19/07/26

Canções que referem outras canções #13: «À jeun» e «Mirza»

 

Em «À Jeun», de 1967 (que, palavra a palavra, é «em jejum», mas que, neste e noutros contextos, significa de facto «sóbrio; sem ter bebido bebidas alcoólicas »), Jacques Brel faz uma alusão clara à canção «Mirza», de Nino Ferrer, que tinha sido lançada dois anos antes e que tinha sido um grande sucesso. 

Um tema recorrente nas canções de Jacques Brel é a infidelidade das mulheres. Não sei da vida de Brel o suficiente para saber se, nas suas canções, o eu que se queixa da infidelidade tem algo de autobiográfico e, para dizer a verdade, a vida de Brel não me interessa por aí além. Também não há nada de muito original nessa temática. Há muitas, muitas canções de voz masculina a acusar mulheres de infidelidade —  e também muitas canções de voz feminina a revoltar-se contra a infidelidade dos homens — que deve, no mínimo, ser tão comum como a das mulheres. Esta introdução é um comentário de passagem, porque «À jeun» tem precisamente essa temática. 

O motivo da canção é um enterro, o enterro da infiel esposa do eu da canção, que se embebeda no enterro. Brel tratara já o mesmo tema da infidelidade usando um motivo próximo em « Le Moribond », em que o eu da canção é um homem à beira da morte. 

«À jeun» é obviamente uma canção satírica e Brel lança mão de artifícios que se pretendem humorísticos, como dizer que estavam todos de negro, menos ele que estava gris, «cinzento», o que em francês significa «bêbedo»; baralhar masculino e feminino em sogro e sogra, «beau-maman», «belle-papa»; referir a procura de um cão no meio do enterro («Z'avez pas vu Mirza ?»); e, sobretudo, a interpretação: um cantar de bêbedo. A figura do bêbedo é, aliás, uma figura humorística recorrente na canção, que se interpreta às vezes, como aqui, imitando no canto a fala vacilante do embriagado. 

«À jeun» é também uma canção de crítica social, se se pode dizer assim, porque o ouvinte percebe, no fim da canção, que o amante da falecida esposa é o chefe do contencioso no local de trabalho do marido da falecida Huguette. 

Parfaitement à jeun
Vous me voyez surpris
De n'pas trouver mon lit ici
Parfaitement à jeun
Je le vois qui recule
Je le vois qui bascule aussi

Guili guili guili

Viens là mon petit lit
Si tu n'viens pas-t-à moi
C'est pas moi qui irai-t-à toi
Mais qui n'avance pas recule
Comme dit monsieur Dupneu
Un mec qui articule
Et qui est chef du contentieux

Parfaitement à jeun
Je reviens d'une belle fête
J'ai enterré Huguette ce matin
Parfaitement à jeun
J'ai fait semblant d'pleurer
Pour ne pas faire rater la fête

Z'étaient tous en noir
Les voisins, les amis
Y avait qu'moi qui étais gris
Dans cette foire
Y avait beau-maman, belle-papa
Z'avez pas vu Mirza ?
Et puis monsieur Dupneu
Qui est chef du contentieux
Parfaitement à jeun
En enterrant ma femme
J'ai surtout enterré
La maîtresse d'André

Je n'l'ai su que c'matin
Et par un enfant d'chœur
Qui m'racontait qu'sa sœur
Ah ça !!
Il me reste deux solutions
Ou bien frapper André
Ou bien gnougnougnafier la femme d'André
Sur son balcon
Ou bien rester chez moi
Feu cocu mais joyeux
C'est c'que me conseille André
André, André Dupneu
Qu'est mon chef du contentieux

Parfaitement à jeun
Vous me voyez surpris
De ne pas trouver mon lit ici


A canção «Mirza», de Nino Ferrer, é uma canção pop cuja letra, um monólogo de alguém que procura e encontra o seu cão, é apenas um pretexto para cantar. 

Z'avez pas vu Mirza?
Où est donc passé ce chien ?
Je le cherche partout
Il va me rendre fou
Oh, ça y est, je le vois
Veux-tu venir ici ?
Je ne le répéterai pas
Sale bête, va
Oh, il est reparti
C'est bien la dernière fois
Que je te cherche comme ça
Oh et ne bouge pas
Oh, satané Mirza


13/07/26

Ensimesmamento


A palavra mais esquisita da língua portuguesa deve ser o verbo ensimesmar-se

É certo que nem todas as palavras se formam das maneiras mais canónicas. Parabéns, por exemplo, formou-se de uma preposição e um nome (para bens); e o je-m’en-foutisme francês, que refere uma atitude de desinteresse, de se estar nas tintas para o que se passa,  formado de je m’en fous, «estou-me nas tintas» — dois pronomes, um advérbio e um verbo. Também são palavras um pouco esquisitas, mas ensimesmar-se é muito mais.

Ensimesmar-se é, ao que parece, uma palavra importada do castelhano. Quem terá tido a ideia de a usar em português? E, sobretudo, quem terá tido a ideia de lhe acrescentar a mais anómala conjugação da língua portuguesa, a «dupla flexão pronominal reflexa», que não existe no termo castelhano e que, em português, só existe para este verbo? Em castelhano, ensimismarse, por muito que seja tenha sido formado de maneira incomum, é apenas um verbo regular:  yo me ensimismo, tú te ensimismas, ella se ensimisma, nosotros nos ensimismamos, vosotras os ensimismáis, ellos se ensimisman, etc. O que é mesmo estranho no ensimesmar-se português é o pseudo-radical mudar de pessoa para pessoa: eu emmimmesmo-me, tu entimesmas-te, ela ensimesma-se, nós ennosmesmamo-nos, vós envosmemais-vos, eles ensimesmam-se

Pormenor de um desenho de Cory, J. Campbell, 1911
Wikimedia Commons, daqui.
Pode argumentar-se: «Estranho será; mas é lógico.» Bom, a ser lógico, é só meio lógico, porque o particípio passado estraga tudo: o particípio passado é sempre ensimesmado, o que faz que a pretensa lógica dos tempos simples despareça nos tempos compostos. Seguindo a lógica da tal «dupla flexão pronominal reflexa», podia esperar-se uma frase como 

Depois de me ter *emmimmesmado durante um longo período, comecei, nesse verão, a abrir-me ao mundo à minha volta.

Mas não, não existe. Diz-se e escreve-se 

Depois de me ter ensimesmado durante um longo período, comecei, nesse verão, a abrir-me ao mundo à minha volta.

Não há dúvida: a palavra mais esquisita da língua portuguesa é mesmo o verbo ensimesmar-se


09/07/26

Orgulho

 

– E até uma vizinha me disse uma vez – dizia ela visivelmente emocionada, à beira das lágrimas – «que bem que a senhora estende a roupa, tão direitinha».

Na vida desgraçada que levara, em que tudo e toda a gente à sua volta lhe lembrava constantemente que ela não era nada, não valia nada, só em coisas assim conseguia encontrar motivo de orgulho.

E nós, ao ouvi-la, como não ficarmos também à beira das lágrimas?  

01/07/26

Dois apontamentos sobre comida tradicional – história, cultura e gastronomia


Como é que uma comida se torna tradicional? 

A ideia de que a cultura material de um povo é, se não completamente determinada, pelo menos grandemente influenciada pelas condições naturais dos lugares que esse povo habita é tão sensata que é difícil pô la em causa. É interessante constatar, porém, que às vezes se observam certos fenómenos culturais, certas tradições, que parecem tão a contrapelo dessa lógica que uma pessoa se sente baralhada com o seu aparente desarrazoado.   

Três exemplos que me vêm imediatamente à cabeça, da área da gastronomia: Se os pratos típicos de uma região se vão desenvolvendo a partir dos ingredientes disponíveis nessa região (nativos ou importados, não importa, contanto que lá existam), porque é que as passas de uva são um produto indispensável nos lares dinamarqueses e de outros países do norte da Europa, e já de muito antes da moderna globalização culinária? E porque é que o maçapão de Lübeck é uma Indicação Geográfica Protegida, quando não há amendoeiras no norte da Alemanha? E porque é os portugueses consomem há tanto tempo tanto bacalhau, quando o importaram sempre quase todo? 

Parece-me muito provável que, algumas vezes, seja precisamente a raridade de um produto — importado, por ser inacessível localmente, e por isso consumido apenas pelas classes mais ricas — que o torna desejado e, por razões nem sempre fáceis de explicar em pormenor, que faz dele um produto necessário à «boa mesa», sobretudo quando passa a ser mais abordável para um maior grupo de pessoas. Creio que é isto que se passa com as passas e o massapão no norte da Europa.  

As passas de uva são consumidas há muito tempo no norte da Europa, principalmente em bolos e inicialmente como especiaria. Foram, durante muito tempo, uma das poucas fontes de açúcar que havia — um produto de luxo reservado à nobreza e algum clero. Depois, como marca de estatuto social, foram também adotadas pela burguesia e depois por toda a gente, à medida que se iam tornando mais acessíveis a todas as bolsas. [1]  

O maçapão de Lübeck tem uma história semelhante. Referido pela primeira vez nos registos da Guilda de Lübeck em 1530, o maçapão era um produto de luxo, com pretensas propriedades medicinais, que só podia ser fabricado e vendido pelos boticários. E, como produto de luxo que era, comia-se sobretudo nas festas dos ricos. Se o de Lübeck se tornou famoso, foi pela sua qualidade: a cidade era um grande centro comercial e era, por isso, possível assegurar aí o fornecimento de pasta de amêndoa, um produto importado do sul e cuja escassez fazia que, em muito outros sítios, o maçapão fosse quase só açúcar sem amêndoa. A partir do início do séc. XIX, com a abolição das corporações, o maçapão passou a ser produzido por pasteleiros e, poucas décadas depois, havia já várias fábricas de maçapão na cidade. O maçapão era agora mais barato, ao mesmo tempo que aumentava o poder de compra dos consumidores; e espalhou-se pelo norte da Europa. [2]    


Já a história do consumo de bacalhau em Portugal não é em nada semelhante. Não se trata, neste caso, de um produto de luxo que se tornou depois mais acessível a todos.  

Muito consumido em Portugal desde o séc. XVI, o bacalhau sempre foi comida do povo, uma situação que não era, aliás, exclusiva de Portugal: o bacalhau foi, durante séculos, um produto de consumo comum em toda a Europa, sobretudo entre as classes mais pobres. Dizem José Manuel Sobral e Patrícia Rodrigues no seu estudo O fiel amigo: o bacalhau e a identidade portuguesa :  

Cremos que a razão da [exaltação do bacalhau] em Portugal radica, em última instância, na celebração pelas classes populares rurais e urbanas de um alimento que enriqueceu uma dieta secular pobríssima feita de pão e de alguns vegetais ou toucinho. 

Agora, se nos séculos XV e XVI os portugueses iam pescar bacalhau no Atlântico Norte, entre o século XVI e fins dos séc. XIX o bacalhau era todo importado; e, mesmo quando a pesca nacional de bacalhau foi aumentando ao longo do século XX e Portugal chegou brevemente a ser, na década de 1950, o maior pescador mundial de bacalhau, continuou a importar-se cerca de um quarto do bacalhau consumido.  

Passados 70 anos, o bacalhau é de novo todo importado, como o foi durante séculos, e continuamos a ser de longe os maiores consumidores de bacalhau do mundo, como já somos pelo menos desde os anos 30 do século XX. Mas não só de bacalhau — de peixe em geral. Todos os dados que encontro sobre o consumo de peixe indicam que, se excetuarmos pequenos territórios insulares, Portugal é atualmente o maior consumidor de peixe per capita. E 80% do peixe que se come em Portugal é, como o bacalhau, importado. [3]  

Não vou desenvolver esta questão, por muito que ela seja interessante. O que me interessa aqui salientar é que não é preciso um produto existir num determinado sítio para fazer parte da gastronomia desse sítio. O preço é com certeza uma condicionante, mas mesmo um preço elevado não parece fazer excluir totalmente um produto que tenha passado a fazer parte de uma tradição — do que se considera normal. E, para isso, pode haver várias razões: por exemplo, pode ter-se tornado um produto alimentar de base por ter sido já considerado de elite ou, no extremo oposto, por ter sido a mais barata fonte de proteína para as classes populares — e talvez por muitas outras possíveis razões entre estes dois extremos… 

E o que é que se pode considerar tradicional?  

Conheci também há pouco tempo um brevíssimo ciclo de quatro canções de Leonard Bernstein , cujos textos são excertos de receitas de La Bonne Cuisine Française , um clássico de Emile Dumont, de 1889 . A receita de plum pudding de Dumont pede, como única gordura, sebo de rim de vaca, de que se devem retirar todas as peles e veios, e picar até ficar reduzido a pó fino. Acho que quem se proponha hoje seguir estas receitas substitui a gordura de rim de vaca por manteiga, não vos parece? Ou banha, vá que seja — ainda há bolos feitos com banha, mesmo industriais. Mas gordura de rim de vaca?

Se uma receita de fins do século XIX nos pode parecer exótica, mais exóticas nos podem parecer receitas mais antigas. Tive um livro chamado Notas de Cozinha , de Leonardo da Vinci, que me serviu de introdução à estranheza da gastronomia do passado. Como já não tenho o livro de notas de Leonardo da Vinci em português, traduzo uma receita d a versão em espanhol a que tenho acesso: 

Sopa de amêndoa 

Fervem-se alguns nabos tenros numa panela onde se pôs uma cabeça de ovelha cozida; depois, desfaz-se tudo com sal, pimenta e sementes de cominho, junta-se-lhes um ovo para ligar esta mistura e com ela fazem-se bolas e outras formas que se cobrem com migas de pão. No centro de cada uma destas bolas e formas coloca-se um testículo de borrego cozido. Põe-se tudo [a fritar] numa frigideira com óleo até ficar duro e castanho e serve-se.   

Leonardo da Vinci acrescenta que desconhece por que razão este «famoso prato milanês» é conhecido como sopa de amêndoas e eu também não faço ideia. Talvez amêndoas fosse um termo eufemístico para testículos. Mas o que me interessa aqui é o facto de ser um prato conhecido. Não se fica a saber quem o comia, é certo, e um problema destes livros de receitas antigos é darem conta apenas do que se comia nas casas dos ricos. Parece-me provável, até pelos ingredientes, que este prato não fosse comido apenas em banquetes de nobres, mas não sei… 

José Manuel Sobral e Patrícia Rodrigues notam, no texto atrás referido, que não há receitas de bacalhau no mais antigo livro de cozinha português, A Arte de Cozinha , de Domingos Rodriguez, de 1680, e esse reparo fez-me revisitar o livro, que eu já conhecia. Domingos Rodriguez foi cozinheiro do Conde de Vimioso e do rei Pedro II, de maneira que aqui não temos dúvidas de que é da cozinha dos ricos que se trata. Há, neste livro, muitas receitas que nos parecem hoje estranhíssimas, algumas com quantidades enormes de ovos, com muito açúcar e fruta em pratos de carne, etc. Deixo aqui uma, que escolhi porque Domingos Rodriguez a descreve como «um prato ordinário» (no sentido de «comum», nota-se, não no sentido pejorativo que muitas vezes tem hoje) e deixo aqui a grafia original, que lhe dá outro… sabor.  [4]   

Sopa de qualquer genero de aßado.  

Feito hum vintem de paõ em fatias, ponhaſe hũa cama dellas em hũa frigideira grande untada de manteiga, cubraõ-ſe de açucar, & de canella, & ſobre eſta cama ponhaſe outra da meſma ſorte, & por cima della hũa pequena de manteiga de vaca lavada, & açafraõ, deitem-lhe hum pouco de caldo de galinha, ou de carneiro, & deixe-ſe eſtofar de vagar em pouco lume; & logo tirandoſe fóra do lume, deitem-lhe huma duſia de ovos por cima (ou menos, conforme for a frigideira) com açucar, & canella : feito iſlo, tomeſe hũa tampa com lume, & ponha-ſe hũ pouco levantada ſobre a ſopa até que tome boa cor ; tirada da frigideira, & poſta no prato, ſe trinchará o aſſado, que podem fer galinhas, ou frangãos, ou põbos, ou perùs. Este he hum prato ordinario.

Chamou-me a atenção o surpreendente requinte técnico do «gratinado» com a tampa a arder colocada por sobre a frigideira. 

Mas não há dúvida de que o passado é um país distante. E as tradições, essas, não são na maioria muito antigas. Também na gastronomia. Quantos anos têm as receitas tradicionais portuguesas, francesas ou italianas que todos conhecemos hoje? De cada vez que me ponho a explorar a história de uma delas, descubro sempre que não são tão antigas como isso. [5]  

De maneira que insisto, espraiando a partir da gastronomia: não tentemos dar aos elementos que se dizem constituir uma identidade nacional um caráter trans-histórico que eles, de cada vez que se investiga, se verifica não terem. O que se come hoje em Portugal é muito mais parecido com o que come hoje na Dinamarca do que com o que se comia em Portugal há 500 anos. E o que se veste. E o que se pensa. Etc.  


Imagens:
[Muitos quilos de passas] Membros da União dos Cozinheiros preparando um plum-pudding gigante, xilogravura para o jornal The Illustrated London News de 3.1.1863, daqui
[Outros maçapães nórdicos] A fábrica de maçapão M. Zappa na Schloßplatz de Königsberg, atual Calininegrado. Carta postal, autor desconhecido, s.d. anterior a 1914. Bildarchiv Ostpreußen, daqui
[Terra nova e Labrador] Barco de pesca com bacalhau (e halibute pendurado), foto de N.B (?) Miller, s.d. (anterior a 1927), Biblioteca do Congresso dos EUA, daqui

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Notas:

[1] Não encontrei nada específico sobre a história das passas de uva no norte da Europa, mas vários sites dizem o mesmo que esta página  ou esta página , por exemplo. Para uma cronologia da história das passas de uva, ver aqui .  

[2] Esta informação é tirada das páginas da Wikipédia sobre o massapão de Lübeck em três línguas diferentes, que se completam: as páginas   em francês, em alemão e em inglês

[3] Toda a informação sobre o bacalhau é tirada de duas fontes, que aconselho: o estudo de José Manuel Sobral e Patrícia Rodrigues O fiel amigo: o bacalhau e a identidade portuguesa (2013) e o episódio «Faina maior, a pesca do bacalhau»  (2015) da série televisiva História a História,  de Fernando Rosas, que inclui uma entrevista a um especialista da história do bacalhau, Álvaro Garrido. Para Informação sobre a importação de peixe, ver aqui ou aqui .

[4] A página em inglês do artigo da Wikipédia sobre Alfred Korzybski inclui um curioso episódio referido num jornal neerlandês, que eu traduzo: 

Um dia, Korzybski estava a dar uma aula e, de repente, interrompeu-a a aula para tirar da pasta um pacote de bolachas, embrulhado em papel branco. Disse que precisava mesmo de comer alguma coisa e perguntou aos alunos da primeira fila se também queriam uma bolachinha. Alguns estudantes aceitaram uma bolacha. «Boas bolachas, não acham?», perguntou Korzybski, e comeu mais uma. [..] Depois, rasgou o papel branco onde as bolachas estavam embrulhadas, mostrando a embalagem original. Via-se uma imagem de um focinho de cão e as palavras «bolachas para cães». Quando os alunos viram a embalagem, ficaram chocados. Dois deles sentiram vómitos, taparam a boca com as mãos e saíram da sala a correr. «Vejam», comentou Korzybski, «acabo de demonstrar que as pessoas não comem só comida, mas também palavras, e que às vezes conta mais o sabor das palavras que o sabor da comida.

Peço desculpa pela excursão, mas gosto muito desta história. 

[5] Como diz Luís Pontes no seu blogue

[a] ideia generalizada de que aquilo que comemos e a que se convencionou chamar «cozinha tradicional portuguesa» é um património que nos acompanha enquanto povo desde tempos imemoriais é um dos mais lamentáveis logros, que nos é vendido por uma certa «gastronomia» que, à falta da criatividade e reinvenção de que a Gastronomia é feita, nos impinge uma cozinha geralmente com meia dúzia de dezenas de anos (a cozinha de infância destes gastrónomos), que tem sido perpetuada numa visão museográfica da cozinha [...] .