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30/01/22

Silêncio

 

No meu conto «Silêncio» (que apresentei aqui), um músico do sul da Índia chamado Venmani Tirunal Patire conclui que a música de Deus, que ele tinha procurado em vão em várias formas de música religiosa, só pode, afinal, ser o silêncio, porque «[a] única matriz absoluta é uma matriz vazia, a que tudo pode conter». Decidido a «ouvir» o silêncio, Venmani Tirunal Patire suicida-se por inanição numa redoma de pedra o mais insonorizada possível, construída com ele lá dentro.

E então aqui fica um spoiler (mas não faz mal, porque vocês nunca hão de ler os meus contos…) – a história termina assim:

Mais versado nas ciências humanas do que nas ciências da natureza, Venmani Tirunal Patire não sabia que os processos mentais morrem antes das outras funções vitais. Não se consegue, por isso, deixar de ouvir o corpo no minuto ínfimo e extático que antecede a morte. E Venmani Tirunal Patire, tenho a certeza, morreu sem nunca ter ouvido a matriz sonora de Tudo – o mais perfeito de todos os sons, a sinfonia de todas as sinfonias, a música de Deus.
***

No outro dia, encontrei uma entrevista que o compositor e teórico da música John Cage deu em 1963 a Jack Hirschman na estação de rádio KPFK (podem descarregá-la aqui). Nessa entrevista, Cage conta como descobriu que o silêncio não existe, numa câmara anecoica da Universidade de Harvard, um espaço que é, em princípio, completamente insonorizado — como a redoma de Venmani Tirunal Patire (traduzo eu):

Nessa câmara, embora esperasse não ouvir nada, ouvi dois sons. Por isso, quando saí, perguntei ao engenheiro responsável que sons eram aqueles. Pensei que a câmara não devia estar a funcionar bem. E ele disse: «Descreva-os». E eu descrevi: um era agudo e o outro era grave. E ele disse: «Bem, o agudo era o seu sistema nervoso em funcionamento; e o grave era a circulação do seu sangue». Percebi então que, sem querer, eu produzia constantemente dois sons. Portanto, mesmo permanecendo em silêncio, eu era, em certas circunstâncias, musical.



06/01/14

Bom ano e um conto de terror

Desejo-vos um bom ano de 2014! Como diz uma canção, “este é que o ano – demorámos muito a aqui chegar”. Bom, a canção dizia isto de 1968, creio eu, mas pode dizer-se de todos os anos. Como presumo que uma grande parte, se não a maior, das minhas leitoras e dos meus leitores seja portuguesa como eu, o que desejo mais para 2014 é que se consiga travar a política de destruição do atual governo – de destruição do Estado social, da economia, da vida da maior parte das pessoas, do bom-senso, enfim... É claro, há que fazer por isso. É um 2014 assim, a fazer muito por isso, que eu vos desejo.

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Há vários tipos de terror, como todos sabemos. Um amigo teve uma vez a ideia de um conto de terror em que, em vez de histórias noturnas de criaturas do outro mundo, se contasse o horror de alguém que passava, de barriga e bolsos vazios, diante das montras das tascas da Baixa lisboeta. Com a ideia dele, em vez de conto, fiz uma cantiga, que chegou a ser cantada, mas, felizmente, nunca foi gravada. “Um terror indizível / arrepios / calafrios / suores frios” era o refrão.

Agora vejam lá: há dias, fui procurar o que devia ser o único exemplar restante nesta casa de Faz de conta que histórias, um livro de contos meus, e não o encontrei. Não que eu precise de um exemplar do livro, até porque o tenho, claro está, em versão digital. O problema é que o exemplar que eu esperava encontrar cá em casa era o exemplar que ofereci à minha mulher!

Pode ser que o livro se tenha perdido na mudança de Moçambique para a Dinamarca, no verão de 2011. Mas também pode ter acontecido eu tê-lo oferecido a alguém, sem querer. Sei que o livro tinha uma dedicatória, que não me lembro qual era nem em que página estava. E se exemplar da Karen tinha ido parar ao lado dos outros, na estante da sala, e eu, sem reparar na dedicatória e que era, portanto, o livro da Karen, o mandei a uma amiga ou a um amigo (enviei uns quantos, o ano passado), com uma nova dedicatória noutra página? Um terror indizível, como na tal cantiga: arrepios, calafrios, suores frios…

07/12/11

Um bocadinho de publicidade

[Isto é um re-post sem querer. Corrigi umas coisas num post antigo e ei-lo que me aparece aqui de repente. Bom, já que aqui está, pois que fique...]

Deixo-vos aqui as primeiras 1500 palavras do primeiro conto do meu livro de contos faz de conta que histórias, a ver se acham alguma graça e ficam com vontade de ler mais. Se não, comprem na mesma...
Lindegaard, Vítor, faz de conta que histórias. Lisboa: Campo da Comunicação, 2010. ISBN: 978-972-8610-94-4

“Silêncio” (excerto)
Deus disse: «Façamos o homem à nossa imagem, segundo a nossa semelhança e que ele domine os peixes do mar, as aves do céu, os animais, toda a terra e todos os pequenos animais que se movem sobre a terra!»
Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; macho e fêmea o criou.
Estes versículos 26 e 27 do livro da Génese, que a tradição atribui a Moisés, tratam um mistério tão fundamental que não podem senão abrir-se generosamente a qualquer proposta de interpretação. Eis a de Venmani Tirunal Patire, o protagonista da curiosa história que vos quero dar a conhecer:
Tudo o que é exclusivamente humano foi directamente dado aos homens por Deus, ao contrário daquilo que os homens compartilham com outras criaturas, que resulta de uma evolução do mundo natural (a que Deus só não é completamente alheio porque foi Ele também que criou esse mundo natural e pôs em marcha essa evolução, mas sem que tivesse nem para as coisas da natureza nem para o desfilar dos tempos nenhum desígnio específico…). É isso que quer dizer sermos à semelhança de Deus. Misturem-se as feições de todos os humanos, existidos já ou que venham ainda a ser, e obteremos o rosto de Deus; juntem-se os nomes de todos os homens pretéritos, presentes e futuros, e o nome radioso e impronunciável que resultar é o nome verdadeiro da divindade; adicionem-se todas as qualidades e anseios dos mortais e a soma será a imortal essência divina! E a quem me peça que explique o que quero com isto dizer, respondo da forma mais clara que sei: isto quer dizer, por exemplo, que Deus sabe construir vasos e fortificações, mas não compreende as línguas da serpente ou do leopardo.
Noutros tempos e noutros espaços, esta heresia teria sido ferozmente combatida tanto pela espada como pela pena, como o foram outras semelhantes, mas as notas em que Venmani Tirunal Patire dá conta das crenças de base da sua fé foram escritas em 1732, na ecuménica cidade de Trivandrum, onde não chegou nunca a fúria da Roma, e, muito provavelmente, nunca foram sequer dadas a conhecer a ninguém.
De Venmani Tirunal Patire, pouco se sabe, e nada com absoluta certeza. Tudo leva a crer que tenha sido cristão da antiga igreja de Malabar, diz a lenda que fundada pelo apóstolo Tomás, e que, na altura em que Venmani Tirunal Patire viveu, estava oficialmente unida com o rito sírio, embora as suas notas revelem uma completa dissidência relativamente aos dogmas dos cristãos do Sul da Índia. Sabemos, porque no-lo diz, que foi estudante de música, e isso leva-nos a concluir que deve ter estudado a tradição musical carnática, que, mesmo para um cristão, era, naquele tempo, a única música que se podia estudar na região. Terá também sido, como todas as pessoas cultas daquela época e daquele lugar, senhor de alguma fortuna pessoal, pelo menos se foi mandado construir por ele o mausoléu onde foram encontradas as notas que aqui refiro e que são tudo o que dele nos chegou. O estranho mausoléu, recentemente descoberto e escavado por arqueólogos ingleses, é completamente atípico na região. Não tem, aliás, parecenças com os mausoléus de nenhuma outra tradição: é constituído por três cúpulas de pedra, semiesféricas, concêntricas e muito estanques, que se sobrepõem e que, provavelmente, eram subterrâneas quando foram construídas. Os textos, escritos numa forma ligeiramente arcaica de malaialame, encontravam-se dentro de uma caixa bem selada de madeira dura, como se lhes tivesse sido destinada a sorte que realmente tiveram, a de virem a ser achados séculos mais tarde. Junto da caixa, um esqueleto com três séculos de um homem que se supõe ser o autor das notas, o próprio Venmani Tirunal Patire. São os próprios textos que, como verão, levam a essa suposição.
Ao contrário do que possa fazer-nos esperar a nota introdutória que transcrevi acima, o resto do texto de Venmani Tirunal Patire é mais narrativo do que ensaístico. E, também ao contrário do que acontece na primeira nota, ao pé da qual há a menção clara «cidade de Trivandrum, no ano de 1732», na segunda parte do texto, que parece ter sido escrita toda na mesma altura, não há qualquer referência à data da sua redacção. Quanto ao local em que foi escrito, o texto indicia, como verão, que terá sido o próprio mausoléu em que foi encontrado. E cumprida que é a minha função de apresentador, dou a palavra a Venmani Tirunal Patire:
"Quando me surgiu pela primeira vez a questão a cuja resposta havia de dedicar o resto dos meus dias – Qual é a música de Deus? –, antes de me preocupar em clarificar a questão que se me punha, enveredei pelo caminho mais óbvio para o estudante de música que eu era: embrenhar-me nas obras dos grandes músicos, as obras escritas com Deus na alma e no coração. Tinha já a certeza, que conservo, de ser a Música um dos atributos divinos que, como a Mente, a Palavra e a Sabedoria, Deus tinha directamente oferecido aos homens para eles serem à Sua imagem e semelhança. Toda a música é, então, em certa medida, de Deus, mas, pensava eu, devia haver uma música mais divina do que todas as outras, uma música mais próxima da sua origem celestial, e essa não podia ser senão a música dos grandes mestres. Vim a decidir, no entanto, ao fim de algum tempo de intenso estudo, que assim não era – por bela que fosse, essa música era demasiado humana, sentia eu, para ser a música de Deus.
Confesso que me senti algo desesperado: a música que eu conhecia, apesar de ser a melhor de todos os tempos, era uma imagem tão distorcida do atributo divino original que o seu conhecimento me era totalmente insatisfatório. Sentia que era preciso ir mais longe, mas não sabia como. Durante muitos anos não atinei com vislumbre que fosse de resposta à questão que me obcecava. Em vez de resposta, foram mais questões que se me vieram colocar. Eu procurava a música de Deus, mas o que queria eu dizer com «a música de Deus»? Música de Deus é a música, inacessível aos ouvidos dos mortais, que d’Ele emana, como, para alguns, d’Ele emana o excedente da sua superabundante grandeza?; ou música de Deus é a música por Ele inspirada aos homens, como, para outros, foi inspirada por Ele, em sonhos ou em fugazes materializações do Seu inconhecível Ser, a palavra dos livros sagrados?; ou a música de Deus é a música que, produto de esforçados anos de estudo e entrega dos mais sábios humanos, embora de humana origem, nos dê do Ser Divino a compreensão mais exacta que a criatura possa ter do seu criador? Não sabia e não sabia a quem perguntar. O meu mais querido amigo, única pessoa com quem eu partilhava a excitação e o fracasso da minha busca, aconselhava-me a desistir dessa tarefa que, dizia ele, não estava ao alcance de nenhum ser humano. Pensar que se podia aceder à música de Deus não era, só por si, uma blasfémia? Talvez, mas eu não era suficientemente forte nem para desistir nem para encontrar uma via plausível. Pensei, como alguns correm o mundo à procura do rio que lava todos os pecados ou da fonte cuja água serve de remédio para todas as doenças, percorrer os caminhos da terra à procura de outras músicas mais divinas, que talvez existissem para além das montanhas ou do outro lado dos mares. Mas no fundo de mim duvidava, sem saber bem porquê, que pudesse vir a encontrar, noutra parte do mundo, essa música que satisfizesse a minha ânsia de perfeição, e acabei, assim, por nunca empreender tal viagem.
Foi, no entanto, uma viagem que veio revelar-me o que hoje me parece tão óbvio que custa a perceber como demorei tanto tempo a descobri-lo. Um dia recebi em minha casa dois velhos conhecidos, meus conterrâneos, que acabavam de regressar de uma viagem de vários anos aos países do Norte. Entre as várias aventuras que me contaram, prendeu-me a atenção a descrição que me fizeram da travessia do Grande Deserto de Thar.
«O que é mais difícil de imaginar a quem não tenha atravessado nunca essas infindáveis extensões de areia, mais do que o calor sufocante do dia ou a fúria assassina das tempestades de areia», explicou-me um deles no tom grave de quem recorda um perigo mortal ou uma inexplicável traição, «é o silêncio de certas noites em certos lugares.»
«Um silêncio aterrador», confirmou o outro, «um silêncio tão completo que se ouve em pormenor os ruídos todos do nosso corpo – o coração a bater, o sangue a correr, o ar a descer-nos pela garganta, os alimentos a serem digeridos no estômago. Acho que é isso, precisamente, que assusta no silêncio, essa repentina consciência de nós…»
O silêncio, é claro! De repente, como numa revelação, percebi que, fosse qual fosse a interpretação dada à expressão música de Deus, essa música tinha de ser o silêncio! (...)"