10 de abril de 2011

Falar bem


“Quando aqui chove, chove a sério. Quando morávamos no Alto Molócuè, só com a água que caía do telhado, chegámos a encher em vinte minutos um tanque de três mil litros que nós tínhamos. Só de uma das águas do telhado: a água escorria para umas calhas por baixo dos beirais e depois por um algeroz para o tanque. A casa tinha uns cento e tal metros quadrados, de maneira que está a ver.”
O amigo a quem quero explicar a violência das chuvadas em Moçambique diz que sim, que está a ver; mas, na realidade, não tem nenhuma possibilidade de me compreender, vejo eu agora. E não é por nunca ter visto chuvas como as do Alto Molócuè, que já umas quantas vezes as apanhou em Portugal da mesma intensidade. Com os números todos que dou, até parece que estou a fazer uma descrição rigorosa, mas é completamente impossível, a partir do que eu digo, fazer uma ideia clara da quantidade de chuva que eu quero referir.
Um princípio ético comum a várias religiões e filosofias é que se deve pensar bem, falar bem e agir bem. É um princípio tão sedutor como vago, se é que não é mesmo por ser vago que é sedutor. Se os princípios de falar bem e agir bem são independentes um do outro e cada um deles de falar bem, já falar bem não se consegue separar dos outros dois princípios – porque para falar bem é preciso pensar bem e porque falar bem é uma boa acção… A sério. E foi o que eu não fiz quando tentei explicar ao meu amigo a violência das chuvas no Alto Molócuè. Nem uma coisa nem outra… nem outra.

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