23/04/26

De bainhas e vagens


Gosto às vezes de fazer textos assim: pegar numa palavra ou num molho delas e, já que as palavras são como as cerejas, ir dizendo o que me venha agarrado a essa ou essas palavras. Desta vez, o molho de palavras é o das derivadas do latim vagina, porque acho curiosa uma derivação tão produtiva, com tantos descendentes tão diferentes (?) uns dos outros.

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A palavra latina vagina significava originalmente «bainha, estojo de faca ou espada», significado que se alargou para «estojo, capa, proteção» de qualquer coisa (casca de grão, vagem, vagina, etc.). A palavra tem muitos descendentes, sobretudo nas línguas românicas, mas também em línguas célticas. Em português deu bainha, vagem e a forma não standard vage/bage, e a forma culta vagina

E também deu baunilha, que não deriva diretamente do latim, mas sim do castelhano vainilla, diminutivo de vaina, «vagem», palavra essa que deriva, essa sim, diretamente de vagina. Será que se pode considerar «uma vagem de baunilha» um pleonasmo? 😊

Os axónios dos neurónios são revestidos por uma  bainha de mielina,
que os protege e acelera a propagação dos impulsos nervosos. 
Imagem: Creative Commons, daqui

Bainhas

Não deixa de ser curioso assinalar, que, nas línguas latinas mais próximas, há vários cognatos de bainha com o significado original de «estojo de arma branca [1] », mas o significado de «dobra cosida para rematar uma peça de vestuário» só se desenvolveu em português [2]

Note-se, já agora, que não são só as armas brancas que têm bainhas: as unhas retráteis dos felinos também. 

Além dos usos mais comuns, bainha tem ainda usos técnicos e científicos muito específicos que não vou listar aqui, mas que têm sempre a ideia de capa, invólucro, proteção.


Vagens

A evolução de vagem é curiosa: paralelamente a vainha/bainha, vagina evoluiu também, no romance do noroeste ibérico, para vaginha/baginha, que foi depois interpretado como diminutivo de vage/bage, tendo-se então «reconstruído» uma forma que nunca existira[3]. Quando digo «interpretado» não falo de uma interpretação consciente, mas de uma interpretação inconsciente pelo programa mental, digamos assim, dos falantes da língua. Isto acontece muitas vezes e é o que se chama reanálise.

Além do seu significado geral mais comum de «fruto em forma de cápsula, com muitas sementes lá dentro», a palavra vagem designa também, nalgumas regiões de Portugal, uma vagem específica, a do feijão, quando se come inteira antes de os feijões se desenvolverem — o que, nas outras regiões se chama feijão verde[4]

Agora, não é só a vagem do feijão que se pode comer inteira: as vagens de ervilhas e favas também são comestíveis. Ver, por exemplo, aqui, aqui, aqui e aqui.


Vagens de baunilha, ilha da Reunião
A baunilha é a mais cara de todas as vagens. O preço varia muito conforme a sua qualidade, mas vi agora online que as vagens de baunilha de qualidade superior podem custar algo como 2€/grama, para quantidades pequenas. A baunilha é uma orquídea domesticada na zona que é hoje o México e o seu cultivo é bastante trabalhoso, implicando nomeadamente polinização feita à mão, com uma técnica descoberta por Edmond Albius, um rapaz escravizado da ilha da Reunião. Edmond Albius tinha só 12 anos quando descobriu o método que veio revolucionar a produção de baunilha.


Uma vagem muito saborosa (ou melhor, a polpa branca que a reveste interiormente) é o pacai (Inga feuilleei). Em inglês, o pacai chama-se ice cream bean, o que dá uma ideia da textura e sabor da polpa. 

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[1] Entre outros, vaina em castelhano, gaine em francês, guaina em italiano, beina em catalão e vaíña em galego.

[2] Por exemplo, ourlet em francês e orlo em italiano, cognatos do português orla; dobladillo em castelhano e doblec em catalão, ambos de origem óbvia; e basta em galego (que também existe em castelhano com o significado de «alinhavo», que confusão!), de origem germânica. 

[3] A nasalização no fim da palavra surge depois por analogia com palavras que a tinham naturalmente por derivarem de termos latinos terminados em -ine, como margem ou origem .

[4] Em vários falares hispano-americanos, usa-se também vaina, «vagem», para designar o feijão verde.  



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