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20/05/10

Feijões, favas e ervilhacas

[Prometi que nunca mais aqui falava de literatura e tenciono cumprir. Por isso, a quem pareça este texto fala (também) de literatura, quero esclarecer que não  – é só de feijões que fala!]

Rudyard Kipling pode ter muitos defeitos, ninguém o nega, mas dois defeitos que não tem são o de não saber transformar conhecimento e imaginação em histórias interessantes (Kim continua a ser um dos meus romances preferidos, apesar do seu tão criticado fundo ideológico de elogio do império britânico) e o de não saber escrever. Vejam, por exemplo, como começa o conto “The finest story in the world” (traduzo eu, por falta de o encontrar traduzido):

Chamava-se Charlie Mears; era filho único da sua mãe, que era viúva, e vivia na parte norte de Londres, deslocando-se todos os dias ao centro da cidade para aí trabalhar num banco. Tinha vinte anos e sofria de aspirações. Conheci-o num salão de bilhares, onde o marcador o tratava pelo nome próprio e ele tratava o marcador por Olho-de-boi. Charlie explicou, com algum nervosismo, que tinha ali vindo só para ver, e, como ficar só a ver jogos de habilidade não é um divertimento barato para jovens, sugeri a Charlie que voltasse para casa da mãe.

Não sei se, em português, se chamaria (ou se chama) marcador ao homem encarregado de ir marcando num quadro os resultados dos jogos (marker), mas isso é o menos. O estilo de Kipling é tão admiravelmente escorreito que constitui exemplo perfeito da arte e preceito de escrever com jeito, como diria um rapaz que eu conhecia… A história, bom, não a vou contar agora aqui, mas há uma altura em que nela aparecem galés gregas e se refere a comida dos remadores: “rotten figs and black beans and wine in a skin bag”. Quando li a passagem, compreendi que black beans eram feijão preto e o feijão preto estragou-me a leitura: “Feijão preto, os remadores das galés gregas da Antiguidade? Mas como pode ser isso?” É que aquilo a que eu chamo feijão preto (e que é, muito provavelmente, também aquilo a que os meus leitores chamam feijão preto) é uma variedade de Phaseolus vulgaris* e, esses legumes americanos, não os podem ter conhecido os gregos antigos! Tinha acreditado notar o mesmo anacronismo em The Pope’s Rhinoceros, de Lawrence Norfolk, onde se comem também feijões nas tabernas da Itália, na segunda década do século XVI… Um descuido do autor? Era possível, até porque Lawrence Norfolk parece não dar muita importância a esses pormenores**. Mas não podia ser, pensei eu depois, Norfolk e Kipling não se iam enganar numa coisa assim! A questão tinha se ser outra: a que chamarão eles beans?

No romance de Norfolk, os beans podiam ser favas ou algum de vários tipos de leguminosas secas do Velho Mundo, entre grão-de-bico e lentilhas… E o mesmo no conto de Kipling – só faz confusão o serem pretos… Bom, não podiam ser aquilo a que eu e os meus leitores chamamos feijão preto, mas parece que havia mesmo feijões pretos na Grécia Antiga, se nos fiarmos na entrada "Feijão" da Wikipédia em português: «Há referências [ao feijão] na Grécia antiga e no Império romano, onde feijões eram utilizados para votar: um feijão branco significava sim, e um feijão preto significava não». E nem é preciso sair da Wikipedia (basta dar um salto à entrada "Haricot" da Wikipédia em francês) para ficar a saber que os feijões anteriores ao feijão das Américas (o phaseolus grego e os legumes designados pelos nomes dele derivados) eram o feijão-frade, pois então, Vigna unguiculata, e a ervilhaca, Vicia sativa. Que são também beans em inglês, porque beans são muitas leguminosas e não apenas feijões em sentido estrito… Aliás, a confusão, no domínio de feijões e afins é grande. Se o português distingue claramente feijões de favas, por exemplo, nem todas as línguas o fazem, e há até línguas ou variantes dialectais onde é a fava que designa o feijão: as fabes asturianas e as fèves quebequenses são feijão, não são favas…

Está tudo muito bem, aprendi alguma coisa sobre feijões e sobre a minha maldita mania de querer encontrar erros onde os não há. Mas, e os feijões pretos das votações da Antiguidade clássica e da pouca apetitosa dieta dos remadores das galés, o que eram, afinal?

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* Sabiam que feijão preto, feijão manteiga, feijão encarnado, feijão catarino, feijão manteiga e etc., esses feijões todos, são variedades diferentes de uma mesma espécie?

** Norfolk diz que, quando os tradutores lhe apontam “erros” desse tipo, se sente tentado a não responder. (Por exemplo, «a carruagem virou à esquerda antes de chegar ao Marché des Innocents, como para atravessar o rio pelo Pont ....... Tem a certeza de que foi à esquerda que virou e não à direita?» ou «Como pode o enxofre da Caltanisetta (Sicília) vir do Cagliare na Sardenha?»)

17/01/10

Areia, mar e sol, tradução e espanhol…

Como disse ontem, li nas férias 2666, de Roberto Bolaño. Nas últimas férias, tinha lido The pope’s rhinoceros, de Lawrence Norfolk (comprado, vejam lá vocês ao que chegou a globalização, numa livraria de uma dinamarquesa na Ilha de Moçambique…). Só nas férias é que se pode ler romances assim, de muitas (muitas!) centenas de páginas. Agora, que recomecei a trabalhar, comecei a reler o que tenho de Borges cá em casa, que são 4 livros de contos. Um formato mais adequado à quotidiana falta de tempo: um conto hoje, outro amanhã…

Ignacio Echevarría disse uma vez de Los detectives salvajes (o penúltimo romance de Bolaño, imediatamente anterior a 2666) que era “o romance que Borges teria escrito” [se tivesse escrito algum romance] (ou “o tipo de romance que Borges teria acedido a escrever”, já vi diferentes citações das palavras de Echevarría...). Com todo o respeito que devo ao senhor Echevarría, e sem ter lido Los detectives salvajes, acho que não faz grande sentido pensar que Borges, que sempre se recusou, ponto!, a escrever romances (“Desvario laborioso e empobrecedor, o de compor vastos livros”, dizia ele), os escreveria assim ou assado se os quisesse escrever… Mas não é ele o único, essa é que é essa, a relacionar os dois escritores. A malograda Aura Estrada (só encontro a tradução inglesa do seu ensaio sobre “Borges, Bolaño e o retorno do épico”, na revista online Words without borders), embora concorde que “Borges pura e simplesmente não é o precursor que nos vem naturalmente à ideia quando lemos Bolaño”, considera que os une o facto de verem ambos na épica a essência do literário.

Assim à primeira impressão (só li uma obra de cada autor), tendo mais a comparar a escrita de Roberto Bolaño com a de Lawrence Norfolk, sobretudo pelas digressões fogosas, às vezes capazes de deixar o leitor literalmente ofegante, e pela mistura de registos, em que o calão e outras formas menos cerimoniosas de linguagem convivem com uma “literariedade” que revela um domínio convincente de muitas linguagens literárias. Por outras palavras, a feliz expressão bawdy baroque-punk prose of marvellous fluency, “prosa barroco-punk impudica de maravilhosa fluência”, que William Dalrymple, um crítico de The Independent usa para descrever a escrita de Norfolk pode aplicar-se, acho eu, à escrita de Bolaño – pelo menos, às vezes... E se no caso de Norfolk, tudo isto é, como diz Dalrymple, “recoberto com uma camada lustrosa de grande erudição, que abrange tudo desde obscuras práticas sexuais renascentistas até às minúcias do direito canónico” com “apartes eruditos sobre a enxertia de rainhas-cláudias, os movimentos de glaciares e o simbolismo sagrado do camaleão”, um livro de Bolaño pode, por exemplo, revelar, com a mesma amplitude de erudição, “conhecimentos de medicina legal, Panteras Negras, divisões do exército alemão, cultura das prisões, ficção científica soviética, boxe, algas marinhas e formas obscuras de adivinhação” – e eu acrescentaria ainda fobias (há uma impressionante enumeração de medos patológicos em 2666) a esta lista de Natasha Wimmer, tradutora das duas últimas obras de Bolaño para inglês.

Jorge Luis Borges acreditava na tradução. Afirmou-o peremptoriamente ainda jovem, em 1926 [“Quanto a mim, creio nas boas traduções de obras literárias (das didácticas e especulativas, nem falemos) e opino que até os versos são traduzíveis” (Textos recobrados 1919.1930)] e, ao que eu sei, nunca mudou de opinião ao longo da vida. Para ele, mais do que um mal necessário, a tradução era um bem necessário e uma das componentes da literatura.

Chegou até a afirmar que as suas próprias obras podiam ganhar ao ser traduzidas para outras línguas, porque o castelhano era, às vezes, uma língua pobre. E dava o exemplo de pesadilla, que não passa de “um pequeno peso”, ao passo que palavras como cauchemar ou nightmare são muito mais expressivas, mais cheias de significados. Desculpar-me-ão eu não vos dizer onde é que Borges afirma isto, mas não consigo encontrar esse texto em lado nenhum. Lembro-me bem de o ter lido e lembro-me até de que era em francês, porque me lembro de que Borges explicava a ideia da palavra pesadilla como “une petite lourdeur”, mas claro, sem encontrar o texto, como podemos, eu e vocês, ter a certeza de que eu não sonhei isto? Uma coisa é certa, porém: Se sonhei, não foi um sonho irrealista por aí além, porque Borges diz (e isto, sei onde: no seu ensaio “La pesadilla”, incluído em Siete Noches) que “o nome espanhol [do pesadelo] não é muito afortunado: o diminutivo parece tirar-lhe força. Noutras línguas, os nomes são mais fortes.”

[É claro, tudo depende da palavra a que se dê importância: mancuernillas, por exemplo, a maravilhosa palavra centro-americana para botões de punho, mesmo com o diminutivo na cauda é centenas de vezes mais expressiva do que boutons de manchette ou cufflinks, que não são, precisamente, mais do que cuff links…]

Já Lawrence Norfolk desconfia dramaticamente da tradução: “Os leitores acreditam na tradução. Para os escritores, no entanto, o processo é mais complicado”, escreve ele em “Being translated, or the Virgin Mary's hair”. E continua o autor de Lemprière's dictionary: “Eis, à laia de ilustração, uma lista de livros que eu não escrevi: Lemprière's Wörterbuch, Le Dictionnaire de Lemprière, Slownik Lemprièra'a, Lempriere's Ordabók, Lemprières Lexicon, El Diccionario de Lemprière, A Lemprière-lexicon, Het Woordenboek van Lemprière, Kabbalin Kulta (porque Lemprière é impronunciável em finlandês), Dictionarului Lemprière, Lemprière's Ordbog e diversas outras variações em línguas (hebreu, cantonês, coreano, russo, japonês) cujos alfabetos são, pelo menos para mim, ilegíveis.”

A mim, parece-me mais produtivo afirmar muito simplesmente que traduzir nem sempre é fácil e que há obras muito mais difíceis de traduzir do que outras. No geral, concordo muito mais com Borges do que com Norfolk, mas às vezes tenho de dar o braço a torcer ao pessimismo deste último. Há que aceitar que, na literatura ou fora dela, se há muitos textos que se traduzem sem grandes problemas, também há, paciência!, coisas literalmente intraduzíveis.

Do que pensava Bolaño da tradução literária em geral e, mais especificamente, da tradução da suas próprias obras, não faço ideia. Mas eis o que pensa a sua tradutora e o que pensei eu quando li 2666: Diz Natasha Wimmer que “tanto Los detectives salvajes como 2666 colocam óbvios desafios ao tradutor. Los detectives salvajes é o romance mais coloquial de Bolaño, narrado nas vozes de mais de cinquenta personagens e cheio de calão, real e inventado, seleccionado em vários países.” Pode bem ser que 2666 tenha menos coloquialismos e mais vocabulário especializado do que Los detectives…, mas tem, ainda assim, essa mesma característica interessante (tanto nos coloquialismos como nas formas não coloquiais), que o torna, nalguma medida, intraduzível, que é estar escrito naquilo em que se poderia chamar pancastelhano, o tal espanhol “seleccionado em diversos países”: há espanhol europeu e centro-americano, sobretudo, mas também bocadinhos de espanhol sul-americano. Como faz quem traduza, por exemplo, para português? Mistura na tradução português europeu e português americano, conforme traduza expressões de espanhol europeu ou de espanhol americano? É uma possibilidade, provavelmente menos emprobrecedora do que outra qualquer…, mas haverá tradutor disposto a fazê-lo – e capaz de o fazer de forma competente, convincente?

O melhor, acho eu, é ler 2666 em castelhano. Aliás, ler em castelhano os livros originalmente escritos nessa língua é o que deviam fazer todos os falantes do português. Ou talvez não, não sei… Mas é uma aventura que eu recomendo – mesmo a quem não conheça esse idioma!...