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12/05/26

A idade, mais uma vez


Toda a gente sabe: quando se vai para a idade, como se costuma dizer, é muito importante manter o exercício, a atividade, a jovialidade e sobretudo a vida social. Mas também toda a gente sabe que é inevitável a perda de capacidades. É assim a vida. Uma pessoa pode continuar a pensar de forma bastante organizada, não ter falhas significativas de memória, fazer sem problema 20 km a pé, mas, sei lá, um dia vê-se aflita para montar um interruptor num candeeiro de mesinha de cabeceira, só porque os parafusos são pequenos e o espaço de manobra é pouco, nunca tal lhe tinha acontecido... A motricidade fina já não é o que era. E quem diz a motricidade fina diz a memória processual, e a força muscular e a vista e… seja lá o que for, varia um pouco de pessoa para pessoa. O que importa é que a pessoa o reconheça.  E que, se a perda de capacidades implicar algum perigo, se torne mais prudente. 

O meu trabalho em apoio domiciliário ensinou-me que uma grande parte dos acidentes domésticos graves de pessoas idosas resultam da teimosia de continuarem a executar as tarefas diárias como sempre fizeram — quer se trate de aparar sebes ou de sacudir os edredões… Há 15 anos que a minha mulher, de casa para o trabalho e do trabalho para casa, faz a autoestrada a 130 km/h. Decidiu agora que chegou a uma idade em que não deve ultrapassar os 110 km/h. Parece-me muito bem.


Imagem: Briton Riviere: O velho jardineiro («The old gardener»), 1863, pormenor. Wikimedia commons, daqui. 


04/11/25

Mais um aforismo sobre o envelhecimento


Há quem afirme que, apesar da idade (mais ou menos) avançada, se sente «jovem por dentro», querendo com isso significar que, embora reconheça a decadência do corpo, conserva inalteradas  as capacidades mentais. Mas não será antes que essa afirmação já é, por si, sinal de alguma decadência cognitiva?

29/05/25

De atacadores, personagens e autores

Só há cerca de 15 anos aprendi a atar os sapatos como deve ser; e aprendi, vejam lá vocês, num TED talk:

Depois, há meia dúzia de anos, aprendi que (pelo menos no que respeita a atar os sapatos) «como deve ser» é uma coisa relativa, digamos assim: porque se se fizer como se deve, mas muito mais depressa, ainda é mais como deve ser, não é? Outro TED talk:

E quando pensava que já não tinha mais nada a aprender sobre os nós dos atacadores, fiquei a saber, ao rever um episódio de uma série antiga, que também podem servir para descobrir um criminoso. Quer dizer, pelo menos foi o que aconteceu nesta narrativa ficcional. E podia, por isso, acontecer na realidade, porque há um pressuposto de verosimilhança nas histórias policiais – sem verosimilhança, transformam-se noutro tipo de histórias...

Invejei a inteligência do autor da história: «Quem me dera conseguir escrever uma história assim!» E depois pensei que também poderia antes invejar a inteligência  de Columbo e pensar: «Quem me dera conseguir desvendar assim um caso de assassínio!». Mas, neste caso concreto, a inteligência do autor e a inteligência da personagem são a mesma inteligência, ou não?

Discute-se muito, sempre se discutiu, o caráter da relação entre a obra de arte e o seu autor. Mas é conversa ampla de mais; afunilemos um bom bocado a conversa e atentemos só num aspeto específico da relação entre autores de ficção – policial ou outra qualquer, literária ou cinematográfica, não importa – e as suas personagens.

Um/a autor/a pode dar às suas personagens todas as características que conheça ou saiba sonhar e que não têm de ter a ver – e normalmente não têm mesmo nada a ver – com as suas próprias características: por exemplo, e para referir apenas qualidades positivas, pode criar pessoas mais fortes que a sua pessoa, mais audazes, mais rápidas, mais bonitas, mais bondosas, fazendo-as mostrar na história, em ações e palavras, a força, a audácia, a rapidez, a beleza ou a bondade que são maiores que as suas próprias. Todas as capacidades, exceto as capacidades cognitivas: não consegue pôr nenhuma personagem a ser mais inteligente, mais perspicaz ou mais sábia do que ele é. Pode dizer que a personagem é a pessoa mais inteligente do mundo, sem mostrar concretamente na narrativa, mas mais que isso não pode. Pode dizer: Columbo, o mais astuto detetive que alguma vez se conheceu, consegue desvendar mistérios mais complicados do que alguma vez foram escritos por um autor policial. Mas só isso. E de maneira que é assim e para lapalissada não está mau: a personagem Columbo não consegue desvendar nenhum mistério que o seu autor não consiga também desvendar. 

P.S. 1: O que se aplica às capacidades cognitivas aplica-se também às capacidades retóricas: se eu criar, numa narrativa realista, uma personagem que é um poeta extraordinário, admirado pelo público e pelos críticos, o melhor é nunca aparecerem na história os poemas desse poeta... 

P.S. 2: Os três vídeos acima têm legendas em português, mas o terceiro, da série Columbo, tem legendagem automática, que nem sempre é muito boa. O episódio de que o vídeo foi extraído é o primeiro da quarta série e data de setembro de 1974. O autor da história é Larry Cohen. 



17/04/24

Estupidez e discriminação, mais uma vez

 Ricky Gervais (traduzo eu):

«Quando se está morto, são se sabe que se está morto. É só para os outros que isso é doloroso e difícil. O mesmo acontece quando se é estúpido.»

Encontra-se a mesma ideia noutro meme que circula nas redes sociais: 

«As pessoas gordas sabem que são gordas. As pessoas magras sabem que são magras. Não seria maravilhoso se as pessoas estúpidas soubessem que são estúpidas?»

Seria quase tentado a dizer que estas afirmações são uma estupidez e que, por isso mesmo, tenho de lhes dar razão: quem as diz não faz ideia da estupidez que são. Mas não é assim. São apenas afirmações em que tenho boas razões para não acreditar e que quero aqui discutir. Aliás, já aqui falei desta questão uma vez, mas quero agora desenvolver um pouco a discussão.

Precisamos de assentar, antes de mais, no que queremos dizer com estúpido e estupidez. Estúpido pode significar coisas como «atónito»; «insensato», «imprudente»; «grosseiro», «indelicado»; «desinteressante», «entediante»; ou «absurdo», mas nas frases que servem de introdução a este texto, estúpido é usado no sentido de «falto de inteligência», que é, provavelmente, o significado mais imediato da palavra para a maior parte das pessoas.

É claro, pode considerar-se que estúpido é muitas vezes apenas um termo de forte desaprovação. Muitas vezes, chamamos estúpido a alguém apenas para discordar veementemente das suas ideias ou ações mais do que para o acusarmos propriamente de alguma deficiência cognitiva. Se escolhemos utilizar estúpido nesta situação, porém, é para afirmarmos que falta à pessoa que acusamos de estupidez a capacidade de compreender ou sentir algo que nós compreendemos e sentimos. Há sempre alguma acusação de falta de capacidade.

Se nos detivermos agora a analisar agora esta ideia de falta de inteligência, constatamos umas quantas coisas importantes:

A capacidade cognitiva de uma pessoa não é adquirida e está fora do seu controlo — a não ser que identifiquemos inteligência com conhecimento, o que não parece muito sensato. A dificuldade de aprendizagem é, claro está, um obstáculo à aquisição de conhecimentos, mas apenas um dos muitos obstáculos possíveis, e há pessoas muito inteligentes que nunca tiveram, por razões várias, acesso à aquisição de conhecimentos. Assim sendo, o nível de inteligência de uma pessoa, seja lá o que for que com isso queiramos dizer, é como a cor dos olhos ou da pele, a forma das pernas ou a tendência inata para a corrida ou para determinada doença.

A falta de capacidade cognitiva de uma pessoa, quando existe, não se aplica necessariamente a todas as suas funções cognitivas, mas apenas a algumas delas. Por exemplo, pode ser-se muito fraco em raciocínio abstrato e ter uma excelente memória ou uma grande capacidade de organizar volumes no espaço, etc. Muitas pessoas eram antigamente simplesmente consideradas «burras» em geral e incapazes de aprendizagem por terem dislexia ou discalculia — o que hoje está longe de ser considerado sinónimo de burrice.

A falta de capacidade cognitiva não é uma condição comum entre humanos — todos fazemos coisas desarrazoadas, estupidezes (!), mas a falta de inteligência como condição (ser estúpido, ter deficiências cognitivas) é rara.

E por fim, a falta de inteligência não tem implicações morais: são possíveis todas as combinações de qualquer grau de inteligência com qualquer grau de moralidade. Muitas pessoas más, seja lá o que for que cada qual defina como mau, são inteligentes, algumas até acima da média, e muitas pessoas com pouca inteligência são boas pessoas.

A estupidez está muitas vezes incluída na retórica discriminatória como sendo, precisamente, a característica que mais justifica a discriminação. Às vezes, é a (pretensa) categoria que justifica, só por si, a discriminação. É certo que, às vezes, se atribuem, a quem se discrimina, outras qualidades negativas, como a maldade, a preguiça, o espírito de trapaça, etc. Mas, de que costuma mais rir-se quem se ri de anedotas de alentejanos (ou belgas, ou aarhusianos, ou seja lá o que for, as histórias são as mesmas em todo o lado, muda só o objeto de chacota), do Samora Machel ou de loiras, entre muitas outras? Da sua pretensa estupidez…

Talvez a característica com que seja mais fácil comparar as deficiências cognitivas seja a fealdade. Ser feio tem, em parte, as características que enumerei atrás para ser pouco inteligente e também resulta em desvantagens ao longo da vida, às vezes grandes. No entanto, há muito quem não ache bem acusar outras pessoas de serem feias, mas não se coíba de chamar burros àqueles de quem discorda — ou até de considerar a burrice em geral como um dos males da humanidade.

Voltemos ao início do texto: «Não seria maravilhoso se as pessoas estúpidas soubessem que são estúpidas?» Tenho boas razões para crer que, tal como as pessoas feias sabem bem que são feias, também as pessoas com alguma deficiência cognitiva sabem muito bem que a têm. Tanto a umas como outras, foi-lhes recordada toda a vida a sua «falha», de várias formas, umas mais diretas que outras. E não há nisso nada de maravilhoso – nem para essas pessoas, nem para ninguém…



14/12/23

Tradução automática e inteligência artificial: magia não é, nem uma pessoa a pensar


Sou muitas vezes confrontado com comentários e críticas aos programas de tradução automática que revelam que a maior parte das pessoas não compreende como é que funcionam esses programas. Não falo de compreender a fundo, compreender mesmo, porque isso deve haver muito poucas pessoas que o consigam fazer e eu não sou com certeza uma delas. Falo antes de ter uma ideia da arquitetura de base desses programas, da maneira como funcionam. Isso ajuda a evitar críticas sem grande sentido aos programas de tradução, mas também a servir-se deles de forma a minimizar as suas lacunas e imperfeições várias, que não hão de, por certo, desaparecer já amanhã — embora estejam a desaparecer, devagarinho, dia após dia. 

Houve, de 1978 a 1992, um grande projeto europeu chamado EUROTRA, que visava criar um programa de tradução automática para as línguas da União Europeia. A ideia era criar um programa que desconstruísse as frases da língua de partida de modo a transformá-las em estruturas abstratas que depois se voltavam a materializar com o léxico e a estrutura sintática da língua de chegada. No fundo, fazer aquilo que se acreditava que um ser humano fazia inconscientemente ao traduzir.

O projeto nunca foi concluído: era demasiado difícil. Uma amiga minha trabalhou nesse projeto durante alguns anos, só com as regras de colocação dos pronomes em português e italiano, sem grandes resultados. Era muito difícil criar as regras para o programa e as estruturas abstratas entre a língua de partida e a língua de chegada eram muito pesadas. Agora, os programas de tradução automática melhoram de dia para dia. Há uns melhores que outros, é certo, e também é certo que alguns continuam a fazer muitos disparates, mas os melhores são muitas vezes extremamente eficazes. A principal diferença relativamente ao falhado projeto EUROTRA é estes programas não têm regras para transformar as frases de uma língua em frases da outra. Usam algoritmos que procuram associações em bases de dados muitos grandes. Dito de forma simples, a metodologia destes programas é «enormes quantidades de informação».

Vou dar um exemplo da qualidade da tradução automática: ao contrário do que se possa pensar, este parágrafo não foi escrito originalmente em português. Escrevi-o em inglês e depois utilizei um programa de tradução automática gratuito para o traduzir para português. Não introduzi qualquer alteração na tradução e, embora talvez não seja a tradução mais elegante (mas o meu texto original em inglês também não deve ser assim tão elegante), não há erros significativos, quer na sintaxe, quer na escolha das palavras, embora eu não tenha escolhido, de propósito, as estruturas gramaticais mais fáceis*.

O meu amigo Pedro Malaquias publicou uma vez no Facebook o seguinte texto:

lost in translation

time flies

o tempo moscas

glória glória

ao tradutor automático

É um texto que dá conta de uma certa ideia de um tradutor automático e que talvez seja mesmo uma tradução com um programa (dito)de tradução muito mau (a tradução do Facebook, por exemplo, é muitas vezes exasperante). E pode até obter-se esse divertido resultado em verdadeiros programas de tradução separando as duas linhas:

time

flies

Mas há muito tempo que os programas de tradução, mesmo quando traduzem mal, não fazem frases agramaticais — se o input for uma frase e não palavras isoladas e escrito com uma pontuação standard. Já em janeiro de 2017 eu dava a uma amiga este exemplo de tradução automática, também sem mudar absolutamente nada do proposto pelo programa de tradução:

As políticas nacionais de Gestão de Recursos Humanos são um exemplo disso. Tem-se argumentado que os investimentos no desenvolvimento de capacidades terão um efeito limitado se não forem suportados por mudanças adequadas nas políticas de RH. A questão da retenção de pessoal técnico qualificado e treinado é há muito reconhecida como fundamental para se conseguir melhorias duradouras na prestação de serviços municipais, mas pouco se fez para mudar as políticas, procedimentos e práticas atuais, que também têm dimensões políticas que são difíceis de mudar. Há muitas outras leis e regulamentos que devem ser alterados para chegar a um ambiente mais propício para o desenvolvimento municipal**.

Como é que os programas sabem quando é que flies é o plural de fly, «mosca», quando significa «braguilhas» e quando é a terceira pessoa do presente do verbo fly, «voar»? Bom, ninguém lhes deu regras, apenas foram treinados com muitos milhares ou milhões de exemplos de ocorrências das formas em vários contextos. Disseram-lhe: neste contexto é isto, neste contexto é isto, neste contexto é isto. E, a partir daí, o algoritmo computa as probabilidades. E acerta quase sempre. Não sabemos ao certo como o programa faz, o que é que ele encontra que o faz distinguir as várias aceções dos termos ou levar a cabo tarefas linguísticas ainda mais complicadas. E isso é um bocado irritante, não percebermos ao certo como ele funciona, só sabemos que faz o que deve. 

Por muito irritante que possa ser, esta ignorância de como o programa funciona não difere em nada da nossa ignorância de como funciona o nosso cérebro. Nós também não sabemos como o nosso cérebro cola significados às palavras da língua. Sabemos, por exemplo, que podemos usar uma palavra metaforicamente ou de outra forma «desviante», mas há usos dessa palavra que não reconhecemos como metafóricos ou «desviantes», mas antes como estrangeirismos: os falantes da língua nunca usariam aquela palavra naquela situação. Mas não sabemos porquê. 

Podemos sair um pouco da língua, para um exemplo talvez mais claro para a maior parte das pessoas que não estão habituadas a questões linguísticas. Todos sabemos que, quando vemos uma pessoa ao longe, antes de distinguirmos o corpo e as feições, já sabemos, pelo andar, se é homem ou mulher. Há exceções, claro, mas é assim na esmagadora maioria dos casos. Se interrogarmos alguém — ou nos interrogarmos nós próprios — sobre o que caracteriza um andar masculino ou um andar feminino, porém, não sabemos responder. Os estudos sobre o assunto mostram, por exemplo, que é o movimento de alguns pontos das pernas, e não do tronco ou dos braços, que determinam esse reconhecimento, mas não se sabe exatamente quais e como. Escolhi este exemplo, porque há programas informáticos que fazem esse mesmo reconhecimento de género na marcha humana tão bem como nós, mas também sem saber como ele é feito. É o mesmo princípio: numa base de dados com milhares e milhares de filmes de homens e mulheres, instrui-se um algoritmo sobre quais são homens e quais são mulheres. E ele aprende. Como nós. Sem saber como, sem nós sabermos como.

Não há magia nenhuma na tradução automática. E, como não há magia, os programas não só funcionam melhor com determinando tipos de textos (os tipos mais frequentes nas bases de dados) como podem, através de práticas simples, ser ajudados a traduzir mais corretamente. Palavras isoladas não funcionam. Como há de o programa procurar contexto? Às vezes, nem é preciso muito para contextualizar. Por exemplo, o j.j.amarante, num comentário deste blogue, referia que um programa de tradução automático traduzira João Paulo (o nome de papa de Karol Józef Wojtyła) para latim como John Paul. 

Respondi eu: 

[Este programa] traduz sempre para inglês antes de traduzir para outra língua. Mas funciona com probabilidades de ocorrência e precisa de contexto. Imagino que a base de dados em latim seja muito pequena e, sem mais informação, só com dois nomes próprios, o resultado é mau. Melhor, é nulo... Mas, se escrever "Papa João Paulo", que chega para definir contexto, por ser uma sequência tão específica, já o [programa] dá Ioannes Paulus Pp. em latim, uma tradução correta.

Além disso, a esmagadora maioria os textos que existem nas bases de dados são textos escritos em linguagem standard em frases standard. Por isso, os resultados são muito melhores com frases completas e com ortografia e pontuação padronizada, como disse atrás.

Agora, tudo isto levanta uma questão muito interessante:

Jaron Lanier sublinhava, já há quase dez anos, que, «nos bastidores, [de um tradutor automático baseado em grande quantidades de dados] estão literalmente milhões de tradutores humanos que fornecem os exemplos» e «não estamos a pagar nada a essas pessoas que fornecem os exemplos para os corpora de que precisamos para pôr os algoritmos de inteligência artificial a funcionar. Para criar esta ilusão de uma inteligência artificial autónoma, independente, temos de ignorar as contribuições de toda a gente de cujos dados nos servimos para a fazer funcionar.»   

É bom não nos esquecermos de que estes tradutores automáticos somos nós, eu e outros tradutores, que os alimentamos, ou melhor, que os criamos.

Noam Chomsky diz a mesma coisa quando acusa a inteligência artificial de ser «alta tecnologia de plágio», ou seja, um programa com acesso a uma quantidade enorme de textos ou imagens efetivamente produzidos por pessoas, que depois cola bocados uns aos outros, de modo a que seja impossível saber onde foi buscar a informação. Já houve casos em que os bocados das obras que compõem os textos ou as imagens produzidas pelos programas de inteligência artificial são reconhecíveis e os seus autores levem os proprietários do programa a tribunal. Mas, na maior parte dos casos, é impossível detetar a origem da informação.

O que é curioso, mais uma vez, é que é também assim que funciona o ser humano. Também nós, quando produzimos seja lá o que for, usamos sempre ideias, conhecimentos ou técnicas que nos vêm de outras pessoas. Apenas os reorganizamos como nossos, em algo nunca antes produzido. 


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* I am going to give an example of how good automatic translation has become: unlike you might have thought, this paragraph was not originally written in Portuguese. I wrote in English and then used a free automatic translation programme to translate it into Portuguese. I did not introduce any change in the translation at all and, although perhaps it is not the most elegant translation (but then again, my original English text was probably not that elegant either), there are no significant mistakes to be found, in both syntax or choice of words, although I on purpose did not choose the easiest grammar structures. 

** National policies of Human Resources Management are a case in point. It has been argued that investments in capacity development will have limited effect unless supported by adequate changes in HR-policies. The issue of retention of qualified and trained technical staff has long been recognized as key to achieving lasting improvements in municipal service delivery, but little has been done to change current policies, procedures and practices, which also have political dimensions which are difficult to change. There are many other laws and regulations that must be changed to arrive at a more conducive environment for municipal development. 


20/05/15

Burrice

Vivemos numa época em que prevalece um perspetiva de civilidade igualitarista, não só quanto à forma como se tratam os outros no espaço público, mas, mais essencialmente, a como os concebemos e os representamos no nosso imaginário; e penso que é precisamente assim que deve ser, que é precisamente essa perspetiva que deve prevalecer. Segundo a moral que defendo, ninguém tem o direito de criticar nos outros características ou crenças – o que se pode discutir e criticar são ações – ações controladas, isto é, as que se possa escolher não realizar. Continua a haver uma característica, porém, pela qual ninguém parece ter pejo em criticar os outros: a estupidez. Ou burrice, ou chamem-lhe como quiserem – não ser muito inteligente, enfim.

Pode ser-se olhado de lado por acusar alguém de ser gordo, coxo, velho ou suábio, mas ninguém se impressiona se se disser, sobretudo se for verdade, que uma pessoa é mesmo estúpida – a não ser a pessoa visada, claro, e as que estiverem do seu lado. É claro, eu sei que, normalmente, quando se diz de alguém que é estúpido não se quer mesmo dizer que é estúpido; é uma expressão apenas, uma maneira de exprimir desacordo de forma veemente. Mas é o mesmo que acontece com outras palavras que se usam para ofender, não é verdade?, e isso não as torna aceitáveis. Devo dizer, porém, que essa utilização do termo e dos seus sinónimos não me preocupa. O problema, para mim, é que as pessoas realmente sentem e pensam que a burrice é uma característica criticável*. Oiço, mesmo de quem está atento a muitas discriminações, coisas como “Se há coisa que não suporto é gente estúpida”. Porque será?

Conhecem a tristeza profunda – ou o horror, mesmo – de uma pessoa que ouve as outras a seu lado delirarem à gargalhada sobre as incapacidades da gente burra que conhecem e tenta desesperadamente esconder que é assim como essa gente com quem gozam, que é dela que falam?
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* Como a cobardia, aliás, de que falei aqui uma vez, num texto que este vem agora comple(men)tar.

12/09/12

Palavras, pensamento e perceção, mais uma vez (1)


A  adoção de uma atitude racionalista implica predispor-se a mudar de crenças a qualquer momento e passar às vezes a defender o que antes se atacou, em função, claro está, da força dos argumentos e provas que vão sendo apresentados numa discussão. Se há pessoas a quem causa grande desconforto aceitar a volubilidade das suas convicções e que preferem, para o evitar, perfilhar certezas perenes, para outras ‒ para mim ‒, essa instabilidade é a vantagem não só epistémica como moral do racionalismo.
Para banalidade, não está mal. Mas é uma introdução apenas, espero que o que se segue seja menos corriqueiro. Já mudei de campo duas vezes na discussão da influência da língua sobre o pensamento. Quando comecei a interessar-me pela questão e a refletir sobre ela, tomei, de uma maneira algo ingénua, o partido dos chamados whorfianos, o relativismo linguístico: as categorias linguísticas, pensava eu, como muitos pensam, introduzem cortes no continuum da realidade e a maneira como percebemos e concebemos o mundo é, por isso, determinada pela língua que falamos. O bilinguismo, dizia eu ‒ e sentia-o ‒, resulta numa cisão da personalidade: é-se de uma maneira numa língua e de outra maneira noutra.   
Quando comecei a estudar linguística, comecei a compreender melhor o que, sob a superfície da diferença, há de invariável nas línguas todas. Comecei também a compreender a ingenuidade da abordagem de Whorf e a dar-me conta da enorme falta de observáveis que a sustentassem. A pouco e pouco, de whorfiano ingénuo, fui-me tornando um antiwhorfiano com cada vez mais (boas) razões para o ser. Isto resultou em centenas de discussões acaloradas, em conversas de café, jantares de amigos e situações afins: o discurso whorfiano é extremamente sedutor e, o whorfianismo, embora tivesse praticamente desaparecido das teorias e dos trabalhos de linguística, tinha-se, pelos vistos, tornando senso comum entre um vasto grupo de gente educada.
Surgiu depois, porém, uma vaga de neowhorfianos, que, ao contrário de Whorf e de muitos whorfianistas clássicos, começou a fazer trabalho experimental sério e a defender uma versão fraca da teoria, muito mais razoável que as suas primeiras formulações. Estes neowhorfianos têm vindo a trazer à discussão argumentos mais sólidos que os que até aí tinham sido apresentados  a favor da hipótese de influência da língua na cognição e eu predispus-me a aceitar que o léxico possa, de facto, determinar certas capacidades ou hábitos cognitivos. Mas claro, não o aceito sem certas reservas: creio, por um lado, que, em muitos casos, está ainda por demonstrar essa influência; e não sei até que ponto é que é a influência do léxico se pode sempre considerar uma influência propriamente linguística.
Já o disse aqui uma vez, a propósito da constatação de uma relação entre língua materna e discriminação de cores ao nível percetivo[1]:
[O léxico] é a parte menos linguística da língua. O léxico, comparado com as estruturas sintático-semânticas e sobretudo as estruturas fonéticas, é facilmente alterável, e em qualquer língua se podem introduzir, com grande rapidez e sempre que seja necessário, novas palavras para dizer novas coisas (também cores…). Além disso, o rigor na classificação das cores (...) pode variar muito de indivíduo para indivíduo entre os falantes de uma mesma língua – pode haver quem saiba o que é azul ultramarino e quem não o saiba e seria interessante comparar como afeta a cognição das cores a maior ou menor educação cromática, digamos assim…
Ao contrário das estruturas morfossintática e fonético-fonológica, o léxico muda com facilidade, tanto na sua disponibilidade na língua como na utilização que cada um dele faz, e é ao nível do léxico que as línguas mais interagem umas com as outras, e com mais facilidade, importando e exportando palavras. Por ser a menos linguística parte da língua, ou a mais superficial, se preferirem, o léxico é o que de menos próprio tem cada língua. Não considero, por exemplo, que seja fator definidor do português ter as palavras unto ou malandrice, mas é com certeza definidor do português ter a possibilidade de flexionar em pessoa o infinitivo, ter uma estrutura silábica independente da estrutura morfológica, ter redução de determinadas vogais átonas, etc[2]. Bem vistas as coisas, a tese neowhorfiana não parece ser que a língua influencia a conceptualização e a perceção, mas antes que o hábito de usar determinadas palavras o faz. Ora isto é, com rigor, independente da língua em sentido estrito. 
Pode haver argumentos fortes a favor da hipótese de que a interiorização de um conceito lexicalizado pode influenciar determinadas capacidades ou perceções. Por exemplo, que existe uma ligação direta entre as categorias cognitivas de cor e as palavras usadas para as descrever e que, por isso, as pessoas que falam línguas em que se distingue azul e verde conseguem mais rapidamente perceber mais nuances nessa zona do espetro das cores. Mas a variação do léxico não se faz só de língua para língua. Ela faz-se também no interior de uma língua, como a imagem abaixo mostra de forma claríssima; donde que, quando se estuda a influência da “língua” na perceção das cores, um dos primeiros testes de controlo a fazer para saber até ponto essa influência é efetivamente da “língua”, em sentido estrito, devia ser estudar a influência nessa perceção de léxicos diferentes interiorizados por falantes de uma mesma língua. Parecerá evidente, mas nunca tal vi. Se se faz, faz-se muito pouco. Obviamente, a temática das cores é um só exemplo, talvez o mais imediato, e o mesmo se aplica a outros campos lexicais.


Sobre a figura: Não consigo saber qual é a origem desta imagem que circula pela Internet. As versões com melhor definição estão escritas em russo, pelo que talvez seja uma adaptação de uma imagem russa, não sei. A imagem pretende dar conta das diferenças de género da perceção das cores (também não descobri ainda em que estudo ou estudos se baseia), mas não é para esse fim que a uso, mas para demonstrar o facto simples de que duas pessoas que falem a mesma língua podem ter léxicos diferentes, e com diferentes graus de sofisticação, para descrever as cores – e outras categorias cognitivas. Os nomes de cores que aparecem à esquerda não são, muitas vezes, as suas designações mais comuns (parecem ser antes uma designação intuitiva baseada sobretudo em frutos e plantas), mas todas estas cores têm nomes que, apesar de relativamente correntes, estão longe de ser conhecidos por toda a gente. Agora, para verem que sou, como afirmava no início, um racionalista efetivamente aberto a ser convencido do contrário do que penso, vou dar aos neowhorfianos argumentos (que, curiosamente, nunca vi por eles referidos – o que não quer dizer que o não tenham feito, claro está) para defender impactos prováveis na perceção de fatores profundamente linguísticos e que apenas se podem adquirir relativamente cedo, como sejam a estrutura fonológica da(s) língua(s):
No seu livro Musicophilia (London: Picador, 2008) Oliver Sacks refere (p. 136) um estudo de Diana Deutsch et al.[3], sobre a incidência de ouvido absoluto[4] em duas populações de estudantes de música:
“Entre estudantes que tinham começado a receber educação musical entre os 4 e os 5 anos, (…) cerca de 60% dos estudantes chineses [do Conservatório Central de Música de Beijing] obedeciam ao critério de ouvido absoluto, ao passo que só 14% dos estudantes dos Estados Unidos, falantes de línguas não tonais, obedeciam aos critérios.” Entre os que tinham começado a receber educação musical entre os 6 e os 7 anos, os números dos dois grupos eram proporcionalmente mais baixos, cerca de 55% e 6%. E entre estudantes que tinham começado a receber educação musical ainda mais tarde, com 8 ou 9 anos, “cerca de 42% dos chineses obedecia aos critérios, ao passo que nenhum dos estudantes falantes de línguas não tonais dos Estados Unidos o fazia”. Não havia diferenças de género em nenhum dos grupos. Esta patente discrepância levou Deutsch et al. a conjeturar que, “se lhes for dada essa oportunidade, as crianças jovens podem adquirir ouvido absoluto como característica do discurso, transportando-o depois para a música.”
O fator que aqui está em causa é a tonalidade do chinês, isto é, o facto de uma mesma sílaba dita com diferentes “melodias” (ascendentes, descendentes…) ter diferentes significados. Se se puder confirmar que a competência tonal na língua pode influenciar a capacidade de reconhecer altura absoluta de um som musical, aí sim, temos verdadeira influência da língua nas capacidades cognitivas de uma pessoa. Now, you’re talking, como diz o outro.
_______________
[1] Ver, por exemplo, o estudo de Jonathan Winawer et al. cujo resumo está disponível aqui; e também os outros estudos que o referem e para os quais há links disponíveis ao fim da mesma página.
[2] Embora nenhuma destas caraterísticas seja exclusiva do português, note-se. Não considero aqui definidores os traços exclusivos, até porque não sei se tal coisa existirá, mas sim a maneira única como se agrupam traços que existem também noutras línguas.
[3] “Absolute pitch among American and Chinese conservatory students: prevalence differences, and evidence for a speech-related critical period” in Journal of the acoustical society of America 119(2) (2006), pp. 719-722
[4] Ouvido absoluto é a capacidade de reconhecer a altura absoluta de um som e, por conseguinte, de o situar imediatamente na escala standard: “o meu pai assoa-se em lá”.

[O texto foi revisto e aumentado a 12 de julho de 2023]

30/08/11

O rosto de Deus

Reciclo um excerto de um texto de há três anos, para servir de introdução a este de hoje (que é um desenvolvimento do outro, noutra direção…):
Lembrei-me no outro dia de uma conversa com uma colega da faculdade depois de uma aula que ela teve sobre uma famosa experiência sobre dilatação de pupilas que Eckhard Hess e James Polt fizeram em 1959 (traduzo o resumo que dela faz Jason Waite): «(...) Hess e Polt apresentaram a um grupo de 20 homens duas fotos idênticas de uma mulher, que diferiam num único aspeto. Numa, as pupilas da mulher tinham sido muito ampliadas, ao passo que, na outra, as pupilas eram extremamente pequenas. Em média, [a dilatação das pupilas] nos homens em resposta à fotografia com as pupilas aumentadas era duas vezes maior do que em fotografia com as pupilas pequenas. Após a experiência, pediu-se aos homens que comentassem as fotografias e a maior parte disse que eram idênticas. Entre os pouco que não disseram que as fotos eram iguais, alguns afirmaram que numa a mulher [com as pupilas dilatadas, entenda-se] era “mais bonita” ou “mais feminina”. Nenhum dos participantes no teste tinha notado a diferença de tamanho das pupilas da mulher da fotografia».
“Ficou tudo histérico na aula, quando o professor aventou a possibilidade de a nossa conceção de beleza ser determinada por mecanismos fisiológicos primários. Houve mesmo quem reagisse mal. A própria ideia de que se façam estudos puramente etológicos de seres humanos é chocante para muitos dos meus colegas.”
Está bem que eram estudantes de Humanidades, mas mesmo assim… A reação é típica: ninguém quer ser considerado um animal, quanto mais uma máquina…
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Referia aqui no outro dia, sem o questionar, o famoso adágio “A beleza está nos olhos de quem olha”. Este tipo de relativismos, porém, sempre me levantou muitas dúvidas. Tendo em conta apenas a minha experiência de vida, a minha tendência é rejeitá-lo, que as coisas não são bem assim. Lembro-me da passagem do filme The crying game em que um dos protagonistas do filme mostra ao outro a fotografia da sua namorada, comentando que ela é o seu ideal de mulher. “Acho que deve ser o ideal de mulher de qualquer homem”, responde o outro. E é isso que tenho observado quase sempre na vida – que, no que diz respeito a beleza, que é o que está aqui em causa, porque numa fotografia só se vê a cara sem ver o coração, o ideal de mulher de um homem é o ideal de mulher de quase todos; e o ideal de homem de uma mulher é o ideal de quase todas. Sempre tenho visto, de facto, um muito grande consenso quanto à beleza – e à fealdade – dos seres humanos.
É certo que isto são só impressões, que é coisa mais para encher conversa do que para a adiantar. Mas Adam Rubinstein, Judith Langlois e Lori Raggman, que estudam de forma sistemática a perceção da beleza, confirmam a minha impressão: no que toca aos rostos humanos, pelo menos, há muita evidência empírica que mostra claramente que a ideia da subjetividade do conceito de beleza é falsa; que há, pelo contrário, grande universalidade no julgamento de atratividade: “(…) Examinámos 130 amostras de classificações de atratividade de 94 estudos da literatura sobre perceção do rosto. Esta meta-análise avaliava quantitativamente o acordo (ou desacordo) de milhares de pessoas, jovens e velhas, homens e mulheres. (…) Contrariamente ao que diz o adágio, os resultados indicavam um grande acordo sobre atratividade, mesmo de tipos de entrevistados muito diferentes.”
Poupo-vos pormenores técnicos, mas os resultados obtidos, tanto para classificações de atratividade de rostos de adultos como de rostos de crianças, e incluindo classificações interétnicas (classificações de vários grupos étnicos por entrevistados vivendo na mesma cultura) e interculturais (classificações de vários grupos étnicos por entrevistados de culturas diferentes) são altamente fiáveis do ponto de vista estatístico e “mostram um acordo consistente entre entrevistados, independentemente da sua experiência particular com diversos tipos de rostos”.
“A nossa meta-análise”, prosseguem os autores, também examinou variáveis que podem moderar o acordo, como sejam o ano de publicação, tamanho da amostra, género da pessoa avaliada e situação em que a pessoa foi avaliada (por exemplo, avaliação de fotografias ou avaliação in situ). Um pouco para nossa surpresa, nenhum moderador teve efeitos constantes ou substanciais nos níveis de acordo. Se bem que se pudesse pressupor que as diferenças metodológicas ou a pertença a um grupo pudesse influenciar as classificações de atratividade, o que se constata é antes que há uma característica fundamental do rosto humano responsável pelo consenso relativamente à atratividade dos rostos.”
“Estes resultados indicam que a beleza não está apenas nos olhos de quem olha”, concluem os autores do trabalho*.
Que caraterística é esta? Há mais consenso em dar-se por factual a universalidade do conceito de beleza de um rosto do que em explicar em que traços se centra esse conceito que todos temos interiorizado sem saber. Segundo os autores, as experiências mostram que quanto mais um rosto se aproximar da média de todos os rostos, mais atraente é considerado. Com técnica modernas de processamento de imagem, fazem-se rostos que são a média exata de vários rostos; e quanto mais rostos constituírem a informação de que é feita a média, mais consenso há sobre a sua beleza. Há várias críticas à conclusão de Rubenstein, Langlois e Roggman, algumas delas pertinentes; e é também aceitável e relativamente minuciosa a sua defesa. Como acontece sempre em ciência, a discussão continua.
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Tudo isto me faz lembrar um texto de Venmani Tirunal Patire, protagonista do meu conto “O silêncio”:
Tudo o que é exclusivamente humano foi diretamente dado aos homens por Deus, ao contrário daquilo que os homens compartilham com outras criaturas, que resulta de uma evolução do mundo natural (a que Deus só não é completamente alheio porque foi Ele também que criou esse mundo natural e pôs em marcha essa evolução, mas sem que tivesse nem para as coisas da natureza nem para o desfilar dos tempos nenhum desígnio específico…). É isso que quer dizer sermos à semelhança de Deus. Misturem-se as feições de todos os humanos, existidos já ou que venham ainda a ser, e obteremos o rosto de Deus; juntem-se os nomes de todos os homens pretéritos, presentes e futuros, e o nome radioso e impronunciável que resultar é o nome verdadeiro da divindade; adicionem-se todas as qualidades e anseios dos mortais e a soma será a imortal essência divina!
Algum tempo depois de escrever este texto, Venmani Tirunal Patire veio a concluir que, afinal, não se podia deduzir Deus da soma dos seres por Ele criados. Para chegar a Deus, havia antes que subtrair sistematicamente tudo de tudo, porque Ele não podia ser senão a matriz vazia onde coubessem todas as coisas, criadas já ou ainda por criar. Se a hipótese de Rubenstein, Langlois e Roggman estiver certa, Venmani Patire tem razão: a soma de todos os rostos não é o rosto de Deus – é apenas o rosto essencial da Humanidade, aquele que todos nós achamos atraente!
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* Rubenstein, A.J., Langlois, J.H., & Roggman, L.A. (2002). “What makes a face attractive and why: The role of averageness in defining facial beauty”. In G. Rhodes & L.A. Zebrowitz (Eds.), Facial attractiveness: Evolutionary, cognitive, and social perspectives. Ablex: Westport, CT. PDF Version (9.5 MB) © Ablex. Este e muitos outros estudos sobre a perceção de rostos estão disponíveis em formato PDF no site da Universidade do Texas.

24/08/11

Passeio matinal: coelhos, lebres e o género da marcha

Os campos recém ceifados perto da nossa casa estão cheios de vida. Hoje de manhã fui passear e vi uma ratazana e um coelho, além dos muitos corvos que debicavam os restos de cereais*. A ratazana, vi-a à beira da estrada, longe dos bandos de corvos. O coelho, esse, saltitava de um lado para o outro mesmo no meio dos corvos. Quer dizer, não sei se era um coelho ou uma lebre, porque não consigo distinguir coelhos de lebres...

Aliás, é uma confusão a distinção entre lebres e coelhos. Há até um género, Carolus, que às vezes é considerado lebre e outras coelho. Não convém nada, sobretudo, tentar esclarecer essa confusão recorrendo a outras línguas, porque não há correspondência biunívoca entre lebre e, por exemplo, hare em inglês… A Wikipédia, que muita gente diz que não é de fiar mas que até nem costuma ser má nestas coisas simples (?) de ciências da natureza, diz que “uma das diferenças entre lebres e coelhos é o fato de que os filhotes daquelas já nascem com pequena capacidade motora e visual, enquanto que os filhotes desses nascem completamente cegos e ficam no ninho por algumas semanas até poderem sair sozinhos”. Presumo que isto seja verdade para o género Lepus. Mas diz também, na entrada coelho, que “seu corpo também é sempre menor que o das lebres” e isso custa-me muito a acreditar…

Cruzaram-se comigo, durante o meu passeio matinal, várias pessoas de fato de treino e cão pela trela. Muita gente aproveita passear o cão para fazer exercício – ou vice-versa. E dei-me conta de uma coisa simples, daquelas que, de tão óbvias, talvez, tão banais, nunca nos suscitam reflexão: a grande distância, muito antes de ter possibilidade de distinguir as formas do corpo e muito menos ainda os traços do rosto, já sabia o sexo da pessoa que se aproximava. Pelo andar, está claro. E isto é interessante, acho eu. Temos um programa de reconhecimento de movimentos que sabe distinguir a marcha dos dois sexos, por muito que ninguém seja, nem de longe, capaz de descrever a diferença entre a maneira de andar dos homens e das mulheres**. As coisas complexas que nós sabemos sem muitas vezes saber que as sabemos e nem sonhar como as sabemos…
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* Ainda escrevi aqui que "os corvos andavam a pastar", mas resolvi refazer a frase, porque achei que o pastar era capaz de ser aqui mal recebido. Mas que estaria correto, isso sem dúvida.
** Há, isso sim, um estereótipo de andar feminino, que consiste basicamente em andar com um pé sempre diante do outro, a ponta do pé apontando sempre na direção que se segue, mas praticamente não há mulheres que andem dessa maneira.