A palavra mais esquisita da língua portuguesa deve ser o verbo ensimesmar-se.
É certo que nem todas as palavras se formam das maneiras mais canónicas. Parabéns, por exemplo, formou-se de uma preposição e um nome (para bens); e o je-m’en-foutisme francês, que refere uma atitude de desinteresse, de se estar nas tintas para o que se passa, formado de je m’en fous, «estou-me nas tintas» — dois pronomes, um advérbio e um verbo. Também são palavras um pouco esquisitas, mas ensimesmar-se é muito mais.
Ensimesmar-se é, ao que parece, uma palavra importada do castelhano. Quem terá tido a ideia de a usar em português? E, sobretudo, quem terá tido a ideia de lhe acrescentar a mais anómala conjugação da língua portuguesa, a «dupla flexão pronominal reflexa», que não existe no termo castelhano e que, em português, só existe para este verbo? Em castelhano, ensimismarse, por muito que seja tenha sido formado de maneira incomum, é apenas um verbo regular: yo me ensimismo, tú te ensimismas, ella se ensimisma, nosotros nos ensimismamos, vosotras os ensimismáis, ellos se ensimisman, etc. O que é mesmo estranho no ensimesmar-se português é o pseudo-radical mudar de pessoa para pessoa: eu emmimmesmo-me, tu entimesmas-te, ela ensimesma-se, nós ennosmesmamo-nos, vós envosmemais-vos, eles ensimesmam-se.
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| Pormenor de um desenho de Cory, J. Campbell, 1911 Wikimedia Commons, daqui. |
Depois de me ter *emmimmesmado durante um longo período, comecei, nesse verão, a abrir-me ao mundo à minha volta.
Mas não, não existe. Diz-se e escreve-se
Depois de me ter ensimesmado durante um longo período, comecei, nesse verão, a abrir-me ao mundo à minha volta.
Não há dúvida: a palavra mais esquisita da língua portuguesa é mesmo o verbo ensimesmar-se…

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