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19 de janeiro de 2015

Criação humana e criação divina

Eis dois excertos de um conto que escrevi há quase 15 anos. São partes de uma conversa sobre criação que os protagonistas retomam de cada vez que se encontram.


Artista anónimo, cerca de 1220-1230.
Codex Vindobonensis, Biblioteca Nacional da Áustria.
“Aqui cria Deus céu e terra, sol e lua e todos os elementos”
(Wikimedia Commons)
– Você acha que para criar é preciso ter algumas qualidades especiais além de ser escritor ou músico ou dominar, enfim, uma determinada forma de expressão artístico?
– Explique-se lá, que eu não sei se o percebo... Que tipo de qualidades especiais?
– Não sei, mas há muito quem apregoe que os artistas têm mais qualquer coisa que os outros... Mais sensibilidade, mais sentimento, um olhar mais acutilante...
– Isso é tudo mentira, meu amigo, é uma grande mentira em que, infelizmente – você tem toda a razão nisso –, há muito quem acredite... Então, mas se há tanta gente tão sensível, tão inteligente, tão tudo, que é incapaz de arte!... E tão grandes artista – mas grandes artistas de verdade, em todos os domínios – que não passam de uns burgessos, de uns alarves, umas bestas! Eu conheço alguns, se quer saber...
– Bom, se o criador, para o ser, não precisa de maior sensibilidade que as outras pessoas, menos precisa então de maior sabedoria, de maior inteligência ou de maior sentido de justiça.
– Exatamente, não poderia estar mais de acordo consigo. Não tenho dúvidas que há personagens que têm em triplicado as qualidades morais e intelectuais do seu autor. O criador – como já disse, mas repito –, do que precisa é de alguma coisa que se pode definir de uma forma vaga como “espírito criativo”, ou “capacidade criativa”, e que tem a ver muito diretamente com o domínio em que cria.
– Então, diga-me lá, porque é que não há de ser assim com toda a criação?
– Com toda a criação?
– Sim, com toda a criação. Mesmo que admitamos que o universo tem de ter um criador, isso não implica que esse criador tenha de ter mais nenhuma qualidade especial a não ser essa competência criativa de que você falava – não é por ter criado os mundos que existem que Deus tem de ser mais justo, sabedor ou inteligente que as suas criaturas!


***

– Li uma vez que o poder de destruir é maior que o poder de criar apenas. Nenhum criador pode desfazer o que criou.
– Isso agora depende de você ter uma visão mais ou menos materialista do mundo. Se você acreditar que nada existe sem um suporte material, basta agarrar no suporte material da criação – o caderno manuscrito, o livro impresso, a tela pintada, a pauta ou a gravação, tudo isso –, e queimá-lo, rasgá-lo, dar cabo dele seja lá como for e já não há a criação. Mas se você acreditar que as coisas existem primordialmente enquanto ideias, noções, conceitos apenas, bem, então não, não se pode desfazer a criação...
– Pois olhe, eu considero-me um materialista, mas a postura materialista dura que você acabou de referir não me parece muito defensável. Bom, em última análise, depende também um pouco das características de cada tipo de obra de arte... Aceito que um quadro que já vi e que foi destruído “já não exista”, porque a recordação que tenho dele, por excelente que seja, não me impressionará nunca – e digo impressionar no sentido do estímulo percetivo, da sensação – como vê lo de facto, ali, diante de mim. Aceito que uma música que já foi tocada e que nunca mais volte a ser tocada, porque os registos todos que há dela, escritos como sonoros, foram destruídos, também possa ser considerada como “já não existente”, pelas mesmas razões. Mas não me convenço de que, se forem queimados todos os exemplares existentes de Crime e Castigo, e já não houver o texto, e, por isso mesmo, maneira de o voltar a imprimir, Raskolnikov, para só falar da personagem principal, deixa, de repente, de existir...

2 de setembro de 2014

Latas de coisa nenhuma e outras novidades

Enfim uma boa notícia: água em pó! As embalagens, com cerca de 1.000 gramas, têm apenas a seguinte instrução de utilização: “basta juntar água”. 
É uma piada que por aí circula, com várias redações. Mandou-ma um amigo, com a seguinte introdução: “Olha a tanga deste…”

Este amigo fez comigo um programa de rádio nos anos oitenta. Num sketch humorístico desse programa, entrevistava ele um tal Professor Agadois do Ó (eu), que tinha inventado a água liofilizada. O sketch foi improvisado, como muitas vezes eram os nossos sketchs no programa. Eu tinha alinhavado a história da água liofilizada, expliquei-lhe qual era a ideia e improvisámos.

“Ora bem”, explicava eu, “a liofilização é um processo que permite tirar a água a qualquer substância para assim a conservar, podendo depois reconstituir-se essa mesma substância acrescentando-lhe a água que lhe foi retirada. Agora, bem vê, se tirarmos a água à água, não fica grande coisa… A bem dizer, não fica nada… De maneira que é muito leve, muito fácil de transportar, por exemplo, nos sítios onde não há água, como os desertos. Depois, em a gente tendo sede, é só juntar água e pronto, temos outra vez água!”

O que o meu amigo queria dizer quando me escreveu “Olha a tanga deste…” era, pois, que o outro chegava tarde – aquela história era uma criação nossa, há quase 30 anos. Mas parece-me improvável. Não que eu tenha ido buscar a ideia a algum lado, que não fui – inventei-a eu; mas é provável que alguém tivesse já tido a mesma ideia antes de de mim, de óbvia que é a brincadeira.


Neste momento, a ideia até já está registada. Descobri o ano passado que, a 18 de junho de 2010, foi registada nos EUA a patente de “latas vazias” de “água desidratada” como “artigo humorístico” (aceito proposta de melhor tradução para novelty item). “Verta o conteúdo da lata num galão de água, mexa até estar dissolvido, ponha no frigorífico e sirva”, diz a lata.

Na realidade, a ideia de vender latas vazias também não é original. Conheço há muito tempo as latas de ar de Paris das lojas de souvenirs de Beaubourg e descobri agora que também se vende ar do mar-alto bretão. Não sei quando começaram a produzir-se as latas de ar de Paris, mas também não são uma ideia original: numa viagem que fez aos Estado Unidos em 1919, Marcel Duchamp ofereceu ao seu amigo Walter Arensberg uma ampola de ar de Paris, que é considerada um dos seus readymades e está hoje exposta no Museu de Arte de Filadélfia.

Também não é forçoso que quem inventou as latas de ar de Paris conhecesse a ampola de Duchamp – pode ter tido a mesma ideia, como o senhor Bernard teve a ideia da água desidratada mesmo sem ter ouvido a entrevista com o Professor Agadois do Ó no nosso programa radiofónico. “O segredo da criatividade”, disse Cyril Edwin Mitchinson Joad (e de muitas maneira diferentes!), “é saber esconder as suas fontes”. Mas não é bem assim, pois não*?


P.S. 1: Um dia destes, veio-me à cabeça uma maneira de aferir a genialidade de uma criação (o grau de criatividade, se se preferir): Quanto menos vezes ela tiver ocorrido autonomamente, mais genial ela é. Dito de outra maneira: se uma criação resultar de um cruzamento de capacidades, vivências e conhecimentos tão únicos que é improvável voltarem a acontecer, estamos perante uma verdadeira originalidade, um golpe de génio, um alto grau de criatividade. Foi essa ideia que motivou este texto. Mal comecei a escrevê-lo, porém, dei-me conta de que a ideia, que, à primeira vista, parece elegante, não tem, na prática, aplicação nenhuma… Teoricamente, é possível contar as ocorrências de uma determinada criação múltipla, mas na prática isso é, em muitos casos, completamente impossível…

Além disso, há imediatas objeções à justeza da proposta. Uma é que juntar sob a designação genérica de ideia ou criação descobertas, invenções e trabalho estético é um artifício que apaga especificidades de cada um dos tipos de criação, incluindo a maior ou menor possibilidade de ocorrência múltipla independente: descobrem-se coisas que existem no mundo real, sejam elas materiais ou conceptuais, pelo que é, nesse caso, mais provável que várias pessoas venham a descobrir o mesmo. O mesmo se pode dizer de muitas invenções, que também decorrem naturalmente do contacto com o meio, como a domesticação de animais, a agricultura ou a fotografia, e são, por assim dizer, um tipo de descoberta. A criação estética é diferente e é também mais difícil definir o que é criação neste caso: cada um dos elementos da obra ou a obra no seu todo? Se é verdade que uma determinada imagem literária pode ser criada autonomamente por muitas pessoas, é impossível duas pessoas escreverem o mesmo texto.

Além disso, o conhecimento bloqueia a segunda criação: se eu sei que uma coisa foi criada, já não a posso criar. (Posso apresentá-la como minha, mas deixemos agora de lado a questão do plágio, que é outra questão.) A diferente velocidade de divulgação de várias criações impede uma comparação justa da sua originalidade.

P.S. 2: Também se tenta às vezes comparar a importância de diversas criações, sejam elas descobertas, invenções ou outras. É uma empresa sem grande sentido, convenhamos, por muito que, por vezes, dê azo a conversas interessantes. Uma coisa me parece certa, porém: a importância que possa ter uma criação não tem nenhuma relação com a sua improbabilidade. Por exemplo: a descoberta da maneira de desenhar um círculo, que é altamente provável e que, por isso, foi com certeza feita independentemente por muita gente, é, ainda assim, mais importante que a descoberta da maneira de desenhar outras formas geométricas mais complexas e mais incomuns.
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 * Já uma vez aqui tinha falado de invenções múltiplas autónomas: “Tenho muitas vezes a sensação”, escrevi eu, “de que somos sobretudo lugares onde acontecem coisas. Podemos ser um lugar onde acontece uma invenção ou uma descoberta, por exemplo – que, se não acontecer em nós, acontece noutra pessoa qualquer.”