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13/05/26

De hipocrisias


Dizia António Aleixo[1]

Só quando a hipocrisia
cair do seu pedestal, 
nascerá, dia após dia, 
um sol p’ra todos igual.

Em D. Juan , Molière põe na boca de D. Juan um louvor da hipocrisia que não pode deixar de ser entendido como uma crítica devastadora[2]:

SGANARELLE: Ora essa! Não acreditais em absolutamente nada e quereis, ainda assim, fazer-vos passar por homem de bem?

D. JUAN: E porque não? […] Isso deixou de ser vergonha: a hipocrisia é um vício da moda, e todos os vícios da moda passam por virtudes. A personagem do homem de bem é a melhor de todas as personagens que se pode interpretar. […] É neste favorável refúgio que quero abrigar-me e pôr em segurança os meus bens. Não abandonarei os meus doces hábitos; mas terei o cuidado de me esconder e divertir-me-ei sem dar muito nas vistas. Se vier a ser descoberto, sem mexer um dedo, verei toda a camarilha defender os meus interesses e serei defendido por ela contra todos. Enfim, é esse o verdadeiro meio de fazer impunemente tudo o que me aprouver. Tornar-me-ei censor das ações alheias, direi mal de toda a gente e só terei boa opinião de mim próprio.

A hipocrisia, na literatura e na vida real, é alvo de contumaz e veemente reprovação. A mim, porém, sempre me pareceu estranha essa tão espalhada sanha contra a hipocrisia. Deve mesmo ser colocada numa posição cimeira na lista dos crimes contra a igualdade ou a justiça? 

Creio que, o mais das vezes, a condenação da hipocrisia é a priori: as pessoas aprendem que a hipocrisia é má e não sentem nunca necessidade de repensar a questão — o que eu compreendo perfeitamente —, pelo que a sua condenação é um adquirido com sólidas raízes no senso comum.

Quando comecei a refletir sobre a hipocrisia, porém, não encontrei, nem nas minhas reflexões, nem em diálogos com outros, razões que justificassem a habitual veemência da sua condenação. Aliás, inicialmente nem sequer encontrei razões para a condenar. Pensei: se alguém disser que se deve fazer uma coisa e fizer o contrário do que afirma dever fazer-se, ou condeno a afirmação ou condeno a ação, pelo que, obviamente, concordo sempre com uma das duas — exceto em casos raríssimos em que não tenho uma posição relativamente a nenhuma delas. Um exemplo típico de dissonância entre o que se defende publicamente e as ações praticadas é uma pessoa afirmar que não se deve ter sexo fora do casamento e, mais ou menos às escondidas, praticar o que diz que não se deve. Agora, das duas uma: ou eu defendo o mesmo que essa pessoa, e condeno, por isso, a sua infidelidade conjugal, ou considero errada a prescrição da monogamia e condeno a sua afirmação. Por outras palavras, assentei em que o que posso avaliar moralmente são ações — incluindo afirmações de caráter moral, que são um tipo de ação. Parecia-me, porém, moralmente irrelevante criticar a incoerência entre aquilo que alguém afirma dever praticar-se e a prática real, porque essa incoerência não é, em si mesma, uma ação, nem sequer propriedade ou caraterística de uma ação.

De que falamos quando falamos de hipocrisia? 

A definição de hipocrisia em que baseei esta minha reflexão inicial («contradição entre o que uma pessoa apregoa que se deve fazer, e o que essa mesma pessoa faz — Que bem prega frei Tomás…») é uma definição claramente insuficiente, se não mesmo muito enviesada, e é esse o primeiro defeito que a reflexão tem. Dei-me conta disto ao diversificar os exemplos de contradição entre o que se diz e que se faz e avaliando até que ponto essa contradição é ou não criticada como hipocrisia. E às vezes não é. E, outras vezes, chama-se hipocrisia a outra coisa.

Voltando ao exemplo já referido (e que, por típico, vou continuar a usar ao longo do texto), uma pessoa que defenda a monogamia e tenha relações sexuais extraconjugais pode ser facilmente acusada de hipocrisia tanto por quem está de acordo com o que ela afirma dever fazer-se como por quem o não defende. Se, porém, uma pessoa defender o amor livre e se mantiver fiel a uma pessoa, creio que ninguém o acusará de hipocrisia. Parece, pois, que hipocrisia não se pode definir como sendo apenas toda a incoerência entre a moral que uma pessoa defende e as ações que efetivamente pratica. Pensei então, ao analisar estes exemplos, que podia há uma assimetria na aceitação à partida do que se diz e do que se faz, e que, para que alguém seja considerado hipócrita talvez seja preciso que a moral que preconiza, e que trai, seja dominante na comunidade em que essa pessoa vive — seja o que geralmente se considera «o bem». 

Este conceito de moral dominante parecia, contudo, ser algo elástico… Se uma pessoa pregar que é necessário que cada um de nós se empenhe individualmente na redução das emissões de dióxido de carbono e passar a vida a andar de avião, há, provavelmente, maior consenso quanto à sua hipocrisia que quanto à necessidade de reduzir as emissões de dióxido de carbono. A ideia de reduzir emissões de carbono talvez seja, porém, considerada positiva por alguém que a ache demasiado radical para a assumir. Uma pessoa que a prega será vista como estando a pregar «o bem», um pouco da mesma forma que uma pessoa pregando a caridade será vista como estando pregando «o bem» mesmo por quem não a considera seu dever, mas também não a considera errada. Agora, parecia-me que uma pessoa vegetariana apanhada a comer carne nas férias, alegando, por exemplo, que é muito difícil encontrar comida vegetariana onde está, seria mais facilmente considerada hipócrita por outra pessoa vegetariana do que pelas outras pessoas. Mas tinha dúvidas. 

Não me foi fácil encontrar exemplos de propostas morais que sejam completamente opostas à moral dominante. Poderíamos supor que uma pessoa defende publicamente o velho princípio proudhoniano de que a propriedade é um roubo e se revela, na prática, cioso da sua propriedade. Haverá quem a acuse de ser hipócrita? Provavelmente, sim, mas só por quem, como ela, defende, a anulação do direito de propriedade. Ou seja, neste caso, para que uma pessoa seja considerada hipócrita, pareceu-me ser necessário que o comportamento que ela diz defender seja também defendido por quem o considera hipócrita. 

Notei que outras vezes, porém, uma pessoa pode considerar que há hipocrisia relativamente à defesa de valores que não são dominantes nem de alguma forma considerados «bem» por essa mesma pessoa: ouvi, por exemplo, uma pessoa assumidamente de direita e que não defende de modo algum que se deva ter os filhos na escola pública criticar, por hipócrita, um político de esquerda que, dizia ela, «defendia a escola pública, mas tinha os filhos numa escola privada». 

Enfim, para ter uma ideia mais justa do que significa de facto hipocrisia/hipócrita teria de analisar um número muito maior de contextos orais e escritos em que o termo fosse utilizado, o que não sei se alguma vez chegarei a fazer... Chegado este ponto da reflexão, e mesmo não tendo chegado a uma definição de hipocrisia que abarcasse todas as suas utilizações, tinha constatado que a minha definição inicial era inexata.

E se hipócrita fosse um termo vago indicando apenas fingimento, sem mais, e que pudesse, por isso, ser usado em circunstâncias muito diversas[3]? Pareceu-me provável. 

Dos dicionários que consultei, em português e em línguas próximas, o do CNRLT é o que dá uma definição de hipocrisia mais completa e mais organizada , que cobre, de facto, as definições de todos os outros e que insiste, precisamente, na noção de fingimento. A primeira aceção é (traduzo eu): «Caráter de quem esconde a sua verdadeira personalidade e finge — na maioria das vezes por interesse — ter opiniões, sentimentos ou qualidades que não possui. (…) Sobretudo, fingimento de extrema piedade ou falsa devoção», como em «a hipocrisia dos fariseus ou de Tartufo». E a segunda aceção é: “Caráter do que carece de sinceridade, daquilo que está imbuído de fingimento e/ou duplicidade [«a hipocrisia de uma atitude, de uma promessa, de um olhar, de um sorriso»], nomeadamente o «carácter (de uma instituição) que reflete a má-fé das pessoas que estão na sua origem e/ou que a aprovam; carácter que tende a encobrir a realidade», como em «a hipocrisia das leis»[4].

Aliás, parece nem ser necessário que haja incoerência entre o que se apregoa e o que se faz. Em muitos casos, basta que haja incoerência entre o que se diz sentir e o que se mostra sentir. Por exemplo, parece-me muito possível a seguinte afirmação: «Ele diz que adora crianças, mas é tudo hipocrisia: não liga nenhuma ao neto, é incapaz de passar cinco minutos com a criança ou de a levar a passear com ele.» Ou seja, a hipocrisia, neste caso, é de facto uma mentira, mas uma mentira de uma pessoa sobre os seus sentimentos ou o seu caráter — que cria dissonância entre o que se diz ser e o que se revela ser. Mas será possível considerar hipócrita alguém que diz que adora futebol e se constata que nunca vai a um jogo, não compra jornais desportivos e não vê jogos de futebol na televisão? Creio que, neste caso, «mentiroso» talvez seja um epíteto mais provável para uma pessoa assim — mesmo que ele estivesse a tentar seduzir alguém dizendo-se apreciador de futebol. 

A conclusão desta breve tentativa de tentar definir o significado de hipocrisia através do seu uso real não foi muito animadora... E ainda não sei bem o que se quer dizer com hipocrisia…

Interesse e fraqueza

Nas definições do CNRLT que citei atrás, a expressão «na maioria das vezes por interesse» chamou-me a atenção para um facto simples que eu tinha deixado de lado na minha reflexão: pode também ser-se hipócrita por fraqueza ou cobardia , por não se ser capaz de assumir publicamente uma posição desviante em relação à moral dominante ou por não ter a força de agir de acordo com o que se considera ser correto. A hipocrisia que daqui resulta difere da mais difundida noção de «hipocrisia por interesse» no controlo que o hipócrita tem das suas ações. Para não fugirmos aos exemplos anteriores, pode acontecer que uma pessoa que não tenha a coragem de assumir publicamente que defende a liberdade sexual, ou até que a monogamia é impossível ou malsã, pratique às escondidas o que não tem coragem de assumir publicamente. E pode acontecer que quem ache sinceramente que deve praticar a monogamia não o consiga fazer, deixando-se cair em tentação contra as suas convicções.

Uma pessoa que defenda que a cobardia é, por si, um defeito, achará criticável esta hipocrisia, quanto mais não seja como falha de caráter, já que, para essa pessoa, todos têm o dever de assumir a responsabilidade do seu quadro moral, mesmo quando ele é desviante em relação à moral dominante; mas quem, como eu, ache que a cobardia, como a valentia e tudo o que fica no meio, acontecem n uma pessoa , acontecem a uma pessoa , estando fora do controlo da sua vontade, não achará criticável este traço de personalidade — não mais do que ser mais ou menos inteligente, forte ou fraco, introvertido ou extrovertido, dotado para a música ou não, etc. É natural que quem se sinta incapaz de assumir o que pensa ou de levar à prática o que acha correto sofra com isso e pode, por isso, considerar-se problemática esta situação. Mas como se a pode criticar moralmente?

Várias perspetivas morais

Parece-me que, num quadro moral assente numa lista de virtudes a priori que se devem cultivar, uma ética das virtudes, surge naturalmente uma crítica da hipocrisia, em qualquer das suas aceções, porque a hipocrisia revela, neste quadro, uma falta — de honestidade, sinceridade, integridade, coragem, etc. Mas, e se se preferir julgar o valor moral de qualquer ação ou padrão de ação a partir de princípios éticos universais? Ou se se preferir antes julgar a moralidade dos atos pelas suas consequências?

À partida, pode pensar-se que a hipocrisia assenta na mentira e, se se considerar que a verdade é, precisamente, um dos valores universais que deve presidir a qualquer código moral, a hipocrisia é condenável. Mas será que a hipocrisia é sempre uma mentira? 

Se se considerar hipocrisia dizer ou mostrar ter opiniões, sentimentos ou qualidades que não se tem de facto, então hipocrisia é mentira , simplesmente. Se se considerar antes que, para haver hipocrisia, tem de haver uma contradição entre o que se diz que se deve fazer e o que se faz de facto, o hipócrita só mente sobre a sua verdadeira posição moral se ela for contra aquilo em que conscientemente acredita: «Eu acho que se deve respeitar a monogamia no casamento…» é mentira se o hipócrita de facto não achar que se deve. Mas é interessante notar que não é necessário haver mentira para que haja hipocrisia. Uma pessoa que acredite realmente que não se deve ter sexo fora do casamento e tem sexo fora do casamento por fraqueza (por paixão, por exemplo), mas nunca nega que o teve, não mente, mas pode ser acusado de hipocrisia. Uma pessoa que acredite que não há mal em ter sexo fora do casamento, mas que nunca o afirma, aparentemente assumindo, por omissão, o que vigora na sua comunidade, por medo de que isso lhe cause problemas, insegurança ou conflitos, e que tem, de acordo com a sua convicção, relações fora do casamento, também não mente. Ou então considera-se que há mentira por omissão. Muitos consideram, porém, que a mentira por omissão é desculpável quando se trata de evitar consequências negativas da assunção da verdade. Evidentemente, é diferente não exprimir opinião sobre a fidelidade conjugal ou não exprimir opinião sobre um genocídio; e também é diferente ficar calado para agradar a um grupo de amigos, para não perder o emprego, para não ir preso ou para não ser morto. Haveria que analisar a mentira por omissão caso a caso…

Pode também acusar-se os hipócritas de ter uma moral dupla , o que viola, obviamente, a universalidade e a imparcialidade dos princípios morais [5] . A ideia é que o hipócrita não aplica a si próprio os princípios morais que aplica aos outros. Sem mais desenvolvimento, pelo menos, este argumento é muito discutível: que os hipócritas não cumpram os princípios morais que defendem não implica que defendam que a si próprios se apliquem outros princípios morais… 

Numa perspetiva consequencialista , há quem ache que a hipocrisia pode gerar cinismo, falta de confiança e ceticismo relativamente a ética e moral em geral, e decadência moral, incluindo desvalorização dos ideais que o hipócrita diz promover, sobretudo se vier de pessoas com posições de autoridade ou influência — modelos de conduta, portanto. Parece-me uma crítica sensata, na fração dos casos de hipocrisia a que se aplica: se as pessoas responsáveis por difundir normas (institucionais, morais, etc.), e/ou por as fazer respeitar, não seguirem elas próprias essas normas, espalha-se a perceção de que essas normas não são verdadeiras normas, apenas pseudopreceitos que se podem descartar sem problemas.

Mas enfim, não me parece, com isto tudo, que a hipocrisia seja o maior de todos os pecados e creio que há problemas muito maiores a resolver para que o sol nasça igual para todos. E depois, e isso raramente é referido, a hipocrisia é, em certa medida, necessária ou, pelo menos, recomendável. Ou, talvez melhor, deixem-me reordenar os elementos da frase: é necessária, ou pelo menos recomendável, uma certa medida de hipocrisia.

O lado positivo da «hipocrisia»

Sempre ouvi dizer que quando não se tem nada de positivo a dizer de alguém ou alguma coisa, é melhor não dizer nada. Trata-se, dirão alguns, de um apelo ao cinismo e à hipocrisia (fica ainda também por estabelecer a diferença exata entre os dois termos, que também se confundem às vezes no seu uso…). Não há dúvida de que quem considere que é dever de cada um revelar sempre o que pensa ou sente não pode deixar de criticar esta máxima. Mas a verdade é que, em última análise, é muito difícil viver-se num mundo em que todos revelem sempre o seu íntimo. É esse o terror, de facto, da leitura de pensamentos: não poder omitir julgamentos e afetos.

Imaginemos, por exemplo, que digo a alguém que me pede uma opinião sobre a sua muito empenhada tentativa de ser artista: «Não vou ser hipócrita, não gosto nada da tua pintura.» Não é o fim do mundo, mas é uma situação que se pode evitar. E responder com uma evasiva ou simplesmente mentir não revela forçosamente falta de caráter ou apenas vontade de agradar. Pode mostrar também alguma forma de respeito, ou, pelo menos, vontade de não magoar. Mas não falo só de mentiras destas (que, como referi atrás, nem sequer estou certo de que se possam considerar verdadeira hipocrisia), mas de todo o esconder de emoções, atitudes ou opiniões de que é feita a vida quotidiana, mostrando, em vez de irritação e desacordo, afabilidade. Todos encontramos a toda a hora coisas de que não gostamos nada e até mesmo que nos irritam. Mesmo quem achar que uma pessoa deve ter a coragem de assumir em público as suas opiniões, por muitos dissabores que isso lhe traga, não achará que se deve dizer a alguém que se ofereceu para nos ajudar a fazer a salada que nos irrita a maneira como ela está a cortar os legumes e nem, mesmo sem dizer nada, mostrar irritação. Deve-se, isso sim, sorrir e agradecer. Ninguém achará bem revelar, a uma pessoa que nos mostra, entusiasmada, uma canção de que gosta muito, que achamos a canção horrível. 

A lista é sem fim. A vida quotidiana está cheia de pequenas e grandes irritações causadas pelos outros e pequenos e grandes desacordos com eles. Há pessoas sem filtros, que revelam sempre o que sentem por coisas e pessoas, e isso é frequentemente problemático. Vale mais a pequena dose de hipocrisia necessária a tornar vivível o quotidiano. 




  

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[1] António Aleixo, Este livro que vos deixo. Lisboa: Ed. Notícia, 1994

[2] Molière, Don Juan, ou le Festin de pierre, Paris: Firmin-Didot et Cie, 1890 (traduzo eu) 

[3] Este significado mais vasto e mais simples derivaria, aliás, diretamente da etimologia última: o grego ὑπόκρισις ( hupokrisis ), significava «ato de representar; papel do ator». Há que ter sempre cuidado, porém, para não cair na chamada falácia etimológica — o significado atual de uma palavra pode não ser o significado do seu étimo, mas resulta antes da maneira como é usada agora pelos falantes da língua.

[4] Embora seja de louvar o rigor da divisão do conceito em duas entradas, podemos lidar com os dois conceitos à uma: a hipocrisia de uma atitude, promessa, olhar ou sorriso é a hipocrisia de quem age, promete, olha ou sorri, da mesma forma que a rapidez de um movimento é a rapidez de quem se move, etc.

[5] Aliás, em dinamarquês, língua em que não há um cognato de hipócrita , uma expressão que pode traduzir a palavra portuguesa é dobbeltmoralsk, «de dupla moral». Outras são skinhellig, literalmente «de santidade superficial», que quer dizer (traduzo a definição do dicionário) «que prega moral ardentemente, sem cumprir o que prega», e hyklerisk, deverbal do verbo hykle , que significa (mais uma vez, tradução da definição do dicionário) «mentir relativamente aos seus sentimentos e opiniões para obter a simpatia de outrem ou outros benefícios».

Ilustração: Grandville: « Misère, hypocrisie, convoitise », 1828 ou 1829, Wikimédia Commons, daqui

12/12/25

O que existe e o que não


Deparo-me com frequência, em conversas de amigos, conhecidos e desconhecidos, com a estranha asserção de que a realidade não existe, que o que tomamos por realidade não passa de uma leitura subjetiva do mundo, que há tantas realidades como mentes, etc. Às vezes, não é realidade no todo que é negada, mas antes categorias específicas que, pelo menos aos olhos de um realista como eu, constituem partes fundamentais duma realidade perfeitamente real. O tempo é, nomeadamente, uma dimensão da realidade que muitos gostam de pôr em causa: que é uma ilusão, algo sem matéria própria além do vivido de cada um. Etc. 

Neste descontraído solipsismo cabem também, muitas vezes, apressadas interpretações de versões vulgarizadas de física quântica: que duas coisas podem estar ao mesmo tempo em dois lugares ou em dois estados, duas coisas podem estar íntima e inseparavelmente ligadas entre si independentemente da distância que as separe, que um acontecimento pode ser influenciado ou até determinado por outro acontecimento posterior, que o vazio é a componente essencial de toda a matéria, eu sei lá o que por aí se ouve e vê escrito…

É claro, a esmagadora maioria das pessoas conhece e compreende tanto como eu — ou seja, nada — os complicados cálculos matemáticos que estão na base das esotéricas leis quânticas e muitas pessoas que fazem os artigos de vulgarização também não os compreendem melhor que aquelas para quem os «traduzem» numa linguagem acessível. E depois, as pessoas esquecem-se de que — como os especialistas gostam sempre de nos fazer recordar — as propriedades das partículas subatómicas não se aplicam ao nível macroscópico, em que podemos continuar a guiar-nos pela física newtoniana sem problema absolutamente nenhum. E que, às vezes, quando chamam macroscópicos a certos fenómenos quânticos, como no caso do prémio Nobel da Física recentemente atribuído, trata-se de um macroscópico ainda muito, muito microscópico para os nossos sentidos…  

É claro, não quero com isto dizer que a realidade não seja extremamente complexa, que não haja nuances  individuais na perceção da realidade (apesar de comum a todos nos seus traços gerais) e que, para descrever adequadamente certos aspetos dessa realidade, não seja necessário ir além da mecânica clássica. Claro que é. E longe de mim considerar que as teorias quânticas e as suas estranhas implicações ao nível do extremamente pequeno não se devem levar a sério. Quero apenas sublinhar duas coisas: 

A primeira é que não se deve discutir aquilo que não se compreende e a única maneira que compreender as implicações das teorias quânticas é compreender as equações que lhe dão origem. Não é nada que se possa visualizar, imaginar, explicar de outra forma. Não é nada em que se possa pensar, simplesmente, sem a matemática que lhe subjaz. E isto porque a nossa mente evoluiu para navegar um mundo ao nosso tamanho, em que a matéria é impenetrável e os acontecimentos se sucedem no tempo. 

James Ensor, A queda dos anjos rebeldes
(Val van de opstandige engelen), 1889
Museu Real de Belas Artes de Antuérpia 
A segunda é um pormenor simples de que muitos despreocupados relativistas parecem esquecer-se: se o mundo não tivesse uma realidade dura fora de nós e os nossos sentidos não tivessem evoluído para percecionar adequadamente essa realidade, se mundo, tempo e espaço não fossem senão o resultado de perceções, como poderia constituir um perigo percebê-los de maneira diferente? Ora quem, como eu, lida amiúde com pessoas que vivem efetivamente o espaço e o tempo e realidade em geral apenas como imagens mentais impossíveis de relacionar com as medidas de um relógio ou de uma fita métrica, à margem de relações causais básicas, etc., sabe muito bem que essas pessoas simplesmente pereceriam sem a ajuda das outras pessoas cujas perceções individuais da realidade curiosamente convergem – como devem! Em última análise, afirmar que a realidade não existe fora de nós pode, em certa medida, considerar-se ofensivo para quem sofre (e sofrer aqui não significa apenas «passar por; ser objeto de», mas sim «estar doente de, sentir-se mal») de dissociação da realidade causada por psicoses, demências e outras perturbações mentais. Essas pessoas não vivem apenas numa realidade diferente da minha, padecem muito por terem perdido o contacto com a realidade. Ou que vos parece?




22/11/23

Ostomia, pensamento e língua

 

Como base para a reflexão que vos proponho sobre pensamento e língua, trago aqui um caso real e muito concreto:

Da primeira vez que tive de lidar com uma ostomia, não tinha praticamente conhecimentos do assunto. Uma senhora, ex-enfermeira, que há quatro anos tratava sozinha da sua colostomia, deixou de o conseguir fazer, por causa de um prolapso do estoma e eu fui a casa dela ajudá-la.

Um dos problemas que se colocavam é que era difícil fazer passar pelo estoma prolapsado um anel antivazamento que tinha de se colocar à volta do estoma debaixo da placa de base na qual assentava o saco de estomia (a senhora usava um sistema em que se fixa o saco sobre uma placa, clicando-o). Como o prolapso se dilatava na sua parte central, sendo aí mais largo que este anel, o anel provavelmente irritaria as paredes do prolapso durante esta operação. Também a abertura do orifício da placa por onde o estoma tinha de passar tinha de ser maior que o habitual, por causa desta dilatação de uma parte do prolapso. Mas há um limite das aberturas disponíveis. Estas aberturas ajustam-se manualmente, com uma tesoura, mas não se podia fazer uma abertura muito larga, pelo menos nas placas que ela tinha em casa, de maneira que havia o mesmo problema em relação ao orifício da placa que ao anel antivazamento que lhe subjazia.  Uma solução era usar um saco de plástico, um pouco como um «preservativo», que ajudasse o prolapso a deslizar pelo anel e pelo orifício da bolsa. Também havia a questão de que o prolapso quase enchia o saco e deixava pouco espaço para as fezes, de maneira que havia de o esvaziar ou mudar mais assiduamente que o normal.

Demorei muito tempo a escrever o parágrafo anterior, porque desconhecia os termos relacionados com ostomia e tive de os procurar todos. E estou convencido de que, para quem não tenha lidado com ostomias (e não tenha visto um prolapso grande, talvez...), é muito difícil, se não mesmo impossível, compreender ao certo de que estou a falar.

Agora, notem que, durante o trabalho de mudança da bolsa e depois dele, tive de refletir sobre toda a situação. E não tive problema nenhum em fazê-lo. Quando se tratou de documentar o sucedido no jornal do paciente, porém, não fui capaz de fazer uma descrição adequada. Limitei-me a uma descrição tão sucinta que era desinteressante, porque não tinha, em dinamarquês, as palavras que agora me faltaram também em português para escrever este texto, antes de ir à procura delas.

Como refleti sobre o que acima descrevo? Uma possibilidade é que as imagens (um filme mental, vá) tenham tido um papel fundamental nessa reflexão. Parece fazer sentido. Mas não sei. Acho que nunca sabemos como pensamos. A pura observação, o filme mental sem mais, não é exatamente uma reflexão. Não tem apreciações, revisão de possibilidades, hipóteses, nada dessas coisas. Não podem servir de base a coisas como des/acordo e intenção. Diferentes pessoas dão conta de formas diferentes de pensar: alguns dizem ter um permanente monólogo interno, dizem que pensam com palavras; outros dizem não pensar dessa maneira, mas antes de uma forma abstrata, sem palavras e sem imagens, e ter apenas monólogo interno quando conscientemente o querem ter ou quando pensam em conversas ou discursos. É o meu caso.  Há quem proponha a existência de uma língua para pensar, o «mentalês», que depois é lexicalizado para a comunicação nas línguas que falamos— ou seja, pensamos primeiro em abstrato e juntamos depois palavras ao que pensámos[1]. Talvez pensemos com uma meia dúzia de operações ou conceitos simples, que se podem juntar em proposições complexas que se encadeiam com outras proposições. Mas talvez não seja nada disso. A verdade é que não temos acesso a essa parte da nossa atividade mental. Se pensamos todos da mesma maneira, porém — e porque não havíamos de o fazer, se temos todos as mesmas estruturas cerebrais? — não é (só?) com palavras e imagens.  

Não encontro nenhuma evidência convincente de que sejam precisas palavras para pensar. Pessoas sem palavras pensam, e não só as crianças que ainda não falam (já aqui falei disto uma vez): os surdos pensam antes de aprender uma língua por escrito ou gestualidade, se a aprendem. O que me parece observável é antes que as palavras são precisas para dizer coisas — seja para as exprimir apenas, seja para as comunicar a outras pessoas. Neste último caso, é preciso que as pessoas com quem se comunica conheçam também as palavras necessárias. Tudo isto é perfeitamente banal e, se aqui o escrevo, é só para insistir em contrariar o repetido mantra de que são precisas palavras para pensar.  

(Podia ir mais longe. Há até casos (muito raros…) de coisas em que ninguém tem palavras para pensar, nem provavelmente língua em geral, mas em que muitas pessoas pensam, como é o caso da física quântica. Todos os enunciados de todas as línguas incluem forçosamente categorias como tempo e aspeto, e relações de causalidade, entre outras coisas, que são inadequadas para pensar em certos fenómenos de física quântica. Só se os pode pensar com fórmulas matemáticas e modelos gráficos, mas não com uma língua natural[2])



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[1] Uma boa introdução à hipótese da língua de pensamento (mentalês), de William of Ockham  a Jerry Fodor — e muitos mais —, na Stanford Encyclopedia of Philosophy  

[2] São um bocado irritantes, convenhamos, as muitas pseudodescrições que por aí circulam dos fenómenos quânticos  e da sua pretensa aplicação «filosófica» a teorias do mundo e da vida em geral, se se pode dizer assim, por gente que efetivamente não compreende a matemática que os justifica. Mas isso é outra conversa…



19/11/19

Reanimação


Se um dia me virem morrer de algum mal remediável, por favor não me tentem ressuscitar: a morte é a pior coisa que pode acontecer na vida de uma pessoa e eu não quero passar duas vezes por tão horrível experiência.


09/09/18

Breve defesa de um ateísta

O epilóbio-eriçado (Epilobium hirsutum ) dispersando semente. Foto de Colin, 2012, Wikimedia Communs, daqui
A propósito de um texto de Hans Magnus Enzensberger publicado em El País em julho último (“Breve defensa de un agnóstico”, pouco mais de 1400 palavras), quero esclarecer aqui algumas ideias simples do ateísmo – ou, pelo menos da parte dele com que me identifico, porque não creio que haja alguma postura concertada dos ateístas. 



Hans Magnus Enzensberger assume-se como agnóstico. Não sente inclinação para a fé, mas não pode deixar de assumir a sua bagagem cultural cristã (traduzo eu todas as citações):
Que se saiba, ninguém, nem sequer um suíço ou um sueco, consegue livrar-se da bagagem histórica que traz consigo. Uma parte desse legado e dessa carga, arrastamo-la connosco através da religião. Uma fada bondosa privou-me do talento para a fé no monoteísmo. Os deuses são tantos que a escolha é dolorosa. Os gregos e os romanos acompanham-nos no céu e nos dias da semana, e as tradições egípcias e asiáticas, de Tutancámon a Buda, também não desapareceram por completo. (...)
Por isso, para mim o ateísmo não é uma opção, mas sim uma ideia fixa. Não quero pertencer a esse club. Em geral, custa-me decidir-me por una filiação. Faltam-me dotes para ser um colega de fiar. Naturalmente, haverá quem considere isto una carência. (…)
O agnosticismo tem numerosos prós e contras. Permite-nos mover-nos com maior liberdade e não temos de submeter-nos a toda o tipo de preceitos concebidos por qualquer instituição. Libertar-se da disciplina do partido ou da Igreja em questão pode ser um alívio, e mais ainda se se trata dos entraves de uma ideologia política. O inconveniente é que o agnóstico não chega a de pertencer a nada.  
Estou completamente de acordo com o primeiro parágrafo citado acima*. Ninguém com um mínimo de autoconhecimento e honestidade negaria o peso que a religião tem na sua cultura. Mas como é que a consciência desse legado histórico pode levar quem não abraça uma religião a preterir o ateísmo a favor do agnosticismo? O «por isso»  que sublinhei é, no mínimo, muito estranho. Como é que uma coisa causa – ou implica, se quiserem – a outra? A consciência da parte fundamental que ocupa o cristianismo na sua cultura não é modo algum razão para se ser agnóstico e não ateísta. Enzensberger não explica o «por isso». Pede ao leitor aquilo que muitas vezes se designa como «um salto de fé» ou um «salto de confiança». O leitor ateísta** e atento recusa-lhe esse salto. Aquele «por isso» cabe mal numa argumentação razoada.

É que o ateísmo é uma posição de razoabilidade e, ao contrário do que Enzensberger diz, não é um clube nem uma ideia fixa, nem se assemelha mais a uma igreja ou a um partido que o agnosticismo. Em rigor, um agnóstico não pertence menos a uma instituição que um teísta ou um ateísta – cada um pertence à sua e devia defendê-la com o mesmo empenho e a mesma lógica com que os teólogos medievais debatiam as espinhosas perguntas filosóficas que a si mesmo faziam. Não considero que «A minha fé diz-me que é assim» ou «Não quero pertencer a um clube» sejam fundamentos razoáveis para uma posição relativamente à existência de deuses – impossibilitam a discussão.

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Talvez haja mesmo quem, como Enzensberger diz, defina a opção do agnóstico como carência. Não sei. Creio que alguns ateístas acusarão os agnósticos de terem escolhido uma posição mais cómoda, menos frontal e, por isso, menos conflituosa, que os ateístas. Pessoalmente, não acredito – até porque conheço agnósticos de grande coragem e frontalidade – que, no geral, haja seja lá o que for de falta de frontalidade no agnosticismo. É de uma divergência filosófica que se trata. O que me parece é antes que o agnosticismo trata a questão da existência de deuses de uma forma parcial, já que, a ter a mesma atitude relativamente a tudo o resto que não é imediatamente observável, há que declarar-se agnóstico em relação a muitas outras coisas não provadas mas altamente prováveis. Os ateístas aplicam a o mesmo princípio a todos os seres e fenómenos: ao que sabemos atualmente, X é provável ou improvável. É só isto. Aquilo que os ateístas defendem é um método de conhecimento feito de observáveis, para poder ser comunicável, isto é, tornado comum – e aquilo em que é mais sensato acreditar, à luz das constatações feitas usando esse método.

Os ateístas, pelo menos os que conheço, não põem em causa a impossibilidade de «saber se existem ou não [deuses], nem que forma têm»***. Os ateístas insistem até amiúde num princípio epistemológico de base, segundo o qual não se pode provar uma não existência a partir de observáveis, pelo que também é impossível afirmar que não existem o Pai Natal, unicórnios azuis e um número infinito de seres e fenómenos. O que os ateístas dizem é tão-só que é altamente improvável, à luz dos conhecimentos atuais, que exista algum ser com as características atribuídas aos seus deuses pelos crentes das diversas religiões; e que a ideia de um criador absoluto de todas as coisas dificulta muito mais a compreensão do universo do que a facilita.

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* Ou quase: a referência aos suíços e aos suecos parece-me incompreensível a não ser, talvez, num quadro de ideias feitas sobre estes povos que eu partilho com Enzensberger.

** Prefiro a palavra ateísta ao termo mais clássico ateu, por várias razões: a) é um termo comum de dois, ou seja, o masculino e o feminino têm a mesma forma, o que é sempre bom – além de que ateia se presta a jogos de palavras de mau gosto; b) o elemento -ista marca a inscrição num -ismo (ateísmo), um sistema de ideias ou crenças, o que não acontece de forma tão clara e direta com o termo ateu; e c) tem um antónimo imediato com a mesma formação, teísta, o que não acontece com ateu, que é uma daquelas palavras construídas com um prefixo de negação de uma palavra inexistente na mesma língua (um dia, hei de falar aqui disto, que é um tema engraçado).

*** Protágoras citado por Enzensberger: «Quanto aos deuses, não tenho meios de saber se existem o não, nem que forma têm. Impedem-mo a obscuridade da questão e a brevidade da vida humana».

02/07/16

Meio enchido e meio esvaziado

Há a famosa história do copo meio cheio ou meio vazio, mas, como explica uma pequena filósofa que tenho cá em casa, isto de cheio e vazio não existe no vácuo, perdoem-me a gracinha pateta: o estado do copo depende de alguma ação — que tende para algum fim. Isto sou eu a dizer, que ela não diz assim. O que ela diz é o seguinte:
Se está meio cheio ou meio vazio depende de como estava antes: se estava cheio, agora está meio vazio e daqui a bocado está completamente vazio; se estava vazio, agora está meio cheio e, se não enchermos mais, nunca chega a ficar mesmo cheio.

17/01/15

Pequena nota sobre dogmatismo e outras enfermidades do raciocínio

Numa loja de roupa em segunda mão, na semana passada, uma conversa entre duas senhoras idosas:

– …
– O quê?
– Nada, estava a falar sozinha.
– É uma coisa sensata. Assim, ninguém te contradiz.



09/05/11

Teoria e prática, ciência e técnica, reflexão e acção

Veio-me à memória, no outro dia, uma conversa com um cooperante dinamarquês meu conhecido, em Tete, há muitos anos[1]. Queixava-se ele de que, no trabalho de desenvolvimento, havia que deixar-se de discussões e passar antes à acção. Acho que quando uma pessoa diz uma frase assim, conta, à partida, com todo o apoio do interlocutor. É como quando alguém diz que os políticos só querem é encher-se ou que as pessoas são cada vez mais individualistas ou coisas assim desse género – espera-se, como resposta standard, um enfático assentimento, “não tenha dúvidas, meu amigo, não tenha dúvidas…”, e fica-se normalmente surpreendido, às vezes quase chocado, quando a resposta é, como a minha foi, a expressão de um completo desacordo[2]:

«Penso exactamente o contrário», expliquei eu ao meu conhecido. «O mal do trabalho de desenvolvimento é fazer-se muita coisa sem se pensar muito bem sobre o que se está a fazer ou sobre o que se vai fazer».

Em parte, foi por provocação que lhe respondi assim: não há, de modo algum, excesso de reflexão no trabalho de desenvolvimento, mas há efectivamente um excesso de reformas metodológicas, de elaboração de princípios e políticas, de avaliações e monitorias que nunca vêm a ter nenhuma utilidade… Mas isso é uma conversa muito comprida, que merece um texto específico. Aqui trata-se de várias formas da dicotomia reflexão versus acção e a minha provocação tinha uma base ideológica: é que discordo da tão costumeira desvalorização daquela relativamente a esta.
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A ideia de que a acção vale mais do que a reflexão é uma ideia bastante difundida. E uma variante também muito divulgada dessa ideia é a que valoriza a reflexão para a acção em relação à reflexão para a interpretação apenas. Nas Teses sobre Feuerbach (1845), Marx tem uma frase famosa (tese 11), Die Philosophen haben die Welt nur verschieden interpretiert; es kommt aber darauf an, sie zu verändern, que tem sido interpretada de diversas maneiras e, se calhar, nalguns casos muito transformada (aqui têm um exemplo de coincidência de interpretação e transformação, smile, smile…), mas que se pode traduzir – e se traduz – desta maneira: Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de diversas maneiras; mas o que importa [ou a questão ou o que conta…] é transformá-lo.
Deixo para os estudiosos de Marx a discussão de significado e sentido exactos da 11ª tese sobre Feuerbach. O que eu quero aqui dizer é que, independentemente de qual seja o real sentido da frase de Marx, não me parece correcto afirmar, como se afirma muitas vezes, que o que importa é transformar o mundo. O que importa é compreender o mundo (sempre) e transformar o mundo quando não concordarmos com o seu estado actual. E o filósofo pode, se quiser, ser um homem de acção; pode, mesmo sem ser um homem de acção, contribuir pela sua reflexão para a transformação do mundo; mas o papel do filósofo não é, enquanto filósofo, transformar o mundo, mas sim tentar contribuir para chegar à verdade sobre o mundo – e o que lhe fica ao redor (depende muito, claro está, do que se considere o mundo…).
Nesse aspecto, o filósofo não é, aliás, fundamentalmente diferente do cientista: Para o dizer com a elegância de Tchekhov – ou melhor, de uma sua personagem –­, “cada ciência no mundo deve ter sempre um único passaporte, que é sempre o mesmo e sem o qual ela não faz sentido – deve aspirar à verdade[3]”. Como não é ao filósofo que cabe agir sobre o mundo, também não é ao biólogo nem ao químico nem ao linguista que cabe agir sobre ele. Não cabe ao cientista transformar o mundo e é erradamente que se imputa muitas vezes à ciência acções negativas sobre a realidade. A ciência apenas explica o mundo; dos males que advenham da utilização do conhecimento para intervir no mundo acusem a técnica, não a ciência; mas, quando a utilização do conhecimento teve bons resultados, dêem à técnica apenas uma parte dos louvores, reservando o resto dos elogios para a ciência que produziu esse conhecimento.
Parece-vos que temos aqui parcialidade, não é? Então, quando a técnica faz mal com o conhecimento que a ciência produziu, culpamo-la só a ela; e quando a técnica faz bem com o conhecimento que a ciência produziu, louvamo-la a ela e à ciência que produziu o conhecimento por ela utilizado? Mas não, não há aqui nada de errado, se pressupusermos, como eu pressuponho, que a produção de conhecimento é sempre e só positiva e que o que pode ser positivo ou negativo é a aplicação desse conhecimento[4].
Quanto a transformar o mundo, é dever de todos os que acharem que ele deve ser transformado (todos os não conservadores, portanto) e, por conseguinte, também de quem se especializou em filosofia, biologia, química, serralharia, contabilidade ou gastronomia, não na sua qualidade de filósofo, biólogo, químico, serralheiro, contabilista ou cozinheiro, mas enquanto membro de uma comunidade, cidadão, ser político – e isso somos todos nós, sem necessidade de nenhuma especialização em nenhuma área do saber ou da técnica.
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Maldita tendência para a excursão. Voltemos à conversa com o meu conhecido em Tete. Não é só o trabalho de desenvolvimento a enfermar de ânsia de fazer desprezando a vontade de reflectir – estou convencido de que o mundo em geral sofre mais de excesso de acção pouco reflectida que de excesso de discussão teórica relativamente à prática. E mesmo a vida emotiva de cada um. No outro dia, encontrei no Facebook a sedutora frase (traduzo eu da frase original em inglês) “Podes passar minutos, horas, dias, semanas ou até meses a sobreanalisar uma situação, tentando juntar as peças, justificando o que podia ter acontecido, o que teria acontecido – ou podes deixar apenas as peças no chão e ala!, seguir em frente”. Não sei o que significa ao certo sobreanalisar e a ideia com que fico é que o prefixo sobre- foi colado ao verbo apenas para conotar negativamente a tentativa de análise. Tirando isso, é claro que se pode, pode sempre seguir-se em frente desistindo de perceber o que se passou ou o que se está a passar. Mas é aconselhável?
Encontrei várias vezes na internet, em várias línguas e com pequenas variações de forma, a frase “um grama de acção vale mais do que uma tonelada de teoria”[5]. Para mim, é quase ao contrário. Não é bem ao contrário, porque não vejo grande sentido em afirmar que um grama de teoria vale mais do que uma tonelada de acção. Mas uma tonelada de acção, se tiver para a sustentar apenas um grama de reflexão, tem quase cem por cento de probabilidades de vir a dar buraco…
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[1] Para ele ser cooperante em vez de assessor, bem podem ver há quanto tempo não foi…
[2] E também o teria sido se ele me tivesse dito que os políticos só se querem é encher ou que as pessoas são cada vez mais individualistas…
[3] No conto “On the way”, Selected Stories. Ware: Wordsworth, 1996. Traduzo eu.  
[4] Do que se pode concluir – com alguma boa vontade, talvez… – que a teoria vale, em abstracto, mais que a prática. Mas eu já nem quero ir por aí…
[5] A frase é, o mais das vezes, atribuída a Friedrich Engels, mas é duvidoso que seja de facto uma frase de Engels. Eu, pelo menos, não o consegui confirmar. Também é às vezes atribuída a Ralph Waldo Emerson ou a Lenine, ou é ainda apresentada com um provérbio. Há uma página de Snopes.com em que se discute, precisamente, a autoria da frase. Mas a autoria da frase é completamente irrelevante para a sua discussão, pelo menos no presente contexto.

24/03/10

A arte e o resto

Na discussão de um post do blogue De Rerum Natura, afirma Desidério Murcho: «(…) Os escritores de historietas e poeminhas não contam como produção cultural sofisticada. Sei que isto é uma opinião polémica porque as pessoas tendem a pensar que romances e poesia constituem o zénite da sofisticação intelectual, mas não concordo com esta ideia. A literatura não tem, nem de perto nem de longe, a sofisticação cognitiva da física ou da filosofia ou da matemática.»

Não só estou de acordo com a afirmação de Desidério Murcho como acho que, sobretudo num país como Portugal, é necessário insistir nesta ideia. E a quem torcer o nariz às expressões “sofisticação intelectual” ou “sofisticação cognitiva”, proponho um outro olhar sobre a questão: comparadas com a produção científica, filosófica, matemática e afins, a literatura e as artes não têm importância nenhuma para a vida das pessoas (já aqui falei uma vez de uma parte desta questão).

Como o que vou dizer a seguir se baseia apenas numa impressão que não foi testada, espero, sinceramente, que apareça alguém a mostrar-me que se trata de uma impressão enganadora, mas, quando passeio ao acaso pela blogosfera made in Portugal, encontro centenas, milhares de páginas a falar de artes e literatura, mas muito poucas a falar de ciências, filosofia, matemática, história e economia... E eu, quando vejo tantas pessoas tão preocupadas com o analfabetismo literário dos portugueses sem se se preocuparem com o analfabetismo científico, tenho mesmo de pasmar. Em que é que contam mais para a vida das pessoas conhecimentos sobre epopeias, romances e poemas do que sobre lógica, estatística e biologia, por exemplo? É difícil compreender.

Não tenho nada contra novelas e poemas, notem. Até os escrevo. Mas, talvez por isso mesmo, tenho consciência de que (agora é que me vão cair todos em cima*) é muito mais fácil escrever e ler literatura do que escrever e ler ciência ou filosofia. Mais fácil e sem efeito na vida da gente.

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* Primeiro, tinha escrito “agora é que me vão cair tordos em cima”, que até era engraçado, mas decidi não deixar a gralha, perdão, o tordo. Conseguem identificar um tordo e uma gralha? Ah bom, também mal feito fora…