Recordação do Seri Lanca: o táxi que nos leva do aeroporto para a pensão tem, sobre o painel de bordo, uma imagem de Buda, e, pendurado do retrovisor central, um rosário com uma cruz. Podia lá ter estado uma estatueta de Ganexa, creio eu, talvez também um crescente islâmico... Segundo o último censo nacional, e arredondando, 70 % dos nacionais do Seri Lanca são budistas, 12.5 % são hinduístas, 10 % são muçulmanos e 7.5 % são cristãos.
Será que o aparente sincretismo do taxista não o é de facto, mas antes uma estratégia de comerciante para agradar a todos, mas que não corresponde à sua verdadeira fé? Mas, se assim fosse, não faria mais sentido juntar os símbolos das duas religiões que lá faltam? Ou pode uma pessoa ter mesmo mais que uma religião?
Não perguntei nada ao motorista de táxi. Não me senti à vontade para o fazer. Mas sei a resposta. Logicamente, não: o que define qualquer religião são os seus dogmas e todos os dogmas de todas as religiões excluem forçosamente os dogmas de todas as outras. É claro, pode fazer-se como um amigo meu muçulmano, que diz que também que podia ser cristão ou outra coisa qualquer, porque todas as religiões pregam a mesma moral e fazer o bem é o mesmo para todas elas. Por louvável que seja a sua atitude, isto não é verdade. Quer dizer, não é, pelo menos suficiente para se seguir uma religião. Para se ser cristão, por exemplo, não basta estar de acordo com os ensinamentos morais de Jesus e predispor-se a segui-los — há que acreditar na sua divindade, como forma humana de Deus. Etc. Dito de outra maneira: se cada religião postula a falsidade de cada uma das outras, como ser sincrético?
Ou será que este e outros sincretismos assentam antes numa versão da aposta de Pascal em que se tenta assegurar maior proteção aumentando o número de divindades reconhecidas? Se pelo menos uma delas for verdadeira… Evidentemente, muitos cristãos argumentariam que não se pode granjear o favor de Deus adorando Buda como divindade. Mas talvez o taxista nunca tenha pensado nisso e talvez ele não seja cristão dessa maneira. Uma vez contei aqui a história de D. Celso, um homem que conheci na Bolívia, quando lá vivi, que, numa situação de desespero, passou a rezar a todas divindades que conhecia, desde a Pachamama à Virgem Maria.
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Seri Lanca: Buda, Ganexe e João Batista com a Virgem e santos.
As duas primeiras fotos são de Ella, a terceira de Negombo. |
Pode pensar-se que daí às religiões abstratas que hoje conhecemos melhor vai uma grande distância, mas a abstratização da religião parece não ter conseguido livrá-la da sua primitiva concretude. Um exemplo que quem me lê conhece bem é o da vertente católica do cristianismo, em que, na sua versão popular, existe um grande panteão de santas e santos a quem se adora e reza diretamente, e a quem se oferecem oferendas — alguns deles resultando de uma multiplicação de Jesus e da Virgem Maria, e às vezes incluindo até figuras que nem foram canonizadas pela igreja ...
Não se pode considerar que alguma formas de «religião popular» são de facto paganismo disfarçado e que, em rigor, a igreja as devia combater? Não sei… Provavelmente, sempre foi necessário algum tipo de sincretismo para uma religião nova se implantar: se os deuses antigos sempre funcionaram, porquê abandoná-los agora que se aceita outra religião? Melhor dar-lhes nova roupagem. E então eles vão ficando, com essa nova roupagem, até todos esquecerem quem eram antes… Ou talvez seja também uma concessão necessária à sobrevivência de qualquer religião que se afaste da vida real: que interessa o estado de Buda ou a vida eterna quando se tem uma filha a arder em febre há três dias?