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2 de setembro de 2019

De migas e sopa

Mica, miga, migalha, migar, tudo isso vem tudo do latim mica, que quer dizer migalha. É uma família de palavras ibérica, se se pode dizer assim, pois que existem palavras semelhantes em línguas vizinhas — pelo menos em galego (miga, migalla, migar) e castelhano (miga, migaja, migar).*

Uma parte do significado desta família de palavras está relacionado com pão; e migar, além de significar «esfarelar» ou «partir ou cortar em pedaços pequenos», significa «pôr pão na sopa». A sintaxe deste migar é variável. Vê-se por exemplo, em Quando os lobos uivam, de Aquilino Ribeiro, um migar transitivo que tem como objeto a tigela (e, deito-me eu a adivinhar, que nunca tal ouvi, talvez também a sopa…)
«Miga bem a tijela!», dizia a voz materna, amorável no seu sotaque ralhado. «Miga bem, Jaime, que só tens caldo!»
Há também outra construção em que migar pão tem a sopa como objeto indireto. Conheço-a de um dos Contos tradicionais do povo português, de Téofilo Braga, um história que ele diz ter recolhido em Airão, no Minho:
Um rapaz foi offerecer-se para criado a casa de um lavrador; á noite, quando foram ceiar, deram-lhe uma tigella de caldo. Diz elle:
– Oh meu amo, o caldo está muito quente.
– Pois sópra-lhe.
No dia seguinte o rapaz despediu-se, entendendo lá para si que lhe não convinha servir n'aquella casa, onde nem tempo dariam para comer. Foi-se offerecer a casa de outro lavrador; aconteceu a mesma cousa; ao começar a comer o caldo, disse:
– Oh meu amo, o caldo está muito quente.
– Pois espera que arrefeça.
O moço tambem resolveu não ficar servindo n'aquella casa, cuidando que lhe dariam tempo sem mais nada. Foi-se embora ao outro dia, e chegou a casa de outro lavrador, que o tomou para o serviço. Á ceia disse o moço:
– Oh meu amo, o caldo está muito quente.
– Pois miga-lhe brôa.
O rapaz disse lá para si, que aquella era a casa que lhe convinha, e ali se deixou ficar.
Eu sei que não é grande novidade para ninguém o que fica para trás. Sabemos todos que, antigamente, a sopa de muitos era caldo que de entulho só tinha pão; e também sabemos quais eram as condições laborais dos trabalhadores rurais em tempos que felizmente já lá vão… Agora, talvez seja novidade para alguns o que se segue:

A palavra sopa, antes de significar o alimento (semi)líquido, significava o pão que nela se punha. A palavra é de origem germânica, mas parece ter chegado às línguas latinas (e ao inglês) pelo latim, que a tinha incorporado. É certo que sopas ainda hoje são «o pão que se miga na sopa» — ou no vinho açucarado, se forem de cavalo cansado —, mas o que eu quero dizer é que é foram os bocados de pão migados no líquido a dar nome à sopa e não a sopa a dar nome aos bocados de pão, se me faço entender.

Ilustração: Marcus Gheeraerts I, pormenor de «Fabel van de sater en de boer» («Fábula do sátiro e do camponês»), in Eduard de Dene: De warachtige fabulen der dieren, Bruges: 1567, p. 60

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* Noutra línguas latinas, há um nome apenas: em catalão, há mica, «bocadinho»; em francês há mie, «miolo (de pão)»; e em italiano, mica, que pode ser «bocado» ou «migalha de pão».

12 de janeiro de 2019

«Este trabalho está pecável!» – uma pequena curiosidade linguística

Uma vez, no Facebook, alguém propôs um jogo, em inglês: arranjar palavras com um prefixo de negação a que não correspondesse um antónimo sem o prefixo. Por exemplo, há impeccable, mas ninguém ouviu falar de *peccable… Achei graça e propus aos meus amigos facebookianos de língua portuguesa o mesmo jogo na nossa língua. O resultado surpreendeu-me um pouco: há muito mais palavras desse tipo do que eu imaginava.

Antes de mais, conviria talvez explicar que os chamados prefixos de negação ou privação são, em português, os seguintes:
• a/an-, de origem grega, que se encontra em palavras como acrítico, agnóstico, amoral, assexuado, atípico, etc.;
• des-, de origen latina, que se encontra em palavras como desacerto, desonesto, desaconselhável, etc.; e
• in-, o prefixo de negação mais comum, que muda ligeiramente de forma (gráfica e/ou fonética) consoante o som que tem depois: inapto, inviável, insatisfeito; imbatível, impossível; ilógico, imoral; irreconhecível. (É preciso não confundir este prefixo com outro in-, que significa «movimento para dentro», às vezes transformado em em/en-, como em enterrar. Por exemplo, em impropério, que parece ser uma palavra com um im- que negaria algo próprio, no sentido de «apropriado», o im- não é, de facto, um prefixo de negação: vem do verbo latino impropero, que é «entrar de rompante», formado de propero, «apressar-se, acelerar», com a preposição in, «para dentro».)

É complicado se se deve considerar dis- um prefixo de negação/privação. Embora atualmente seja assim entendido, o sentido original grego é «mau»: dispneia, disenteria, dispepsia, disfasia, etc. E pode levantar-se a mesma dúvida relativamente ao dis- de origem latina, que é originalmente mais de separação que de negação e que se encontra, por exemplo, em discordar e discussão. Não considerarei aqui essas palavras.

Quanto às palavras com não, como em tratado de não agressão, o não não é propriamente um prefixo e, com a nova grafia, nem sequer se liga com hífen: não alinhado, não contradição, não intervenção. É interessante notar que há diferença entre prepor não a uma palavra ou usar outro prefixo negativo (pensem em não alinhado e desalinhado, por exemplo), mas, claro está, todas as palavras formadas com não têm uma correspondente sem não [sorriso], pelo que essas palavras também aqui não nos interessam.

Há ainda uma categoria de falsos negativos, em que o aparente prefixo negativo é de facto um elemento de reforço, como em desinfeliz, destrocar, desinquieto. Uma curiosidade, dentro deste tipo de palavras, é a palavra descascar. Na sua origem, creio que o des- de descascar é um prefixo de reforço, já que cascar significa o mesmo que descascar, «tirar a casca». Mas creio que descascar é atualmente sentido como tendo um verdadeiro prefixo de negação, como se cascar fosse pôr uma casca e descascar tirá-la. Não sei se contribuiu para essa perceção o facto de cascar, com o significado de «tirar a casca», ter caído em desuso ou se, pelo contrário, foi essa perceção que contribuiu para o desaparecimento do significado antigo de cascar.

***
Mas vamos então às palavras portuguesas com prefixo negativo de que não há antónimo positivo – normalmente porque só a forma com prefixo de negação evoluiu do latim ou porque só essa forma foi importada de alguma outra língua. Eis uma lista, forçosamente incompleta, de palavras desse tipo, com breves comentários a cada uma:

  • Analgésico é formado de analgesia, termo médico para «supressão da dor», negativo de algesia, «sensibilidade à dor», mas *algésico não existe.
  • Anemia, como o nome de muitas doenças, é de origem grega: haimas é sangue e anaimia é falta de sangue. O temo positivo, *(h)emia, não existe como vocábulo independente, mas -emia ocorre como elemento de formação de palavras como hipoglicemia ou leucemia, por exemplo.
  • Anónimo é «(feito por alguém) de que não se sabe o nome», mas não há *nómino para dizer o contrário. Uma palavra com a mesma raiz é denominar, mas denominado não é antónimo de anónimo.
  • Ateu e ateia são palavras curiosas. Se é claro que não há *teu e *teia para referir quem crê num deus, já ateísta e ateísmo, com a mesma raiz grega (theos, «deus»), têm um antónimo não prefixado, teísta e teísmo.
  • Diz-se descarado de alguém que não é envergonhado ou que não tem pejo em desrespeitar convenções sociais, mas *carado não existe. Os dicionários consagram um verbo descarar de onde teriam derivado o adjetivo, mas nunca o ouvi. É capaz de ter caído em desuso, não sei.
  • *Façatez não existe, só desfaçatez. Trata-se de uma palavra importada já com o prefixo, do castelhano desfachatez, que, por sua fez, a foi buscar ao italiano sfacciatezza. O s- inicial do italiano é um prefixo privativo correspondente aos nosso des/dis- que se junta à palavra faccia, «cara», pelo que a expressão é paralela ao nosso descaramento.
  • Desdenhar é o contrário de um *denhar que não existe, mas que, a ter existido, seria uma forma irmã de dignar. Originalmente, *denhar/dignar devia ser «tratar com dignidade», o que justifica o significado de desdenhar, mas dignar (que, em português moderno, só conheço como verbo reflexo) não é o contrário de desdenhar, é antes «condescender em», «fazer o favor de».
  • Desvirtuar, que tem origem em virtude, usa-se sobretudo no sentido de «trair ou deturpar o [bom] propósito ou sentido de alguma ação ou afirmação», mas *virtuar não existe.
  • Não consigo saber (acho que ninguém sabe) se o im- de imbecil é um prefixo de negação. Existe a teoria de que o latim imbecillus («fraco, débil»), que é o étimo da palavra, derivaria de um *imbacillus formado pelo prefixo privativo im- preposto a bacillus («pau», étimo de bacilo), e que significaria, por isso, «sem bengala», mas há quem considere esta hipótese fantasista.
  • Imberbe é quem não tem barba, mas quem tem não é *berbe. Esperava-se talvez algo como *imbarbe, da família de barba, mas não, aquele estranho -e- já existia em latim e nunca se «regularizou» nas línguas neolatinas.
  • Imune tem uma história curiosa. O latim immunis é «isento de impostos ou serviços públicos» e forma-se de munis, «sujeito a impostos ou serviços públicos», palavra de uma família que dá, entre outras, a palavra município em português. Só o imune sobreviveu e nunca houve *mune nas línguas latinas. Não sei se a palavra imune chegou alguma vez a ser usada em português no sentido de «isento», como foi usada em francês e inglês antigo. O sentido atual é provavelmente importado do francês no séc. XIX.
  • A palavra incólume vem do latim incolŭmis e creio que era uma palavra que só existia com o prefixo de negação. Segundo o que pude encontrar, *colŭmis poderia ser da família de calamitas, «calamidade».
  • Inédito é «não publicado» e não há o adjetivo *édito com o significado de «publicado», só o nome.
  • Inerte vem já prefixado do latim. Significava, ao que vejo, algo como «sem profissão/sem trabalho», porque o prefixo privativo se juntou originalmente a ars, artis, «arte, ofício» e depois o -a- passou a -e-.
  • Injúria também veio já do latim com o in- de negação. Forma-se de ius, que é «lei, direito, dever», da família de jus, justo, justiça...
  • Se não está partida ou dividida, uma coisa está intacta, mas não está *tacta se estiver partida. Na verdade, intacto é originalmente «não tocado», formado do particípio tactus do verbo tangere, «tocar». Da mesma raiz e com o mesmo significado original são as palavras íntegro e inteiro (duas formas divergentes do mesmo étimo latino) e integral, a que não correspondem nenhum *tegro, *teiro ou *tegral. Creio que um falante do português não tem consciência de que o in- inicial é, nestes casos, um prefixo de negação.
  • Comida sem sal é insossa, mas não é *sossa a comida com sal. Em latim, havia sulsus e insulsus, feitos do particípio de salire, «salgar», mas só a palavra com prefixo negativo chegou ao português. E com duas formas diferentes, curiosamente, já que os dicionários acolhem insulso (que eu não conhecia), com o mesmo significado de insosso – mas *sulso não há.
  • Quem sofre de insónia é ínsone. Não há *sónia nem *sone, mas pode discutir-se se sono se pode considerar o contrário de insónia...
  • Inupto é «solteiro, por casar», mas uma pessoa casada não é *nupta. A forma existia em latim, mas, mais uma vez, só a forma prefixada chegou ao português. Temos nubente, da mesma família.


  • ***
    É de notar que algumas palavras têm antónimos não prefixados registados nos dicionários, mas que devem ser palavras raríssimas, algumas talvez arcaísmos (?). Eu, pelo menos, nunca as vi nem ouvi. Sei, por exemplo, que estão dicionarizadas ou fazem partes de corpos lexicais as palavras batível, pávido, pecável, perdível, placável, cansável, cógnito, delével, trépido e usitado mas não me lembro de as ter ouvido. (Aplacável, conheço, claro, com o mesmo sentido de «que se pode acalmar, sossegar, mitigar, aliviar») Algumas delas, nem faço ideia de como se poderão usar (??? «Não viste O marciano? Deixa estar, também é um filme perdível…») Só conheço imbatível, impávido, impecável, imperdível, implacável, incansável, incógnito, indelével, intrépido e inusitado. Como me dizia Helena Galvão Soares, pode-se suspeitar que «há verbetes de dicionários que foram criados só para justificar a estrutura de outras palavras».

    Deste grupo de palavras, de formas não prefixadas que me são desconhecidas, há algumas que me causam mais estranheza do que outras. Negável, por exemplo, que não me lembro de alguma vez ter ouvido, mas parece-me uma palavra normal, digamos assim, daquelas que, quando se ouvem pela primeira vez, se sabe bem que existiam mesmo antes de nos depararmos com elas.

    Há também outros antónimos sem prefixo que, embora já os tenha visto e ouvido, são incomparavelmente mais raros que as formas com prefixo negativo: cauto e sólito são bons exemplos dessas palavras rebuscadíssimas, de ocorrência muito mais escassa que o incauto ou o insólito que dizem o contrário.

    ***
    Há também algumas palavras que, embora não tendo um antónimo positivo direto, têm antónimos formada da mesma raiz. Por exemplo:
    • Não há *alfabeto com o sentido de «que sabe ler e escrever», ou seja, como contrário de analfabeto, mas usa-se para esse conceito a palavra alfabetizado.
    • Se uma coisa não tem cor, é incolor; se a tem, não é *color, porque isso não existe, mas pode ser colorida.
    • Não existe *menso, só imenso, mas existem mensurável e imensurável, com a mesma raiz.
    • Um lugar pode ser inóspito, mas *hóspito não pode ser, só hospitaleiro.
    • Se um crime não fica impune, é punido – mas *pune não há.

    ***
    Agora, interessante também é o caso de palavras em que a forma sem o prefixo negativo não é antónima da forma prefixada:
    • Está afónico quem não consegue falar, mas não está fónico quem o consegue fazer — fónico significa antes «respeitante aos sons da língua».
    • Os termos imobilizar e mobilizar não são, muitas vezes, o contrário um do outro, porque o primeiro tem frequentemente um significado físico de «fazer cessar o movimento», ao passo que o segundo se emprega sobretudo para dizer «recrutar» ou «angariar».
    • Dizemos impassível de alguém que não demonstra emoções – e a palavra passível, que é da família de paixão, significa originalmente «emocionalmente envolvido ou afetado», mas nunca a vi usada com esse significado. Creio que atualmente só se se usa no sentido de «que pode ser objeto»: «O que ele fez é passível de castigo».
    • Nem sempre indiferente é o contrário de diferente. O contrário de diferente é igual e indiferente tem muitas vezes outro significado. Diferente e indiferente podem ser antónimos em frases do tipo «É diferente escrever com ss ou ç, são palavras diferentes» e «É indiferente escrever com acento circunflexo ou não, as duas grafias são aceites», mas diferente não funciona como antónimo do indiferente em, por exemplo, «Ele mostrou-se indiferente às suas lamentações.»
    • Também disposto não é o contrário de indisposto. Indisposto é sinónimo de maldisposto ou não muito bem-disposto. Não é fácil encontrar-lhe um antónimo que funcione sempre. Bem-disposto, por exemplo, só às vezes funciona.
    • O dicionário regista para tratável o significado de «afável; sociável», mas eu só conheço tratável no sentido de «que se pode tratar». Como eu a conheço, a palavra intratável não é antónima de tratável, mas o dicionário não concorda comigo…
    ***
    Finalmente, há algumas palavras que me merecem comentários especiais.

    O grupo desgraça, desgraçar e desgraçado é curioso. Podemos considerar que existe graça como antónimo de desgraça, quando as palavras se usam nas expressões cair em graça e cair em desgraça, por exemplo, mas graça não é o contrário de desgraça no sentido de «infelicidade» ou «catástrofe», etc., como desgraça não é o contrário de graça no sentido de «encanto» ou «piada». O contrário de engraçado, que pode ser quem é «bonito», «simpático» ou «divertido», pode ser desengraçado, embora não me pareça que esta palavra seja o contrário de todas as aceções de engraçado. Já engraçar me parece exatamente o contrário de desengraçar, mas posso não estar a ver todas as situações do seu uso…

    Infame é outra palavra curiosa. Não existe a palavra *fame e infame não é quem não tem fama, mas sim «quem tem má fama». Podia pensar-se que mal-afamado, com a mesma raiz, podia ser um quase-antónimo e originalmente infame devia significar precisamente isso. Mas perdeu-se a consciência da relação com fama, e infame tornou-se um termo de apreciação negativa, sobretudo relativamente ao caráter ou à moral de alguém.

    Em latim, nocere é «causar dano» (de qualquer tipo) e nocuu- ou nocente- o que causa dano. Encontro nocente registado nos dicionários e encontro quem defenda que a palavra nócuo existe em português, embora não a tenha encontrado em nenhum dicionário. Nunca vi nem ouvi nem uma nem outra palavra. Seja como for, inocente tem hoje em dia um significado diferente de inócuo, o que quer dizer que, aceitando que nocente existe, não é o contrário de inocente. Agora, tanto nocente como o pretenso nócuo têm um sinónimo com a mesma raiz, nocivo, pelo que se pode dizer que inócuo também faz parte das palavras com um antónimo com a mesma raiz. Mas inocente não.



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    Alguma da informação veio inicialmente desta página (que a foi buscar a uma fonte que deixou de estar acessível), mas foi depois verificada, dentro do limite dos meios à minha disposição. Uma grande parte da informação etimológica vem do Online Etymology Dictionary, que usa fontes fiáveis. É um dicionário etimológico do inglês, mas, claro, pode também usar-se para a etimologia dos cognatos portugueses de palavras inglesas.
    Os cartazes dos filmes são todos Wikimedia Commons menos um (Les Implacables), mas a sua utilização com baixa resolução para identificação do filme (nesta caso para ilustrar uma palavra) não deve ser problemática. 

3 de janeiro de 2019

Quebrado da friúra

Diz George Orwell em “New words”, um texto em que defende a criação de palavras novas como forma de maior rigor na expressão:
Encontra-se um exemplo de invenção eficaz de palavras, embora rudimentar e em pequena escala, entre os membros de famílias numerosas. Todas as famílias grandes têm duas ou três palavras que lhes são peculiares – palavras que inventaram e que transmitem significados refinados que não se encontram nos dicionários.
É bem capaz de ser verdade, e até em famílias mais pequenas, mas nem sempre é fácil saber que palavras, das que só ouvimos em casa, foram inventadas na família. Pode haver algumas que nunca tenhamos ouvido fora de casa, porque fora de casa não contactamos com pessoas de gerações mais velhas em determinadas situações do quotidiano.

Foto de Artur Franco (pormenor) 
Isto vem a propósito de me ter vindo à memória uma expressão que só me lembro de ter ouvido à minha avó — talvez também à minha mãe, não sei… — e que facilmente podia considerar uma expressão lá de casa: «quebrado da friúra». Acho que se percebe: «quebrado da friúra» é menos que tépido; é, por exemplo, água da torneira a que, no inverno, para a higiene diária ou para lavar roupa, se juntou um pouco de água aquecida ao lume, para não ficar tão desagradável de gelada, mas que não chega a estar morna. Uma expressão, enfim, de antes dos esquentadores… Mas não, não é expressão pessoal da minha avó, diz-me Google. E encontro até quem, como eu, a recorde com nostalgia.

De maneira que é assim, como diz o outro, aquele que diz muitas coisas… Os dicionários registam palavras e expressões caídas em desuso, como, sei lá, «demandar» ou «quebrar lanças por alguém», mas um dicionário não regista a expressão «quebrar da friúra», porque o seu significado é apenas a soma do significado de cada uma das partes, digamos assim. É capaz de não ficar dela grande rasto e é pena, porque é uma expressão bonita.


13 de agosto de 2017

Jejum e Genebra – um texto um bocadinho nerd

[Isto dos blogues generalistas é um bocado complicado e já pensei em dividir este blogue em dois ou três. Muitas vezes, autocensuro-me temas, principalmente relacionados com língua, porque os acho demasiado especializados e desconfio dos meus dotes de vulgarizador... Mas nem sempre sou coerente nessa autocensura e às vezes publico coisas que acho que não interessam a ninguém — ou interessam só a muito, muito pouca gente. Este texto, por exemplo, que decidi publicar só porque lhe acho graça, fala de coisas tão nerd que espero mesmo que interessem só a meia dúzia de pessoas – senão, é sinal de que o mundo está perdido, valha-nos Santa Edwiges da Silésia!…]

Em francês standard, as palavras  jeune, «jovem», e jeûne, «jejum», têm pronúncias diferentes*. Quando vivi em Genebra, porém, dei-me conta de que, no sotaque local, as duas palavras se pronunciam da mesma maneira. É uma pronúncia, explicaram-me, típica da Suíça e do Leste da França; mas parece que há outros francófonos que anulam a distinção nestas duas palavras.

Uma pequena curiosidade, que descobri agora: Victor Hugo ou também falava assim (mas não creio que isso se explique por ele ser de Besançon, porque não viveu lá muito tempo) ou considerava que jeune e jeûne eram rimas visuais:
Hélas ! l'ombre d'Allah n'a pas rompu le jeûne ;
La sultane est gardée, et son fils est trop jeune ;
« La douleur du pacha », in Les Orientales, 1829

Aos meus leitores que não estejam familiarizados com esta diferença entre jeune e jeûne, dou de TPC repetir em frente ao espelho
« Jamais je ne vois les jeunes genevois pratiquer le jeûne genevois »
até a coisa fluir com naturalidade.

Deixem-me explicar, já agora, que a frase é mais do que um trava-línguas forçado, já que existe mesmo o feriado do Jejum Genebrino, que a Wikipédia em português explica da seguinte maneira:
O Jeûne Genevois, que se poderá traduzir literalmente por «Jejum Genebrino», é um dia feriado no cantão de Genebra, Suíça, na quinta-feira seguinte ao primeiro domingo de Setembro (dia 7, este ano). Os outros cantões suíços festejam o Jeûne Fédéral no terceiro domingo desse mês.
 A página em francês tem mais informação sobre o assunto. A tradição é antiga, mas, depois de várias peripécias de institucionalização e supressão, o dia é agora feriado desde 1966.

Não deixa de ser divertido que a assembleia de representantes dos diversos cantões que instituiu o feriado do Jejum Federal se chamasse… a Dieta Federal.

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* Vão ao Larousse ouvir a diferença, se a não conhecem, ou ao Forvo: o -eu- de jeune pronuncia-se como em peur [œ] e o -eû- de jeûne como em peu [ø].

9 de março de 2017

Do marxismo e outros -ismos

[Eis um texto que anda há anos à espera de forma definitiva. Esta é uma forma definitiva provisória, se é que tal coisa existe, porque ainda não fiz a investigação que gostava de ter feito sobre o assunto — uma forma publicável em blogue, digamos assim… Para iniciar uma discussão, serve; e, se não o publicar assim, se calhar nunca o venho a publicar.] 

Há quase 4 anos, escrevia Helder Guégués no seu Linguagista:
 O original, italiano, fala «dell’idea marxiana di società senza classi», e o tradutor deixou «marxiana», que nós não usamos, porque há-de ter consultado um dicionário, talvez o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que para «marxista» regista que é o «relativo ao marxismo». Ora, não é apenas isso, é o relativo a Karl Marx, à sua obra ou ao marxismo. Em italiano, há especialização de sentidos, pois «marxista» diz respeito apenas ao marxismo e às ideias de Karl Marx. 
Compreendo perfeitamente a ideia de Helder Guégués, até porque marxiano também me pareceu muito estranho da primeira vez que o vi, mas a questão é um pouco mais complexa. Não sei até que ponto a especialização de marxista e marxiano se deu naturalmente em italiano. Uma breve pesquisa na Internet mostra que é uma distinção estranha a muitos italianos, mas pode tratar-se, naturalmente, de casos de ignorância da terminologia académica. Por outro, a questão do uso de marxiano para o que diz respeito a Karl Marx não se põe só em português. Em várias páginas na Internet se encontra a discussão do uso do par correspondente, noutras línguas,  a marxiano e marxista.

É interessante constatar que, em inglês, a forma Marxian, embora minoritária relativamente a Marxist, está longe de ser apenas marginal: Marxian, um termo acolhido em vários dicionários de inglês, tem cerca de milhão e meio de ocorrências em Google, contra cerca de 13 milhões e meio de Marxist; e Marxian theory tem mais de 90.000 ocorrências, contra um pouco mais de 500.000 de Marxist theory. A desproporção é menor em Google Scholar, com 15.500 ocorrências de Marxian theory e apenas 5 vezes mais de Marxist theory (77.400 ocorrências). Também em francês se atesta marxien com alguma solidez: mais de 20.000 ocorrências de marxien e perto de 35.000 de marxienne, sem ir para os plurais. Marxiste é, claro está, impossível de contar, porque a busca gera resultados em diversas línguas. Théorie marxienne ocorre cerca de 11 vezes menos que théorie marxiste em Google (4330 vs 47300), mas apenas 8,8 vezes menos em Google Scholar (779 vs 6.850). Em português, também se atesta marxiano e não me parece que possa apenas ser resultado de inadvertência nem abuso esporádico: uma busca em Google Scholar dá 2400 de textos académicos em português com ocorrências do sintagma teoria marxiana.

Traduzi há dezena e meia de anos alguns textos de um especialista em Marx que defende a existência de dois termos distintos, o filósofo marxiano Lucien Sève. Para ele, o termo marxista[1] implica a redução do pensamento complexo de Marx a um «campo» ideológico-político. Dizia ele num debate em Lisboa em 2002:
De um adepto de Descartes diz-se que é cartesiano, um adepto de Kant é um kantiano, um adepto de Bergson é um bergsoniano, de Husserl um husserliano, de Nietzsche um nietzschiano, e de Marx… um marxista! O que é este -ista? Porquê marxista? Na minha opinião, esta terminação não revela apenas uma adesão a um pensamento, que é o que diz o adjetivo em iano (cartesiano, kantiano…), ela diz sim a inscrição num campo: se sou marxista, é porque adiro a um campo organizado, a uma estrutura política, a um movimento político. Parece-me que este -ista implica uma forma de adesão que vai muito para além do facto de se inspirar num pensamento, tentar com ele trabalhar o presente.
Embora compreendendo a tentação de se deixar levar por esse tipo de explicação, notei imediatamente que precisava, pelo menos, de ser revista e afinada. Por exemplo, Sève explicava mais adiante que o caso de marxista não é único, diz-se também espinozista de um seguidor de Espinoza. Ora a razão não podia ser a de identificar os seguidores do pensamento de Espinoza com «um campo organizado, [...] uma estrutura política, [...] um movimento político»… E Sève não estava a ter em conta todos os possíveis nomes e adjetivos em -ista: não há apenas marxista e espinozista; há também rousseauista, tomista, e darwinista, muitos mais.

Não vejo boa razão para pressupor que os adjetivos e nomes formados a partir dos nomes de filósofos e políticos não sigam as regras que modelam a formação de nomes e adjetivos a partir de nomes próprios em geral. Picassiano, em «a estética picassiana» deve, em princípio, obedecer à mesma lógica derivacional que husserliano em «a abordagem husserliana». Convêm saber, pensei eu então, se as palavras em questão foram criadas por sufixação diretamente a partir do nome próprio ou a partir de um outro nome, criado, por sua vez, a partir do nome próprio. Evidentemente, o caso de mediação mais comum, se não exclusivo, é o nome em -ismo definindo, em sentido lato, o programa consciente ou inconsciente (filosófico, político, estético, etc.) da pessoa em questão. Depois de muitas voltas à questão, proponho agora que os adjetivos e nomes em -ista não derivam diretamente do nome próprio, mas sim de um nome em -ismo, formado, esse, do nome próprio, ao passo que os nomes em -iano derivam diretamente do nome próprio[2].

Acho que o dicionário da Porto Editora e Sève têm quase razão: o adjetivo em -iano formado de um nome próprio diz apenas a relação com o portador do nome, ao passo que a terminação em -ista diz a adesão a um campo, mas um campo não tem de ser um campo político — pode ser uma corrente ou movimento estético, filosófico, religioso, etc. Dito de outra forma, X-ista diz respeito a X-ismo e não diretamente a X; um X-ista é um adepto do X-ismo e não diretamente de X. Tomista remete para o tomismo mais que para S. Tomás de Aquino, darwinista para o darwinismo e não diretamente para Darwin; e um marxista é um seguidor do marxismo e não de Marx. É por isso que, se eu quiser falar de algo estritamente pessoal de Marx ou Darwin, como o seu estilo, corro obviamente o risco de ser mal compreendido, se disser ou escrever «o estilo marxista» ou «o estilo darwinista», que se tenderá a interpretar como «o estilo dos marxistas» ou «o estilo dos darwinistas», isto é, como referindo algum pretenso traço comum ao estilo dos adeptos dessas ideologias. O que se diria normalmente nessa situação seria (se não se quiser usar marxiano...) «o estilo de Marx» ou «o estilo darwiniano/de Darwin»[3]. Compreendo, pois, que, se alguém quer referir-se ao pensamento de Karl Marx ou afirmar-se seu seguidor em vez de referir ou seguir a amálgama de pensadores e pensamentos que se afirmam derivar dele, deve seguir a proposta de Sève: não é marxista que deve dizer e sim marxiano[4]. É o que faz – um exemplo entre muitos possíveis – o economista David F. Ruccio, que fala de análise económica marxiana e não marxista. Mas é claro, há a tal questão fonética... Ainda continuo a sentir que marxiano é alguém do planeta Marx... Quando de facto alguém do planeta Marx é antes um marxista...
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Agora, será marxiano uma forma antiga ou recente? Marxiano e as formas correspondentes nas línguas mais próximas da nossa podem ter surgido espontaneamente, porque -iano é um sufixo relacional vulgar nestas línguas; ou pode antes ter surgido da tentativa de separar Marx e o seu pensamento da massa vaga das muitas e variadas correntes políticas e económicas que se dizem suas seguidoras. Faltam-me dados para optar por uma das duas hipóteses. Para o inglês, porém, tenho uma ferramenta, que, por inconclusiva que seja, me pode ajudar a ficar com uma ideia de como se distribui no tempo a ocorrência de marxian: o Ngram Viewer, que trabalha com um corpus bastante grande de livros em inglês. O problema é que, como o aponta o Etymology online (um site bastante fiável, baseado em várias obras de referência), «a forma adjetival Marxian é às vezes usada (por Groucho, entre outros) para distinguir a trupe de cómicos americanos [Irmãos Marx] do comunista alemão». Por muito que, como vimos, isto não seja inteiramente verdade e que que Marxian seja também usado com o significado de «relativo a Karl Marx», Marxian tem, em inglês, ou talvez sobretudo na tradição americana, um significado duplo que não me deixa fiar-me nos resultados do Ngram Viewer. A palavra Marxian tem claramente o auge da sua utilização nos anos 40/50 e isto pode, sem dúvida, dever-se aos irmãos Marx, mas mantém-se até ao século XXI; o uso de Marxist vai aumentando progressivamente até ao início da década de 80 e começa depois a diminuir. Com uma base de dados fiável, seria interessante ver até que ponto não foi a ampliação do uso de marciano e afins nas línguas mais próximas da nossa que veio bloquear um marxiano surgido naturalmente de Marx. Parecerá óbvio a muita gente que a razão pela qual marxiano nos soa mal é a proximidade fonética e gráfica com esta palavra tão comum, mas não sei desde quando se terá falado de marcianos com tanta frequência.

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E então, pode-se ou não se pode, e deve-se ou não, usar marxiano e as suas correspondentes diretas nas línguas mais próximas da nossa: marxiano (es, it), marxien (fr), Marxian (en), etc.? Pessoalmente, não vejo razão para não usar. É vantajoso distinguir o que diz respeito a Marx do que diz respeito ao marxismo em sentido lato e as duas possíveis desvantagens do termo nem sequer o chegam a ser. Por um lado, o contexto nunca deixa que haja ambiguidade na referência a Karl Marx ou aos irmãos Marx (questão que, de qualquer forma, que não parece pôr-se fora dos EUA). Aliás, também nunca ninguém deixou de usar gregoriano por poder remeter tanto para Gregório I (o canto) como para Gregório XIII (o calendário). E quanto à questão, a que sou sensível, de «soar mal», por evocar imediatamente homens verdes com antenas de caracol, a verdade é que a evidente cacofonia não impede a utilização de termos como hobbesiano, humiano, kantiano ou smithiano[5]...
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[1] Ou marxiste, em francês, claro, mas vai dar ao mesmo. Para simplificar o discurso, uso sempre as palavras portuguesas em -ista, -ismo e -(i)ano, mas refiro-me a todas as do mesmo tipo nas línguas mais próximas, como as francesas em -iste, -isme e -(i)en e as inglesas em -ist, -ism e -(i)an, respetivamente.

[2] Como sempre, a questão é mais complicada do que parece: diz-se maometano, luterano e cristão (para o que aqui nos interessa, cristão é uma forma do tipo -iano, apenas posteriormente transformada) e, mas budista e calvinista. E porque se diz platónico, maquiavélico, pitagórico ou socrático, que não são -ista nem -(i)ano? Porque é que o adjetivo mais usado derivado de Estaline é estalinista – ou o seu equivalente – em português, espanhol, italiano e inglês, mas stalinien em francês? Porque é que os adjetivos mais usados derivados de Maquiavel e Aristóteles são maquiavélico e aristotélico – ou os seus correspondentes – em português, espanhol, italiano e francês, mas Machiavellian e Aristotelian em inglês? Os quatro possíveis nomes/adjetivos em -ico dizem respeito a filósofos antigos e há também o adjetivo crístico, relativo a Cristo, também uma personagem antiga. Note-se que crístico se entende apenas como relativo a Cristo, ao passo que cristão tende a não poder interpretar-se desta maneira, mas apenas como respeitante ao cristianismo. Evidentemente, era preciso saber em que línguas foram cunhados os nomes e adjetivos que referem os discípulos dos vários filósofos, porque o sistema fonético-morfológico da língua em que a palavra foi cunhada pode impedir ou favorecer um determinado tipo de sufixação. E quem diz a língua diz o período em que a palavra foi cunhada, porque as regras morfológicas de uma mesma língua podem ir variando ao longo dos tempos.

[3] É de notar que de Darwin derivam, em todas as línguas, duas palavras comuns, uma em -ista e outra em -(i)ano. O que pode significar, precisamente, que é standard em relação a Darwin e ao darwinismo o que ainda não é — ou talvez nunca a venha a ser — em relação a Marx e ao marxismo.

[4] Engels diz em duas cartas que Marx afirmara não ser marxista (traduzo eu):
«Agora, o que se conhece em França como “marxismo” é, na realidade, um produto bem peculiar — de tal maneira que Marx uma vez disse a Lafargue: “O que é certo é que eu não sou marxista.”» Carta a Bernstein, 1882 
«A conceção materialista da história tem muitos [amigos perigosos] hoje em dia, a quem serve como desculpa para não estudarem história. Como Marx dizia, num comentário aos “Marxistas” franceses do fim da década de [18]70: “O que eu sei é que não sou marxista.”» Carta a Schmidt, 1890
[5] É certo que as formas em -ista não soariam muito menos cacofónicas nestes casos… Mas é preciso ver que, na maior parte dos casos, a cacofonia é um fenómeno percetivo resultante do hábito e não tem origem em nenhuma incompatibilidade intrínseca do sistema fonético ou morfológico.

7 de outubro de 2014

O sex appeal do relativismo linguístico (continuação de vários capítulos anteriores…)

Nos artigos sobre língua e linguística que vão aparecendo na comunicação social, a influência da língua na maneira de ver o mundo é um tema muito sexy. Os jornais não são, nesse aspeto, muito diferentes das conversas de café: pelo que vejo, é sempre sexy afirmar que “as categorias linguísticas influenciam o pensamento e algum comportamento não linguístico” ou qualquer coisa desse estilo. Evidentemente, os pressupostos e conclusões desta escola de pensamento são discutíveis – e efetivamente discutidos –, mas, embora a perspetiva contrária não esteja completamente ausente dos meios comunicação social, é-lhe dado menos espaço mediático. É muito menos sexy dizer, por exemplo, que a língua dá conta de como a mente funciona do que dizer que ela modela a maneira como a mente percebe o mundo.

Já aqui falei muito desta questão e, por muito que sobre ela haja muito mais a dizer, hoje falo antes de outra ideia relacionada com esta, também muito sexy e, por isso, também muito divulgada, que é a das palavras e construções muito, muito idiossincráticas, intimamente ligadas à cultura e à mundividência de um povo – tão idiossincráticas que chegam a ser intraduzíveis. É que há muito quem goste de empolar o idiomático e o intraduzível. E há também quem, como eu, goste de chamar a atenção para o muito que assim se exagera – quando não se dizem, pura e simplesmente, disparates atrás de disparates.

Fazendo uma recolha ao acaso de oito das muitas listas de palavras “intraduzíveis” que por aí circulam[1], as mais referidas (em seis dessas listas) são a família francesa dépayser/dépaysement e o checo prozvonit. Se, no caso dos termos dépayser/dépaysement/dépaysant, posso imaginar dificuldades de tradução de frases em que eles entrem (embora, em muitos contextos, exótico, por exemplo, traduza exatamente dépaysant), já prozvonit (creio que é um verbo, esquecem-se sempre de classificar morfologicamente os “intraduzíveis”) parece ser facilmente traduzível para muitos falantes do português ou do espanhol, já que há nas duas línguas uma expressão que traduz diretamente o termo checo: dar um toque é a expressão que usam para referir um telefonema que se desliga antes de o destinatário ter atendido, para o informar de alguma coisa previamente combinada sem ter de pagar uma chamada – ou para que ele ligue a quem ligou[2].

Em seguida, com cinco ocorrências nas oito listas, vêm hygge/hyggeligt em dinamarquês, mamihlapinatapai em iagane da Terra do Fogo, saudade em português, Schadenfreude em alemão e wabi-sabi em japonês. De hygge/hyggelig e de saudade já aqui falei e, em vez de me repetir, remeto-vos para o texto em que analiso a pretensa intraduzibilidade dessas e outras palavras, e a própria ideia de in/traduzibilidade. O que se traduz, explico eu nesse texto, não são palavras mas frases (para simplificar), pelo que a ideia de palavras intraduzíveis não faz grande sentido. Mas adiante. É-me completamente impossível saber de que elementos se compõem mamihlapinatapai e wabi-sabi e se há ou não marosca na definição dos termos. Se mamihlapinatapai significa de facto “um olhar trocado entre duas pessoas que querem ambas que a outra inicie algo que ambas desejam, mas não querem ser elas a começar”, um olhar cúmplice cobre provavelmente muito do uso do termo sem grande perda de informação, se não quisermos recorrer a, sei lá, “uma troca de olhares hesitantes de desejo”, qualquer coisa assim. Já a definição de wabi-sabi é tão estranha que gostaria que, além de explicarem de que categoria morfológica é o termo, me apresentassem a palavra em contexto: a definição de “encontrar beleza na imperfeição e aceitar o ciclo natural de crescimento e declínio” parece-me tão fantasiosa, que ou se trata do aproveitamento filosófico de um termo que não tem nada a ver com o seu uso línguístico comum[3] ou então imagino mal uma frase como “Ana amiúde wabi-sabi”, com o significado de “Ana encontra amiúde beleza na imperfeição e aceita o ciclo natural de crescimento e declínio”. Vocês não? Schadenfreude é, claro está, uma das palavras alemãs que muitas vezes se usa em enunciados de outras línguas sem a traduzir (como Blitzkrieg, Weltanschauung, Zeitgeist, etc., etc.), mas é por hábito que isso se faz (uma moda, de facto) e não por impossibilidade de dizer o mesmo com palavras que não sejam alemãs. Um nome não é, em princípio, predicador e é preciso, para propor uma tradução, ver as frases concretas em que a palavra aparece; mas se for de sentir Schadenfreude que se trate, deixo a tradução à minha avó, que falava de “ter gosto na desgraça alheia”. Num registo menos familiar, comprazer-se no sofrimento alheio resolve bem o problema, ou não?

E depois, em quatro das oito listas aparecem o cafuné do português, o espanhol duende (Spaniards got soul!), o inuíta iktsuarpok, que é “ir lá for a ver se lá vem alguém”; o jayus indonésio, “uma anedota tão má que dá vontade de rir”; o kyoikumama japonês, essa “mãe educativa”, que obriga o filho a ter boas notas na escola; o lítost checo, definido como “o estado de agonia ou tormento resultante pela súbita constatação da sua própria desgraça” (discutido no parágrafo seguinte); o pochemuchka russo, que é o Spørge Jørgen dinamarquês, aquele perguntador cujas línguas se comiam ao jantar quando eu perguntava à minha avó o que era o comer; o tartle escocês, que é “hesitar ao apresentar alguém porque, ups!, se esqueceu o seu nome”; um surpreendente tingo do rapanui, que é “pedir emprestado até deixar sem nada quem nos empresta” (esta cheira mesmo a esturro, não cheira?), o Torschlusspanik alemão, que é “a angústia de ter cada vez menos oportunidades à medida que o tempo passa”, mas que, de facto, é apenas uma metáfora compreensível por falantes de qualquer língua em cuja cultura existam portas, o “pânico d(e encontrar) a porta fechada”; e depois e depois e depois…

A verdade é que, como diz David Shariatmadari, num artigo no Guardian (traduzo eu) “todos gostaríamos de acreditar em palavras intraduzíveis. É uma ideia tão romântica: que existem aí algures, como ilhas desertas por descobrir, ideias que nunca concebemos. Cuidadosamente guardadas por estrangeiros ao longo dos séculos, joias de cultura ignoradas pelo resto do mundo”. Shariatmadari é, como eu, crítico deste romantizar da intraduzibilidade. Ainda bem que o Guardian, que costuma divulgar tanto a perspetiva oposta, dá também voz ao menos sexy: “Há alguns pressupostos linguísticos e não linguísticos ligados a este romance, a maior parte dos quais é decididamente duvidosa”, continua Shariatmadari, acrescentando que os exemplos comummente citados são “quase todos ridículos, quando se analisam em pormenor”. Além da saudade e do hyggelig já referidos, ou do mito das palavras inuítas para neve (de que também já aqui falei uma vez), Shariatmadari passa em revista várias palavras “intraduzíveis”, como a utepils norueguesa, o aware japonês, a Schnapsidee e a Waldeinsamkeit alemãs, a toska e o razbliuto russos e a goya do urdu. Do lítost checo, de que prometi desenvolvimento no parágrafo anterior, diz ele o seguinte:
Milan Kundera não conseguiu traduzir esta palavra checa para inglês. NO Livro do Riso e do Esquecimento, definia-a como “um estado de tormento criado pela repentina constatação da sua própria desgraça”. As línguas dividem de forma diferente o espectro do sofrimento humano. Mas o inglês tem com certeza uma quantidade de candidatos a equivalente aproximado: self-pity, remorse, regret, anguish, shame [autocomiseração, remorso, arrependimento, angústia, vergonha].
Pode ser que Shariatmadari tenha razão e pode ser que não. Não sei checo, não o posso discutir. Não parece haver dúvidas de que o verbo litovat significa “arrepender-se, ter remorsos” e que lítost significa “arrependimento” em certos contexto, mas a explicação de Kundera na obra referida parece dizer mais respeito a vergonha que a arrependimento. O que tenho por certo é não há nenhuma razão para crer que os checos conseguem fazer frases para descrever um sentimento que ninguém além deles consegue fazer. Isso implicaria uma de duas explicações: ou os checos sentem coisas que mais ninguém sente ou a língua checa tem uma capacidade de representação do mental diferente das outras. Ambas me parecem altamente improváveis…

Como Shariatmadari também explica, pode ainda acontecer que, por exemplo ao considerar intraduzível a “palavra” turca çekoslovakyalılaştıramadıklarımızdanmışsınız, se alargue tanto o conceito de palavra que se faz a batota de comparar “palavras” de certas línguas com “palavras” de outras línguas em que cabem numa “palavra” muitas “palavras”. Trata-se, de facto de um artifício fundamental no discurso do intraduzível: não especificar o que se entende por palavra, uma categoria muito vaga, sobretudo quando há línguas e tradições ortográficas em que se juntam palavras para formar novas palavras e outras em que as palavras mantém sempre, no som e/ou na escrita, alguma autonomia entre elas. Enfim…

E então? Palavras intraduzíveis são, com rigor, todas as palavras, porque não são, insisto, palavras que se traduzem. Mas, para não ir tão longe, palavras intraduzíveis são simplesmente as palavras que as pessoas que defendem a sua intraduzibilidade não sabem traduzir para nenhuma das outras línguas (entre 3.000 e 6.000, conforme se façam as contas), o mais das vezes porque nunca se deram a muito trabalho para encontrar uma tradução…; ou as palavras estrangeiras que não sabem traduzir para a sua própria língua, porque não compreendem o que elas querem dizer e aceitam explicações delirantes do seu significado[4]...

Mas passemos agora das “palavras” às expressões. Para voltar ao já referido artigo do Guardian sobre “vocabulários culturais”, é preciso, sinceramente, uma enorme dose de boa vontade e muitas voltas à retórica para dizer que “a individualidade nacional se exprime saudavelmente em expressões idiomáticas como o mesmo significado mas usos (???) amplamente diferentes e localmente inspirados” e dar como exemplo o contraste entre carrying coal to Newcastle (“levar carvão para Newcastle”), Eulen nach Athen tragen (“levar mochos para Atenas”), vendere ghiaccio agli eschimesi (“vender gelo aos esquimós”), llevar naranjas a Valencia (“levar laranjas a Valência”) e vizet hord a Dunába (“levar água ao Danúbio”)”[5]. Que o Danúbio não seja em Espanha e que as laranjas de Valência não possam fazer parte de um provérbio inglês parece relevar mais da geografia que da língua e, se se pode encontrar “individualidade nacional” no carvão em Newscastle, já se vê mal o que têm de especialmente alemão os dracmas atenienses ou o que há de especialmente italiano no gelo dos esquimós. Sejamos razoáveis: Não há nada na língua portuguesa (nem na cultura portuguesa, sequer) que determine ou justifique uma expressão como “ensinar a missa ao padre”[6] – houve apenas, por acaso, um falante do português que criou essa frase (mesmo que tenha sido traduzida) e ela teve fortuna entre os falantes da língua, voilà! Evidentemente (por razões que nada têm a ver com a língua!), seriam precisas algumas alterações para que a tradução de “ensinar a missa ao padre” fosse entendida por pessoas de países onde não há missa nem padres, mas é, em princípio, adaptável para qualquer língua do mundo.

São famosas as brincadeiras com traduções “literais” de expressões ditas idiomáticas, incluindo provérbios. Também já aqui falei uma vez disso.  Dizia que “muitas das expressões ditas idiomáticas (…) são figuras de estilo que só se tornaram populares numa determinada região e que, por isso, só se usam na língua dessa região, mas que nada impediria de terem tido a mesma fortuna noutra regiões e noutras línguas”. Agora, claro, “o que não se pode é traduzir [as expressões de cada país ou região] de uma maneira parva, como se faz normalmente nas anedotas para aumentar o efeito cómico”, escrevia eu nesse outro texto desta Travessa.

Não se pode dizer, por exemplo, “Tens uma descida que eu não gostava de subir de bicicleta!” por razões efetivamente linguísticas, mas é apenas porque é impossível traduzir assim para português um jogo de palavras francês. A frase é uma tradução “literal”, e por isso idiota, de uma expressão, que se diz a alguém que bebe muito: Tu as une descente que j’aimerais pas remonter à vélo ! Evidentemente, descente em francês não é só “descida”, mas também “capacidade de emborcar” e, se não houver, na língua alvo, uma palavra que tenha esses dois significados (não fui ver nas línguas todas do mundo, mas parece-me provável que essa coincidência se dê só em francês…), o jogo de palavras não funciona.

Também é óbvio que há que ter cuidado com a tradução “literal” de uma expressão como dia de São Nunca à tarde, mas, se a tradução for sensata, ela compreender-se-á mesmo nas línguas em que não se usa. Aliás, há em inglês uma expressão com a palavra never (“nunca”), twelfth of never, que significa o mesmo, e há noutras línguas europeias expressões com o mesmo significado com nomes de santos… inexistentes (ver aqui e aqui). Mesmo uma expressão como o olho da rua, em que a tradução direta de olho causaria sem dúvida muita estranheza e incompreensão, não é assim tão “idiomática” como pode parecer, porque olho também se usa noutras línguas para dizer “meio” , por exemplo quando se trata do centro de um furacão – e não só!

Eu uso muitas vezes, numa determinada língua, expressões que costumam usar-se noutra língua e toda a gente me compreende, se digo, por exemplo, que não vale a pena procurar o meio-dia às duas da tarde ou que não vale a pena procurar pulgas onde não há pulgas (expressões francesas, il ne faut pas chercher midi à catorze heures e il ne faut pas chercher des puces où il n'y en a pas). Agora vou passar também a dizer, para situar um acontecimento num passado muito distante, que isso foi no tempo em que o rei de ouros ainda era valete. É uma expressão dinamarquesa, dengang ruder kongen var knægt, que aprendi no outro dia. Por outro lado, há frases idiomáticas cujo significado não se compreende apenas por falar a língua em que elas ocorrem – tem de se aprender o seu significado, como se aprende o significado de uma palavra. Um exemplo óbvio é quem quer vai, quem não quer manda. A frase propriamente dita não significa, em português, o que significa o provérbio que ela constitui, pelo que ser falante do português não basta para adquirir esta parte do seu “vocabulário cultural”…

Conclusão (mais uma vez): um bocadinho de bom senso, sim?

Ah, e outra coisa que não tem nada a ver com isto, mas com o título do texto: há palavras inglesas que entram no português e outras que vão saindo – sex appeal era muito mais comum na geração do meu pai que na minha e tenho a impressão que está a cair em desuso, não está?

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[1] http://news.distractify.com/culture/untranslatable-words/; http://www.boredpanda.com/untranslatable-words-found-in-translation-anjana-iyer/; http://betterthanenglish.com/; http://boingboing.net/2014/09/22/ten-untranslatable-words.html; http://europeisnotdead.com/disco/words-of-europe/137-2/; http://travel.allwomenstalk.com/fantastic-untranslatable-words; http://matadornetwork.com/abroad/20-awesomely-untranslatable-words-from-around-the-world/; http://www.babbel.com/magazine/untranslatable-01

[2] Encontrei na Internet vários comentários de brasileiros e espanhóis propondo dar um/un toque como tradução direta de prozvonit. Os meus amigos portugueses que consultei sobre o tema parecem acordar que dar um toque, sem mais, é ambíguo e que acrescentariam qualquer coisa: dar um toque e desligar, por exemplo.

[3] Da mesma forma que, na boa tradição de Teixeira de Pascoaes, algumas definições de saudade que se encontram nestas listas de palavras intraduzíveis não têm nada a ver com a palavra saudade usada nas frases efetivamente produzidas por falantes do português: “vago e constante desejo de qualquer coisa que não existe e provavelmente não pode existir (…), que indica que nos viramos mentalmente para o passado ou para o futuro [!!!]”, que “não é um descontentamento ativo ou uma pungente tristeza mas sim uma melancolia indolente e sonhadora.” Desculpe, importa-se de repetir? Mas, mesmo que não se vá por tão fantasiosa definição e nos fiquemos pela (também completamente incorreta) “nostalgia de uma pessoa ou coisa que se perdeu e que já não volta”, como se aplica isso a, por exemplo “Bom, saudades de Portugal propriamente não tenho, mas tenho, claro, saudades dos amigos e da família – e de bom peixe fresco. Uma boa postinha de garoupa, ena, que saudades!” ou a “Ena, já tinha saudades de vir aqui dar uma volta à tarde, há mais de três meses que cá não vínhamos”. Enfim, quem não sabe é como quem não vê, diz o outro e com razão. Parece-me provável que a longa dissertação de Milan Kundera nO Livro do Riso e do Esquecimento sobre o termo lítost, que se discute neste texto, seja um devaneio do mesmo tipo que ignore completamente o uso real da palavra em checo, mas, claro, não posso disso ter a certeza…

[4] Ou até porque o seu vocabulário na sua própria língua é extremamente limitado. No blogue Better Than English , que é um exemplo acabado do disparate linguístico no que toca a palavras intraduzíveis, chega a afirmar-se que a palavra espanhola tocayo (o xará do português brasileiro) não tem tradução para inglês – mas então e a palavra namesake?

[5] Também não se percebe o que vem fazer no meio de tudo isto a constatação simples de que a expressão de dor é diferente em diferentes línguas. Em princípio, o que seria estranho é que o não fosse – tão estranho como uma mesa ser referida pela mesma palavra em todas as línguas. Não deixa de ser curioso, porém, que haja tanta semelhança entre a expressão da dor em línguas tão diferentes como o português e o mandarim – e talvez alguma razão para tal –, e é também muito curioso que este artigo se esqueça de o referir para acentuar o contrário…

[6] “Ensinar a missa ao padre” pode ter uma nuance de sentido que implique restrições no uso relativamente às frases referidas antes, que significam apenas “fazer algo inútil”. A Wikipedia em alemão, porém, inclui no seu artigo “Eulen nach Athen tragen” (uma variação dieletal d)a expressão meiner Großmutter das Beten lernen, “ensinar a minha avó a rezar” como sinónimo de levar mochos para Atenas – e esta parece corresponder de uma forma muito direta a “ensinar a missa ao padre”. Além de uma longa lista de expressões sinónimas em alemão, o artigo tem também uma lista de expressões equivalentes noutra línguas, estre as quais “levar bananas para a Madeira” e “vender mel ao colmeeiro” em português.

26 de abril de 2011

Coitadinho do inglês, mais uma vez ou De como se enriquece uma língua depenicando aqui e ali

Todas as línguas importam constantemente palavras, e algumas mais do que outras, conforme o contexto em que se encontram e as necessidades dos seus utentes. Uma língua falada por um povo que não use computadores, por exemplo, não necessita de importar palavras que actualizem constantemente a possibilidade de se referir às inovações tecnológicas que aparecem diariamente neste domínio. Da mesma forma, uma língua falada por um povo que produza mais tecnologia neste domínio também tem menos necessidade de importar palavras de informática, porque muitas delas terão já sido cunhadas na própria língua, segundo a sua lógica própria. Mas é sempre assim – importa-se o que nos faz falta para designar o novo: se em tagálogue, um dos idiomas oficiais das Filipinas, garfo se diz tenedor e colher se diz cuchara, ou se em suaíli mesa se diz mesa, é pela mesma razão que em português se usa uma palavra nauatle para designar o tomate, nem mais nem menos.
Por isso mesmo, e por ter sido a língua oficial de um império maior, o inglês é, das línguas próximas da nossa, a que mais palavras importou nos últimos tempos (já não vale a pena falar de importações mais antigas, senão metade do inglês é importado do francês...). E é esta uma das maneiras de criar uma língua rica em vocabulário: é quase impossível encontrar uma página de um dicionário de inglês sem encontrar uma destas palavras recentemente importadas, às vezes de línguas muito distantes.
Façam a experiência, como eu fiz. Abro uma página ao acaso. Aparece-me bardy, uma palavra aborígene australiana para designar um tipo de larva comestível. Como se diz isto em português? Não se diz: não temos cá, não importámos de fora, não temos... E nem nos faz falta. A seguir, na mesma página, aparece-me a palavra barilla, para designar uma planta de Espanha e da Sicília. Abro outra página. Aparece-me knesset, uma palavra hebraica que significa “reunião” e que designa o parlamento israelita. Admitimo-la em português? Depois aparece-me knopkierie, uma palavra africâner para designar um tipo de arma de algumas tribos da África Austral. Isto também pode ser que interesse, pelo menos ao português de Moçambique... Mas é melhor importar essa designação de uma língua moçambicana, não acham? Só mais uma página: agora, aparecem dois substantivos, peau-de-soie, francês, peccary, caribe (peccary é necessário importar também para português e eu já o fiz e escrevo pecári) – além de um peccavi, latim, também nome, que não conta para o que aqui me traz. E pode continuar-se.
Não deixa de ser curioso: por ser uma língua imperial, o inglês foi imposto a milhões de pessoas em todo o mundo. Um dos resultados dessa expansão foi a assimilação (a necessidade de assimilação, por um lado, e a predisposição a aceitá-la como natural, por outro) de um número muito grande de palavras das línguas com que estava em contacto em lugares muito diferentes do seu espaço natal. Já aqui disse uma vez que, pela sua internacionalização, o inglês é, naturalmente, a língua mais maltratada no mundo inteiro. Também os puristas do inglês, que os deve haver, seguramente prefeririam que, em vez de se ter tornado uma língua com um vocabulário tão vasto, o inglês se tivesse mantido uma língua que eles pudessem considerar menos espúria… Mas eu não consigo ter pena deles, que querem?, como não consigo ter pena de puristas nenhuns…

7 de março de 2011

Vai d’embotas, Daniel e outras expressões populares

A expressão ir de embute é muito antiga. Sempre a conheci, o meu pai conhecia-a e não me espantaria nada que o pai dele a tivesse conhecido também. Ouvi-a milhares de vezes, continuo a ouvi-la diariamente quando vou a Portugal e há dela centenas de ocorrências em Google. Aliás, é uma expressão tão comum que me surpreende que Helder Guégués a não conhecesse há mais tempo diz-nos que só agora a ouviu pela primeira vez, numa crónica de João Gobern.  E pergunta: de onde virá tal expressão?

Antes de tentar esboçar uma resposta a essa pergunta (é esse o principal propósito deste texto), deixem-me indignar-me: o facto de não estar dicionarizada uma expressão como ir de embute prova mais uma vez o que já estamos fartos de saber: que os dicionários registam com prazer qualquer termo que algum escritor reconhecido tenha inventado um dia e usado uma vez ou duas (e de que, por conseguinte, não se pode dizer que faz realmente parte da língua), mas não registam o português real que milhares dos seus falantes nativos usam constantemente no seu dia-a-dia. Ou seja, decidem eles o que é português e o que não é, como se fosse essa a sua função e tivessem competência para tal… E o calão, bom, mais que qualquer outra variedade, «os lexicógrafos remetem[-no], se lhes vem ao gadanho, ao cemitério da língua», como constatava o mestre Aquilino Ribeiro, em tom de óbvia crítica a essa tentativa de varrer para debaixo do tapete as variantes dialectais e sociolectais menos prezadas pelos poderosos do idioma. Mas adiante:
Também já me interroguei várias vezes sobre a origem de ir de embute. E ensaio agora aqui não uma resposta definitiva, concludente, mas apenas uma reflexão ligeira, como quem pensa alto, que vale o que vale, como se costuma dizer, na falta de provas concludentes…  
Ir de embute está com certeza relacionado com bute, “pé”, disso não creio que possa haver muitas dúvidas. Mas como? Não me parece disparatado propor que ir de embute venha directamente de bute e é essa a ideia que desenvolverei a seguir. E então, para não meter os pés pelas mãos, se me desculpam o trocadilho de evidente mau gosto, convém falar um pouco dos butes antes de propor alguma explicação de como deles se chega a ir de embute.
Hoje em dia, a palavra bute usa-se sobretudo de quatro maneiras, ao que sei: i) na expressão meter os butes em [algum lado], que significa “estar em [algum lado]/ir a [algum lado]”, e que é usada quase exclusivamente como item de polaridade negativa – “nunca lá meti os butes” significa “nunca lá fui / nunca lá estive”; ii) na expressão ir/andar a butes, “ir/andar a pé”; iii) nas expressões dar/levar com os butes, “recusar alguém, terminar uma relação amorosa”/“ser recusado numa relação amorosa”; e iv), sozinha, como interjeição, com o significado de “vamos!” O meu dicionário Porto Editora de 2004 reconhece a palavra, que diz vir do inglês boot. O mesmo propõem o Dicionário da Academia das Ciências, de 2001, e o Dicionário Etimológico, de Antônio Geraldo da Cunha (2ª ed., 1996), que diz ainda que o primeiro registo conhecido do termo é de 1899[1]
Falta-nos saber, porém, como se chega de bute a ir de embute. À primeira vista, pareceria mais lógico que tivesse sido ao contrário, que embute se tivesse reduzido a bute, como embora se reduziu a bora. Mas a verdade é quase sempre contraintuitiva, como se sabe [2] e a minha engenhosa proposta (gaba-te cesto…) é que o bute, já usado como interjeição, tenha ganhado o ditongo nasal inicial por analogia com embora – uma reconstrução de uma pretensa forma anterior, pelo processo conhecido como etimologia popular: ...Se bora vem de embora, bute, que significa a mesma coisa, deverá também ter perdido um em- inicial e a forma “completa” há-de ser embute...
Até aqui, nada de muito extraordinário. Mas, e como apareceu ali no meio o de? Ir-se embora não tem nenhum de! Mais uma vez, por analogia, creio eu, mas desta vez com outras expressões, também comuns e com o mesmo significado, como ir/dar de frosques ou dar de slaide [3], ou, menos comuns, mas ainda assim com bastante ocorrência, pelo menos quando eu era jovem, ir de avanço ou ir de espiante, por exemplo, essas talvez mais tipicamente lisboetas.
E já agora, à laia de coda e já que estamos em maré de sinónimos de abalar ou ir-se embora em registos menos standard (desculpem-me o anglicismo, sim?), quero registar a expressão também muito comum dar corda aos calcantes e, mais apache do que ela, o velho xalar-se – ou chalar-se, não sei como é melhor escrever.  
E é tudo. Ou antes não, falta insistir numa coisa importante: toca a pôr nos dicionários o calão que lá falta, sim? Noutras línguas, estas coisas há muito que estão dicionarizadas. Pois, mas, a nós, faltam-nos ainda o nosso Pierre Perret e o nosso Frédéric Dard… 
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[1Agradeço a Sofia Marsim a informação sobre as entradas do Dicionário da Academia e de A. G. Cunha, que acrescentei ao texto a 28 de junho de 2016. Pela mesma ocasião, retirei a proposta inicial de uma eventual etimologia alternativa, o francês bout, que me pareceu já não fazer sentido.
[2Senão, seria tão fácil ensinar às crianças ciência como religião e todos sabemos que assim não é… 
[3] Presumo que esta também venha do inglês slide, talvez através da gíria do automobilismo.

27 de janeiro de 2010

Conversa de cháchara

Diz Silva Carvalho, no seu livro Que Estupidez! (não li – ainda – o livro, notem, apanhei a citação na Internet): «Ninguém sabe, se a estatística existisse para estudar e computar o problema, o que significa este "chacha", qual a sua possível ortografia e a sua não menos impossível etimologia, e no entanto ele existe como um dos termos mais lídimos da nossa linguagem actual.»

Silva Carvalho tem toda a razão. Tenho aqui acesso a poucos dicionários, um de papel e os que encontro online, mas é verdade que nenhum deles tem nada a propor sobre a origem da palavra. Uma pesquisa que fiz na Internet, fora dos dicionários, também não me deu nenhuma pista. E é pena, acho eu, que se diga (ou se saiba…) tão pouco de uma palavra tão bonita e tão útil.

Agora, não foi só para me lamentar que aqui vim; quero apresentar uma hipótese sobre a origem da palavra chacha: parece-me provável que ela derive do termo espanhol cháchara – ou tenha a mesma origem. Do ponto de vista da evolução fonética, parece-me que não há muito a discutir, de tão plausível que parece, numa palavra assim, o desaparecimento de uma sílaba final átona. Quanto ao resto, vejamos:

Cháchara, em castelhano, é também uma palavra de uso corrente, com um significado muito próximo do da nossa chacha, se não mesmo coincidente com ele. Segundo o Diccionario de la lengua española da Real Academia Espanhola, cháchara significa “1. f. Conversación frívola 2. f. coloq. Abundancia de palabras inútiles 3. f. pl. Baratijas, cachivaches” (para quem não saiba o que são baratijas e chachivaches, são “bagatelas”, “ninharias”, “coisas de… chacha”.).

E a etimologia, então? Bom, se os dicionários portugueses não propõem um étimo para chacha, o dicionário da Real Academia Espanhola (que é, em princípio, fiável, embora, claro, estejamos num terreno algo movediço…) diz que cháchara vem do italiano chiacchiera, pronúncia informal, por ciacciare. Se formos mais longe na pesquisa, e consultarmos o Vocabolario Etimologico della Lingua Italiana, de Ottorino Pianigiani, veremos que ciacciàre, significa “atarefar-se muito, ou com palavras ou com actos, e com pouco proveito, em coisas que não lhe dizem respeito” e é uma forma alternativa a acciacciàre (definido como “meter-se nas conversas todas; ingerir-se sem consideração”), que, por sua vez, seria formado a partir do mesmo tema de acciaccinàrsi (ou, segundo alguns, de origem onomatopaica).

É então esta a minha proposta. Acham uma proposta de chacha? Bom, de chacha, chacha, não será, mas concordo que, como muitas vezes nestas coisas de etimologia, não há nada provado…

[Acciaccinàrsi, já agora, derivaria, segundo Pianigiani, do agerē latino: agerē, “empurrar para a frente; fazer”; agina e aina (arcaísmos), “rapidez”; ainàrsi, aginársi, “esforçar-se”; accianàrsi, “id.” (assimilação do i pretónico ao a tónico com reforço e redobro do g por troca do a inicial pela partícula ad); acciaccinàrsi (redobro da segunda sílaba). É uma possibilidade, e não deixa de ter a sua lógica, mas é uma hipótese, reconheço, que não prima pela elegância da simplicidade… Rejeitar esta proposta, claro está, não significa rejeitar a hipótese de que chacha derive de cháchara (ou tenham as duas palavras um origem comum) e que cháchara derive de ciacciare/acciacciare.]

5 de novembro de 2009

Chamariscos, digitansos e outras palavras que, por assim dizer, não há

Apareceu-me no outro dia, num texto de que estava a fazer uma revisão, a palavra chamarisco. Tendo em conta o tipo de texto que era (um manual para associações de pequenas e médias empresas), tratava-se com certeza de um erro. Mas podia ter sido uma inspirada criação: se chamariz é “engodo para pássaros” e “engodo, em sentido figurativo”; e se isco é “engodo para peixes” e também “engodo, em sentido figurativo”, então chamarisco é duplo engodo e duplamente figurativo. O ideal, provavelmente, para a caça ao basilisco…

Chamarisco, se não fosse um erro, seria um neologismo de um tipo chamado portmanteau word em inglês, mot-valise em francês e parola-macedonia em italiano. Durante algum tempo, cheguei a pensar que era boa ideia adoptar a expressão italiana, por mais próxima da lógica do português, em vez de usar a expressão inglesa ou a expressão francesa que tanto via usar na nossa língua. Mas acabei por adoptar a expressão amálgama, que entretanto se impôs – e está muito bem assim.

Muitas destas palavras são de grande utilidade, mesmo que não sejam inventadas na nossa língua. Adaptámos sem hesitar amálgamas criadas noutras línguas, umas mais abreviadas (modem, codec, motel...), outras menos (informática, internauta...) e estamos em vias de adoptar outras, como cantautor e digiteca. E podíamos pensar em adoptar ainda mais, mesmo que, para as adoptar, tenhamos de as adaptar.

A maneira mais comum (mas não a única, note-se) de fazer amálgamas é aglutinar duas palavras do mesmo tipo (dois nomes, dois adjectivos, dois verbos...) colando-os nos sons comuns. Às vezes, a sutura realizada noutra língua fica impecável em português, como em glocal, que é aquilo que é ao mesmo tempo global e local (boa palavra!), mas, às vezes, para funcionar bem, a colagem não pode ser demasiado invisível. Por exemplo: os franceses inventaram a palavra adulescent, mistura de adolescent e adulte, que é palavra de utilidade suficiente para merecer ser adaptada ao português, mas como em português o u e o átono se pronunciam da mesma maneira, acho que teria de transformar-se em adultescente, para evitar confusões na oralidade…

Outra maneira de fazer amálgamas é transformar em prefixo ou sufixo uma parte de uma palavra, como quando se usou o -burger de hamburger para fazer cheeseburger. Um exemplo que se costuma dar em inglês ou francês é também o -thon de marathon, “maratona”, em telethon, uma maratona televisiva para angariar fundos para uma causa qualquer. É curioso que, em português, teletona não existe, mas os brasileiros usam (só que sem acento no o) a palavra espanhola teleton. Deve haver alguma coisa em teletona que não soa bem em português… O que será? Já quando se trata de adaptar o inglês walkathon, uma longa caminhada também para angariar fundos, parece que marchatona surge como proposta natural, e encontrei até uma ocorrência (já não é chita…) desta palavra em Google.

Outra maneira de fazer desta salada lexical é agarrar num elemento de formação de uma palavra e aplicá-lo a outras a que ela até aí não se aplicava, como nos casos conhecidos de workaholic e chocoholic em inglês, palavras que se começaram já a espalhar por várias línguas, em versões adaptadas. É interessante constatar o que se está a passar com o aportuguesamento destas palavras a partir de uma pesquisa simples em Google (os números que dou agora dizem respeito ao total das ocorrências das formas masculinas, femininas, singulares e plurais das palavras a o4-11-09 e devem considerar-se ligeiramente inflacionados, porque não fui controlar as ocorrências uma a uma – pode bem haver hits duplos ou triplos no total de hits que Google assinala – e dou números aproximados, porque o tal de ocorrências pode diferir em duas pesquisas com um intervalo de tempo relativamente curto entre elas): trabalhólico aparece cerca de 250 vezes e trabalhólatra cerca de 300 vezes. Não me podem citar nisto, porque não analisei as ocorrências em pormenor, mas, à primeira vista, parece que o uso de trabalhólico e trabalhólatra depende não tanto do grau de purismo dos utentes do neologismo, mas antes (como seria de esperar, aliás…) de serem ou não falantes de português do Brasil: os brasileiros, que dizem naturalmente alcoólatra, preferem trabalhólatra; os não brasileiros, que usam mais a forma criticada alcóolico, usam mais o neologismo trabalhólico. O que é curioso é que não encontro nem uma (!) ocorrência em Google de uma forma que a mim me pareceria natural, trabalhómano… Quanto a chocoólico, a taxa de ocorrência é tão grande que nenhum dicionário deveria hesitar em incluir a palavra na sua próxima edição: cerca de 19 000 ocorrências! Está bem que há um livro com esse nome e que, às vezes, a palavra não significa “viciado em chocolate” («uma cerveja chocoólica»), mas, mesmo assim, já é claramente uma palavra da língua… E mais palavra da língua é chocólatra, que tem direito a definição em dicionários online e cerca de 200 000 ocorrências em Google! Já chocoólatra é palavra com menos fortuna (cerca de 800 ocorrências apenas…) e só vi 3 ocorrências de chocolómanos, mas isso eu percebo, porque é palavra feiota…

Há países em que existe alguma tradição de criar neologismos deste tipo para resistir à importação de palavras estrangeiras. Eu proponho que se faça o mesmo em português, mas só pelo prazer de o fazer, notem bem, que eu não sou muito – ou não sou mesmos nada, seja – de purismos nacionalistas... Agora, com arte e ponderação. Não basta importar, de qualquer maneira. Não podemos, por exemplo, seguir literalmente o exemplo dos quebequenses, que chamam clavardage ao chat (de clavier e bavardage), porque teclersa é uma mistura francamente estúpida de teclado com conversa… Aliás, para o chat o melhor aportuguesamento nem é uma amálgama, o melhor é chamar-lhe simplesmente conversa de chat…cha… conversa de tchatcha, precisamente! Uma palavra como digitanso, porém, parece que fica bem para designar o que chama em inglês um technopeasant… E minhocultura é uma excelente alternativa bem portuguesa a vermicompostagem, que é uma importação directa doutros idiomas...

Que grande sal(s)ada… Pois, isto de neologismos é complicado. Noutro dia, vi no Ciberdúvidas a discussão do neologismo volunturismo, para designar “iniciativas que têm como objectivo unir o turismo solidário/sustentável/comunitário ao voluntariado”. A pessoa que colocava a dúvida dizia que a palavra já existia, mas queria saber se podia usar o neologismo em documentos oficiais. O consultor do Ciberdúvidas, por muito que admitisse que a palavra era “foneticamente aceitável”, não gostava dela, e é um direito que ele tem. Dizia ele que “do ponto de vista semântico, [este vocábulo] poderá ser desagradável porque sugere um trocadilho em que uma vogal é trocada por outra: volunt/a/rismo versus volunt/u/rismo” e que “contém duas ideias que são contraditórias: o exercício abnegado da vontade e o turismo, que sugere desprendimento e prazer pessoal”. Eu digo que é estranho chamar contradição a formas novas de encarar as viagens de férias (em que o prazer pessoal e o exercício abnegado da vontade não se anulem, precisamente). E aproveito para propor que quem ache que não se deve passar férias a trabalhar com miúdos da rua em Maputo se chame um defensor do conservaturismo. Já que estamos em maré de amálgamas relacionadas com turismo, proponho aventurismo para substituir o agora tão popular “turismo de aventura”. Parece-vos bem, ou acham que a segurança e o conforto que o turismo normalmente pressupõe são incompatíveis com o risco da aventura? [Chamo ao tom deste texto brincar a sério, não sabendo bem se me faço assim mal entender… Mas asseguro-vos que o texto quer mesmo dizer o que quer dizer...]

Uma palavra nova não tem de ser útil só para designar melhor o mal designado ou designar, ponto, o que tem falta de designação. Pode ser útil para, em vez de designar, descongestionar, desafiar, trocar as voltas ao discurso. Um dos campeões dos neologismos brincalhões era O’Neill, esse Alexandre grande da nossa poesia. Uma vez, fiz um levantamento de neologismos na obra de O’Neill e encontrei cerca de 200 palavras. Muitos deles eram amálgamas maravilhosas e deixo aqui meia dúzia delas a fechar com graça um texto que pouco a tem. Que passem os dicionários a registar, se fazem favor, coitarado, ejaculatra, màfrarrico, maravirilhas, perikitsch, pestanítido, rastejantraseiro, resmunguarda e tocantar. [Esta última palavra, como é uma amálgama de confecção mais óbvia, foi inventada por muita gente ao mesmo tempo, em português e espanhol. Uma pesquisa simples na net mostrar-vos-á utilizações do verbo tocantar por pessoas com uma probabilidade por assim dizer nula de conhecerem o texto de O’Neill onde ele o usa. Razão de sobra, portanto, para se a adoptar. Além disso, poderiam designar-se os cantautores que tocantam como tocantautores, não é verdade?]

[Já agora, como O’Neill não se limitava a brincar na sua língua-mãe, que passem também a figurar nos dicionários franceses politichien e portugueux, duas palavras úteis para designar tipos de pessoas que, por acaso, existem mesmo…]

4 de outubro de 2009

Recuperado de um blogue apagado 1: Singer songwriter, não: cantautor

Apaguei o meu blogue Rádio Sim Carolina, que era sobre música e que, concluí eu, não interessava a ninguém. Dos textos que lá tinha, quando os reli, achei que havia uma meia dúzia, ou pouco mais, de que se podia dizer benza-te deus e que não queria deitar fora. Vou então pô-los aqui na Travessa, adaptando-os quando necessário à lógica deste blogue, que é outra, e alternando-os com os textos que para aqui vou escrevendo. O texto que se segue foi originalmente publicado a 6 de Maio de 2008 e fala da palavra cantautor, de entradas de dicionário e do grupo argentino Les Luthiers.

Diz o Wikcionario que cantautor é um substantivo masculino, que significa “que canta as suas próprias composições poéticas, normalmente críticas”, e que é um “neologismo criado a partir de cantor + autor, certamente por influência do castelhano cantautor”. Diz ainda que, “embora seja utilizada nos meios de comunicação tanto de Portugal como do Brasil, esta palavra não se encontra ainda dicionarizada”, apesar de ser “referida no Ciberdúvidas como palavra bem construída” e “utilizada em vários artigos da Wikipédia”. Eis o que eu tenho a acrescentar, que não é muito:

É verdade que é convencional considerar a forma masculina singular a forma de base de um nome e que é essa forma que é usada nas entradas dos dicionários, mas talvez já seja tempo de, em vez de considerar cantautor substantivo masculino sem mais (e as outras palavras todas com duas formas flexionais, uma forma masculina referente a seres do sexo masculino e uma forma feminina referente a seres do sexo feminino), fazer antes uma entrada do tipo

cantautor n. m.; cantautora n. f. : pessoa que canta as suas próprias canções

Ou não? Se o feminino e o masculino forem palavras diferentes, por exemplo, cadela e cão, acho devia haver duas entradas, ambas com referência uma para a outra:

cadela n. f.; cão n. m.: mamífero canino doméstico, Canis familiaris

e

cão n. m.; cadela n. f.: mamífero carnívoro doméstico, Canis familiaris
Já agora, para quem não esteja muito dentro destas coisas, houve já propostas, com argumentos mais sólidos do que os que se usam para defender a convenção actual (nenhum, ao que sei...), de propor o feminino singular como forma das entradas de dicionário. De facto, com base no velho mas sempre produtivo conceito de forma marcada e não marcada, parece ser o masculino singular a forma marcada, já que o feminino, singular e plural, e o masculino plural partilham algumas características que o masculino singular não tem: vejam, por exemplo, a pronúncia nóva, nóvas, nóvos por oposição a nôvo. Mas a tradição tem muito peso – e a tradição é masculina…

Mas, voltando a cantautor e à sua definição no Wikcionário, não vejo bem o que é que faz “poéticas” depois de “composições” sem lá estar também “musicais”. Quer dizer que é cantautor quem canta as suas letras com música de outros, mas o contrário não? “… as suas próprias composições”, pronto, ponto, chega bem. E por que hão-de ser as composições dos cantautores “normalmente críticas”? E críticas de quê, já agora? J. J. Cale não é um cantautor? E Bobby Lapointe?

Mas enfim, onde eu quero chegar com isto tudo é que acho é mesmo de aproveitar a boleia do espanhol e usar cantautor/a. Autor/a-compositor/a-intérprete é pesado que se farta. Os franceses abreviam ACI, mas entre ACI e cantautor/a escolho o que soe menos a associação para a cooperação internacional…

Cantautor/a, que se adopte então! Aliás, a palavra não está consagrada só em espanhol, mas também noutras línguas ibéricas e em italiano (cantautore/a) – em qual delas terá sido inventada?

Agora, a propósito, fiquem lá com um excerto de um maravilhoso sketch do impagável grupo argentino Les Luthiers em que, para referir o grande cantautor Manuel Darío [fictício, não fiquem a pensar...], se introduz o conceito de autocantor…:

Manuel Darío: O professor López Jaime reconheceu que as minhas canções tocam a alma, que, os meus recitais, não há que pensá-los, há que senti-los.
Professor [Openheimmer, e não López Jaime]: De facto, fui a um dos seus recitais... E realmente... Sinto muito.
Manuel Darío: Confessei-lhe que tocava e compunha de ouvido. Mas enfim, muitos inspirados compositores populares não sabem escrever música.
Professor: Mas pelo menos sabem escrever o nome deles…
Manuel Darío: Conforme lhe ia cantando as minhas canções, ia-me apercebendo de que o professor começava a ficar visivelmente emocionado, até me pareceu ver duas lágrimas que queriam escapar-se-lhe dos olhos...
Professor: Bom, as lágrimas… Escapar-se... não… Eu é que me queria escapar!

Manuel Darío: Por fim, perguntei-lhe: “Professor, o que acha de mim como cantautor?” E ele aconselhou-me que continuasse a cantar.

Professor: Ah, sim. Eu disse-lhe: “Você deve cantar... Onde ninguém o oiça. Você deve cantar para si próprio! Porque eu, a si, não o vejo como cantautor, vejo-o mais como autocantor”.