Em «À Jeun», de 1967 (que, palavra a palavra, é «em jejum», mas que, neste e noutros contextos, significa de facto «sóbrio; sem ter bebido bebidas alcoólicas »), Jacques Brel faz uma alusão clara à canção «Mirza», de Nino Ferrer, que tinha sido lançada dois anos antes e que tinha sido um grande sucesso.
Um tema recorrente nas canções de Jacques Brel é a infidelidade das mulheres. Não sei da vida de Brel o suficiente para saber se, nas suas canções, o eu que se queixa da infidelidade tem algo de autobiográfico e, para dizer a verdade, a vida de Brel não me interessa por aí além. Também não há nada de muito original nessa temática. Há muitas, muitas canções de voz masculina a acusar mulheres de infidelidade — e também muitas canções de voz feminina a revoltar-se contra a infidelidade dos homens — que deve, no mínimo, ser tão comum como a das mulheres. Esta introdução é um comentário de passagem, porque «À jeun» tem precisamente essa temática.
O motivo da canção é um enterro, o enterro da infiel esposa do eu da canção, que se embebeda no enterro. Brel tratara já o mesmo tema da infidelidade usando um motivo próximo em « Le Moribond », em que o eu da canção é um homem à beira da morte.
«À jeun» é obviamente uma canção satírica e Brel lança mão de artifícios que se pretendem humorísticos, como dizer que estavam todos de negro, menos ele que estava gris, «cinzento», o que em francês significa «bêbedo»; baralhar masculino e feminino em sogro e sogra, «beau-maman», «belle-papa»; referir a procura de um cão no meio do enterro («Z'avez pas vu Mirza ?»); e, sobretudo, a interpretação: um cantar de bêbedo. A figura do bêbedo é, aliás, uma figura humorística recorrente na canção, que se interpreta às vezes, como aqui, imitando no canto a fala vacilante do embriagado.
«À jeun» é também uma canção de crítica social, se se pode dizer assim, porque o ouvinte percebe, no fim da canção, que o amante da falecida esposa é o chefe do contencioso no local de trabalho do marido da falecida Huguette.
Parfaitement à jeun
Vous me voyez surpris
De n'pas trouver mon lit ici
Parfaitement à jeun
Je le vois qui recule
Je le vois qui bascule aussi
Guili guili guili
Viens là mon petit lit
Si tu n'viens pas-t-à moi
C'est pas moi qui irai-t-à toi
Mais qui n'avance pas recule
Comme dit monsieur Dupneu
Un mec qui articule
Et qui est chef du contentieux
Parfaitement à jeun
Je reviens d'une belle fête
J'ai enterré Huguette ce matin
Parfaitement à jeun
J'ai fait semblant d'pleurer
Pour ne pas faire rater la fête
Z'étaient tous en noir
Les voisins, les amis
Y avait qu'moi qui étais gris
Dans cette foire
Y avait beau-maman, belle-papa
Z'avez pas vu Mirza ?
Et puis monsieur Dupneu
Qui est chef du contentieux
Parfaitement à jeun
En enterrant ma femme
J'ai surtout enterré
La maîtresse d'André
Je n'l'ai su que c'matin
Et par un enfant d'chœur
Qui m'racontait qu'sa sœur
Ah ça !!
Il me reste deux solutions
Ou bien frapper André
Ou bien gnougnougnafier la femme d'André
Sur son balcon
Ou bien rester chez moi
Feu cocu mais joyeux
C'est c'que me conseille André
André, André Dupneu
Qu'est mon chef du contentieux
Parfaitement à jeun
Vous me voyez surpris
De ne pas trouver mon lit ici
A canção «Mirza», de Nino Ferrer, é uma canção pop cuja letra, um monólogo de alguém que procura e encontra o seu cão, é apenas um pretexto para cantar.
Z'avez pas vu Mirza?
Où est donc passé ce chien ?
Je le cherche partout
Il va me rendre fou
Oh, ça y est, je le vois
Veux-tu venir ici ?
Je ne le répéterai pas
Sale bête, va
Oh, il est reparti
C'est bien la dernière fois
Que je te cherche comme ça
Oh et ne bouge pas
Oh, satané Mirza
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