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10/06/26

Almanaques


Escrevia eu a 5 de março deste ano, numa espécie de diário de viagem que eu tinha:

Quando faço uma viagem longa como esta, quero ter o menos bagagem possível, e, como escolhi criteriosamente tudo aquilo que havia de me fazer falta, decidi que não comprava nada durante a viagem. Mas é uma decisão às vezes difícil de respeitar, sobretudo quando o objeto que nos seduz pesa apenas uns gramas e custa meio euro…

Era ao Almanaque de Bristol que me referia. Esclarece a Wikipédia em espanhol (traduzo eu):

O Almanaque de Bristol, cujo nome completo é Almanaque pitoresco de Bristol, é una publicação da empresa Lanman & Kemp-Barclay & Co. Inc., de Nova Jérsei, EUA, para promover os seus produtos de saboaria e perfumaria. É publicado ininterruptamente desde 1832, sendo muito popular desde princípios do século XX nos países da América Latina, para os quais a empresa faz edições nacionais ou regionais.

Sabões e perfumes! Nunca me teria passado pela cabeça. Interessantes estratégias de publicidade que havia antigamente. Diz também a Wikipédia que o Almanaque é, por isso, gratuito, mas que também se vende às vezes por preços muito baixos — o tal meio euro que paguei…

A página da Wikipédia tem ainda (não há enciclopédia como esta!) uma secção «O almanaque e a literatura», com informação fascinante:

Devido à sua popularidade, o almanaque de Bristol é mencionado por destacados escritores hispano-americanos como parte do quotidiano ou como referência e fonte de consulta comum de personagens de novelas e contos, como é o caso de Gabriel García Márquez nas novelas A revoada e O amor nos tempos de cólera, e nas suas memórias Viver para contá-la. Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares também o mencionam na sua obra conjunta publicada com o pseudónimo H. Bustos Domecq Seis problemas para Dom Isidro Parodi, e o mesmo fazem Miguel Ángel Asturias em Mulata de tal e o escritor salvadorenho Napoleón Rodríguez Ruiz na sua novela costumbrista Jaraguá.

Não me surpreende nada que Borges e Bioy Casares refiram o Bristol. E o parágrafo citado da Wikipédia quase podia também, sem a referência a García Márquez, ser um parágrafo de um conto de Borges… O mais interessante, porém, é o parágrafo seguinte:

O historiador e ensaísta colombiano Germán Arciniegas assinalou que o Almanaque de Bristol teve nele uma profunda influência e diz:

«A minha curiosidade literária, como a de quase todos os da minha geração, não nasceu de me ter ido parar às mãos nem Homero, nem Cervantes, nem Virgílio, mas sim o Almanaque de Bristol

O link para a fonte da citação está morto, mesmo no Wayback Machine, mas não duvido de que Arciniegas tenha dito a frase. Mas, se não, façamos de conta que é uma fantástica citação borgiana…

O Bristol é quase igual ao Borda d’Água, o mítico almanaque português, só que este último, se bem que quase centenário, é quase 100 anos mais novo que o almanaque americano: o Borda d’Água é publicado pela Minerva desde 1926. 

Quando vivia em Portugal, comprava todos os anos o Borda d’Água, não sei bem porquê nem para quê… Uma das coisas que me seduzia era o nome. Borda d’Água é um nome muito bonito, com o aquele apóstrofe, B, D´D e G sonoros, o Ó e Á tónicos, tudo muito harmonioso... Quem terá inventado esse nome? Soa misterioso, não soa? Significará algo que eu desconheço? Ou é mesmo só orla, fímbria, litoral? Chama-se assim porque traz as marés? Outro aspeto atraente é o grafismo, que é desusado. Histórico, se se preferir: há coisas que nunca mudam, como os movimentos dos astros e a sequência das estações e dos anos. 

O Borda d’Água traz o mesmo que o Bristol, tirando os anúncios de sabões e perfumes: signos e horóscopos, calendário com feriados, festas e santos dos dias, nasceres do sol e ocasos, marés, fases da lua, datas de nascimento de pessoas célebres, início das estações do ano, eclipses… Deve ser o que trazem todos os almanaques. Mas o Borda d’Água traz conselho para a agricultura, a jardinagem e os animais, que o Bristol não traz; e o Bristol tem recomendações para a pesca e duas páginas sobre cuidados e ter com a água, que o Borda d’Água não tem. Mas como, se ele é que é Borda d’Água? E o Bristol tem uma historieta moral em oito quadros, um texto sobre inteligência artificial (!) e uma página de «frases célebres». Uma dessas frases é atribuída a uma «edição imaginária» do próprio Almanaque de Bristol, outra a uma sua «edição profética» e outra ainda a um «poeta das estrelas». Estas atribuições também são algo borgianas, ao contrário das frases atribuídas, que são demasiado desinteressantes para eu aqui as transcrever.  O Borda d’Água também tem aforismos, mas de autores desconhecidos, os chamados provérbios populares — um para cada mês do ano: «Junho floreiro, paraíso verdadeiro»...

Não é só o grafismo que é doutros tempos, também a informação: já ninguém quer saber dos santos de cada dia, nem de feiras anuais… E, se houver ainda quem queira informação sobre marés, estações e equinócios, ou seja lá o que for, aliás, tem outras maneiras, mais rápidas e mais acessíveis, de a encontrar. Sem o papel finíssimo e o homem de cartola na capa. Se é pena ou não julgará o sentir de cada um, que ser pena, aqui, não é julgamento da razão. 


12/05/26

Vinte e cinco anos

 

Dizem que não devemos nunca voltar aonde fomos felizes. A Karen e eu não fomos especialmente felizes nos dois anos que passámos em Malacate, mas também não fomos especialmente infelizes. Foram sobretudo tempos intensos, disso não há dúvida. Voltámos a Malacate em 2026, para rever pessoas e sítios, para voltar a ver os desfiladeiros de rocha vermelha e as velhas casas de adobe à beira do rio. Queríamos saber o que tinha mudado. 

A rua principal continua aparentemente igual, com as mesmas lojas sem horário, barbearias, pequenas mercearias, vinho e aguardente, fotocópias e encadernações. Mas só aparentemente. Faltam as pessoas que já lá não estão.

Susana, a dona do mais famoso bar da vila — era uma das melhores cantoras da província, dizia-se sem exagero nenhum — morreu o ano passado. 

Fechou o café da D. Lucha, que servia os melhores lomitos da zona. Também morreu há uns anos, coitada, ainda relativamente jovem. 

Falta a velha camioneta Dodge de D. Edgar, chofer de mudanças e de tudo, e especialista em churrascadas. Também já não está entre nós.

A D. Abel, que tinha vindo da capital para trabalhar para Malacate num programa agrícola, decidiu por lá ficar, comprou terra e se lançou  em vários pequenos e bem-sucedidos negócios, levou-o o covid, dizem que por só ter procurado ajuda tarde demais. 

D. Clotilde, a mulher dele, morreu seis meses depois dele de uma morte estúpida: engoliu mal qualquer coisa que estava a comer e que se lhe entalou na garganta, asfixiando-a antes que ela tivesse tempo de pedir ajuda. 

D. Cristóbal tem agora 98 anos, que é uma idade a bem dizer impossível na região. Passa as tardes sentado no jardim à entrada de casa e saúda quem passa com um sorriso distante. Se alguém o cumprimenta e se apresenta explicando-lhe quem é, D. Cristóbal, se consegue localizar o interlocutor na sua memória, começa a chorar. De alegria. 

D. Rosa, a sua mulher, um pouco mais nova que ele e ainda de cabeça clara, diz que, depois da morte do filho, o ano passado, vive à espera da morte do marido, e depois da sua, porque é assim que as coisas são. 

D. Carlos, Carlitos para os amigos e para quem lhe conhece a fama de guitarreiro, está demasiado velho para os impecáveis ponteios em zambas, cuecas e tonadas. Está a morrer, dizem os seus antigos companheiros de descantes e guitarrear.

A estrada foi talvez o que mais mudou. Já não existe a velha estrada de terra batida, mortal em vários trechos, que ligava Muñecas a Belgrano. As velhas cruzes a assinalar acidentes mortais, normalmente despistes em ribanceiras de dezenas de metros, centenas às vezes, ainda lá estão à beira da estrada, mas a estrada é agora asfaltada e as seis horas que se levava até Muñecas ou Belgrano foram reduzidas a metade. 

A vila cresceu, como seria de esperar, e está mais bonita. Há várias pracetas novas, floridas e bem cuidadas, e foram arranjadas muitas das casas antigas que estavam à beira de ruir. O mercado também se alargou, no espaço e nos produtos disponíveis, e tem agora um edifício com comedores populares. E há dois terminais ferroviários, um para autocarros de longo curso e outro para os minibuses que saem a toda a hora para Muñecas e Belgrano. 

E houve também quem conseguisse melhorar a sua vida.

D. Isabel conseguiu transformar num bonito hotel a casa grande que tinha na vila. Fez as obras com o dinheiro que foi juntando a alugar quartos aos trabalhadores da estrada, aquando da sua construção há uns anos.

Félix foi a única pessoa que, nos dois anos que passámos em Malacate, nos convidou a almoçar em sua casa. E claro, convidou-nos outra vez durante a nossa visita. Rimo-nos e cantámos e recordámos episódios de há 25 anos. Está para abrir um restaurante. Diz que vai finalmente haver um sítio em Malacate onde se coma bem. 

D. Jaime e D. Luzmila continuam a dar aulas, apesar de terem já idade para a reforma. Quando conheci D. Luzmila, ainda não era professora, começou o magistério depois de ter a segunda filha há 26 anos. D. Jaime e D. Luzmila começaram também um negócio de doces e compotas, vai já para 20 anos, e passam todos os fins de semana nas cidades mais próximas, a vender os seus produtos. Dizem que foi o que os safou, porque só os salários não chegavam para muito e assim lá conseguiram aumentar a casinha e pagar a educação das filhas, que têm agora cursos superiores. Nunca ninguém da família de nenhum deles tinha tirado um curso superior. 

As pracetas da vila, tanto as novas como as que eu já conhecia, homenageiam aristocratas e militares do início do século XIX. Faltam monumentos aos atuais heróis da nação: gente como D. Jaime e D. Luzmila.

Há coisas em Malacate que parecem não querer mudar. E porque haviam de mudar em 25 anos, quando não mudaram em centenas deles? Continua a servir-se porco assado no forno ao fim de semana nalgumas fazendas centenárias à beira-rio. Os bêbedos continuam beber dias e noites sem parar e as velhas famílias de proprietários continuam a achar que el honor os impede de trabalhar e queixam-se de que os campos estão cada vez mais abandonados porque não há quem queira trabalhar pelo que eles lhes querem pagar; e trabalhar é o que mais faz quem não é, como eles, dono das melhores terras. 

Os imponentes desfiladeiros de rocha vermelha e o rio verde acastanhado continuam iguais, e as velhas mansões de adobe nos arredores da vila cada vez mais em ruínas.  

Não vale a pena procurarem no mapa a vila de Malacate. Ela existe, mas não é Malacate que se chama. A fotografia é de outro sítio.  Todos os nomes próprios do texto foram alterados e também algumas descrições das pessoas, para não se poderem reconhecer a vila e as pessoas reais de que falo. Quem me conhece saberá de que terra se trata e quem conhecer essa terra é bem capaz de descobrir a quem se referem estes nomes que aqui pus. 





11/05/26

Sincretismo e religião popular


Recordação do Seri Lanca: o táxi que nos leva do aeroporto para a pensão tem, sobre o painel de bordo, uma imagem de Buda, e, pendurado do retrovisor central, um rosário com uma cruz. Podia lá ter estado uma estatueta de Ganexa, creio eu, talvez também um crescente islâmico... Segundo o último censo nacional, e arredondando, 70 % dos nacionais do Seri Lanca são budistas, 12.5 % são hinduístas, 10 % são muçulmanos e 7.5 % são cristãos.

Será que o aparente sincretismo do taxista não o é de facto, mas antes uma estratégia de comerciante para agradar a todos, mas que não corresponde à sua verdadeira fé? Mas, se assim fosse, não faria mais sentido juntar os símbolos das duas religiões que lá faltam? Ou pode uma pessoa ter mesmo mais que uma religião? 

Não perguntei nada ao motorista de táxi. Não me senti à vontade para o fazer. Mas sei a resposta. Logicamente, não: o que define qualquer religião são os seus dogmas e todos os dogmas de todas as religiões excluem forçosamente os dogmas de todas as outras. É claro, pode fazer-se como um amigo meu muçulmano, que diz que também que podia ser cristão ou outra coisa qualquer, porque todas as religiões pregam a mesma moral e fazer o bem é o mesmo para todas elas. Por louvável que seja a sua atitude, isto não é verdade. Quer dizer, não é, pelo menos suficiente para se seguir uma religião. Para se ser cristão, por exemplo, não basta estar de acordo com os ensinamentos morais de Jesus e predispor-se a segui-los — há que acreditar na sua divindade, como forma humana de Deus. Etc. Dito de outra maneira: se cada religião postula a falsidade de cada uma das outras, como ser sincrético? 

Ou será que este e outros sincretismos assentam antes numa versão da aposta de Pascal em que se tenta assegurar maior proteção aumentando o número de divindades reconhecidas? Se pelo menos uma delas for verdadeira… Evidentemente, muitos cristãos argumentariam que não se pode granjear o favor de Deus adorando Buda como divindade. Mas talvez o taxista nunca tenha pensado nisso e talvez ele não seja cristão dessa maneira. Uma vez contei aqui a história de D. Celso, um homem que conheci na Bolívia, quando lá vivi, que, numa situação de desespero, passou a rezar a todas divindades que conhecia, desde a Pachamama à Virgem Maria.

***

Seri Lanca: Buda, Ganexe e João Batista com a Virgem e santos.
As duas primeiras fotos são de Ella, a terceira de Negombo. 
Nem sempre se encara a religião duma forma lógica, racional. Pode-se encará-la de forma menos abstrata: uma relação com as divindades em que uma pessoa aceita submeter-se a elas, aumentar e glorificar o seu panteão, mas esperando em troca que elas a ajudem em caso de necessidade. 

Pode pensar-se que daí às religiões abstratas que hoje conhecemos melhor vai uma grande distância, mas a abstratização da religião parece não ter conseguido livrá-la da sua primitiva concretude. Um exemplo que quem me lê conhece bem é o da vertente católica do cristianismo, em que, na sua versão popular, existe um grande panteão de santas e santos a quem se adora e reza diretamente, e a quem se oferecem oferendas — alguns deles resultando de uma multiplicação de Jesus e da Virgem Maria, e às vezes incluindo até figuras que nem foram canonizadas pela igreja ... 

Não se pode considerar que alguma formas de «religião popular» são de facto paganismo disfarçado e que, em rigor, a igreja as devia combater? Não sei… Provavelmente, sempre foi necessário algum tipo de sincretismo para uma religião nova se implantar: se os deuses antigos sempre funcionaram, porquê abandoná-los agora que se aceita outra religião? Melhor dar-lhes nova roupagem. E então eles vão ficando, com essa nova roupagem, até todos esquecerem quem eram antes… Ou talvez seja também uma concessão necessária à sobrevivência de qualquer religião que se afaste da vida real: que interessa o estado de Buda ou a vida eterna quando se tem uma filha a arder em febre há três dias?



25/04/26

Casas bolivianas


Isto não é um artigo sobre arquitetura; é só um breve apontamento fotográfico de viagem, mas com um enfoque específico: as casas de habitação bolivianas. Acho que as casas bolivianas têm algumas características que as distinguem das casas dos outros países que conheço, mas é bem possível que algumas dessas características sejam comuns a outros países, nomeadamente da América Latina (além da Bolívia, na América Latina só conheço a Colômbia, o Brasil, o Paraguai e uma pequena parte do Peru). As fotos estão na definição original, de maneira que, clicando-as, podem vê-las em tamanho grande.

As casas antigas que sobrevivem na Bolívia são quase todas de adobe. Notem que não conheço tão bem as terras baixas como a cordilheira andina, mas, mesmo no pouco que vi das terras baixas, vi várias vezes adobe em casas mais velhas. 

Paredes de adobe, vendo-se, na segunda foto, que, o adobe não é feito só de barro, mas também de palha. À direita, casas antigas de adobe na cidade de Sucre.
Na última foto, na parede da empena da casa à direita, o reboque caiu e vê-se o adobe.  


As casas antigas têm muitas vezes tetos de cana, e às vezes também telhados de cana cobertos com terra e depois com telha. Muitas têm pátios interiores e alpendres com pilares de madeira ou de pedra. Muitas casas urbanas antigas têm também balcões de madeira, muitas vezes fechados e às vezes decorados.

As duas primeiras fotos deste série são de Santa Cruz e são exemplos de pilares antigos (ou à antiga) de alpendres e galerias.
Nas quatro seguintes, de Potosí, Sucre e Tarija, veem-se pátios interiores. Os três primeiros exemplos de varandas são de Potosí e os cinco últimos de Sucre.


Encontram-se também, como em qualquer lado, exemplos de várias vertentes modernistas, às vezes bonitos, mas que não me parece terem nenhuma característica especialmente boliviana. 

Três fotos de La Paz .


As casas mais modernas são normalmente de tijolo furado e têm muitas vezes falta de reboco ou outros sinais de inacabamento. A explicação mais comum é que é uma maneira de pagar menos impostos, porque estes aumentam quando uma casa está terminada. A situação é igual no Peru e, segundo um artigo do Economista , são vários os fatores que contribuem para o fenómeno. 

A primeira foto é de La Paz e as duas seguintes de Camargo, uma pequena vila da região dos Cintis.
É assim uma boa parte da paisagem urbana da Bolívia: tijolo cru e alguma coisa inacabada...


Um fenómeno interessante é da chamada arquitetura neoandina, um estilo que é característico da cidade de El Alto. El Alto era, até meados do século passado, um apêndice de La Paz, nascido sobretudo da construção de um terminal de autocarros e do aeroporto. Tendo nascido oficialmente como município próprio em 1985, a nova cidade cresceu rapidamente e tem hoje mais habitantes que La Paz. Alguns dos comerciantes locais prosperaram e começaram a construir prédios grandes e muito vistosaos, conhecidos como cholets, uma amálgama de cholo com chalet . A arquitetura neoandina diz-se inspirada pelas cores e formas da cultura aimara, e nomeadamente pelos motivos pré-incaicos de  Tiahuanaco , a que se mistura, por vezes alguma estética de ficção científica do tipo dos Transformers, Trons ou Iron Man... Aqui e aqui ficam links para dois artigos sobre cholets , ilustrados com muito boas fotografias – , sobretudo o segundo. Agora, é claro que nem todos os cholets são prédios de habitação, mas alguns são. 

Embora não se encontrem cholets como os de El Alto no resto do país, há alguns traços do seu estilo que começam a difundir-se.

As duas primeiras fotos não são minhas, são Wikimedia Commons. Desta série de fotos, só as três primeiras são de El Alto. As quatro fotos seguintes são exemplos de edifícios que, sem serem verdadeiros cholets, revelam alguma influência da estética neoandina. A primeira é La Paz, a segunda de Uyuni, a terceira de pequena vila de Coroico e a quarta de Rurrenabaque. O edifício de Coroico é interessante, porque é uma versão pobre, digamos assim, de um estilo exuberante. Notem-se os vidros espelhados e as empenas triangulares decorativas («estilo pagode», como vi algures) como características do neoandino que se começam a espalhar.


E há também edifícios modernos que, embora estilisticamente diferentes do neoandino, têm em comum com este as cores garridas e a exuberância.  

As duas primeiras fotos desta última série são de El Alto e estão, infelizmente, pouco nítidas, porque foram tiradas de dentro de um autocarro em movimento. As três seguintes são de Rurrenabaque e a sexta é de Sucre.
A última foto é de Tupiza e não tem nada a ver com as outras; é só um exemplo de alguma arquitetura 
sui generis e algo delirante que se encontra às vezes.



13/04/26

Uyuni

O salar de Uyuni (pronunciar uiúni), na Bolívia, é o maior deserto de sal do mundo, com uma superfície de mais de 10.000 km2. 

Pode dizer-se que não há lá muito que ver — quase só sal. E é isso que é impressionante: olhar à sua volta e saber que as montanhas que se avistam no horizonte estão a mais de 80 km, talvez a mais de 100 (o salar tem, em média, cerca de 125 km de comprimento por 85 de largura). E saber que a camada de sal que constitui a superfície do salar tem uma espessura de cerca de 10 metros e que, sob ela, há mais dez camadas, intercaladas com camadas de argila e lençóis de água muito salgada, com uma espessura total de cerca de 125 metros.


No parágrafo anterior, digo «quase só sal», porque há no salar algumas ilhas, restos de antigos vulcões, com solo de terra, onde cresce alguma vegetação, nomeadamente catos muito grandes. Estas ilhas são invisíveis da periferia do salar, o que deveria dar que pensar a quem acredita que a terra é plana. 


Uma dúvida:
Quando se entorna vinho na roupa, aconselha-se a pôr sal, para tirar a nódoa; 
mas como se tiram as nódoas de vinho no sal?