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23/10/26

Chuva de granito


Por causa de uma conversa sobre granizo e lembrei-me de um poema que escrevi há quase 40 anos, em janeiro de 1987, e que está incluído em Seis poemas de inverno e outros textos em prosa: 

A chuva de pedra

Granizo granito grito
torrencial aliteração
ponte de líquida pedra
de um céu até outro céu

Aguaceiro desconforto
(Vou pôr a alma a secar) 

Não me lembro se, quando fiz o poema, alguma vez tinha já ouvido falar dos famoso poema que Vladimir Maiakóvski dedicou a Serguei Iessenine e que inclui os versos  

Вам
  и памятник еще не слит,—
где он,
  бронзы звон
       или гранита грань?—
,

algo como (a tradução que consigo…)

Tu
  monumento ainda não te ergueram 
—
onde estão
  o ruído do bronze
       ou as arestas de granito? 
—

Herbert Marshall conseguiu preservar, na tradução para inglês, a aliteração em [gr] de гранита грань [granita gran]: 

A monument for you hasn't yet been cast —
where is it, bronze reverberant or granite grand? —

Dorian Rottenberg também o consegue, embora não de forma tão limpa como Marshall:

Although the monument
      that you deserve
        has not been cast —
where is it,
      ringing bronze
        and hard-grained granite? —

Tentei em português «granito grave» e «grave granito», mas não gosto. Não sei porquê, mas não gosto...

Se já conhecia, quando escrevi o meu poema, este granita gran, digamos que há ali um piscar de olho a Maikóvski, para sermos delicados; ou então, que a «torrencial aliteração» é um plagiozinho pueril, para chamarmos as coisas pelo seu nome... Agora, se não conhecia o granita gran de Maiakóvski, tive sorte nesse dia de granizo.