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04/10/13

… e uma garrafa de rum!

«A Ilha do Tesouro nasceu de At Last: A Christmas in the West Indies de Kingsley; onde fui buscar o “Dead Man's Chest” – foi essa a semente», diz Robert Louis Stevenson sobre a génese do seu livro mais famoso. Como a obra de Charles Kingsley que Stevenson refere não inclui a famosa canção de marinheiros que é tema deste texto e que é conhecida como “(Fifteen Men on the) Dead Man’s Chest” ou “Yo-ho-Ho”, ficamos a saber que canção e novela nasceram ao mesmo tempo – da imaginação de Stevenson. Podemos então datar a cantiga de 1881, ano em que A Ilha do Tesouro foi publicada pela primeira vez, como folhetim, na revista Young Folks.

Stevenson não dá da canção senão o estribilho*:
Fifteen men on the dead man's chest–
...Yo-ho-ho, and a bottle of rum!
Drink and the devil had done for the rest–
...Yo-ho-ho, and a bottle of rum!
Há inúmeras traduções da quadra, nas muitas edições que houve da obra de Stevenson. Os quinze homens podem estar (empilhados, às vezes) em cima da mala, do baú, da arca, do caixão, etc. do morto. O resto é mais consensual: Yo-ho-ho e uma garrafa de rum / A bebida e o diabo encarregaram-se dos outros / Yo-ho-ho e uma garrafa de rum. Mas Dead Man’s Chest é, ao que parece, o nome de uma ilha. Eis o excerto da obra de Kingsley que inspirou Stevenson (traduzo eu):
[Procurávamos] Virgem Gorda, a primeira dessas inúmeras ilhas que Colombo, segundo se diz, descobriu no dia de Santa Úrsula e a que deu o nome da santa e das suas onze mil virgens míticas. Depois disso, infelizmente, os corsários ingleses deram à maior parte delas nomes menos poéticos. O Cabo do Holandês, Velha Jerusalém, Baú do Morto, Ilha do Rum, etc., dão conta de uma época e de uma raça mais prosaica, mas ainda mais terrível, embora em nada mais perversa e brutal, que os conquistadores espanhóis.
Trata-se muito provavelmente de uma pequeníssima ilha das Ilhas Virgens, hoje conhecida como Dead Chest. Há também uma ilha em Porto Rico conhecida em inglês como Dead Man's Chest Island.

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Dez anos depois da publicação d'A Ilha do Tesouro, Young Ewing Allison desenvolveu a quadra de Stevenson num poema chamado “Derelict”. Dois anos mais tarde, para uma versão teatral da Ilha do Tesouro na Broadway, Henry Waller musicou o poema de Young e nasceu a canção “Derelict”. A canção imaginada por Stevenson podia finalmente cantar-se.

A canção de Allison e Waller foi retomada, parece que com a melodia ligeiramente alterada, na banda sonora de A Ilha do Tesouro que Victor Fleming realizou em 1934. A partir daí, em filmes e fora deles, foram feitas muitas versões de “Dead Man’s Chest”, em vários estilos diferentes. Deixo-vos aqui, por ordem cronológica, várias dessas versões:

1954: Música de David Buttolph, para o filme Long John Silver, usada também em Long John Silver’s Return to the Treasure Island

1959: A versão da Roger Wagner Chorale, com Harve Presnell como solista, do álbum Sea Chanties. Parece que se trata de uma interpretação do “The Derelict” original de Young and Waller, apenas com o nome de “Yo Ho Ho And A Bottle Of Rum


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Na edição portuguesa d’A Ilha do Tesouro que li em rapaz (e que não faço ideia qual tenha sido…), o primeiro verso da canção estava traduzido como “Quinze homens na mala do morto”. Estranha tradução: 15 homens sentados em cima da mala, ou de pé sobre ela? Dentro dela, que é que nos vem à cabeça quando lemos o verso, não é?, não pode ser – porque não há mala onde caiba tanta gente e porque o impede a preposição on do original … Mas é uma tradução que nos faz sonhar muito mais que outra tradução mais rigorosa. Sonhar e recordar: a estranheza ajuda a memória e eu, que da novela esqueci praticamente tudo, lembro-em bem desse verso mágico, “Quinze homens na mala do morto”.
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* São referidos na narrativa dois outros versos de uma canção de marinheiros, mas não se diz se pertencem ou não à mesma canção: But one man of her crew alive, / What put to sea with seventy-five;

16/01/13

...e, de resto, pode fazer-se o que se quiser.

Veio há pouco tempo parar-me às mãos um pequeno ensaio moral de Robert Louis Stevenson chamado A Christmas sermon (“Um sermão de Natal”), de 1888. O ensaio de Stevenson assenta numa ideia cristã de moral positiva:
Não somos condenados por fazer mal, mas sim por não fazer bem; Cristo recusava a moral negativa; deves foi sempre a sua palavra, que utilizou em vez de não deves. 
No âmbito de uma moral revelada, bastaria a sua origem divina para justificar a asserção de que é pela positiva que se devem definir as propostas morais – bastaria dizer que é assim, porque foi isso que Cristo disse. Mas Stevenson apresenta também para essa asserção uma justificação não propriamente moral, ao que consigo entender, mas antes de ordem psicológica:
Fazer a nossa ideia de moral centrar-se em atos proibidos é corromper a imaginação e introduzir no nosso julgamento do próximo um elemento secreto de prazer. Se uma coisa está para nós errada, não nos devemos demorar-nos na reflexão sobre ela, ou depressa acabaremos por refletir sobre ela com prazer invertido.
Deixem-me suspender um bocadinho o texto de Stevenson, para dar uma voltinha por questões que me levanta a moral positiva, em várias formulações. Uma das mais famosas é a formulação crística muitas vezes chamada a Regra de Ouro*:
Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós, porque esta é a lei e os profetas. (Mateus 7:12)
Assim como quereis que os homens vos façam, do mesmo modo lhes fazei vós também. (Lucas 6:31) 
Duma forma talvez abusiva, chamo-lhe às vezes a ideologia da missão: se X é para mim a verdade (ideal epistémico), o bem (ideal moral) e a felicidade (ideal psíquico), que mais posso desejar senão dar aos outros X, que é o que eu desejaria, sendo como sou, que me fizessem a mim, se não fosse como sou?
Há muito que me parece (e a muitas outras pessoas) que fazer aos outros o que quero que me façam a mim é fundamentalmente errado, porque não sei se os outros querem que eu lhes faça o que eu quero que me façam a mim. Pode argumentar-se, é claro, que o verdadeiro problema não é querer alargar a todos uma crença ou um comportamento, mas sim a maneira como se o faz; que, sem assimetrias de poder e sem se impor nada, não há mal em que se proponha apenas aos outros o que se acha verdadeiro, bom e são. É certo. Mas a regra da moral positiva, pelo menos na sua versão mais comum, não é “propõe aos outros o que queres que te proponham a ti”, mas sim “faz aos outros o que queres que te façam a ti” e é aí que começam as minhas dúvidas sobre ela…
Evidentemente, e como foi já também muitas postulado, vezes posso aceitar que deva fazer aos outros o que quero que me façam a mim, se tiver indicação clara de que é isso que os outros querem que eu lhes faça, mas, nesse caso, o princípio moral em questão passa a ser um caso particular de outro princípio muito diferente de moral positiva: faz aos outros o que eles querem que tu lhes faças.
É uma regra muito melhor, porque desloca o eixo moral do mesmo para o outro: já não posso fazer ao outro o que eu gostava que me fizessem a mim, mas que o outro não quer que eu lhe faça. Mas não faz desaparecer todos os problemas: uma moral cujo eixo é o querer, seja ele o meu (do agente) ou o do outro (do alvo da ação), continua a ser uma moral em que falta à ação uma causa válida (que alguém queira alguma coisa tem pouco valor ético) e que é, por definição, indiscutível, no sentido primeiro da palavra – porque… como se discute um querer? Uma proposta moral sólida deve assentar, na minha opinião, em algo mais fundamental e mais comunicável que o querer.
Mas voltemos a Stevenson. Uma ideia central no sermão é que devemos deixar-nos de moralismos, como ele diz; que não devemos fazer do mal que os outros fazem o centro das nossas preocupações:
Há uma ideia espalhada entre pessoas morais de que devem tornar os outros bons. Há uma pessoa que devo tornar boa: eu próprio. Mas o meu dever para com o meu próximo é expresso de forma mais adequada se disser que tenho de o tornar feliz – se conseguir.
Se a moral positiva de Stevenson fosse “fazer aos outros o que queremos que eles nos façam a nós”, ficaríamos a saber que ele não queria, obviamente, que fizessem dele um homem bom, mas antes que fizessem dele um homem feliz – pois que é isso que acha que se deve fazer aos outros. A moral de Stevenson, porém, não tem muito a ver com o princípio discutido acima – é uma moral positiva, porque não se centra na interdição e sim no dever de agir; mas não é relativa, porque este dever não depende da vontade de cada um, nem de nenhum outro critério relativo: é o dever absoluto de fazer os outros felizes. No fundo, creio entender, sob a forma nem sempre muito transparente do ensaio, que, embora não lhe chame assim e pareça até desvalorizar a ideia de virtude, é uma ética da virtude que Stevenson propõe, mas uma virtude não “moralista”, a virtude de uma alegre bonomia:
Gentileza e alegria vêm antes de qualquer moral; são os deveres perfeitos.
Não me parece que seja suficiente, como proposta moral, mas porque não?

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Outra lei moral de base que também me veio parar às mãos recentemente, e que considero mais correta, é a que é proposta na novela Gente e gatunos de Vila Cardamomo (Folk og røvere i Kardemommeby, 1955), um clássico infantil do norueguês Thorbjørn Egner. A única lei de Vila Cardamomo é a seguinte:
Não se deve incomodar os outros,
deve ser-se bom e amável
e, de resto, pode fazer-se o que se quiser.
A “lei de Cardamomo” é apresentada numa canção que vos deixo aqui, no norueguês original. Na minha opinião, ganharia bastante, do ponto de vista ético, com a supressão do segundo verso. Mas isso estragava a canção toda...


(Para uma formulação esteticamente interessante de um princípio geral e absoluto de moral negativa, ver uma das primeiras páginas desta Travessa.)
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* Uma formação curiosa é que se atribui ao químico e bioquímico Linus Carl Pauling (segundo a Wikipédia, numa palestra no Monterey Peninsula College, na Califórnia, por volta de 1961, mas não é citada fonte para essa informação…):
Tenho uma coisa a que chamo a minha Regra de Ouro. É mais ou menos assim: “Faz aos outro 25% melhor do que esperas que eles te façam”… Os 25% são para a margem de erro.
Por divertida que seja a formulação, se aceitarmos as críticas feitas a este princípio moral, ela só vem tornar a regra… 25% mais criticável!

10/01/13

Louvor da novela de aventuras

[Texto encontrado numa caixa no sótão – do meu computador. É assim, em momentos de preguiça ou falta de inspiração: vou buscar textos já velhos e zás, pespego aqui com eles. Este é um prefácio a uma novela que eu espero que nunca venha a ser publicada. Lembrei-me dele ao ler o artigo da Wikipédia sobre Robert Louis Stevenson. Dizia, a certo passo, que "[Robert Louis Stevenson] foi elogiado por Roger Lancelyn Green (...) como escritor que manteve sempre um nível elevado de "capacidade literária ou absoluto poder imaginativo" e co-fundador, com H. Rider Haggard, da Era dos Contadores de Histórias (Age of the Story Tellers)", mas a expressão Age of the Story Tellers tinha um link para uma página ainda por criar. "Incrível!", indignei-me eu.]
Na segunda metade do século dezanove, foi escrito e publicado um sem-número de aventuras maravilhosas passadas nas selvas obscuras da África, nos ofuscantes desertos das Arábias, nas intermináveis rotas da Ásia ou nos mares sem lei das sete partidas do mundo. Falo de histórias que nunca chegaram a passar de moda e que, por muito que se destinassem, muitas vezes, sobretudo aos jovens europeus do sexo masculino, têm servido para divertir (e educar, dirão alguns) gente dos dois sexos e de todas as idades, culturas e qualidades.
Evidentemente, a novela de aventuras não foi inventada nessa época, mas foi nessa época que ela atingiu a sua máxima perfeição e, sobretudo, a sua máxima capacidade de gerar mitos. São, ainda hoje, as românticas personagens desses livros que servem de modelo a uma parte grande do nosso imaginário e são ainda as suas aventuras que servem de base a muita da mitologia moderna. Para vos dar de exemplo os últimos trinta anos do século de mil e oitocentos, os mais dourados anos da história da aventura literária, posso recordar que (e que me perdoem todos os Fenimore Coopers, todas as Mary Shelleys, todos os Alexandre Dumas e todos os Herman Melvilles do planeta tê-los deixado para trás): em 1872 foi publicada pela primeira vez, no jornal Le Temps, a aventura que condensa todas as aventuras imagináveis naquele tempo do mundo, A volta ao mundo em oitenta dias, desse Jules Verne que tinha já, nos oito anos anteriores, inventado a moderna ficção científica com as suas viagens ao centro da Terra, à Lua, e às profundezas dos mares; que a matriz de todas as histórias de piratas e de todas as caças ao tesouro, A ilha do tesouro, essa obra-prima de Robert Louis Stevenson, foi publicada em 1883, três anos antes de Stevenson publicar O estranho caso de Dr. Jekyll e  Mr. Hyde, outro romance fundador que nunca mais parou de gerar variações suas; que, em 1985, Henry Rider Haggard publicou As minas do rei Salomão, o mais duradouro padrão da autêntica aventura, sem o qual não teria nunca vindo a existir nenhum Tintin nem nenhum Indiana Jones; que, em 1987, o génio de Bram Stoker deu a conhecer ao mundo, numa novela brilhante de terror, suspense e simbolismo profundo, o conde Drácula e a sua corte de vampiros, e inaugurou assim um dos mais profícuos mitos modernos; e que, em 1901, Rudyard Kipling, que 7 anos antes tinha apresentado ao público o primeiro Tarzan da história, a personagem Mowgli do seu Livro da selva, nos contou as maravilhosas aventuras do endiabrado órfão vagabundo Kim, deambulando pela mágica Índia na companhia de um monge tibetano.
E estavam assim inventadas todas as aventuras que conhecemos. A partir daí, pouco mais se fez, no domínio da aventura, do que variar um pouco à volta dos temas, das tramas e das personagens destes mestres, quando não se os plagiou descaradamente, sem nunca chegar, nem de longe, ao seu brilhantismo.