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10 de janeiro de 2016

E o bonito, onde está?

Pamela Joseph. Censored Nude Descending a Staircase, 2013.
(do site da pintora)
Uma ideia que, ao que vejo, tem tido grande fortuna é que podem observar-se as formas decorrentes da sequência de Fibonacci num número muito grande de objetos naturais e obras artísticas. Há muito exagero na afirmação, mas não é minha intenção desmontar aqui esse exagero, até porque já houve muita gente a fazê-lo e bem feito[1]. Agora, pelo que tenho visto, parece-me que, paralelamente à ideia da «ubiquidade» da chamada «proporção de ouro» na natureza e na arte, está também bastante divulgada a ideia de que as formas de criações da natureza ou dos humanos que nela se baseiam são naturalmente reconhecidas pelas pessoas como elegantes ou belas — que haveria algum tipo de «magia» nessa proporção. E acho que merece escrutínio e discussão a ideia de que há padrões anteriores a qualquer obra que determinam, pelo menos parcialmente, a sua beleza — sejam esses padrões a espiral resultante da «regra de ouro» ou outros quaisquer, em qualquer tipo de criação estética: tons, escalas ou timbres musicais, figuras de discurso, temáticas ou motivos literários, formas e cores, e as suas combinações, etc., etc.[2].

De ideias deste tipo pode derivar-se, por exemplo, que ser artista é aprender a seguir esses universais, essa beleza natural preexistente a qualquer obra. A ideia de que a proporção de Fibonacci cria naturalmente beleza é algo bizarra, mas não é o mais, se virmos bem, do que a ideia geral de que há padrões de equilíbrio ou bom gosto — se não universais, pelo menos muito abrangentes — que um artista deve dominar. A minha posição é que não se pode descartar a possibilidade de haver mecanismos inatos comuns a todos os humanos que moldam ou organizam a nossa conceção do belo; e que o seu conhecimento e análise devem, naturalmente, fazer parte da aprendizagem artística, e da crítica e da história da arte; mas que este mecanismos apenas contribuem, quando contribuem, para nos fazer achar bela uma obra de arte, não determinam a nossa noção de belo; e creio que muitas vezes a consciência não tem acesso fácil a estes mecanismos. Acho, por exemplo, que merecem atenção as propostas da chamada estética evolutiva, de Denis Dutton e outros, que defendem que as preferências estéticas evoluíram, como o resto de nós, para «nos levar a tomar as decisões mais adaptativas para a sobrevivência e para a reprodução». Mas é outra conversa completamente diferente, que não implica nenhuma mística de equilíbrio cósmico e, se tem algo em comum com a ideia da beleza universal de sequências matemáticas e proporções geométricas, é que explica muito pouco da beleza de cada obra: saber que certo tipo de paisagem é recorrente em arte porque o cérebro humano evoluiu nessa paisagem não explica porque é que às vezes achamos fascinante a representação dessa paisagem, outras vezes desinteressante apenas e às vezes mesmo feia, tal como as proporções decorrentes da sequência de Fibonacci não produzem forçosamente equilíbrio e elegância.

Muita gente dirá, aliás, que este tipo de crenças é errado e perigoso, que a criação estética — e a experiência estética em geral — assenta precisamente no contrário, no deslumbre que resulta da expressão essencialmente individual de uma maneira de ver ou dizer o mundo; que a beleza de uma obra vem não vem de se coadunar a qualquer padrão preexistente, na natureza e no cosmos ou no interior apenas do nosso sistema nervoso, mas sim da criação de algo realmente único. Uma vez, lembrei-me agora, ouvi alguém dizer[3] que, se Camões tivesse escrito «aquela leda e triste madrugada» em vez de «aquela triste e leda madrugada» teríamos não só uma banalidade semântica como uma banalidade fonética. A ideia de quem disse isso é também, creio eu, que há uma ordem natural nos elementos do discurso, mas que o que faz o poeta é romper com essa ordem natural para reorganizar o mundo numa voz única, sua apenas[4]. O contrário do que dizem os «fibonaccistas» místicos, portanto: o que importa em arte é não seguir nem a espiral de nenhuma concha marinha nem repetir as proporções de nenhuma fachada clássica, mas criar proporções e equilíbrios que nunca existiram antes.

Ana Pérez-Quiroga, fotógrafa. Natureza Morta: Caixas, Barros, Flores e Auto-Retrato, 2003. 
Fotografia a cores,  impressão a jacto de tinta sobre tela. Sobreposição digital de autorretrato sobre reprodução da pintura de 
Josefa d'Óbidos Natureza Morta: Caixas, Barros e Flores,  ca. 1660/70. Museu Nacional de Arte Antiga
Se é assim que eu vejo as coisas? Nem por isso. Creio que, em rigor, ninguém faz arte dessa maneira, mesmo que o queira fazer. Mas a ideia de que a arte obedece a esquemas de beleza ditados pela natureza, seja lá ela o que for, também não me agrada por aí além. Há agora uma certa moda de crítica ao predomínio da exploração e da inovação na arte no século passado. Diz-se até que, nos meios artísticos, se censurou tudo o que era clássico, harmónico, aprazível. E alguma dessa crítica é feita em nome da natureza humana: foi em vão que o radicalismo das formas de expressão do século XX tentou desfazer certas ideias de belo, insurgem-se alguns, porque elas são naturais em nós (o sublinhado é de quem assim fala).

Ora… Pode ser que se tenham fechado portas a tendência menos inovadoras, pode ser que às vezes se tenham vindo misturar a fraude e a facilidade à vontade sincera de abrir novos caminhos e pode ser que esses novos caminhos nem sempre tenham desembocado em longas avenidas nem em amplos prados. Mas não há nisto nada de novo — sempre assim foi. A natureza humana existe com certeza, mas ninguém descobriu ainda que cores, formas ou sons tem lá no fundo.
   
     O bonito, esse,
          está ora cá ora lá
              em tanto sítio que está…



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[1] Aconselho, por exemplo, o texto Fibonacci Flim-Flam, de Donald E. Simanek, em que o autor passa em revista «os disparates Fibonacci» e as muitas «falsificações Fibonacci» que por aí circulam, com pequenas e grandes batotas no ajuste das formas à regra de ouro, selecções e generalizações abusivas e delírio místico sobre a magia ou o poder de alguma forma essencial na «Criação» ou no universo. A «proporção de ouro» parece, afinal, estar o mais das vezes no olhar — um pouco distorcido — do observador… É provável que, algumas vezes, a batota seja feita sem querer, como se faz tantas vezes para confirmar aquilo em que se crê, mas nem por isso deixa de ser batota. Para sermos mais diplomáticos, podemos dizer, como Studiolum no blogue Mesa Revuelta, que (sendo castelhano, escuso-me a traduzir) «un historiador del arte sabe que la regla áurea como ley universal solo debe analizarse en aquellas imágenes donde pueda dibujarse limpiamente».
[2] Para uma introdução sensata à discussão do reconhecimento universal da «proporção dourada» e outras formas como sendo esteticamente superiores, ver, por exemplo, o texto The golden ratio and aesthetics de Mario Livio.
[3] Tenho até uma ideia de quem tenha sido, mas não tenho a certeza absoluta e, bem veem, se não se deve citar «alguém» (peço desculpa!), muito menos de deve pôr na boca de uma pessoa o que não se tem a certeza que ela disse.
[4] Não sei ao certo o que pensava esta pessoa sobre a originalidade dos versos de Camões, posso apenas especular.... Talvez achasse que o banal seria organizar dois elementos de um par pondo o mais longo e mais pesado no fim e pondo primeiro o positivo e depois o negativo. Ou talvez tivesse outra coisa em mente, não sei… Seja lá como for, tendo a considerar canónica — e nem por isso menos elegante — a tónica da rima em [a] aberto… Mas posso estar enganado.

30 de agosto de 2011

O rosto de Deus

Reciclo um excerto de um texto de há três anos, para servir de introdução a este de hoje (que é um desenvolvimento do outro, noutra direção…):
Lembrei-me no outro dia de uma conversa com uma colega da faculdade depois de uma aula que ela teve sobre uma famosa experiência sobre dilatação de pupilas que Eckhard Hesse e James Polt fizeram em 1959 (traduzo o resumo que dela faz Jason Waite): «(...) Hess e Polt apresentaram a um grupo de 20 homens duas fotos idênticas de uma mulher, que diferiam num único aspeto. Numa, as pupilas da mulher tinham sido muito ampliadas, ao passo que, na outra, as pupilas eram extremamente pequenas. Em média, [a dilatação das pupilas] nos homens em resposta à fotografia com as pupilas aumentadas era duas vezes maior do que em fotografia com as pupilas pequenas. Após a experiência, pediu-se aos homens que comentassem as fotografias e a maior parte disse que eram idênticas. Entre os pouco que não disseram que as fotos eram iguais, alguns afirmaram que numa a mulher [com as pupilas dilatadas, entenda-se] era “mais bonita” ou “mais feminina”. Nenhum dos participantes no teste tinha notado a diferença de tamanho das pupilas da mulher da fotografia».
“Ficou tudo histérico na aula, quando o professor aventou a possibilidade de a nossa conceção de beleza ser determinada por mecanismos fisiológicos primários. Houve mesmo quem reagisse mal. A própria ideia de que se façam estudos puramente etológicos de seres humanos é chocante para muitos dos meus colegas.”
Está bem que eram estudantes de Humanidades, mas mesmo assim… A reação é típica: ninguém quer ser considerado um animal, quanto mais uma máquina…
***
Referia aqui no outro dia, sem o questionar, o famoso adágio “A beleza está nos olhos de quem olha”. Este tipo de relativismos, porém, sempre me levantou muitas dúvidas. Tendo em conta apenas a minha experiência de vida, a minha tendência é rejeitá-lo, que as coisas não são bem assim. Lembro-me da passagem do filme The crying game em que um dos protagonistas do filme mostra ao outro a fotografia da sua namorada, comentando que ela é o seu ideal de mulher. “Acho que deve ser o ideal de mulher de qualquer homem”, responde o outro. E é isso que tenho observado quase sempre na vida – que, no que diz respeito a beleza, que é o que está aqui em causa, porque numa fotografia só se vê a cara sem ver o coração, o ideal de mulher de um homem é o ideal de mulher de quase todos; e o ideal de homem de uma mulher é o ideal de quase todas. Sempre tenho visto, de facto, um muito grande consenso quanto à beleza – e à fealdade – dos seres humanos.
É certo que isto são só impressões, que é coisa mais para encher conversa do que para a adiantar. Mas Adam Rubinstein, Judith Langlois e Lori Raggman, que estudam de forma sistemática a perceção da beleza, confirmam a minha impressão: no que toca aos rostos humanos, pelo menos, há muita evidência empírica que mostra claramente que a ideia da subjetividade do conceito de beleza é falsa; que há, pelo contrário, grande universalidade no julgamento de atratividade: “(…) Examinámos 130 amostras de classificações de atratividade de 94 estudos da literatura sobre perceção do rosto. Esta meta-análise avaliava quantitativamente o acordo (ou desacordo) de milhares de pessoas, jovens e velhas, homens e mulheres. (…) Contrariamente ao que diz o adágio, os resultados indicavam um grande acordo sobre atratividade, mesmo de tipos de entrevistados muito diferentes.”
Poupo-vos pormenores técnicos, mas os resultados obtidos, tanto para classificações de atratividade de rostos de adultos como de rostos de crianças, e incluindo classificações interétnicas (classificações de vários grupos étnicos por entrevistados vivendo na mesma cultura) e interculturais (classificações de vários grupos étnicos por entrevistados de culturas diferentes) são altamente fiáveis do ponto de vista estatístico e “mostram um acordo consistente entre entrevistados, independentemente da sua experiência particular com diversos tipos de rostos”.
“A nossa meta-análise”, prosseguem os autores, também examinou variáveis que podem moderar o acordo, como sejam o ano de publicação, tamanho da amostra, género da pessoa avaliada e situação em que a pessoa foi avaliada (por exemplo, avaliação de fotografias ou avaliação in situ). Um pouco para nossa surpresa, nenhum moderador teve efeitos constantes ou substanciais nos níveis de acordo. Se bem que se pudesse pressupor que as diferenças metodológicas ou a pertença a um grupo pudesse influenciar as classificações de atratividade, o que se constata é antes que há uma característica fundamental do rosto humano responsável pelo consenso relativamente à atratividade dos rostos.”
“Estes resultados indicam que a beleza não está apenas nos olhos de quem olha”, concluem os autores do trabalho*.
Que caraterística é esta? Há mais consenso em dar-se por factual a universalidade do conceito de beleza de um rosto do que em explicar em que traços se centra esse conceito que todos temos interiorizado sem saber. Segundo os autores, as experiências mostram que quanto mais um rosto se aproximar da média de todos os rostos, mais atraente é considerado. Com técnica modernas de processamento de imagem, fazem-se rostos que são a média exata de vários rostos; e quanto mais rostos constituírem a informação de que é feita a média, mais consenso há sobre a sua beleza. Há várias críticas à conclusão de Rubenstein, Langlois e Roggman, algumas delas pertinentes; e é também aceitável e relativamente minuciosa a sua defesa. Como acontece sempre em ciência, a discussão continua.
***
Tudo isto me faz lembrar um texto de Venmani Tirunal Patire, protagonista do meu conto “O silêncio”:
Tudo o que é exclusivamente humano foi diretamente dado aos homens por Deus, ao contrário daquilo que os homens compartilham com outras criaturas, que resulta de uma evolução do mundo natural (a que Deus só não é completamente alheio porque foi Ele também que criou esse mundo natural e pôs em marcha essa evolução, mas sem que tivesse nem para as coisas da natureza nem para o desfilar dos tempos nenhum desígnio específico…). É isso que quer dizer sermos à semelhança de Deus. Misturem-se as feições de todos os humanos, existidos já ou que venham ainda a ser, e obteremos o rosto de Deus; juntem-se os nomes de todos os homens pretéritos, presentes e futuros, e o nome radioso e impronunciável que resultar é o nome verdadeiro da divindade; adicionem-se todas as qualidades e anseios dos mortais e a soma será a imortal essência divina!
Algum tempo depois de escrever este texto, Venmani Tirunal Patire veio a concluir que, afinal, não se podia deduzir Deus da soma dos seres por Ele criados. Para chegar a Deus, havia antes que subtrair sistematicamente tudo de tudo, porque Ele não podia ser senão a matriz vazia onde coubessem todas as coisas, criadas já ou ainda por criar. Se a hipótese de Rubenstein, Langlois e Roggman estiver certa, Venmani Patire tem razão: a soma de todos os rostos não é o rosto de Deus – é apenas o rosto essencial da Humanidade, aquele que todos nós achamos atraente!
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* Rubenstein, A.J., Langlois, J.H., & Roggman, L.A. (2002). “What makes a face attractive and why: The role of averageness in defining facial beauty”. In G. Rhodes & L.A. Zebrowitz (Eds.), Facial attractiveness: Evolutionary, cognitive, and social perspectives. Ablex: Westport, CT. PDF Version (9.5 MB) © Ablex. Este e muitos outros estudos sobre a perceção de rostos estão disponíveis em formato PDF no site da Universidade do Texas.