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04/02/17

O paradoxo do telemóvel

Peter Hadfield, também conhecido como potholer54, publicou recentemente um vídeo em que explica que, ao contrário do que pretendem vários artigos que circulam pela Internet, não há nenhum indício de que os telemóveis afetem o cérebro, o coração ou seja lá que parte for do corpo humano (ver aqui o vídeo “Do cell phones cook your brain?”).

Quando publiquei o vídeo no Facebook, um amigo meu comentou que, a julgar pela maneira como certas pessoas (não) pensam, talvez a teoria de os telemóveis afetarem o cérebro não fosse de desprezar. O comentário inspirou-me e criei um paradoxo (mais um…) que talvez venha a ser conhecido nos anais da filosofia como «o paradoxo do Vítor» ou «o paradoxo do telemóvel»:
Os telemóveis afetam o cérebro de certas pessoas, fazendo com que essas pessoas não consigam compreender que não há provas nem nenhuma outra razão para acreditar que os telemóveis possam afetar o cérebro ou outra parte do corpo. 
Que dizem do paradoxo os meus leitores que se interessem por lógica?

02/07/16

Meio enchido e meio esvaziado

Há a famosa história do copo meio cheio ou meio vazio, mas, como explica uma pequena filósofa que tenho cá em casa, isto de cheio e vazio não existe no vácuo, perdoem-me a gracinha pateta: o estado do copo depende de alguma ação — que tende para algum fim. Isto sou eu a dizer, que ela não diz assim. O que ela diz é o seguinte:
Se está meio cheio ou meio vazio depende de como estava antes: se estava cheio, agora está meio vazio e daqui a bocado está completamente vazio; se estava vazio, agora está meio cheio e, se não enchermos mais, nunca chega a ficar mesmo cheio.

11/09/14

Notas avulsas sobre regras e exceções

Pois é: sabemos que é paradoxal a regra “não há regra sem exceção” (se toda a regra tem exceção, então essa regra tem de ter uma exceção, que é a regra sem exceção, pelo que nem toda a regra tem exceção), mas continuamos, nem que excecionalmente, a aceitar como regras regras com exceções, não é verdade?

Nisto de regra e exceção, há, por regra, alguma confusão. Muitas vezes, a confusão advém de a palavra regra ter dois significados (ou mais, mas que não importam nesta discussão), conforme se aplique ao que as coisas são (as leis da Física, por exemplo) ou ao que as coisas devem ser (por exemplo, o Código Civil). Na discussão sobre língua, para puxar a brasa à minha sardinha, uma coisa são as regras que constatamos ao estudar a capacidade humana da linguagem e cada uma das línguas particulares em que esta capacidade se organiza e manifesta, e outra coisa diferente é a norma ou normas linguísticas vigentes numa determinada sociedade. Quando digo que, no português europeu, a marca de plural toma a forma /ʃ/, /ʒ/ ou /z/ consoante o som que se lhe segue, estou a enunciar uma regra do primeiro tipo (leiam respetivamente ch, j e z, se vos atrapalham estes símbolos fonéticos e, se vos parecer estranho, atentem em como pronunciam o s a negrito em “as casas castanhas”, “as casas brancas” e “as casas azuis”). Mas, se alguém disser, por exemplo “não se deve dizer «pode-se dizer», deve dizer-se «pode dizer-se»” está a propor uma (discutível) regra do segundo tipo.

Quando se diz que uma regra referente ao mundo natural tem exceções, isso significa, em princípio, que essa regra não é uma verdadeira regra, mas sim uma pseudorregra simplificada – porque não se conhece a verdadeira regra ou por razões didáticas, por exemplo. Quando se diz que uma regra moral (em sentido lato, incluindo as leis) tem exceções, estamos a constatar que há quem não a respeite ou a acrescentar uma adenda à regra, uma regra suplementar: “esta regra pode não se respeitar nas seguintes condições:..”

A célebre máxima “as leis existem para ser violadas” não passa, ainda assim, a ter valor de verdade quando se constatam que existem, na maior parte dos casos, adendas às regras, que se percebem como exceções ou simplesmente desrespeito pontual das mesmas regras, pelos mais variados motivos. Ser violada não é finalidade de regra nenhuma nem seu constituinte necessário, é apenas um acidente extremamente frequente – se me perdoam a disparatada cacofonia…

Parece-me claro que, para a maior parte das regras – mesmo para as leis escritas –, se pressupõe, ou deveria pressupor-se, que deve ser o bom senso a imperar na sua aplicação. Eu, por exemplo, tenho para mim que a regra de não atravessar a rua quanto o sinal está vermelho só se deve de facto respeitar quando se verifica pelo menos uma de três condições: i) haver crianças por perto ou outras pessoas que ainda estão a aprender a interiorizar a regra, porque senão aprendem o que não devem; ii) haver veículos a circular na faixa de rodagem, porque senão pode ser-se atropelado ou causar acidente; e iii) haver por perto algum agente da autoridade, porque senão pode ser-se multado ou punido de outra forma. De resto, não há razão para não atravessar.

Como dizia uma amiga minha, se é importante, ao educar uma criança, ser firme na imposição de regras (para a criança interiorizar o conceito de regra e, em certos casos, para aprender as regras em questão; e ainda, numa perspetiva mais imediata, para facilitar a vida aos educadores e à própria criança), também é importante abrir uma por outra vez exceções às regras impostas, para a criança aprender que uma regra não deixa de o ser quando é esporadicamente desrespeitada.

03/12/13

Uma ideia estranha

Há quem defenda que a existência de um deus criador se pode concluir da improbabilidade das condições que permitem a existência de vida. As probabilidades de o universo ser como realmente é são ínfimas e, por isso, para haver vida e nós existirmos, alguma vontade inteligente deve ter afinado o universo para ele ser desta maneira – com a finalidade de nele haver vida e nós nele existirmos.

É um argumento muito estranho. Parecerá evidente a muita gente que o facto de uma determinada ocorrência ser improvável não é motivo suficiente para pensar que ela é produto de uma vontade. Mas nem é preciso ir tão longe, porque, bem vistas as coisas, este argumento não chega a ser argumento nenhum: admitindo a possibilidade de um deus criador, as probabilidades de ele ter vontade de criar um universo como o nosso também são ínfimas, como as de esse universo existir como é sem ter sido criado por nenhuma vontade divina... Então, como se sai daqui? Postulando que essa vontade do deus criador, de tão improvável, só pode ter sido produto de outra vontade que o tivesse afinado para criar um mundo em que pudéssemos ser como somos – e assim sucessivamente?

10/09/13

Falso se for mentira, falso se for verdade

Conversa entre amigos meus:
– A verdade é que não há factos, há apenas interpretação dos factos.
– Ou seja, é essa a interpretação que tu fazes dos factos.

[Que banalidade, não é? Que o relativismo se contradiz a si próprio, sabe-se a bem dizer desde sempre – e também que nos impossibilita, em última análise, de reconhecer os nossos erros… Mas é preciso insistir nisto, há muita gente ainda convencida de que qualquer afirmação tem o mesmo valor que todas as outras... Continuemos então.]

Bom, se tivermos uma atitude solipsista radical, de que é impossível provar qualquer existência fora do nosso pensamento, nem se pode provar, sequer, que haja várias interpretações dos factos, porque os outros podem também ser apenas um objeto mental meu. Nem vale a pena pensar mais em discussão nenhuma, quando alguém tem uma atitude desse tipo. Fora disso, sim:

Antes de mais, convém explicar que, a asserção “não há factos, só interpretações” não faz muito sentido: O que se interpreta então, se os factos não existem? Forçosamente coisa nenhuma. Mas como pode coisa nenhuma ser interpretada? A prova última de que os factos existem independentemente das interpretações que deles se façam é, precisamente, que podem ser interpretados.

Provavelmente, o que minha amiga queria dizer era apenas que não temos acesso aos factos propriamente ditos, só conhecemos interpretações. A proposição menos radical – e mais comum – é que não se consegue fazer uma leitura neutra da realidade, mas apenas observações forçosamente distorcidas. Mas também este ideia pode ser logicamente desmontada  e gostei da formulação de Jarrett Leplin, que acabo de descobrir*:
É postulado com confiança por muitos historiadores e sociólogos do conhecimento que toda a pesquisa é tendenciosa. Pergunto-me a mim mesmo como terá sido descoberto tal facto. Não é tautológico nem de outra forma evidente. É óbvio que foi necessária investigação – ou seja, pesquisa – para o descobrir. Mas, na medida em que é tendenciosa, as conclusões a que a pesquisa leva não são fiáveis. Portanto, esta conclusão, a de que toda a pesquisa é tendenciosa, se estiver correta, não deve ser fiável. Mas, claro que, se estiver incorreta, então também não é fiável. Logo, não é fiável. Poderia ser verdade, mas não podemos ter boas razões para pensar que o seja.
E as minhas desculpas, sim? Apeteceu-me, pronto. Volto em breve, prometo, com algo menos aborrecido... 
______________
* A novel defense of scientific realism, Oxford University Press, 1997, traduzo eu.

26/09/12

Filosofia de algibeira #2

Acho que quem cultiva o espírito competitivo o deveria levar às últimas consequências e devia querer ganhar em tudo: ser o mais rápido, mas também o mais lento; o mais rico, mas também o mais pobre; ter as notas mais altas; mas também as mais baixas; ser o mais sabedor, mas também o mais ignorante; e assim sucessivamente.

*

[Não é nenhum texto zen, é só uma brincadeira, pouco mais que um disparate. O facto é que ignorar é igual a não saber, não esquecer a lembrar, jejuar a não comer; mas não é por a mesma coisa se poder dizer tanto de uma forma afirmativa como negativa que positivo e negativo passam a ser só uma questão de como as coisas se dizem. Existem mesmo fora das palavras. Ah, e não se consegue fazer uma competição para ver quem chega em último, mas isso talvez seja outra conversa. Os livros de recordes, porém, e várias enciclopédias estão cheios de “o mais pequeno”...]

Lugares demasiado comuns #1

E oiço amiúde: “O importante é tu seres tu próprio” – ou qualquer frase semelhante.



Bom, x é sempre igual a x e não pode ser diferente de x. A proposta não faz sentido: uma pessoa é sempre ela própria; e, mesmo quando não acredita que o é, é ela própria que o não acredita, obviamente.

*

[A palavra próprio parece dispensável, pelo menos neste tipo de frases. Porque se usará? E donde virá a ideia de que uma pessoa pode não ser ela própria? A explicação pode ser que, como há quem proponha, a consciência de si deriva da consciência dos outros.]