Não é que tenha alguma coisa contra receitas, que não tenho. Muitas vezes, aliás, se improviso uma comida qualquer que me sai bem, faço um esforço para me lembrar exatamente do que fiz e repito; e, se praticamente nunca me dou ao trabalho de escrever o processo e as quantidades, acaba por se tornar uma receita. No fundo, é o que faz qualquer pessoa que improvisa, seja o que for: reutiliza o que lhe agradou. Mas em uma pessoa tendo um repertório razoável de processos e combinações da sabores e texturas, as receitas bem podem ser mais a exceção que a regra. Uma coisa que só raramente faço é comprar ingredientes para este ou aquele prato. Prefiro ver o que encontro que me agrade, em preço e qualidade, e ponderar depois como combinar o que comprei. E há casos em que um prato pode surgir inesperado de restos imprevistos.
Por exemplo: No outro dia, recebemos amigos cá em casa e tínhamos, de entrada, uns mexilhões, que abri com bastante
alho, bastante pimenta preta (é muito raro usar pimenta branca) e um bocadinho de vinho branco. O prato principal era
pescada com um molho simples de chalotas, manteiga, caldo de peixe e natas. E ficou bastante molho, de maneira que, ao
tirar a mesa, o juntei ao caldo que tinha ficado dos mexilhões e pus no frigorífico (como faço com todos os restos que
tenham sabor, nem que seja só água de cozer legumes), porque podia servir para qualquer coisa.
No dia seguinte, apanhámos algumas coisas da horta: funcho, batatas, as primeiras cenouras, o resto das acelgas, que já floriram e que, por isso, já não dão mais folhas, e curgetes, que estão também a chegar ao fim da época. Agora, é deixar alguma crescer e depois guardar as curgetes gigantes, do tamanho de abóboras, ali na oficina, quando o frio chegar. Aguentam bastante tempo e são boas sobretudo para sopas.
E pensei: uma sopinha, é isso mesmo, uma sopinha –– só com hortaliça do quintal! Pus a refogar funcho e cebola picados, cenoura ralada, curgete e batata cortadas em cubos muito pequenos. À parte, cozi as acelgas na frigideira, sem água, só no sumo que iam largando, com muito pouco sal e cortei-as depois em bocados grandes. Quando a batata estava quase cozida, juntei àqueles legumes todos refogados a tal mistura de água de mexilhões com o resto do molho do peixe. Tive de lhe acrescentar só um bocadinho de nada de água. Juntei as acelgas, deixei apurar até os bocadinhos de batata começarem a desfazer-se ligeiramente, juntei-lhe um miolo de mexilhão congelado e uns camarõezinhos daqueles muito pequeninos já descascados (aqui, chamam-lhe camarão da Gronelândia) e pronto. Não inventaram ainda a maneira de pôr cheiros e sabores online, de maneira que vão ter de me acreditar: estava muito bom!Como receita, isto é capaz de não valer grande coisa, mas acho que, se quiserem experimentar uma coisa parecida e sem terem os restos que eu tinha, conseguem um sabor semelhante com um bocado de caldo de peixe ou marisco e um bocado de nata.
Quanto ao quintal, começa agora uma fase nova, sem acelgas nem curgetes nem feijão verde, nem groselhas e framboesas. Também apanhei ontem os últimos funchos. Floriram antes de tempo, por causa da falta de água durante a maior parte do verão e pouco se aproveita deles. Tinha acontecido o mesmo a uma parte das cebolas, mas a maioria saiu bem. Na terra há ainda batatas, alho francês, tupinambos, beterrabas e cenouras. E ainda há feijão e couve. E maçãs por todo o lado. A ver se amanhã apanhamos as maçãs todas (menos as mais tardias, que ainda estão verdes) e as vamos levar à fábrica de sumo. E a vocês, como vos corre a vida?
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Muita gente se queixa que é difícil cultivar coentros.
Para nós, o que é difícil é dar-lhes vazão... |
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