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23/04/25

De negativas não muito negativas

No aeroporto Charles de Gaulle, em Paris, há uma escultura de Charles Pétillon chamada Le Phare, «O farol». De um dos lados da obra, há uma placa com uma frase que, presumo eu, o artista ali quis como complemento da escultura: A Paris, il n’y a pas d’heure pour rêver. Como muitos utentes do aeroporto não falam inglês, pode ler-se, por baixo desta frase, a sua tradução para inglês: In Paris, there is always time to dream.
A frase está, parece-me, bem traduzida. À primeira vista, porém, surpreendeu-me que, sendo todos os elementos que constituem as duas frases diretamente correspondentes, a francesa seja negativa e a inglesa não. Depois de refletir um bocadinho, dei-me conta de que são possíveis, em português, duas frases que correspondem, elemento por elemento, à frase francesa e à frase inglesa: «Em Paris, não há hora para sonhar» e «Em Paris, há sempre tempo para sonhar».
Dos muitos significados que hora pode ter, significa aqui – com a preposição para, note-se! – «tempo específico (para); momento destinado (a); período marcado (para)». Curiosamente, na lógica do português e do francês, «não há hora para sonhar» entende-se imediatamente como «pode sonhar-se a qualquer hora» e não como «não existe nenhum período para a ocorrência de sonho». O mesmo, por exemplo, em «não tenho hora para comer», que se compreende como «não como a uma hora certa» e não como «não tenho nenhum período em que coma». Ou seja, «não há hora para x» significa «x pode dar-se a qualquer hora» e não «x não ocorre em nenhuma hora».
Na frase inglesa, tempo significa de facto «tempo suficiente» ou «tempo livre, disponibilidade». Por muito que, como disse, me pareça bem a tradução, as duas frases não são de facto correspondentes: se as juntarmos (ou as proposições que lhes subjazem, seja, aqui «traduzidas» para português), vemos que a inglesa decorre da francesa, mas não ao contrário. Faz sentido a frase «em Paris, sonha-se a qualquer hora, porque há sempre tempo para tal», mas a frase «em Paris, há sempre tempo para sonhar, porque se sonha a qualquer hora» é de uma lógica muito duvidosa...
São duas as morais desta história: uma é que, ao contrário do que muita gente pretende, a língua tem uma lógica que lhe é própria, sem deixar de ser lógica; outra é que Paris tem sorte em se poder lá sonhar a qualquer hora, de lá haver sempre tempo para sonhar – porque há muitos lugares do mundo em que isso não acontece...

27/06/24

No início era o movimento… e o espaço

 

Os sistemas nervosos não surgiram para que, um dia, uma das espécies que os possui concebesse o modelo padrão da física de partículas. É claro, não há nenhum consenso sobre a razão do surgimento dos sistemas nervosos ou do seu desenvolvimento, mas uma das hipóteses mais aceites é que surgiram para controlar movimento, com o que isso implica, claro está, de orientação espacial. Seja como for, e independentemente da razão por que tenham surgido, controlo de movimento e orientação espacial são, sem dúvida, duas das suas funções principais — mesmo em sistemas nervosos tão complexos como o nosso…

Agora, o surgimento e evolução dos sistemas nervosos não é área da minha especialidade e não é bem este tema que quero aqui discutir. A minha intenção é bem mais simples. É sublinhar que a criação de significado na língua — um produto complexíssimo do mais complexo nervoso que conhecemos — parece dar conta do papel primordial do movimento e do que mais diretamente com ele se relaciona, o espaço e a orientação espacial, na nossa atividade conceptual.

«O que é que anda a ler?»
Gravura de JT Smith, 1815. Creative Commons Attribution, daqui
Já alguma vez repararam na quantidade de palavras para designar conceitos abstratos que são de facto metáforas espaciais? Dizemos que a temperatura subiu muito, que o império romano caiu, que alguém anda um pouco em baixo, fazemos planos para as férias, falamos de pessoas retas… Muitas vezes, como nestes dois últimos exemplos, provavelmente nem nos apercebemos de que estamos a usar metáforas espaciais, porque a metáfora foi criada há muito tempo e aprendemos a aceitar o sentido «literal» e o sentido «figurado» como palavras essencialmente diferentes. Avançar, recuar, prosseguir, regredirevoluir, por exemplo, são também termos originalmente espaciais que produziram significados não espaciais, mas talvez não nos apercebamos disso. Há casos, até, em que a ideia de metáfora espacial não nos vem sequer à cabeça, como, por exemplo, supérfluo, que significa originalmente, em latim, «o que transborda, o que vem por fora», significado que nunca chegou até nós. Uma palavra como antes, que hoje tem tantos significados (de tempo, espaço, preferência) tem, no seu étimo indo-europeu, um significado espacial. O mesmo, muito provavelmente, palavras como com ou porém.  É claro, quando digo metáfora espacial, estou a pressupor que o significado primeiro é o espacial, que é dos conceitos espaciais que derivam os outros conceitos — ou, pelo menos a sua expressão. Mas será mesmo assim? Bom, as consultas etimológicas que tenho feito levam-me a crer que sim, que o significado original dos termos referidos é de facto espacial. 

Estas metáforas são especialmente fáceis de observar no domínio do tempo. Não é disparatado pensar que, antes de se «conceberem» a viajar pelo tempo, os sistemas nervosos se conceberam como viajando no espaço. E na língua — e talvez na organização conceptual da mente, se aceitarmos que, possivelmente, a linguagem a reflete — são também metáforas espaciais que se usam para a expressão (para a organização mental?) do tempo. Dizemos: «Vou fazer o jantar», «Ando a ler um livro muito interessante», «Ela tem um percurso de vida fora do vulgar», «Ele entrou nessa altura», «O jogo começa daqui a duas horas», «O tempo passa depressa» e «Passei a manhã a dormir», «Como vai a vida?», «O exame correu-me bem, «A festa prolonga-se pela noite fora (ou dentro)», etc., etc. Aliás, nem estou a ver muitos termos para a passagem do tempo que não tenham simultaneamente um significado espacial… Mesmo decorrer e transcorrer são originalmente verbos de movimento espacial, por muito que tenham perdido esse significado em português atual. Porque será? Bom, muitos conceitos abstratos são referidos com metáforas de coisas materiais: base, cerne, marco, coração, raízes…, a lista é muito extensa… Talvez se possa considerar que tempo, é, para a mente humana, mais abstrato que o espaço, porque não se vê e porque — voltamos ao princípio — a nossa mente não se desenvolveu para o navegarmos como navegamos o espaço: estamos nele, mas não podemos decidir se avançamos ou recuamos e se mais ou menos depressa*. Talvez seja por isso. 

P. S. Há também estudos que apontam para que metáforas espaciais não expressas linguisticamente funcionem também na nossa mente para conceptualizarmos não só o tempo (as linhas temporais são representadas orientadas da esquerda para a direita), mas também a quantidade, a semelhança, a frequência fundamental de um som e o valor afetivo. Alto é bom, por exemplo, e direita também é bom — para os destros…** É, em suma, um domínio fascinante de reflexão e investigação.

________________

* Dedre Gentner resume aqui esta questão, referindo também outros estudos sobre o assunto. O artigo faz também um bom resumo da questão das metáforas espaciais na conceção do tempo.

** Ver resumo da questão e referência bibliográficas por exemplo neste artigo de B. Pitt e D. Casasanto (2021) 


08/02/23

Que tenhas um dia bom

 

Não deixa de ser curioso: os votos de aniversário eram antigamente mais ambiciosos, se se pode dizer assim, do que agora são. Era costume desejar saúde e felicidades para o resto da vida – que, por sua vez, se desejava longa. Agora, deseja-se o mais das vezes um bom dia de aniversário. 

É capaz de ser sinal da fortuna da desumana ideia de que há que viver só no presente ou talvez mais uma marca do tão falado fim das utopias…

26/08/22

Cozinha nacional mais tradicional que o habitual

Sabemos que o tempo é uma dimensão, mas custa-nos aceitá-lo. Cremos (queremos?) ter mais em comum com quem habitou o mesmo espaço noutro tempo que com quem habita outro espaço no mesmo tempo, mas é uma ilusão nossa. O passado é mesmo um país distante.

Seguem-se duas receitas do primeiro livro de culinária português, a Arte de cozinha de Domingos Rodrigues, «cozinheyro do Conde do Vimioso», publicado pela primeira vez em 1680 e que foi reeditado várias vezes até meados do séc. XIX, em Portugal e no Brasil. Há várias edições disponíveis na internet para download. Por exemplo, esta segunda edição de 1683. Estas duas receitas foram escolhidas ao acaso e atualizo a grafia. Ainda não experimentei nenhuma delas. 

Sopa de queijo, e lombo de porco ou de vaca

Um lombo de porco, ou de vaca, depois de estar quatro dias de vinho, e alhos, ponha-se a assar; e como estiver assado, e feito em talhadas delgadas, tome-se uma frigideira untada de manteiga de vaca, ponham-lhe fatias de pão e sobre elas fatias de queijo muito delgadas, e por cima destas as talhadas de lombo, deitem-lhe miolo de pão ralado, e açúcar, e desta maneira enchem a frigideira até cima; e como estiver cheia deitem-lhe por cima meia dúzia de ovos batidos, e mande-se ao forno a cozer, e como estiver corado, façam-lhe uns buracos com um garfo; deitem-lhe açúcar por cima, e mandem-na à mesa com canela pisada.

Entrida [que é uma «olha», isto é, um tipo de cozido]

Cozam em uma panela duas galinhas, duas galinholas, duas perdizes, um coelho, e dois arráteis de entrecosto de porco com água, (como carneiro) tempere-se com vinagre e todos os adubos; como estiver cozida, tire-se o caldo, e migando-se nele três ou quatro bolos de açúcar e manteiga, ponha-se a cozer; como estiver grosso, acabe-se de cozer com oito ovos, e sumo de quatro limões; depois de bem enxuto deite-se no prato e canela por cima e pondo-se a carne sobre esta entriga, mande-se à mesa. [Ficamos sem saber se é entrida ou entriga…]

Que tal?


19/03/17

De passagem

1. «Estou só de passagem» era um mote recorrente da minha adolescência vagabunda, que muitas vezes ilustrei, em qualquer papel que apanhasse à mão. Este desenho aqui por cima foi feito numa folha de bloco pautada (tirei-lhe as linhas com um programa de tratamento de imagem). É de finais dos anos setenta e foi um amigo que o guardou e mo fez chegar. (Ah, os amigos!...)

A minha figura que passava – não me lembro de o fazer conscientemente, mas posso agora constatá-lo – inspirava-se seguramente no icónico «Just passin’ thru», de Robert Crumb.

Não é preciso acreditar que há alguma coisa depois da morte para pôr as coisas nestes termos: estar de passagem – ou passar apenas, até – é uma excelente metáfora da vida. E acho que era isso, mais que a descrição da minha condição de vagabundo, que me fascinava na tão repetida figura que apenas passa.

2. Se é verdade que, como postulam alguns e a mim me parece fazer todo o sentido, os sistemas nervosos dos animais se desenvolveram para controlar movimento e que continua a ser essa uma das suas funções principais, não é de surpreender que as noções espaciais estejam na base de todas as noções abstratas com que raciocinamos, em que encaixamos o mundo.

Pasar é, diz o dicionário da Real Academia Espanhola, «cruzar de una parte a otra» ou «ir más allá de un punto limitado o determinado». Tem mais 62 aceções, mas creio que decorrem todas destas duas, que, bem vistas as coisas, são afinal uma única: «mover-se em direção a X, seja X um ponto ou um espaço, e continuar a mover-se depois de ter atingido X».

É o que fazemos toda a vida, como dizia e bem Antonio Machado:
Todo pasa y todo queda, / pero lo nuestro es pasar, / pasar haciendo caminos, / caminos sobre la mar.
«Proverbios y cantares XLIV», in Campos de Castilla, 1917)

3. Podemos sempre perguntar «O que se passa?» ou «O que se passou?» e todos os acontecimentos servem de resposta a esta pergunta. De cada vez que atingimos o tal X – e estamos sempre a atingi-lo – o que percorremos já é o passado, claro está. Um dia, passa a vida por nós e somos nós passado.

 Agostinho de Hipona:
O que é, pois, o tempo? Se ninguém mo pergunta, sei o que é; mas se quero explicá-lo a quem mo pergunta, não sei: no entanto, digo com segurança que sei que, se nada passasse, não existiria o tempo passado, e, se nada adviesse, não existiria o tempo futuro, e, se nada existisse, não existiria o tempo presente. De que modo existem, pois, esses dois tempos, o passado e o futuro, uma vez que, por um lado, o passado já não existe, por outro, o futuro ainda não existe? Quanto ao presente, se fosse sempre presente, e não passasse a passado, já não seria tempo, mas eternidade. Logo, se o presente, para ser tempo, só passa a existir porque se torna passado, como é que dizemos que existe também este, cuja causa de existir é aquela por que não existirá, ou seja, não podemos dizer com verdade que o tempo existe senão porque ele tende para o não existir?

4. Para Agostinho de Hipona, o passado só existe por estar presente – ou talvez melhor, por ser presente – na memória:
Se existem coisas futuras e passadas, quero saber onde estão. Mas (…), onde quer que estejam, aí não são futuras nem passadas, mas presentes. (…) Até a minha infância, que já não existe, existe no tempo passado, que já não existe; mas vejo a sua imagem no tempo presente, quando a evoco e descrevo, porque ainda está na minha memória. (Ibid, XVIII. 23) 
Existem na minha alma estas três espécies de tempo e não as vejo em outro lugar: memória presente respeitante às coisas passadas, visão presente respeitante às coisas presentes, expectação presente respeitante às coisas futuras. (Ibid. XX. 26) 
A obra de Agostinho de Hipona é um clássico, como é clássica a sua reflexão sobre o tempo. Os «Proverbios y cantares» de Machado também são já um clássico, e creio que se pode dizer que o Mr. Natural de Crumb também já o é. Perenes, provavelmente não são, mas resistem bem a passar apenas.

É possível alguém permanecer em vez de estar só de passagem? Ficar para sempre presente nalguma memória, se soube ganhar a fama e a glória? Qual! Figura de estilo apenas, ou então ilusão: se tivermos feito obras valerosíssimas, quem se liberta da morte são as obras, que não nós. Ao fim de uma ou duas gerações, já não existimos na memória de ninguém.

17/02/15

O tempo e a sua falta

Sempre me custou perceber a afirmação, tantas vezes repetida, de que o tempo não tem realidade, que é só ilusão que criámos e veneramos. Nunca tal se diz do espaço, porque será?, só do tempo – como se se pudesse ficar nalgum lado ou ir a algum lado sem que passe tempo. Existir no espaço sem tempo e no tempo sem espaço é atributo de ubíquas e eternas divindades, nada que os animais conheçam. O que os animais conhecem é o que lhes dizem os sentidos. E eu e o meu cão, os tordos e as abelhas, todos sentimos o tempo passar. E ainda bem que assim é. Tentem conceber alguém que não tivesse a capacidade de sentir o tempo, para quem não houvesse antes e depois. Não conseguem, pois não?, é-vos tão impossível conceber tal coisa como conceber alguém para quem o mundo não tivesse profundidade e vivesse apenas dentro de uma imagem plana.

Ilusão, o tempo? Criação nossa apenas, ficção? Ora, haverá no mundo alguma coisa em que esbarremos mais que no tempo, outra coisa que tenha uma tão cruel materialidade? Ah, porque se pode perceber de maneiras várias, porque uma hora com uma rapariga bonita é mais curta que um minuto sentado em cima do bico aceso de um fogão*… Claro, como tudo o que existe. Mas isso só mostra bem que existe fora da maneira como cada um o percebe, senão como poderia ser percebido por cada um de maneira diferente?

***
Às vezes, uma pessoa esforça-se tanto por dizer coisas novas que acaba por dizer coisas que têm pouca ou nenhuma relação com a realidade. E está muito bem assim. Outras vezes, quer mesmo falar do que acha importante e não tem remédio senão repetir o que já disseram milhares de pessoas antes dela, porque o que é importante para cada um de nós foi e continua a ser importante para muitos outros em muitos tempo e lugares. Escrevi muitos textos sobre tempo, quase todos a rimar. Falam do contra-senso que encerra a expressão matar o tempo, que é coisa que não se pode (pois se é o tempo que nos vai matando a nós!); falam de envelhecimento como consciência cada vez mais aguda de que um dia tudo se acaba. Que pode haver de mais importante e de mais banal que isto?

***
Quando era rapaz novo, impressionava-me a deslumbrada ânsia de viver de Dean Moriarty, personagem de On the road de Jack Kerouac, e o seu “conhecimento do tempo”. “Nós conhecemos o tempo”, repete ele várias vezes no livro. Para Dean, conhecer o tempo é ser capaz de o desacelerar e curtir a vida, e, para isso, é preciso deixar de tomar decisões, de querer decidir o futuro, deixar-se ir apenas – atrás da vida, para onde ela o chamar. E eu e os meus amigos, aspirantes a beatnicks que éramos, tentávamos convencer-nos mutuamente da validade dessa fascinante ideia e de que tínhamos essa superior capacidade. “Nós conhecemos o tempo!”, repetíamos nós, “Nós conhecemos o tempo!”

A personagem de Dean Moriarty é inspirada numa pessoa concreta, Neal Cassady. Em The First Third, um texto autobiográfico, Neal Cassady conta que o seu irmão Jimmy o fechava numa cama embutida na parede, às vezes horas a fio. Neal diz que, literalmente emparedado, sentia que o tempo “ia acelerando até atingir o triplo da sua velocidade normal”. E ele, horrorizado, com medo de se mexer e de gastar a sua reserva de oxigénio, aprendeu a “viajar no tempo”, deixando-se, às vezes, ir na corrente do tempo e transformando-a, outras vezes, numa enxurrada. A única maneira de resistir ao pânico, ao mais absoluto desespero, era aprender a “conhecer o tempo”, a modelar a perceção que dele tinha. Que mais pode fazer – se o conseguir… – quem deixa literalmente de ter tempo, quem não vê, depois deste agora que está a chegar ao fim, nem um bocadinho de futuro?

Não é dar o dito por não dito, não é isso. É dar conta de dor, de impotência. É certo – pode ser certo – que, às vezes, o tempo não existe. Falta-nos, não há. Se for só para acabar de pintar a cave ou para dar forma definitiva a um texto de blogue ou para ler aquele livro que queríamos mesmo ler, ainda é como o outro… Que nos falte, não há problema. Mas pode-se, aos 28 anos, por exemplo, não ter já tempo para nada a não ser sofrer dores e a angústia da morte iminente. Um mês mais, mais seis meses? Uma vez, ouvi alguém desimportantizar um anúncio de morte: “Morte anunciada, como na crónica do outro, o que é isso?” A morte, dizia essa pessoa, é-nos anunciada a todos em criança. É uma afirmação insuportavelmente cruel para aqueles a quem tenha sido anunciado que não lhes resta já muito tempo. E é assim também, não é?, a asserção ligeira de que “o tempo, isso não existe, nós é que o fazemos, o tempo”, para uma pessoa que não pode fazer – nem desfazer – tempo nenhum...


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* Esta explicação que Einstein deu da relatividade mostra que nem ele a consegue explicar de maneira simples – é que esta explicação não explica nada, convenhamos… (Mas desta vez, é mesmo dele, vá lá, são referidas em três obras formulações ligeiramente diferentes da mesma ideia: James B. Simpson:1957; William Hermanns:1983; Alice Calaprice: 2005)

06/05/11

Notas de uma juventude suburbana

É sempre interessante reler textos que se escreveu há muito tempo. São, normalmente, a prova mais cabal de que a identidade individual é, em grande parte, uma ficção – que, além do nome que figura nos documentos, pouco há de duradouro em cada um de nós. Para mim, por exemplo, a pessoa que escreveu o texto que publico a seguir é, em grande parte, outra pessoa – apesar de ter sido eu que o escrevi, em 1986. Tinha 27 anos e morava ainda na Rinchoa.
Se se escolhe os subúrbios para local de habitação, a escolha prende‑se sempre com questões pragmáticas. Os subúrbios não são ideal de ninguém. Rebusquemos o sótão do imaginário colectivo. Eis que uma personagem nos afirma, com os olhos a brilhar de gananciosa esperança: «Ah, eu quero mais do que isto! Eu não fui feito para o campo! Não, que eu tenho outras ambições e essas só na cidade as poderei satisfazer!» A personagem em questão renuncia à sua condição inata de campesino. Decide tornar‑se citadino. Agora o exemplo contrário, tão fácil de encontrar como o primeiro: «Acho que não aguento o fumo, o stress, a violência, a desconfiança... Vou largá‑la de vez, a cidade, isto está a dar cabo de mim!» E lá vai para o campo. Citadino, quer deixar de o ser. Claro que ambas estas personagens darão provavelmente conta do engano em que caíram e, na maior parte dos casos, reconsiderarão. Mas isso é outra história.

Escolhe‑se ir passar a férias a Genève, a Roma ou a Londres, ou numa aldeia ou vila qualquer, mas nunca em Cergy‑Pontoise ou no Algueirão. A não ser que aí se fique a passar férias porque é aí que mora o tal casal amigo que nos alberga. Só que, nesse caso, contar‑se‑á no fim das férias que elas foram passadas em Paris ou em Lisboa. Os subúrbios são só uma parte da cidade. Como o nome indica, são a parte de baixo da cidade, não no sentido físico, obviamente, mas nos outros sentidos todos… Subúrbios são a sub‑cidade.

Um dos traços constantes da sub‑urbanidade é o sub‑urbanismo. No caso específico de Portugal, o urbanismo nem sequer é sub‑urbanismo, porque é inexistente. Salvo raríssimas excepções, os subúrbios são feios. Há uns mais feios que outros, naturalmente; há uns mais arborizados, mais confortáveis, menos cinzentos. Parece‑me, no entanto, não exagerar, se considerar sub‑urbanizações a quase totalidade das urbanizações suburbanas: os graffitti, nem sempre políticos, nem sempre com um propósito qualquer; o muro branco das escolas secundárias debruado a arame farpado, bastante mais do que vagamente concentracional; a pintura escamada; os elevadores avariados…

E um sempiterno tédio a pairar sobre as torres. Nos subúrbios, creio que já alguém o disse antes de mim, o tédio acarinha‑se como a um amigo. O tédio esfrega o tacão da bota bicuda contra a esquina dos prédios. O tédio passa horas sem conta à porta do café, a ver‑se desfilar na gente que passa. O tédio é sem cessar entornado nas mesas dos cafés, com gestos nervosos, impacientes: «Deixe ‘tar, que eu já limpo!», acorre solícito o empregado. E a salvação é sempre um transporte. De ou para a cidade.

Os sub-urbanos gozam de um respeito de que antes só gozavam certos habitantes da cidade, as camadas pobres dos chamados bairros populares. Para obter no nosso interlocutor o mesmo efeito que outrora se conseguia respondendo à pergunta «de onde é que você é?» com um «Alfama» ou «Ménilmontant» secos, basta agora dizer, com a mesma entoação, «Cacém» ou «Sarcelles». Não se pode dizer que tenha sido a mais simpática das conquistas da sub‑urbanidade, mas é, sem dúvida, uma das mais importantes. No imaginário colectivo, o subúrbio tornou‑se cóio de malandros, a escumalha apanhou os comboios tranvias ou as carreiras suburbanas e, da cidade, foi toda instalar‑se nos seus arredores.

Na maior parte destes antros de desolação cultivava‑se hortaliças e passava‑se férias há 30 anos. E menos. Em Cergy, não havia água canalizada há 40 anos. Há 20 anos, onde é hoje, na Rinchoa, a Urbanil, só havia algumas tamareiras e uma vacaria. Os subúrbios eram ainda verdes há pouco tempo e habitado por saloios. Debaixo de cada subúrbio há uma aldeia. E, às vezes, os restos da aldeia são ainda visíveis – se já não restam muitos dos aldeãos de Cergy, há‑os ainda em Belas ou na Abelheira. É claro que o futuro de todos os subúrbios é igual, sem lugar para nem sequer vestígios do campestre…
Há aqui na Travessa outro texto que complementa este. (Foi escrito na mesma altura, mas, talvez por ser em verso, resistiu melhor ao tempo, acho eu.) Estou agora muito longe de tudo isto. Revejo os subúrbios quando vou a Portugal de férias e já não os reconheço como meus ou como fazendo parte de mim, eu que lá cresci, imaginem vocês. Aliás, em muitos casos, pura e simplesmente não reconheço os lugares. Não sei como serão agora Belas ou a Abelheira. Provavelmente, ficam à beira de auto-estradas e já não lhes resta nada de aldeia que ainda eram um bocadinho há 25 anos.

06/12/10

Em que tempo está o verbo?

É uma história que um amigo meu gostava de contar: tinha um professor de português no liceu que uma vez disse isto ao entrar na sala:   
«Bom dia! Em que tempo está o verbo?»
A resposta que ele queria ouvir era que o verbo (que ele provavelmente consideraria “subentendido”, de acordo com a terminologia em voga na época) estava no presente do conjuntivo, porque, explicava ele, a frase completa seria “Que tenham um boa dia!”.
É claro, isto é muito discutível. Qualquer aluno poderia ter argumentado, se tivesse tido presença de espírito para tal e coragem para contradizer o professor, que o verbo “subentendido” estava no presente do indicativo: “Desejo(-vos) um bom dia!”
Agora, há outra maneira, mais complicada, mas talvez não menos lógica, de entender o “subentendido” da frase “Bom dia!”. Em vez de ser “Que tenham um bom dia!” ou “Desejo(vos) um bom dia!”, pode argumentar-se que a frase completa é, na realidade, “Quero que/Desejo(-vos) que tenham um bom dia!”, especificando quem deseja o quê a quem.   
Se assim for, a pergunta deixa de ser “Em que tempo está o verbo?” para passar a ser “Em que tempo estão os verbos?”. Resposta que agradaria ao professor do meu amigo: «Um no presente do indicativo, outro no presente do conjuntivo.» O que, segundo alguns, significa antes que o primeiro está no presente e o outro não tem tempo, porque também se pode considerar que o modo conjuntivo não tem propriamente tempo.
Não é bem esta a minha maneira de ver as coisas. Prefiro considerar que tempo e modo são categorias ambas forçosamente presentes em todas as frases de todos os enunciados. Aliás, vou ainda mais longe e considero que tempo e modo são de facto categorias presentes em todas as proposições de todos os enunciados e não apenas nas frases no seu todo. É que, se assim não for, não se pode explicar a diferença de sentido (de que creio que ninguém duvida) entre “Espero que não esteja a chover”, “Espero que não chova”, “Espero que não tenha chovido”, etc. Para mim, faz sentido perguntar em que tempo estão os verbos na frase “[Espero que/Desejo(-vos) que tenham um] Bom dia!” e a resposta é a seguinte: O primeiro está no presente e o segundo está no futuro – a não ser que a frase seja entendida como significando “Espero que/Desejo(-vos) que estejam a ter um bom dia”, caso em que estariam no presente os dois verbos…

No dia anterior a começar este texto, fui jantar com um amigo neerlandês e uns colegas dele. Como os colegas dele eram franceses, surgiu, ao abordarmos a refeição, uma conversa sobre bom proveito e bon appétit.
«Como é que se diz em português “Bon appétit !”?», perguntaram eles.
«O que se diz antes de começar a refeição é “Bom proveito!”», disse eu. «Mas agora, quando vou a Portugal, ouço cada vez mais “Bom apetite!”. É isso que dizem as pessoas mais novas. Acho que “Bom proveito!” há-de acabar por desaparecer e há-de passar a dizer-se “Bom apetite!”»
Reflecti uns segundos e continuei:
«E eu acho mal, sinceramente – devia antes dizer-se “Bom proveito!”».
Os meus convivas são bem capazes de ter pensado o que alguns de vocês estão agora a pensar: Aqui temos mais um purista, que insiste que a língua deve ser sem negócios de import-export, daqueles que acha que as novas gerações enfeiam sempre o que era antes tão bonito… Nada disso, minhas caras e meus caros, não é de purismo conservador que se trata, mas sim de sentido lógico: o que eu expliquei depois foi que não é só em português que não se deveria dizer “Bom apetite!”; em francês também não se deveria dizer “Bon appétit !”.
Dizer “Bom apetite!” é, no fundo, dizer “Espero que esteja com um bom apetite”, com dois presentes. Bom, também pode significar “Espero que venha a ter um bom apetite”, com um presente e um futuro*, mas creio que não é assim que se entende normalmente a frase. Ora para quê desejar a alguém que esteja com apetite? Ou está ou não está e, se não se estiver, que não se obrigue a pessoa a comer contra vontade. A não ser que seja mesmo por doença que o apetite tenha desaparecido… “Bom apetite!” soa-me mais como coisa que se deseje a quem padeça de facto da algum mal que lhe tire o apetite…
Para a maior parte da comida que se come e para a maior parte das situações em que se come, “Bom proveito!” é que é o voto que faz sentido, o “Bom dia!” à refeição. “Espero que a comida lhe faça bem, que tire dela bom proveito; que lhe dê a energia de que precisa e que essa gordura toda que você para aí está a comer não lhe entupa os vasos sanguíneos, minha amiga ou meu amigo!” O segundo verbo está no futuro e é um futuro que se deseja saudável. Um futuro a que o tal professor do tal amigo meu havia de querer chamar presente do conjuntivo.      
__________
* Sobretudo se pensarmos que “o apetite vem quando se come” (“l’appétit vient en mangeant”), que é como os franceses dizem que “o comer e o coçar, a questão é começar”…

[Ligeiramente atualizado a 28.6.2003, sem atualização da grafia]

09/02/10

Tic tac tic tac

Nada mais preciso, mais regular, menos dado a desarrazoamentos. Tem, pois, toda a razão a minha filha Joana ao chamar-lhe relógico.

05/10/09

O tempo, mais uma vez

O tempo passa por nós, então, ou nós andamos por ele afora. Muita gente o tem constatado: é assim, com imagens de movimento, umas vezes nosso, outras vezes do próprio tempo, que a gente diz essa perturbadora dimensão do mundo. Agora, por muito que as metáforas espaciais, como se lhes chama, nos possam ajudar a falar do tempo, a (tentar) fazer perceber ao nosso interlocutor como se organizam ocorrências e situações umas em relação às outras e em relação a ao eterno presente em que as dizemos, é verdade é que elas não nos servem para sentir a passagem do tempo.

[A parte séria (credo…) termina aqui, e o que se segue, terão de mo perdoar…, é mais delírio, desregramento do raciocínio...] Costumo viver o tempo da seguinte forma: às vezes, acumulam-se num mesmo espaço imagens de vários tempos; outras vezes, em vez de se acumularem, sucedem-se essas imagens de tempos diferentes. Mas vai tudo dar ao mesmo: a visão de qualquer coisa (um lugar, uma pessoa…) traz-me à consciência o arquivo de imagens dessa mesma coisa. A marca da passagem do tempo é o conjunto de diferenças visíveis entre as diversas imagens mentais, entre as que foram armazenadas em tempos diferentes e entre todas essas e a que tenho na altura diante de mim. Os tempos mudam-se, como as vontades, mas o tempo nunca muda, só as coisas é que mudam nele. Há até outra maneira, mais cruel mas também mais verdadeira, sinto eu, de dizer as coisas: Nem sequer são as coisas que mudam no tempo, o tempo é precisamente a mudança das coisas. Para visualizar o tempo como o sinto, acho mais eficaz do que uma seta ou um caminho a imagem da tinta que cobre uma parede. Que vai perdendo cor até começar a escamar, até cair por completo. Como eu vejo as coisas, a ideia mais forte que resulta da comparação de imagens de tempos diferentes é decomposição, desgaste, deterioração.

Sentir passar o tempo seria deprimente, acho eu, se não houvesse a morte. Mas assim não: o cronómetro é reposto a zero e adia-se constantemente, na vida que recomeça, a decadência do mundo.

20/06/09

Prova do tempo que passa

Já não me lembro por quê, fui no outro dia parar a um site chamado Sticky comics e a uma página em que o seu autor, um rapaz chamado Christian, lista 4 coisas que os nossos netos nunca compreenderão: relógios não digitais, escrita à mão, cassetes de vídeo e jornais impressos.

Não é discutir o valor de verdade das propostas do tal Christian que me interessa, mas notar apenas que o jogo que ele propõe é, além de fácil e inesgotável, também muito agradável para toda a gente. A minha experiência, pelo menos, diz-me que não há quem, por menos passadista que se diga, não dê consigo de vez em quando a jogar alguma variante desse jogo. Hoje, vejam lá vocês, pus-me a pensar que já não há copos de dois nem de três, nem tintinhos nem branquinhos com mistura, e que a expressão “É do lote ou do especial?” não faz mais sentido para os meus filhos do que para os netos do Christian dos Sticky comics, que é norte-americano…

Como os pensamentos são como as cerejas, lembrei-me (do que eu me vou às vezes lembrar…) de um poema que escrevi em Outubro de 1986, com 27 anos, portanto, e em que fazia já uma lista de tudo o que, da minha infância e adolescência, tinha passado à história. E já era muita coisa nessa altura… O texto não tem interesse literário, mas, quando o reli hoje, achei-o com valor documental suficiente para o pôr aqui. Dediquei o poema, quando o escrevi, ao meu irmão João, e, claro, continua a ser essa a dedicatória principal, mas acrescento-lhe agora, ao torná-lo público, uma dedicatória suplementar: a quem nunca tenha conhecido a Rinchoa, as Mercês, Rio de Mouro e redondezas de outra maneira que não seja como esses antros de desolação que hoje são.

Rinchoa revisitada (Quem me viste e quem me vês…)

ao João, que é meu irmão

‘Inda havia à porta o peixe,
o leite e a carroça do azeiteiro.
Havia ainda a aldeia,
a minha terra pequenina,
quase ainda de patilhas
e coletes
e barretes
e de burro
e de faixa enrolada à cintura,
quase assim ainda saloia,
como a pintara o mestre Leal da Câmara,
a cheirar a eucalipto
e carne frita às Mercês,
ah, Rinchoa pequenina,
quem te viste
e quem te vês…

Lá p’ra baixo havia o Monte.
‘Inda havia tamareiras
e as grutas e a pedreira,
sobranceira a vacaria
à calçada ainda estreita.
Mais acima, ‘inda o casino,
com cinema e com bilhares
e gabava-lhe os bons ares
o v’raneante burguês,
ah, Rinchoa pequenina,
quem te viste
e quem te vês…

Havia ainda o mercado,
a praça, que se dizia,
embora com o desacordo
do painel de azulejos
que anunciava, soberbo,
“Centro Comercial da Rinchoa – 1949”,
a leitaria da Adelaide,
Sagres e amendoins,
a mercearia do Nina,
que de tão gordo já mal
cabia atrás do balcão
e que aviava, ‘inda assim,
mais tinto do que feijão
e que era ademais o dono
do bailarico saloio
da noite benta de sábado
ao som do acordeão.
Ainda havia o sapateiro,
pachorrento como as botas de carneira
a que remendava meias solas.
E havia o Mário merceeiro
a escarafunchar, o sem vergonha,
o narigão encarnado
enquanto roubava no peso do flamengo
mesmo no nariz do freguês,
ah, Rinchoa pequenina,
quem te viste
e quem te vês…

Ainda havia
o Manel do jardineiro
e o ti’ Chico pedreiro
e outro Chico, o popó,
cavalo malandro,
filho da escola,
que tinha ensinado o carro
a subir sozinho a Avenida dos Carvalhos
até ao parque infantil
(ainda havia…)
e depois a meter p’la esquerda,
pela Avenida dos Plátanos,
e por fim, chegado a casa,
a pegar no gajo ao colo
e pespegá-lo na cama
à espera que aquilo lhe passasse,
o camano da bubadeira.
E depois havia a malta,
bicicletas pasteleiras,
o futebol de praceta,
mais as festas de garagem,
a nocturna guitarrada,
o namorico, a chinchada,
e claro, como soía,
a guedelha e os porquês,
ah, Rinchoa pequenina,
quem te viste
e quem te vês…

Um dia, de manhãzinha,
começaram a deitar árvores abaixo
e iam crescendo prédios
onde elas iam caindo.
Foi assim em toda a linha.
Lá por trás de Fitares,
do outro lado do rio
e da linha do Oeste,
fizeram a Icesa à prova de sismo.
Chama-se hoje Mira-Sintra.
Mais p’ra baixo,
Massamá passado,
fizeram a Icosal.
Hoje é Queluz Ocidental.
A minha terra pequenina
viu arrasar vacaria e tamareiras
e passou do pé p’rà mão
a chamar-se Urbanil.
Chegavam agora cada vez mais comboios
ao pequeno apeadeiro
e traziam de cada vez
mais e mais gente.
O casino de veraneio
foi fábrica de sapatos
e depois tipografia.
Morreu o Mário da mercearia,
fechou a Adelaide a leitaria,
a praça desapareceu,
o Nina gordo morreu.
E a aldeia que fora
a minha aldeia era agora
história de era uma vez,
ah, Rinchoa pequenina,
quem te viste
e quem te vês…

Ruíram casas burguesas,
quintal ajardinado, pérgula,
caruma acumulada sobre a telha,
a fachada enfeitada de hera
e de madeira vermelha,
não deram mais sinal de vida
as madamas que houvera.
Passou a minha terra pequenina
a dormir de luz acesa.
O peixe que houvera à porta
quase apodrece de tédio
na arca do supermercado.
O leite da bilha de lata
deu em homogeneizado
e ultrapasteurizado.
A terra, que era sem lei,
viu chegar a chotaria
com os nocturnos pela trela.
E o Lopes, que morava
num anexo de vivenda,
ao pé do pinhal do Escoto,
mora agora num andar,
primeiro, lote bê três,
ah, Rinchoa pequenina,
quem te viste
e quem te vês…

Abençoado o que já não és,
minha terra pequenina
e maldito três mil vezes
na quinta casa do Inferno
quem te foi tirando
aquela graça que tinhas
de seres a minha aldeia,
danado seja aos mais horríveis suplícios
quem te foi fazendo feia,
tu que eras linda, menina,
maldito quem te vestiu
de alumínio e de betão,
quem te arrancou os pinhais
e fez secarem-te as fontes,
maldito seja e danado
à eterna perdição!

E porque não, já agora,
‘maldiçoado eu também,
a armar em saudosista,
ao bom estilo português?

Ah, Rinchoa pequenina,
quem me viste
e quem me vês…

27/09/08

Penas de anjo: o meu tempo e o tempo dos meus vizinhos

O texto “Plume d’Ange”, de Claude Nougaro (com música de fundo de Jean Claude Vannier), conta a história de um homem a quem aparece um anjo, que lhe dá uma pena de uma das suas asas e a instrução de mostrar essa pena às pessoas, explicando-lhes que é de uma pena de anjo que se trata. Se houver um único ser humano que acredite nele, a humanidade estará para sempre salva de todo o sofrimento. “A fé é mais bela do que Deus”, diz o anjo antes de se ir embora. A determinado momento da história, por razões que não interessa explicar aqui, o protagonista vê-se na contingência de ter de explicar a história da pena ao comissário da esquadra onde se encontra detido. Quando acaba a explicação, responde-lhe o comissário: “Mas tem de admitir, ainda assim, que uma afirmação desse teor precisa de ser apoiada por um mínimo de investigação, na falta de provas...”.

De formas mais ou menos bombásticas, afirma-se muita vezes que a concepção (ou consciência, ou percepção, até) “ocidental” do tempo é diferente da concepção “não-ocidental” do mesmo. Às vezes, em vez de se opor a cultura ocidental à cultura não-ocidental, opõe-se antes a cultura moderna à cultura pré-moderna ou rural; a terminologia varia. Mas a ideia de base é sempre a mesma: que a maneira como eu encaro e vivo o tempo ou lido com ele é diferente da maneira como encaram e vivem o tempo e lidam com ele os meus vizinhos do lado[1].

Quanto às diferenças concretas entre esses pares de conceitos em oposição, também se apresentam de várias maneiras. Uma das oposições frequentemente apontadas é a pretensa distinção entre tempo “histórico” ou “linear” e tempo “circular” ou “cíclico”. Segundo Serge Latouche, por exemplo, uma das características do Ocidente enquanto entidade cultural é “a crença, inaudita à escala do cosmos e das culturas, num tempo cumulativo e linear[2]”. Uma outra formulação altamente sedutora da mesma ideia é, também por exemplo, a de Daryush Shayegan, que também define em termos da concepção do tempo o terceiro dos seus “quatro movimentos descendentes do espírito” que criam a modernidade: “O terceiro movimento, operando a passagem das substâncias espirituais às pulsões primitivas, coloca o homem não na dimensão polar de um retorno à Origem mas na perspectiva linear da evolução[3]”.

Mas esta oposição do “tempo cumulativo” ao “eterno retorno” não é a única. Já vi e ouvi muitas outras, como “tempo homogéneo” versus “tempo heterogéneo”, “tempo contínuo” versus “tempo descontínuo”, “tempo desligado do vivido” versus “tempo como sequências de experiências”; “tempo cronológico” versus “tempo imanente da acção”, “tempo como recurso” versus “tempo sem valor económico”, coisas assim…

Esta “ideia forte” aparece não só sob variadas formas, mas também nos mais variados contextos: em trabalhos académicos com “grandes teorias” sobre rupturas entre tipos de civilização, em teses de mestrado de antropologia, em artigos de revista de divulgação de simpáticas ideias antietnocêntricas, em conversas de café entre turistas, cooperantes ou investidores estrangeiros em qualquer país em vias de desenvolvimento:
“As pessoas aqui não sabem que idade têm… O tempo para elas não é como para nós…”
“O ritmo de vida aqui é outro, é tudo mais lento, outra maneira de encarar o tempo…”
“O encontro é às 16? Tempo europeu ou tempo africano?”

A simples constatação de que as pessoas se atrasam constantemente ou de que os eventos não começam à hora prevista pode levar certas pessoas a inferir que se está perante uma “outra concepção do tempo”. Os antropólogos, pelos vistos, sofrem muito com os atrasos dos seus informantes. E há-os que deduzem daí uma estarem perante outra maneira de conceber o tempo. O antropólogo Nigel Barley, por exemplo, conta que desesperava com os atrasos dos dowayos dos Camarões.
Os encontros a uma hora determinada nunca funcionavam. As pessoas achavam estranho que eu ficasse perplexo quando apareciam ou dia ou uma semana depois do que tinha sido combinado, ou quando, depois de andar mais de uma milha a pé, não estavam em casa.
Não li o livro de Nigel Barley e não sei, por isso, o que ele conclui desses atrasos, mas o antropólogo Anders Joahnssen, que leu o livro, conclui que tudo isto é porque os dowayos, como outros povos de sociedades pré-modernas, têm uma concepção do tempo diferente da nossa, heterogénea e descontínua, segundo a qual as coisas se fazem “quando tudo está pronto[4]”.

Como se provam afirmações deste tipo? Não se provam. Se eu fosse de brincar com as palavras, diria que estas afirmações são literalmente improváveis. Impressões e impressões apenas. Que se podem contrariar com outras impressões, que é outra forma de dizer que, no fundo, não se podem contrariar. A fé é mais bela que Deus, admitamos, e é algo que, como o Deus que fundamenta, não se pode discutir. Ou antes, sim. Pode discutir-se:

Antes de mais, parece-me que uma determinada concepção do tempo, por muito que admitamos que possa variar de cultura para cultura, não pode deixar de estar informada (eu diria até, não pode deixar de ser determinada) pela maneira como o tempo é, em geral, percebido pelos seres humanos. Esta observação é desinteressante, de tão óbvia, mas tem a vantagem de chamar a atenção para um algo fundamental: a concepção do tempo não pode ser radicalmente diferente de cultura para cultura. O tempo é uma dimensão real, exactamente como as dimensões do espaço, uma dimensão que existe fora dos seres humanos, e que é percebida por eles através dos mecanismos físicos de que dispõem, e que são comuns a todos eles. Não faz muito sentido postular que o tempo é apenas uma categoria mental. De facto, não há nenhum boa razão para considerarmos que o tempo é fundamentalmente diferente dos outros fenómenos perceptíveis, como as outras três dimensões, a textura, a cor, a aceleração, o sabor, etc. Se uma determinada cultura impusesse aos seus membros uma concepção do tempo que se afastasse radicalmente da realidade do tempo, isso constituiria um handicap comparável a uma percepção do espaço que não tivesse directamente a ver com o próprio espaço – algo como viver permanentemente sob o efeito de um alucinógeno…

É bom deixar isto claro, mas é verdade que não nos adianta muito: toda a gente tem os mesmos mecanismos gustativos, mas há sítios onde a maior parte das pessoas gosta de bacalhau e outros onde a maior partes das pessoas não gosta de bacalhau… Além de que também é verdade que não há nenhum consenso sobre as características do tempo em si e que há amplo consenso quanto à ocorrência de distorções na percepção do tempo em função das condições psíquicas e físicas da própria percepção – donde que seja natural que algum tipo de desvio culturalmente determinado seja possível. Não digo que não. O que eu digo é que gostava que me mostrassem a amplitude e as características dessa variação com outros argumentos, baseados em observáveis, se possível. Ou, pelo menos, mais lógicos, porque os que usam não me convencem.

A História e o eterno retorno
Comecemos pela questão da pretensa “linearidade” característica da “concepção ocidental” do tempo por oposição à ciclicidade de outros concepções. Discordo. Estou convencido de que o tempo é sempre concebido como um vector orientado do passado para o futuro em que há um retorno cíclico de certos eventos.

Penso que há abundante evidência da óbvia linearidade de todas as concepções do tempo. Um exemplo simples: A estrutura das narrativas (ficcionais ou não, isso é irrelevante) é, em qualquer cultura e em qualquer período da história humana, sempre a mesma: linear. E isto porque é essa a estrutura temporal natural nos seres humanos! Sabemos que nascemos, crescemos, envelhecemos e morremos. O que acontece, seja a um chileno, seja a um japonês, seja lá a quem for, a quem seja apresentada uma narrativa não-linear é que tem de a linearizar na sua mente para a poder compreender – é o que fazemos todos perante narrativas contadas com a sucessão dos acontecimentos que a constituem organizada numa ordem não linear. É de notar até que, quando a não-linearidade da narrativa é muito violenta, a maior parte das pessoas pura e simplesmente não a compreende, porque não é capaz de reconstituir a sua temporalidade natural. E há casos em que uma apresentação não linear da narrativa pode esconder, pela dificuldade de lhe reconstruir a sequência temporal, incoerências da própria narrativa. (Experimentem, por exemplo, comparar a versão original do filme Memento, em que a história é contada do fim para o princípio, com a versão “cronológica” que aparece numa edição em DVD.) Evidentemente, são as pessoas com maiores hábitos de lidar com estruturas narrativas não convencionais que têm mais possibilidades de reorganizar, para a compreender, uma história contada às avessas, por exemplo – não a maior parte dos dowayos e dos aimaras, que, como a maior parte dos portugueses, provavelmente, só estão habituados a conceber o tempo como perfeitamente linear…

Além de universalmente linear, o tempo é universalmente “cíclico”. Temos de voltar aqui aos nossos mecanismos perceptivos. Se os nossos relógios internos são essencialmente cíclicos e são parcialmente regulados por fenómenos cíclicos de sucessão, por exemplo, de dia e de noite, e se os nosso pontos de referência temporal interiores e exteriores se organizam em ciclos (já nem quero dizer fases da lua e marés, que são irrelevantes para muitos de nós, mas, pelo menos, estações do ano, menstruação, fome e saciedade, actividade e repouso), como é que podíamos ter uma percepção – ou uma concepção, ou uma vivência – não cíclica do tempo? É-me incompreensível a ideia de que há culturas com uma concepção predominantemente cíclica do tempo por oposição a outras que têm do tempo uma concepção essencialmente “rectilínea” ou “evolutiva”. Sejamos claros: o “tempo ocidental moderno”, com calendários e relógios e festas de anos e feriados nacionais e Natal e salários ao fim do mês é tão cíclico como outro tempo qualquer. A ideia de História? Mas a História é vivida como desligada do presente de cada um, como não tendo nele implicações – exactamente como os mitos...

Datas, relógios, abstracção e atrasos
Um dos problemas que se coloca quando tentamos aferir a validade das oposições propostas como base de concepções antagónicas do tempo, como homogeneidade versus heterogeneidade, continuidade versus descontinuidade e abstracção versus experiencialidade, é que tudo o que alegadamente caracteriza tanto a concepção moderna como a concepção pré-moderna do tempo é sempre proposto, por algum filósofo ocidental, como característica universal da percepção, concepção, consciência ou vivência do tempo. De facto, não há nenhum consenso relativamente a qual é a concepção ocidental ou moderna do tempo. Existem antes várias concepções antagónicas do tempo…

Mas isso não importa, argumentarão alguns, estamos a falar da maneira como o tempo é efectivamente encarado e vivido pela maior parte das pessoas do mundo ocidental moderno… Muito bem. Deixemos então de lado a discussão filosófica sobre o tempo. Deixemos a análise pormenorizada dos conceitos em oposição e analisemos antes simplesmente os pretensos indícios de uma diferença de percepção temporal entre os ocidentais modernos e os outros.

Um desses indícios é, segundo alguns, o facto de estes últimos serem incapazes de assinalar momentos especiais. Bom, a ser verdade, isso seria, afinal, indício não de uma concepção descontínua do tempo, mas antes, precisamente, de uma concepção contínua do tempo, isto é não marcada por uma percepção de rupturas temporais... Mas eu não acredito, sequer, que isso se possa afirmar. Creio que o que falta a certas pessoas são pontos fixos objectivos a que possam referir esses momentos. Mas isso é outra história. Para qualquer ocidental moderno, a ausência de referências objectivas resulta também numa impossibilidade de perspectivar cronologicamente os acontecimentos da sua vida. Eu sei que o plural de caso isolado não é dados, e muito menos dados fiáveis, mas não posso deixar de entrar aqui com uma parte da minha experiência (além disso, a ausência de dados fiáveis a favor dos postulados que discuto dá-me esse direito… infelizmente):

Uma vez, decidi fazer uma cronologia da minha vida. Tentei organizá-la primeiro só a partir da memória e depois comparei esse esboço de cronologia com o que me diziam os documentos de que dispunha. Fiquei surpreendido ao descobrir que a sequência de eventos que tentei reconstruir só na minha cabeça tinha, ao ser comparada com a evidência exterior, uma quantidade enorme de erros notáveis. Outras pessoas que passaram por experiências semelhantes confirmaram-me que lhes aconteceu exactamente o mesmo. Agora, sem esses documentos concretos com datas (que vão de cartas a bilhetes de comboio ou de concertos, cartões de identificação vários, registos escolares e folhas de salário, etc.), nunca teria sido capaz de organizar a minha história de vida, por muito que seja um “ocidental moderno”.

Evidentemente, muitas pessoas em tempos e espaços menos modernos que o meu, sejam eles ou não da “cultura ocidental”, não têm acesso a essa calendarização dos acontecimentos da sua vida. Mas o que é que isso tem a ver com uma “concepção do tempo”? Ser ou não capaz de dar datas para acontecimentos com rigor – e de medir idades e durações de eventos – é uma competência aprendida que não está forçosamente relacionada com uma concepção do tempo. Duas pessoas com a mesma cultura (o que deveria implicar a mesma concepção do tempo...) podem ter capacidades completamente distintas de situar temporalmente eventos precisos. Quantas vezes ouvi dizer dos camponeses portugueses as mesmas coisas que se dizem dos camponeses moçambicanos… Será porque são de uma cultura não-ocidental ou porque vivem numa mesma pré-modernidade? Chamem-lhe o que quiserem, mas o que eles têm em comum com os camponeses moçambicanos é terem um baixo nível de educação formal e uma vida em que a datação precisa não é uma competência importante. Que isso tenha implicações na precisão com que se memorizam e descrevem acontecimentos, aceito. Que essa imprecisão na referência a determinados momentos seja reflexo de uma outra concepção do tempo, há que o demonstrar um bocadinho melhor…

Que o tempo não seja abstracto para a maioria das pessoas das zonas rurais do terceiro mundo não me surpreende por aí além. Nem o tempo, nem o resto. O espaço, por exemplo, também não o é, o que se pode facilmente verificar pela incapacidade de desenhar ou ler mapas. Mas o facto de o tempo não ser abstracto tem apenas a ver, mais uma vez, com a inexistência ou o baixo nível de educação formal. Se é a isto que se chama cultura (pode ser, não tenho nada contra), então muito bem, estamos de acordo. Mas, então, a principal linha divisória entre culturas é, basicamente, ter-se ou não ido à escola o suficiente para aprender a lidar com graus maiores de abstracção.

Outra questão que não está de modo algum relacionada com a “concepção do tempo” é a questão dos atrasos. Antes de mais, quero deixar claro que, como português, tenho, naturalmente, uma ideia muito diferente da de muitos outros “ocidentais modernos”. Vivi dois anos no Alto Molócuè, uma capital de distrito de um Moçambique bastante “profundo”, como se diz, e os moçambicanos, mesmo “rurais” e muito “pré-modernos” (de facto, muita gente no distrito, após a guerra, vivia, infelizmente, numa espécie de neolítico), sempre me pareceram muito cumpridores relativamente aos portugueses modernos com quem eu me dava em Lisboa... Provavelmente, em vez de falar de concepções de tempo para explicar as diferentes atitudes relativamente à pontualidade, é melhor explicá-las a partir de modelos morais, ou seja de padrões de acção aceitável, independentemente da concepção de tempo que se tem. É difícil compreender como é que a pontualidade ou a sua ausência podem depender de uma concepção do tempo. Parece evidente que elas dependem antes de uma concepção da pontualidade, que é, em última análise, moral, porque radica na definição do que é admissível ou desejável nas relações entre as pessoas. (Além de que influi muito provavelmente na pontualidade das pessoas o terem maior ou menor acesso a relógios, mas eu já nem quero ir por aí…)

Não conheço os dowayos e não me posso pronunciar sobre a maneira como é encarada a pontualidade por esse povo. Mas… Os dowayos chegam atrasadas a todos os encontros? Se não (como tenho praticamente a certeza de que é o caso), a que encontros chegam atrasados? Aos encontros com as autoridades, estatais ou tradicionais, chegam atrasados? A cerimónias e festas, religiosas ou civis, chegam atrasados? À escola e aos trabalhos, chegam atrasados? A encontros com os seus amigos, chegam atrasados? Se a situação não for radicalmente diferente entre os dowayos dos Camarões e os lómuès do Alto Molócuè (e os portugueses de Lisboa e os neerlandeses de Roterdão…), a resposta a muitas destas perguntas é claramente negativa. Para compreender os padrões da pontualidade dos dowayos não basta, seguramente, postular uma pretensa “concepção outra” do tempo. À partida, o que parece óbvio é o seguinte: se uma pessoa não chega atrasado a um encontro com o régulo ou o chefe de posto e chega atrasado ao encontro com um antropólogo ou um amigo, isto apenas implica ou que ele dá menos importância à pontualidade no encontro com o antropólogo ou o amigo do que à pontualidade no encontro com o régulo ou o chefe de posto. Como normalmente se trata, neste caso, de obediência a um código moral colectivo, isto quer dizer que é socialmente aceite chegar atrasado a determinados encontros e não a outros.

Não deixa de ser curioso, aliás, que às vezes se afirme que as camadas urbanas ou educadas (as “elites ocidentalizadas”) dos países africanos têm uma concepção ocidental e moderna do tempo, ao passo que a população rural tem do tempo a outra concepção não-ocidental e pré-moderna. Pode ser, claro está, que o resto de África seja muito diferente de Moçambique neste aspecto, mas acho pouco provável. Aqui, é bem sabido que as “elites ocidentalizadas” (de facto, toda a gente com poder) fazem constantemente esperar, às vezes horas, os desgraçados dos camponeses, quanto têm encontros com eles: os camponeses, com a sua “concepção pré-moderna” do tempo, chegam a horas; os mais poderosos, com a sua “concepção moderna” do tempo, chegam sistematicamente atrasados…

As palavras do tempo

Falta ainda abordar a questão de muitos outros pontos de vista, mas eu não vou muito mais longe: só mais uns comentariozinhos breves sobre a parte linguística da questão.

Há quem encontre “provas” linguísticas de outras maneiras de conceber o tempo: por exemplo, que faltam a esta ou àquela língua maneiras precisas de referir localizações temporais; ou que, em certas línguas, se descreve a sucessão dos dias ou das estações não como sequências de dias e estações diversas, mas como o retorno do mesmo dia e da mesma estação… Ou então, mais “profundo” ainda (um exemplo de que eu gosto especialmente, dos vários que podia dar) porque a relação entre expressões de tempo e de espaço é diferentes da que existe nas “nossas” línguas:
[Em aimara,] nayar significa ao mesmo tempo “a palavra que está diante de nós” e “a palavra antanho”; a oposta, cchina, que significa “futuro”, aplica-se ao que está situado atrás. Deste modo, a ideia de representação do tempo para o aimara, ao contrário da concepção ocidental, consiste em olhar para o passado diante de si e considerar que o futuro se encontra atrás. Por conseguinte, o vector temporal está invertido em relação ao pensamento ocidental; o passado precede, está em frente. Devemos associar, sem dúvida, a esta particular concepção do tempo e do espaço subjectivo o tempo vivido, e ter em conta que a sucessão das idades míticas obedece também a uma classificação muito diferente[5]”.
Quero só dizer que a ausência ou presença de expressões para assinalar de uma forma “precisa” um determinado momento temporal não tem nada a ver com língua nem com a concepção do tempo. A mim, ocidental que sou, não soa nada estranho “quando o sol se levanta” em vez de “às 5 e 45 da manhã”; linguisticamente, também não vejo nenhuma diferença na marcação temporal. A diferença entre o uso de uma e outra expressão, temos de a procurar apenas no facto de estar mais ou menos habituado a referir o tempo ao nascer do sol ou ao relógio… É como medir em centímetros ou em palmos uma distância: a diferença está só na medida usada. Ou como referir uma distância como “a quinze minutos a pé” ou “a cerca de um quilómetro” ou “a 864 m”.

Também parto do princípio que é sempre a mesma noção de “dia” ou de “estação” que ocorre em todas as línguas (em português, também não digo “o dia de hoje nasceu” ou “este dia nasceu”, digo simplesmente “o dia nasceu”), sem que isso implique que se considere que é o mesmo dia que se repete. Concepções diferentes do tempo?

E não se postula assim, com aquela confiança toda, a correspondência biunívoca entre categorias conceptuais e formas da língua. Não há provas de uma relação directa entre a temporalidade humana e a sua expressão linguística. Quer dizer: a maneira como construímos o tempo na linguagem pode não ser um reflexo directo da maneira como o percebemos e concebemos, seja lá o que for que isso queira dizer. Além disso, as formas da língua têm uma história e características semânticas complexas que é preciso analisar cuidadosamente; e é isso que falta na descrição das palavras aimaras referidas. Na realidade, não há nada de especial no facto de a mesma forma servir para “futuro” e para “atrás” – uma forma como “for”, em inglês, serve para tudo – para a frente, para trás, para o passado, para o futuro… Além disso, se há europeus que entendem coisas opostas, quando se lhes diz (pouco importa em que língua) que uma palavra, num texto escrito, está “atrás” da outra (e garanto-vos que há muita variação de pessoa para pessoa, e talvez de país para país, mas não tenho a certeza), isso não significa que tenham uma concepção diferente da orientação da escrita: para todos se escreve da esquerda para a direita…

Penas de anjo, digo eu: a fé é mais bela do que Deus…

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[1] Isto é para se entender literalmente. Lembrem-se de que eu, apesar de viver numa mansão “estilo amaricano [sic]”, vivo em pleno bairro 25 de Junho, um dos bairros pobres de Chimoio, e os meus vizinhos mais próximos vivem em casas de barro, cozinham a lenha e são, em suma, “pré-modernos”.
[2] Faut il refuser le développement?. P. U. F., 1986; formulação retomada em L’occidentalisation du monde à l’heure de la «Globalisation». Ed. La découverte Poche, 2005
[3] Sciences et symboles, Les voies de la connaissance, Albin Michel/France Culture, 1986.
[4] Por descargo de consciência, aqui fica a referência do artigo: Johansen, Andres, “Handlingens tid” in Hvor mange hvite elefanter? Kulturdimensjonen i bistandsarbeid, Thomas Hylland Eriksen (ed.), Ad notam forlag As. Oslo: 1989. Agora não sei o que é preferível, se ser acusado de ser desleixado, por não indicar onde fui buscar a citação, se ser acusado de ser petulante, por referir artigos em norueguês…
[5] Llanos, Ruth, “El desarrollo aún no tiene rostro de mujer”, in unitas nº 4, La Paz, Bolívia: 1991.

14/12/07

Do tempo e da sua falta: o tamanho como elemento fundamental da obra de arte

Já em 1883 falava Théodore de Banville, no prefácio à sua obra La lanterne magique, da adequação do formato do conto curto à falta de tempo da vida moderna. Ora eu, que nunca fui muito de milenarismos catastrofistas, não acredito muito que tenha havido tempos com mais tempo que outros tempos, sobretudo para ler livros. Qualquer pessoa pode constatar, por exemplo, que muitos best-sellers de aeroporto são pelo menos tão volumosos como os mais volumosos romances do séc. XIX e não deixam, por isso, de ser à medida da, credo!, “falta de tempo” contemporânea – se não, não eram best-sellers de aeroporto… Seja lá como for, o facto de se lerem obras maiores ou menores não tem implicações directas na totalidade de tempo que se dedica à leitura.

Dito isto[1], acho que o tamanho é um elemento muito importante de qualquer texto ou conjunto de textos, uma componente fundamental de uma obra literária, algo que a define tanto como o período, o género, o grau de erudição, a originalidade do estilo ou a falta dela, etc. Ainda há pouco tempo, aliás, uma amiga mo confirmava: “Ah, eu gosto muito de romances muito grandes!” “Romances muito grandes” é um tipo de romances. Tanto que a outra amiga, a quem a primeira queria impingir o romance muito grande que tinha acabado de ler e de que tinha gostado muito, não quis sequer tentar lê-lo..., por ele ser tão grande! Porque esta, ao contrário da outra, não gostava nada de “romances muito grandes”. É mesmo assim: da mesma forma que há quem goste ou não de romances de aventuras ou policiais, da mesma forma que há quem goste ou não de poesia barroca ou simbolista, da mesma forma que há quem goste ou não de estilos narrativos muito minuciosos, muito ruralistas ou muito a puxar ao lírico, também há quem goste ou não goste de obras longas. E isto aplica-se tanto a leitores como a escritores – e às suas concepções estéticas. Há quem prefira escrever livros volumosos, e há quem, como Théodore de Banville, prefira os formatos curtos – mas não é necessário justificar essa opção com a adequação da forma do conto à “pressa da vida moderna”.

O caso da música pode ser, reconheço, um bocadinho diferente... Não tanto quando se trata de ouvir música em casa, porque aí podemos ouvir aos bocados qualquer obra (se bem que isso não seja aconselhável para todas as obras…), mas quando queremos ver ao vivo certos tipos de música … Bom, é verdade que normalmente, mesmo para ouvir música ao vivo, não é preciso mais tempo do que para ir a um cinema ou a um teatro, ou para ir beber um copo com os amigos… Um bocadinho mais se formos ver Os mestres cantores de Nuremberga, de Wagner (o quê? 3 horas e meia, 4 horas, uma coisa assim…), mas também não é coisa que se vá ver todos os dias… Mas compreendo muito bem quem se queixe de que “a vida moderna” já não permite a representação integral de nadagamas, as óperas populares do Sri Lanka, “devido à duração excessiva das peças (toda a noite, às vezes várias noites de seguida)”. É claro que “é um luxo a que o público já não se pode dar”, pelo que “agora já só representam excertos, muitas vezes sem encenação, nem decoração nem fatos” (Herman Vuylsteke, nas notas de Comédies et Opéras Populaires du Sri Lanka, Chant du Monde).

[1] Detestável galicismo (Ceci dit,...) ou detestável anglicismo (Having said that,...)? Ora, deixam lá o Dito isto em paz…