e algos, «dor, sofrimento», decalca a palavra alemã para «saudades de casa; saudades da terra», Heimweh, composta de Heim, «lar, casa, lugar natal» e Weh, «dor, sofrimento». A palavra nostalgia fixou-se sem mais transformações em várias línguas, incluindo o português, mas, noutros casos, dão-se decalques múltiplos sucessivos. Por exemplo, uafhængihed , «independência» em dinamarquês, foi decalcada do alemão Unabhängigkeit, usando elementos diretamente correspondentes (Un-ab-hängigkeit > u-af-hængihed), e a palavra alemã, por sua vez, é composta a partir dos elementos latinos de independentia-, ou seja, prefixo de negação + preposição do verbo que corresponde a pender + nome da raiz de pender, estado do que pende). Muitos termos científicos espalham-se assim, através de decalques sucessivos: uma palavra como anticorpo vem do alemão Antikörper e passa, como decalque, a várias outras línguas (é muito provável que o português não seja um decalque direto do alemão, mas sim do decalque francês ou inglês da palavra alemã, mas não posso ter a certeza).  

Também pode haver decalques semânticos. Os decalques semânticos não implicam cunhagem nem empréstimo de palavras em sentido estrito, mas antes atribuir a uma palavra uma aceção nova com base numa aceção duma palavra estrangeira que normalmente a traduz. Rato para designar o «dispositivo operado manualmente que permite executar funções no computador sem o recurso ao teclado» não é propriamente um termo cunhado em português, mas sim um decalque semântico do inglês mouse.

Um decalque é, bem vistas as coisas, uma forma de importação de palavras (mesmo quando se cria uma nova aceção por decalque semântico, está-se a importar vocabulário) e não é uma estratégia nem mais nem menos apropriada que a importação direta. Há certos puristas que a acham até mais «perigosa» que a importação direta de palavras estrangeiras, mas também isso não faz muito sentido. Importar ou criar palavras novas numa língua nunca a põe em perigo, é uma dinâmica natural e todas as línguas sempre o fizeram. Pode até considerar-se uma prova de vigor. Estou a lembrar-me de um artigo que li há muito tempo, em que o linguista Francisco Raga Gimeno afirmava que, das línguas maias, o maia do Iucatão era a mais contaminada pelo castelhano — e a que mostrava maior vitalidade. O que põe em perigo uma língua é, isso sim, não ser falada, ser língua materna de cada vez menos pessoas. Há muitas línguas a desaparecer todos os dias, porque morrem os seus últimos falantes nativos. E foram efetivamente mortas por outras línguas mais poderosas, mas não porque tenham sido inundadas de estrangeirismos — porque as línguas mais poderosas importaram os seus potenciais falantes. 

O léxico é a parte mais superficial, eu diria «a menos linguística» de uma língua, aquela que se altera com mais facilidade e para a qual mais contribuem outras línguas. Se falarmos dos sons e da estrutura das frases, é certo que também mudam e que também mudam constantemente, mas muito mais devagar. E mudam devido a dinâmicas internas: para haver neles influência de outra língua (chamam os linguistas a isso influência de superstrato ) são precisas migrações muito grandes. Que o /R/ «longo» do português moderno tenha surgido por influência francesa, para citar uma crença bastante espalhada, é um mito apenas, uma influência desse tipo não tem nenhuma possibilidade de ser real.

A fortuna de uma palavra é difícil de calcular quando ela é cunhada ou importada, mas conta muito, claro está, o poder linguístico de quem a cunha ou importa. Por exemplo, muitos latinismos renascentistas importados do castelhano por Camões acabaram por ficar na língua. Mas não é preciso ser o poeta mais famoso de uma língua: todas as figuras públicas têm mais possibilidade de fazer vingar um termo novo, cunhado ou importado. Ou os rapazes ou as raparigas mais influentes num grupo de amigos… 

P.S.: No parágrafo sobre importação de palavras estrangeiras repito, resumindo muito, coisas que já aqui disse noutros textos e sobretudo num texto de fevereiro de 2017 a que vou buscar alguns exemplos que uso neste texto. Quem se interesse por esta questão dos estrangeirismos, pode chegar aos textos que escrevi sobre o tema carregando na etiqueta Estrangeirismos por baixo deste texto.

_________________

* Nem sempre correspondem adjetivos em -ónico aos topónimos em -ónia , mas existem em número suficiente para justificar o neologismo fiónico: encontro, pelo menos, amazónico, babilónico, caledónico, estónico, jónico, letónico, macedónico, patagónico e saxónico, às vezes a par de outras formas.

** Deste tipo de advérbios de modo, só encontrei, nos dicionários que consultei (mas não foi uma consulta extensiva, longe disse), portuguesmente e americanamente . É estranho. Parece-me claro que francesmente, inglesmente, etc. são palavras portuguesas –– e surpreender-me-ia que fossem apenas virtuais...

*** Note-se que são poucas as palavras em -anche em português, embora a sequência não soe estrangeira. Só consigo pensar em palavras originalmente importadas (avalanche , comanche, revanche, romanche e tranche), além de formas dos verbos (des)enganchar, desmanchar (também importado do francês), manchar e remanchar.


13/07/26

Ensimesmamento


A palavra mais esquisita da língua portuguesa deve ser o verbo ensimesmar-se

É certo que nem todas as palavras se formam das maneiras mais canónicas. Parabéns, por exemplo, formou-se de uma preposição e um nome (para bens); e o je-m’en-foutisme francês, que refere uma atitude de desinteresse, de se estar nas tintas para o que se passa, é formado de je m’en fous , «estou-me nas tintas» — dois pronomes, um advérbio e um verbo. Também são palavras um pouco esquisitas, mas ensimesmar-se é muito mais.

Ensimesmar-se é, ao que parece, uma palavra importada do castelhano. Quem terá tido a ideia de a usar em português? E, sobretudo, quem terá tido a ideia de lhe acrescentar a mais anómala conjugação da língua portuguesa, a «dupla flexão pronominal reflexa», que não existe no termo castelhano e que, em português, só existe para este verbo? Em castelhano, ensimismarse, por muito que seja tenha sido formado de maneira incomum, é apenas um verbo regular: yo me ensimismo, tú te ensimismas, ella se ensimisma, nosotros nos ensimismamos, vosotras os ensimismáis, ellos se ensimisman, etc. O que é mesmo estranho no ensimesmar-se português é o pseudo-radical mudar de pessoa para pessoa: eu emmimmesmo-me, tu entimesmas-te, ela ensimesma-se, nós ennosmesmamo-nos, vós envosmemais-vos, eles ensimesmam-se

Pormenor de um desenho de Cory, J. Campbell, 1911
Wikimedia Commons, daqui .
Pode argumentar-se: «Estranho será; mas é lógico.» Bom, a ser lógico, é só meio lógico, porque o particípio passado estraga tudo: o particípio passado é sempre ensimesmado, o que faz que a pretensa lógica dos tempos simples desapareça nos tempos compostos. Seguindo a lógica da tal «dupla flexão pronominal reflexa», podia esperar-se uma frase como 

Depois de me ter *emmimmesmado durante um longo período, comecei, nesse verão, a abrir-me ao mundo à minha volta.

Mas não, não existe. Diz-se e escreve-se 

Depois de me ter ensimesmado durante um longo período, comecei, nesse verão, a abrir-me ao mundo à minha volta.

Não há dúvida: a palavra mais esquisita da língua portuguesa é mesmo o verbo ensimesmar-se


14/12/25

A riqueza das línguas


Há sempre quem queira fazer contas à riqueza das línguas comparando o número de palavras dicionarizadas, nem sempre com os mesmos resultados (ver aqui, aqui ou aqui, por exemplo). Mas como é que se pode fazer isso quando a noção de palavra é tão vaga e os preceitos de dicionarização diferem tanto de língua para língua e mesmo entre os dicionários de uma mesma língua?

Há dicionários em que encontramos, a par do léxico standard da língua (que já é extremamente difícil de definir, se não impossível…), «estrangeirismos», «calão», gíria profissional e termos técnicos (incluindo, designações extensas de fauna e flora), palavras arcaicas e variantes regionais. Isto pode variar de dicionário para dicionário e pode criar enormes diferenças entre o número de palavras dicionarizadas: não fiz pessoalmente esta pesquisa, mas parece que há dicionários de português que têm oito vezes mais palavras que outros...

A questão do número de entradas de um dicionário leva-nos a perguntas interessantes, mas de impossível resposta. Por exemplo: lanche é uma palavra portuguesa? Se se aceita boate e boîte, devia também estar dicionarizada a forma antiga lunch, de quando a palavra foi importada? E cassetete? E hediondo e ex æquo? E se fenilcetonúrico está num dicionário, porque não está microvilositário? Se está laringotraqueobronquite porque não está lipofuscinose? Deviam estar estas palavras todas? Se pingarelho está no dicionário, não devia também estar pixavelho ou mesmo pixavilhómetro? Se está maçarico-bique-bique, não devia também estar jágara? Se está u, como arcaísmo, porque não está ende ou despobrado? Etc., etc. Alguns dicionários aceitam variantes regionais e ou socioletais de palavras. Deve considerar-se aventesma, abantesma e abentesma, por exemplo, três palavras ou uma só? Etc., etc.

E depois há a questão da estrutura das línguas: como comparar as línguas românicas com as línguas germânicas, se, nestas últimas, se faz de dois ou mais nomes outro nome, o que é muito raro nas línguas latinas. Num dicionário dinamarquês, vandresko, tennissko, sportssko, herresko e damesko, por exemplo, são entradas distintas, como em alemão Wanderschuhe, Tennisschuhe, Sportschuhe, Herrenschue e Damenschue, embora cada um destes termos seja constituído por sko ou Schue, «sapatos» e palavras que significam «caminhar», «ténis», «desporto», «senhor» e «senhora». Num dicionário duma língua latina, estes tipos de sapato não têm, obviamente, entradas próprias. Ora há línguas com muito maiores possibilidades ainda que as línguas germânicas de aglutinar em palavras maiores outras palavras mais palavras mais pequenas... 

A questão dos limites do conceito de palavra é sobremaneira interessante quando se trata de formas flexionais.  Tradicionalmente, não se consideram palavras diferentes as formas flexionais (em pessoa, tempo, modo, etc.) de um verbo, nem a flexão de género e número de um nome ou adjetivo (masculino/feminino e singular/plural), quando as há; mas há dicionários que as registam, reenviando depois para a entrada no infinitivo ou na forma considerada neutra do nome ou adjetivo, o masculino singular. Também há dicionários que registam as formas ditas de «aumentativo» ou «diminutivo» de nomes e adjetivos – e quando isto é feito sistematicamente, o resultado pode ser divertido, se não parecer apenas ridículo. Evidentemente, se considerarmos as formas flexionais, uma língua como o português tem muitas palavras cujas correspondentes diretas não existem numa língua como o mandarim, em que as formas verbais não mudam (a questão é muito mais complicada, mas essa conversa não cabe agora aqui), ou o inglês, que tem três formas para um verbo regular como to form, (form, forms, formed), ao passo que o português tem 49* para um verbo regular como formar. Por outro lado, uma língua como o português, com uma flexão de caso limitada aos pronomes, tem muito menos nomes que uma língua como o finlandês, que tem flexão de caso para os nomes: se considerarmos que eu, me e mim são palavras diferentes, então o finlandês, em que há 16 casos para cada nome, tem muitas «palavras» para cada palavra: a palavra talo, «casa», tem 26 formas** entre singular e plural, como se pode ver aqui.  

Por fim, embora haja outras maneiras, um pouco mais complicadas, de dividir as unidades que formam o léxico de uma língua, pensamos sempre em palavras, e vemos as palavras como uma unidade da escrita – como aparecem nos dicionários. Ora isto também é, em muitos casos, puramente convencional e a convenção seguida não é a mesma para todas as línguas, mesmo as muito próximas, ou até variantes da mesma língua. Há inclusivamente sistemas de escrita de certas línguas em que não se deixa espaço entre palavras (como acontece de facto em todas as línguas na oralidade...). Depressa, devagar, afinal, portanto, senão, etc., só são palavras por convenção ortográfica, podiam ser locuções. E as locuções de cor ou em cima só o são também por convenção, podiam ter-se tornado palavras. Evidentemente, isto não influi tanto como as questões referidas atrás no número de palavras dicionarizadas, que era a questão inicial, mas também vem à baila quando se repensa o conceito de palavra.

A (minha) conclusão é que palavra é uma palavra vaga demais para se fazer dela a medida da riqueza de uma língua. Outra conclusão é que não se deve tentar comparar o que não tem comparação. E a última é que, quando se fala de léxico (e não só...), ninguém sabe que línguas são mais ou menos ricas... 

______________________

* forma, formado, formai, formais, formam, formamos, formámos, formando, formar, formara, formará, formaram, formáramos, formarão, formaras, formarás, formardes, formarei, formareis, formáreis, formarem, formaremos, formares, formaria, formariam, formaríamos, formarias, formaríeis, formarmos, formas, formasse, formásseis, formassem, formássemos, formasses, formaste, formastes, formava, formavam, formávamos, formavas, formáveis, formei, formeis, formem, formemos, formes, formo e formou 
** talo, taloa, taloihin, taloiksi, taloilla, taloille, taloilta, taloin, taloina, taloine, taloissa, taloista, taloitta, taloja, talojen, taloksi , talolla, talolle, talolta, talon, talona, taloon , talossa, talosta, talot, talotta 


11/12/25

Língua de trapos

A minha avó usava a expressão língua de trapos para referir alguém que lhe custava a entender («ela/ele é uma/um língua de trapos, não se percebe nada do que ela/ele diz»), por algum defeito de pronúncia ou pela desorganização do discurso confuso, por ser um trapalhão, por se atrapalhar na elocução e lhe sair da boca uma trapalhada – para usar três palavras que vêm de trapo, precisamente.

Evidentemente, não era uma expressão exclusiva da minha avó, ouvi-a também a outras pessoas. E estou em crer que a expressão morreu na geração dos meus pais. Ou talvez na minha, não sei, mas não me lembro de a ter ouvido a pessoas mais novas. Procurando nos dicionários em linha, só encontro língua de trapos no Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa com o significado de «pessoa maldizente», aceção com que nunca a ouvi (não será uma confusão com a expressão dizer trapos e farrapos?). Com o significado que lhe conheço, não a encontro. Já a expressão que diretamente lhe equivale em castelhano, lengua de estropajo, está dicionarizada como nome de dois géneros, com o significado esperado (traduzo eu): «Pessoa balbuciante, ou que fala e pronuncia mal, de maneira que mal se entende o que diz».

Sabemos que a língua, como organismo vivo que é, tem de estar em constante mudança – para se conservar viva, precisamente; mas custa-nos, em cada geração, ver desaparecer expressões que acarinhamos, às vezes por nos virem de pessoas que nos mereciam carinho. Neste caso concreto, esta associação dos trapos à dificuldade de expressão vem de longe: acabo de a encontrar numa famosa novela picaresca espanhola de 1528, Retrato de la Lozana Andaluza, de Francisco Delicado. Traduzo eu a passagem em questão (texto original completo aqui):

LOZANA – [...] E que mais? Dir-me-ás CELESTIAL sem gaguejar.
DOMÉSTICA.-  CE LES TI NAL.
LOZANA.-  Ai, pobre de ti, que tanto gaguejas! Diz ALCATARA.
DOMÉSTICA.-  AL CA GO TA RA.
LOZANA.-  Ai, desgraçada! Não é assim! E que fanhosa és! Tens uma língua de trapos! 



17/12/24

Costura: coisas da memória e coisas da história


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Distinguia a minha avó

dois casacos, os quais são:

sem trespasse, paletó;

de trespasse, jaquetão.

(E não julguem qu’isto é só

devaneio ou disparate;

saibam que era a minha avó

costureira d’alfaiate!)

Mas mais que o corte, enfim,

se é ou não assertoado,

o que conta, para mim,

é o mat’rial usado;

e aquele que mais combina

comigo é, não sei porquê,

a velhinha bombazina,

– ou veludo cotelê...


Além das palavras que aparecem nas quadras acima, aprendi com a minha avó muitas outras expressões mágicas e os gestos que lhes correspondem: alinhavar, chulear, gizar, passajar, pespontar, bolsos metidos e bolsos estampados, costura inglesa, singela ou dupla, e muitas outras. Estes termos da costura são uns mais conhecidos que outros entre os não iniciados, como é natural quando se trata de termos técnicos; mas figuram todos nos dicionários, como devem, por muito que haja já pouco em Portugal quem ganhe a vida a costurar artesanalmente, ou seja, a fazer roupa à mão e à máquina... de costura. 

Como acontece também noutras áreas,  alguns termos da costura foram importados de línguas mais internacionais, como o inglês das mangas raglan ou o francês de plissar – depois de devidamente nacionalizado a palavra plisser – e de poche, a bolsinha de pano onde a minha avó guardava agulhas, dedais e alfinetes. Achei que, no meio de tantos empréstimos dicionarizados que há (e bem, não tenho nada contra), poche também o devia ser e propus essa entrada a um dicionário, mas a minha proposta foi indeferida – a única poche que aceitam é uma interjeição «usada para chamar e afagar um cão»...

A máquina de coser lá de casa era uma Singer a pedal, com uma correia de transmissão de couro (igualzinha a esta aqui), que a minha avó, como creio que todos os portugueses dessa época (e não só...), pronunciava com g de gelo e não com g de gato. Aprendi nela a enfiar linha e a coser – mas quem cosia sempre era o meu irmão, que cosia muito melhor que eu... Normalmente, eu alinhava e ele cosia. Cosia a minha roupa e a dele. Apertávamos sobretudo jeans, que se usavam muito justas na pernas, ou fazíamos bainhas, coisas simples.  

O princípio revolucionário do olho da agulha no extremo oposto ao das agulhas manuais, a ideia que permitiria a criação da máquina de coser, foi registado por um alemão que vivia em Inglaterra, Charles Fredrick Wiesenthal, em 1755 (!). Mas Wiesenthal não inventou propriamente uma máquina de costura. Nos 100 anos seguintes, foram-se sucedendo várias desenhos e protótipos de máquinas de costura, até que surgiram em meados do séc. XIX as máquinas de costura modernas, ou seja, já não muito diferentes da primitiva máquina da minha avó (ver aqui).

Penso que as pessoas não se dão conta da revolução que a máquina de costura constitui e sugiro um vídeo de Derek Muller no seu canal Veritasium em que, além de contar a história do engenho, explica em detalhe o seu funcionamento (em inglês). 



10/10/20

Muleta

Os dicionários a que tenho acesso (que não são muitos, nem os melhores, mas, mesmo assim…) dão muitas definições de muleta, mas esquecem todos eles uma muito importante:
objeto que o carteirista usa para encobrir o exercício das suas habilidades, normalmente um casaco dobrado, mas também um jornal, uma toalha de praia, etc.
Esta aceção de muleta é muito conhecida e aparece em muitos textos, não sei porque não chega aos dicionários…

Curiosamente (ou nem tanto, porque já se sabe que o calão português e o calão espanhol partilham muitas palavras), usa-se a mesma palavra em castelhano, como se pode verificar no relatório donde vem este desenho (autor desconhecido). De notar que, segundo esse relatório, o desenho não ilustra um carteirista típico, mas faz antes de uma síntese de todos os tipos de carteiristas.

27/12/19

Três pequenas notas sobre charro, insumo e sótão

Charro

Há um caso conhecido de contribuição do híndi para o vocabulário dos amadores de Cannabis sativa em Portugal. Ganza vem obviamente do híndi ganja, गांजा, termo cujo uso nas línguas europeias está documentado há séculos, com o seu significado original, isto é, referindo apenas o produto. Os outros usos em português moderno, para significar «uma dose de Cannabis» («fumar uma ganza») ou o seu efeito («estar com uma grande ganza») surgem, obviamente, por extensão do significado original.

Menos óbvia é a etimologia de charro, mas parece-me provável que também tenha origem indiana — embora, como ganja, deva ter chegado ao português pelo inglês, língua de comunicação na Índia e língua franca do quem, nos anos sessenta, a divulgou no Ocidente—e à Cannabis... Muitos amadores de Cannabis anglófonos conhecem—sobretudo se tiverem viajado na Índia, mas não só—o termo inglês churrus (pronunciado [tchâras], mais ou menos), ou as suas variantes charras ou charas, que designa um tipo de haxixe (do híndi चरस, urdu چرس). É bem possível que o termo, originalmente um nome não contável como haxixe, imediatamente se tenha tornado contável em português, passando a designar não o produto, mas os cigarros em que ele se consome — possivelmente por analogia com cigarro, precisamente, a que também pode ter ido buscar o rr «longo».

Insumo

Quando faz falta uma palavra, a língua arranja-a logo. Ou se cunha uma palavra nova ou se importa uma palavra de outra língua. Acho que muitos falantes do português sentiam e sentem muitas vezes dificuldades em traduzir o inglês input. É certo que, quando se traduz, não é em palavras isoladas que se deve pensar, e sim em frases completas, mas todos, mesmo os melhores tradutores, se deixam apanhar na armadilha de emperrar em palavras concretas.

Traduzo as definições de input do Cambridge em linha: «aquilo que se introduz num sistema, organização ou máquina (como energia, dinheiro ou informação) para que este/a possa funcionar; ajuda, ideias ou conhecimento que alguém fornece a um projeto, organização, etc.; um recurso, como sejam materiais ou mão-de-obra, que entra na produção de qualquer coisa e cujo custo tem influência nos lucros».

Se procurarem no dicionário técnico da União Europeia, depois de escolher EN como língua de partida e PT como língua de chegada, obterão 513 entradas com a palavra e as suas correspondentes em português em cada caso. Input pode traduzir-se por entrada, fluxo, meio, fator de produção, aporte, contributo e seguramente muito mais, consoante o contexto em que ocorra. Ah, e por insumo, claro!

Lido muito com a palavra insumo há cerca de 20 anos. Em agricultura, por exemplo, fala-se muito de insumos agrícolas para referir sementes, adubos pesticidas e herbicidas, alfaias e maquinaria, tudo aquilo que é necessário para produzir. Mas pode falar-se de insumos para qualquer atividade produtiva. Pessoalmente, uso a palavra apenas para referir coisas materiais, mas há quem lhe dê um uso mais vasto. Por exemplo, eu nunca diria “insumos para a elaboração de um relatório” (nesse caso, usaria contributos), mas há quem o faça.

Tenho quase de certeza de que o termo surgiu simplesmente para traduzir o inglês input. Tenho também quase a certeza de que surgiu no Brasil e que foi importado do castelhano, onde se terá formado já há mais tempo como deverbal de insumir, palavra que não importámos (ver aqui). Depois, do português brasileiro, a palavra espalhou-se rapidamente, sendo agora comum também noutras variantes. Eu conheço-a sobretudo de Moçambique, mas o Porto Editora, por exemplo, acolhe a palavra como termo de economia, sem indicar que é brasileirismo ou moçambicanismo. O mesmo o Priberam

Uma coisa é certa: gostemos ou não dela, é, como se costuma dizer, uma palavra bem formada. Podia ter sido cunhada na nossa língua e segue os preceitos clássicos da «boa formação» de palavras: tem origem latina e tem familiares há muito residentes na nossa língua, como consumo, consumir, eximir, prémio, pronto, presunção, redimir, resumo, resumir, subsumir, etc., etc., todas elas com origem no emere latino, «tomar, obter», ou em sumere, variante de subemere.

Sótão

Mostrava-me um amigo meu, no outro dia, uma foto de uma placa anunciando um restaurante chamado O Sótão na cave de um edifício. Eu percebo a piada da foto, claro, mas, pensando bem na palavra, mais surpreendente que um sótão na cave é que sótão não signifique mesmo cave, como se poderia esperar.

Em castelhano, sótano significa «cave» e o cognato italiano, sottano, é expressão regional para designar uma habitação térrea pobre, também conhecida como basso. Não parece haver consenso quanto à etimologia de sótão: uns propõem uma forma latina não atestada, *subtānu-; outros outra forma latina, subtulu-, que teria dado uma forma intermédia sótalo em castelhano. Mas, seja como for, o significado etimológico é sempre «o que está debaixo; a parte de baixo»—o que é patente nos cognatos castelhano e italiano. A explicação que se costuma dar para a deriva de sentido do termo português é que o sótão está debaixo do telhado, mas é uma explicação convincente, sobretudo quando não se aplica aos cognatos nas línguas próximas?

Uma outra explicação poderia ser (isto é puramente especulativo, como muitas propostas de explicação de evoluções semânticas—sou só eu a pensar em voz alta, como se costuma dizer) que o termo, originalmente designando a cave, tivesse ganho um sentido de «arrecadação», que passou a aplicar-se independentemente da situação da arrecadação no edifício e que depois de especializou nos espaços usados para esse fim na parte superior das casas.

10/10/19

Peros e maçãs

No dialeto da minha região — e não só —, maçã usa-se para referir os frutos das árvores da espécie Malus domestica que têm uma altura claramente menor do que a largura. Quando os frutos das árvores dessa espécie são claramente mais altos que largos, chamam-se peros. Entre os dois tipos, fica uma nomeação indecisa, creio eu. E, bom, há variedades de que encontram as duas designações, mas não sei se de deve à forma essa hesitação. Nalguns casos, é antes o tempo o responsável: o que era antes pero passou agora a maçã, que, provavelmente, acabará por se impor como termo único para designar os frutos da espécie. Até se chama agora Maçã Bravo de Esmolfe, vejam lá vocês!, ao que sempre foi pero-bravo-de-esmolfe — ou «pero-bravo-mofo», como ouvi muitas vezes dizer… Mas está mal, e não só pelas maiúsculas e ausência de hífens: se querem chamar-lhe maçã em vez de pero, chamem-lhe então maçã-brava-de-esmolfe, sim?

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Tirando raras exceções (agora, lembro-me só de figueira, mas sei que há mais...), há, em português, uma relação direta entre o género da planta e o género do seu fruto — planta masculina, fruto masculino, como limoeiro, pessegueiro, ananaseiro, abacateiro, medronheiro, abrunheiro, coqueiro, etc.; planta feminina, fruto feminino, como laranjeira, macieira, ameixeira, nespereira, bananeira, tamareira, amoreira, etc. Pero não é exceção: à árvore que dá os peros chama-se pereiro.

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Note-se que tanto pero como pereiro estão longe de ser termos espúrios ou «populares» ou «dialetais». Têm pedigree e bom pedigree, como se pode ver na breve história de pero que Isabel Maria Fernandes escreveu no blogue Saberes Cruzados). Não faltam, sequer, abonações de escritores consagrados. Por exemplo, Filinto Elísio, usa o termo em matéria épica, a sua recriação do Oberon de Wielend:
Mas ha lá no jardim, junto á marmorea
Fonte, um pereiro, abérto como um léque.
O pedigree é, aliás, justificado pelo antigo nome botânico: antes de se dividirem peros/maçãs e peras em dois géneros, eram ambas as plantas classificadas num único género, Pyrus, e peros/maçãs eram Pyrus malus.

Ilustrações de May Rivers em The Fruit Grower's Guide, de John Wright (1836), digitalmente tratadas por Rawpixel (daqui e daqui)  


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P.S.: Como já aqui disse uma vez, não são só peros e maçãs que, em português europeus, se distinguem uns dos outros por serem os primeiros mais altos que largos e os segundos mais largos que altos—o mesmo acontece com tacho e panela.

02/09/19

De migas e sopa

Mica, miga, migalha, migar, tudo isso vem tudo do latim mica, que quer dizer migalha. É uma família de palavras ibérica, se se pode dizer assim, pois que existem palavras semelhantes em línguas vizinhas — pelo menos em galego (miga, migalla, migar) e castelhano (miga, migaja, migar).*

Uma parte do significado desta família de palavras está relacionado com pão; e migar, além de significar «esfarelar» ou «partir ou cortar em pedaços pequenos», significa «pôr pão na sopa». A sintaxe deste migar é variável. Vê-se por exemplo, em Quando os lobos uivam, de Aquilino Ribeiro, um migar transitivo que tem como objeto a tigela (e, deito-me eu a adivinhar, que nunca tal ouvi, talvez também a sopa…)
«Miga bem a tijela!», dizia a voz materna, amorável no seu sotaque ralhado. «Miga bem, Jaime, que só tens caldo!»
Há também outra construção em que migar pão tem a sopa como objeto indireto. Conheço-a de um dos Contos tradicionais do povo português, de Téofilo Braga, um história que ele diz ter recolhido em Airão, no Minho:
Um rapaz foi offerecer-se para criado a casa de um lavrador; á noite, quando foram ceiar, deram-lhe uma tigella de caldo. Diz elle:
– Oh meu amo, o caldo está muito quente.
– Pois sópra-lhe.
No dia seguinte o rapaz despediu-se, entendendo lá para si que lhe não convinha servir n'aquella casa, onde nem tempo dariam para comer. Foi-se offerecer a casa de outro lavrador; aconteceu a mesma cousa; ao começar a comer o caldo, disse:
– Oh meu amo, o caldo está muito quente.
– Pois espera que arrefeça.
O moço tambem resolveu não ficar servindo n'aquella casa, cuidando que lhe dariam tempo sem mais nada. Foi-se embora ao outro dia, e chegou a casa de outro lavrador, que o tomou para o serviço. Á ceia disse o moço:
– Oh meu amo, o caldo está muito quente.
– Pois miga-lhe brôa.
O rapaz disse lá para si, que aquella era a casa que lhe convinha, e ali se deixou ficar.
Eu sei que não é grande novidade para ninguém o que fica para trás. Sabemos todos que, antigamente, a sopa de muitos era caldo que de entulho só tinha pão; e também sabemos quais eram as condições laborais dos trabalhadores rurais em tempos que felizmente já lá vão… Agora, talvez seja novidade para alguns o que se segue:

A palavra sopa, antes de significar o alimento (semi)líquido, significava o pão que nela se punha. A palavra é de origem germânica, mas parece ter chegado às línguas latinas (e ao inglês) pelo latim, que a tinha incorporado. É certo que sopas ainda hoje são «o pão que se miga na sopa» — ou no vinho açucarado, se forem de cavalo cansado —, mas o que eu quero dizer é que é foram os bocados de pão migados no líquido a dar nome à sopa e não a sopa a dar nome aos bocados de pão, se me faço entender.

Ilustração: Marcus Gheeraerts I, pormenor de «Fabel van de sater en de boer» («Fábula do sátiro e do camponês»), in Eduard de Dene: De warachtige fabulen der dieren, Bruges: 1567, p. 60

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* Noutra línguas latinas, há um nome apenas: em catalão, há mica, «bocadinho»; em francês há mie, «miolo (de pão)»; e em italiano, mica, que pode ser «bocado» ou «migalha de pão».

12/01/19

«Este trabalho está pecável!» – uma pequena curiosidade linguística

Uma vez, no Facebook, alguém propôs um jogo, em inglês: arranjar palavras com um prefixo de negação a que não correspondesse um antónimo sem o prefixo. Por exemplo, há impeccable, mas ninguém ouviu falar de *peccable… Achei graça e propus aos meus amigos facebookianos de língua portuguesa o mesmo jogo na nossa língua. O resultado surpreendeu-me um pouco: há muito mais palavras desse tipo do que eu imaginava.

Antes de mais, conviria talvez explicar que os chamados prefixos de negação ou privação são, em português, os seguintes:
• a/an-, de origem grega, que se encontra em palavras como acrítico, agnóstico, amoral, assexuado, atípico, etc.;
• des-, de origen latina, que se encontra em palavras como desacerto, desonesto, desaconselhável, etc.; e
• in-, o prefixo de negação mais comum, que muda ligeiramente de forma (gráfica e/ou fonética) consoante o som que tem depois: inapto, inviável, insatisfeito; imbatível, impossível; ilógico, imoral; irreconhecível. (É preciso não confundir este prefixo com outro in-, que significa «movimento para dentro», às vezes transformado em em/en-, como em enterrar. Por exemplo, em impropério, que parece ser uma palavra com um im- que negaria algo próprio, no sentido de «apropriado», o im- não é, de facto, um prefixo de negação: vem do verbo latino impropero, que é «entrar de rompante», formado de propero, «apressar-se, acelerar», com a preposição in, «para dentro».)

É complicado se se deve considerar dis- um prefixo de negação/privação. Embora atualmente seja assim entendido, o sentido original grego é «mau»: dispneia, disenteria, dispepsia, disfasia, etc. E pode levantar-se a mesma dúvida relativamente ao dis- de origem latina, que é originalmente mais de separação que de negação e que se encontra, por exemplo, em discordar e discussão. Não considerarei aqui essas palavras.

Quanto às palavras com não, como em tratado de não agressão, o não não é propriamente um prefixo e, com a nova grafia, nem sequer se liga com hífen: não alinhado, não contradição, não intervenção. É interessante notar que há diferença entre prepor não a uma palavra ou usar outro prefixo negativo (pensem em não alinhado e desalinhado, por exemplo), mas, claro está, todas as palavras formadas com não têm uma correspondente sem não [sorriso], pelo que essas palavras também aqui não nos interessam.

Há ainda uma categoria de falsos negativos, em que o aparente prefixo negativo é de facto um elemento de reforço, como em desinfeliz, destrocar, desinquieto. Uma curiosidade, dentro deste tipo de palavras, é a palavra descascar. Na sua origem, creio que o des- de descascar é um prefixo de reforço, já que cascar significa o mesmo que descascar, «tirar a casca». Mas creio que descascar é atualmente sentido como tendo um verdadeiro prefixo de negação, como se cascar fosse pôr uma casca e descascar tirá-la. Não sei se contribuiu para essa perceção o facto de cascar, com o significado de «tirar a casca», ter caído em desuso ou se, pelo contrário, foi essa perceção que contribuiu para o desaparecimento do significado antigo de cascar.

***
Mas vamos então às palavras portuguesas com prefixo negativo de que não há antónimo positivo – normalmente porque só a forma com prefixo de negação evoluiu do latim ou porque só essa forma foi importada de alguma outra língua. Eis uma lista, forçosamente incompleta, de palavras desse tipo, com breves comentários a cada uma:

  • Analgésico é formado de analgesia, termo médico para «supressão da dor», negativo de algesia, «sensibilidade à dor», mas *algésico não existe.
  • Anemia, como o nome de muitas doenças, é de origem grega: haimas é sangue e anaimia é falta de sangue. O temo positivo, *(h)emia, não existe como vocábulo independente, mas -emia ocorre como elemento de formação de palavras como hipoglicemia ou leucemia, por exemplo.
  • Anónimo é «(feito por alguém) de que não se sabe o nome», mas não há *nómino para dizer o contrário. Uma palavra com a mesma raiz é denominar, mas denominado não é antónimo de anónimo.
  • Ateu e ateia são palavras curiosas. Se é claro que não há *teu e *teia para referir quem crê num deus, já ateísta e ateísmo, com a mesma raiz grega (theos, «deus»), têm um antónimo não prefixado, teísta e teísmo.
  • Diz-se descarado de alguém que não é envergonhado ou que não tem pejo em desrespeitar convenções sociais, mas *carado não existe. Os dicionários consagram um verbo descarar de onde teriam derivado o adjetivo, mas nunca o ouvi. É capaz de ter caído em desuso, não sei.
  • *Façatez não existe, só desfaçatez. Trata-se de uma palavra importada já com o prefixo, do castelhano desfachatez, que, por sua fez, a foi buscar ao italiano sfacciatezza. O s- inicial do italiano é um prefixo privativo correspondente aos nosso des/dis- que se junta à palavra faccia, «cara», pelo que a expressão é paralela ao nosso descaramento.
  • Desdenhar é o contrário de um *denhar que não existe, mas que, a ter existido, seria uma forma irmã de dignar. Originalmente, *denhar/dignar devia ser «tratar com dignidade», o que justifica o significado de desdenhar, mas dignar (que, em português moderno, só conheço como verbo reflexo) não é o contrário de desdenhar, é antes «condescender em», «fazer o favor de».
  • Desvirtuar, que tem origem em virtude, usa-se sobretudo no sentido de «trair ou deturpar o [bom] propósito ou sentido de alguma ação ou afirmação», mas *virtuar não existe.
  • Não consigo saber (acho que ninguém sabe) se o im- de imbecil é um prefixo de negação. Existe a teoria de que o latim imbecillus («fraco, débil»), que é o étimo da palavra, derivaria de um *imbacillus formado pelo prefixo privativo im- preposto a bacillus («pau», étimo de bacilo), e que significaria, por isso, «sem bengala», mas há quem considere esta hipótese fantasista.
  • Imberbe é quem não tem barba, mas quem tem não é *berbe. Esperava-se talvez algo como *imbarbe, da família de barba, mas não, aquele estranho -e- já existia em latim e nunca se «regularizou» nas línguas neolatinas.
  • Imune tem uma história curiosa. O latim immunis é «isento de impostos ou serviços públicos» e forma-se de munis, «sujeito a impostos ou serviços públicos», palavra de uma família que dá, entre outras, a palavra município em português. Só o imune sobreviveu e nunca houve *mune nas línguas latinas. Não sei se a palavra imune chegou alguma vez a ser usada em português no sentido de «isento», como foi usada em francês e inglês antigo. O sentido atual é provavelmente importado do francês no séc. XIX.
  • A palavra incólume vem do latim incolŭmis e creio que era uma palavra que só existia com o prefixo de negação. Segundo o que pude encontrar, *colŭmis poderia ser da família de calamitas, «calamidade».
  • Inédito é «não publicado» e não há o adjetivo *édito com o significado de «publicado», só o nome.
  • Inerte vem já prefixado do latim. Significava, ao que vejo, algo como «sem profissão/sem trabalho», porque o prefixo privativo se juntou originalmente a ars, artis, «arte, ofício» e depois o -a- passou a -e-.
  • Injúria também veio já do latim com o in- de negação. Forma-se de ius, que é «lei, direito, dever», da família de jus, justo, justiça...
  • Se não está partida ou dividida, uma coisa está intacta, mas não está *tacta se estiver partida. Na verdade, intacto é originalmente «não tocado», formado do particípio tactus do verbo tangere, «tocar». Da mesma raiz e com o mesmo significado original são as palavras íntegro e inteiro (duas formas divergentes do mesmo étimo latino) e integral, a que não correspondem nenhum *tegro, *teiro ou *tegral. Creio que um falante do português não tem consciência de que o in- inicial é, nestes casos, um prefixo de negação.
  • Comida sem sal é insossa, mas não é *sossa a comida com sal. Em latim, havia sulsus e insulsus, feitos do particípio de salire, «salgar», mas só a palavra com prefixo negativo chegou ao português. E com duas formas diferentes, curiosamente, já que os dicionários acolhem insulso (que eu não conhecia), com o mesmo significado de insosso – mas *sulso não há.
  • Quem sofre de insónia é ínsone. Não há *sónia nem *sone, mas pode discutir-se se sono se pode considerar o contrário de insónia...
  • Inupto é «solteiro, por casar», mas uma pessoa casada não é *nupta. A forma existia em latim, mas, mais uma vez, só a forma prefixada chegou ao português. Temos nubente, da mesma família.


  • ***
    É de notar que algumas palavras têm antónimos não prefixados registados nos dicionários, mas que devem ser palavras raríssimas, algumas talvez arcaísmos (?). Eu, pelo menos, nunca as vi nem ouvi. Sei, por exemplo, que estão dicionarizadas ou fazem partes de corpos lexicais as palavras batível, pávido, pecável, perdível, placável, cansável, cógnito, delével, trépido e usitado mas não me lembro de as ter ouvido. (Aplacável, conheço, claro, com o mesmo sentido de «que se pode acalmar, sossegar, mitigar, aliviar») Algumas delas, nem faço ideia de como se poderão usar (??? «Não viste O marciano? Deixa estar, também é um filme perdível…») Só conheço imbatível, impávido, impecável, imperdível, implacável, incansável, incógnito, indelével, intrépido e inusitado. Como me dizia Helena Galvão Soares, pode-se suspeitar que «há verbetes de dicionários que foram criados só para justificar a estrutura de outras palavras».

    Deste grupo de palavras, de formas não prefixadas que me são desconhecidas, há algumas que me causam mais estranheza do que outras. Negável, por exemplo, que não me lembro de alguma vez ter ouvido, mas parece-me uma palavra normal, digamos assim, daquelas que, quando se ouvem pela primeira vez, se sabe bem que existiam mesmo antes de nos depararmos com elas.

    Há também outros antónimos sem prefixo que, embora já os tenha visto e ouvido, são incomparavelmente mais raros que as formas com prefixo negativo: cauto e sólito são bons exemplos dessas palavras rebuscadíssimas, de ocorrência muito mais escassa que o incauto ou o insólito que dizem o contrário.

    ***
    Há também algumas palavras que, embora não tendo um antónimo positivo direto, têm antónimos formada da mesma raiz. Por exemplo:
    • Não há *alfabeto com o sentido de «que sabe ler e escrever», ou seja, como contrário de analfabeto, mas usa-se para esse conceito a palavra alfabetizado.
    • Se uma coisa não tem cor, é incolor; se a tem, não é *color, porque isso não existe, mas pode ser colorida.
    • Não existe *menso, só imenso, mas existem mensurável e imensurável, com a mesma raiz.
    • Um lugar pode ser inóspito, mas *hóspito não pode ser, só hospitaleiro.
    • Se um crime não fica impune, é punido – mas *pune não há.

    ***
    Agora, interessante também é o caso de palavras em que a forma sem o prefixo negativo não é antónima da forma prefixada:
    • Está afónico quem não consegue falar, mas não está fónico quem o consegue fazer — fónico significa antes «respeitante aos sons da língua».
    • Os termos imobilizar e mobilizar não são, muitas vezes, o contrário um do outro, porque o primeiro tem frequentemente um significado físico de «fazer cessar o movimento», ao passo que o segundo se emprega sobretudo para dizer «recrutar» ou «angariar».
    • Dizemos impassível de alguém que não demonstra emoções – e a palavra passível, que é da família de paixão, significa originalmente «emocionalmente envolvido ou afetado», mas nunca a vi usada com esse significado. Creio que atualmente só se se usa no sentido de «que pode ser objeto»: «O que ele fez é passível de castigo».
    • Nem sempre indiferente é o contrário de diferente. O contrário de diferente é igual e indiferente tem muitas vezes outro significado. Diferente e indiferente podem ser antónimos em frases do tipo «É diferente escrever com ss ou ç, são palavras diferentes» e «É indiferente escrever com acento circunflexo ou não, as duas grafias são aceites», mas diferente não funciona como antónimo do indiferente em, por exemplo, «Ele mostrou-se indiferente às suas lamentações.»
    • Também disposto não é o contrário de indisposto. Indisposto é sinónimo de maldisposto ou não muito bem-disposto. Não é fácil encontrar-lhe um antónimo que funcione sempre. Bem-disposto, por exemplo, só às vezes funciona.
    • O dicionário regista para tratável o significado de «afável; sociável», mas eu só conheço tratável no sentido de «que se pode tratar». Como eu a conheço, a palavra intratável não é antónima de tratável, mas o dicionário não concorda comigo…
    ***
    Finalmente, há algumas palavras que me merecem comentários especiais.

    O grupo desgraça, desgraçar e desgraçado é curioso. Podemos considerar que existe graça como antónimo de desgraça, quando as palavras se usam nas expressões cair em graça e cair em desgraça, por exemplo, mas graça não é o contrário de desgraça no sentido de «infelicidade» ou «catástrofe», etc., como desgraça não é o contrário de graça no sentido de «encanto» ou «piada». O contrário de engraçado, que pode ser quem é «bonito», «simpático» ou «divertido», pode ser desengraçado, embora não me pareça que esta palavra seja o contrário de todas as aceções de engraçado. Já engraçar me parece exatamente o contrário de desengraçar, mas posso não estar a ver todas as situações do seu uso…

    Infame é outra palavra curiosa. Não existe a palavra *fame e infame não é quem não tem fama, mas sim «quem tem má fama». Podia pensar-se que mal-afamado, com a mesma raiz, podia ser um quase-antónimo e originalmente infame devia significar precisamente isso. Mas perdeu-se a consciência da relação com fama, e infame tornou-se um termo de apreciação negativa, sobretudo relativamente ao caráter ou à moral de alguém.

    Em latim, nocere é «causar dano» (de qualquer tipo) e nocuu- ou nocente- o que causa dano. Encontro nocente registado nos dicionários e encontro quem defenda que a palavra nócuo existe em português, embora não a tenha encontrado em nenhum dicionário. Nunca vi nem ouvi nem uma nem outra palavra. Seja como for, inocente tem hoje em dia um significado diferente de inócuo, o que quer dizer que, aceitando que nocente existe, não é o contrário de inocente. Agora, tanto nocente como o pretenso nócuo têm um sinónimo com a mesma raiz, nocivo, pelo que se pode dizer que inócuo também faz parte das palavras com um antónimo com a mesma raiz. Mas inocente não.



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    Alguma da informação veio inicialmente desta página (que a foi buscar a uma fonte que deixou de estar acessível), mas foi depois verificada, dentro do limite dos meios à minha disposição. Uma grande parte da informação etimológica vem do Online Etymology Dictionary, que usa fontes fiáveis. É um dicionário etimológico do inglês, mas, claro, pode também usar-se para a etimologia dos cognatos portugueses de palavras inglesas.
    Os cartazes dos filmes são todos Wikimedia Commons menos um (Les Implacables), mas a sua utilização com baixa resolução para identificação do filme (nesta caso para ilustrar uma palavra) não deve ser problemática. 

03/01/19

Quebrado da friúra

Diz George Orwell em “New words”, um texto em que defende a criação de palavras novas como forma de maior rigor na expressão:
Encontra-se um exemplo de invenção eficaz de palavras, embora rudimentar e em pequena escala, entre os membros de famílias numerosas. Todas as famílias grandes têm duas ou três palavras que lhes são peculiares – palavras que inventaram e que transmitem significados refinados que não se encontram nos dicionários.
É bem capaz de ser verdade, e até em famílias mais pequenas, mas nem sempre é fácil saber que palavras, das que só ouvimos em casa, foram inventadas na família. Pode haver algumas que nunca tenhamos ouvido fora de casa, porque fora de casa não contactamos com pessoas de gerações mais velhas em determinadas situações do quotidiano.

Foto de Artur Franco (pormenor) 
Isto vem a propósito de me ter vindo à memória uma expressão que só me lembro de ter ouvido à minha avó — talvez também à minha mãe, não sei… — e que facilmente podia considerar uma expressão lá de casa: «quebrado da friúra». Acho que se percebe: «quebrado da friúra» é menos que tépido; é, por exemplo, água da torneira a que, no inverno, para a higiene diária ou para lavar roupa, se juntou um pouco de água aquecida ao lume, para não ficar tão desagradável de gelada, mas que não chega a estar morna. Uma expressão, enfim, de antes dos esquentadores… Mas não, não é expressão pessoal da minha avó, diz-me Google. E encontro até quem, como eu, a recorde com nostalgia.

De maneira que é assim, como diz o outro, aquele que diz muitas coisas… Os dicionários registam palavras e expressões caídas em desuso, como, sei lá, «demandar» ou «quebrar lanças por alguém», mas um dicionário não regista a expressão «quebrar da friúra», porque o seu significado é apenas a soma do significado de cada uma das partes, digamos assim. É capaz de não ficar dela grande rasto e é pena, porque é uma expressão bonita.


13/08/17

Jejum e Genebra – um texto um bocadinho nerd

[Isto dos blogues generalistas é um bocado complicado e já pensei em dividir este blogue em dois ou três. Muitas vezes, autocensuro-me temas, principalmente relacionados com língua, porque os acho demasiado especializados e desconfio dos meus dotes de vulgarizador... Mas nem sempre sou coerente nessa autocensura e às vezes publico coisas que acho que não interessam a ninguém — ou interessam só a muito, muito pouca gente. Este texto, por exemplo, que decidi publicar só porque lhe acho graça, fala de coisas tão nerd que espero mesmo que interessem só a meia dúzia de pessoas – senão, é sinal de que o mundo está perdido, valha-nos Santa Edwiges da Silésia!…]

Em francês standard, as palavras  jeune, «jovem», e jeûne, «jejum», têm pronúncias diferentes*. Quando vivi em Genebra, porém, dei-me conta de que, no sotaque local, as duas palavras se pronunciam da mesma maneira. É uma pronúncia, explicaram-me, típica da Suíça e do Leste da França; mas parece que há outros francófonos que anulam a distinção nestas duas palavras.

Uma pequena curiosidade, que descobri agora: Victor Hugo ou também falava assim (mas não creio que isso se explique por ele ser de Besançon, porque não viveu lá muito tempo) ou considerava que jeune e jeûne eram rimas visuais:
Hélas ! l'ombre d'Allah n'a pas rompu le jeûne ;
La sultane est gardée, et son fils est trop jeune ;
« La douleur du pacha », in Les Orientales, 1829

Aos meus leitores que não estejam familiarizados com esta diferença entre jeune e jeûne, dou de TPC repetir em frente ao espelho
« Jamais je ne vois les jeunes genevois pratiquer le jeûne genevois »
até a coisa fluir com naturalidade.

Deixem-me explicar, já agora, que a frase é mais do que um trava-línguas forçado, já que existe mesmo o feriado do Jejum Genebrino, que a Wikipédia em português explica da seguinte maneira:
O Jeûne Genevois, que se poderá traduzir literalmente por «Jejum Genebrino», é um dia feriado no cantão de Genebra, Suíça, na quinta-feira seguinte ao primeiro domingo de Setembro. Os outros cantões suíços festejam o Jeûne Fédéral no terceiro domingo desse mês.
 A página em francês tem mais informação sobre o assunto. A tradição é antiga, mas, depois de várias peripécias de institucionalização e supressão, o dia é agora feriado desde 1966.

Não deixa de ser divertido que a assembleia de representantes dos diversos cantões que instituiu o feriado do Jejum Federal se chamasse… a Dieta Federal.

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* Vão ao Larousse ouvir a diferença, se a não conhecem, ou ao Forvo: o -eu- de jeune pronuncia-se como em peur [œ] e o -eû- de jeûne como em peu [ø].

09/03/17

Do marxismo e outros -ismos

[Eis um texto que anda há anos à espera de forma definitiva. Esta é uma forma definitiva provisória, se é que tal coisa existe, porque ainda não fiz a investigação que gostava de ter feito sobre o assunto — uma forma publicável em blogue, digamos assim… Para iniciar uma discussão, serve; e, se não o publicar assim, se calhar nunca o venho a publicar.] 

Há quase 4 anos, escrevia Helder Guégués no seu Linguagista:
 O original, italiano, fala «dell’idea marxiana di società senza classi», e o tradutor deixou «marxiana», que nós não usamos, porque há-de ter consultado um dicionário, talvez o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que para «marxista» regista que é o «relativo ao marxismo». Ora, não é apenas isso, é o relativo a Karl Marx, à sua obra ou ao marxismo. Em italiano, há especialização de sentidos, pois «marxista» diz respeito apenas ao marxismo e às ideias de Karl Marx. 
Compreendo perfeitamente a ideia de Helder Guégués, até porque marxiano também me pareceu muito estranho da primeira vez que o vi, mas a questão é um pouco mais complexa. Não sei até que ponto a especialização de marxista e marxiano se deu naturalmente em italiano. Uma breve pesquisa na Internet mostra que é uma distinção estranha a muitos italianos, mas pode tratar-se, naturalmente, de casos de ignorância da terminologia académica. Por outro, a questão do uso de marxiano para o que diz respeito a Karl Marx não se põe só em português. Em várias páginas na Internet se encontra a discussão do uso do par correspondente, noutras línguas,  a marxiano e marxista.

É interessante constatar que, em inglês, a forma Marxian, embora minoritária relativamente a Marxist, está longe de ser apenas marginal: Marxian, um termo acolhido em vários dicionários de inglês, tem cerca de milhão e meio de ocorrências em Google, contra cerca de 13 milhões e meio de Marxist; e Marxian theory tem mais de 90.000 ocorrências, contra um pouco mais de 500.000 de Marxist theory. A desproporção é menor em Google Scholar, com 15.500 ocorrências de Marxian theory e apenas 5 vezes mais de Marxist theory (77.400 ocorrências). Também em francês se atesta marxien com alguma solidez: mais de 20.000 ocorrências de marxien e perto de 35.000 de marxienne, sem ir para os plurais. Marxiste é, claro está, impossível de contar, porque a busca gera resultados em diversas línguas. Théorie marxienne ocorre cerca de 11 vezes menos que théorie marxiste em Google (4330 vs 47300), mas apenas 8,8 vezes menos em Google Scholar (779 vs 6.850). Em português, também se atesta marxiano e não me parece que possa apenas ser resultado de inadvertência nem abuso esporádico: uma busca em Google Scholar dá 2400 de textos académicos em português com ocorrências do sintagma teoria marxiana.

Traduzi há dezena e meia de anos alguns textos de um especialista em Marx que defende a existência de dois termos distintos, o filósofo marxiano Lucien Sève. Para ele, o termo marxista[1] implica a redução do pensamento complexo de Marx a um «campo» ideológico-político. Dizia ele num debate em Lisboa em 2002:
De um adepto de Descartes diz-se que é cartesiano, um adepto de Kant é um kantiano, um adepto de Bergson é um bergsoniano, de Husserl um husserliano, de Nietzsche um nietzschiano, e de Marx… um marxista! O que é este -ista? Porquê marxista? Na minha opinião, esta terminação não revela apenas uma adesão a um pensamento, que é o que diz o adjetivo em iano (cartesiano, kantiano…), ela diz sim a inscrição num campo: se sou marxista, é porque adiro a um campo organizado, a uma estrutura política, a um movimento político. Parece-me que este -ista implica uma forma de adesão que vai muito para além do facto de se inspirar num pensamento, tentar com ele trabalhar o presente.
Embora compreendendo a tentação de se deixar levar por esse tipo de explicação, notei imediatamente que precisava, pelo menos, de ser revista e afinada. Por exemplo, Sève explicava mais adiante que o caso de marxista não é único, diz-se também espinozista de um seguidor de Espinoza. Ora a razão não podia ser a de identificar os seguidores do pensamento de Espinoza com «um campo organizado, [...] uma estrutura política, [...] um movimento político»… E Sève não estava a ter em conta todos os possíveis nomes e adjetivos em -ista: não há apenas marxista e espinozista; há também rousseauista, tomista, e darwinista, muitos mais.

Não vejo boa razão para pressupor que os adjetivos e nomes formados a partir dos nomes de filósofos e políticos não sigam as regras que modelam a formação de nomes e adjetivos a partir de nomes próprios em geral. Picassiano, em «a estética picassiana» deve, em princípio, obedecer à mesma lógica derivacional que husserliano em «a abordagem husserliana». Convêm saber, pensei eu então, se as palavras em questão foram criadas por sufixação diretamente a partir do nome próprio ou a partir de um outro nome, criado, por sua vez, a partir do nome próprio. Evidentemente, o caso de mediação mais comum, se não exclusivo, é o nome em -ismo definindo, em sentido lato, o programa consciente ou inconsciente (filosófico, político, estético, etc.) da pessoa em questão. Depois de muitas voltas à questão, proponho agora que os adjetivos e nomes em -ista não derivam diretamente do nome próprio, mas sim de um nome em -ismo, formado, esse, do nome próprio, ao passo que os nomes em -iano derivam diretamente do nome próprio[2].

Acho que o dicionário da Porto Editora e Sève têm quase razão: o adjetivo em -iano formado de um nome próprio diz apenas a relação com o portador do nome, ao passo que a terminação em -ista diz a adesão a um campo, mas um campo não tem de ser um campo político — pode ser uma corrente ou movimento estético, filosófico, religioso, etc. Dito de outra forma, X-ista diz respeito a X-ismo e não diretamente a X; um X-ista é um adepto do X-ismo e não diretamente de X. Tomista remete para o tomismo mais que para S. Tomás de Aquino, darwinista para o darwinismo e não diretamente para Darwin; e um marxista é um seguidor do marxismo e não de Marx. É por isso que, se eu quiser falar de algo estritamente pessoal de Marx ou Darwin, como o seu estilo, corro obviamente o risco de ser mal compreendido, se disser ou escrever «o estilo marxista» ou «o estilo darwinista», que se tenderá a interpretar como «o estilo dos marxistas» ou «o estilo dos darwinistas», isto é, como referindo algum pretenso traço comum ao estilo dos adeptos dessas ideologias. O que se diria normalmente nessa situação seria (se não se quiser usar marxiano...) «o estilo de Marx» ou «o estilo darwiniano/de Darwin»[3]. Compreendo, pois, que, se alguém quer referir-se ao pensamento de Karl Marx ou afirmar-se seu seguidor em vez de referir ou seguir a amálgama de pensadores e pensamentos que se afirmam derivar dele, deve seguir a proposta de Sève: não é marxista que deve dizer e sim marxiano[4]. É o que faz – um exemplo entre muitos possíveis – o economista David F. Ruccio, que fala de análise económica marxiana e não marxista. Mas é claro, há a tal questão fonética... Ainda continuo a sentir que marxiano é alguém do planeta Marx... Quando de facto alguém do planeta Marx é antes um marxista...
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Agora, será marxiano uma forma antiga ou recente? Marxiano e as formas correspondentes nas línguas mais próximas da nossa podem ter surgido espontaneamente, porque -iano é um sufixo relacional vulgar nestas línguas; ou pode antes ter surgido da tentativa de separar Marx e o seu pensamento da massa vaga das muitas e variadas correntes políticas e económicas que se dizem suas seguidoras. Faltam-me dados para optar por uma das duas hipóteses. Para o inglês, porém, tenho uma ferramenta, que, por inconclusiva que seja, me pode ajudar a ficar com uma ideia de como se distribui no tempo a ocorrência de marxian: o Ngram Viewer, que trabalha com um corpus bastante grande de livros em inglês. O problema é que, como o aponta o Etymology online (um site bastante fiável, baseado em várias obras de referência), «a forma adjetival Marxian é às vezes usada (por Groucho, entre outros) para distinguir a trupe de cómicos americanos [Irmãos Marx] do comunista alemão». Por muito que, como vimos, isto não seja inteiramente verdade e que que Marxian seja também usado com o significado de «relativo a Karl Marx», Marxian tem, em inglês, ou talvez sobretudo na tradição americana, um significado duplo que não me deixa fiar-me nos resultados do Ngram Viewer. A palavra Marxian tem claramente o auge da sua utilização nos anos 40/50 e isto pode, sem dúvida, dever-se aos irmãos Marx, mas mantém-se até ao século XXI; o uso de Marxist vai aumentando progressivamente até ao início da década de 80 e começa depois a diminuir. Com uma base de dados fiável, seria interessante ver até que ponto não foi a ampliação do uso de marciano e afins nas línguas mais próximas da nossa que veio bloquear um marxiano surgido naturalmente de Marx. Parecerá óbvio a muita gente que a razão pela qual marxiano nos soa mal é a proximidade fonética e gráfica com esta palavra tão comum, mas não sei desde quando se terá falado de marcianos com tanta frequência.

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E então, pode-se ou não se pode, e deve-se ou não, usar marxiano e as suas correspondentes diretas nas línguas mais próximas da nossa: marxiano (es, it), marxien (fr), Marxian (en), etc.? Pessoalmente, não vejo razão para não usar. É vantajoso distinguir o que diz respeito a Marx do que diz respeito ao marxismo em sentido lato e as duas possíveis desvantagens do termo nem sequer o chegam a ser. Por um lado, o contexto nunca deixa que haja ambiguidade na referência a Karl Marx ou aos irmãos Marx (questão que, de qualquer forma, que não parece pôr-se fora dos EUA). Aliás, também nunca ninguém deixou de usar gregoriano por poder remeter tanto para Gregório I (o canto) como para Gregório XIII (o calendário). E quanto à questão, a que sou sensível, de «soar mal», por evocar imediatamente homens verdes com antenas de caracol, a verdade é que a evidente cacofonia não impede a utilização de termos como hobbesiano, humiano, kantiano ou smithiano[5]...
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[1] Ou marxiste, em francês, claro, mas vai dar ao mesmo. Para simplificar o discurso, uso sempre as palavras portuguesas em -ista, -ismo e -(i)ano, mas refiro-me a todas as do mesmo tipo nas línguas mais próximas, como as francesas em -iste, -isme e -(i)en e as inglesas em -ist, -ism e -(i)an, respetivamente.

[2] Como sempre, a questão é mais complicada do que parece: diz-se maometano, luterano e cristão (para o que aqui nos interessa, cristão é uma forma do tipo -iano, apenas posteriormente transformada) e, mas budista e calvinista. E porque se diz platónico, maquiavélico, pitagórico ou socrático, que não são -ista nem -(i)ano? Porque é que o adjetivo mais usado derivado de Estaline é estalinista – ou o seu equivalente – em português, espanhol, italiano e inglês, mas stalinien em francês? Porque é que os adjetivos mais usados derivados de Maquiavel e Aristóteles são maquiavélico e aristotélico – ou os seus correspondentes – em português, espanhol, italiano e francês, mas Machiavellian e Aristotelian em inglês? Os quatro possíveis nomes/adjetivos em -ico dizem respeito a filósofos antigos e há também o adjetivo crístico, relativo a Cristo, também uma personagem antiga. Note-se que crístico se entende apenas como relativo a Cristo, ao passo que cristão tende a não poder interpretar-se desta maneira, mas apenas como respeitante ao cristianismo. Evidentemente, era preciso saber em que línguas foram cunhados os nomes e adjetivos que referem os discípulos dos vários filósofos, porque o sistema fonético-morfológico da língua em que a palavra foi cunhada pode impedir ou favorecer um determinado tipo de sufixação. E quem diz a língua diz o período em que a palavra foi cunhada, porque as regras morfológicas de uma mesma língua podem ir variando ao longo dos tempos.

[3] É de notar que de Darwin derivam, em todas as línguas, duas palavras comuns, uma em -ista e outra em -(i)ano. O que pode significar, precisamente, que é standard em relação a Darwin e ao darwinismo o que ainda não é — ou talvez nunca a venha a ser — em relação a Marx e ao marxismo.

[4] Engels diz em duas cartas que Marx afirmara não ser marxista (traduzo eu):
«Agora, o que se conhece em França como “marxismo” é, na realidade, um produto bem peculiar — de tal maneira que Marx uma vez disse a Lafargue: “O que é certo é que eu não sou marxista.”» Carta a Bernstein, 1882 
«A conceção materialista da história tem muitos [amigos perigosos] hoje em dia, a quem serve como desculpa para não estudarem história. Como Marx dizia, num comentário aos “Marxistas” franceses do fim da década de [18]70: “O que eu sei é que não sou marxista.”» Carta a Schmidt, 1890
[5] É certo que as formas em -ista não soariam muito menos cacofónicas nestes casos… Mas é preciso ver que, na maior parte dos casos, a cacofonia é um fenómeno percetivo resultante do hábito e não tem origem em nenhuma incompatibilidade intrínseca do sistema fonético ou morfológico.

07/10/14

O sex appeal do relativismo linguístico (continuação de vários capítulos anteriores…)

Nos artigos sobre língua e linguística que vão aparecendo na comunicação social, a influência da língua na maneira de ver o mundo é um tema muito sexy. Os jornais não são, nesse aspeto, muito diferentes das conversas de café: pelo que vejo, é sempre sexy afirmar que “as categorias linguísticas influenciam o pensamento e algum comportamento não linguístico” ou qualquer coisa desse estilo. Evidentemente, os pressupostos e conclusões desta escola de pensamento são discutíveis – e efetivamente discutidos –, mas, embora a perspetiva contrária não esteja completamente ausente dos meios comunicação social, é-lhe dado menos espaço mediático. É muito menos sexy dizer, por exemplo, que a língua dá conta de como a mente funciona do que dizer que ela modela a maneira como a mente percebe o mundo.

Já aqui falei muito desta questão e, por muito que sobre ela haja muito mais a dizer, hoje falo antes de outra ideia relacionada com esta, também muito sexy e, por isso, também muito divulgada, que é a das palavras e construções muito, muito idiossincráticas, intimamente ligadas à cultura e à mundividência de um povo – tão idiossincráticas que chegam a ser intraduzíveis. É que há muito quem goste de empolar o idiomático e o intraduzível. E há também quem, como eu, goste de chamar a atenção para o muito que assim se exagera – quando não se dizem, pura e simplesmente, disparates atrás de disparates.

Fazendo uma recolha ao acaso de oito das muitas listas de palavras “intraduzíveis” que por aí circulam[1], as mais referidas (em seis dessas listas) são a família francesa dépayser/dépaysement e o checo prozvonit. Se, no caso dos termos dépayser/dépaysement/dépaysant, posso imaginar dificuldades de tradução de frases em que eles entrem (embora, em muitos contextos, exótico, por exemplo, traduza exatamente dépaysant), já prozvonit (creio que é um verbo, esquecem-se sempre de classificar morfologicamente os “intraduzíveis”) parece ser facilmente traduzível para muitos falantes do português ou do espanhol, já que há nas duas línguas uma expressão que traduz diretamente o termo checo: dar um toque é a expressão que usam para referir um telefonema que se desliga antes de o destinatário ter atendido, para o informar de alguma coisa previamente combinada sem ter de pagar uma chamada – ou para que ele ligue a quem ligou[2].

Em seguida, com cinco ocorrências nas oito listas, vêm hygge/hyggeligt em dinamarquês, mamihlapinatapai em iagane da Terra do Fogo, saudade em português, Schadenfreude em alemão e wabi-sabi em japonês. De hygge/hyggelig e de saudade já aqui falei e, em vez de me repetir, remeto-vos para o texto em que analiso a pretensa intraduzibilidade dessas e outras palavras, e a própria ideia de in/traduzibilidade. O que se traduz, explico eu nesse texto, não são palavras mas frases (para simplificar), pelo que a ideia de palavras intraduzíveis não faz grande sentido. Mas adiante. É-me completamente impossível saber de que elementos se compõem mamihlapinatapai e wabi-sabi e se há ou não marosca na definição dos termos. Se mamihlapinatapai significa de facto “um olhar trocado entre duas pessoas que querem ambas que a outra inicie algo que ambas desejam, mas não querem ser elas a começar”, um olhar cúmplice cobre provavelmente muito do uso do termo sem grande perda de informação, se não quisermos recorrer a, sei lá, “uma troca de olhares hesitantes de desejo”, qualquer coisa assim. Já a definição de wabi-sabi é tão estranha que gostaria que, além de explicarem de que categoria morfológica é o termo, me apresentassem a palavra em contexto: a definição de “encontrar beleza na imperfeição e aceitar o ciclo natural de crescimento e declínio” parece-me tão fantasiosa, que ou se trata do aproveitamento filosófico de um termo que não tem nada a ver com o seu uso línguístico comum[3] ou então imagino mal uma frase como “Ana amiúde wabi-sabi”, com o significado de “Ana encontra amiúde beleza na imperfeição e aceita o ciclo natural de crescimento e declínio”. Vocês não? Schadenfreude é, claro está, uma das palavras alemãs que muitas vezes se usa em enunciados de outras línguas sem a traduzir (como Blitzkrieg, Weltanschauung, Zeitgeist, etc., etc.), mas é por hábito que isso se faz (uma moda, de facto) e não por impossibilidade de dizer o mesmo com palavras que não sejam alemãs. Um nome não é, em princípio, predicador e é preciso, para propor uma tradução, ver as frases concretas em que a palavra aparece; mas se for de sentir Schadenfreude que se trate, deixo a tradução à minha avó, que falava de “ter gosto na desgraça alheia”. Num registo menos familiar, comprazer-se no sofrimento alheio resolve bem o problema, ou não?

E depois, em quatro das oito listas aparecem o cafuné do português, o espanhol duende (Spaniards got soul!), o inuíta iktsuarpok, que é “ir lá for a ver se lá vem alguém”; o jayus indonésio, “uma anedota tão má que dá vontade de rir”; o kyoikumama japonês, essa “mãe educativa”, que obriga o filho a ter boas notas na escola; o lítost checo, definido como “o estado de agonia ou tormento resultante pela súbita constatação da sua própria desgraça” (discutido no parágrafo seguinte); o pochemuchka russo, que é o Spørge Jørgen dinamarquês, aquele perguntador cujas línguas se comiam ao jantar quando eu perguntava à minha avó o que era o comer; o tartle escocês, que é “hesitar ao apresentar alguém porque, ups!, se esqueceu o seu nome”; um surpreendente tingo do rapanui, que é “pedir emprestado até deixar sem nada quem nos empresta” (esta cheira mesmo a esturro, não cheira?), o Torschlusspanik alemão, que é “a angústia de ter cada vez menos oportunidades à medida que o tempo passa”, mas que, de facto, é apenas uma metáfora compreensível por falantes de qualquer língua em cuja cultura existam portas, o “pânico d(e encontrar) a porta fechada”; e depois e depois e depois…

A verdade é que, como diz David Shariatmadari, num artigo no Guardian (traduzo eu) “todos gostaríamos de acreditar em palavras intraduzíveis. É uma ideia tão romântica: que existem aí algures, como ilhas desertas por descobrir, ideias que nunca concebemos. Cuidadosamente guardadas por estrangeiros ao longo dos séculos, joias de cultura ignoradas pelo resto do mundo”. Shariatmadari é, como eu, crítico deste romantizar da intraduzibilidade. Ainda bem que o Guardian, que costuma divulgar tanto a perspetiva oposta, dá também voz ao menos sexy: “Há alguns pressupostos linguísticos e não linguísticos ligados a este romance, a maior parte dos quais é decididamente duvidosa”, continua Shariatmadari, acrescentando que os exemplos comummente citados são “quase todos ridículos, quando se analisam em pormenor”. Além da saudade e do hyggelig já referidos, ou do mito das palavras inuítas para neve (de que também já aqui falei uma vez), Shariatmadari passa em revista várias palavras “intraduzíveis”, como a utepils norueguesa, o aware japonês, a Schnapsidee e a Waldeinsamkeit alemãs, a toska e o razbliuto russos e a goya do urdu. Do lítost checo, de que prometi desenvolvimento no parágrafo anterior, diz ele o seguinte:
Milan Kundera não conseguiu traduzir esta palavra checa para inglês. NO Livro do Riso e do Esquecimento, definia-a como “um estado de tormento criado pela repentina constatação da sua própria desgraça”. As línguas dividem de forma diferente o espectro do sofrimento humano. Mas o inglês tem com certeza uma quantidade de candidatos a equivalente aproximado: self-pity, remorse, regret, anguish, shame [autocomiseração, remorso, arrependimento, angústia, vergonha].
Pode ser que Shariatmadari tenha razão e pode ser que não. Não sei checo, não o posso discutir. Não parece haver dúvidas de que o verbo litovat significa “arrepender-se, ter remorsos” e que lítost significa “arrependimento” em certos contexto, mas a explicação de Kundera na obra referida parece dizer mais respeito a vergonha que a arrependimento. O que tenho por certo é não há nenhuma razão para crer que os checos conseguem fazer frases para descrever um sentimento que ninguém além deles consegue fazer. Isso implicaria uma de duas explicações: ou os checos sentem coisas que mais ninguém sente ou a língua checa tem uma capacidade de representação do mental diferente das outras. Ambas me parecem altamente improváveis…

Como Shariatmadari também explica, pode ainda acontecer que, por exemplo ao considerar intraduzível a “palavra” turca çekoslovakyalılaştıramadıklarımızdanmışsınız, se alargue tanto o conceito de palavra que se faz a batota de comparar “palavras” de certas línguas com “palavras” de outras línguas em que cabem numa “palavra” muitas “palavras”. Trata-se, de facto de um artifício fundamental no discurso do intraduzível: não especificar o que se entende por palavra, uma categoria muito vaga, sobretudo quando há línguas e tradições ortográficas em que se juntam palavras para formar novas palavras e outras em que as palavras mantém sempre, no som e/ou na escrita, alguma autonomia entre elas. Enfim…

E então? Palavras intraduzíveis são, com rigor, todas as palavras, porque não são, insisto, palavras que se traduzem. Mas, para não ir tão longe, palavras intraduzíveis são simplesmente as palavras que as pessoas que defendem a sua intraduzibilidade não sabem traduzir para nenhuma das outras línguas (entre 3.000 e 7.000, conforme se façam as contas), o mais das vezes porque nunca se deram a muito trabalho para encontrar uma tradução…; ou as palavras estrangeiras que não sabem traduzir para a sua própria língua, porque não compreendem o que elas querem dizer e aceitam explicações delirantes do seu significado[4]...

Mas passemos agora das “palavras” às expressões. Para voltar ao já referido artigo do Guardian sobre “vocabulários culturais”, é preciso, sinceramente, uma enorme dose de boa vontade e muitas voltas à retórica para dizer que “a individualidade nacional se exprime saudavelmente em expressões idiomáticas como o mesmo significado mas usos (???) amplamente diferentes e localmente inspirados” e dar como exemplo o contraste entre carrying coal to Newcastle (“levar carvão para Newcastle”), Eulen nach Athen tragen (“levar mochos para Atenas”), vendere ghiaccio agli eschimesi (“vender gelo aos esquimós”), llevar naranjas a Valencia (“levar laranjas a Valência”) e vizet hord a Dunába (“levar água ao Danúbio”)”[5]. Que o Danúbio não seja em Espanha e que as laranjas de Valência não possam fazer parte de um provérbio inglês parece relevar mais da geografia que da língua e, se se pode encontrar “individualidade nacional” no carvão em Newscastle, já se vê mal o que têm de especialmente alemão os dracmas atenienses ou o que há de especialmente italiano no gelo dos esquimós. Sejamos razoáveis: Não há nada na língua portuguesa (nem na cultura portuguesa, sequer) que determine ou justifique uma expressão como “ensinar a missa ao padre”[6] – houve apenas, por acaso, um falante do português que criou essa frase (mesmo que tenha sido traduzida) e ela teve fortuna entre os falantes da língua, voilà! Evidentemente (por razões que nada têm a ver com a língua!), seriam precisas algumas alterações para que a tradução de “ensinar a missa ao padre” fosse entendida por pessoas de países onde não há missa nem padres, mas é, em princípio, adaptável para qualquer língua do mundo.

São famosas as brincadeiras com traduções “literais” de expressões ditas idiomáticas, incluindo provérbios. Também já aqui falei uma vez disso.  Dizia que “muitas das expressões ditas idiomáticas (…) são figuras de estilo que só se tornaram populares numa determinada região e que, por isso, só se usam na língua dessa região, mas que nada impediria de terem tido a mesma fortuna noutra regiões e noutras línguas”. Agora, claro, “o que não se pode é traduzir [as expressões de cada país ou região] de uma maneira parva, como se faz normalmente nas anedotas para aumentar o efeito cómico”, escrevia eu nesse outro texto desta Travessa.

Não se pode dizer, por exemplo, “Tens uma descida que eu não gostava de subir de bicicleta!” por razões efetivamente linguísticas, mas é apenas porque é impossível traduzir assim para português um jogo de palavras francês. A frase é uma tradução “literal”, e por isso idiota, de uma expressão, que se diz a alguém que bebe muito: Tu as une descente que j’aimerais pas remonter à vélo ! Evidentemente, descente em francês não é só “descida”, mas também “capacidade de emborcar” e, se não houver, na língua alvo, uma palavra que tenha esses dois significados (não fui ver nas línguas todas do mundo, mas parece-me provável que essa coincidência se dê só em francês…), o jogo de palavras não funciona.

Também é óbvio que há que ter cuidado com a tradução “literal” de uma expressão como dia de São Nunca à tarde, mas, se a tradução for sensata, ela compreender-se-á mesmo nas línguas em que não se usa. Aliás, há em inglês uma expressão com a palavra never (“nunca”), twelfth of never, que significa o mesmo, e há noutras línguas europeias expressões com o mesmo significado com nomes de santos… inexistentes (ver aqui e aqui). Mesmo uma expressão como o olho da rua, em que a tradução direta de olho causaria sem dúvida muita estranheza e incompreensão, não é assim tão “idiomática” como pode parecer, porque olho também se usa noutras línguas para dizer “meio” , por exemplo quando se trata do centro de um furacão – e não só!

Eu uso muitas vezes, numa determinada língua, expressões que costumam usar-se noutra língua e toda a gente me compreende, se digo, por exemplo, que não vale a pena procurar o meio-dia às duas da tarde ou que não vale a pena procurar pulgas onde não há pulgas (expressões francesas, il ne faut pas chercher midi à catorze heures e il ne faut pas chercher des puces où il n'y en a pas). Agora vou passar também a dizer, para situar um acontecimento num passado muito distante, que isso foi no tempo em que o rei de ouros ainda era valete. É uma expressão dinamarquesa, dengang ruder kongen var knægt, que aprendi no outro dia. Por outro lado, há frases idiomáticas cujo significado não se compreende apenas por falar a língua em que elas ocorrem – tem de se aprender o seu significado, como se aprende o significado de uma palavra. Um exemplo óbvio é quem quer vai, quem não quer manda. A frase propriamente dita não significa, em português, o que significa o provérbio que ela constitui, pelo que ser falante do português não basta para adquirir esta parte do seu “vocabulário cultural”…

Conclusão (mais uma vez): um bocadinho de bom senso, sim?

Ah, e outra coisa que não tem nada a ver com isto, mas com o título do texto: há palavras inglesas que entram no português e outras que vão saindo – sex appeal era muito mais comum na geração do meu pai que na minha e tenho a impressão que está a cair em desuso, não está?

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[1] A lista original está reduzida da seis a 23.7.2023: http://www.boredpanda.com/untranslatable-words-found-in-translation-anjana-iyer/; http://boingboing.net/2014/09/22/ten-untranslatable-words.html; http://europeisnotdead.com/disco/words-of-europe/137-2/; http://travel.allwomenstalk.com/fantastic-untranslatable-words; http://matadornetwork.com/abroad/20-awesomely-untranslatable-words-from-around-the-world/; http://www.babbel.com/magazine/untranslatable-01

[2] Encontrei na Internet vários comentários de brasileiros e espanhóis propondo dar um/un toque como tradução direta de prozvonit. Os meus amigos portugueses que consultei sobre o tema parecem acordar que dar um toque, sem mais, é ambíguo e que acrescentariam qualquer coisa: dar um toque e desligar, por exemplo.

[3] Da mesma forma que, na boa tradição de Teixeira de Pascoaes, algumas definições de saudade que se encontram nestas listas de palavras intraduzíveis não têm nada a ver com a palavra saudade usada nas frases efetivamente produzidas por falantes do português: “vago e constante desejo de qualquer coisa que não existe e provavelmente não pode existir (…), que indica que nos viramos mentalmente para o passado ou para o futuro [!!!]”, que “não é um descontentamento ativo ou uma pungente tristeza mas sim uma melancolia indolente e sonhadora.” Desculpe, importa-se de repetir? Mas, mesmo que não se vá por tão fantasiosa definição e nos fiquemos pela (também completamente incorreta) “nostalgia de uma pessoa ou coisa que se perdeu e que já não volta”, como se aplica isso a, por exemplo “Bom, saudades de Portugal propriamente não tenho, mas tenho, claro, saudades dos amigos e da família – e de bom peixe fresco. Uma boa postinha de garoupa, ena, que saudades!” ou a “Ena, já tinha saudades de vir aqui dar uma volta à tarde, há mais de três meses que cá não vínhamos”. Enfim, quem não sabe é como quem não vê, diz o outro e com razão. Parece-me provável que a longa dissertação de Milan Kundera nO Livro do Riso e do Esquecimento sobre o termo lítost, que se discute neste texto, seja um devaneio do mesmo tipo que ignore completamente o uso real da palavra em checo, mas, claro, não posso disso ter a certeza…

[4] Ou até porque o seu vocabulário na sua própria língua é extremamente limitado. No blogue Better Than English (entretanto desparecido), que era um exemplo acabado do disparate linguístico no que toca a palavras intraduzíveis, chegava a afirmar-se que a palavra espanhola tocayo (o xará do português brasileiro) não tem tradução para inglês – mas então e a palavra namesake?

[5] Também não se percebe o que vem fazer no meio de tudo isto a constatação simples de que a expressão de dor é diferente em diferentes línguas. Em princípio, o que seria estranho é que o não fosse – tão estranho como uma mesa ser referida pela mesma palavra em todas as línguas. Não deixa de ser curioso, porém, que haja tanta semelhança entre a expressão da dor em línguas tão diferentes como o português e o mandarim – e talvez alguma razão para tal –, e é também muito curioso que este artigo se esqueça de o referir para acentuar o contrário…

[6] “Ensinar a missa ao padre” pode ter uma nuance de sentido que implique restrições no uso relativamente às frases referidas antes, que significam apenas “fazer algo inútil”. A Wikipedia em alemão, porém, inclui no seu artigo “Eulen nach Athen tragen” (uma variação dieletal d)a expressão meiner Großmutter das Beten lernen, “ensinar a minha avó a rezar” como sinónimo de levar mochos para Atenas – e esta parece corresponder de uma forma muito direta a “ensinar a missa ao padre”. Além de uma longa lista de expressões sinónimas em alemão, o artigo tem também uma lista de expressões equivalentes noutra línguas, estre as quais “levar bananas para a Madeira” e “vender mel ao colmeeiro” em português.

[Atualizado a 23 de julho de 2023]