Por causa de uma conversa sobre granizo e lembrei-me de um poema que escrevi há quase 40 anos, em janeiro de 1987, e que está incluído em Seis poemas de inverno e outros textos em prosa:
A chuva de pedra
Granizo granito grito
torrencial aliteração
ponte de líquida pedra
de um céu até outro céu
Aguaceiro desconforto
(Vou pôr a alma a secar)
Não me lembro se, quando fiz o poema, alguma vez tinha já ouvido falar dos famoso poema que Vladimir Maiakóvski dedicou a Serguei Iessenine e que inclui os versos
Вам
и памятник еще не слит,—
где он,
бронзы звон
или гранита грань?—,
algo como (a tradução que consigo…)
Tu
monumento ainda não te ergueram —
onde estão
o ruído do bronze
ou as arestas de granito? —
Herbert Marshall conseguiu preservar, na tradução para inglês, a aliteração em [gr] de гранита грань [granita gran]:
A monument for you hasn't yet been cast —
where is it, bronze reverberant or granite grand? —
Dorian Rottenberg também o consegue, embora não de forma tão limpa como Marshall:
Although the monument
that you deserve
has not been cast —
where is it,
ringing bronze
and hard-grained granite? —
Tentei em português «granito grave» e «grave granito», mas não gosto. Não sei porquê, mas não gosto...
Se já conhecia, quando escrevi o meu poema, este granita gran, digamos que há ali um piscar de olho a Maikóvski, para sermos delicados; ou então, que a «torrencial aliteração» é um plagiozinho pueril, para chamarmos as coisas pelo seu nome... Agora, se não conhecia o granita gran de Maiakóvski, tive sorte nesse dia de granizo.