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10/07/25

Canções que referem outras canções 11: “And the Band Played Waltzing Mathilda” e “Waltzing Matilda”

 

Waltzing Matilda”, escrita por Marie Cowan e Banjo Paterson em finais do séc. XIX e gravada pela primeira vez em 1926 por John Collinson e Russell Callow, é uma das mais famosas canções australianas, muito provavelmente a mais famosa. O título pode sugerir, a quem não conheça a letra, que se trata de uma canção de amor, mas é de facto uma canção sobre o suicídio de um trabalhador rural itinerante — um maltês, como se dizia antigamente em Portugal — apanhado pela polícia depois de roubar uma ovelha para comer. To waltz, «valsar», significa aqui precisamente andar a pé de trabalho temporário em trabalho temporário e matilda é calão para a trouxa levada ao ombro. A expressão vem do alemão, onde (ainda hoje) se usa Walz para referir os anos de aprendizagem itinerante de trabalhadores manuais de vários grémios profissionais, facilmente reconhecíveis pelos seus trajes. 

Once a jolly swagman camped by a billabong
Under the shade of a coolabah tree
And he sang as he watched and waited 'til his billy boiled
"You'll come a-waltzing Matilda with me"
Down came a jumbuck to drink at the billabong
Up jumped the swagman and grabbed him with glee
And he sang as he stowed that jumbuck in his tucker bag
"You'll come a-waltzing Matilda with me"
Up rode the squatter, mounted on his thoroughbred
Up rode the troopers, one, two, three
With that jolly jumbuck you've got in your tucker bag
You'll come a-waltzing Matilda with me
Up jumped the swagman and sprang into the billabong
"You'll never take me alive, " said he
And his ghost may be heard as you pass by that billabong
You'll come a-waltzing Matilda with me

 

“And the Band Played Waltzing Mathilda” é uma canção de Eric Bogle, escrita em 1971, mas que ele só viria a gravar ao vivo em 1977 (depois de a canção já ter sido gravada por outros intérpretes) e em estúdio em 1980.

Eric Bogle nasceu na Escócia e emigrou para a Austrália aos 25 anos, pelo que conserva, pelo menos em parte, o seu sotaque escocês, mas é sem dúvida à Austrália que a primeira pessoa da canção se refere quando diz «o meu país». A canção fala da primeira guerra mundial e, mais concretamente, da campanha de Gallipoli, quando forças britânicas, francesas e russas atacaram a Turquia otomana, aliada dos alemães, para tentar controlar o estreito dos Dardanelos. Morreram nessa campanha cerca de 12.000 dos cerca de 65.000 soldados do exército conjunto da Austrália e Nova Zelândia que participaram na campanha, tendo ficado feridos cerca de 20.000. No total, morreram mais de 56.000 soldados aliados e um número semelhante de soldados otomanos, com mais cerca de 140.000 feridos aliados e 100.000 otomanos.  A canção de Bogle expõe a desgraça e a futilidade da guerra. A personagem principal, que antes percorrera a Austrália de «matilda» ao ombro, perdeu na guerra ambas as pernas e não pode voltar a «valsar». E ainda bem, pensa ele, que sou só um vagabundo, que não tenho ninguém na Austrália à minha espera... 

Now when I was a young man, I carried me pack
And I lived the free life of the rover
From the Murray's green basin to the dusty outback
Well, I waltzed my Matilda all over
Then in 1915, my country said “son,
It's time you stopped rambling, there's work to be done”
So they gave me a tin hat, and they gave me a gun
And they marched me away to the war
And the band played Waltzing Matilda
As the ship pulled away from the quay
And amidst all the cheers, the flag-waving and tears
We sailed off for Gallipoli
And how well I remember that terrible day
How our blood stained the sand and the water
And of how in that hell that they called Suvla Bay
We were butchered like lambs at the slaughter
Johnny Turk, he was waiting, he'd primed himself well
He showered us with bullets and he rained us with shell
And in five minutes flat, he'd blown us all to hell
Nearly blew us right back to Australia
But the band played Waltzing Matilda
When we stopped to bury our slain
We buried ours, and the Turks buried theirs
Then we started all over again
And those that were left, well we tried to survive
In that mad world of blood, death and fire
And for ten weary weeks, I kept myself alive
Though around me the corpses piled higher
Then a big Turkish shell knocked me arse over head
And when I woke up in me hospital bed
And saw what it had done, well I wished I was dead
Never knew there was worse things than dyin'
For I'll go no more waltzing Matilda
All around the green bush far and free
To hump tent and pegs, a man needs both legs
No more waltzing Matilda for me
So they gathered the crippled, the wounded, the maimed
And they shipped us back home to Australia
The legless, the armless, the blind, the insane
Those proud wounded heroes of Suvla
And as our ship pulled into Circular Quay
I looked at the place where me legs used to be
And thanked Christ there was nobody waiting for me
To grieve, to mourn, and to pity
But the band played Waltzing Matilda
As they carried us down the gangway
But nobody cheered, they just stood and stared
Then they turned all their faces away
And so now every April, I sit on me porch
And I watch the parades pass before me
And I see my old comrades, how proudly they march
Reviving old dreams of past glories
And the old men march slowly, old bones stiff and sore
They're tired old heroes from a forgotten war
And the young people ask, “what are they marching for?

And I ask myself the same question
But the band plays Waltzing Matilda
And the old men still answer the call
But as year follows year, more old men disappear
Someday no one will march there at all
Waltzing Matilda, Waltzing Matilda
Who'll come a-waltzing Matilda with me?
And their ghosts may be heard
As they march by that billabong
Who'll come a-waltzing Matilda with me?

Ponho aqui uma interpretação ao vivo de 2009:

 


PS: Conheço também uma canção de Tom Waits que refere a famosa canção australiana e incorpora também partes do refrão: “Tom Traubert's Blues (Four Sheets to the Wind in Copenhagen)”, de 1976.  É melhor deixarmos ao autor a explicação desta referência à canção australiana: «Quando se diz waltzing matilda, não é de estar com a namorada que se fala, mas da vida de vagabundo. Era a primeira vez que estava na Europa e sentia-me como um soldado longe de casa, bêbedo pelos cantos, teso, perdido».

 



06/06/14

Dia D

Não tenho tido grande tempo para escrever textos para este blogue, mas o blogue continua vivo. E à laia de sinal de vida, precisamente, uma história da minha adolescência vagabunda.

Deve ter sido em 1977 e já não me lembro de onde para onde íamos, talvez de Fontenay-le-Comte para Paris. O que sei foi que apanhámos boleia, a Dani e eu, de um camionista normando. Quando a Dani começou a falar, ele ficou uns segundos a tentar perceber de onde ela era.
“Ah, tu és canadiana.” Que sim, disse ela, da cidade de Québec, mais precisamente.
“Esse sotaquezinho lá do lugarejo onde o diabo perdeu os calções…”
O que ele disse mesmo foi fond de terroir, accent de fond de terroir.
“Ao princípio, não se percebe bem de onde é. Das Vosges, podia ser. De repente, até parece de alguns sítios isolados lá na Normandia. Lembro-me de 44, era eu miúdo. Os primeiros soldados que nos apareceram eram quebequenses e as pessoas ficaram muitos surpreendidas quando eles se lhes dirigiram naquele francês mesmo de camponês, que só os velhos das aldeias é que falavam.”


A foto é do site World War II European Theater of Operations 1944 (http://www.stolly.org.uk/ETO/). Não tem indicação do autor nem do lugar onde foi tirada. A legenda diz apenas (traduzo eu): “Soldado canadiano do regimento da Chaudière pergunta o caminho a uma civil francesa”.
 (Ou eram do Régiment de la Chaudière, os soldados de que o camionista se lembrava, ou do Régiment de Maisonneuve; ou então eram os fuzileiros de Mont-Royal.)

07/01/14

Recordações de infância: De que cor é o teu sangue?

Um livro que, como costuma dizer-se, me marcou muito é uma revista de banda desenhada com uma história do Sargento Rock e da sua Companhia da Moleza, “Qual é a cor do seu sangue?”, ilustrada pelo grande Joe Kubert. É uma revista que tive em criança e a que, como todos os livros e revistas de banda desenhada da minha infância, perdi o rasto; mas a história e os desenhos impressionaram-me tanto que nunca mais os esqueci. Há dias, voltei a encontrar a história num blogue. A Internet é realmente uma coisa extraordinária!

A página de blogue que encontrei tinha a história inteirinha (!), ainda para mais acompanhada de um texto interessante, pelo qual fiquei a saber, entre outras coisas, que o argumento é de Bob Kanigher. Fiquei também a saber que a história foi publicada pela primeira vez na revista Army At War, nº 160, de Novembro de 1965 (editora DC). Sabia que a edição brasileira em que a li só podia ser da EBAL, mas descobri agora que foi publicada na série Epopéia. A página onde encontrei esta informação não dá a data de publicação, mas calculo que devesse andar pelos meus 10 anos quando li a história. Faço-vos um pequeno resumo*:

A história passa-se na Segunda Guerra Mundial. Jackie Johnson foi campeão mundial de pesados de boxe. Perdeu o título para o alemão “Tempestade” Uhlan** e vive, desde essa altura atormentado por essa derrota. Jackie Johnson inscreve-se no exército e torna-se um herói. “Tempestade” Uhlan, que é um nazi convicto, também se inscreve no exército alemão, para lutar pelo que acredita ser a sua raça superior.

O destino volta a pôr frente a frente os dois pugilistas, em plena guerra. Uma patrulha alemã de que Uhlan faz parte captura Johnson e dois companheiros seus. Uhlan, desejoso de provar mais uma vez a superioridade da raça ariana, desafia Jackie para novo combate. Uhlan mostra-se mais forte e começa a massacrar Johnson, exigindo que este reconheça que tem sangue negro e não vermelho como o seu. Os companheiros de Johnson têm a certeza de que ele se deixa massacrar por causa deles, porque tem medo que, se ganhar o combate ao alemão, eles sejam mortos. Decidem então atacar os alemães, mas, em segundos, são deixados sem sentido, à coronhada. Talvez porque pensasse que os companheiros estavam mortos ou porque não conseguisse aguentar mais a humilhação, Jackie recupera de repente e deixa o adversário knockout. Furiosos, os companheiros de Uhlan disparam sobre os dois: o negro inferior e o reles alemão que se deixou vencer por ele.

Nessa altura, surge o resto da companhia de Johnson, que toma conta da situação. Quando todos pensavam que Uhlan  e Johnson estavam mortos, este surpreende-os: conseguiu atirar-se ao chão e escapar às balas alemãs, mas Uhlan foi atingido e está mal. Perdeu muito sangue. O médico da companhia diz que Uhlan precisa de uma transfusão de sangue de tipo B. “E quem é que pensam que estendeu o braço?” Ulhan, o nazi, acorda ao lado de Johnson, o americano negro, a receber sangue deste. “Estava enganado”, diz ele, “o teu sangue é vermelho”. “Estás a fazer progressos, pá!”, diz Jackie Johnson, e a história acaba assim.


Tenho quase a certeza de que, se a tivesse conhecido agora, a leitura desta história não me impressionaria muito. Com toda a certeza, não tinha, nem de longe, o efeito que teve em mim quando a li em miúdo. Mas, curiosamente, quando a releio agora, por muito que a ache ingénua e de um simplismo ideologicamente duvidoso, ela continua a impressionar-me. Porque não conta só o efeito que ela tem em mim agora: há uma impressão armazenada quando tinha 10 anos que ela traz de novo ao de cima!

*** 
KB, o autor do blogue Out of this world, onde fui reencontrar esta obra importante da minha infância, chama a atenção para alguns factos interessantes para uma leitura menos infantil da obra:

A personagem Jackie Johnson parece ser uma amálgama de dois campeões de pesos pesados, Jack Johnson, de quem herda o nome, e Joe Louis. A carreira de Jack Johnson, o primeiro campeão mundial de pesados negro, ainda em plena época de segregação da população negra, é um episódio marcante da história das relações raciais nos EUA. Joe Louis, outro símbolo importante para os negros americanos, combateu duas vezes com o campeão alemão Max Schmeling. A vitória de Max Schmeling sobre Joe Louis em 1936 foi usada pela propaganda nazi e a vitória de Louis no segundo combate em 1938 adquiriu inevitáveis contornos simbólicos de vitória de uma “América da liberdade” contra “a Alemanha racista”. Schmeling, porém, afirmou que não tinha nada a ver com os nazis. Tanto Schmeling como Louis vieram, mais tarde, a servir o exército dos seus países. Traduzo um excerto do texto de KB:
O momento da publicação [desta história], a raridade das representações de afro-americanos na banda desenhada nesta altura e a fortíssima mensagem antirracista sugerem uma ligação com o Movimento dos Direitos Civis e com a necessidade do país de recrutar os afro-americanos para a Guerra do Vietname, num contexto de sentimento antiguerra entre a comunidade afro-americana. A importância de Jackie ser um pugilista parece estar relacionada com a entrada de Muhammad Ali para a Nação do Islão em 1964. Muhammad Ali chumbou nos testes de qualificação para as forças armadas em 1964, mas só em 1966 se recusou a aceitar a mobilização, o que fez com que fosse preso e perdesse o título. Este número de Our Army At War não é, pois, uma resposta à sua recusa em alistar-se, mas pretende talvez contrariar o efeito da associação de Ali com a Nação do Islão, que era fortemente contra a guerra do Vietname.
 _______________

* Embora em formato reduzido, a banda desenhada lê-se bem no blogue que refiro (em inglês). Clicar nas imagens das páginas para as aumentar não funciona (exceto para uma delas), mas há uma maneira de o fazer: clicar do lado direito, selecionar “copiar a localização da imagem”, colar essa localização na barra de endereços e abrir uma janela nova em que a imagem aparecerá agora em tamanho grande.
** O nome tem significado: uhlan é a designação inglesa dos ulanos, antigos lanceiros prussianos, austríacos e russos.

29/10/12

O pintor antimilitarista debaixo do lava-louças: a distância e o ódio

O pintor debaixo do lava-louças, de Afonso Cruz (Lisboa: ed. Caminho, 2011) é muitas coisas, como todos os livros são – pode ser, por exemplo, um livro contra as guerras, contra a guerra. Páginas 73/74:
Muitas vezes Sors via-se obrigado a disparar. Fazia-o para um espaço sem nome, perfeitamente incógnito, ligeiramente para cima, de modo a falhar todos os tiros. Não poderia jamais ter a certeza absoluta de não ter matado ninguém, mas acreditava nessa possibilidade. Nas execuções por fuzilamento, havia sempre um dos carrascos que tinha pólvora seca. Para que aqueles que disparavam contra um condenado pudessem acreditar na possibilidade da sua inocência. O nevoeiro e a distância, e o frio, e os gases, também serviam para isso. Eles, quando disparavam, não sabiam se acertavam, se as suas balas eram culpadas. Um soldado poderia sair, isso dizem-nos as probabilidades, de uma guerra sem matar ninguém e sem ter morrido. Isso significa, em termos científicos, que esse soldado é que ganhou a guerra. Não foram os austro-húngaros ou os russos ou os sérvios ou os otomanos ou os romenos ou os alemães ou os belgas ou os franceses ou os portugueses ou outros, mas aquele soldado.
– Para ganhar uma guerra – disse Sors –, há duas condições: não morrer e não matar. É só nesse caso que se pode sair vitorioso de uma guerra.
Ou páginas 141/142:
– É claro que essa é a maior razão para eu detestar aviões. A minha aversão ficou completa quando vi como é fácil matar quando se está no céu. As coisas cá em baixo são tão pequeninas. É difícil acreditar que essas coisas pequeninas sejam homens e mulheres e crianças, com vidas, que se amam e se odeiam. Visto de cima –, disse Sors pegando numa caneta e num papel –, um homem é assim:
Não se veem os olhos. Por isso é que é muito mais fácil matar assim, quando não se veem os olhos. Quando andamos pela terra, vemos as pessoas de frente. É difícil bombardear pessoas quando estão de frente, mas da vertical o que se vê são números, números a explodir. Por isso nunca gostei de aviões.
Já o ouvi muitas vezes e apresentado de várias formas: Se tivesse de se matar com as mãos pessoas que nos olham nos olhos, não seria tão fácil fazer guerra – havia de se sentir o verdadeiro horror que ela é, e haveria mais quem se recusasse a matar. É uma ideia antibelicista limitada, já que não ataca a guerra em si, mas apenas as formas mais “modernas”, mais “impessoais”, de guerra; e não é um argumento propriamente moral, porque não assenta em conceitos discutíveis de bem e mal, mas antes na justeza de sentimentos supostamente primordiais, uma solidariedade natural da espécie. Mas parece que esta simpatia essencial de todos os humanos por todos os outros humanos não subsiste se se “despersonaliza” a guerra, matando de longe, matando sem ver ou sem saber quem se mata. No fundo, é tudo uma questão de distância: longe da vista, longe do coração, como diz o provérbio – a distância física causa distância emocional, frieza, de longe não vejo que o meu inimigo é igual a mim. Não é um argumento moral propriamente dito, dizia eu, mas não deixa de ser uma ideia forte. E Afonso Cruz di-la bem.
Curiosamente, na página 64, uma outra personagem, Wilhelm Möller, prevendo talvez comentários como o que acabo de fazer ao que se diria mais adiante no livro, tinha já deixado claro que não é assim, que a culpada não é a distância que desumaniza, mas sim o ódio que trazemos dentro de nós.  
– As espingardas são uma maneira de matar com mais conforto, basta mexer um dedo. É muito surpreendente como o movimento de um dedo pode tirar a vida de uma pessoa e transformar outra numa coisa ignóbil. É só um dedo a dobrar-se. Uma espingarda é uma máquina de fazer monstros.
Wilhelm mostrou o indicador a Sors e disse:
– Se está esticado, é para acusar, se se dobra é para disparar. Eis o indicador. – E dobrava e esticava o seu dedo como se destruísse mundos: – Isto é o homem, não é o polegar oponível. De resto, Jozef, as espingardas não são armas, são canos. São os instrumentos que permitem aos nossos corações disparar (não é por acaso que as empunhamos bem junto ao coração, com o gatilho encostado ao peito). O que mata, as verdadeiras armas, estão dentro do tórax, a marcar o tempo, como um relógio cheio de ódio.
Nem que de longe, nem que os outros sejam só números ou pontinhos quase indiscerníveis na paisagem, não há desculpa, matar é matar. Wilhelm Möller diz isto e diz também: dentro das pessoas não há só a compaixão inata que faz que, para fazer mal aos outros, nos tenhamos de distanciar deles. Também somos capazes de matar sabendo que matamos e quem matamos; também somos capazes de matar com as mãos quem nos olha nos olhos.

25/11/11

2 histórias da 1ª guerra mundial

1. Soldados belgas e franceses no Cemitério Auxiliar de Copenhaga [Crónicas de Svendborg #7]
Todas as histórias de guerra são tristes e cruéis, porque a guerra é sempre triste e cruel. E nem sequer deixa de ser cruel quando não é ela a causadora direta da morte dos que, por ela, tiveram de deixar a sua terra.

Na parte católica do bucólico Assistens Kirkegård, o Cemitério Auxiliar de Copenhaga, reparei uma vez em túmulos de soldados belgas e franceses, e surpreendeu-me ver que tinham datas de 1919. Eram soldados, explicou-me alguém, que tinham sido prisioneiros algures na costa norte da Alemanha e que, quando a guerra acabou em novembro de 1918, vieram de barco para a Dinamarca, para daqui seguirem para casa. Isto foi no início de 1919. Havia nessa altura na Europa uma epidemia de uma gripe violenta conhecida como gripe espanhola. Foi a gripe que matou aqueles soldados. Depois dos horrores da guerra e do cativeiro no país inimigo, quando o cansaço se começava a diluir, seguramente, na euforia do retorno a casa, veio um vírus, que não uma bala alemã, cortar-lhes a vida aos vinte e poucos anos.

Em memória dos soldados franceses e belgas mortos de gripe em 1919. Wikimedia Commons. 
2. A guerra em Moçambique
Aproveito ser hoje aniversário da batalha de Ngomano para lembrar aqui que a Primeira Grande Guerra chegou à África Austral e houve combates entre tropas portuguesas e alemãs em Moçambique. Há algumas páginas online onde podem ler mais sobre o assunto (por exemplo, as que indicarei a seguir) e não é minha intenção desenvolvê-lo aqui, mas tão-só referir aqui um facto que seria apenas surrealista se não fosse trágico e revoltante.

Francisco Proença Garcia [Moçambique na 1ª Guerra Mundial - do Rovuma ao Nhamacurra (1)] cita Azambuja Martins, que escreve:
Portugal mobilizou para aquele território, ao longo dos vários anos, 19.438 militares da metrópole, 985 portugueses recrutados localmente e 10.278 africanos, e recrutou 90.000 carregadores, 60.000 fornecidos ao Exército português e 30.000 às forças britânicas ["A campanha de Moçambique", in Martins, Ferreira, Portugal na Grande Guerra, Vol. II, Lisboa, 1938, p. 186.]. 
Os números são confirmados por outras fontes em A guerra em Moçambique. 5. última fase da campanha, de Manuel Amaral (negrito meu):
As forças portuguesas vindas sucessivamente da Metrópole atingiram 18.613 praças, enquadradas por 825 oficiais.
As 30 companhias indígenas e as 6 baterias indígenas de metralhadoras mobilizaram 303 oficiais, 682 graduados europeus e 10.278 soldados indígenas, havendo mais a contar duas baterias de montanha e uma companhia montada da Guarda Republicana de Lourenço Marques. As forças de marinha mobilizaram um batalhão de duas companhias. Mobilizaram-se também 8.000 auxiliares indígenas das capitanias mores de Moçambique [Livro de Ouro da Infantaria, pág. 100. Artigo de Álvaro de Castro].
Assim as nossas forças mobilizadas atingiram nesta colónia um total de 39.201 homens.
Os carregadores portugueses fornecidos às tropas inglesas elevaram-se a 30.000 10 e os empregados pelas nossas tropas atingiram 60.000; as perdas totais na nossa população indígena de Moçambique deviam ter-se aproximado de 100.000 almas [Dr. Egas Moniz, Um ano de política, 1919. (Apontamentos da Delegação à conferência da paz)]. 
Se já não devia ser fácil, para alguns soldados portugueses, compreender que guerra era aquela e por que combatiam, imaginem o que significaria a guerra para todos aqueles moçambicanos, que pouco ou nenhum contacto tinham tido com europeus e que eram recrutados à força e obrigados a lutar e a morrer por nações que não tinham, para eles, o mínimo significado.

"General Smuts inspecionando uma unidade nativa sul-africana em França", provavelmente por John Warwick Brooke. http://digital.nls.uk/74548224.

29/04/11

O caixão itinerante

Nunca li, confesso, as aventuras de Dirk Pitt, que são o que deu fama e dinheiro a Clive Cussler; mas posso imaginar, pelo muito pouco que conheço do autor, a exibição de auto-regozijo que hão-de ser essas novelas – se o herói de Cussler for, como o imagino, um alter-ego do grande ego do seu criador. [Ia a dizer que acabo de inventar um novo tipo de crítica, que consiste em dizer mal de livros que não se leu, mas pensando melhor, é extremamente provável que tal crítica já exista, se não for mesmo bastante comum, sem que se o saiba… Agora, se me permito julgamentos tão perversos como infundados é porque, de tudo o que a vida me ensinou, só há uma coisa que tenho como certa: desses best-sellers que se vendem em aeroportos e supermercados, não há um de que se possa dizer benza-te deus. Agora chamem-me snob, a ver se eu me ralo…] Em The Sea Hunters, porém, Cussler escreveu várias histórias interessantes – permanentemente salpicadas da tal irrefreável vaidade, é certo, mas interessantes ainda assim. O livro conta as aventuras reais do autor e da sua Agência Marinha e Submarina Nacional, NUMA, à procura de navios enterrados no lodo dos rios ou nas areias do fundo dos mares; e Cussler inventa, antes de cada uma dessas narrativas, a descrição do naufrágio de cada embarcação. Além de histórias de barcos, conta-se também no livro a história de uma locomotiva e de 3 submarinos. Foram as histórias dos submarinos que mais me impressionaram.

Sabiam que passaram mais de 68 anos entre o primeiro e o segundo ataques bem sucedidos de um submarino a um navio de superfície? Pois é verdade: em Fevereiro de 1864, o submarino confederado Horace H. Henley afundou o Housatonic, um navio da União; e só em Setembro de 1914 é que o submarino alemão U-21 voltou a repetir a proeza, afundando o navio britânico Pathfinder. A partir daí, os submarinos alemães, sobretudo, não cessaram mais a sua acção destruidora, mas mais na primeira grande guerra do que na segunda (traduzo da obra de Cussler todas as passagens a castanho): «[Durante a Primeira Guerra Mundial,] os primeiros navios submarinos da Alemanha afundaram o impressionante número de 4838 navios (…), mais 2009 do que os seus descendentes na Segunda Guerra Mundial». Mas deixemos estas generalidades enciclopédicas e voltemos à primeira destas terríveis máquinas de guerra, o Horace H. Hunley, que é o protagonista deste texto:

O Hunley (tratemo-lo assim daqui para a frente, para poupar letras) era o terceiro submarino subsidiado pela dupla Horace L. Hunley e Baxter Watson e concebido por James McClintock. O irmão mais velho do Hunley, o Pioneer, é um nado-morto: depois de ter completado com êxito alguns ensaios mas antes de ter sido oficialmente dado por apto para o serviço militar a valer, o Pioneer foi destruído pelo seu próprio criador, para o impedir de cair nas mãos dos nortistas, quando estes conquistaram Nova Orleães, onde o submarino estava a ser aperfeiçoado. Teimoso que era, McClintock, que tinha fugido para Mobile, no Alabama, construiu um segundo Pioneer, mas este não resistiu, na sua primeira missão, à violência de uma tempestade que lhe abriu rachas nos costados e afundou-se. Felizmente, a tripulação conseguiu abandoná-lo a tempo.

Não foi ainda desta vez que McClintock se deu por vencido. Conseguiu mais financiamento para continuar o seu projecto e, com a ajuda do tenente William Alexander, que trabalhara já com ele no Pioneer II, construiu o Hunley, pensa-se que a partir de uma velha caldeira de locomotiva. Segundo Cussler, «a embarcação que se tornou famosa como torpedeiro Hunley era surpreendentemente avançada para o seu tempo. A configuração do casco era muito semelhante ao design que haveria de ter muito mais tarde o submarino nuclear Nautilus (…) Dois pequenos portalós superiores, com escotilhas, que serviam de torres de entrada e saída. A largura era à justa para por lá se esgueirar um homem, conquanto mantivesse os braços erguidos por cima da cabeça. Havia até um rudimentar sistema de periscópio, chamado uma caixa-de-ar, com tubos que se moviam verticalmente, com as pontas acima da superfície da água. (…) O único defeito do Hunley era o seu primitivo sistema de propulsão. Estava-se ainda muito longe da energia de baterias eléctricas ou de motores a gasóleo. O Hunley contava apenas com oito homens para rodar o eixo que fazia girar a hélice». Um submarino movido à manivela, nem mais. E agora, imaginem as condições dentro do submarino, para os nove homens que o tripulavam: «O submarino tinha cerca de 10m de comprimento total e um casco de 1,5m de altura com uma largura máxima de 1,2m. O leme de direcção era comandado com uma roda e manobrado pelo capitão, que ia de pé e dirigia o submarino pelas escotilhas da torre da frente».
Como já aqui disse uma vez, as descrições, por exactas que sejam, não nos conseguem fazer perceber (visualizar, neste caso) o descrito. Bem mais eficazes do que palavras são as imagens abaixo que deixarão clara, penso eu, a angustiante falta de espaço do caixão itinerante, como lhe chamou a imprensa:

Se lhe chamaram caixão itinerante, tiveram os jornais justificação de sobra para a mórbida imagem: morreram no Hunley 22 pessoas. O primeiro acidente foi causado pelo Tenente John Payne, o primeiro comandante do submarino depois de McClintock, que fez o submarino imergir com as escotilhas abertas, causando a morte de cinco tripulantes. O segundo acidente deu-se com Horace H. Hunley, o primeiro financiador e padrinho do submarino, dirigindo uma equipa de 7 homens, numa viagem de treino. Hunley exagerou o ângulo de mergulho do submarino, o tanque de lastro dianteiro encheu-se demasiado e não houve maneira de fazer emergir a embarcação. Nenhum dos oito homens que iam a bordo se salvou. O derradeiro e maior acidente do Hunley coincidiu com o seu momento de glória e nele perderam a vida todos os seus nove tripulantes. Foi em Fevereiro de 1864 e comandava a nave o Tenente George Dixon, que, apoiara William Alexander na reconstrução do Pioneer II. Após semanas de tentativas frustradas de ataques a barcos do Norte, o Hunley conseguiu finalmente torpedear e afundar o Housatonic, uma chalupa canhoneira nortista, perto de Charleston, na Carolina do Sul. A onda de choque da explosão do barco da União foi violentíssima, mas os tripulantes e o submarino conseguiram sobreviver-lhe. Já no caminho de regresso, porém, e quando todo o perigo parecia ter passado, o Hunley foi abalroado pelo navio de guerra Canandaigua, que ia em socorro dos sobreviventes do Housatonic. O comandante do Hunley viu tarde demais as luzes do barco inimigo. Ainda mergulhou, mas já não foi a tempo de evitar a colisão: a quilha do Canandaigua rasgou literalmente o submarino, que se afundou imediatamente e deixou de ser caixão itinerante para passar ser o caixão fixo e permanente dos seus 9 tripulantes. A bordo do Canandaigua, ninguém deu sequer por ter afundado a arma secreta da marinha confederada... 

Não sou propriamente um aficionado de história militar, nem aficionado de coisas marítimas. Fascina-me o vocabulário de barcos e marinhagem, mas fica-se pelas palavras o meu fascínio pela navegação. O que eu sou é um bocado claustrofóbico e tenho um medo terrível do mar, isso sim. Na Cité des Sciences de La Villette, estive uma vez dentro de um submarino, ainda assim bem maior do que o Hunley, e fiquei muito angustiado só de me imaginar fechado dentro de uma coisa daquelas no fundo do mar. Não consegui na altura – nem consigo ainda – pensar num submarino a não ser como… um caixão itinerante, precisamente!...

[Para ficarem com uma ideia ainda mais clara de como era o interior do Hunley, vejam aqui uma reconstituição e aqui o verdadeiro submarino.]