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12/05/26

A idade, mais uma vez


Toda a gente sabe: quando se vai para a idade, como se costuma dizer, é muito importante manter o exercício, a atividade, a jovialidade e sobretudo a vida social. Mas também toda a gente sabe que é inevitável a perda de capacidades. É assim a vida. Uma pessoa pode continuar a pensar de forma bastante organizada, não ter falhas significativas de memória, fazer sem problema 20 km a pé, mas, sei lá, um dia vê-se aflita para montar um interruptor num candeeiro de mesinha de cabeceira, só porque os parafusos são pequenos e o espaço de manobra é pouco, nunca tal lhe tinha acontecido... A motricidade fina já não é o que era. E quem diz a motricidade fina diz a memória processual, e a força muscular e a vista e… seja lá o que for, varia um pouco de pessoa para pessoa. O que importa é que a pessoa o reconheça.  E que, se a perda de capacidades implicar algum perigo, se torne mais prudente. 

O meu trabalho em apoio domiciliário ensinou-me que uma grande parte dos acidentes domésticos graves de pessoas idosas resultam da teimosia de continuarem a executar as tarefas diárias como sempre fizeram — quer se trate de aparar sebes ou de sacudir os edredões… Há 15 anos que a minha mulher, de casa para o trabalho e do trabalho para casa, faz a autoestrada a 130 km/h. Decidiu agora que chegou a uma idade em que não deve ultrapassar os 110 km/h. Parece-me muito bem.


Imagem: Briton Riviere: O velho jardineiro («The old gardener»), 1863, pormenor. Wikimedia commons, daqui. 


04/11/25

Mais um aforismo sobre o envelhecimento


Há quem afirme que, apesar da idade (mais ou menos) avançada, se sente «jovem por dentro», querendo com isso significar que, embora reconheça a decadência do corpo, conserva inalteradas  as capacidades mentais. Mas não será antes que essa afirmação já é, por si, sinal de alguma decadência cognitiva?

06/05/25

Vivement la retraite !


Não é que eu não goste do meu trabalho, não é isso… Mas, se os anos de vida que me restam passarem tão devagar como eu pressinto que hão de passar estes sete meses que restam até à reforma, terei então ainda muito tempo de vida... 

La_Motte-Chalancon_-_Fausse_plaque_avenue_de_la_retraite_tranquille_(mai_2022)
Foto de Sebleouf, licença Creative Commons, daqui.
«Avenida da Reforma Tranquila». Placa toponímica falsa, uma brincadeira.
Para quem não saiba francês, o «nome da comuna» lê-se como
 «j'ai bien bossé e j'en profite», 
que significa
«trabalhei muito e agora disfruto disso».
Vivement significa aqui «quem me dera já». Um dos exemplos do dicionário do CNRTL para este significado da palavra é precisamente o título deste breve apontamento (que lhe tinha já sido dado antes de o consultar). Isto deve significar que ansiar pela reforma não é um sentimento incomum, também entre os franceses.  

A retraite francesa é, para os portugueses, um conhecido «falso amigo», que é como se costuma chamar às palavras que, numa determinada língua, fazem lembrar palavras de outra língua (por serem cognatas ou por simples coincidência), mas significam coisas diferentes. O que é curioso é que retrete é de facto a palavra francesa, apenas com a grafia adaptada, que foi importadas para as línguas ibéricas e que ganhou aí, vá lá saber-se porquê, um sentido específico que não se lhe conhece em francês: o de sanita. A evolução é fácil de perceber: retraite significa «retirada» ou «retiro» (além de «reforma», como no título deste texto...); e, de um dos significados de «retiro», não o acontecimento mas o lugar onde este se dá, retrete fixou-se num lugar de retiro específico, tendo em seguida passado a significar um objeto central deste lugar. Duvido muito de que, em francês, retraite alguma vez tenha referido a casa de banho, e muito menos a sanita, porque o CNRTL, que costuma ser exaustivo nas suas entradas, dando também conta dos usos antigos, não o menciona



P. S.: O CNRTL classifica vivement apenas como advérbio. É-o seguramente, quanto à sua formação e a todos os seus outros usos, mas, neste que aqui trato, porta-se como uma forma verbal impessoal, com uma estrutura semelhante (que não o significado) a uma construção como «il faut», por exemplo, requerendo um objeto direto que, no caso de ser uma proposição, vem forçosamente no conjuntivo: Vivement qu'on en finisse ! Um advérbio, defina-se como se definir, não pode exigir objetos nem orações subordinadas, não é verdade? De maneira que definir categorias das palavras em abstrato, fora das frases em que são usadas, nem sempre funciona. Já agora: um caso curioso é também oxalá em português, galego e asturo-leonês ou ojalá em castelhano, que se consideram interjeições e que se portam como aquilo que de facto são, uma oração inteira – só que uma oração árabe, tomada de empréstimo e cristalizada nas línguas ibéricas, mas que continua a funcionar na frase como o que era originalmente. Outro caso curioso é eis, de que já aqui falei uma vez.  


17/04/25

Idade e sabedoria

 I

A ideia de que uma pessoa se vai tornando mais sábia com a idade está tão espalhada que a aceitamos sem a escrutinar, como verdade a priori. Mas será mesmo assim? 

Evidentemente, a questão de fundo é definir sabedoria. Uma volta pelas definições dos dicionários, depois da limpeza de redundâncias e sinonímias mascaradas, dá-nos dois tons de sabedoria

Às vezes, diz-se sábia a pessoa com erudição, com grandes conhecimentos. É natural: afinal a palavra vem de saber, não é verdade? Sábio é quem sabe muito, pois então… 

Mas sabedoria também pode ser bom senso, sensatez, juízo, em última análise talvez maturidade. Aqui já não é saber coisas que conta, mas saber da vida, ter dela experiência. 

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Ludwig Knaus, Avô e neto a conversar, s.d. ca. 1900
Quanto ao primeiro significado de sabedoria, se se pode argumentar que mais tempo de vida dá mais tempo para se instruir, também é inegável que há quem aos 25 anos tenha mais conhecimentos que a maior parte das pessoas aos 75; e que o tempo, a partir de certa altura, já não é saber que traz, mas perda da capacidade de articular — quando não de recordar — os conhecimentos que já se teve. O diabo sabe muito por ser velho, mas talvez já tenha sabido ainda mais antes de o ser… 

Passemos ao outro significado de sabedoria. Na aceção de sensatez, a idade conta, mas talvez nem sempre como estamos habituados a pensar. É evidente que a acumulação de experiência de vida nos vai tornando mais ajuizados. Quando temos um reportório maior de resultados observados de determinadas ações e escolhas, sabemos melhor quais é resultam ou, no mínimo, quais é que não resultam. Agora, pode-se pensar-se também que talvez haja outro lado menos positivo do acumular de experiência, se esta cristalizar, a certa altura, numa conceção de normalidade que freia a acumulação de novas experiências. 

Mas enfim, isto sou a falar, com algum bom senso, talvez, mas duvidosa sabedoria. Que diz sobre a questão quem muito refletiu sobre ela e/ou a investiga? É uma coisa que me acontece cada vez mais com a idade: quando acabo de refletir sobre qualquer coisa, sinto necessidade de ver o que já foi dito sobre ela. E, claro, a minha própria reflexão revela-se normalmente sem grande interesse, quando confrontada com o que pensaram pessoas mais informadas que eu. Agora, não sei esta consciência é um produto da minha crescente sabedoria ou se o que eu penso, com a degradação de capacidades que a idade vai trazendo, é cada vez menos inspirado e interessante… Mas adiante. 


II

Antes de mais, assentemos em que wisdom em inglês corresponde bem a sabedoria em português. Pode haver nuances semânticas entre a noção de wisdom em inglês e a noção de sabedoria em português, mas creio que, no geral, as duas palavras são usadas para referir uma mesma capacidade ou característica; e que, quando se fala de uma pessoa sábia se está querer dizer o mesmo que quando se diz a wise person. E esclareço isto, porque não encontrei estudos sobre sabedoria em português, só sobre wisdom em inglês. 

É claro, uma vertente fundamental da investigação sobre sabedoria é a investigação sobre a própria definição do conceito. Embora sempre em relativa consonância com as definições do senso comum e dos dicionários, os estudiosos não têm todos exatamente a mesma conceção de sabedoria*. Há quem defina a sabedoria a partir de três facetas essenciais: um profundo e abrangente conhecimento de si próprio, dos outros e do mundo [a faceta cognitiva da sabedoria], regulação de emoções complexas, no sentido de tolerância da ambiguidade [a faceta emotiva da sabedoria]; e uma orientação que transcenda o interesse próprio e se centre no bem-estar dos outros e do mundo [a faceta motivacional]. Há quem defina a sabedoria a partir de cinco critérios de base: grande conhecimento de factos, grande conhecimento processual (estratégias para dar conselhos ou resolver conflitos), contextualização dos problemas, relativismo de valores (aceitar as divergências entre indivíduos); e reconhecimento e gestão da incerteza. E há também quem defina mais sucintamente a sabedoria como aplicação de conhecimentos tácitos a problemas em que há conflitos entre indivíduos ou aspetos da vida.

É importante notar, sobretudo, que as capacidades atrás referidas não são, isoladamente, suficientes para constituir sabedoria. Para que a sabedoria se desenvolva numa pessoa, é necessária a convergência de certos traços de personalidade, como inteligência, criatividade, sociabilidade, equilíbrio emocional, orientação ética; alguma, mas não demasiada, autoestima e voluntarismo; e experiência de vida, sobretudo de situações difíceis. 

Além disso, costuma dividir-se a sabedoria em sabedoria individual e sabedoria geral, conforme se trate de sabedoria sobre si próprio ou sabedoria sobre os outros. Estes dois tipos de sabedoria podem estar mais ou menos presentes numa pessoa, ou pode até estar presente só um deles. Muitos de nós conhecemos provavelmente pessoas que são boa conselheira de outros, mas procuram aconselhamento para os seus próprios problemas, que não conseguem analisar nem resolver. 

Outra questão que se coloca é a da natureza da sabedoria: pensamos na sabedoria como característica ou competências, ou leque de capacidades ou competências, mas de um tipo mais essencial ou mais ocasional? Alguns estudiosos discutem se se trata de uma característica pessoal (uma pessoa é sábia ou não é) ou antes de um estado (uma pessoa tem sabedoria em certos momentos ou situações, mas não forçosamente em todas). E há quem defenda, com base em evidência, que se trata mais de um estado que de um traço estável de um indivíduo**. 


III

E então, a sabedoria vai ou não aumentando com a idade? Evidentemente, não é fácil medir sabedoria e, como as definições de sabedoria nem sempre coincidem em pormenor, não são sempre exatamente as mesmas capacidades, competências, etc. — ou seja, a mesma sabedoria — que cada investigador quer medir, o que dificulta uma análise conjunta dos diversos estudos. Ainda assim, parece haver algumas conclusões a tirar da análise das medições que se fazem, às vezes como questionários de autoavaliação, outras vezes como análise de desempenho — e também no que toca à relação entre sabedoria e idade.

Sabe-se que, em geral, é mais difícil uma pessoa, sábia ou não, ter um bom conhecimento de si própria que das outras e que as crianças desenvolvem um conhecimento do mundo antes do autoconhecimento. Poderíamos, portanto, pensar que a sabedoria geral surge antes da sabedoria individual. Sabe-se também que, por outro lado, a memória funciona melhor para informação relacionada connosco próprios — mas que há casos, porém, em que apagamos ou modificamos inconscientemente recordações negativas. 

No geral, a idade não parece ser fator determinante nem de sabedoria geral, nem de sabedoria. «Adultos mais velhos apresentam desempenho tão bom quanto adultos mais jovens. (…) Mas, como esperado, envelhecer não é suficiente para se tornar mais sábio. Em vez disso, descobrimos que adultos mais velhos tiveram melhor desempenho em dilemas típicos da sua idade, e adultos jovens tiveram melhor desempenho em dilemas típicos da juventude.»*

Demos a palavra a Julie Erickson, que resume a questão muito melhor do que eu seria capaz de fazer***: 

«Há componentes que aumentam, permanecem estáveis e diminuem, bem como fatores contextuais relevantes que influenciam a trajetória da sabedoria ao longo da vida. 

Aspetos da sabedoria que se sabe que melhoram, com base em pesquisas longitudinais e transversais, são a experiência de vida, a capacidade de autorreflexão sobre essas experiências, a regulação emocional, a empatia e a perspetivação. Isso sugere que, à medida que envelhecemos, geralmente vamos aprendendo a guardar espaço para diversas emoções e vamos aprendendo com a experiência, ao mesmo tempo que nos vamos tornando mais amáveis e mais conscientes das experiências dos outros. 

Também há aspetos da sabedoria que podem não ser tão fortes numa idade mais avançada: quando é necessária rapidez no processamento de informações — por exemplo, na resolução de problemas novos e complexos — os idosos têm um desempenho inferior. Muitos idosos, porém, podem aprender a compensar esse declínio usando outros pontos fortes, como basear-se em experiências anteriores com problemas semelhantes.» 


IV

Não que a minha impressão inicial se afastasse muito destas conclusões, mas sinto que o texto ganhou em não ter ficado só pelos sete parágrafos iniciais. E eu mais que o texto. Quando se investiga alguma coisa, encontra-se sempre mais do que se procura e, também por isso, é sempre bom investigar tudo — ora aí está uma migalha de sabedoria que a minha experiência me ensinou. 

Já agora, para terminar, uma constatação interessante descrita num artigo de Ursula Staudinger e Judith Glück*: as pessoas consideradas sábias dão conta de menos emoções, tanto negativas como positivas, que as outras pessoas, mas revelam-se emocionalmente mais empenhadas nos outros que as pessoas não consideradas sábias. Sábio é, concluo eu então, quem vive com moderação, também emocional, e não num romântico carrossel de afetos; e quem centra a sua vida nos outros e não em si próprio — virtudes em que muito já se tem insistido, não é verdade?, e desde há muito tempo... e que se aplicam a qualquer idade. 


_________________


* A maioria das informações que me permitiram compor o texto que se segue e a citação assinalada com * vêm de um artigo que Ursula Staudinger e Judith Glück publicaram no nº 62 da Annual Review of Psychology, em 2011: Psychological wisdom research: Commonalities and differences in a growing field. Foi o que de mais panorâmico consegui encontrar quando me propus tentar ter uma ideia do que diziam os psicólogos sobre a questão. 

** Ver este artigo no número de 31.8.2016 da revista The Psychologist, da Sociedade Britânica de Psicologia, sobre um trabalho de Igor Grossman e outros. Também se pode aceder à versão pré-publicação de um artigo de Grossman, Kung, & Santos de 2019 sobre o mesmo tema

*** Julie Erickson, «Do We Get Wiser as We Age? Aspects of wisdom both increase and decrease as we age», publicado em Psychology Today a 16 de junho de 2024.


29/03/25

Da memória: o almoço de G. e outras histórias [Crónicas de Svendborg #50]

 

Visita da manhã a G. G. sofre de demência, mas ainda tem consciência da sua doença. Já está vestida e arranjada quando chego. Dou-lhe os medicamentos da manhã, sirvo-lhe o pequeno-almoço e digo-lhe que vou fazer também uma sandes para o almoço*. Ela diz que não vale a pena, que faz ela o almoço quando for hora de almoçar.
− Mas sabe que se esquece das coisas – digo eu. − E depois esquece-se de fazer almoço.
− Eu sei, eu sei... – responde G. – Mas também o almoço estar já feito não faz diferença nenhuma: mesmo que fique aqui à minha frente, eu depois esqueço-me de o comer… 

★ ★ ★

Ruínas de adobe, Camargo, Bolívia.
Agora, mesmo não sofrendo de nenhuma doença que afete as capacidades cognitivas, porém – e num grau completamente diferente! –, é certo e sabido que basta avançar na idade para que a memória deixe de funcionar como estávamos habituados a que funcionasse… Onde pus as chaves?, o que é que queria fazer?, como se chama o vocalista dos Calexico? E então a gente começa a lidar com a nova condição de uma forma racional: tomar nota das coisas. Para depois, repetidas vezes, se esquecer em casa da lista de compras, por exemplo… 

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* A história passa-se na Dinamarca e fazer uma sandes é a tradução possível de smørre en mad, literalmente «barrar uma comida», que significa pôr alguma coisa em cima de uma fatia de pão de centeio. Sandes abertas de pão de centeio continuam a ser o almoço dinamarquês mais comum , embora as novas gerações muitas vezes já prefiram saladas ou um prato quente.

29/12/23

Breve divagação à entrada em nova (?) fase da vida

Quando Alfred Sauvy cunhou a expressão Terceiro Mundo, usou Tiers Monde e não Troisième Monde, que seria a maneira normal de referir os países nessa altura ditos «subdesenvolvidos», se a ideia fosse apenas afirmar uma qualquer hierarquia dos mundos. Na mente de um falante do francês, o ordinal antigo tiers remete muito provavelmente para Tiers État, o Terceiro Estado do Antigo Regime (originalmente a burguesia, e, posteriormente, o povo em sentido lato), e essa referência é explícita na frase de Sauvy em que a expressão Tiers Monde aparece pela primeira vez – em L'Observateur, a 14.8.1952: «Porque, enfim, esse Terceiro Mundo ignorado, explorado, desprezado, como o Terceiro Estado, também quer ser algo»*. 

Já a expressão terceira idade, essa, não tem nenhuma conotação de classe oprimida que há de fazer a revolução. Terceiro é, aqui, um ordinal simples: é a última das tradicionais três idades da vida (se bem que agora já se fale às vezes de quarta idade...). Para muito efeitos práticos, como, por exemplo, organização de dados estatísticos, ofertas de vacinas e rastreio de certas doenças, ou descontos em transportes, museus, etc., em muitos países a terceira idade começa oficialmente aos 65 anos. 

A entrada na terceira idade pode também ser benéfica para a saúde. Isto depende um bocado de como se organizam os valores normais em cada país, é claro, mas, nalguns países, uma pressão arterial de 145/92, por exemplo, que, aos 64 anos estaria «um bocadinho alta», aos 65 passa a «normal para a sua idade, não se preocupe»; ou um IMC de 27, que aos 64 anos era «um pouco elevado», aos 65 já é perfeitamente normal.

De maneira que é assim.

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* Há aqui também uma referência à célebre afirmação de Emmanuel-Joseph Sieyès em 1789: 

O que é o Terceiro Estado? Tudo.
O que tem sido até agora na ordem política? Nada.
O que exige? Ser algo.

 

30/11/23

Dos anos que passam

Já há muito que se diz que «velhos são os trapos». Dizem-no pessoas que não são consideradas idosas a outras que o são, como forma de exprimir — ou exigir — respeito pelos mais velhos.  

Ouve-se e lê-se também muito, atualmente (e não só dos que não são considerados idosos, mas também dos que o são), que anos são só números e que não tiram a ninguém capacidade e valor; que o que se perdeu, talvez, em genica e agilidade facilmente se compensa com o conhecimento e a sageza que se foi acumulando; que é inadmissível conceber que alguém seja menos capaz, só porque tem muitos anos. Não é para ser desmancha-prazeres, mas essas enlevadas afirmações parecem-me amiúde pouco realistas. 

Christian Seybold, autoretrato aos 66 anos (pormenor), 1761.
Museu do Liechtenstein, daqui
Entro para o mês que vem na idade que, para arrumar legislação e estatísticas, se chama agora terceira: os 65; e o que vejo, em mim e nas pessoas da minha idade ou mais velhas, não são capacidades intactas — nem que só as mentais —, mas antes o inelutável declínio que o tempo traz a todos os bichos — essa necessária decadência que, para bem das espécies e mal dos indivíduos, propicia a morte. 

Sejamos claros: não há atividade mental fora de circuitos nervosos que são tão materiais como músculos, ossos e veias. A partir de um auge breve das capacidades do indivíduo, que se segue à adolescência, tudo no corpo começa lentamente a decair. É um processo lento e não se notam óbvias perdas de capacidade nas quatro décadas seguintes. Depois, sim, essas perdas tornam-se visíveis para quem estiver atento a elas. Podia fazer uma lista detalhada de tudo o que, com a idade, se altera em todos os órgãos, incluindo os do sistema nervoso, mas isso seria para outro tipo de texto e é, além do mais, informação facilmente acessível. Digamos, de uma forma exageradamente simplificada, que o corpo mirra e seca e com ele a mente, que é uma parte desse corpo. 

Pode ser que, nalguns casos, o que se adquiriu de conhecimento de experiência consiga, de facto, cobrir o que se perdeu de agilidade mental e de capacidade de ação e inovação; mas não me parece que o conhecimento se armazene apenas, como se de um tesouro se tratasse, que se possa concluir que quanto mais conhecimento se adquiriu já, mais rica a mente. Uma grande parte do conhecimento é circunstancial e deixa de ter utilidade ou de poder ser aplicado quando mudam as circunstâncias, porque diz respeito a coisas que já não se usam ou já nem existem. Algum conhecimento mais abstrato sem aplicação prática, que tinha a utilidade fundamental de granjear a quem o possuía simpatia, respeito, admiração, ou seja, a criar uma posição na comunidade ou na sociedade, com o que isso implica de poder, perde a sua importância quando essa inserção social está terminada. Evidentemente, pode continuar a funcionar-se relativamente bem nas suas áreas de especialidade, quer se trate de gastronomia, reparação de móveis ou investigação em diabetes. Mas, na grande maioria dos casos, não se deve esperar desse trabalho que, por causa da tal acumulação de experiências e conhecimentos, seja a grande obra da sua vida. 

Adquiriu-se, é verdade, um maior conhecimento dos humanos em geral, que pode servir em muitas ocasiões, mas só conta verdadeiramente aqui como vantagem da experiência a parte desse conhecimento que não implica a cultura, aquilo que dos humanos é determinado por circunstâncias históricas. Porque a diferença de cultura entre pessoas de tempos diferentes é tão grande como a diferença entre pessoas de lugares diferentes — e as gerações mais novas e o seu mundo podem ser estranhos, se não «estrangeiros», para os mais idosos. Para uma grande parte das tarefas da nossa vida, não se pode usar a experiência e o saber adquiridos, mas é antes necessário aprender sempre coisas novas — e aprender é, justamente, uma coisa que um cérebro jovem faz muito melhor.  

Comecei em 2016, com quase 59 anos, um curso de design multimedia. Correu tudo mal e desisti ao fim de um semestre. Evidentemente, era uma área nova para mim e não era «nativo digital» como os meus colegas, que tinham vinte e poucos anos. Mas — não sei se o reconheci na altura, mas é hoje óbvio para mim — também não tinha já a capacidade de aprendizagem e de trabalho que eles tinham. Dois anos depois, comecei o curso de Assistente Social e de Saúde, uma profissão sem correspondência em Portugal — nem em mais nenhum país que conheça —, mas que, para a explicar rapidamente, fica abaixo de enfermeiro e cobre um leque de atividades muito maior, em termos de cuidados, e menor em termos de práticas médicas. Somos, para simplificar, o nível mais baixo de pessoal autorizado de saúde. Aqui sim, tornou-se claro para mim que a minha capacidade de aprendizagem era bem menor do que havia sido. E o mais evidente nem era não me lembrar do que tinha ouvido ou estudado, era a pouca capacidade de aprendizagem de gestos precisos ou rotinas gestuais. Comecei a trabalhar na minha nova profissão aos 63 anos. Espero ser um profissional de saúde razoável, não cometer muitos erros, cumprir os meus deveres. Mas comecei velho demais para poder ser um bom profissional de saúde. 

Uma grande parte da nossa atividade mental é controlo de movimento, não o esqueçamos. (Aliás, é muito provável que os sistemas nervosos se tenham desenvolvido para controlar movimento, antes de mais, e que a sua posterior sofisticação decorra dessa função primária.) E, com o avançar da idade, até coisas aparentemente tão simples como andar, mastigar ou sacudir um pano, que aprendemos a fazer há muito anos e consideramos aprendidas de vez, têm de se reaprender quando se alteram no corpo os músculos, os ossos e o sistema nervoso — e é frequente resultarem problemas, às vezes acidentes graves, da insistência em fazer as coisas como as costumávamos fazer, em vez de aprender novas formas de usar o corpo, que agora é outro.  

O mesmo a mente. Não só temos de fazer listas de compras quando vamos ao supermercado, também pensamos mais devagar e de forma menos eficiente. E como poderia ser de outra maneira?

É certo que, por razões várias, que se prendem com a grandes melhorias das condições de vida (trabalho, alimentação, higiene, etc.), uma grande parte das pessoas da minha idade não estão tão gastas aos 65 anos como estavam as pessoas da mesma idade há 50, 100 ou 500 anos. Mas não deixa de ser verdade, por isso, que qualquer pessoa nessa idade perdeu já uma parte das suas capacidades, como é natural.  

É óbvio que ninguém deve ser maltratado ou rebaixado por causa disso, até porque, na minha perspetiva ética, competências ou capacidades não podem ser condição para se ser respeitado. Mas os anos não são só números. Há números de anos que traduzem — é a sina de todos os seres vivos — uma decadência real. 


08/09/21

Um passeio com Kai [Crónicas de Svendborg #40]


Os nomes são falsos, a história é verdadeira.

O Kai foi marinheiro, mas já está reformado há muito anos, Vou dar uma volta com ele.
– Então e não tens saudades de Portugal? – pergunta-me ele.
– Bom, tenho saudades de muitas pessoas que lá estão, claro... 
– Eu tenho! – diz ele. – Muitas! Tenho muitas saudades de Portugal.

Encontramos um casal de amigos dele, o Jens e a Lotte. O Kai tem idade para ser meu pai, o Jens e a Lotte devem ser da minha idade, pouco mais ou menos. Não se veem há algum tempo, percebo eu pela conversa, mas, curiosamente, vão estar juntos numa festa no próximo sábado: o 80º aniversário da mãe do Jens. 
 – Que tal a vida, Kai? 
– Uma merda. Estou velho e a velhice é uma merda. E vocês? 
– Nós estamos bem. 
– Sempre venderam a casa? 
– Vendemos, pois. 
 – E a vossa vida sexual, que tal? 
O Jens e a Lotte ficam muito surpreendidos, claro está. Eu também. E vocês também, não é verdade? Quem é que espera uma pergunta assim? 
 – Está boa, acho eu – sorri o Jens e interroga a Lotte: – Está boa, não está? 
A Lotte sorri também e assente com a cabeça. 
 – E a tua vida sexual, Kai? 
 – Ah, mais ou menos… Mas estou velho e a velhice é uma merda. 

Foto: Tim Webb, Svenborgsund & Tarquence, 1981 (pormenor), daqui. (Wikimedia Commons)

11/08/20

A velhice, mais uma vez


Publiquei aqui na Travessa, há mais de dez anos, um poema meu em que ando às voltas de uma ideia que Jorge Luis Borges apresenta em forma lírica no início do seu maravilhoso “Elogio da la sombra” (traduzo eu):
A velhice (tal é o nome que os outros lhe dão)
pode ser o tempo da nossa ventura.
O animal morreu já ou morreu quase.
Restam o homem e a sua alma.
É capaz de ser sobretudo entusiasmo de literato essa ideia de que a velhice (seja qual for o nome que os outros lhe deem) é «o tempo da alma», PORQUE desapareceu já a parte mais animalesca, mais ssssibilante de nós — o anseio de sabores e sexos e toda a classe de satisfações... Não sei se tem muito a ver com a realidade de envelhecer para a maioria das pessoas. Há com certeza velhices assim, em sendo boa a saúde, e é possível que a de Borges tenha sido como a quis, homem e alma, esvaziada de animalidade.

A questão é também como se deve entender alma. Se se entender alma como espiritualidade, ou mesmo como mente, creio que a velhica é muitas vezes ao revés de como Borges a quer: vai-se esvaindo a espiritualidade, se alguma houve, como se esvai tudo o resto: as forças, enfim, a memória, a paciência, a concentração… 

É claro, velhices há muitas. Na velhice que tenho à minha volta, porém, vejo antes simplificarem-se a vida e os seus prazeres: comer, dormir, gozar a inatividade e o calor do sol, se dele se apanha um bocadinho  — o que, por muito que possa soar a demasiado animal, também está muito bem.

Esquerda: Autor desconhecido: Velha dormindo, sem data, gravura, cópia de Rembrandt. The Met, Nova Iorque, daqui
Direita: Rembrandt: Velho sentado numa poltrona, 1631, daqui.

14/10/19

Uma bonita idade

De uma conversa entre mim e um senhor com noventa anos de idade:

– Noventa anos? É uma bonita idade!
– Porque diz isso, se não sabe como é ter noventa anos?
– Bom, a maior parte das pessoas não chega lá… Era isso que eu queria dizer.
– Sim, vistas as coisas dessa maneira… Mas tem pouco de bonito, esta idade. Foram-se as forças, morreu a companheira e morreram os amigos… Restam os filhos, de vez em quando, e mais um ou outro familiar, mas só isso… Bonitas idades foram outras idades que já passaram.









[Apêndice para quem saiba francês, porque não me apetece traduzir a canção e, mesmo que me apetecesse, provavelmente não sairia nenhuma tradução de jeito: que saberia Brel da velhice, se morreu aos 49 anos?]

 
     Jacques Brel: « Vieillir », 1977


10/01/16

Velhice [Crónicas de Svendborg #24]

A morte não custa, o que custa é envelhecer, cantava Brel: «Mourir, cela n'est rien / Mourir, la belle affaire / Mais vieillir... Ô, vieillir…» A canção é do último disco, gravado em 1977 já com a morte à vista. E é de morte que fala o texto da canção, não de velhice. Para que servirá este refrão?

 

Uma expressão de que gosto para referir a velhice é «ir para a idade»: «Ah, agora já estou a ir para idade, já há muita coisa que eu não posso fazer.» Se pensarmos nisso, a expressão dá conta de uma verdade fundamental: só a velhice é que é idade-idade, aquilo que se pode chamar idade. Antes de lá se chegar, há uma pré-idade, digamos assim: vai-se fazendo anos, mas a quantidade de vida que se concebe diante de si próprio pouco ou nada se altera — é sempre «a vida toda»...

Não há consenso nenhum sobre quando começa a velhice, até porque não é nada que aconteça assim de repente. Há uma altura em que se é velho, mas não se é ainda mesmo velho. Depois, vem uma altura em que a velhice é apenas óbvia, um facto simples da vida. Uma boa definição de velhice (continuo o meu papel natural de divulgador da cultura dinamarquesa nestas Crónicas de Svendborg) é a do poeta Halfdan Rasmussen, que ele escreveu já com mais de oitenta anos*:
«Velhice é quando uma pessoa se dobra para atar os sapatos e pensa: “Não haverá mais nada que eu possa aproveitar para fazer aqui em baixo, já que aqui estou?”»


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Fica aqui o link, mas é mais para mim, se eu um dia quiser saber onde fui buscar isto, que para vocês, a não ser que saibam ler dinamarquês...