O dicionário Porto Editora em linha define léxico como «conjunto ilimitado e aberto de todas as palavras e elementos morfológicos com significado possíveis numa língua».
Atente-se em «conjunto ilimitado e aberto». Ao contrário do que se pensa muitas vezes, o conjunto de palavras disponíveis não só não é fixo como é, em parte, virtual. A palavra fionicamente, por exemplo, significando «de uma forma típica da ilha da Fiónia» era já uma palavra portuguesa antes de eu a ter inventado agora mesmo. E é uma palavra bem formada, isto é, segue as regras interiorizadas pelos falantes para a cunhagem de um termo novo: a um nome de lugar terminado terminado em -ónia posso acrescentar o sufixo -ico para formar um adjetivo significando «natural de» ou «relativo a» esse lugar* e a esse adjetivo posso acrescentar o elemento -mente (não interessa agora se é sufixo ou não...) para formar um advérbio de modo. Evidentemente, esta palavra tem um problema: poucos falantes da língua sabem que existe uma ilha na Dinamarca cujo nome português é Fiónia, pelo que não compreenderiam fiónico e, por isso, também não compreenderiam fionicamente**. Quando, no meu grupo de amigos de Rio de Mouro, se começou a usar o verbo algueiroar, ninguém teve dúvidas sobre o seu significado, que variava, segundo o contexto, entre «ir ao Algueirão» e «estar/parar no Algueirão». Mas quem não soubesse da existência de uma localidade chamada Algueirão não compreenderia o termo.
Há muitas maneiras de ir atualizando o léxico de uma língua. E uso aqui atualizar em duas aceções ao mesmo tempo: «tornar atual, adaptar ou ajustar ao tempo presente» e «tornar real o que era virtual». Cunhar palavras novas a partir de elementos preexistentes, como exemplifiquei acima, é apenas uma de várias possibilidades.
A forma mais comum de renovar o léxico é, estou eu em crer, é importar palavras que se usam já noutras línguas. A importação de palavras é muitas vezes criticada enquanto há dela consciência, por se considerar que palavras estrangeiras não devem fazer parte do léxico de uma língua. A distinção entre palavras «nativas» e «estrangeiras» é, porém, muito difícil e, sejam quais forem os critérios que se escolham para fazer essa distinção, há sempre muitas palavras do léxico efetivamente usado num determinado momento em qualquer língua do mundo que são «estrangeiras», no sentido em que houve uma altura em que foram trazidas de outra língua e começadas a usar, em vez de resultaram da evolução de formas anteriores usadas já na língua.
Sentir-se ou não uma palavra como «estrangeirismo» tem muitas vezes a ver com o seu som, por muito que qualquer palavra passe por um certo grau de «nacionalização» ao ser usada no discurso noutra língua. A palavra feeling, por exemplo, usada em português, transforma-se em fílingue, com um /ĩ/ nasal seguido de um /g/ final, já que os sons originais /ɪŋ/ não existem na nossa língua, mas continua a soar «estrangeira», porque um -ingue atóno em palavras esdrúxulas é incomum em português. Uma palavra como lanche, porém, também importada do inglês e com uma sequência de sons não muito comum em português, já deixou de ser sentida como estrangeira***. O mesmo se passa com futebol ou túnel e muitíssimas outras palavras importadas do inglês. Também ninguém pensa já em constatar ou restaurante como palavras francesas, nem em cavalheiro ou camarada como palavras espanholas, nem em atacar e palhaço como palavras italianas. E o que é mais curioso é que às vezes nos chegam através de uma determinada língua palavras de uma terceira língua: televisão é meio grega meio latina, mas não foi em português que foi cunhada a palavra, foi importada do inglês ou do francês. Placebo é uma palavra latina, mas importámo-la muito provavelmente do inglês, onde é atestada a aceção médica que tem hoje já em 1900.
Às vezes, em vez de se importarem palavras de outra língua, criam-se palavras novas com palavras ou elementos «nativos», mas segundo o modelo da palavra estrangeira. É o que se chama um decalque (que é um termo importado do francês...). Há dezenas e dezenas deles em todas as línguas. Por exemplo, arranha-céus e lua de mel são decalques dos termos ingleses skyscraper e honeymoon; jardim de infância ou jardim infantil e mundividência ou cosmovisão são decalques das palavras alemãs Kindergarten e Weltanschauung; e franco-atirador e pequeno-burguês são decalques do francês, de franc-tireur e petit-bourgeois. Em linha, na primeira linha deste texto, é um decalque do inglês online…
Pode acontecer que um decalque distorça o significado de uma expressão na língua original. Um caso óbvio é o do francês Tiers Monde, que, decalcado para várias línguas, entre as quais o português como Terceiro Mundo, introduz uma ideia de hierarquia dos mundos que não está patente no original (não é Troisième Monde!): a expressão foi cunhada por Alfred Sauvy em 1952, com base nos três estados anteriores à revolução francesa, aristocracia, clero e povo/burguesia, le tiers état: o Terceiro Mundo era a parte do mundo subjugada que haveria de se emancipar, como o tiers état francês.
E alguns decalques podem ser mais sofisticados ou menos óbvios. Por exemplo, a palavra nostalgia, cunhada pelo suíço Johannes Hofer em 1688, juntando os elementos gregos nostos, «regresso a casa» e algos, «dor, sofrimento», decalca a palavra alemã para «saudades de casa; saudades da terra», Heimweh, composta de Heim, «lar, casa, lugar natal» e Weh, «dor, sofrimento». A palavra nostalgia fixou-se sem mais transformações em várias línguas, incluindo o português, mas, noutros casos, dão-se decalques múltiplos sucessivos. Por exemplo, uafhængihed, «independência» em dinamarquês, foi decalcada do alemão Unabhängigkeit, usando elementos diretamente correspondentes (Un-ab-hängigkeit > u-af-hængihed), e a palavra alemã, por sua vez, é composta a partir dos elementos latinos de independentia-, ou seja, prefixo de negação + preposição do verbo que corresponde a pender + nome da raiz de pender, estado do que pende). Muitos termos científicos espalham-se assim, através de decalques sucessivos: uma palavra como anticorpo vem do alemão Antikörper e passa, como decalque, a várias outras línguas (é muito provável que o português não seja um decalque direto do alemão, mas sim do decalque francês ou inglês da palavra alemã, mas não posso ter a certeza).Também pode haver decalques semânticos. Os decalques semânticos não implicam cunhagem nem empréstimo de palavras em sentido estrito, mas antes atribuir a uma palavra uma aceção nova com base numa aceção duma palavra estrangeira que normalmente a traduz. Rato para designar o «dispositivo operado manualmente que permite executar funções no computador sem o recurso ao teclado» não é propriamente um termo cunhado em português, mas sim um decalque semântico do inglês mouse.
Um decalque é, bem vistas as coisas, uma forma de importação de palavras (mesmo quando se cria uma nova aceção por decalque semântico, está-se a importar vocabulário) e não é uma estratégia nem mais nem menos apropriada que a importação direta. Há certos puristas que a acham até mais «perigosa» que a importação direta de palavras estrangeiras, mas também isso não faz muito sentido. Importar ou criar palavras novas numa língua nunca a põe em perigo, é uma dinâmica natural e todas as línguas sempre o fizeram. Pode até considerar-se uma prova de vigor. Estou a lembrar-me de um artigo que li há muito tempo, em que o linguista Francisco Raga Gimeno afirmava que, das línguas maias, o maia do Iucatão era a mais contaminada pelo castelhano — e a que mostrava maior vitalidade. O que põe em perigo uma língua é, isso sim, não ser falada, ser língua materna de cada vez menos pessoas. Há muitas línguas a desaparecer todos os dias, porque morrem os seus últimos falantes nativos. E foram efetivamente mortas por outras línguas mais poderosas, mas não porque tenham sido inundadas de estrangeirismos — porque as línguas mais poderosas importaram os seus potenciais falantes.
O léxico é a parte mais superficial, eu diria «a menos linguística» de uma língua, aquela que se altera com mais facilidade e para a qual mais contribuem outras línguas. Se falarmos dos sons e da estrutura das frases, é certo que também mudam e que também mudam constantemente, mas muito mais devagar. E mudam devido a dinâmicas internas: para haver neles influência de outra língua (chamam os linguistas a isso influência de superstrato) são precisas migrações muito grandes. Que o /R/ «longo» do português moderno tenha surgido por influência francesa, para citar uma crença bastante espalhada, é um mito apenas, uma influência desse tipo não tem nenhuma possibilidade de ser real.
A fortuna de uma palavra é difícil de calcular quando ela é cunhada ou importada, mas conta muito, claro está, o poder linguístico de quem a cunha ou importa. Por exemplo, muitos latinismos renascentistas importados do castelhano por Camões acabaram por ficar na língua. Mas não é preciso ser o poeta mais famoso de uma língua: todas as figuras públicas têm mais possibilidade de fazer vingar um termo novo, cunhado ou importado. Ou os rapazes ou as raparigas mais influentes num grupo de amigos…
P.S.: No parágrafo sobre importação de palavras estrangeiras repito, resumindo muito, coisas que já aqui disse noutros textos e sobretudo num texto de fevereiro de 2017 a que vou buscar alguns exemplos que uso neste texto. Quem se interesse por esta questão dos estrangeirismos, pode chegar aos textos que escrevi sobre o tema carregando na etiqueta Estrangeirismos por baixo deste texto.
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* Nem sempre correspondem adjetivos em -ónico aos topónimos em -ónia, mas existem em número suficiente para justificar o neologismo fiónico: encontro, pelo menos, amazónico, babilónico, caledónico, estónico, jónico, letónico, macedónico, patagónico e saxónico, às vezes a par de outras formas.
** Deste tipo de advérbios de modo, só encontrei, nos dicionários que consultei (mas não foi uma consulta extensiva, longe disse), portuguesmente e americanamente. É estranho. Parece-me claro que francesmente, inglesmente, etc. são palavras portuguesas –– e surpreender-me-ia que fossem apenas virtuais...
*** Note-se que são poucas as palavras em -anche em português, embora a sequência não soe estrangeira. Só consigo pensar em palavras originalmente importadas (avalanche, comanche, revanche, romanche e tranche), além de formas dos verbos (des)enganchar, desmanchar (também importado do francês), manchar e remanchar.

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