25/04/26

Casas bolivianas


Isto não é um artigo sobre arquitetura; é só um breve apontamento fotográfico de viagem, mas com um enfoque específico: as casas de habitação bolivianas. Acho que as casas bolivianas têm algumas características que as distinguem das casas dos outros países que conheço, mas é bem possível que algumas dessas características sejam comuns a outros países, nomeadamente da América Latina (além da Bolívia, na América Latina só conheço a Colômbia, o Brasil, o Paraguai e uma pequena parte do Peru). As fotos estão na definição original, de maneira que, clicando-as, podem vê-las em tamanho grande.

As casas antigas que sobrevivem na Bolívia são quase todas de adobe. Notem que não conheço tão bem as terras baixas como a cordilheira andina, mas, mesmo no pouco que vi das terras baixas, vi várias vezes adobe em casas mais velhas. 

Paredes de adobe, vendo-se, na segunda foto, que, o adobe não é feito só de barro, mas também de palha. À direita, casas antigas de adobe na cidade de Sucre.
Na última foto, na parede da empena da casa à direita, o reboque caiu e vê-se o adobe.  


As casas antigas têm muitas vezes tetos de cana, e às vezes também telhados de cana cobertos com terra e depois com telha. Muitas têm pátios interiores e alpendres com pilares de madeira ou de pedra. Muitas casas urbanas antigas têm também balcões de madeira, muitas vezes fechados e às vezes decorados.

As duas primeiras fotos deste série são de Santa Cruz e são exemplos de pilares antigos (ou à antiga) de alpendres e galerias.
Nas quatro seguintes, de Potosí, Sucre e Tarija, veem-se pátios interiores. Os três primeiros exemplos de varandas são de Potosí e os cinco últimos de Sucre.


Encontram-se também, como em qualquer lado, exemplos de várias vertentes modernistas, às vezes bonitos, mas que não me parece terem nenhuma característica especialmente boliviana. 

Três fotos de La Paz .


As casas mais modernas são normalmente de tijolo furado e têm muitas vezes falta de reboco ou outros sinais de inacabamento. A explicação mais comum é que é uma maneira de pagar menos impostos, porque estes aumentam quando uma casa está terminada. A situação é igual no Peru e, segundo um artigo do Economista , são vários os fatores que contribuem para o fenómeno. 

A primeira foto é de La Paz e as duas seguintes de Camargo, uma pequena vila da região dos Cintis.
É assim uma boa parte da paisagem urbana da Bolívia: tijolo cru e alguma coisa inacabada...


Um fenómeno interessante é da chamada arquitetura neoandina, um estilo que é característico da cidade de El Alto. El Alto era, até meados do século passado, um apêndice de La Paz, nascido sobretudo da construção de um terminal de autocarros e do aeroporto. Tendo nascido oficialmente como município próprio em 1985, a nova cidade cresceu rapidamente e tem hoje mais habitantes que La Paz. Alguns dos comerciantes locais prosperaram e começaram a construir prédios grandes e muito vistosaos, conhecidos como cholets, uma amálgama de cholo com chalet . A arquitetura neoandina diz-se inspirada pelas cores e formas da cultura aimara, e nomeadamente pelos motivos pré-incaicos de  Tiahuanaco , a que se mistura, por vezes alguma estética de ficção científica do tipo dos Transformers, Trons ou Iron Man... Aqui e aqui ficam links para dois artigos sobre cholets , ilustrados com muito boas fotografias – , sobretudo o segundo. Agora, é claro que nem todos os cholets são prédios de habitação, mas alguns são. 

Embora não se encontrem cholets como os de El Alto no resto do país, há alguns traços do seu estilo que começam a espalhar-se.

As duas primeiras fotos não são minhas, são Wikimedia Commons. Desta série de fotos, só as três primeiras são de El Alto. As quatro fotos seguintes são exemplos de edifícios que, sem serem verdadeiros cholets, revelam alguma influência da estética neoandina. A primeira é La Paz, a segunda de Uyuni, a terceira de pequena vila de Coroico e a quarta de Rurrenabaque. O edifício de Coroico é interessante, porque é uma versão pobre, digamos assim, de um estilo exuberante. Notem-se os vidros espelhados e as empenas triangulares decorativas («estilo pagode», como vi algures) como características do neoandino que se começam a espalhar.


E há também edifícios modernos que, embora estilisticamente diferentes do neoandino, têm em comum com este as cores garridas e a exuberância.  

As duas primeiras fotos desta última série são de El Alto e estão, infelizmente, pouco nítidas, porque foram tiradas de dentro de um autocarro em movimento. As três seguintes são de Rurrenabaque e a sexta é de Sucre.
A última foto é de Tupiza e não tem nada a ver com as outras; é só um exemplo de alguma arquitetura 
sui generis e algo delirante que se encontra às vezes.



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