[Este texto é uma versão revista e corrigida de um texto que aqui publiquei a 25.11.2013]
Um dos recursos utilizados por filólogos e linguistas para reconstruir pronúncias antigas é a análise de rimas estranhas, que não funcionam na pronúncia atual, mas que provavelmente já funcionaram. Se, por exemplo, na carta em verso de John Donne a Lady Carew, escrita por volta de 1612, are rima com singular e war; e fear com forbear e there; grown com complexion e none; e several com circumstantial e all, um historiador da língua tem nessas rimas material muito interessante para cruzar com outra informação que possua sobre a pronúncia da época de John Donne no lugar de onde ele é originário. É claro, é preciso saber se o poema se insere numa poética de rimas rigorosas ou se aceita rimas aproximadas ou até «rimas para o olho», em que «rimam» as letras e não os sons. Mas, quem estuda essas coisas tem naturalmente, todos esses cuidados.
É um tipo de trabalho de investigação que já não se fará em relação ao estado atual das línguas. A maior parte dos dialetos de quase todas as línguas faladas no século XX está tão pormenorizadamente descrita e documentada com gravações que os linguistas do futuro não precisarão de se dedicar a esse tipo de exercícios.
E isto tudo como introdução a uma bagatela, uma pequena curiosidade. Não deixa de ser interessante verificar que a imposição da pronúncia padrão pode esconder, às vezes, rimas que se adivinham – mas não estão lá… Em “Petisca daqui petisca”, do Conjunto António Mafra, o cantor não ousa (ou alguém não achou conveniente…) cantar com a pronúncia regional a palavra comilão, desfazendo assim uma rima que se adivinha com facilidade:
Petisca daqui, petisca, / petisca daqui, que é bom Quem oferece o que petisca / mostra não ser comilão
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* É claro, há atualmente muito trabalho sobre a pronúncia do inglês desta época, a chamada Primeira Fase do Inglês Moderno, pelo que quem, queira saber sobre o assunto não tem de partir da análise de rimas. Eis aqui o texto de Donne acima referido lido com a pronúncia da época. Não há consenso absoluto sobre todos os pormenores do inglês da época, mas há, ainda assim, um amplo acordo entre especialistas e a pronúncia que se ouve no vídeo é muito fiável.
Dois pequenos apontamentos sem relação entre si, a não ser que tratam ambos de palavras que dizem a localização no espaço.
I
Em defesa da ideia de que a língua condiciona ou modela o pensamento, tenho visto várias vezes referido o exemplo das línguas de várias comunidades australianas em que se usam referências absolutas (pontos cardeais)[1] para descrever a localização, em vez de referências relativas como atrás, à frente, à esquerda e à direita, por exemplo; e sublinhar que as pessoas que usam estas línguas têm, em geral, uma maior capacidade de orientação que, por exemplo, os europeus, que usam sistemas relativos de descrição da localização. Mas…
Parece que, afinal, nas comunidades australianas, a localização espacial é muito mais complexa do que a descrevem os estudos em que se baseiam estas ideias, incluindo também sistemas de referência baseados na paisagem (a montante, a jusante) e também sistemas relativos de referência[2].
Não é isso, contudo, o que mais me importa: não há nada noutras línguas que impeça os seus falantes de usar sistemas absolutos de localização. Por exemplo, «A Maria está em sentada a oeste da Rita» é uma frase possível e bem construída em português. Portanto, a questão não é linguística, é cultural. Qualquer falante de qualquer língua, se for habituado desde pequeno a referir toda a localização ao percurso aparente do sol e se viver num ambiente físico que permita essa localização, também será capaz de o fazer, claro está. E parece-me natural que quem aprendeu a orientar-se a partir de pontos de referência absolutos tenha, em princípio, maior capacidade de orientação em geral. Não vejo bem como isto justifica que a língua determine o pensamento…
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[1] Assentemos que, sem uma bússola, a orientação natural pelos pontos cardeais se faz pelo percurso aparente do sol, pelo que não é de facto absoluta, variando com a latitude e a época do ano, mas é, sem dúvida, muito mais absoluta que a pura relatividade de atrás, à frente, à direita e à esquerda.
Observa-se, nalgumas variantes do português, a construção à minha trás (à tua/sua…., etc.): «O Tio Josseldo vem a correr à minha trás». Considera-se normalmente que é uma expressão construída por analogia com à minha frente, mas mal formada, porque trás não é um nome e frente é, não havendo, portanto, um paralelo entre as duas frases[1].
De facto, os dicionários apresentam trás apenas como preposição[2] (ver aqui ou aqui, por exemplo). Aliás, as pessoas da minha idade que, como eu, ainda se lembram da lista de preposições que aprenderam a recitar de cor na escola primária, encontram trás no fim da lista. A palavra tem origem numa preposição latina, trans, e é sensato pensar que não mudou de categoria nos últimos dois milénios. Mas trás porta-se sempre como uma preposição[3]?
A mim, surpreende-me que trás, numa frase como «Um palíndromo é uma frase se lê tanto de trás para a frente como da frente para trás» seja uma preposição. Três preposições seguidas? Uma preposição em final de frase? É possível? Verificam-se outros casos? Não creio. Da mesma forma, quando se diz, por exemplo, «O edifício tem uma escada de socorro na parte de trás», como explicar uma frase terminada com duas preposições — que só encontram paralelo em construções com preposição mais nome? Que se considere de trás uma locução prepositiva não resolve o problema, porque as locuções prepositivas são constituídas por elementos morfologicamente identificáveis: cima é sempre um nome, mesmo quando entra na locução por cima de, etc.[4]
Não seria antes de considerar que trás pode ser uma preposição e um nome? Pode objetar-se a esta proposta que o hipotético nome trás não parece ter verdadeira existência autónoma, ao contrário do nome que mais diretamente parece corresponder-lhe, frente. «A frente da casa estava voltada a norte», mas não *«A trás da casa estava virada a norte», que não existe. No entanto, nomes como cima ou baixo também não têm, em português moderno, existência autónoma com o significado de «parte superior» ou «parte inferior», que é aquele com que são usados em locuções prepositivas: não se diz que o «O sopé da serra tinha uma vegetação luxuriante, que contrastava com a nudez da *cima», nem que «A aldeia ficava no *baixo da colina»…
Mas, enfim, isto é a gente a falar, como se costuma dizer…
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[1] Note-se que em galego, a nossa língua irmã, são relativamente comuns e aceites, também em registos formais, construções com tras seguido de possessivo: «Mais eu non vou tras túa coma un tigre de monte nin un león» (de uma tradução de Horácio por Aquilino Iglesia Alvariño). Não é claro, porém, que haja nominalização, até porque se verificam também construções como xunta miña para dizer «junto a mim». Não me atrevo a discutir este fenómeno numa língua que não conheço. Em português, também se verificam algumas anomalias deste tipo, como «Tiveste saudades minhas?» por «Tiveste saudades de mim», diferente de «Dá-lhe saudades minhas», que não corresponde a *«Dá-lhe saudades de mim», uma frase impossível. De notar também que trás tem, em galego como em castelhano, o significado de «após, depois de», que não tem em português.
[2] Há também outro trás, onomatopaico, que imita ruído de de queda ou pancada, e que os dicionários classificam como interjeição (?), mas esse é outra palavra...
[3] É mais fácil fazer listas de preposições que definir inequivocamente o que é uma preposição, a partir de propriedades observáveis. A definição clássica de palavra invariável que estabelece uma relação entre dois termos de uma oração é demasiado vaga, mesmo que se acrescente (Cunha e Cintra) que esta relação é tal que a primeira palavra (antecedente) é explicada ou completada pela segunda (consequente), o que não se aplica em muitos casos. À lista clássica (a, ante, após, até, com, contra, de, desde, em, entre, para, perante, por, sem, sob, sobre e trás), Cunha e Cintra acrescentam afora, conforme, consoante, durante, exceto, fora, mediante, menos, não obstante, salvo, segundo, tirante e visto, a que chamam preposições acidentais. A designação resulta, creio, de se conhecerem usos não preposicionais destes termos, mas todas as preposições são, na origem, derivadas de formas não preposicionais, na maioria formais verbais — como no caso das preposições acidentais consoante, durante, mediante, não obstante, salvo, tirante e visto. A esta lista há que acrescentar pelo menos dado (e talvez pese, que é um caso complicado.., pelo menos introduzindo um infinitivo, já que dado – tal como visto, aliás – ainda aparece muitas vezes flexionado no seu sentido causal e função prepositiva. É também interessante notar que, nas preposições tradicionais, ante, perante e trás são diferentes das outras, já que, ao contrário delas, não podem reger uma frase infinitiva. É de notar também que algumas das preposições acidentais têm as mesmas propriedades que as preposições tradicionais e outras não. Conforme e consoante, por exemplo, regem uma forma verbal finita sem ter de se lhes acrescentar que.
[3] Uma lista de locuções prepositivas, provavelmente incompleta: abaixo de; acerca de; acima de; a despeito de; adiante de; à direita de; à esquerda de; a fim de; além de; antes de; ao lado de; ao redor de; a par de; apesar de; a respeito de; atrás de; através de; de acordo com; debaixo de; de cima de; defronte de; dentro de; depois de; detrás de; diante de; em baixo de; em frente a; em frente de; em lugar de; em vez de; graças a; junto a; junto de; para baixo de; para cima de; para com; perto de; por baixo de; por causa de; por cima de; por detrás de; por diante de; por entre; para trás de; por trás de. Se deixarmos de lado as convenções ortográficas (note-se, por exemplo, que apesar de, em castelhano, se escreve a pesar de, que é o que de facto é), os elementos a negrito são nomes.
Começo como começava (como começavam...) as redações das escolas primárias de há muito tempo: a avestruz é um animal útil, porque nos dá as penas, a carne, os ovos e uma história que é mentira.
A gema de um ovo de avestruz é a maior célula animal que existe, porque as gemas dos ovos são as maiores células animais e os ovos de avestruz são os maiores de todos: li algures que, em média, equivalem a duas dúzias de ovos de galinha. Nunca comi ovo de avestruz (acho que, neste caso, ovo deve vir no singular e entender-se como partitivo: «nunca comi um bocado de ovo de avestruz»...)
Os espanadores de plumas de avestruz são o melhores espanadores que há. Sem comparação. Agora, há de haver muito quem ache que não se deve andar a arrancar plumas às avestruzes e eu concordo. Mas também se pode argumentar que é melhor aproveitar as penas das avestruzes que são mortas para comer que mandá-las fora e é certo. E também se pode contra-argumentar que, comprando penas de avestruz, se está contribuir para um mercado que, se for suficientemente grande, pode levar a que se produzam avestruzes especificamente para lhes tirar as plumas, passando o resto a subproduto... Nunca comi carne de avestruz.
A história que é mentira é que a avestruz mete a cabeça na areia quando se sente ameaçada, que deu origem à expressão enterrar a cabeça na areia como a avestruz e outras parecidas, para dizer «ignorar os seus problemas/a realidade». É estranho que se tenha acreditado numa história tão esquisita. Enterrar a cabeça na areia seria uma estratégia com grandes desvantagens adaptativas, não vos parece?
Chamam-se avestruz duas espécies do género Struthio, Struthio camelus (a avestruz comum) e Struthio molybdophanes (a avestruz somali). E é precisamente da palavra que define o género, struthio-, que vem o nome de avestruz. Parece que a história do nome é a seguinte: em português arcaico existia o nome estruz, que vinha do latim strūthion, provavelmente através do provençal estrutz. O nome latino vinha do grego strouthíōn, um forma abreviada de strouthokámēlos, um composto de strouthós, «pardal», e kámēlos, «camelo» que era – e ainda é – o nome da avestruz e que deu origem ao seu nome científico atual. O que é curioso, não só em português, como também noutras línguas, é que se tenha anteposto ave a estruz e que a palavra ave se tenha fundido com o nome do animal. É como se se chamasse reptilagarto a um lagarto, por exemplo...
Os dicionários dizem que avestruz pode ter os dois géneros, mas creio que a diferença é dialetal: diz-se um avestruz no português do Brasil e uma avestruz no português de Portugal (e, creio, no português dos outros países de língua portuguesa, mas não tenho a certeza absoluta). Ave é uma palavra feminina, e já avis o era em latim, pelo que o uso do masculino significa que já ninguém associa a ave a primeira parte da palavra. Mas isso é verdade também quando se diz avestruz no feminino, não é?
Já nem me lembro do que me levou a escrever este texto sobre a avestruz... Mas enfim, já que o escrevi, publico-o.
Acontece algumas vezes, na discussão de sistemas ortográficos, e, nomeadamente, na discussão da última reforma ortográfica do português, referir-se os conceitos de fonética e fonologia ou de elementos fonéticos e elementos fonológicos. Estes conceitos são desconhecidos da maior parte das pessoas, o que é perfeitamente natural, já que são conceitos técnicos, mas podem ser importantes em certas discussões. Por isso, decidi escrever um pequeno texto a descrevê-los muito sumariamente, para poder remeter para este texto quando/se, de futuro, o achar necessário. Já fiz isto antes: deixar aqui um texto a esclarecer conceitos que possa referir noutros textos do blogue. Note-se então: não é de modo nenhum de uma introdução à fonologia que aqui se trata, mas apenas de tentar esclarecer o que se quer dizer quando se diz que a escrita do português é, desde a reforma de 1911, uma escrita tendencialmente fonológica – e não fonética: uma escrita que tende a dar conta das unidades do sistema e não forçosamente dos sons pronunciados.
O que se segue é uma descrição muito simplificada e forçosamente pouco rigorosa de alguns conceitos, que eu creio que é suficiente para a discussão da ortografia e que espero que possa ser entendida por qualquer pessoa sem formação na área — embora não espere, claro, que uma pessoa que leia isto seja capaz de aplicar confortavelmente os conceitos no seu dia-a-dia. Os sons do português referidos neste texto são os do português europeu padrão. Quando falo de letras, refiro-as com maiúscula (A, B, C…); os sons efetivamente pronunciados são representados entre parênteses retos ([a], [b], [s]); as unidades do sistema (os fonemas, que podem corresponder a vários sons, como verão) são representadas entre barras oblíquas (/a/, /b/,/s/); e as pronúncias das palavras são apresentadas em negrito itálico.Para tudo isto, não recorro ao alfabético fonético, mas uso antes uma transcrição dos sons baseada na grafia do português ([j] para o primeiro som de giro, [ch] para o primeiro som de chá, cómudu para o som da palavra cómodo, etc.).
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Mas de que falo eu então quando falo de unidades do sistema – ou fonemas, como se costumam chamar? Dizemos que o som [f] de faca é um fonema, como o som [v] de vaca, porque estes sons distinguem estas palavras, entre muitas outras. Dizemos que os fonemas são unidades distintivas. Isto é uma definição simplificada, até porque [f] e [v] continuam a ser fonemas diferentes mesmo quando as palavras em que existem não têm nenhuma «parente próxima» que se distinga dela apenas por um som. Convém, pois, acrescentar que não se deve entender distintivas como «que distinguem de facto», mas antes como «que têm a capacidade de distinguir».
Os sons [s] e [z] correspondem, portanto, a diferentes fonemas e distinguem, por exemplo, caçar de casar. Os sons [ch] e [j] também correspondem a fonemas diferentes, que distinguem, por exemplo, chá e já, etc. Mas agora, vejamos qual é a relação entre letras e sons – e fonemas... Podemos constatar, por exemplo, que a letra S corresponde em português a quatro sons:
[s], por exemplo em saber (em que tem o mesmo som que os dois SS em passo ou o Ç de loiça[1]);
[z], por exemplo em casar (em que tem o mesmo som que o Z de zero ou fazer)
[ch], por exemplo em rosto e nós (em que tem o mesmo som que o CH de chorar ou do X de lixo); e
[j], por exemplo em pasmar (em que tem o mesmo som que o J de hoje ou do G de giro)
Usamos então a mesma letra para representar quatro fonemas diferentes? Bom, nalguns casos usamos a mesma letra para representar fonemas diferentes: por exemplo, o S para o fonema /s/ em saber e para o fonema /z/ em casar. Mas, nalguns casos, os quatro possíveis sons do S são apenas variantes de uma mesma unidade. São os casos em que um som é determinado pelo som que se lhe segue e não se pode fugir a isso. O S de rosto, por muito que represente o mesmo som que o CH de chorar ou do X de lixo[1], não representa a mesma unidade do sistema que encontramos naquelas palavras, é apenas uma variante do fonema /s/, que se pronuncia forçosamente [ch] antes de uma consoante surda, isto é, uma consoante em que não vibram as cordas vocais, como [f], [k], [p], [t], [s]. Também o S de pasmar, por muito que se pronuncie [j], como o J de hoje ou o G de giro, não representa um fonema — o som é apenas uma variação obrigatória de /s/ antes de consoantes sonoras, isto é, as consoantes que se pronunciam com vibração das cordas vogais [b], [d], [g], [l], [m], [n], [r], [v], [z]. Então, neste caso, a letra S tem uma relação mais direta, se se pode dizer assim, com a unidade do sistema que representa em rosto e pasmar, que é a mesma, que os sons que correspondem a esses SS, que são diferentes entre si. Curioso é também o caso do S pronunciado [z]. Se, nalgumas situações, representa claramente um fonema /z/ distinto de /s/, como em casar, que se opõe a caçar, quando está no fim de uma palavra antes de outra palavra começada por vogal, é também só uma variante obrigatória de /s/, que naquela situação tem de ser pronunciado [z]: tens os olhos azuis diz-se tenzuzólhuzazuich[2].
Um espetrograma: o som da palavra «é»
Não é só a letra S que pode representar vários sons que são variantes de um mesmo fonema. As letras B, D e G também correspondem, cada uma, a dois sons diferentes, mas a um único fonema. Isto é mais difícil de entender para a maioria dos falantes do português europeu, porque não têm consciência da diferença entre as duas maneiras de pronunciar cada uma destas letras, mas, se tomarem atenção (ou se virem um espetrograma do som pronunciado ou ouvirem uma gravação em velocidade mais lenta), verão que B, D e G entre vogais são pronunciados de forma mais «ligeira» (poupo-vos a descrição técnica, que é complicada, mas que podem encontrar aqui, aqui e aqui, respetivamente), de tal forma que podem corresponder a dois sons diferentes de outras línguas. É por não os considerarem sons diferentes que a grande maioria dos portugueses não distingue o D de day do TH de they em inglês padrão, embora eles correspondam respetivamente aos dois sons que se encontram na palavra dado em português falado normalmente. E digo falado normalmente, porque, se disserem as sílabas isoladas (por exemplo, para ver como as pronunciam, depois de lerem isto…), vão ter «dá… do», em que os dois DD têm o mesmo som.
Agora, este fenómeno não se verifica só com consoantes. Também cada uma das letras A, E e O pode, às vezes, representar vários sons que correspondem a uma única unidade do sistema, porque naquela situação não pode ocorrer mais nenhuma. Uma maneira fácil de ver isto são as conjugações verbais. Se tomarmos o presente do verbo comer, por exemplo, estamos perante unidades do sistema, cuja pronúncia varia conforme estejam ou não na sílaba tónica. O O de comer pode pronunciar-se [ó], [ô] ou [u] e o E pode pronunciar-se [ê] ou [e] (E dito «fechado», às vezes não pronunciado), conforme estejam ou não na silaba tónica: eu cômu, tu cóm(e)s, ela cóm(e), nós cumêmus…[3].
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Uma escrita fonológica ideal reduz a uma única letra todas as variantes de uma unidade do sistema, independentemente dos sons em que se manifeste e das diversas maneiras de falar essa língua. Isto não acontece numa escrita fonética, que é muito menos prática, porque, em princípio, um mesmo fonema se pode representar de várias formas e a representação direta da variação regional é forçosamente muito maior. É claro, a variação regional pode ser também fonológica, isto é, uma determinada palavra pode ter, num determinando dialeto, um fonema que não existe no outro. Por exemplo, facto tem, no português europeu, um fonema /k/ que não existe no português americano. Também é muitas vezes difícil, se não impossível, decidir o que tem relevância fonológica, especialmente quando se trata da oposição entre vogais, por exemplo, [ê] e [é] mas isso é uma discussão muito longa que não cabe aqui.
O que me parece importante salientar é que, ao contrário do que muitas vezes se diz, a escrita atual do português é essencialmente fonológica e abarca, por isso, a grande maioria das variações de pronúncia dos seus falantes – porque as letras não tendem a representar os sons efetivamente ditos, mas sim as unidades que lhes subjazem, que podem ter várias pronúncias, também consoante a variante regional. E as reformas que tem havido, desde a de 1911, em que se inaugurou esse padrão, têm sido coerentes nesse sentido. Agora, digo «essencialmente fonológica», porque há ainda algumas coisas (o uso de H inicial é o mais óbvio, mas há muitas outras) que não têm nada nem de fonético nem de fonológico — e que, aliás, nem sequer seguem sempre uma lógica etimológica… Até à escrita completamente fonológica, há ainda algum caminho a percorrer...
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[1] Isto não é verdade em todos as variantes do português, porque, no nordeste de Portugal, há ainda algumas (muito poucas) pessoas que pronunciam os CC sibilantes de forma diferente dos SS, mas esta oposição, que tem vindo a desparecer ao longo dos séculos, vai muito em breve desaparecer de vez. Em fases anteriores da língua, porém, esta distinção existia numa grande área do romance ibérico: distinguia-se uma pronúncia do S com a língua a tocar os alvéolos (o chamado «s beirão») e a pronúncia do Ç/CE, CI, igual à nossa pronúncia atual de todos estes sons, com a língua a tocar nos dentes (ver aqui).
[2] Há exceções dialetais a esta regra: em certos falares regionais portugueses e nalgum português moçambicano, ocorre nesta situação não o som [z], mas antes o som [j]: ‘tájaver?
[3] Esta regra está apresentada de uma forma simplificada. Por exemplo, em português europeu, o fonema /o/ (escrito O), quando não faz parte de um ditongo, pronuncia-se [u] quando é átono, ou seja, não está na sílaba tónica: culurídu, cómudu, pud(e)rôsu, etc. Ora esta regra aplica-se numa grande maioria dos casos, mas não sempre.
Outra regra que a complementa é que, no início de uma palavra, quando /o/ é uma sílaba sozinho ou é início de sílaba seguido de uma consoante, se pronuncia sempre [ó]: obrigado, ostentação, organização, obtuso, etc. Outra regra complementar desta última é que o /o/ mantém essa abertura de [ó] em compostos por prefixação dessas palavras: desorganização, inoperante, etc.
Muitos prefixos relativamente autónomos, como mono-, poli-, etc. mantém também o som [ó] quando formam compostos: monomania, polivalente, etc. Além disso, há exceções avulsas, em princípio por razões históricas que não vou aqui descrever: ecònomia, sòmente, etc.
Outra questão interessante é que, quando um O final nunca aparece em posição tónica na flexão de uma palavra, não haveria razão para o considerar uma variante de um /o/. Por exemplo, não há nenhuma palavra com a mesma raiz que político em que o O final se pronuncie [ô] ou [ó], mas a prova de que é um /o/ que está por baixo do [u] surge quando se liga o termo a outro termo: político-militar, etc.
Um dia, farto que estava de ouvir dizer que as línguas latinas são o francês, o português, o espanhol, o italiano e o romeno, decidi fazer uma pequena lista das línguas latinas. Evidentemente, isto é, com rigor, uma tarefa impossível, já que não há maneira de distinguir línguas de dialetos e os linguistas não estão de acordo sobre que variantes linguísticas do espaço neolatino se devem considerar ou não variantes dialetais de outra língua ou uma língua de pleno direito. Tive de fazer algumas escolhas e nem todos concordarão com as escolhas que fiz. Agradeço críticas e sugestões para melhorar o artigo.
Depois de cada língua, ponho o seu código internacional ISO 639-3 entre parênteses curvos. Depois, a sua situação de vulnerabilidade, de acordo com o UNESCO: NA para «não ameaçada«, VU para «vulnerável», PE para «em perigo» PG para «em perigo grave». Indico entre parênteses retos os países onde são falados e onde são (muitas vezes só na região onde são faladas) oficiais ou cooficiais (O) ou línguas de minorias com alguma forma de reconhecimento oficial (R). Dou por fim o número aproximado de falantes nativos e é com base nessa variante que a lista está organizada, das línguas com mais falantes nativos para as línguas com menos falantes nativos. Só incluo línguas com mais de 10.000 falantes nativos. Este número é perfeitamente arbitrário. Os dados sobre o nome de falantes provêm de fontes diversas e alguns são mais antigos do que outros, de maneira que há que desconfiar um pouco de muitos deles, que são hoje provavelmente mais baixos do que os que indico. É de notar que algumas línguas, como o espanhol, têm um grande número de falantes não nativos e há até casos, como o do catalão, em que o número de falantes como língua segunda, é, segundo algumas fontes, apresentado como sendo superior ao do de falantes nativos. No caso do estremenho, do ladino/judeu-espanhol e da fala estremenha, não consegui encontrar o grau de vulnerabilidade definido pelo UNESCO.
Nos nomes das línguas, há links para um vídeo falado nessa língua, para que quem não as conheça possa ouvir como soam (exceto nas quatro primeiras, que todos conhecem). Muitos destes vídeos são do projeto Wikitongues, que pretende precisamente criar documentação acessível de línguas minoritárias e contribuir para a sua preservação. Nalguns casos, nota-se claramente uma influência da língua oficial do país (espanhol francês, italiano, português) no discurso na língua minoritária. Como falantes do português, é-nos fácil notar isso no vídeo em mirandês. Mas também no vídeo em picardo, por exemplo, é fácil notar a influência do francês. O «verdadeiro» picardo é, ao que parece, raro hoje em dia e o ch'ti atual está muito contaminado pelo francês. É natural, dado que as línguas oficiais são as línguas de escolarização, da rádio e da televisão, das instituições públicas, etc.
A questão da classificação dos crioulos de base espanhola, francesa ou portuguesa como línguas neolatinas é complicada e não sei praticamente nada sobre ela. Não os incluo nesta lista.
Castelhano ou Espanhol (spa) NA [Argentina (O), Bolívia (O), Chile (O), Colômbia (O), Costa Rica (O), Cuba (O), El Salvador (O), Equador (O), Espanha (O), Guatemala (O), Guiné Equatorial (O), Honduras (O), México (O), Nicarágua (O), Panamá (O), Paraguai (O), Peru (O), Porto Rico (O), República Árabe Saaraui Democrática (O), República Dominicana (O), Uruguai (O) e Venezuela (O)] 500.000.000 falantes nativos
Português (por) NA Angola (O), Brasil (O), Cabo Verde (O), China (O), Guiné-Bissau (O), Guiné Equatorial (O), Moçambique (O), Portugal (O), São Tomé e Príncipe (O), Timor-Leste (O) 230.000.000 falantes nativos
Francês (fra) NA [Bélgica (O), Benim (O), Burundi (O), Camarões (O), Canadá (O), Chade (O), Comores (O), Congo (O), Costa do Marfim (O), Djibuti (O), EUA (R), França (O), Gabão (O), Guiné (O), Guiné Equatorial (O), Haiti (O), Índia (O), Itália (O), Líbano (R), Luxemburgo (O), Madagáscar (O), Maurícia (R), Mónaco (O), Níger (O), República Centro-Africana (O), República Democrática do Congo (O), Ruanda (O), Senegal (O), Seicheles (O), Suíça (O), Togo (O), Vanuatu (O) (oficial não de jure mas de facto na Argélia, Mauritânia, Mali, Marrocos e Tunísia)] 74.000.000 falantes nativos
Italiano (ita) NA [Bósnia-Herzegovina (R), Croácia (O), Eritreia (R), Eslovénia (O), Itália (O), Roménia (R), São Marino (O), Suíça (O), Vaticano (O)] 65.000.000 falantes nativos
Romeno (nalguns países conhecido como Moldavo) (ron) NA [Hungria (R), Moldova (O), Roménia (O), Sérvia (O), Ucrânia (R)] 25.000.000 falantes nativos
Napolitano(nap) VU [Itália] 5.700.000 falantes nativos
Siciliano(scn) VU [Itália (R)] 4.700.000 falantes nativos
Catalão (também conhecido nalgumas regiões como Valenciano, Maiorquino, Menorquino, etc.) (cat) VU [Andorra (O), França (M), Itália (O), Espanha (O)] 4.100.000 falantes nativos (e mais de 5 milhões como L2)
Véneto (também chamado Taliano no Brasil e Chipileño no México) (vec) VU [Brasil (R), Itália (R), Mexico (R)] 3.900.000 falantes nativos
Lombardo(lmo) PE [Itália, Suíça] 3.800.000 falantes nativos
Galego(glg) PE [Espanha (O)] 2.400.000 falantes nativos
Piemontês (pms) PE [Itália (R)] 2.000.000 falantes nativos
Emiliano(egl) PE [Itália (R)] 1.300.000 falantes nativos
Sardo(srd) PE [Itália (R)] 1.000.000 falantes nativos (2010 -2016)
Picardo(também conhecido como Ch'timi ou Ch'ti) (pcd) PG [Bélgica (R), França] 700.000 falantes nativos
Lígure(chamado Monegasco no Mónaco) (lij) PE Itália (O), Mónaco (O) 600.000 falantes nativos
Romanholo (rgn) PE [Itália, San Marino] 430.000 falantes nativos
Friulano(fur) PE [Itália] 420.000 falantes nativos
Asturo-Leonês (ast) PE [Espanha (R)] 250.000 falantes nativos
Arromeno(também conhecido como Vlach ou Mácedo-Romeno) (rup) PE [Albânia (R), Bulgária, Grécia, Macedónia do Norte (R), Roménia e Sérvia] 210.000 falantes nativos
Occitano(também chamado Provençal em França e Aranês em Espanha) (oci) PE [Espanha (O), França (R), Itália (R), Mónaco (R)] 200.000 falantes nativos
Eis um mapa que dá uma boa ideia da distribuição geográfica das línguas românicas. A lista das línguas representadas no mapa não coincide completamente com a lista acima.
Autoria: Yuri Koryakov, modificado por mim (Wikimedia commons, daqui)
Segue-se uma lista com as traduções de comer, beber, pão e água para 34 línguas românicas (as 31 acima e mais três com menos de 10.000 falantes). Só por curiosidade.
Tendo só em conta estas palavras, parece haver uma distinção de base entre as línguas em que a palavra mais imediata para «ingerir alimentos sólidos» vem do latim clássico comedere, latim tardio comere (as línguas iberorromânicas), e as línguas em que a palavra o mesmo conceito vem do latim manducare (as outras todas…). Mas é uma distinção algo fortuita. Tivesse escolhido outras palavras e saltariam à vista outras aparentes distinções. Todas as organizações são complicadas, mas podem distinguir-se dois grandes ramos, as línguas românicas orientais e as línguas românicas ocidentais, com algumas pelo meio que se discute onde pertencem ou que podem ser um terceiro grupo… As orientais dividem-se em ítalo-dálmatas e em balco-românicas e as ocidentais em ibero-românicas e galo-românicas. A Wikipédia dá uma panorâmica simples destas classificações.
Também chama a atenção a variação de uma mesma palavra numa mesma língua. Pode pensar-se: «Como pode haver tantas maneiras, e tão diferentes, de dizer beber em sardo ou pão em romanche? A maior variação dialetal pode depender de fatores como fronteiras políticas e, tradicionalmente, também do isolamento geográfico das comunidades de falantes. Outro fator é a falta de padrão ou uma padronização recente e ainda pouco influente. Quando uma língua é padronizada, muitas variantes passam a ser consideradas incorretas e desaparecem dos registos escritos e dos registos orais menos educados. Quando não há tanto peso da norma padrão, os linguistas tendem a registar todas as formas produzidas em vários dialetos. Se os registos do português seguissem essa lógica, seria preciso registar, (e só no português europeu) as formas comêre e comêri, bebêre, bebêri, buber, buer, auga, entre outras, que são efetivamente produzidas pelos falantes da língua, mas que só em contextos muito especiais são registadas nas descrições do seu vocabulário.
P.S.: Algumas curiosidades
Ao procurar vídeos nas várias línguas, encontrei algumas coisas curiosas, que quero aqui destacar. Acho muito interessante, por exemplo, que um americano dos EUA, da quinta geração de imigrantes sicilianos, ainda fale siciliano (e perfeitamente, a julgar pelos comentários).
Tão habituados que estamos às fronteiras dos estados nações atuais e à ideia de uma língua nacional para cada um deles, esquecemo-nos de que há muitas vezes um continuum de dialetos mutuamente inteligíveis através de fronteiras políticas. Para um português que conheça o galego, o asturo-leonês (incluindo o mirandês) e a fala estremenha, por exemplo, isso parecerá óbvio. Mas também é interessante ver como, noutros lugares, duas pessoas de nacionalidades diferentes comunicam sem problemas em línguas diferentes. Laura é espanhola, da província de Barcelona, e fala catalão, que é a sua língua materna; e Gabrièu é francês, de Nice (que não é logo ali ao lado da Catalunha), e fala occitano, em que é perfeitamente fluente, mas que não é a sua língua materna.
Finalmente, e já que estamos em maré de catalão, um vídeo em que Joan Lluís-Lluís, um francês de Perpignhão, fala, num catalão impecável, dos problemas dessa língua – e de várias outras línguas – em França. Isto é interessante, porque não há muitos jovens franceses a falar catalão como ele. Como Joan diz, o catalão está moribundo em França e, se procurarem outros vídeos sobre o catalão na zona, verão que os jovens que o ainda o falam como língua segunda têm uma fluência limitada e um claro sotaque francês.
No dialeto da minha região — e não só —, maçã usa-se para referir os frutos das árvores da espécie Malus domestica que têm uma altura claramente menor do que a largura. Quando os frutos das árvores dessa espécie são claramente mais altos que largos, chamam-se peros. Entre os dois tipos, fica uma nomeação indecisa, creio eu. E, bom, há variedades de que encontram as duas designações, mas não sei se de deve à forma essa hesitação. Nalguns casos, é antes o tempo o responsável: o que era antes pero passou agora a maçã, que, provavelmente, acabará por se impor como termo único para designar os frutos da espécie. Até se chama agora Maçã Bravo de Esmolfe, vejam lá vocês!, ao que sempre foi pero-bravo-de-esmolfe — ou «pero-bravo-mofo», como ouvi muitas vezes dizer… Mas está mal, e não só pelas maiúsculas e ausência de hífens: se querem chamar-lhe maçã em vez de pero, chamem-lhe então maçã-brava-de-esmolfe, sim?
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Tirando raras exceções (agora, lembro-me só de figueira, mas sei que há mais...), há, em português, uma relação direta entre o género da planta e o género do seu fruto — planta masculina, fruto masculino, como limoeiro, pessegueiro, ananaseiro, abacateiro, medronheiro, abrunheiro, coqueiro, etc.; planta feminina, fruto feminino, como laranjeira, macieira, ameixeira, nespereira, bananeira, tamareira, amoreira, etc. Pero não é exceção: à árvore que dá os peros chama-se pereiro.
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Note-se que tanto pero como pereiro estão longe de ser termos espúrios ou «populares» ou «dialetais». Têm pedigree e bom pedigree, como se pode ver na breve história de pero que Isabel Maria Fernandes escreveu no blogue Saberes Cruzados). Não faltam, sequer, abonações de escritores consagrados. Por exemplo, Filinto Elísio, usa o termo em matéria épica, a sua recriação do Oberon de Wielend:
Mas ha lá no jardim, junto á marmorea
Fonte, um pereiro, abérto como um léque.
O pedigree é, aliás, justificado pelo antigo nome botânico: antes de se dividirem peros/maçãs e peras em dois géneros, eram ambas as plantas classificadas num único género, Pyrus, e peros/maçãs eram Pyrus malus.
Ilustrações de May Rivers em The Fruit Grower's Guide, de John Wright (1836), digitalmente tratadas por Rawpixel (daqui e daqui)
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P.S.: Como já aqui disse uma vez, não são só peros e maçãs que, em português europeus, se distinguem uns dos outros por serem os primeiros mais altos que largos e os segundos mais largos que altos—o mesmo acontece com tacho e panela.
A minha amiga Catarina mostrou-me há pouco tempo um excerto de William Labov, um dos nomes maiores da sociolinguística (é uma passagem conhecida, que eu traduzo e cuja versão original pode encontrar-se, por exemplo, na Wikipédia):
Diferentes comunidades estigmatizam mais ou menos as novas formas da língua, mas nunca conheci ninguém que as recebesse com aplausos. Alguns cidadãos mais velhos recebem bem as novas músicas e danças, os novos dispositivos electrónicos e computadores. Mas se ouviu ninguém: «É maravilhoso como os jovens falam hoje em dia. É muito melhor que a maneira como falávamos quando eu era criança». (...) A crença mais geral e mais profundamente enraizada sobre a língua é o Princípio da Idade do Ouro: Houve um determinado momento do passado em que a língua estava num estado de perfeição. Parte-se do princípio que, nesse estado, todos os sons eram corretos e belos, e todas as palavras e expressões eram genuínas, precisas e apropriadas. Além disso, o declínio desse estado tem sido regular e persistente, de modo que cada mudança representa um afastamento da idade de ouro e nunca um retorno a ela. Todos os sons novos soarão feios e todas as novas expressões soarão impróprias, imprecisas e inapropriadas. Tendo em conta este princípio, é óbvio que a mudança linguística deve ser interpretada como inconformidade com as normas estabelecidas e que as pessoas rejeitarão mudanças na estrutura da língua quando delas se tornam conscientes.
(in Principles of Linguistic Change, Vol. 2: Social Factors (2001), p. 51)
Esta ideia da Idade de Ouro e da degenerescência forçosa das coisas humanas está longe de se aplicar apenas à língua—aplica-se a tudo o que é humano e foi já aqui referida no blogue algumas vezes a propósito de outras coisas (é até uma etiqueta do blogue). Muitos concordarão que Labov tem razão. E eu também, mas parece-me que há que dar conta de algumas exceções sistemáticas a esta regra geral.
A minha experiência é que, quando, numa determinada região, as novas gerações—normalmente através da escolarização—se aproximam de uma variante de maior prestígio, as reações à mudança podem não ser exatamente como Labov as descreve no excerto acima. Ouvi muitas vezes a pessoas sem educação formal de zonas rurais que não sabem mesmo falar o correto, que só falam assim à maneira delas, que é uma maneira de falar bruta ou errada… E ouvi dessas pessoas coisas como «Ah, ele (por exemplo, um filho educado de alguém da aldeia) já não fala como à gente, que ele tem estudos e aprendeu mesmo o português correto.» Em variantes de pouco prestígio, a ideia do falar perfeito ancestral esbate-se muito ou assume outros contornos. As pessoas podem achar que é pena já ninguém falar a variante à maneira antiga, que era tão expressiva ou tão engraçada, mas não pensam nela como mais próxima da perfeição, simplesmente porque desvalorizam o seu próprio falar.
E é curioso que a palavra dialeto, que significa, em princípio, «variante de uma língua falada numa determinada região», sem qualquer julgamento de valor implícito («os dialetos setentrionais», «o dialeto de Lisboa/ da zona da Lousã», etc.), é usado muitas vezes, mesmo para referir a sua própria variante ou até a sua própria língua, com o significado de «falar imperfeito, incorreto, de menos valor que a variante de prestígio ou a língua oficial».
[Isto dos blogues generalistas é um bocado complicado e já pensei em dividir este blogue em dois ou três. Muitas vezes, autocensuro-me temas, principalmente relacionados com língua, porque os acho demasiado especializados e desconfio dos meus dotes de vulgarizador... Mas nem sempre sou coerente nessa autocensura e às vezes publico coisas que acho que não interessam a ninguém — ou interessam só a muito, muito pouca gente. Este texto, por exemplo, que decidi publicar só porque lhe acho graça, fala de coisas tão nerdque espero mesmo que interessem só a meia dúzia de pessoas – senão, é sinal de que o mundo está perdido, valha-nos Santa Edwiges da Silésia!…]
Em francês standard, as palavras jeune, «jovem», e jeûne, «jejum», têm pronúncias diferentes*. Quando vivi em Genebra, porém, dei-me conta de que, no sotaque local, as duas palavras se pronunciam da mesma maneira. É uma pronúncia, explicaram-me, típica da Suíça e do Leste da França; mas parece que há outros francófonos que anulam a distinção nestas duas palavras.
Uma pequena curiosidade, que descobri agora: Victor Hugo ou também falava assim (mas não creio que isso se explique por ele ser de Besançon, porque não viveu lá muito tempo) ou considerava que jeune e jeûne eram rimas visuais:
Hélas ! l'ombre d'Allah n'a pas rompu le jeûne ;
La sultane est gardée, et son fils est trop jeune ;
Aos meus leitores que não estejam familiarizados com esta diferença entre jeune e jeûne, dou de TPC repetir em frente ao espelho
« Jamais je ne vois les jeunes genevois pratiquer le jeûne genevois »
até a coisa fluir com naturalidade.
Deixem-me explicar, já agora, que a frase é mais do que um trava-línguas forçado, já que existe mesmo o feriado do Jejum Genebrino, que a Wikipédia em português explica da seguinte maneira:
O Jeûne Genevois, que se poderá traduzir literalmente por «Jejum Genebrino», é um dia feriado no cantão de Genebra, Suíça, na quinta-feira seguinte ao primeiro domingo de Setembro. Os outros cantões suíços festejam o Jeûne Fédéral no terceiro domingo desse mês.
A página em francês tem mais informação sobre o assunto. A tradição é antiga, mas, depois de várias peripécias de institucionalização e supressão, o dia é agora feriado desde 1966.
Não deixa de ser divertido que a assembleia de representantes dos diversos cantões que instituiu o feriado do Jejum Federal se chamasse… a Dieta Federal.
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* Vão ao Larousse ouvir a diferença, se a não conhecem, ou ao Forvo: o -eu- de jeune pronuncia-se como em peur [œ] e o -eû- de jeûne como em peu [ø].
Não é muito normal uma forma flexionada de um verbo transformar-se em nome.
Conheço duas palavras latinas que se espalharam por muitas línguas, placebo (1ª pessoa do futuro de placere, “agradarei”) e credo (1ª pessoa do presente de credere, “creio”).
Conheço também je-m'en-foutisme e je-m'en-foutiste, em francês, e ignoramus em inglês, mas não são bem palavras diretamente derivadas da forma verbal flexionada – je-m'en-foutisme e je-m'en-foutiste correspondem ao que seria em português estoumenastintismo e estoumenastintista, se alguém se tivesse lembrado de inventar essas expressões, ou seja, são construídas com um sufixo nominal que se acrescenta a uma frase inteira; e ignoramus, “ignorante”, vem do nome de uma personagem de uma peça de teatro de Georges Ruggle (que foi, esse sim, construído a partir da forma verbal latina ignoramus, “ignoramos”).
E conheço, em português, uma estrutura que, em registos menos canónicos, se usa para construir negativa ou recusa: uma estranhíssima nominalização da segunda pessoa de vários tempos verbais:
Tu disseste que lá ias, mas é o foste[1]!
Ele fala muito, mas eu queria era vê-lo a fazer aquilo. Está bem, está; era o fazias!
E mais palavras, assim de repente, não me vêm à ideia.. Fico à espera das vossas contribuições.
***
O que fica para trás é apenas uma introdução ao tema principal do texto, que é supônhamos, nome masculino. Alguém me perguntou, no outro dia, se eu tinha algum texto no blogue sobre esta estranha palavra. Respondi que ainda não, e comecei a escrever este texto. Supônhamos é um caso interessante, acho eu, porque é mais que uma nominalização de uma forma verbal flexionada, o que já é anormal: é uma (anormal) nominalização de uma forma verbal anormal. E tem, como todas as palavras, uma história – que, como a de muitas outras palavras, provavelmente ninguém sabe qual é…
Do ponto de vista puramente linguístico, creio que a forma verbal supônhamos (criticada, claro, ou simplesmente errada, se assim o preferirem) se pode explicar pela tendência para a regularização, já que, das formas comummente usadas do presente do conjuntivo(a 2ª do plural, vós, está em vias de extinção...), só na forma da 1ª pessoa a sílaba -po- não é acentuada. Como todos sabem, é comum a produção de formas esdrúxulas da primeira pessoa do plural: fáçamos, dígamos e por aí fora[2]. Comum, malvisto e ridicularizado. Apesar disso, o nome supônhamos vingou: uma busca em Google mostra claramente que a palavra existe. Por espúria, desnecessária e irritante que possa ser, existe[3]. Aliás, provavelmente não é apesar deser malvista e ridicularizada que existe, é por isso mesmo – é bem possível que se trate uma criação satírica que pegou, especulo eu.
Não digo que seja impossível que alguém alguma vez tenha usado a forma verbal como nome sem ser por sátira. Acho apenas improvável. Parece-me mais provável que tenha sido criada numa tentativa de pôr a ridículo alguma maneira de falar. É que, nesses arremedos satíricos do linguajar popular, costuma exagerar-se (o exagero é o próprio da caricatura, não é verdade?) e pôr na boca do povo, seja lá o que for que isso quer dizer, coisas que o povo nunca disse. Sei que as recordações claras são tão pouco fiáveis como as outras, mas recordo-me claramente de que ouvi a expressão pela primeira vez numa anedota (que também me recordo qual é!), há coisa de 35 anos, mais ano menos ano.
Agora, já se sabe: quando se repete muito uma palavra, mesmo que seja por troça, ela fixa-se. E o que surgiu por brincadeira pode até perder esse caráter. Lembro-me de que uma das coisas que, no meu grupo de amigos, solidificou o calão angolano que surgiu em Lisboa em 1975 foi usarmo-lo no gozo. No gozo, no gozo e, às tantas, já usávamos sem querer madiê, quicoto, malaico, pancar, baicar, etc., etc., etc., tudo aquilo de que nós, muito bairristamente, tanto tínhamos troçado.
–––––––––––––––
[1] Ou …É o fostes!, já que esta forma criticada da segunda pessoa do singular se adapta bem a este registo. [2]Como não quero entrar, no texto, em pormenores técnicos, digamos assim, passo-os para esta nota de rodapé, que é uma maneira de fingir que os faço desaparecer. Uso * para indicar que a forma não é produzida ou que não está atestada, e + para indicar que é considerada errada:
Neste caso, tendência para a regularização é, claramente, uma expressão simplista, se não abusiva. No paradigma do presente do indicativo, há duas possíveis “regularizações”: a “regularização” do acento na penúltima sílaba, que produz a forma correta (suponha, suponhamos) ou a “regularização” da acentuação na sílaba -po-, independentemente da sua posição no palavra, que produz a forma criticada (suponha, *supônhamos). Pode pensar-se que esta “regularização” é, ela própria, irregular, porque apenas se verifica no presente do conjuntivo e não se verifica nos verbos regulares com infinitivo em -ar, que são a maioria dos verbos portugueses. Parecem-me perfeitamente impossíveis, por exemplo, seja em que dialeto ou socioleto for, formas esdrúxulas como *fálamos, *cómemos ou *pártimos no presente do indicativo e formas como *fálemos, *espéremos ou *acredítemos no presente do conjuntivo. Seria interessante ver se as formas esdrúxulas da 1ª pessoa são mais comuns em verbos irregulares no presente (+dígamos, +quêiramos, +sáibamos, +fáçamos, etc.) que em verbos regulares (+cômamos, +ábramos, etc.).
E porque se “regularizaria” a acentuação de uma determinada sílaba? Podia pensar-se que acentuação da sílaba tónica mais frequente nas várias pessoas nos vários tempos seria sentida como “natural” e que daí resultaria a “regularização” incorreta do acento. Mas não é assim. Num verbo regular, a parte do radical que dá a última sílaba do infinitivo (a sílaba que começa porm em comer, por exemplo) é tónica num maior número de formas. A falar-se de “regularização”, ela tem como modelo apenas as restantes formas do presente do conjuntivo. Evidentemente, não é preciso falar de “regularização”. Pode simplesmente postular-se que é esta a regra interiorizada em certas variantes regionais ou sociais.
Encontrei no YouTube um vídeo muito engraçado. É um excerto do filme de Tiago Pereira 11 burros caem no estômago vazio, de 2006. O vídeo tem interesse de muitos pontos de vista, mas, claro, para uma pessoa da área das línguas como eu, tem também interesse linguístico. Mostra-nos, por exemplo, a pronúncia de s, ç e z, ch e x no português antigo!...
Muitos reagirão imediatamente: «Mas não é português que esta gente fala!» Muito bem, assentemos que não. Não sei nada de mirandês e não consigo perceber se é mesmo mirandês que falam, ou uma mescla de mirandês e português, ou se é assim que se fala português na região, devido às interferências do mirandês. Para o que me interessa, porém, isso não importa: ouçam como estas pessoas pronunciam s, ç e z, ch e x no discurso que aqui lhes ouvimos e ficam a saber como se pronunciavam em português antigo.
Se ouvirem com a atenção necessária, verão que c e ç (pertenço, centeio, desgraçado) são pronunciados como em Lisboa (predorsodentais, chama-se em linguagem técnica) e que o s é pronunciado entre s e ch, como na Beira (ápico-alveolar). Reparem também que o z (por exemplo em fazer ou catorze), é também pronunciado como em Lisboa, ao passo que o s entre vogais (por exemplo em casa, marquesa ou ligando uma palavra à palavra seguinte, quando esta começa por vogal), tem uma pronúncia entre um z e um j do português standard moderno, como no sotaque beirão. Além disso, o x, que se pronuncia como em português standard (por exemplo, em baixo), é diferente do ch, que se pronuncia [tch] (por exemplo em chorar).
Não se sabe ao certo quando é que as diferenças que se preservam neste falar transmontano desapareceram no resto do país, mas há quem defenda que tinha começado a haver confusão entre estes sons já no século XIII e a maior parte dos estudiosos aceita que no século XVI s e c/ç, z e s intervocálico se pronunciavam já indistintamente em quase todo o país: na Beira, c/ç e z passaram a pronunciar-se como s; nos outros lugares, foi ao contrário, s passou a pronunciar-se como o ç/c e z. Como devem calcular, houve muito a gente a criticar a pronúncia das pessoas que já não distinguiam s de c nem x de ch, até que este empobrecimento se tornou norma e o que era antes pronúncia normal passou a ser exclusiva de um sotaque remoto lá atrás dos montes. É sempre assim.
A expressão ir de embute é muito antiga. Sempre a conheci, o meu pai conhecia-a e não me espantaria nada que o pai dele a tivesse conhecido também. Ouvi-a milhares de vezes, continuo a ouvi-la diariamente quando vou a Portugal e há dela centenas de ocorrências em Google. Aliás, é uma expressão tão comum que me surpreende que Helder Guégués a não conhecesse há mais tempo – diz-nos que só agora a ouviu pela primeira vez, numa crónica de João Gobern. E pergunta: de onde virá tal expressão?
Antes de tentar esboçar uma resposta a essa pergunta (é esse o principal propósito deste texto), deixem-me indignar-me: o facto de não estar dicionarizada uma expressão como ir de embute prova mais uma vez o que já estamos fartos de saber: que os dicionários registam com prazer qualquer termo que algum escritor reconhecido tenha inventado um dia e usado uma vez ou duas (e de que, por conseguinte, não se pode dizer que faz realmente parte da língua), mas não registam o português real que milhares dos seus falantes nativos usam constantemente no seu dia-a-dia. Ou seja, decidem eles o que é português e o que não é, como se fosse essa a sua função e tivessem competência para tal… E o calão, bom, mais que qualquer outra variedade, «os lexicógrafos remetem[-no], se lhes vem ao gadanho, ao cemitério da língua», como constatava o mestre Aquilino Ribeiro, em tom de óbvia crítica a essa tentativa de varrer para debaixo do tapete as variantes dialectais e sociolectais menos prezadas pelos poderosos do idioma. Mas adiante:
Também já me interroguei várias vezes sobre a origem de ir de embute. E ensaio agora aqui não uma resposta definitiva, concludente, mas apenas uma reflexão ligeira, como quem pensa alto, que vale o que vale, como se costuma dizer, na falta de provas concludentes…
Ir de embute está com certeza relacionado com bute, “pé”, disso não creio que possa haver muitas dúvidas. Mas como? Não me parece disparatado propor que ir de embute venha directamente de bute e é essa a ideia que desenvolverei a seguir. E então, para não meter os pés pelas mãos, se me desculpam o trocadilho de evidente mau gosto, convém falar um pouco dos butes antes de propor alguma explicação de como deles se chega a ir de embute.
Hoje em dia, a palavra bute usa-se sobretudo de quatro maneiras, ao que sei: i) na expressão meter os butes em [algum lado], que significa “estar em [algum lado]/ir a [algum lado]”, e que é usada quase exclusivamente como item de polaridade negativa – “nunca lá meti os butes” significa “nunca lá fui / nunca lá estive”; ii) na expressão ir/andar a butes, “ir/andar a pé”; iii) nas expressões dar/levar com os butes, “recusar alguém, terminar uma relação amorosa”/“ser recusado numa relação amorosa”; e iv), sozinha, como interjeição, com o significado de “vamos!” O meu dicionário Porto Editora de 2004 reconhece a palavra, que diz vir do inglês boot. O mesmo propõem o Dicionário da Academia das Ciências, de 2001, e o Dicionário Etimológico, de Antônio Geraldo da Cunha (2ª ed., 1996), que diz ainda que o primeiro registo conhecido do termo é de 1899[1].
Falta-nos saber, porém, como se chega de bute a ir de embute. À primeira vista, pareceria mais lógico que tivesse sido ao contrário, que embute se tivesse reduzido a bute, como embora se reduziu a bora. Mas a verdade é quase sempre contraintuitiva, como se sabe [2] e a minha engenhosa proposta (gaba-te cesto…) é que o bute, já usado como interjeição, tenha ganhado o ditongo nasal inicial por analogia com embora – uma reconstrução de uma pretensa forma anterior, pelo processo conhecido como etimologia popular: “...Se bora vem de embora, bute, que significa a mesma coisa, deverá também ter perdido um em- inicial e a forma “completa” há-de ser embute...”
Até aqui, nada de muito extraordinário. Mas, e como apareceu ali no meio o de? Ir-se embora não tem nenhum de! Mais uma vez, por analogia, creio eu, mas desta vez com outras expressões, também comuns e com o mesmo significado, como ir/dar de frosques ou dar de slaide [3], ou, menos comuns, mas ainda assim com bastante ocorrência, pelo menos quando eu era jovem, ir de avanço ou ir de espiante, por exemplo, essas talvez mais tipicamente lisboetas.
E já agora, à laia de coda e já que estamos em maré de sinónimos de abalar ou ir-se embora em registos menos standard (desculpem-me o anglicismo, sim?), quero registar a expressão também muito comum dar corda aos calcantes e, mais apache do que ela, o velho xalar-se – ou chalar-se, não sei como é melhor escrever.
E é tudo. Ou antes não, falta insistir numa coisa importante: toca a pôr nos dicionários o calão que lá falta, sim? Noutras línguas, estas coisas há muito que estão dicionarizadas. Pois, mas, a nós, faltam-nos ainda o nosso Pierre Perret e o nosso Frédéric Dard…
_______________
[1] Agradeço a Sofia Marsim a informação sobre as entradas do Dicionário da Academia e de A. G. Cunha, que acrescentei ao texto a 28 de junho de 2016. Pela mesma ocasião, retirei a proposta inicial de uma eventual etimologia alternativa, o francês bout, que me pareceu já não fazer sentido. [2] Senão, seria tão fácil ensinar às crianças ciência como religião e todos sabemos que assim não é…
[3] Presumo que esta também venha do inglês slide, talvez através da gíria do automobilismo.
De todas as maneiras que há de falar uma língua, a nossa é sempre a correcta… Não é o que eu penso, mas é o que pensa muita gente. A maioria das pessoas, acho eu. Nada mais difícil, pelos vistos, do que reconhecer como maneira de falar ao mesmo nível da sua uma maneira de falar diferente da sua. Uma prova disso é a necessidade de se fazerem duas traduções para a mesma língua, uma em português europeu e outra em português americano. Mesmo quando uma tradução brasileira é excelente, os portugueses preferem ler uma tradução menos boa no seu português…
Agora, para que não pensem que me julgo isento de preconceito linguístico, conto-vos uma constatação que fiz no outro dia: Tenho quase a certeza de que, se um aluno meu, digamos, irlandês ou sueco, me escrevesse num TPC os dois últimos versos da penúltima quadra da letra de “Asa Branca”, de Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga (“Espero a chuva cair de novo, / para mim voltar para o meu sertão”), eu corrigia. Era capaz de achar que “estava mal”, que era uma “construção estrangeira” – quando se trata de uma letra maravilhosa, de um grande clássico da canção em língua portuguesa…
Conheço aqui pouca gente e há conversas que não tenho com quem ter. Aqui fica metade dessas conversas. Não querem contribuir com a metade que falta? [Foto da Travessa do Fala-Só de Rodrigo Cortez]
Quem se interessar pelo português falado em Moçambique pode visitar um faz-de-conta-que-blogue que eu fiz, que é, de facto, um glossário de moçambicanismos.
Aqui fica um endereço de e-mail, para o caso de alguém querer comentar ou discutir alguma coisa do que eu para aqui vou escrevendo:
A disposição das imagens está calculada para um ecrã de computador. A maior parte das páginas do blogue vêem-se e lêem-se mal nos formato de tablet ou telemóvel. Aconselho, por isso, que, para ler as páginas do blogue em tablets ou telefones, escolha a opção «Ver a versão da Web».
Gralhas, há muitas. Está visto que não sirvo para revisor, e muito menos dos meus próprios textos... Um pedido, então, à malta amiga que por aqui passar: deixem-me correcções nos comentários, sim?
Já agora, peço também que me digam, se encontrarem links que tenham deixado de funcionar. Antigamente, fazia uma revisão regular dos links, mas agora a Travessa tem muitos textos e muito texto, e uma revisão dessas demora mais tempo do que aquele que normalmente tenho para dedicar ao blogue.
Ah, a propósito de links: Como todos os textos têm uma data de publicação, acho desnecessário estar a escrever em cada link a data de acesso – assumo que a data de todos eles é a data de publicação do post onde eles vêm.
E muito obrigado!
A partir de agosto de 2011, passo a escrever com a nova ortografia.
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