22/04/26

Três breves notas sobre etimologias não muito claras

Caiar

[* significa forma hipotética, não atestada]

O Dicionário Etimológico de José Pedro Machado, diz que caiar vem do latim canāre , «tornar branco», passando pelas formas * cãar e * cãiar [1] . A etimologia proposta por José Pedro Machado parece-me estranha, porque não faz derivar de cal o verbo caiar — e caiar é cobrir de cal , pelo que seria muita coincidência vir de uma palavra não relacionada com cal com os mesmos sons iniciais. Além disso, não encontro outras palavras com uma evolução semelhante à que José Pedro Machado propõe...

O Aulete faz a mesma proposta, mas com menos convicção: propõe que talvez venha de canāre . O Priberam prefere considerar que o termo é de «etimologia duvidosa». O Porto Editora propõe em alternativa canāre ou caleāre , «estar quente», mas com interrogação. O Dicionário da Academia das Ciência de Lisboa propõe apenas o latim * caleāre , por calēre , «estar quente». Antenor Nascentes no seu Dicionário Etimológico Resumido concorda que «a base deve ser cal», mas acha que «a parte fonética está difícil de estabelecer», porque «* caleare daria * calhar e não caiar » [2] . O Aurélio também propõe em alternativa duas hipóteses, canāre ou a forma portuguesa [e galega, acrescento eu] calear , que vem obviamente de cal . Esta última hipótese de vir de outro verbo, deverbal de cal , parece-me bem mais convincente do que a de vir do clássico caleāre , «estar quente». 

Agora, não sei se a evolução de calear (e) levaria forçosamente a * calhar e não a caiar . Vejamos o que aconteceu com bailar . É normalmente aceite que bailar vem do latim tardio ballare , nalgumas propostas através do provençal balar , mas Antenor Nascente diz que «o i é inexplicado». Nunca vi nenhuma explicação sobre o i no bailar português, mas há uma boa hipótese sobre a evolução em espanhol que explica esse mesmo i : ocorre primeiro uma passagem do ll latino a li e depois uma metátese de * baliar a bailar . Em português, está atestada a forma balhar , que parece confirmar uma forma * baliar anterior, e bailar bem pode provir também da metátese de * baliar a bailar postulada para o castelhano. A ser isso certo, balhar foi uma das evoluções de * baliar , a outra foi bailar . Podemos ainda ir mais longe e constatar que, pelo menos no Brasil, se regista a forma baiar , que não sei onde nem quando se formou. 

Por fim, das palavras diretamente relacionadas com cal , não é só na palavra caiar que surge o i  . Há também caieira , que coexiste com caleira para significar «forno de cal»; e caieiro que, como caleiro , refere o homem que fabrica e/ou vende cal [3] . Estas formas são fáceis de explicar (cal+eiro=caleiro>caeiro>caieiro) e devem ser considerada na discussão de caiar . O que eu não sei é se tiveram uma difusão tal que se possa considerar que caiar se possa ter formado por influência delas...

Serralheiro e cerrajero  

Serralheiro, séc. XV (Wikimedia Commons, 
ver mais informação aqui .)
Pode surpreender que a palavra espanhola para serralheiro seja cerrajero , porque é fácil associar serralheiro a serra e cerrajero a cerrar , «fechar». Mas como é que duas palavras tão semelhantes não são cognatas? 

Quando se pesquisa, porém, chega-se à conclusão que as duas palavras são de facto cognatas, porque vêm ambas, em última instância, do verbo latino serāre , «fechare». O Dicionário da Real Academia Espanhola dá como étimo imediato de cerrajero o termo cerraja , «fechadura», derivado de seracŭlum , do latim tardio serāre , «fechar» [de sĕra , «tranca de porta»]. Os dicionários portugueses dão antes como étimo o latim serracŭlum , «leme». Já agora — e isto é também interessante — todos os dicionários que vi concordam que é o latim tardio serāre que está na origem de cerrar e encerrar.

Há aqui vários mistérios: 

Na proposta espanhola dos étimos seracŭlum para cerraja e na proposta de todos os dicionários de serāre para cerrar , como é que o r intervocálico latino se transforma em rr ? De facto, a oposição entre r e rr entre vogais é clara em todos os falares ibéricos e parece manter-se inalterada desde o latim aos falares modernos. 

Quanto à distinção entre c e s , se é verdade que ela hoje está anulada em muitos falares ibéricos, ela manteve-se até hoje na maior parte do castelhano de Espanha, uma parte do galego, e persiste ainda, embora moribunda, em falares do norte de Portugal. É certo que se anulou na maioria das zonas de falas ibéricas (castelhano andaluz, canário e americano, português moderno excetuando os dialetos já referidos), mas foi clara até relativamente tarde. Será que cerrar já foi serrar ? É claro, na proposta dos dicionários portugueses de serracŭlum para base de serralheiro , a questão do rr não se põe, mas... como se chega de leme a serralharia?

Há algo nestas questões que merece maior esclarecimento…

Sobre a questão do rr , diz Antenor Nascentes que cerrar vem do latim serare , «fechar com fechadura», «influenciado por serra , serrare , como atestam muitas glosas». O latim serrāre tinha já o mesmo significado que serrar , «cortar com serra».

Antenor Nascentes assinala, para a etimologia de serralharia e serralheiro , que vêm de «um primitivo perdido, derivado do lat. vulg. serraculu , «fechadura», tirado de serrare (pelo clássico serare , e conservado em espanhol, italiano, provençal e francês)»

Se a proposta de interferência de serrar na história de cerrar me parece perfeitamente plausível, é ainda mais plausível, pela proximidade semântica, uma influência de serrar na história de serralheiro . E é certo que esta interferência pode, nos dois casos, ter levado à adoção de um rr onde a etimologia não o justifica. Assim, o mais lógico é que o étimo seja  seracŭlum , «fechadura», como propõe a Real Academia Espanhola, mais tarde transformado pela influência de serra , e não o leme serracŭlum . E o lógico é que o primitivo perdido, que se encontra noutras línguas, seja, em português, * serralho ou * serralha , com o sentido de «fechadura».

Vaipe

Descobri agora que alguns dicionários já registam a palavra vaipe (Porto Editora: «mudança súbita de comportamento; reação inesperada; impulso»), mas não propõem nenhuma etimologia. A mim, a origem sempre me pareceu óbvia, mas uma pessoa nunca se deve fiar muito nas suas intuições, de maneira que despromovo a minha certeza a tímida proposta: creio que vaipe é uma deturpação, feita na gíria jovem angolana dos anos 60/70, do inglês vibe , abreviatura, na gíria juvenil da década de sessenta, de vibration . A confusão entre [b] e [p] não surpreende, pelo que a única coisa que falta explicar é o género masculino, já que, sendo vibration um cognato facilmente identificável de vibração , a sua abreviação seria naturalmente feminina em português. A atribuição do género feminino acontece de facto, quando se usa o empréstimo vibe(s) no discurso em português, que eu creio que é algo posterior e que mantém o significado da expressão inglesa. Se pensarmos, porém, que a importação anterior, que deu vaipe , foi feita por pessoas com poucos conhecimentos de inglês, é provável que não houvesse consciência da relação entre vibe e vibration . Essa falta de domínio da língua de origem da palavra pode também explicar o desvio semântico: em vez de descrever « o ambiente de um lugar, de uma situação ou estado de espírito, disposição de uma pessoa, etc., e a maneira como nos fazem sentir », vaipe passa a descrever o surgimento de uma disposição ou estado de espírito.



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[1] A edição a que tenho acesso diz que  canāre  passou a «* cãar que se tornou * caiar e, depois, caiar ». Presumo que a repetição da forma seja gralha e que a segunda forma intermédia seja antes * cãiar .   

[2] Dependendo do período em que se proponha a evolução de caiar a partir de calear , pode dizer-se o mesmo desta proposta que da proposta de um caleare latino: também devia dar * calhar

[3] A. M. Galopim Carvalho inclui na lista de derivados de cal os caios , «ilhas rasas, feitas de areia calcária, dos mares recifais das Caraíbas», mas é palavra que não encontro em dicionários.

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