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17/11/08

Lendas portuguesas: rosas húngaras e amendoeiras andaluzas

A lenda das rosas

Havia em Paris (talvez ainda haja...) um bar chamado Lèche-Vin, que era todo decorado com imagens de santinhos e santinhas, excepto a casa de banho, cujas paredes eram forradas a fotografias pornográficas. Uma noite, enquanto saboreava uma bière de garde, chamou‑me a atenção uma das santinhas na parede mesmo ao meu lado. Ou melhor, o que me chamou a atenção não foi tanto a santa mas o texto que tinha por baixo: “Há muito tempo, transformaram-se bocados de pão em rosas nas pregas do vestido de Santa Roseline, padroeira dos Cartuxos”.

Vim a saber mais tarde, à leitura de um romance de Somerset Maugham sobre uma parte da vida de Maquiavel (Then and now) que (traduzo eu) “[Isabel da Hungria,] proibida pelo seu cruel marido de acudir aos necessitados, encontrou-o na rua um dia em que levava com ela pão para os pobres. Suspeitando que ela estava a desobedecer às suas ordens, ele perguntou‑lhe o que levava no cesto e ela, assustada, disse-lhe que eram rosas. Ele arrancou-lhe o cesto da mão e quando o abriu constatou que ela tinha dito a verdade. Os pães tinham-se milagrosamente transformado em rosas de cheiro doce.” Não sei se isto se terá passado com o marido, como conta a lenda, ou antes com o cunhado, porque foi o cunhado que, depois da morte do marido, a acusou publicamente de andar a gastar o dinheiro das propriedade da família deles, na Turíngia.

Seja como for, acho que perceberam onde é que eu quero chegar: estas histórias são iguais entre si e iguais à lenda que todos conhecem e que se conta de Isabel, esposa do nosso rei Dinis. Seguindo um critério cronológico, a milagreira original deve ser Isabel da Hungria e não a de Portugal, já que a santa húngara, tia-avó da portuguesa, viveu umas quantas décadas antes dela. E mesmo Santa Rosaline de Villeneuve (1263-1329), a outra candidata ao milagre das rosas, é ligeiramente mais velha do que Isabel de Aragão (1271-1336); e, sobretudo tendo em conta que o milagre das rosas que se lhe atribui se deu na sua juventude, também o pão se lhe transformou em rosas no regaço antes de o mesmo extraordinário acontecimento se ter dado com a Isabel de D. Dinis...

Mas enfim, o que mais me interessa nesta história é analisar com que tipos de atitudes compactua Deus, se assumimos que o milagre é produto da intervenção divina: O marido (ou o pai, no caso de Roseline de Villeneuve) não quer que a santa pratique a caridade; e quando o homem aparece, a santa, em vez de assumir o bem que faz, tenta disfarçá-lo, submissa ao poder masculino. O milagre devia ser, acho que estamos nisso todos de acordo, cair do céu um martelo em cima da cabeça do homem, e que lhe abrisse um fenda no crânio por onde o Espírito Santo pudesse entrar, começando então o ex‑sovina a contribuir voluntariamente do seu bolso com qualquer coisinha para os mais desfavorecidos – e já não digo instituir um sistema social justo nos seus domínios, que, mesmo para milagre, é pedir demais a Deus… Mas, não! O que Deus faz, milagre dos milagres, é ajudá‑la a mentir para se safar de um raspanete do pouco caridoso marido (ou pai).

A lenda das amendoeiras

Dispenso‑me de comentar a moralidade deste nosso criador e passo antes a traduzir do inglês um texto que encontrei num “livro de factos” das Selecções do Reader’s Digest (AAVV, Reader’s Digest Book of Facts. Cape Town: Reader’s Digest Association of South Africa – Printbak Books, 1989, p.63.)
Um rei árabe mandou uma vez plantar com amendoeiras toda a encosta de uma colina – para agradar à sua esposa favorita. Este rei, Almotamid, que reinou na região à volta de Sevilha em meados do século XI, quando Espanha era, em grande parte, uma colónia moura, mandou fazer esta plantação perto de Córdoba, porque a sua mulher – uma escrava cristã chamada Itimad – nunca tinha visto neve. Na Primavera, as pétalas caídas das flores das amendoeiras cobriam de branco as encostas, o mais parecido como neve que se conseguia no clima temperado do Sul de Espanha.
Esta versão da história diverge, pois, da que nós que conhecemos como “portuguesa” e como “A lenda das amendoeiras” por não se passar no Algarve (embora, de facto, o reino de Al-Mutamid abrangesse também o Algarve) e no pormenor importante de que Al-Mutamid quer mostrar a I’timad que aspecto tem a neve, ao passo que na versão portuguesa (pelo menos, como eu a conheço) o rei mouro não identificado quer, com a “neve” artificial, matar as saudades que a sua nórdica esposa sente das paisagens de Inverno da sua terra natal. Na minha opinião, esta versão da história é muito mais bonita. Agora, a história é provavelmente tirada do Libro de los ejemplos del conde Lucanor y de Patronio, de Don Juan Manuel. Se assim for, a versão original, que vem em pouco mais de um parágrafo do “Exemplo XXX” desta obra, não é bem nem como a do livro das selecções do Reader’s Digest nem como a que eu aprendi na escola (traduzo eu), mas mais próxima desta do que daquela:
(…) um dia, estando em Córdova no mês de Fevereiro, caiu uma neve; e quando Ramaiquía a viu, começou a chorar. E perguntou-lhe o rei por que chorava. E ela disse-lhe que porque nunca a deixava estar em terra onde visse neve. E o rei, para lhe agradar, mandou pôr amendoais por toda a serra de Córdoba; para que, como Córdoba é terra quente e não neva aí todos os anos, em Fevereiro aparecessem floridos os amendoais, que parecem neve, para lhe fazer perder os desejos da neve.
Agora, pergunto eu, por que é que Al-Mutamid não levou I’timad à Sierra Nevada, que fica ali perto? Apaixonado, talvez, mas de paixão preguiçosa.

Para terminar, como as palavras são como as ginjinhas, e a propósito de origens desconhecidas de histórias conhecidas, uma curiosidade: Sabiam que foi ao Libro de los ejemplos del conde Lucanor y de Patronio, de que eu falava aí atrás, que H. C. Andersen foi buscar a história, que toda a gente pensa que foi ele que inventou, de um rei que andava nu convencido de que andava bem vestido?

09/10/07

Herbert Quain e April March: Borges como inspirador de 2 fracassos online

George Simmers afirma que o seu hipertexto “Histories”, publicado na revista digital Snakeskin web magazine, tem uma estrutura que lhe foi inspirada pela novela April March, de Herbert Quain, publicada em 1936. Simmers diz não ter conseguido obter nenhum exemplar da referida novela, pelo que se não inspira directamente na sua leitura, mas antes na descrição que dela faz Jorge Luis Borges no seu texto “Exame da obra de Herbert Quain”, de 1941. É difícil decidir aqui se Simmers acredita mesmo que Quain e a sua obra têm existência real ou se apenas pretende desenvolver a ficção de Jorge Luis Borges. Para quem não esteja a par da questão quainina (eu diria em inglês “acquainted with Quain”, que gracinha…), no entanto, é necessário explicar aqui que nunca houve nenhum Herbert Cain fora da obra de Jorge Luis Borges, como ele, aliás, deixa claro no seu prefácio a Ficciones (Madrid: Alianza Editorial, 2005):
Desvario laborioso e empobrecedor o de compor vastos livros; o de espraiar em quinhentas páginas uma ideia cuja perfeita exposição oral cabe em poucos minutos. Melhor procedimento é simular que esses livros já existem e oferecer um resumo, um comentário. Assim procedeu Carlyle em Sartor Resatus; e assim também Butler em The Fair Heaven; obras que têm a imperfeição de ser livros também não menos tautológicos do que os outros. Mais razoável, mais inepto, mais indolente, preferi a escrita de notas sobre livros imaginários. São estas “Tlön, Uqbar, Orbius Tertius”; e o “Exame da obra de Herbert Quain”.
No seu conto, Borges explica que April March, a obra de Quain que aqui nos interessa, começa com uma conversa numa estação de caminho de ferro; que os três capítulos subsequentes descrevem versões alternativas do que poderia ter precedido essa conversa; e que três outros grupos de três capítulo imaginam o que poderia ter ocorrido antes de cada um dos capítulos da segunda camada da narrativa. Acrescenta que a obra de Quain se ramifica em géneros diferentes e narrativas radicalmente diversas umas das outras, e que, das nove novelas que constituem a novela, “uma é de carácter simbólico; outra, sobrenatural; outra, policial; outra, psicológica; outra, comunista; outra, anticomunista, etc.”, e que a novela 9, que considera a melhor, é de natureza fantástica.

Simmers explica que diverge de Quain em vários aspectos da sua narrativa: escreve em verso e em “secções” mais curtas, que são, na realidade, estrofes de dez versos; as múltiplas narrativas que constituem “Histories” não se diversificam em diversos géneros e são antes coerentes entre elas; e o seu texto oferece ao leitor que, recuando no tempo, avança pela narrativa adentro apenas uma escolha binária em cada entroncamento da história, em vez da ramificação tripartida do recuo narrativo de Quain. O texto compõe-se, no total, de 64 histórias possíveis, diz ele. Ora estas notas de Simmers à sua obra merecem-me alguns comentários:

Não é verdade que o texto se componha de 64 histórias possíveis. O texto inclui antes 160 sequências narrativas diferentes. Como acontece com a maior parte dos autores, Simmers desconhece a obra que criou e que acabou, pelos vistos de fugir ao seu controlo. É interessante notar que as secções que constituem os três primeiros níveis da novela e uma secção do meio não se repetem, mas as restantes secções ocorrem em quantidades muito variáveis. A simetria não é para Simmers a obsessão que era para Quain!

“Histories” não é, ao contrário de April March e ao contrário do que pretendia Simmers ao escrevê-la, uma narrativa que se desdobra, às arrecuas, em várias narrativas. É isso sim, uma única narrativa apresentada em diversas versões, algumas das quais são amputadas de determinadas secções. Dizer que as “várias histórias” são “coerentes entre elas” é não querer admitir o óbvio – elas são sempre a mesma história, com mais ou menos informação sobre determinado período da vida da protagonista.

Quanto a cada secção do texto de Simmers se ir desdobrando em duas secções anteriores, em vez de se ramificar em três possíveis capítulos precedentes, como acontece em April March, é interessante constatar que foi o próprio Borges a incentivar esta estrtura: “Já publicada [a novela], Quain arrependeu-se da ordem ternária e predisse que os homens que o imitassem optariam pela binária e os demiurgos e os deuses pela infinita: infinitas histórias, infinitamente ramificadas”. A ordem ternária, no entanto, não foi completamente abandonada, pelo menos se pensarmos que (como poderão verificar se tiverem paciência para isso), o número de fins (princípios?) possíveis é apenas três.

É de notar, além disso, que a narrativa à rebours é perfeitamente desnecessária e, em última análise, empobrecedora. Dos hipotéticos relatos de Quain, diz-nos Borges que “quem os ler em ordem cronológica (…) perde o sabor peculiar do estranho livro”. E eu acrescento que é até bem provável que se passe o mesmo com todas as narrativas que são efectivamente concebidas da frente para trás. Veja-se o caso do filme Memento, de Christopher Nolan, que, nos tempos mais recentes, é uma das mais famosas histórias contadas do fim para o princípio: Memento perde não só a graça mas também a aparente coerência quando se o vê na “versão cronológica” que é um bónus escondido de uma edição limitada em DVD. No caso do relato de Simmers, provavelmente porque é uma história concebida cronologicamente e com a ordem das secções que a constituem invertida só posteriormente, só há a ganhar em lê-lo do fim para o princípio, ou seja desde os três meses de idade da protagonista até à sua morte na idade adulta.

Mas enfim, tudo isto seria sem a mínima importância, se “Histories” tivesse alguma graça. E não tem. Leia-se ele como se ler, o texto nunca deixa de ser, na minha opinião, profundamente desinteressante…

“Histories” não é o único texto na Internet baseado na hipotética obra de Quain. Em The as yet incomplete History of Nick Fowkes, encontrávamos, até Janeiro deste ano, o The Herbert Quain Project Online Story, esse claramente, um desenvolvimento consciente da ficção borgiana, às vezes com intenções humorísticas. Mas o projecto morreu, não restando dele mais do que a sua história. O Herbert Quain Project Online Story consistia em escrever uma história que se desenrolasse para trás, se ramificasse num número finito mas ilimitado de histórias, e fosse escrita por várias pessoas. De facto, a ideia era que qualquer pessoa podia colaborar nestas quainianas novelas. Para quem conheceu o site, não espanta que ele tenha morrido: o singular projecto nunca resultou em nada interessante; e o dono do site teve, valha-nos isso, o bom senso de fazer o que George Simmers também já deveria ter feito há algum tempo – dar cabo do projecto quainiano.

Bem tinha advertido Borges: Vale mais imaginar apenas textos destes do que escrevê-los de facto. Não posso senão concordar completamente com ele. Aliás, no que respeita a Herbert Quain, tem dado melhores resultados pegar na ficção que o conto de Borges inaugura e desenvolvê‑la, em vez de tentar dar corpo à fictícia obra do inexistente irlandês. Bem mais interessantes do que as duas obras “quainianas” que referi é o texto “Reexame da obra de Herbert Quain”, de Luiz Duarte d'Almeida, que encontrei também na Internet (aqui, quase ao fim da página).

Agora: podemos perguntar-nos a nós próprios por que é que April March foi uma fonte de inspiração mais prolífica do que outras obras fictícias do fictício Quain? A final de contas, a ideia que estrutura The God of the Labyrinth é, no mínimo, tão sedutora como a da história que se ramifica para trás: a ideia de que, depois de resolvido um enigma policial complexo, a frase final obriga o leitor a reconsiderar a sua interpretação dos factos descritos no livro e a procurar outra solução para o que, até esse momento, cria desvendado. A ideia de The secret mirror (uma peça de teatro em que o primeiro acto é em quase tudo igual ao segundo, mas em que neste segundo acto se revela que o primeiro é uma peça escrita por uma das personagens do segundo acto e baseada na sua vida real, isto é, no segundo acto da peça) não é menos apelativa para qualquer escritor em crise de enredos próprios. E a última obra de Quain, Statements, também é um bom desafio de levar à escrita uma ideia: a novela em que são subliminarmente insinuados vários argumentos de modo a que o leitor, sem saber que os leu entre as linhas do livro, creia tê-los inventado. Porque é que ninguém se propôs recriar estes (perdoem-me a cacofonia) cenários literários? Porque são mais difíceis de concretizar? Não me parece uma boa razão. Concretizar bem seja lá que ideia for tem sempre o mesmo grau de dificuldade; concretizá-la mal, como se fez nos dois primeiros casos referidos acima, é sempre igualmente fácil.

06/10/07

As propriedades do sonho de Sergio Ramírez

Traduzo um conto de Sergio Ramírez, que chegou a ser vice-presidente da Nicarágua, mas que é, sobretudo, escritor. É um conto vem no seu livro De tropeles y tropelías (Managua: Editorial Nueva Nicaragua, 1983, 6000 exemplares em papel antigo com bonitas gravuras de Dieter Masuhr), e que se chama "De las propiedades del sueño (1)".
Das propriedades do sonho
Sinésios de Cirene, no século XIV, defendia no seu Tratado sobre os sonhos, que, se um determinado número de pessoas sonhasse ao mesmo tempo um mesmo facto, este podia tornar-se realidade: “Entreguemo-nos todos, então, homens e mulheres, jovens e velhos, ricos e pobres, cidadãos e magistrados, habitantes da cidade e do campo, artesãos e oradores, a sonhar os nossos desejos. Não há privilegiados pelo sexo, pela idade, pela fortuna ou pela profissão. O repouso oferece‑se a todos; é um oráculo sempre disposto a ser a nossa terrível e silenciosa arma”.
A mesma teoria foi defendida pelos judeus aristotélicos dos séculos XII e XIII (ou Sinésios foi buscá-la a eles) e, Maimónedes, o maior de entre eles, conseguiu prová-la (segundo Gutman em Die Philosophie des Judentuns, Munique, 1933), pois conta-se que uma noite mandou toda a sua seita sonhar que a seca acabava. Ao amanhecer, quando saíram dos seus aposentos, encontraram os campos verdes e humedecia‑lhes a barba um orvalho suave.
A oposição política de um país governado por uma longa tirania quis experimentar, séculos mais tarde, as excelências desta crença e distribuiu secretamente pela população uns panfletos em que se davam instruções para o sonho conjunto: a uma hora da noite claramente consignada, os cidadãos sonhariam que o tirano era derrubado e que o povo tomava o poder.
Se bem que a experiência tenha começado a efectuar-se há já muito tempo, ainda não foi possível obter nenhum resultado, pois Maimónides prevenia (Parágrafo XII) que, no caso de o objecto dos sonhos ser uma pessoa, teria de ser surpreendida dormindo.
E os tiranos nunca dormem.
Trata-se, espero eu que estejam de acordo comigo – e que a minha tradução o consiga mostrar... –, de uma bonita peça de literatura, digamos, política. Como todas as bonitas peças de literatura, política ou não, os seus factos são de uma matéria diferente daquela de que são feitos os factos fora dela, e o que conta menos é o valor de verdade, como diriam os lógicos, do que nela se diz. Não é, pois, porque sinta necessidade de contrastar a verdade dos factos com a verdade do conto que comento a seguir as suas “incorrecções”, mas só pelo prazer de remexer em universos distantes e incomuns.

Comecemos por uma falha cronológica: foi de facto nos século IV e V que viveu o bispo líbio Sinésios de Cirene e não no século XIV. É claro, há muitas situações em que é fácil confundir-se quatro com catorze. Podemos imaginar que Sergio Ramírez procurou a informação sobre o teórico do sonho numa biblioteca e que tomou dela nota num bocado de papel e que depois, ao transferi-la para o seu texto, confundiu um gatafunho involuntário ou alguma nódoa no pedaço de papel manteiga que tinha guardado na carteira com um X. Pode ter sido isso, pode ter sido outra coisa qualquer. O que é facto é que, ao escrever o texto, Sergio Ramírez, estava mesmo convencido de que Sinésios de Cirene tinha vivido depois de Maimónides, que é o que justifica a frase “(ou Sinésios foi buscá-la a eles)”.

Passemos agora a alguma distorção do conteúdo dos textos referidos, que também pode ter sido involuntária. É bem provável que Sergio Ramírez não tenha tido acesso ao texto original de Sinésios de Cirene, mas antes a uma versão já deturpada, como uma, por tal sinal em espanhol, que encontrei na Internet (em http://www.tertuliadesuenos.com/unsitioreal.htm, que já não existe) e que é estranhamente parecida com a que Ramírez apresenta no conto (traduzo eu):
Entreguemo-nos todos, então, à interpretação dos sonhos; todos, homens e mulheres, jovens e velhos, ricos e pobres, cidadãos e magistrados, habitantes da cidade e do campo, artesãos e criadores. Não há privilegiados, nem pelo sexo, nem pela idade, fortuna ou profissão. O sonho dá‑se a todos; é um oráculo que está sempre disposto a ser o nosso infalível e silencioso conselheiro. Nesta nova espécie de Mistérios, cada qual é ao mesmo tempo sacerdote e iniciado.
 Por muito que não completamente fiel, é uma tradução mais próxima do original do que a de Ramírez, já que o texto de Sinésios de Cirene não exorta a sonhar os desejos, mas exorta antes a interpretar os sonhos como forma de adivinhação do futuro; e não diz que o sonho é uma arma, mas chama-lhe antes, de facto um conselheiro. Não exactamente “o nosso infalível e silencioso conselheiro”, como pretende a tradução acima, mas, com mais rigor, “um profeta e um sábio conselheiro”. Eis, para deixar tudo mais claro, uma tradução do texto original do excerto de De insomniis, escrito por Sinésios de Cirene entre 400 e 409, a que Sergio Ramírez faz referência. É uma tradução em segunda mão, a partir de uma tradução inglesa – fiável! – do original em latim (Letters of Synesius of Cyrene, London: Oxford University Press, 1926 & Essays and Hymns of Synesius, London: Oxford University Press, 1930, tradução de Augustine Fitzgerald):
Devemo-nos entregar a ele [o sonho], homens e mulheres, jovens e velhos, pobres e ricos, artesãos e oradores. Ele não repudia nem raça, nem idade, nem condição, nem profissão. Está sempre presente para todos, em todo o lado, este profeta zeloso, este sábio conselheiro que preserva a sua paz. Ele próprio é ao mesmo tempo iniciador e iniciado, para nos anunciar as boas novas; com tal sabedoria que nos prolonga os prazeres dando-nos de antemão a alegria; que nos informa do pior para nos defender dele e o repelir antes de ele acontecer.
Como se vê, não é na capacidade de acção dos sonhos que Sinésios de Cirene está interessado, mas no seu carácter profético. E é precisamente a teoria sinesiana do sonho como espaço privilegiado de revelação divina que Maimónides retoma, nomeadamente num famoso livro escrito em árabe em 1190, o Dalalat Al Harijin, depois traduzido para hebraico como More Nevukhim, e que costuma ser referido em português como Guia dos perplexos ou o Aristóteles da Idade Média. No cap. 36 desta obra, afirma Maimónides (traduzo da tradução de Michael Friedländer em http://www.najaco.com/books/judaism/guide_for_perplexed/7.htm, que também já não está online…):
A profecia é, na verdade, uma emanação do Ser Divino através do Intelecto Activo, dirigida, em primeira instância, à faculdade racional do homem, e depois à sua faculdade imaginativa (...) Uma parte das funções da faculdade imaginativa é (...) reter impressões através dos sentidos, para os combinar e, principalmente, formar imagens. A função principal e mais elevada é realizada quando os sentidos estão em repouso e em pausa da sua função, porque ela recebe então, de alguma forma, inspiração divina, na medida em que se encontrar predisposta à sua influência. É esta a natureza daqueles sonhos que se revelam verdadeiros, e também da profecia (...) Por isso, os nosso Sábios dizem que o sonho é um sexto da profecia (...) No Bereshit Rabba (cap. XVII.) podemos encontrar a seguinte afirmação dos nossos Sábios: “O sonho é o fruto ainda verde da profecia.” (...) Mas por que preciso eu de citar as palavras dos nossos sábios, se posso referir a seguinte passagem das Escrituras?: “Se houver um profeta entre vós, Eu, o Senhor, revelar-me-ei a ele numa visão, num sonho falarei com ele” (Num. XII. 6). Aqui, diz-nos o Senhor qual é a verdadeira essência da profecia, que é uma perfeição adquirida num sonho ou numa visão (...).
 Mas voltemos ao De insomniis. Pode ser que Sergio Ramírez, mesmo tendo tido acesso ao texto original, se tenha equivocado na tradução, o que acontece muitas vezes quando se traduz de uma língua como o latim, como o atestam as milhares de anedotas que há sobre traduções erradas daquela língua. Mas também pode ser que se tenha estado nas tintas para o que diz de facto Sinésios de Cirene, o que também não me parece mal..., porque o que Sinésios diz não lhe servia para nada, pelo menos para aquele conto... É de notar, já agora, que o texto original faz de facto referência a uma relação entre o sonho e a tirania, precisamente no parágrafo de onde foi retirado o excerto que nos ocupa e imediatamente antes dessa passagem. Diz Sinésios de Cirene:
As leis de um mau governo não proíbem [o sonho], nem teriam poder para o fazer, por muito que o pretendessem, porque não têm provas contra aqueles que o invocam. Pois como seria então? Estaríamos a violar a lei dormindo? Um tirano nunca nos poderia impor que não tivéssemos sonhos, pelo menos se não banisse de facto o sono do seu reino; e seria um acto de um louco pretender o que é impossível de ser cumprido, e de um ímpio o fazer leis que seriam contrárias à natureza e a Deus.
Nisto, pelo menos, a opinião de Sergio Ramirez coincidirá seguramente com a de Sinésios, e de muito mais boa gente: ao sonho, não há machado que lhe corte a raiz!

01/10/07

A história de uma cena de várias aventuras

Quando a gente só conhece o que vem depois sem saber o que lhe está por trás, pode ficar com a sensação de que o pai sai ao filho… Além disso, descobrir as origens depois de se lhe conhecerem os desenvolvimentos tira ao nosso contacto tardio com essas ditas origens muita da surpresa que, pela sua originalidade, originalmente causaram; mas não faz mal nenhum, ainda assim, conhecer a história das coisas, ou faz? Eu cá, pelo menos, gosto desse efeito: «Ah, mas então é daqui que isto vem?»

Bom, tomem lá uma passagem de um romance de aventuras: 
     Mas aquele era um singular e confuso caso! (…) Necessitavam pois uma evidência. E quem melhor lha poderia dar que os homens das estrelas, senhores das grandes artes mágicas, que tinham trazido Ignosi ao país, e sabiam decerto os segredos?
     – Se ele é o herdeiro legítimo, os homens que o trouxeram das estrelas que o provem, fazendo um grande milagre. Só assim o povo acreditará e tomará armas por ele! (…) Necessitamos um milagre! O povo não se move, nem nós mesmos, sem um milagre!
     Um milagre! A situação era terrível e grotesca. Exigir-se um milagre a três honestos e ingénuos mortais, que nem sequer sabiam, como qualquer prestidigitador de feira, escamotear uma noz dentro da manga! E terem os honestos mortais de fazer o milagre – ou de perder a vida!... Voltei‑me para os meus companheiros, a explicar rapidamente o risível e perigoso lance.
     – Parece-me que se pode arranjar, disse John, depois de um curto silêncio. Peça a estes amigos que nos deixem sós, Quartelmar.
     Abri a porta da cubata, os chefes saíram. E apenas os passos morreram na sombra:
     –Temos o eclipse! Exclamou o nosso admirável John.
     Era o eclipse que ele descobrira na véspera, folheando o almanaque (o Livro de Bordo), e que nesse dia, às duas e quarenta minutos, devia ser visível em toda a África.
     – Aí está o milagre! Afirmava John. É anunciar aos chefes que para lhes provar que Ignosi é o rei, e que devem pegar em armas por ele, nós faremos desaparecer o sol!
Já viram isto nalgum lado, não foi? Provavelmente, em muitos lados até. Desde Tintin e o Templo do Sol até ao Apocalypto de Mel Gibson, eclipses destes tem havido mais do que os chapéus dos palermas, pelo que o excerto acima não nos parece senão mais uma versão do batido tema. Mas é a versão original! Trata-se de um excerto de King Solomon's Mines de H. Rider Haggard, As minas de Salomão na tradução (livre...) de Eça de Queirós, que aqui aparece. Foi daqui que veio tudo o resto. Ou mais ou menos… Quero dizer: foi com certeza Rider Haggard que tornou famosa a cena na literatura de aventuras e foi a partir destas Minas de Salomão que ela se fixou no nosso imaginário. Mas parece que a cena original, numa obra muitíssimo menos divulgada do que a de Haggard, tem Cristóvão Colombo, nem mais!, como protagonista e é ao seu filho Hernando que se deve atribuir a origem do motivo na literatura.

Na sua Historia del almirante (às vezes também chamada Vida del almirante Cristóbal Colón, é conforme a edição…), Hernando Colón, filho ilegítimo, como se dizia, de Cristóvão Colombo, conta no capítulo 103, “De lo que hizo el Almirante después que los rebeldes partieron a la Española, e de su ingenio para valerse de um eclipse” (traduzo eu): 
[O Almirante] lembrou-se de que ao terceiro dia havia de haver um eclipse da lua, ao começo da noite, e mandou que um índio de Española que estava connosco chamasse os índios principais da província, dizendo que queria falar com eles de uma festa que havia determinado fazer-lhes. Havendo chegado os caciques no dia antes do eclipse, disse-lhes pelo intérprete, que éramos cristãos e críamos em Deus, que vive no céu e nos tem por súbditos, o qual cuida dos bons e castiga os maus, e (…), no que dizia respeito aos índios, vendo Deus o pouco cuidado que tinham de trazer abastecimentos, (…) estava irritado com eles, e tinha resolvido enviar-lhes uma grandíssima fome e peste. Como eles talvez não lhe dessem crédito, queria mostrar-lhes disto um evidente sinal, no céu, para que mais claramente conhecessem o castigo que lhes viria da sua mão. Portanto, que estivessem aquela noite com grande atenção ao nascer da lua, e a veriam aparecer cheia de ira, inflamada, denotando o mal que queria Deus enviar-lhes. Acabado o discurso, foram-se embora os índios, uns com medo, e outros crendo que seria coisa vã.
Mas começando o eclipse ao nascer da lua, quanto mais esta subia, mais aquele aumentava, e como tinham a isto grande atenção os índios, causou-lhes tão grande assombro e medo que com fortes alaridos e gritos iam correndo, de todas partes, aos navios, carregados de vitualhas, suplicando ao Almirante que rogasse a Deus com fervor para que não descarregasse neles a sua ira, prometendo que dali em diante lhe trariam com suma diligência tudo quanto necessitasse. O Almirante disse-lhes que queria falar um pouco com o seu Deus; encerrou-se enquanto o eclipse crescia e os índios gritavam que os ajudasse. Quando o Almirante viu acabar-se o aumento do eclipse, e que em breve voltaria a diminuir, saiu da sua câmara dizendo que já havia suplicado ao seu Deus, e orado por eles; que lhe havia prometido, em nome dos índios, que seriam bons daí em diante e que tratariam bem os cristãos, levando-lhes abastecimentos e as coisas necessárias; que Deus lhes perdoava e, em sinal do perdão, veriam que acabava a ira e a agitação da lua. Como o efeito correspondia às suas palavras, os índios agradeciam muito ao Almirante, louvavam o seu Deus, e assim estiveram até que passou o eclipse. De ali em diante, tiveram grande cuidado de lhes fornecer quanto necessitassem, louvando continuamente o Deus dos cristãos.