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21/04/25

In Memoriam William Labov

William Labov morreu a 17 de dezembro passado e eu só agora soube da sua morte, por uma emotiva eulogia de um seu aluno e seguidor. Labov foi um dos grandes linguistas do século XX e um dos pais da sociolinguística. 

A sociolinguística é uma área de estudos a que nunca me dediquei muito, mas posso dizer, ainda assim, que foi um dos linguistas que mais me marcou. Lembro-me bem que, quando li Sociolinguistic Patterns, fiquei muito impressionado com o rigor da metodologia e da análise dos dados recolhidos. Foi sem dúvida uma das obras que criou em mim a paixão que tenho pela linguística. 

Muito haveria a dizer sobre a obra de Labov, mas não sou a pessoa mais indicada para o fazer. O link aí acima pode dar-vos uma boa ideia, se dominarem bem o inglês, da importância do linguista e de algumas das suas principais áreas de atividade. Também deixo aqui um link para um vídeo com doze anos, feito quando Labov tinha 85 anos, que dá uma muito breve panorâmica da sua vida, obra e ideias. Também podem ler, por exemplo, um texto que o próprio Labov escreveu em 1987, a contar como é que foi parar à linguística e o que é que a linguística que lhe deu. Ou procurem vocês, há muita coisa dele e sobre ela na Internet. Hão de gostar.




PS: Falei aqui uma vez na Travessa de um dos seus princípios da mudança linguística e talvez queiram dar uma saltada a esse breve artigo. A foto é tirada de uma página da Universidade da Pensilvânia e acho que se pode aqui considerar uso aceitável...

  

11/04/19

Sobre a idade de ouro da língua e um pouco mais

A minha amiga Catarina mostrou-me há pouco tempo um excerto de William Labov, um dos nomes maiores da sociolinguística (é uma passagem conhecida, que eu traduzo e cuja versão original pode encontrar-se, por exemplo, na Wikipédia):
Diferentes comunidades estigmatizam mais ou menos as novas formas da língua, mas nunca conheci ninguém que as recebesse com aplausos. Alguns cidadãos mais velhos recebem bem as novas músicas e danças, os novos dispositivos electrónicos e computadores. Mas se ouviu ninguém: «É maravilhoso como os jovens falam hoje em dia. É muito melhor que a maneira como falávamos quando eu era criança». (...) A crença mais geral e mais profundamente enraizada sobre a língua é o Princípio da Idade do Ouro: Houve um determinado momento do passado em que a língua estava num estado de perfeição. Parte-se do princípio que, nesse estado, todos os sons eram corretos e belos, e todas as palavras e expressões eram genuínas, precisas e apropriadas. Além disso, o declínio desse estado tem sido regular e persistente, de modo que cada mudança representa um afastamento da idade de ouro e nunca um retorno a ela. Todos os sons novos soarão feios e todas as novas expressões soarão impróprias, imprecisas e inapropriadas. Tendo em conta este princípio, é óbvio que a mudança linguística deve ser interpretada como inconformidade com as normas estabelecidas e que as pessoas rejeitarão mudanças na estrutura da língua quando delas se tornam conscientes. 
(in Principles of Linguistic Change, Vol. 2: Social Factors (2001), p. 51) 
Esta ideia da Idade de Ouro e da degenerescência forçosa das coisas humanas está longe de se aplicar apenas à língua—aplica-se a tudo o que é humano e foi já aqui referida no blogue algumas vezes a propósito de outras coisas (é até uma etiqueta do blogue). Muitos concordarão que Labov tem razão. E eu também, mas parece-me que há que dar conta de algumas exceções sistemáticas a esta regra geral.

A minha experiência é que, quando, numa determinada região, as novas gerações—normalmente através da escolarização—se aproximam de uma variante de maior prestígio, as reações à mudança podem não ser exatamente como Labov as descreve no excerto acima. Ouvi muitas vezes a pessoas sem educação formal de zonas rurais que não sabem mesmo falar o correto, que só falam assim à maneira delas, que é uma maneira de falar bruta ou errada… E ouvi dessas pessoas coisas como «Ah, ele (por exemplo, um filho educado de alguém da aldeia) já não fala como à gente, que ele tem estudos e aprendeu mesmo o português correto.» Em variantes de pouco prestígio, a ideia do falar perfeito ancestral esbate-se muito ou assume outros contornos. As pessoas podem achar que é pena já ninguém falar a variante à maneira antiga, que era tão expressiva ou tão engraçada, mas não pensam nela como mais próxima da perfeição, simplesmente porque desvalorizam o seu próprio falar.

E é curioso que a palavra dialeto, que significa, em princípio, «variante de uma língua falada numa determinada região», sem qualquer julgamento de valor implícito («os dialetos setentrionais», «o dialeto de Lisboa/ da zona da Lousã», etc.), é usado muitas vezes, mesmo para referir a sua própria variante ou até a sua própria língua, com o significado de «falar imperfeito, incorreto, de menos valor que a variante de prestígio ou a língua oficial».