13/07/26

Ensimesmamento


A palavra mais esquisita da língua portuguesa deve ser o verbo ensimesmar-se

É certo que nem todas as palavras se formam das maneiras mais canónicas. Parabéns, por exemplo, formou-se de uma preposição e um nome (para bens); e o je-m’en-foutisme francês, que refere uma atitude de desinteresse, de se estar nas tintas para o que se passa,  formado de je m’en fous, «estou-me nas tintas» — dois pronomes, um advérbio e um verbo. Também são palavras um pouco esquisitas, mas ensimesmar-se é muito mais.

Ensimesmar-se é, ao que parece, uma palavra importada do castelhano. Quem terá tido a ideia de a usar em português? E, sobretudo, quem terá tido a ideia de lhe acrescentar a mais anómala conjugação da língua portuguesa, a «dupla flexão pronominal reflexa», que não existe no termo castelhano e que, em português, só existe para este verbo? Em castelhano, ensimismarse, por muito que seja tenha sido formado de maneira incomum, é apenas um verbo regular:  yo me ensimismo, tú te ensimismas, ella se ensimisma, nosotros nos ensimismamos, vosotras os ensimismáis, ellos se ensimisman, etc. O que é mesmo estranho no ensimesmar-se português é o pseudo-radical mudar de pessoa para pessoa: eu emmimmesmo-me, tu entimesmas-te, ela ensimesma-se, nós ennosmesmamo-nos, vós envosmemais-vos, eles ensimesmam-se

Pormenor de um desenho de Cory, J. Campbell, 1911
Wikimedia Commons, daqui.
Pode argumentar-se: «Estranho será; mas é lógico.» Bom, a ser lógico, é só meio lógico, porque o particípio passado estraga tudo: o particípio passado é sempre ensimesmado, o que faz que a pretensa lógica dos tempos simples despareça nos tempos compostos. Seguindo a lógica da tal «dupla flexão pronominal reflexa», podia esperar-se uma frase como 

Depois de me ter *emmimmesmado durante um longo período, comecei, nesse verão, a abrir-me ao mundo à minha volta.

Mas não, não existe. Diz-se e escreve-se 

Depois de me ter ensimesmado durante um longo período, comecei, nesse verão, a abrir-me ao mundo à minha volta.

Não há dúvida: a palavra mais esquisita da língua portuguesa é mesmo o verbo ensimesmar-se


Sem comentários: