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27/05/26

Uma piada algo pateta, descobertas forçosas e fatores hereditários da infertilidade


«É científico, Tintim! A infertilidade é hereditária.
Se os seus pais não tiverem tido filhos, 
você também não terá!»
Encontrei noutro dia numa página humorística no Facebook a piada aqui à direita (evidentemente, o texto não é de nenhum livro do Tintim, foi posto na imagem pelo autor da piada). 

Ora eu tinha feito a mesma piada numa rubrica humorística de um programa de rádio em que participei nos anos oitenta. Era uma «entrevista» com um «cientista» (eu), que afirmava ter finalmente descoberto a causa da infertilidade e que dizia o mesmo que se pode ler na imagem ao lado, acrescentando ainda qualquer coisa como «E, nos casos em que se revelou que, afinal, nem o pai nem a mãe eram estéreis, a mãe não tinha tido a filha ou o filho com o pai dessa filha ou desse filho, mas antes com outro homem que, esse sim, era estéril.» O que a gente se diverte na juventude… 

***

Uma das maneiras de se definir a especificidade da ciência relativamente a outras áreas de trabalho intelectual é o caráter forçoso das suas descobertas. Neil deGrasse Tyson, ao estabelecer uma comparação entre a criatividade em ciência e nas artes, diz que, nas artes, ninguém que tenha nascido antes ou que venha a nascer depois de um(a) determinada/o artista criou ou criará a mesma coisa que essa/e artista, ao passo que, em ciência,  «posso descobrir alguma coisa no universo, mas, se eu não descobrisse, alguém depois de mim descobriria exatamente a mesma coisa».  E isto porque, ao contrário da arte, que é «uma expressão única do indivíduo», «a ciência é a descoberta das condições naturais pré-existentes».

Parece-me que ele tem toda a razão e há, de facto, descobertas científicas múltiplas independentes. Num texto em que refletia sobre a questão, referi, como exemplos óbvios, as manchas solares e o oxigénio.  Agora, isto não é exclusivo das descobertas científicas. No mesmo texto, falava também exemplos de invenções múltiplas independentes, que, por não serem descobertas científicas, tinham tido formas muito diferentes das várias vezes que foram inventadas, como é o caso da a escrita. E referia também uma invenção minha, a expressão «do prado ao prato» para traduzir «from gate to plate», que, vim a saber pouco tempo depois de a criar, também já tinha sido inventada por outras pessoas. Noutro texto da Travessa (a propósito doutra brincadeira, a água liofilizada, que inventei para o programa de rádio atrás referido e que, mais uma vez, não fui o único a inventar...), discutia até a possibilidade de aferir o grau de criatividade de qualquer ideia a partir, precisamente, do número de ocorrências independentes: «Quanto menos vezes [uma ideia] tiver ocorrido autonomamente, mais genial ela é.» A minha tradução «do prado ao prato» não era, pelos vistos, nada genial, como também não era  muito genial — vejo agora, mas já calculava... — a minha piada da infertilidade herdada. 

Agora, o mais interessante disto tudo é que, apesar do pueril paradoxo que está na base desta piada, é mesmo verdade que algumas doenças ou alterações genéticas suscetíveis de causar infertilidade podem mesmo ser herdadas, da mesma forma que se herdam outras doenças de que os progenitores não sofrem; e até que problemas de baixa fertilidade nos homens podem ser diretamente herdados dos pais: filhos de homens que tenham tido necessidade de tratamentos de fertilidade para procriar têm mais possibilidades de ter de recorrer eles próprios a esses mesmos tratamentos para terem filhos. (Ver um resumo desta questão aqui, mas é fácil encontrar na Internet informação sobre o tema.)

(Quando eu era rapaz, também se dizia de uma rapariga de peito pequeno que «saía ao pai», mas sendo o tamanho do peito um traço poligénico, como a cor dos olhos, forma do corpo, cor do cabelo, etc., resulta provavelmente de uma combinação de genes de ambos os progenitores, de maneira que, em princípio, os genes do pai contribuem tanto para um peito pequeno como para um peito grande, não é verdade?)


18/10/20

Chaves de parafusos magnéticas

Ontem surgiu-me a questão: quem terá inventado as chaves de parafusos de ponta magnética? É uma grande invenção, que nos veio facilitar a vida em inúmeras situações, mas, como sempre nestas coisas, ninguém faz ideia de quem tenha sido o seu inventor. E depois, pensei logo que, neste caso, é extremamente provável que tenha havido muitas pessoas a ter tido a ideia independentemente umas das outras (já aqui escrevi sobre invenções paralelas), até porque a magnetização de uma chave de parafusos, de tão simples que é, deve ter acontecido milhares de vezes por acaso antes de se venderem chaves magnetizadas.
Da mesma forma, também já muita gente já se interrogou sobre a questão da invenção da chave magnetizada, como eu me interroguei ontem, e a pergunta surge em vários fóruns na internet. Li até num deles que a magnetização involuntária de ferramentas podia ser considerada incómoda e que, antes de aparecerem os desenhos de ponta em cruz (Phillips e outros), a magnetização não era útil por aí além, porque uma chave de fenda simples magnetizada não segura bem os parafusos.
Agora, se não há, neste caso, um único inventor, há, pelo menos, quem primeiro tenha registado a patente, para fins comerciais. Uma pesquisa em Google dá-me um registo de patente de William J. Hood e Eugene J. Hood em 1921, que, a julgar pela descrição, bem pode ser a primeira patente de chave de parafusos magnética (traduzo eu).
Fazemos saber que nós, William J. Hood e Eugene. J. Hood, cidadãos dos Estados Unidos e residentes em Toledo, condado de Lucas, Ohio, somos autores de uma invenção que diz respeito a Chaves de Fendas Magnéticas (…) A nossa invenção tem por finalidade fornecer um meio simples para segurar um parafuso na extremidade de uma chave de fendas, imediatamente antes e no decorrer da operação de aparafusar o parafuso num objeto. O propósito da invenção é, especificamente, fornecer um meio para manusear comodamente um parafuso. Através da nossa invenção, fornece-se um meio de manusear os parafusos a aparafusar com a mão que segura a chave de fendas e sem o uso da outra mão de quem com ele trabalha, ficando essa outra mão livre para segurar, se assim se o desejar, qualquer objeto a ser fixado pelo parafuso.
Se não é a patente original das chaves de parafusos magnéticas, é, pelo menos, uma patente original: destina-se a parafusos de fendas simples e propõe uma solução para o problema referido no segundo parágrafo deste texto — com uma cabeça de chave que, além da parte que se insere na fenda, tem uma ponta chata, que assenta na superfície da cabeça do parafuso.


02/09/14

Latas de coisa nenhuma e outras novidades

Enfim uma boa notícia: água em pó! As embalagens, com cerca de 1.000 gramas, têm apenas a seguinte instrução de utilização: “basta juntar água”. 
É uma piada que por aí circula, com várias redações. Mandou-ma um amigo, com a seguinte introdução: “Olha a tanga deste…”

Este amigo fez comigo um programa de rádio nos anos oitenta. Num sketch humorístico desse programa, entrevistava ele um tal Professor Agadois do Ó (eu), que tinha inventado a água liofilizada. O sketch foi improvisado, como muitas vezes eram os nossos sketchs no programa. Eu tinha alinhavado a história da água liofilizada, expliquei-lhe qual era a ideia e improvisámos.

“Ora bem”, explicava eu, “a liofilização é um processo que permite tirar a água a qualquer substância para assim a conservar, podendo depois reconstituir-se essa mesma substância acrescentando-lhe a água que lhe foi retirada. Agora, bem vê, se tirarmos a água à água, não fica grande coisa… A bem dizer, não fica nada… De maneira que é muito leve, muito fácil de transportar, por exemplo, nos sítios onde não há água, como os desertos. Depois, em a gente tendo sede, é só juntar água e pronto, temos outra vez água!”

O que o meu amigo queria dizer quando me escreveu “Olha a tanga deste…” era, pois, que o outro chegava tarde – aquela história era uma criação nossa, há quase 30 anos. Mas parece-me improvável. Não que eu tenha ido buscar a ideia a algum lado, que não fui – inventei-a eu; mas é provável que alguém tivesse já tido a mesma ideia antes de de mim, de óbvia que é a brincadeira.


Neste momento, a ideia até já está registada nos EUA, parece que desde 2008: “Verta o conteúdo da lata num galão de água, mexa até estar dissolvido, ponha no frigorífico e sirva”, diz a lata.

Na realidade, a ideia de vender latas vazias também não é original. Conheço há muito tempo as latas de ar de Paris das lojas de souvenirs de Beaubourg e descobri agora que também se vende ar do mar-alto bretão. Não sei quando começaram a produzir-se as latas de ar de Paris, mas também não são uma ideia original: numa viagem que fez aos Estado Unidos em 1919, Marcel Duchamp ofereceu ao seu amigo Walter Arensberg uma ampola de ar de Paris, que é considerada um dos seus readymades e está hoje exposta no Museu de Arte de Filadélfia.

Também não é forçoso que quem inventou as latas de ar de Paris conhecesse a ampola de Duchamp – pode ter tido a mesma ideia, como o senhor Bernard teve a ideia da água desidratada mesmo sem ter ouvido a entrevista com o Professor Agadois do Ó no nosso programa radiofónico. “O segredo da criatividade”, disse Cyril Edwin Mitchinson Joad (e de muitas maneira diferentes!), “é saber esconder as suas fontes”. Mas não é bem assim, pois não*?


P.S. 1: Um dia destes, veio-me à cabeça uma maneira de aferir a genialidade de uma criação (o grau de criatividade, se se preferir): Quanto menos vezes ela tiver ocorrido autonomamente, mais genial ela é. Dito de outra maneira: se uma criação resultar de um cruzamento de capacidades, vivências e conhecimentos tão únicos que é improvável voltarem a acontecer, estamos perante uma verdadeira originalidade, um golpe de génio, um alto grau de criatividade. Foi essa ideia que motivou este texto. Mal comecei a escrevê-lo, porém, dei-me conta de que a ideia, que, à primeira vista, parece elegante, não tem, na prática, aplicação nenhuma… Teoricamente, é possível contar as ocorrências de uma determinada criação múltipla, mas na prática isso é, em muitos casos, completamente impossível…

Além disso, há imediatas objeções à justeza da proposta. Uma é que juntar sob a designação genérica de ideia ou criação descobertas, invenções e trabalho estético é um artifício que apaga especificidades de cada um dos tipos de criação, incluindo a maior ou menor possibilidade de ocorrência múltipla independente: descobrem-se coisas que existem no mundo real, sejam elas materiais ou conceptuais, pelo que é, nesse caso, mais provável que várias pessoas venham a descobrir o mesmo. O mesmo se pode dizer de muitas invenções, que também decorrem naturalmente do contacto com o meio, como a domesticação de animais, a agricultura ou a fotografia, e são, por assim dizer, um tipo de descoberta. A criação estética é diferente e é também mais difícil definir o que é criação neste caso: cada um dos elementos da obra ou a obra no seu todo? Se é verdade que uma determinada imagem literária pode ser criada autonomamente por muitas pessoas, é impossível duas pessoas escreverem o mesmo texto.

Além disso, o conhecimento bloqueia a segunda criação: se eu sei que uma coisa foi criada, já não a posso criar. (Posso apresentá-la como minha, mas deixemos agora de lado a questão do plágio, que é outra questão.) A diferente velocidade de divulgação de várias criações impede uma comparação justa da sua originalidade.

P.S. 2: Também se tenta às vezes comparar a importância de diversas criações, sejam elas descobertas, invenções ou outras. É uma empresa sem grande sentido, convenhamos, por muito que, por vezes, dê azo a conversas interessantes. Uma coisa me parece certa, porém: a importância que possa ter uma criação não tem nenhuma relação com a sua improbabilidade. Por exemplo: a descoberta da maneira de desenhar um círculo, que é altamente provável e que, por isso, foi com certeza feita independentemente por muita gente, é, ainda assim, mais importante que a descoberta da maneira de desenhar outras formas geométricas mais complexas e mais incomuns.
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 * Já uma vez aqui tinha falado de invenções múltiplas autónomas: “Tenho muitas vezes a sensação”, escrevi eu, “de que somos sobretudo lugares onde acontecem coisas. Podemos ser um lugar onde acontece uma invenção ou uma descoberta, por exemplo – que, se não acontecer em nós, acontece noutra pessoa qualquer.”

Links e texto atualizados a 17.3.2025

08/05/12

If I don’t do it, somebody else will

Tive de traduzir uma vez a expressão inglesa from gate to plate, que significa “desde a produção na quinta até à venda ao consumidor” e, depois de refletir um bocado sobre como manter ao mesmo tempo o significado e o jogo de sonoridades, inventei do prado ao prato. Não era uma tradução muito boa do significado, embora tivesse sobre a expressão traduzida a vantagem de não ter elementos omitidos*; mas era uma boa tradução do jogo fonético, melhor até do que o original, porque entre os dois termos do trocadilho se altera apenas um som e não dois como na expressão inglesa. O meu cliente gostou muito, achou que tinha sido uma boa invenção.

Passado pouco tempo, e por mero acaso, encontrei a expressão na Internet. Verifiquei, pela data de publicação do documento onde ela aparecia, que era anterior à minha tradução. Googlei “do prado ao prato” e descobri que aparecia milhares de vezes online. Não me lembro exatamente de quantas, mas eram muitas (isto foi há cerca de dois anos; hoje, essa pesquisa dá-me cerca de 30.000 ocorrências). Afinal, alguém tinha inventado a expressão antes de mim. Era até possível que tivesse havido várias pessoas a inventarem a expressão antes de mim. Bom, nem por isso eu deixava de a ter inventado também, não é verdade?, mas já não era a mesma coisa…

A expressão do prado ao prato não tem importância nenhuma, mas isto de ser inventado por várias pessoas já se deu com coisas efetivamente importantes. A escrita, por exemplo. Não se sabe se, quando começaram a usar os seus hieróglifos há cerca de 5200 anos, os egípcios os tinham criado a partir da escrita suméria, surgida pouco antes. A escrita chinesa, porém, que apareceu cerca de 2000 anos depois, tem, muito provavelmente, uma origem completamente autónoma. E independente é também, com toda a certeza, a invenção da escrita na região que hoje é o México, há cerca de 2500 anos. Outros exemplos conhecidos de invenções e descobertas independentes de uma mesma coisa são o cálculo diferencial e integral, desenvolvido separadamente por Newton e por Leibniz; e a descoberta do oxigénio, também feita por três pessoas que desconheciam o trabalho umas das outras, Joseph Priestley, Carl Wilhelm Scheele e Lavoisier**.  
Mas há muitas mais.

E então, onde quero eu chegar com isto tudo? Bom, não é que eu queira tirar o mérito a quem inventa ou descobre uma coisa qualquer, nada disso, porque para criar tem de haver alguma inspiração e algum trabalho individuais. Mas parece, sobretudo quando constatamos que as datas das invenções e descobertas paralelas são, muitas vezes, bastante próximas umas das outras***, que inventamos o que o nosso tempo, as nossas circunstâncias, enfim, nos põem à frente para inventarmos… Tenho muitas vezes a sensação de que somos sobretudo lugares onde acontecem coisas. Podemos ser um lugar onde acontece uma invenção ou uma descoberta, por exemplo – que, se não acontecer em nós, acontece noutra pessoa qualquer.




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* Falta farm na expressão original, que se deve entender como from [farm] gate to plate, já que farm gate é a expressão normal para dizer “à saída do local de produção”. Price at farm gate, por exemplo, é o “preço no produtor”
** “Eh, pá, até parece que descobriste a pólvora!”, eis o que eu sempre ouvi dizer quando alguém se mostra muito excitado ao descobrir o que todos os outros estão fartos de saber. Mas é uma expressão pouco correta, se não lhe quisermos chamar disparatada: a pólvora não foi descoberta, porque não há pólvora no estado natural... E, se não distinguirmos entre inventar e descobrir, acabamos como o protagonista de uma anedota que há, que, ao ler que o oxigénio foi descoberto em 1774, se interroga sobre como respirariam as pessoas antes disso.
*** Um caso óbvio é o das manchas solares, descobertas independentemente por Thomas Harriot, em 1610; por Johannes e David Fabricius, em 1611; por Galileu, em 1612; e por Christoph Scheiner, também em 1612.