Como é que uma comida se torna tradicional?
A ideia de que a cultura material de um povo é, se não completamente determinada, pelo menos grandemente influenciada pelas condições naturais dos lugares que esse povo habita é tão sensata que é difícil pô la em causa. É interessante constatar, porém, que às vezes se observam certos fenómenos culturais, certas tradições, que parecem tão a contrapelo dessa lógica que uma pessoa se sente baralhada com o seu aparente desarrazoado. Três exemplos que me vêm imediatamente à cabeça, da área da gastronomia: Se os pratos típicos de uma região se vão desenvolvendo a partir dos ingredientes disponíveis nessa região (nativos ou importados, não importa, contanto que lá existam), porque é que as passas de uva são um produto indispensável nos lares dinamarqueses e de outros países do norte da Europa, e já de muito antes da moderna globalização culinária? E porque é que o maçapão de Lübeck é uma Indicação Geográfica Protegida, quando não há amendoeiras no norte da Alemanha? E porque é os portugueses consomem há tanto tempo tanto bacalhau, quando o importaram sempre quase todo?Parece-me muito provável que, algumas vezes, seja precisamente a raridade de um produto — importado, por ser inacessível localmente, e por isso consumido apenas pelas classes mais ricas — que o torna desejado e, por razões nem sempre fáceis de explicar em pormenor, que faz dele um produto necessário à «boa mesa», sobretudo quando passa a ser mais abordável para um maior grupo de pessoas. Creio que é isto que se passa com as passas e o massapão no norte da Europa.
As passas de uva são consumidas há muito tempo no norte da Europa, principalmente em bolos e inicialmente como especiaria. Foram, durante muito tempo, uma das poucas fontes de açúcar que havia — um produto de luxo reservado à nobreza e algum clero. Depois, como marca de estatuto social, foram também adotadas pela burguesia e depois por toda a gente, à medida que se iam tornando mais acessíveis a todas as bolsas. [1]
O maçapão de Lübeck tem uma história semelhante. Referido pela primeira vez nos registos da Guilda de Lübeck em 1530, o maçapão era um produto de luxo, com pretensas propriedades medicinais, que só podia ser fabricado e vendido pelos boticários. E, como produto de luxo que era, comia-se sobretudo nas festas dos ricos. Se o de Lübeck se tornou famoso, foi pela sua qualidade: a cidade era um grande centro comercial e era, por isso, possível assegurar aí o fornecimento de pasta de amêndoa, um produto importado do sul e cuja escassez fazia que, em muito outros sítios, o maçapão fosse quase só açúcar sem amêndoa. A partir do início do séc. XIX, com a abolição das corporações, o maçapão passou a ser produzido por pasteleiros e, poucas décadas depois, havia já várias fábricas de maçapão na cidade. O maçapão era agora mais barato, ao mesmo tempo que aumentava o poder de compra dos consumidores; e espalhou-se pelo norte da Europa. [2]Muito consumido em Portugal desde o séc. XVI, o bacalhau sempre foi comida do povo, uma situação que não era, aliás, exclusiva de Portugal: o bacalhau foi, durante séculos, um produto de consumo comum em toda a Europa, sobretudo entre as classes mais pobres. Dizem José Manuel Sobral e Patrícia Rodrigues no seu estudo O fiel amigo: o bacalhau e a identidade portuguesa :
Cremos que a razão da [exaltação do bacalhau] em Portugal radica, em última instância, na celebração pelas classes populares rurais e urbanas de um alimento que enriqueceu uma dieta secular pobríssima feita de pão e de alguns vegetais ou toucinho.
Agora, se nos séculos XV e XVI os portugueses iam pescar bacalhau no Atlântico Norte, entre o século XVI e fins dos séc. XIX o bacalhau era todo importado; e, mesmo quando a pesca nacional de bacalhau foi aumentando ao longo do século XX e Portugal chegou brevemente a ser, na década de 1950, o maior pescador mundial de bacalhau, continuou a importar-se cerca de um quarto do bacalhau consumido.
Passados 70 anos, o bacalhau é de novo todo importado, como o foi durante séculos, e continuamos a ser de longe os maiores consumidores de bacalhau do mundo, como já somos pelo menos desde os anos 30 do século XX. Mas não só de bacalhau — de peixe em geral. Todos os dados que encontro sobre o consumo de peixe indicam que, se excetuarmos pequenos territórios insulares, Portugal é atualmente o maior consumidor de peixe per capita. E 80% do peixe que se come em Portugal é, como o bacalhau, importado. [3]
Não vou desenvolver esta questão, por muito que ela seja interessante. O que me interessa aqui salientar é que não é preciso um produto existir num determinado sítio para fazer parte da gastronomia desse sítio. O preço é com certeza uma condicionante, mas mesmo um preço elevado não parece fazer excluir totalmente um produto que tenha passado a fazer parte de uma tradição — do que se considera normal. E, para isso, pode haver várias razões: por exemplo, pode ter-se tornado um produto alimentar de base por ter sido já considerado de elite ou, no extremo oposto, por ter sido a mais barata fonte de proteína para as classes populares — e talvez por muitas outras possíveis razões entre estes dois extremos…
E o que é que se pode considerar tradicional?
Conheci também há pouco tempo um brevíssimo ciclo de quatro canções de Leonard Bernstein , cujos textos são excertos de receitas de La Bonne Cuisine Française , um clássico de Emile Dumont, de 1889 . A receita de plum pudding de Dumont pede, como única gordura, sebo de rim de vaca, de que se devem retirar todas as peles e veios, e picar até ficar reduzido a pó fino. Acho que quem se proponha hoje seguir estas receitas substitui a gordura de rim de vaca por manteiga, não vos parece? Ou banha, vá que seja — ainda há bolos feitos com banha, mesmo industriais. Mas gordura de rim de vaca?
Se uma receita de fins do século XIX nos pode parecer exótica, mais exóticas nos podem parecer receitas mais antigas. Tive um livro chamado Notas de Cozinha , de Leonardo da Vinci, que me serviu de introdução à estranheza da gastronomia do passado. Como já não tenho o livro de notas de Leonardo da Vinci em português, traduzo uma receita d a versão em espanhol a que tenho acesso:
Sopa de amêndoa
Fervem-se alguns nabos tenros numa panela onde se pôs uma cabeça de ovelha cozida; depois, desfaz-se tudo com sal, pimenta e sementes de cominho, junta-se-lhes um ovo para ligar esta mistura e com ela fazem-se bolas e outras formas que se cobrem com migas de pão. No centro de cada uma destas bolas e formas coloca-se um testículo de borrego cozido. Põe-se tudo [a fritar] numa frigideira com óleo até ficar duro e castanho e serve-se.
Leonardo da Vinci acrescenta que desconhece por que razão este «famoso prato milanês» é conhecido como sopa de amêndoas e eu também não faço ideia. Talvez amêndoas fosse um termo eufemístico para testículos. Mas o que me interessa aqui é o facto de ser um prato conhecido. Não se fica a saber quem o comia, é certo, e um problema destes livros de receitas antigos é darem conta apenas do que se comia nas casas dos ricos. Parece-me provável, até pelos ingredientes, que este prato não fosse comido apenas em banquetes de nobres, mas não sei…
José Manuel Sobral e Patrícia Rodrigues notam, no texto atrás referido, que não há receitas de bacalhau no mais antigo livro de cozinha português, A Arte de Cozinha , de Domingos Rodriguez, de 1680, e esse reparo fez-me revisitar o livro, que eu já conhecia. Domingos Rodriguez foi cozinheiro do Conde de Vimioso e do rei Pedro II, de maneira que aqui não temos dúvidas de que é da cozinha dos ricos que se trata. Há, neste livro, muitas receitas que nos parecem hoje estranhíssimas, algumas com quantidades enormes de ovos, com muito açúcar e fruta em pratos de carne, etc. Deixo aqui uma, que escolhi porque Domingos Rodriguez a descreve como «um prato ordinário» (no sentido de «comum», nota-se, não no sentido pejorativo que muitas vezes tem hoje) e deixo aqui a grafia original, que lhe dá outro… sabor. [4]
Sopa de qualquer genero de aßado.
Feito hum vintem de paõ em fatias, ponhaſe hũa cama dellas em hũa frigideira grande untada de manteiga, cubraõ-ſe de açucar, & de canella, & ſobre eſta cama ponhaſe outra da meſma ſorte, & por cima della hũa pequena de manteiga de vaca lavada, & açafraõ, deitem-lhe hum pouco de caldo de galinha, ou de carneiro, & deixe-ſe eſtofar de vagar em pouco lume; & logo tirandoſe fóra do lume, deitem-lhe huma duſia de ovos por cima (ou menos, conforme for a frigideira) com açucar, & canella : feito iſlo, tomeſe hũa tampa com lume, & ponha-ſe hũ pouco levantada ſobre a ſopa até que tome boa cor ; tirada da frigideira, & poſta no prato, ſe trinchará o aſſado, que podem fer galinhas, ou frangãos, ou põbos, ou perùs. Este he hum prato ordinario.
Chamou-me a atenção o surpreendente requinte técnico do «gratinado» com a tampa a arder colocada por sobre a frigideira.
Mas não há dúvida de que o passado é um país distante. E as tradições, essas, não são na maioria muito antigas. Também na gastronomia. Quantos anos têm as receitas tradicionais portuguesas, francesas ou italianas que todos conhecemos hoje? De cada vez que me ponho a explorar a história de uma delas, descubro sempre que não são tão antigas como isso. [5]
De maneira que insisto, espraiando a partir da gastronomia: não tentemos dar aos elementos que se dizem constituir uma identidade nacional um caráter trans-histórico que eles, de cada vez que se investiga, se verifica não terem. O que se come hoje em Portugal é muito mais parecido com o que come hoje na Dinamarca do que com o que se comia em Portugal há 500 anos. E o que se veste. E o que se pensa. Etc.
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Notas:
[1] Não encontrei nada específico sobre a história das passas de uva no norte da Europa, mas vários sites dizem o mesmo que esta página ou esta página , por exemplo. Para uma cronologia da história das passas de uva, ver aqui .
[2] Esta informação é tirada das páginas da Wikipédia sobre o massapão de Lübeck em três línguas diferentes, que se completam: as páginas em francês, em alemão e em inglês .
[3] Toda a informação sobre o bacalhau é tirada de duas fontes, que aconselho: o estudo de José Manuel Sobral e Patrícia Rodrigues O fiel amigo: o bacalhau e a identidade portuguesa (2013) e o episódio «Faina maior, a pesca do bacalhau» (2015) da série televisiva História a História, de Fernando Rosas, que inclui uma entrevista a um especialista da história do bacalhau, Álvaro Garrido. Para Informação sobre a importação de peixe, ver aqui ou aqui .
[4] A página em inglês do artigo da Wikipédia sobre Alfred Korzybski inclui um curioso episódio referido num jornal neerlandês, que eu traduzo:
Um dia, Korzybski estava a dar uma aula e, de repente, interrompeu-a a aula para tirar da pasta um pacote de bolachas, embrulhado em papel branco. Disse que precisava mesmo de comer alguma coisa e perguntou aos alunos da primeira fila se também queriam uma bolachinha. Alguns estudantes aceitaram uma bolacha. «Boas bolachas, não acham?», perguntou Korzybski, e comeu mais uma. [..] Depois, rasgou o papel branco onde as bolachas estavam embrulhadas, mostrando a embalagem original. Via-se uma imagem de um focinho de cão e as palavras «bolachas para cães». Quando os alunos viram a embalagem, ficaram chocados. Dois deles sentiram vómitos, taparam a boca com as mãos e saíram da sala a correr. «Vejam», comentou Korzybski, «acabo de demonstrar que as pessoas não comem só comida, mas também palavras, e que às vezes conta mais o sabor das palavras que o sabor da comida.
Peço desculpa pela excursão, mas gosto muito desta história.
[5] Como diz Luís Pontes no seu blogue,
[a] ideia generalizada de que aquilo que comemos e a que se convencionou chamar «cozinha tradicional portuguesa» é um património que nos acompanha enquanto povo desde tempos imemoriais é um dos mais lamentáveis logros, que nos é vendido por uma certa «gastronomia» que, à falta da criatividade e reinvenção de que a Gastronomia é feita, nos impinge uma cozinha geralmente com meia dúzia de dezenas de anos (a cozinha de infância destes gastrónomos), que tem sido perpetuada numa visão museográfica da cozinha [...] .