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04/10/21

Elogio da boa vida em forma de fado

 

Ele era um bom rapaz, trabalhador, 
Um operário leal cumprindo o bem. 
Vint'anos de ilusões brotando em flor 
E uma terna afeição por sua mãe. 
Mas um dia fatal, os companheiros 
Levaram-no à taberna onde parava 
A malta dos vadios e desordeiros, 
Dos quais um à guitarra assim cantava: 

Um fadinho a soluçar 
Faz de nós afugentar 
A ideia da própria morte; 
Mata a dor, mata a tristeza, 
Jacques Alfred Van Muyden (1918–1998): Três músicos romanos numa taberna, s. d.
O fado é bendita reza 
Dos desgraçados sem sorte, 
Tem tal dor e mágoa tanta,
Quando canta uma garganta
De quem vive amargurado,
Que o refúgio preferido
P’ra quem viver dolorido
Está na doçura do fado 

Esta triste canção foi mau agoiro 
Que a vida lhe viesse transtornar 
Tomou gosto à taberna, o matadoiro, 
E em breve deixou de trabalhar (…) 

Parecerá normal a equivalência que se estabelece neste «Fado maldito[1]» entre ser «um bom rapaz» e «cumprir o bem» e ser «trabalhador» e «um operário leal». O louvor — quando não o culto — do trabalho é transversal a quase todas as camadas e grupos sociais, e, pelo menos no mundo em que cresci, só nos estratos sociais mais baixas é que o louvor do trabalho convivia com a apologia da recusa de se deixar aprisionar no mercado laboral e tentar sobreviver doutra maneira, o mais das vezes dedicando-se a alguma atividade ilegal. 
A questão dá pano para mangas. Mas, se não se pode —pelo menos na praça pública — aceitar o elogio do não fazer nada como modo de vida, que vergonha!, pode-se certamente aceitá-lo como tema humorístico — até porque o humor resulta, em geral, de uma perturbação na normalidade das coisas, não é verdade? E então, se há fados como o que cito acima, que fazem corresponder à perdição a vida de boémia e o não querer trabalhar, também há outros em que desfilam simpáticos mandriões que suscitam no ouvinte mais simpatia que reprovação. 
Preguiça é a palavra que costuma definir este topos humorístico. Evidentemente, nestes fados, não há nunca uma tomada de posição política[2]: a recusa do trabalho é sempre apresentada como um (simpático) defeito de carácter. Um traço de personalidade, enfim. Pelo que nos canta Joaquim Cordeiro, em «Trabalho, vai-te embora[3]», a preguiça é até hereditária. Mas o mais curioso neste fado é que sugere que a profissão ideal para quem não quer fazer nada é a de ator — uma profissão, ainda assim, demasiado trabalhosa para um mandrião que se preze, como a personagem da canção.
Vejo pás e picaretas
Nos buracos da Avenida; 
E vejo a Rua das Pretas
Cada vez mais encardida;
Vejo a malta a protestar,
Porque o Benfica perdeu; 
Vejo tudo a trabalhar, 
Quem não trabalha sou eu

Trabalho, vai-te embora, 
Ai de mim, estou tão cansado. 
Isto de ser calão já é meu fado 
Ficou escrito no vento este dilema: 
Nem que me levem para o cinema 
 P’ra ser galã dos mais catitas, 
Ser um bijou bonito e fazer fitas... 
Ai de mim que não consigo fazer coisas tão esquisitas! 

Oiço gritos, correrias, 
Quando aparece um emprego.
Acordo todos os dias
E ainda não fui ao prego.
Já dizia a minha mãe: 
«Filho, não te dê cuidado, 
Que o teu paizinho também
Tinha nascido cansado». 
Outro fado de Joaquim Cordeiro sobre este tema da preguiça é «Bendito seja o descanso[4]». Trata-se aqui de uma anedota em verso, com um desfecho bem achado. Acho curioso que o Chico Malhado ponha a questão do trabalho em termos de gosto. Quase se pode descortinar nos dois patuscos mandriões uma postura aristocrática.
De corpinho estiraçado,
À sombra de uma figueira, 
Estava o Chico Malhado 
Mais o Baltazar Pintado 
Dois campeões da lazeira, 
O Malhado a bocejar, 
Passando as mãos pelo rosto.
Perguntou. «Ó Baltazar,
Quem gosta de trabalhar,
Não achas que tem mau gosto?»
«Camarada mandrião», 
Diz-lhe o outro com ripanço,
«Tens muita e muita razão,
Sou da tua opinião,
Bendito seja o descanso!!... 
Trago um projecto na mente 
Carrega-se unicamente 
Num botão e, de repente, 
Aparece tudo feito.»  
Diz o Malhado: «Isso, amigo,
É uma grande invenção,
Mas escuta o que te digo:
Não deves contar comigo
P'ra carregar no botão!»
Um outro fado que é também uma anedota versificada sobre o mesmo tema é «Os Preguiçosos[5]». Na minha opinião, o fado é notável pela frase «com dotes colossais p’ra descansar», um verdadeiro achado retórico, mas o desfecho da história assenta num jogo de palavras simples e conhecido.
Stock image. Autor, título e data desconhecidos.

O Chico Barnabé e o Zé Ramalho, 
Com dotes colossais p’ra descansar, 
Se um não gostava nada do trabalho, 
O outro tinha raiva em trabalhar.
E assim andavam neste rodopio, 
Dois amigos leais da boa vida
E, p’ra não aturarem senhorio, 
Pernoitavam nos bancos na Avenida.
Mas certa noite em que pernoitavam,
Um polícia de giro ali passou.
Por fim, enquanto os dois se espreguiçavam, 
O guarda ao Barnabé assim falou: 
«Diga-me qual a sua profissão 
E responda-me já, sem fantasia!» 
«Pois saiba que trabalho, pois então, 
Na firma Boavida & Companhia.» 
«E você?», diz o guarda ao Zé Ramalho,
«Diga-me sem mentir, responda já!» 
«Pois bem, fique sabendo que trabalho 
E estou na mesma casa onde este está!» 
A expressão boa vida é a chave deste meu breve devaneio. Geralmente, a anteposição do adjetivo ao nome fá-lo perder a sua função qualificativa: um grande homem não é um homem que é grande e por aí adiante. Não vou entrar aqui em pormenores — mais por preguiça que por outra razão qualquer. Uma vida boa pode significar uma vida sem problemas de saúde ou de dinheiro, uma vida interessante, folgada, com boas condições… de vida, precisamente, uma vida… boa, enfim; e uma vida má é o contrário disso: doença, miséria, problemas de toda a sorte. Já a boa vida não é o contrário da má vida. Muitas vezes, as expressões são quase sinónimas. A má vida é a vida da personagem decaída do primeiro fado deste texto. Mas essa má vida é, afinal — e pelo menos no que diz respeito a não trabalhar – a boa vida. Talvez não seja esse o caso do protagonista do «Fado maldito», não sei, mas, com alguma sorte, esta (má/boa) vida pode ser até ser uma vida boa.

______________
[1] Raúl Ferrão, sobre versos de Pedro Bandeira e Álvaro Leal. Mais aqui
[2] Quando digo «tomada de posição política », estou a pensar no célebre «direito à preguiça«, defendido por Paul Lafargue, na obra com esse nome de 1880, em que se defende que o natural da espécie humana é a procura do prazer e não o amor ao trabalho, que ele considera «um dogma desastroso» e uma «estranha loucura», quando vindo da classe trabalhadora, e que é, segundo ele, «a causa de toda a degenerescência intelectual e de toda a deformação orgânica». Ora, preguiça é uma palavra curiosa, porque não define, em princípio, a recusa de um trabalho formal, apenas o excesso de inércia e de falta de iniciativa. Na realidade, muitas das atividades dos «malandros« que vivem fora do trabalho formal não se prestam em absoluto para preguiçosos, mas isso é outra história. Note-se, a propósito, que a expressão «mulheres de vida fácil» que antigamente se usava para se designar as trabalhadoras sexuais — e que remete também para a «boa vida» que se discute neste texto — dá-nos conta de que o trabalho sexual estava também incluído no «não (querer) trabalhar». 
[3] Uma versão do célebre “Saudade, vai-te embora”, de Júlio de Sousa. Desconheço o autor da letra da versão humorística.
[4] Com versos de Armando Coutinho Dias e música do «Fado Patolas» (de Alcídia Rodrigues, ao que consigo descobrir).
[5] Com letra de Aureliano Lima da Silva e música do «Fado Margaridas», dos irmãos Casimiro e Miguel Ramos

21/08/11

Cantar anedotas

Um rei de Espanha, ou então de França tinha um calo num pé. Era no pé esquerdo, penso eu. Coxeava que metia dó. Os cortesãos, gente hábil, esforçaram-se por imitá-lo e, uns com o pé esquerdo, outros com o direito, aprenderam todos a coxear. Depressa se tornaram evidentes os benefícios de uma moda assim e, da antecâmara aos gabinetes, toda a gente coxeava.
Um dia, um nobre da província, esquecendo a seu novo dever, passou diante do rei, firme e direito como fuso. Começou toda a gente a rir, menos o rei que, baixinho, murmurou:
“Senhor, que quer isto dizer? Não vos vejo coxear…”
“Equivocais-vos, Majestade… Tenho os pés repletos de calos, vede! Se caminho mais direito do que os outros, é porque coxeio dos dois pés.”
Contado assim, é uma anedota, não há dúvida nenhuma. Podem achar-lhe graça ou não, mas é óbvio que é uma anedota. O que é curioso é que é, de facto, uma canção, originalmente em quadras, com métrica e rima emparelhada perfeita, mas que eu, para lhe deixar claro o caráter prosaico, resolvi traduzir em prosa [1]. A canção é de Gustave Nadaud, que, segundo uma página do site Dialogus, «foi um cantautor prolífico e muito famoso no seu tempo. Além de romances, ópera e poemas diversos, compôs mais de 300 canções, geralmente ligeiras e divertidas, às vezes sentimentais, muitas das quais foram publicadas em três volumes. Foi o primeiro cantautor a ser condecorado com uma ordem nacional, na altura do Segundo Império. Um dos feitos que lhe trouxe maior fama foi ter feito publicar, em 1884, as obras do communard Eugène Pottier, autor d’“A Internacional”».
Agora, a fama de Nadaud não se manteve até aos nossos dias, e eu nunca teria conhecido esta canção se Brassens não tivesse agarrado na letra (por alguma razão, não quis aproveitar a música…) e a tivesse musicado e cantado.
Georges Brassens, “Le roi boiteux”, 1979

Conheço muitas canções que são verdadeiras anedotas, mas esta é das poucas anedotas cantadas que conheço. Há dezenas de formas relativamente codificadas de canção humorística, mas a anedota cantada é muito rara. Percorram mentalmente o repertório dos cantores ou dos compositores de canções humorísticas que conhecem, e vejam lá se não me dão razão[2]. O que não quer dizer que seja esta a única anedota cantada. Conheço mais umas quantas... 

Em relação a esta do rei coxo, não sei se Nadaud musicou uma anedota que ele conhecia ou se inventou ele a anedota. Há casos, no entanto, em que tenho a certeza de que os autores se limitaram a transformar em canção uma anedota já existente, porque eu já conhecia as anedotas antes de as canções existirem. Um destes casos é o da “Chanson dégueulasse”, de Renaud, que de tão dégueulasse e tão sem graça, me recuso aqui a contar.  Outro é daquela anedota já velha que os Sparks musicaram no álbum Lil’ Beethoven e que eu acho que não produz o devido efeito na minha pobre tradução: Um homem pergunta a um transeunte o caminho para o Carnegie Hall: «Desculpe, como é que eu daqui chego ao Carnegie Hall?» «Pratique, senhor, pratique, é preciso ensaiar muito!», responde o outro. Bom, está bem…

Sparks, “How do I get to Carnegie Hall?”, 2002

Melhor que essas todas é uma canção-anedota nacional de que eu tenho pena de não saber a letra completa para a pôr agora aqui. Era cantada, se a memória me não falha, pelo Duo Humorístico Crispim e é a história de dois grandes mandriões que estão a bater uma sorna à sombra de uma árvore. De repente, um deles acorda excitado e desperta o outro:
«Eh, pá, tive um sonho maravilhoso! Sonhei que tinham inventado uma máquina que, com ela, um gajo já não precisava de fazer nada – era só carregar num botão e aparecia tudo feito!»
«Grande máquina, sim senhor, uma coisa assim dava um jeitão!», responde o outro, ensonado. «Mas ouve lá, não estás a contar comigo para carregar no botão, pois não?»

Há temas de canções mais típicos de certos países que doutros. O louvor da preguiça é, sem dúvida, um tema bem português. Pois, a saudade, pode ser… Mas muita preguiça também. No fundo, a preguiça é também um forma de saudade – saudade daquela Idade de Ouro primordial em que um gajo vivia sem ter de vergar a mola… Ou saudades do futuro, como dizia o outro, do tal futuro perfeito em que terá sido inventada[3] a máquina que faz tudo… carregando-se só num botão!
Pois… Ou, como diz outra canção que há, «O que é que querem? / São os ócios do ofício!»
Agora, para não ficarem a pensar que me levo muito a sério a mim mesmo e que acredito que o louvor da preguiça é mesmo uma particularidade da canção portuguesa, posso dizer-vos que Aristide Bruand, um dos mais importantes cantautores franceses[4], escreveu por volta de 1900 um monólogo chamado Lézard, em que faz a apologia de chular a irmã e o cunhado, em nome do direito a não fazer nenhum: «Uma pessoa ganha hábitos aos quinze anos / depois cresce e já não os perde / E eu gosto é de xonar / e não gramo trabalhar / Trabalhar é uma chatice.»
Tirando isso, houve mais gente boa da chanson, como Henry Salvador (uma vez até em colaboração com Boris Vian) ou Georges Moustaki, a fazer, uns mais a sério  do que os outros a brincar, o elogio do sagrado ripanço…
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[1] Assim mesmo: para lhe deixar claro o caráter prosaico, traduzi-a em prosa. Ou pensavam que era sem querer?
[2] Quando falo de anedotas, não falo de uma piada qualquer, nem sequer de uma letra narrativa humorística, mas sim de uma história com um desfecho que cria um efeito cómico – em princípio, visando provocar a gargalhada, mas, vá lá, no mínimo, um sorrisinho...
[3] Notem que a forma verbal “terá sido inventada” é um futuro perfeito passivo, como convém à conversa…
[4] De Aristide Bruant, muitas pessoas conhecem o retrato feito por Henri de Toulouse-Lautrec, mas desconhecem as centenas de canções que compôs… Pois vale a pena conhecê-las!