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14/08/17

O tio Sam… ba, uma família de canções

Provavelmente, não é mesmo uma família, e nem sequer um motivo ou tema recorrente, são apenas umas quantas canções que dialogam umas com as outras, não sei, mas não deixa de ser curioso.

A primeira que conheço é “Brasil Pandeiro”, que Assis Valente escreveu em 1940 para Carmen Miranda e que esta recusou, acabando por ser gravada no ano seguinte pelos Anjos do Inferno.



Famosa foi também a versão dos Novos Baianos em 1972, que eu prefiro:



Diz a canção:
Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor
Eu fui à Penha, fui pedir a padroeira para me ajudar
Salve o Morro do Vintém, pendura a saia, eu quero ver
Eu quero ver o Tio Sam tocar pandeiro para o mundo sambar
O Tio Sam está querendo conhecer a nossa batucada
Anda dizendo que o molho da baiana melhorou seu prato
Vai entrar no cuscuz, acarajé e abará
Na Casa Branca já dançou a batucada de ioiô iaiá
Brasil, esquentai vossos pandeiros
Iluminai os terreiros
Que nós queremos sambar
Em 1959, Odete Amaral gravou “Chiclete com banana”, de Gordurinha e Almira Castilho, que foi um grande êxito por Jackson do Pandeiro no ano seguinte e voltou a ser gravada por Gilberto Gil.







A letra de Chiclete com banana é diferente da letra de Brasil pandeiro: se nesta se trata da divulgação samba nos EUA (através do sucesso de Carmem Miranda naquele país), naquela exige-se para o samba estatuto de igualdade relativamente às músicas importadas: só quando o samba influenciar a música americana é que hei de deixar que a música americana influencia o samba. Mas têm as duas as mesmas imagens de «fusão» e em ambas aparece a figura do Tio Sam.
Só ponho bebop no meu samba
Quando o tio Sam pegar no tamborim
Quando ele pegar no pandeiro e no zabumba
Quando ele entender que o samba não é rumba
Aí eu vou misturar Miami com Copacabana
Chicletes eu misturo com banana
E o meu samba vai ficar assim
Quero ver a grande confusão
É o samba-rock, meu irmão
Mas em compensação
Quero ver o boogie-woogie de pandeiro e violão
Quero ver o tio Sam de frigideira
Numa batucada brasileira
«Quero ver o boogie-woogie de pandeiro e violão» remete-nos para uma música menos conhecida que se encaixa também neste topos. De uma forma menos sofisticada, talvez, encontram-se as mesmas ideias e a mesma figura do tio americano no tema “Boogie Woogie na Favela”, de Dênis Brean (Augusto Duarte Ribeiro), gravado por Cyro Monteiro em 1945:


Chegou o samba minha gente
Lá da terra do tio Sam com novidade
E ele trouxe uma cadência bem maluca
Vai mexer toda a cidade
O boogie-woogie boogie-woogie, boogie-woogie
A nova dança que balança
Mas não cansa
 A nova dança que faz parte
Da política da boa vizinhança
Chegou o samba minha gente...
E lá na favela toda batucada
Já tem boogie-woogie
Até as cabrochas já dançam
Já falam do tal boogie-woogie
E o nosso samba foi por isso que aderiu
No Amazonas, Rio Grande São Paulo e Rio
O boogie-woogie Boogie-woogie, boogie-woogie
A nova dança que surgiu!
É difícil definir o que cabe nesta linhagem, que, com rigor, implica não apenas a fusão de géneros brasileiros e norte-americanos, mas referências expressas a fusão de elementos culturais dos dois países; mas não há dúvida nenhuma de que “América do Norte”, de Seu Jorge (2007), é cantiga-irmã das que referi atrás. Nem falta a menção explícita do Tio Sam. E outras há de haver, seguramente, que não conheço.


Se segura que é balanço que chegou p'ra balançar
América do Norte vai sambar também
América do Norte vai sambar again
 Americana linda com esses olho azul
Vem balançar comigo América do Sul
Pode remexer e balançar a trança
Não esquente a cabeça pois a noite é uma criança
Vem dançar o samba-rock lá do Grajaú
Americana vamo' nesse samba-blue
Me diga eu te amo e eu I love you
É um vento quente, uma onda boa
Sinto falta da garôa, das crianças, da patroa
Hot dog is very nice, but I like angú

29/04/11

O caixão itinerante

Nunca li, confesso, as aventuras de Dirk Pitt, que são o que deu fama e dinheiro a Clive Cussler; mas posso imaginar, pelo muito pouco que conheço do autor, a exibição de auto-regozijo que hão-de ser essas novelas – se o herói de Cussler for, como o imagino, um alter-ego do grande ego do seu criador. [Ia a dizer que acabo de inventar um novo tipo de crítica, que consiste em dizer mal de livros que não se leu, mas pensando melhor, é extremamente provável que tal crítica já exista, se não for mesmo bastante comum, sem que se o saiba… Agora, se me permito julgamentos tão perversos como infundados é porque, de tudo o que a vida me ensinou, só há uma coisa que tenho como certa: desses best-sellers que se vendem em aeroportos e supermercados, não há um de que se possa dizer benza-te deus. Agora chamem-me snob, a ver se eu me ralo…] Em The Sea Hunters, porém, Cussler escreveu várias histórias interessantes – permanentemente salpicadas da tal irrefreável vaidade, é certo, mas interessantes ainda assim. O livro conta as aventuras reais do autor e da sua Agência Marinha e Submarina Nacional, NUMA, à procura de navios enterrados no lodo dos rios ou nas areias do fundo dos mares; e Cussler inventa, antes de cada uma dessas narrativas, a descrição do naufrágio de cada embarcação. Além de histórias de barcos, conta-se também no livro a história de uma locomotiva e de 3 submarinos. Foram as histórias dos submarinos que mais me impressionaram.

Sabiam que passaram mais de 68 anos entre o primeiro e o segundo ataques bem sucedidos de um submarino a um navio de superfície? Pois é verdade: em Fevereiro de 1864, o submarino confederado Horace H. Henley afundou o Housatonic, um navio da União; e só em Setembro de 1914 é que o submarino alemão U-21 voltou a repetir a proeza, afundando o navio britânico Pathfinder. A partir daí, os submarinos alemães, sobretudo, não cessaram mais a sua acção destruidora, mas mais na primeira grande guerra do que na segunda (traduzo da obra de Cussler todas as passagens a castanho): «[Durante a Primeira Guerra Mundial,] os primeiros navios submarinos da Alemanha afundaram o impressionante número de 4838 navios (…), mais 2009 do que os seus descendentes na Segunda Guerra Mundial». Mas deixemos estas generalidades enciclopédicas e voltemos à primeira destas terríveis máquinas de guerra, o Horace H. Hunley, que é o protagonista deste texto:

O Hunley (tratemo-lo assim daqui para a frente, para poupar letras) era o terceiro submarino subsidiado pela dupla Horace L. Hunley e Baxter Watson e concebido por James McClintock. O irmão mais velho do Hunley, o Pioneer, é um nado-morto: depois de ter completado com êxito alguns ensaios mas antes de ter sido oficialmente dado por apto para o serviço militar a valer, o Pioneer foi destruído pelo seu próprio criador, para o impedir de cair nas mãos dos nortistas, quando estes conquistaram Nova Orleães, onde o submarino estava a ser aperfeiçoado. Teimoso que era, McClintock, que tinha fugido para Mobile, no Alabama, construiu um segundo Pioneer, mas este não resistiu, na sua primeira missão, à violência de uma tempestade que lhe abriu rachas nos costados e afundou-se. Felizmente, a tripulação conseguiu abandoná-lo a tempo.

Não foi ainda desta vez que McClintock se deu por vencido. Conseguiu mais financiamento para continuar o seu projecto e, com a ajuda do tenente William Alexander, que trabalhara já com ele no Pioneer II, construiu o Hunley, pensa-se que a partir de uma velha caldeira de locomotiva. Segundo Cussler, «a embarcação que se tornou famosa como torpedeiro Hunley era surpreendentemente avançada para o seu tempo. A configuração do casco era muito semelhante ao design que haveria de ter muito mais tarde o submarino nuclear Nautilus (…) Dois pequenos portalós superiores, com escotilhas, que serviam de torres de entrada e saída. A largura era à justa para por lá se esgueirar um homem, conquanto mantivesse os braços erguidos por cima da cabeça. Havia até um rudimentar sistema de periscópio, chamado uma caixa-de-ar, com tubos que se moviam verticalmente, com as pontas acima da superfície da água. (…) O único defeito do Hunley era o seu primitivo sistema de propulsão. Estava-se ainda muito longe da energia de baterias eléctricas ou de motores a gasóleo. O Hunley contava apenas com oito homens para rodar o eixo que fazia girar a hélice». Um submarino movido à manivela, nem mais. E agora, imaginem as condições dentro do submarino, para os nove homens que o tripulavam: «O submarino tinha cerca de 10m de comprimento total e um casco de 1,5m de altura com uma largura máxima de 1,2m. O leme de direcção era comandado com uma roda e manobrado pelo capitão, que ia de pé e dirigia o submarino pelas escotilhas da torre da frente».
Como já aqui disse uma vez, as descrições, por exactas que sejam, não nos conseguem fazer perceber (visualizar, neste caso) o descrito. Bem mais eficazes do que palavras são as imagens abaixo que deixarão clara, penso eu, a angustiante falta de espaço do caixão itinerante, como lhe chamou a imprensa:

Se lhe chamaram caixão itinerante, tiveram os jornais justificação de sobra para a mórbida imagem: morreram no Hunley 22 pessoas. O primeiro acidente foi causado pelo Tenente John Payne, o primeiro comandante do submarino depois de McClintock, que fez o submarino imergir com as escotilhas abertas, causando a morte de cinco tripulantes. O segundo acidente deu-se com Horace H. Hunley, o primeiro financiador e padrinho do submarino, dirigindo uma equipa de 7 homens, numa viagem de treino. Hunley exagerou o ângulo de mergulho do submarino, o tanque de lastro dianteiro encheu-se demasiado e não houve maneira de fazer emergir a embarcação. Nenhum dos oito homens que iam a bordo se salvou. O derradeiro e maior acidente do Hunley coincidiu com o seu momento de glória e nele perderam a vida todos os seus nove tripulantes. Foi em Fevereiro de 1864 e comandava a nave o Tenente George Dixon, que, apoiara William Alexander na reconstrução do Pioneer II. Após semanas de tentativas frustradas de ataques a barcos do Norte, o Hunley conseguiu finalmente torpedear e afundar o Housatonic, uma chalupa canhoneira nortista, perto de Charleston, na Carolina do Sul. A onda de choque da explosão do barco da União foi violentíssima, mas os tripulantes e o submarino conseguiram sobreviver-lhe. Já no caminho de regresso, porém, e quando todo o perigo parecia ter passado, o Hunley foi abalroado pelo navio de guerra Canandaigua, que ia em socorro dos sobreviventes do Housatonic. O comandante do Hunley viu tarde demais as luzes do barco inimigo. Ainda mergulhou, mas já não foi a tempo de evitar a colisão: a quilha do Canandaigua rasgou literalmente o submarino, que se afundou imediatamente e deixou de ser caixão itinerante para passar ser o caixão fixo e permanente dos seus 9 tripulantes. A bordo do Canandaigua, ninguém deu sequer por ter afundado a arma secreta da marinha confederada... 

Não sou propriamente um aficionado de história militar, nem aficionado de coisas marítimas. Fascina-me o vocabulário de barcos e marinhagem, mas fica-se pelas palavras o meu fascínio pela navegação. O que eu sou é um bocado claustrofóbico e tenho um medo terrível do mar, isso sim. Na Cité des Sciences de La Villette, estive uma vez dentro de um submarino, ainda assim bem maior do que o Hunley, e fiquei muito angustiado só de me imaginar fechado dentro de uma coisa daquelas no fundo do mar. Não consegui na altura – nem consigo ainda – pensar num submarino a não ser como… um caixão itinerante, precisamente!...

[Para ficarem com uma ideia ainda mais clara de como era o interior do Hunley, vejam aqui uma reconstituição e aqui o verdadeiro submarino.]