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24/11/23

Nome próprio


Toda a minha vida fui Vítor. Quer dizer, sempre foi assim que escrevi o meu nome. O meu primeiro bilhete de identidade tinha Vítor e todos os outros bilhetes de identidade que se seguiram tinham Vítor também. A confusão começou de uma vez que me roubaram o passaporte em Moçambique e tive de mandar vir de Portugal um assento de nascimento. Foi nessa altura que descobri que era Victor que constava desse documento inaugural. De maneira que fiquei Victor nesse passaporte — mas voltei a ser Vítor no passaporte seguinte… Mas depois, quando fui tirar o meu primeiro cartão de cidadão, recusaram-me o Vítor. 

Até aqui, já tinha contado a história toda aqui na Travessa. Agora, em junho passado, quando fui renovar o passaporte no consulado em Copenhaga, voltaram a recusar-me a grafia que sempre usei. Durante alguns meses, fui Vítor nos documentos dinamarqueses e nalguns documentos portugueses que não uso há anos e que não sei se alguma vez voltarei a usar, e Victor nos dois documentos portugueses mais recentes, o cartão de cidadão e o passaporte. Mas achei que isso ainda havia de me arranjar problemas e resolvi uniformizar tudo: agora sou Victor também nos documentos dinamarqueses. 

Ser Victor é, ainda, uma coisa estranha para mim e para quem sempre me conheceu como Vítor. Mesmo os meus colegas dinamarqueses me dizem que não se habituam a que eu agora seja Victor.

– Não têm de mudar a maneira de dizer, aquele C não se pronuncia em português –, explico-lhes eu, mas, para eles, Victor é outro nome, o nome dinamarquês que também se pode escrever Viktor. 

Valha-nos isso, o meu nome internacionalizou-se, porque Victor há em todo o lado. Em inglês, até como nome comum. É claro, o que se ganha em internacionalismo é o que se perde em exotismo, mas sempre fui mais apologista do primeiro que do segundo.

Já pensei em mudar também o nome do blogue — ou, pelo menos, a fotografia do cabeçalho. 


21/11/23

Um soneto, lúcia-lima, irreconhecimento e recordação

 

Não acham estranho pensar numa pessoa com uma (id)entidade que persiste ao longo do tempo? Não há nenhum eu que nos acompanhe ao longo na vida; nem como personalidade, sequer, quanto mais como mente — eis a conclusão a que chego depois de muito escrutinar a questão. Não só guardamos em nós muito pouco do corpo que vamos tendo, como a mente vai mudando tanto ao longo do tempo que, a dada altura, essa mente estranha o que já foi. A mim, pelo menos, acontece-me muito: quando observo agora coisas ditas, pensadas, feitas por outro momento de mim, não me reconheço nelas. Às vezes, nem as percebo. Penso: «o que quereria eu dizer com aquilo?» ou «que estranha forma de me comportar!». Outras vezes, o que me espanta é antes reencontrar nesse eu de outra época semelhanças com quem estou agora a ser.

Há uns dias, quando estava a limpar uma gaveta da cozinha, encontrei um saco de folhas de lúcia-lima do nosso quintal, que a minha mulher me propôs que deitasse fora, porque estavam ali há muito tempo e ninguém lhes tocava. A verdade é que nem sabia que tínhamos ali lúcia-lima. Fiz um chazinho e pus o saco no meu escritório, ao lado do computador, para não me esquecer de a ir bebendo. O odor e o sabor da lúcia-lima trouxeram-me à memória o quintal da casa na Rinchoa onde vivi consecutivamente dos seis aos dezassete e depois, a espaços, até aos vinte e quatro; e, reminiscência puxa reminiscência, lembraram-me um soneto que tinha escrito em que descrevia o quintal e falava das suas verbenas — as lúcia-limas*. Fui à procura dele. É de 15 de setembro de 1986 e está dedicado a Roberto de Mesquita. Lembro-me de que, nessa altura, tinha descoberto Roberto de Mesquita e tinha gostado muito da sua poesia. Mais de que um poema dedicado a Roberto de Mesquita, o soneto é, acho eu, um poema à maneira de Roberto de Mesquita. Resolvi corrigir-lhe a métrica, que estava torta e o resultado é este:

Pendem já maduros os cachos de uva 
Da latada, no carreiro do quintal 
Cujo saibro acarinha, suave, a chuva 
Temporã, morna morrinha estival. 

Lá do fundo do céu, ameaçadoras, 
Vêm nuvens negras de tempestade. 
Lentas como elas desfilam as horas. 
Esvai‑se do dia a turva claridade. 

O vento da tarde açoita as verbenas. 
É por certo dele esta voz sofrida 
Que vem não sei de onde e que me diz: 

«Para quê alegrias? P’ra quê penas? 
Vive‑se p’ra morrer no fim da vida 
E não p’ra ser feliz ou infeliz…»

Passados 37 anos, vivo uns 16° mais a norte e 20° mais a leste. Troense tem algumas coisas em comum com a Rinchoa da minha infância, porém, e tenho um quintal mais ou menos com o mesmo tamanho que o quintal da casa onde cresci. Não tenho oliveiras, nem limoeiros, nem laranjeiras, nem pereiras, nem ameixeiras, mas tenho maçãs, abrunhos e morangos, como tinha na Rinchoa — e uvas morangueiras, que, por causa da diferença de latitude, amadurecem umas duas ou três semanas mais tarde que as do soneto.

Voltemos à questão da impermanência do eu. O autor deste soneto é um momento tão distante de mim que, se não soubesse que tinha sido eu a escrevê-lo, nunca o reconheceria como sendo meu. «Eu não escrevo assim», pensaria. Mas não porque não reconheça a paisagem como minha, notem, ou porque não concorde, se se pode dizer assim, com o bombástico remate. (Dito assim, parece mais que estou a falar de um ensaio que de um soneto, mas acho que percebem o que quero dizer.) Podia, aliás, escrever hoje a mesma coisa, em verso ou não: não é para se ser feliz que se aqui se anda e é absurdo nortear-nos pela procura da felicidade.

Passemos agora daquilo em que não me reconheço àquilo que recordo de mim, que é uma coisa diferente. Tomemos o terceto final. Se escrevesse hoje alguma coisa com o mesmo significado, quereria dela outro sentido. Quando leio esses versos neste soneto, lembro-me do que pensei muito tempo e sei que é da apologia da abolição das emoções que se trata. Foi uma obsessão minha durante muitos anos. Mais budismo que estoicismo, mas um budismo sui generis e confuso. Achava que alegria e tristeza eram ambas produto de uma mesma coisa, do maior de todos os males, a mente — um emaranhado de juízos e sentimentos, uma projeção constante de mim em tudo o que conhecia, que me impedia de ver as coisas como elas de facto eram. Agora, há muito que deixei de querer livrar-me de emoções e julgamento. Constato simplesmente que toda a vida, seja ela qual for, seja consciente ou não, não existe para nada específico, não tem telos, finalidade, propósito nenhum: é um dado biológico apenas, uma sucessão simples de reações físico-químicas, sem mais. A vida tem obviamente um único sentido, na aceção de direção — vai do princípio para o fim. Tudo o mais é a gente a dizer coisas.





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* A lúcia-lima não é atualmente incluída no género Verbena (é do género Aloysia, espécie citriodora), mas é da família das Verbenaceae. Creio que, quando escrevi o soneto, estava mesmo convencido de que era uma Verbena, até porque era muitas vezes assim referida (como Verbena triphylla ou Verbena citriodora). É uma planta maravilhosa.

01/02/20

Não sei se vos acontece o mesmo


Não sei se vos acontece o mesmo. A mim, acontece-me todos os dias. Todos os dias penso: «Hoje vou ser uma boa pessoa.» No sentido, estão a ver?, de não fazer nada que ache mal, nada que me possa, muito ou pouco, pesar na consciência. E depois nunca sou essa boa pessoa que decidi ser.



07/08/18

Vítor com cê

Uma vez, demorei quatro horas para fazer os 45 quilómetros que separam Nicoadala de Quelimane, numa camioneta de caixa aberta que tinha apanhado em Mocuba. (Digo «apanhado», porque a camioneta, como todos os automóveis na altura, servia de transporte público – ou, como se dizia, «fazia chapa».) A camioneta ia atafulhada de gente e a estrada era uma faixa de grandes crateras. Mesmo num veículo ligeiro e com tração às quatro rodas (um «fòbaifó», como se diz em Moçambique), não se conseguia andar muito mais depressa. Muitos buracos da estrada tinham bem meio metro de fundura e era como viajar em mar picado, aquele descer e subir crateras. Uma pessoa ficava maldisposta. Do Alto Molócuè, onde eu morava, eram cerca de 350 km até Quelimane. Nessa altura, quem não tivesse transporte próprio só podia fazer assim a viagem, de chapa – e chapas eram todos os carros que passassem e onde se conseguisse encafuar mais um passageiro mediante o pagamento de uns quantos meticais. Dessa vez, o motivo da minha viagem a Quelimane era um cê. A sério.

Tinham-me roubado o passaporte em Chocas-Mar, uma praia idílica na província de Nampula, mesmo em frente à Ilha de Moçambique. Para se fazer novo passaporte, era preciso o meu assento de nascimento, que pedi que me enviassem de Lisboa. Felizmente, não era necessário ir a Maputo; havia um cônsul honorário em Quelimane, cuja secretária se ocupava deste tipo de coisas. Foi dessa senhora que recebi uma mensagem no Alto Molócuè. Nessa altura, não havia telefone na vila, mas podia comunicar-se por rádio com a estação dos correios e foi o funcionário dos correios a minha casa dar-me o recado:
– A senhora diz que há problema com o seu pedido de passaporte e que tem de lá ir falar com ela.
E eu fui, logo na manhã seguinte. Quando falei com a senhora, fiquei a saber que o problema era o cê de Victor – ou a sua falta.

O meu bilhete de identidade dizia que eu me chamava Vítor, mas o assento de nascimento dizia Victor. Não podia ser.
– Sempre tive Vítor no BI e o passaporte que me roubaram também tinha Vítor. Sempre escrevi assim o meu nome. Nem sabia que o assento de nascimento tinha Victor – disse eu à senhora. – É capaz de ter sido quando houve aquela reforma em 1973 em que se acabaram com os acentos graves, sabe? Se calhar, decidiram passar todos os Victores a Vítores…

Eu sabia que era uma explicação pateta, porque uma coisa não tinha nada a ver com a outra, porque o meu primeiro BI era anterior a 1973 e porque continuava a haver muitos Victores, mas a senhora lá se convenceu de que me podia passar o passaporte, «mas como estava no assento de nascimento». Fiquei com uma discrepância entre o BI e o passaporte, mas não me preocupei muito com isso. E continuei a escrever Vítor em todo o lado, como sempre tinha feito.

Quando fiz o pedido de residência na Dinamarca, escrevi Vítor. A funcionária que recebeu o pedido deu logo pela falta do cê.
– Nem sabe escrever o seu nome! – disse-me ela num tom de desdém.
 
Fiquei sem vontade de lhe explicar fosse o que fosse sobre as subtilezas da grafia dos antropónimos. Na realidade, eu sabia muito bem escrever o meu nome e a grafia Victor está simplesmente errada: uma palavra sem acento gráfico terminada em erre é forçosamente aguda e ninguém se chama [vitor]. Mesmo com o tal cê etimológico, era Víctor que se devia escrever. Mas nunca tal vi – ou é Vítor ou Victor.

Prevendo mais chatices, quando me registei no Consulado em Copenhaga, pedi um documento (sem qualquer valor legal, mas enfim…) em que se explicasse que Vítor e Victor eram ambas variações corretas de um mesmo nome, o meu. E passaram-mo.

Quando renovei o bilhete de identidade, acederam em passar-mo com a grafia que tinha no BI. O meu nome – agora acrescido do apelido da minha mulher, que adotei – era de novo sem cê tanto no passaporte como no BI: Vítor Manuel Lucas Santos Lindegaard. Mas foi sol de pouca dura.
Quando fui, há três semanas, substituir o BI pelo Cartão de Cidadão, disseram-me que tinham de escrever o meu nome como estava no assento de nascimento, entretanto digitalizado. E voltou a haver discrepância, mas agora ao contrário da que tinha sido iniciada em Quelimane: é o passaporte que não tem cê e o cartão de cidadão que o tem. A ver quanto quilómetros vou ter de fazer de chapa-cem por causa disto…

07/12/11

Um bocadinho de publicidade

[Isto é um re-post sem querer. Corrigi umas coisas num post antigo e ei-lo que me aparece aqui de repente. Bom, já que aqui está, pois que fique...]

Deixo-vos aqui as primeiras 1500 palavras do primeiro conto do meu livro de contos faz de conta que histórias, a ver se acham alguma graça e ficam com vontade de ler mais. Se não, comprem na mesma...
Lindegaard, Vítor, faz de conta que histórias. Lisboa: Campo da Comunicação, 2010. ISBN: 978-972-8610-94-4

“Silêncio” (excerto)
Deus disse: «Façamos o homem à nossa imagem, segundo a nossa semelhança e que ele domine os peixes do mar, as aves do céu, os animais, toda a terra e todos os pequenos animais que se movem sobre a terra!»
Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; macho e fêmea o criou.
Estes versículos 26 e 27 do livro da Génese, que a tradição atribui a Moisés, tratam um mistério tão fundamental que não podem senão abrir-se generosamente a qualquer proposta de interpretação. Eis a de Venmani Tirunal Patire, o protagonista da curiosa história que vos quero dar a conhecer:
Tudo o que é exclusivamente humano foi directamente dado aos homens por Deus, ao contrário daquilo que os homens compartilham com outras criaturas, que resulta de uma evolução do mundo natural (a que Deus só não é completamente alheio porque foi Ele também que criou esse mundo natural e pôs em marcha essa evolução, mas sem que tivesse nem para as coisas da natureza nem para o desfilar dos tempos nenhum desígnio específico…). É isso que quer dizer sermos à semelhança de Deus. Misturem-se as feições de todos os humanos, existidos já ou que venham ainda a ser, e obteremos o rosto de Deus; juntem-se os nomes de todos os homens pretéritos, presentes e futuros, e o nome radioso e impronunciável que resultar é o nome verdadeiro da divindade; adicionem-se todas as qualidades e anseios dos mortais e a soma será a imortal essência divina! E a quem me peça que explique o que quero com isto dizer, respondo da forma mais clara que sei: isto quer dizer, por exemplo, que Deus sabe construir vasos e fortificações, mas não compreende as línguas da serpente ou do leopardo.
Noutros tempos e noutros espaços, esta heresia teria sido ferozmente combatida tanto pela espada como pela pena, como o foram outras semelhantes, mas as notas em que Venmani Tirunal Patire dá conta das crenças de base da sua fé foram escritas em 1732, na ecuménica cidade de Trivandrum, onde não chegou nunca a fúria da Roma, e, muito provavelmente, nunca foram sequer dadas a conhecer a ninguém.
De Venmani Tirunal Patire, pouco se sabe, e nada com absoluta certeza. Tudo leva a crer que tenha sido cristão da antiga igreja de Malabar, diz a lenda que fundada pelo apóstolo Tomás, e que, na altura em que Venmani Tirunal Patire viveu, estava oficialmente unida com o rito sírio, embora as suas notas revelem uma completa dissidência relativamente aos dogmas dos cristãos do Sul da Índia. Sabemos, porque no-lo diz, que foi estudante de música, e isso leva-nos a concluir que deve ter estudado a tradição musical carnática, que, mesmo para um cristão, era, naquele tempo, a única música que se podia estudar na região. Terá também sido, como todas as pessoas cultas daquela época e daquele lugar, senhor de alguma fortuna pessoal, pelo menos se foi mandado construir por ele o mausoléu onde foram encontradas as notas que aqui refiro e que são tudo o que dele nos chegou. O estranho mausoléu, recentemente descoberto e escavado por arqueólogos ingleses, é completamente atípico na região. Não tem, aliás, parecenças com os mausoléus de nenhuma outra tradição: é constituído por três cúpulas de pedra, semiesféricas, concêntricas e muito estanques, que se sobrepõem e que, provavelmente, eram subterrâneas quando foram construídas. Os textos, escritos numa forma ligeiramente arcaica de malaialame, encontravam-se dentro de uma caixa bem selada de madeira dura, como se lhes tivesse sido destinada a sorte que realmente tiveram, a de virem a ser achados séculos mais tarde. Junto da caixa, um esqueleto com três séculos de um homem que se supõe ser o autor das notas, o próprio Venmani Tirunal Patire. São os próprios textos que, como verão, levam a essa suposição.
Ao contrário do que possa fazer-nos esperar a nota introdutória que transcrevi acima, o resto do texto de Venmani Tirunal Patire é mais narrativo do que ensaístico. E, também ao contrário do que acontece na primeira nota, ao pé da qual há a menção clara «cidade de Trivandrum, no ano de 1732», na segunda parte do texto, que parece ter sido escrita toda na mesma altura, não há qualquer referência à data da sua redacção. Quanto ao local em que foi escrito, o texto indicia, como verão, que terá sido o próprio mausoléu em que foi encontrado. E cumprida que é a minha função de apresentador, dou a palavra a Venmani Tirunal Patire:
"Quando me surgiu pela primeira vez a questão a cuja resposta havia de dedicar o resto dos meus dias – Qual é a música de Deus? –, antes de me preocupar em clarificar a questão que se me punha, enveredei pelo caminho mais óbvio para o estudante de música que eu era: embrenhar-me nas obras dos grandes músicos, as obras escritas com Deus na alma e no coração. Tinha já a certeza, que conservo, de ser a Música um dos atributos divinos que, como a Mente, a Palavra e a Sabedoria, Deus tinha directamente oferecido aos homens para eles serem à Sua imagem e semelhança. Toda a música é, então, em certa medida, de Deus, mas, pensava eu, devia haver uma música mais divina do que todas as outras, uma música mais próxima da sua origem celestial, e essa não podia ser senão a música dos grandes mestres. Vim a decidir, no entanto, ao fim de algum tempo de intenso estudo, que assim não era – por bela que fosse, essa música era demasiado humana, sentia eu, para ser a música de Deus.
Confesso que me senti algo desesperado: a música que eu conhecia, apesar de ser a melhor de todos os tempos, era uma imagem tão distorcida do atributo divino original que o seu conhecimento me era totalmente insatisfatório. Sentia que era preciso ir mais longe, mas não sabia como. Durante muitos anos não atinei com vislumbre que fosse de resposta à questão que me obcecava. Em vez de resposta, foram mais questões que se me vieram colocar. Eu procurava a música de Deus, mas o que queria eu dizer com «a música de Deus»? Música de Deus é a música, inacessível aos ouvidos dos mortais, que d’Ele emana, como, para alguns, d’Ele emana o excedente da sua superabundante grandeza?; ou música de Deus é a música por Ele inspirada aos homens, como, para outros, foi inspirada por Ele, em sonhos ou em fugazes materializações do Seu inconhecível Ser, a palavra dos livros sagrados?; ou a música de Deus é a música que, produto de esforçados anos de estudo e entrega dos mais sábios humanos, embora de humana origem, nos dê do Ser Divino a compreensão mais exacta que a criatura possa ter do seu criador? Não sabia e não sabia a quem perguntar. O meu mais querido amigo, única pessoa com quem eu partilhava a excitação e o fracasso da minha busca, aconselhava-me a desistir dessa tarefa que, dizia ele, não estava ao alcance de nenhum ser humano. Pensar que se podia aceder à música de Deus não era, só por si, uma blasfémia? Talvez, mas eu não era suficientemente forte nem para desistir nem para encontrar uma via plausível. Pensei, como alguns correm o mundo à procura do rio que lava todos os pecados ou da fonte cuja água serve de remédio para todas as doenças, percorrer os caminhos da terra à procura de outras músicas mais divinas, que talvez existissem para além das montanhas ou do outro lado dos mares. Mas no fundo de mim duvidava, sem saber bem porquê, que pudesse vir a encontrar, noutra parte do mundo, essa música que satisfizesse a minha ânsia de perfeição, e acabei, assim, por nunca empreender tal viagem.
Foi, no entanto, uma viagem que veio revelar-me o que hoje me parece tão óbvio que custa a perceber como demorei tanto tempo a descobri-lo. Um dia recebi em minha casa dois velhos conhecidos, meus conterrâneos, que acabavam de regressar de uma viagem de vários anos aos países do Norte. Entre as várias aventuras que me contaram, prendeu-me a atenção a descrição que me fizeram da travessia do Grande Deserto de Thar.
«O que é mais difícil de imaginar a quem não tenha atravessado nunca essas infindáveis extensões de areia, mais do que o calor sufocante do dia ou a fúria assassina das tempestades de areia», explicou-me um deles no tom grave de quem recorda um perigo mortal ou uma inexplicável traição, «é o silêncio de certas noites em certos lugares.»
«Um silêncio aterrador», confirmou o outro, «um silêncio tão completo que se ouve em pormenor os ruídos todos do nosso corpo – o coração a bater, o sangue a correr, o ar a descer-nos pela garganta, os alimentos a serem digeridos no estômago. Acho que é isso, precisamente, que assusta no silêncio, essa repentina consciência de nós…»
O silêncio, é claro! De repente, como numa revelação, percebi que, fosse qual fosse a interpretação dada à expressão música de Deus, essa música tinha de ser o silêncio! (...)"

30/08/11

O rosto de Deus

Reciclo um excerto de um texto de há três anos, para servir de introdução a este de hoje (que é um desenvolvimento do outro, noutra direção…):
Lembrei-me no outro dia de uma conversa com uma colega da faculdade depois de uma aula que ela teve sobre uma famosa experiência sobre dilatação de pupilas que Eckhard Hess e James Polt fizeram em 1959 (traduzo o resumo que dela faz Jason Waite): «(...) Hess e Polt apresentaram a um grupo de 20 homens duas fotos idênticas de uma mulher, que diferiam num único aspeto. Numa, as pupilas da mulher tinham sido muito ampliadas, ao passo que, na outra, as pupilas eram extremamente pequenas. Em média, [a dilatação das pupilas] nos homens em resposta à fotografia com as pupilas aumentadas era duas vezes maior do que em fotografia com as pupilas pequenas. Após a experiência, pediu-se aos homens que comentassem as fotografias e a maior parte disse que eram idênticas. Entre os pouco que não disseram que as fotos eram iguais, alguns afirmaram que numa a mulher [com as pupilas dilatadas, entenda-se] era “mais bonita” ou “mais feminina”. Nenhum dos participantes no teste tinha notado a diferença de tamanho das pupilas da mulher da fotografia».
“Ficou tudo histérico na aula, quando o professor aventou a possibilidade de a nossa conceção de beleza ser determinada por mecanismos fisiológicos primários. Houve mesmo quem reagisse mal. A própria ideia de que se façam estudos puramente etológicos de seres humanos é chocante para muitos dos meus colegas.”
Está bem que eram estudantes de Humanidades, mas mesmo assim… A reação é típica: ninguém quer ser considerado um animal, quanto mais uma máquina…
***
Referia aqui no outro dia, sem o questionar, o famoso adágio “A beleza está nos olhos de quem olha”. Este tipo de relativismos, porém, sempre me levantou muitas dúvidas. Tendo em conta apenas a minha experiência de vida, a minha tendência é rejeitá-lo, que as coisas não são bem assim. Lembro-me da passagem do filme The crying game em que um dos protagonistas do filme mostra ao outro a fotografia da sua namorada, comentando que ela é o seu ideal de mulher. “Acho que deve ser o ideal de mulher de qualquer homem”, responde o outro. E é isso que tenho observado quase sempre na vida – que, no que diz respeito a beleza, que é o que está aqui em causa, porque numa fotografia só se vê a cara sem ver o coração, o ideal de mulher de um homem é o ideal de mulher de quase todos; e o ideal de homem de uma mulher é o ideal de quase todas. Sempre tenho visto, de facto, um muito grande consenso quanto à beleza – e à fealdade – dos seres humanos.
É certo que isto são só impressões, que é coisa mais para encher conversa do que para a adiantar. Mas Adam Rubinstein, Judith Langlois e Lori Raggman, que estudam de forma sistemática a perceção da beleza, confirmam a minha impressão: no que toca aos rostos humanos, pelo menos, há muita evidência empírica que mostra claramente que a ideia da subjetividade do conceito de beleza é falsa; que há, pelo contrário, grande universalidade no julgamento de atratividade: “(…) Examinámos 130 amostras de classificações de atratividade de 94 estudos da literatura sobre perceção do rosto. Esta meta-análise avaliava quantitativamente o acordo (ou desacordo) de milhares de pessoas, jovens e velhas, homens e mulheres. (…) Contrariamente ao que diz o adágio, os resultados indicavam um grande acordo sobre atratividade, mesmo de tipos de entrevistados muito diferentes.”
Poupo-vos pormenores técnicos, mas os resultados obtidos, tanto para classificações de atratividade de rostos de adultos como de rostos de crianças, e incluindo classificações interétnicas (classificações de vários grupos étnicos por entrevistados vivendo na mesma cultura) e interculturais (classificações de vários grupos étnicos por entrevistados de culturas diferentes) são altamente fiáveis do ponto de vista estatístico e “mostram um acordo consistente entre entrevistados, independentemente da sua experiência particular com diversos tipos de rostos”.
“A nossa meta-análise”, prosseguem os autores, também examinou variáveis que podem moderar o acordo, como sejam o ano de publicação, tamanho da amostra, género da pessoa avaliada e situação em que a pessoa foi avaliada (por exemplo, avaliação de fotografias ou avaliação in situ). Um pouco para nossa surpresa, nenhum moderador teve efeitos constantes ou substanciais nos níveis de acordo. Se bem que se pudesse pressupor que as diferenças metodológicas ou a pertença a um grupo pudesse influenciar as classificações de atratividade, o que se constata é antes que há uma característica fundamental do rosto humano responsável pelo consenso relativamente à atratividade dos rostos.”
“Estes resultados indicam que a beleza não está apenas nos olhos de quem olha”, concluem os autores do trabalho*.
Que caraterística é esta? Há mais consenso em dar-se por factual a universalidade do conceito de beleza de um rosto do que em explicar em que traços se centra esse conceito que todos temos interiorizado sem saber. Segundo os autores, as experiências mostram que quanto mais um rosto se aproximar da média de todos os rostos, mais atraente é considerado. Com técnica modernas de processamento de imagem, fazem-se rostos que são a média exata de vários rostos; e quanto mais rostos constituírem a informação de que é feita a média, mais consenso há sobre a sua beleza. Há várias críticas à conclusão de Rubenstein, Langlois e Roggman, algumas delas pertinentes; e é também aceitável e relativamente minuciosa a sua defesa. Como acontece sempre em ciência, a discussão continua.
***
Tudo isto me faz lembrar um texto de Venmani Tirunal Patire, protagonista do meu conto “O silêncio”:
Tudo o que é exclusivamente humano foi diretamente dado aos homens por Deus, ao contrário daquilo que os homens compartilham com outras criaturas, que resulta de uma evolução do mundo natural (a que Deus só não é completamente alheio porque foi Ele também que criou esse mundo natural e pôs em marcha essa evolução, mas sem que tivesse nem para as coisas da natureza nem para o desfilar dos tempos nenhum desígnio específico…). É isso que quer dizer sermos à semelhança de Deus. Misturem-se as feições de todos os humanos, existidos já ou que venham ainda a ser, e obteremos o rosto de Deus; juntem-se os nomes de todos os homens pretéritos, presentes e futuros, e o nome radioso e impronunciável que resultar é o nome verdadeiro da divindade; adicionem-se todas as qualidades e anseios dos mortais e a soma será a imortal essência divina!
Algum tempo depois de escrever este texto, Venmani Tirunal Patire veio a concluir que, afinal, não se podia deduzir Deus da soma dos seres por Ele criados. Para chegar a Deus, havia antes que subtrair sistematicamente tudo de tudo, porque Ele não podia ser senão a matriz vazia onde coubessem todas as coisas, criadas já ou ainda por criar. Se a hipótese de Rubenstein, Langlois e Roggman estiver certa, Venmani Patire tem razão: a soma de todos os rostos não é o rosto de Deus – é apenas o rosto essencial da Humanidade, aquele que todos nós achamos atraente!
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* Rubenstein, A.J., Langlois, J.H., & Roggman, L.A. (2002). “What makes a face attractive and why: The role of averageness in defining facial beauty”. In G. Rhodes & L.A. Zebrowitz (Eds.), Facial attractiveness: Evolutionary, cognitive, and social perspectives. Ablex: Westport, CT. PDF Version (9.5 MB) © Ablex. Este e muitos outros estudos sobre a perceção de rostos estão disponíveis em formato PDF no site da Universidade do Texas.